A greve de Caronte

A greve de Caronte

Márcio Scalercio, Historiador

 

A imprensa, enfim, chega ao inferno

O ambiente sobrenatural de todas as culturas funciona dentro de uma lógica quase euclidiana. Um dos aspectos fortes do sobrenatural helênico é a organização do mundo dos mortos. Por toda a eternidade, Caronte, o barqueiro, trabalha incansavelmente transportando as almas na travessia do rio Estígia até os portões do Inferno. Pelo que se sabe, o barqueiro jamais tirou férias, não tem ajudantes, nunca parou por causa de feriados e nem desfrutou folgas nos fins de semana. Como morre gente todos os dias, a barca de Caronte sempre faz a travessia com lotação total. Nada de burocracia, apresentação de passaporte, nenhum carimbo é necessário. A única formalidade exigida é que as almas tenham uma moeda para remunerar o serviço. Inexiste qualquer informação a respeito do destino que Caronte dá a essas moedas. Não se sabe se tem conta em banco, se aplica num fundo de pensão ou se existe algum cofre próximo ao embarcadouro. Ignora-se ainda se o barqueiro transfere algum percentual para Hades, o deus dos Infernos. Só podemos imaginar que seu pé de meia é formidável.

Qual a surpresa de proporções épicas quando recentemente, em meio a toda essa eternidade, Caronte, sem qualquer aviso prévio ou explicação, suspendeu abruptamente o serviço. A barca foi amarrada no cais, na margem dos portões dos Infernos, o remo foi recolhido e Caronte quedou-se, mudo e taciturno, sentado num banquinho. Dia após dia as almas chegavam à margem oposta na expectativa da travessia e nada. Caronte jazia imóvel e indiferente a tudo e a todos. Logo, multidões de almas se acotovelavam na beirada do Estígia em estado de vívida – na medida do possível em se tratando de mortos – preocupação. Lançavam brados na direção do barqueiro, assobios, tentaram acertar-lhe bolinhas de papel, torpedos de celular e nada. Tirando proveito da quantidade de almas que se acumulava, oportunistas apareceram para estabelecer um comércio. Alugavam cadeiras de praia, vendiam biscoito Globo, latinhas de cerveja, picolé e mate gelado.

A crise era inusitada e chamou a atenção de todas as mídias. Detalhes acerca da vida de Caronte foram averiguados, vasculhados, levantados. Como o barqueiro nunca escrevera sequer uma linha e não possuía perfil em redes sociais, nenhuma pista de sua conduta foi encontrada. O pente fino redundou em nada. As redes de noticias internacionais entraram no circuito. Equipes de todas elas foram enviadas para a margem do rio Estígia. Muitos pedidos de entrevista foram solicitados. As redes americanas ofereceram fortunas ao barqueiro. Caronte, contudo, mantinha-se mudo, impassível. Vez por outra enfiava a mão nas profundezas de seu manto escuro e de lá sacava uma garrafinha que parecia ser feita de cerâmica. Arrancava a rolha com os dentes e sorvia um traguinho. Muito se especulou sobre o conteúdo da garrafinha. Cientistas, especialistas em religiões, folclore e em história helênica foram convocados para os estúdios dos telejornais. Já que as TVs nada arrancavam do barqueiro, o jeito era encher linguiça com intelectuais e palpiteiros de plantão. Alguns diziam que a garrafinha devia estar abastecida com o néctar dos deuses. Outros imaginavam que se tratava de alguma beberagem infernal.

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Mas sobre as razões da atitude do barqueiro, os doutos palpiteiros sequer conseguiram arranhar os motivos. Houve ainda grande disputa e arenga religiosa. Os credos monoteístas passavam por indizível desconforto. O episódio de Caronte reintroduzia o politeísmo na cena religiosa. Aquilo que havia sido rebaixado à condição de mitologia parecia prestes a recuperar seu caráter de religião. Um conclave monoteísta foi sugerido para reunir príncipes da igreja romana, rabinos, muftis islâmicos, líderes protestantes e chefes de cultos evangélicos. Um autêntico esforço ecumênico. Mas a reunião acabou não acontecendo. A igreja católica fazia questão que tudo ocorresse nas dependências do Vaticano. Alegava que o espaço era condizente, a culinária italiana era superior e que o papa Francisco estava em alta nas pesquisas no mundo inteiro. Os argumentos não colaram. Os patriarcas ortodoxos grego e russo se opuseram afirmando que não estavam nem aí para as pesquisas de popularidade, veja bem, do “bispo de Roma”, segundo eles, nada mais do que isso, papa coisa nenhuma. Os rabinos atacaram afirmando que o encontro não podia ser em outro lugar a não ser Jerusalém, a cidade Santa para todos e capital de Israel. Aí foi a vez dos muçulmanos protestarem. Capital de Israel uma pinoia, disseram eles recitando os versículos do Alcorão que se referem ao conceito de pinoia. Preferiam que a reunião se instalasse em Meca, que fora da estação da peregrinação tinha espaço de sobra. Todos os cristãos fizeram cara de nojo, e os rabinos sequer se deram ao trabalho de responder o e-mail. Entre os evangélicos, o bispo Edir Macedo – também conhecido como “Macedinho” – se empolgou. Ofereceu sua réplica do templo de Salomão, bem ao estilo de filme épico do Cecil B. De Mille, para sediar o conclave. Incluiu na oferta um cardápio com comidinhas, bebidas e apresentações de bandas e cantores Gospell de sua gravadora. Diante da última possibilidade, vários líderes religiosos sentiram ânsias de vômito e engulhos estomacais.

Correu o boato que alguns tentaram implantar o “padrão FIFA” na escolha do lugar do encontro, isto é, na surdina, à socapa, foram oferecidas generosas doações às obras das igrejas, que os ateus, sempre atentos e abundantes na imprensa, não tardaram a denunciar como propinas. Como não foi possível um acordo quanto ao lugar da reunião, cada grupo religioso agiu como achou melhor. Os católicos resolveram organizar um Concílio. Afirmaram que, devido à urgência do caso e com o andar acelerado da carruagem, a posição da Igreja sobre o tema estaria tomada num espaço de tempo recorde de aproximadamente 200 anos. Já várias das denominações evangélicas definiram que tudo aquilo era obra do demônio, do tinhoso, do pai da mentira, enfim, do velho Lúcifer. No Brasil, parte da bancada parlamentar evangélica decidiu sugerir ao Congresso Nacional um projeto de lei impondo uma férrea censura sobre todo o assunto. Nenhuma rede de TV, rádio, jornal, nenhuma mídia, redes sociais ou blogueiros poderiam veicular nada sobre a greve de Caronte. Tudo em nome da liberdade de expressão. Afinal os evangélicos têm o direito e a liberdade de querer impedir aos outros qualquer comportamento que entendem como impróprio. Negar isso, de acordo com eles, é negar o sagrado direito de liberdade aos evangélicos. E tudo, naturalmente isento de impostos. Os monoteístas conseguiram apenas uma unanimidade: a de considerar que todo aquele episódio era uma ofensa a Deus. Os ateus, por seu lado, indagaram de pronto: qual Deles?

Na primeiríssima hora, os ateus andaram divertindo-se muito com todo o episódio. Seu milenar embate contra os monoteístas fazia com que sentissem uma maldosa alegria em face às angústias de seus velhos adversários. Porém, alguns ateus mais lúcidos foram assaltados pela seguinte reflexão: caso o evento de Caronte descortinasse o politeísmo como um fato universal, o erro de avaliação dos ateus assumiria proporções olímpicas. Melhor mesmo era colocar as barbas de molho e esperar o desenrolar dos acontecimentos.

Mas, nas trincheiras da imprensa internacional, quem conseguiu marcar um ponto decisivo no caminho para o desvendar daquele novelo sobrenatural foi a jornalista Consuelo Ferreira Papacostas. Invasiva, investigativa e perseverante ao exaspero, a periodista espanhola de descendência greco-portuguesa conseguiu, não se sabe como, descobrir que Hades tinha um endereço de e-mail. Reunindo alguma coragem, já que não era todo dia que alguém escrevia para o deus dos infernos, Consuelo enviou para Hades uma mensagem solicitando esclarecimentos sobre a crise provocada pela greve de Caronte. Para imensa surpresa de Consuelo, uma resposta chegou a sua caixa de mensagens pouquíssimos instantes após o envio. Ao abrir, o texto dizia o seguinte.

 

De: Hades@infernos.com

Para: ConsueloFerpapa@ain.com

Após muita amolação por parte de meu mano mais velho Zeus, que gerencia o universo como um todo, que me intimou a apresentar uma manifestação pública sobre o assunto “Greve de Caronte” – caso contrário, raios iriam partir-me –, declaro o seguinte:

  1. a) Caronte, o barqueiro, jamais fez parte dos quadros funcionais dos infernos, nem de nenhuma das associações, empresas e autarquias vinculadas às atividades por mim controladas e administradas por toda a eternidade.
  2. b) Sendo assim, as atividades do barqueiro supracitado são de sua exclusiva responsabilidade.

Nada tendo mais a declarar e mantendo-me aberto a outros esclarecimentos necessários:

Hades, deus dos infernos.

PS: a jornalista Papacostas está autorizada a tornar público o conteúdo desta mensagem.

 

A partir daí iniciou-se uma rotina de troca de e-mails entre Consuelo e Hades. Com o prolongamento da crise, Consuelo derivou de sua posição de jornalista exclusivamente comprometida com a divulgação de notícias, para um papel de responsabilidade no processo de resolução do problema. Hades, por seu lado, viu-se tomado do mesmo desejo, até porque era pressionado por um Zeus, a cada dia mais furibundo, que resmungava sem cessar sobre o caos que estava tomando conta do universo e que seu irmão não se empenhava em solucionar o caso. Zeus jamais cogitara invadir as autonomias das áreas administradas pelos seus parentes, notadamente, os mares e as águas de um modo geral, a cargo de Poseidon, e os infernos, da responsabilidade de Hades. Mas diante da crise, passou a desconfiar que Hades ou tratava-se de um molenga ou sofria de miolo mole.

Pressionado pela impaciência crescente de Zeus e preocupado com sua reputação perante a família, Hades, após dar alguns tratos à bola, enviou um e-mail para Consuelo em que revelou que se lembrava de alguém que poderia saber o que passava com Caronte. Logo, Consuelo avistou em seu computador um pedido de videochat. Ao aceitar, divisou a figura de uma sombra infernal na tela, que distraidamente colocava a mão num saco de papel e arremessava para trás três pedaços de alguma coisa de cada vez, que, à primeira vista, parecia ser… bem, biscoito para cachorro.

– Olá, Consuelo – disse a sombra – Enquanto conversamos, aproveito para dar uns snacks para o Cérbero – e, dizendo isso, arremessou mais biscoitos, que o terrível Mastim de três cabeças, cujas respectivas bocarras exibindo dentes pontiagudos os abocanharam no ar sem perder nenhum.

– Bem – continuou a sombra – Vamos direto ao ponto. Creio que existe uma pessoa que seja capaz de saber as razões do comportamento de Caronte.

– Hum – gaguejou Consuelo – Me perdoe, mas presumo que estou falando com o deus Hades?

– Ora – respondeu o deus que achava não ter tempo para tolices – Por um acaso você conhece mais alguém que tem um Mastim de três cabeças como mascote?

– É que só consigo ver uma sombra, desculpe…

– Sem problemas. Os deuses nunca revelam sua verdadeira face para os mortais. Caso você visse como realmente sou, seria acometida de tal deslumbramento que teria um colapso fatal. Sempre aparecemos assumindo uma forma alegórica, mas tenho pressa e não tive tempo de pensar em nada, me arrumar, sabe como é…

– Ah, então alguém já sofreu o tal colapso ao vislumbrar um deus antes?

– Não sei dizer.

– Então como sabe? – indagou Consuelo.

– Os deuses tudo sabem.

Diante de tal resposta, Consuelo calou-se momentaneamente, fazendo um esforço sobre-humano para não apontar a clamorosa contradição entre “não sei dizer” e, logo depois, “os deuses tudo sabem.”

Hades, após um triplo rosnado de Cérbero exigindo mais biscoitos, continuou – O porqueiro Eumeu certamente tem ciência das razões do comportamento de Caronte.

– Quem?

Em face ao “quem?” de Consuelo, Hades soltou um rugido contrafeito que causou um tsunami nas cercanias de Tuvalu. Ainda assim, dignou-se a dizer:

– Vejo que a ignorância abissal da classe dos jornalistas continua em voga. O porqueiro Eumeu é natural da ilha de Ítaca. Por toda a vida serviu à casa de Odisseu, também conhecido como Ulisses, o filho de Laertes, rei de Ítaca. É um sujeito gabola, cheio de manha e contador de casos. Ganhou até um poema épico e versões cinematográficas sobre suas histórias. A que me lembro melhor foi estrelada pelo Kirk Douglas. Aliás, a semelhança física é impressionante. Houve quem observasse que Douglas era um Ulisses melhor do que o real. Algo parecido ao que se comentou quando Morgan Freeman interpretou Nelson Mandela, que o Freeman dava um Mandela melhor do que o Nelson, sei lá… A Silvana Mangano interpretou os papéis de Penélope e Circe no mesmo filme. A Mangano, aliás, era um pitéu.

– Oh, bem, não sei de nada disso, senhor deus dos infernos… acho que não sou desse tempo – comentou Consuelo com a delicadeza de um rinoceronte. Mas Hades apenas respondeu:

– Ah, como sou eterno, lembro-me de tudo como se fosse ontem. O caso é que o Eumeu é a única alma penada aqui nos infernos com quem Caronte mantém relações amistosas. Você deve falar com ele. Eumeu celebrizou-se por sua fidelidade a Ulisses. Ao longo dos vinte anos que o rei de Ítaca esteve ausente participando do sítio contra Troia e demais estrepolias e assanhamentos com Circe e Calipso, mar Mediterrâneo afora, Eumeu manteve-se leal à casa de seu amo. Tornou-se um personagem símbolo da honestidade e da retidão. Foi um dos poucos serviçais que não se degradou tornando-se puxa-saco dos pretendentes à mão de Penélope, os quais, acreditando na morte do rei, mudaram-se para sua grande casa e fartaram-se abusadamente em consumir seus bens. Ulisses como se sabe, deu cabo de todos eles. Deves falar com o Eumeu.

O problema foi combinar como se daria a conversa. Quando Consuelo indagou se poderia ir ao inferno, ou mesmo se Eumeu teria como se deslocar para os estúdios de TV, Hades respondeu que tais possibilidades estavam fora de questão por duas razões. Em primeiro lugar porque Caronte não estava transportando ninguém. Em segundo, por causa das normas dos infernos. Nenhuma alma penada jamais podia sair de lá e nenhum vivo podia entrar. Nesse caso, segundo o deus dos abismos infernais, a coisa funcionava como no samba da briga na gafieira, interpretado pelo Moreira da Silva: quem está fora não entra e quem está dentro não sai. O impasse foi resolvido ao combinarem um chat entre Consuelo e Eumeu por meio do Skype.

No dia acordado, o Skype foi acionado, e Consuelo viu-se diante de Eumeu. Com a tez cinzenta, típica das almas penadas, o porqueiro passava um ar simultâneo de dignidade e modéstia resoluta. Mas cultivava o hábito de só se expressar por meio de frases curtas, um laconismo verdadeiramente espartano, não fosse ele natural de Ítaca. Consuelo teve de se desdobrar para fazer a entrevista render.

– Senhor Eumeu, por favor, saberia dizer a razão da atitude do barqueiro Caronte?

– Sim – respondeu o porqueiro.

– Poderia nos explicar?

– Sim.

– Hum, então?

– Caronte está aborrecido.

– Com o quê?

– A crise grega.

– Podia explicar melhor?

Eumeu soltou um suspiro e disse:

– Caronte não quer mais aceitar Euros como pagamento pela travessia. Está pensando em receber apenas Óbulos de novo.

– Espere um pouco – disse Consuelo sobressaltada – Óbulos não estão em circulação faz tempo.

– Isso não é problema dele – atalhou Eumeu.

– Caronte se opõe à moeda única ou é contra a política de austeridade? – indagou Consuelo, intrigada com o fato do barqueiro estar tão antenado em economia e política internacional.

– O Caronte sempre cultivou o politicamente correto. Preserva princípios e despreza detalhes.

– Como assim? Pode ser mais claro?

Se esforçando para elaborar uma frase comprida, Eumeu respondeu:

– Caronte não está gostando do modo pelo qual os povos do Norte estão se referindo aos povos do Mediterrâneo e do Sul em geral. Encara como se fosse a distinção preconceituosa entre bárbaros e civilizados de antigamente. Isso sempre o deixou furioso. Acredita ser o retorno de uma velha e odiosa história, aliás, introduzida pelos helenos antigos. Tempos atrás ele até deixou a alma de Aristóteles esperando na beira do rio por três séculos inteiros, irritado com o fato do filósofo ter usado seu prestígio para propalar tal estultice.

– Então estamos diante de uma crise que pode durar muito tempo – argumentou Consuelo preocupada.

– Não creio – respondeu Eumeu com o sossego de um porqueiro – Decerto ele vai inventar uma solução intermediária. Mas agora chega. Fui – Imediatamente a imagem do porqueiro sumiu.

No dia seguinte, sem sequer dignar-se a um pestanejo, Caronte levantou-se do banco, pegou o remo e começou a fazer a travessia. Nada disse, nada explicou. Apenas decidiu retomar seu trabalho. Aceitou todas as moedas como pagamento, incluindo Euros. A única diferença era um aviso postado num cartaz a bordo da barca que dizia em letras garrafais:

NÃO ACEITO ALEMÃES A BORDO. SE QUISEREM ATRAVESSAR, QUE NADEM OU, SEI LÁ, QUE PROCUREM AS VALQUÍRIAS.

 

O autor é professor do Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio

scalercio@link.com.br

 

 

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