A GUINADA DA Igreja Católica À DIREITA

A GUINADA DA Igreja Católica À DIREITA

Luiz Alberto Gómez de Souza, CIENTISTA SOCIAL

 

Quantas Igrejas existem dentro da Igreja? Tantas quanto forem necessárias, é o que diz a História. Desde sua origem, a Igreja Católica tem se notabilizado por uma fabulosa capacidade de se moldar à realidade, qualquer que seja ela, em nome da perpetuação de seu poderio religioso e político. Entre sístoles e diástoles, o Trono de Pedro sempre acompanhou a pulsação das circunstâncias.

Qualquer reflexão sobre o tema, portanto, deve partir da premissa de que as Igrejas estão imersas na realidade social que vai condicioná-las historicamente. Elas não estão acima ou fora da sociedade, mas dentro dela, como qualquer instituição. Antonio Gramsci referia-se à Igreja Católica na Itália como “uma sociedade civil dentro da sociedade civil”. Émile Poulat indicou que as Igrejas eram plurais e com divisões internas, às vezes profundas. Ele dizia que o pluralismo na Igreja Católica era um conflito no consenso, ou um consenso no conflito. A ordem dos fatores não altera o produto.

As instituições sociais, e nelas as Igrejas, têm uma certa autonomia e um poder de reação. Do contrário, cairíamos numa visão de uma consciência reflexo-passiva. E mais ainda, como veremos neste artigo, as Igrejas podem ter um papel protagonista e não simplesmente reativo em seu contexto histórico. Elas não estão passivas numa determinada situação, mas chegam a ser atores responsáveis por mudanças na própria sociedade. Assim, por exemplo, no momento das invasões bárbaras dos primeiros séculos, as Igrejas ajudaram a plasmar uma nova sociedade e o mundo feudal mais adiante. Há, pois, uma relação de determinação, mas também de autonomia e de reação interveniente.

As Igrejas latino-americanas, no caso especial da Igreja Católica, no período que vai da reunião dos bispos em Medellín (1968) à de Puebla (1979), tiveram uma incidência profunda na sociedade. Se, no tempo anterior, de Pio X a Pio XII, elas estavam na defensiva, nesta nova situação histórica passarão a ter uma influência marcante na sociedade. E isso se dá em momentos políticos difíceis, com golpes militares no Brasil, Chile, Argentina e Uruguai. Talvez isso ocorra até em reação com esse enrijecimento da sociedade, quando passaram a ser “a voz dos sem voz” em momentos difíceis.

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E isso encaminha a outra observação introdutória. As Igrejas não são homogêneas, não apenas por refletir situações sociais de conflitos, mas também por orientações diferentes, no que se refere às doutrinas e às práticas pastorais. Para estudar a posição das Igrejas no Brasil durante o tempo das ditaduras, há que começar mais atrás, para entender posições que vêm de itinerários passados. Por isso, iniciamos com uma reflexão anterior ao golpe de 1964.

 

A Igreja antes de 1964

A Igreja Católica chegou dividida ao golpe de 1964. De um lado, os movimentos da Ação Católica Especializada, comprometidos com o testemunho evangélico na transformação da sociedade. Cristãos estiveram presentes na cultura popular, como no Movimento de Educação de Base (MEB), no Movimento Popular de Cultura (MPC), do Recife, na Campanha de Educação Popular (CEPLAR) da Paraíba, entre outros. Do outro lado, vieram as Marchas da Família, com Deus, pela Liberdade. Em São Paulo, no dia 19 de março de 1964, quinhentas mil pessoas desfilaram preparando o golpe, entre as quais um bom número de cristãos e cristãs (as marchadeiras).

Voltando um pouco mais no tempo, na época do Brasil Império, havia, de fato, uma subordinação da Igreja Católica ao poder político. Com a República, se deu a separação entre Igreja e Estado. Num primeiro momento, setores da Igreja Católica reagiram negativamente. Visto hoje, foi um momento de libertação. Mas, no período que se seguiu, da República Velha (1889-1930), a presença da Igreja Católica foi irrelevante. Havia católicos leigos, como Joaquim Nabuco ou Carlos de Laet, mas estes não tinham uma incidência social enquanto católicos.

Padre Julio Maria, um cristão leigo que se fez sacerdote, escreveu em artigo datado de 1889, ano da proclamação da República. “Como no mundo inteiro, hoje no Brasil não há, não poder haver senão duas forças: a Igreja e o povo… a questão social… é a questão por excelência. Porque ele afeta os interesses fundamentais do homem e da sociedade… [há que] mostrar aos pequenos, aos pobres, aos proletários, que eles foram os primeiros chamados pelo Divino Mestre, cuja Igreja foi logo, desde o início, a Igreja do povo… enfim – ‘unir a Igreja ao povo’.” Posição isolada, mas vista hoje, antecipatória e profética. No momento passou quase despercebida.

A Igreja seguiu ligada ao “ancien regime” monárquico. Em 1891, o Papa Leão XIII falaria, em célebre encíclica, de “coisas novas” (Rerum Novarum). Novas para a Igreja Católica, antigas para os movimentos sociais revolucionários. Aliás, no mesmo ano, o Papa, em carta aos cardeais franceses, os obrigava a aceitar, na França, a república (o chamado “ralliement”). Eram defasagens históricas no âmbito mundial e, em consequência, também entre nós. Entretanto, o processo da presença católica começou a mudar antes. Mil novecentos e vinte e dois é uma data importante. Nesse ano, realizou-se em São Paulo a Semana de Arte Moderna – transformação no mundo da cultura; surgiu o Partido Comunista do Brasil, e, no meio católico, Jackson Figueiredo criou o Centro Dom Vital e a revista

A Ordem.

Em 1932 surge outra vertente: o integralismo, liderado por Plínio Salgado, sob influência do pensamento da direita europeia, de Mussolini a, principalmente, Oliveira Salazar, em Portugal. Plínio Salgado se apresenta como um pensador católico, na luta contra o comunismo e o que ele chama o americanismo, o pensamento e a política liberais. Uma parte significativa do episcopado apoiou Plínio Salgado. No Ceará, um dos líderes do movimento foi o jovem sacerdote Hélder Câmara. O integralismo, com suas camisas pretas, o sigma como sinal, e o grito “Anauê” reuniu fortes legiões católicas. É interessante notar o silêncio de D. Leme. Amoroso Lima, que nunca aderiu ao integralismo, chegou a indicá-lo aos cristãos que queriam participar de atividades políticas. Anos mais tarde se arrependeria, e o divisor de águas seria a Guerra Civil Espanhola (1936-1939), quando intelectuais católicos como Jacques Maritain, George Bernanos e François Mauriac se posicionam criticando a “cruzada” Francisco Franco. Amoroso Lima se aproximou do pensamento de Jacques Maritain e tomou distância do integralismo. Temos então, nesses anos, as posições do Centro Dom Vital, o grupo integrista da futura Tradição, Família e Propriedade (TFP) e os integralistas. De certa maneira, todos em posições à direita, o primeiro já com abertura a uma posição de centro.

O novo período vai ter D. Hélder Câmara como figura central. Ele veio em 1937 ao Rio de Janeiro e se afastou do integralismo. Em 1947, foi nomeado assistente geral da Ação Católica. Teve uma presença decisiva na Igreja Católica no plano nacional, até sua partida para Recife em 1964, no começo do golpe militar. Nos anos do nacionalismo do último período Vargas (1950-1954) e do desenvolvimento no governo Kubitschek (1955-1959), D. Hélder notabilizou-se também por sua enorme influência.

Aqui há de se introduzir a importância da Ação Católica, que passou, em meio a muitas resistências, do modelo italiano de Pio XI ao modelo da chamada Ação Católica especializada, por meios de vida, marcada pela metodologia da Juventude Operária Católica (JOC), com a “formação na ação” e o método “ver, julgar e agir”, presentes na vida da Igreja Católica dos anos seguintes.

A evolução de um desses movimentos será decisiva: a Juventude Universitária Católica (JUC). Em 1954, por influência do dominicano L. J. Lebret, passou a tratar da “questão social”. E foi se abrindo aos problemas brasileiros. A partir de 1958, será fundamental a presença da JUC mineira, com a liderança de Herbert José de Souza, Betinho, no debate sobre os problemas brasileiros.

 

Muitas das experiências seguintes de cultura e de educação popular tiveram à frente antigos dirigentes dos movimentos da Ação Católica especializada. Ali estavam as raízes na metodologia do ver-julgar-agir. Surgiu uma espiritualidade do engajamento, neologismo que exprimia, na linha dos existencialismos, o compromisso militante. Pode-se falar de uma nova cultura e de uma sensibilidade presentes em várias gerações de jovens, em boa parte cristãos, católicos e evangélicos, ou próximos do cristianismo. Havia, implícita ou explicitamente, uma opção por um socialismo democrático.

Uma das organizações será o Movimento de Educação de Base (MEB), que nasceu em 1960, de um convênio da CNBB com o Ministério da Educação para a transmissão de programas radiofônicos de educação de adultos. O MEB produziu, em 1963, uma cartilha, “Viver é lutar”, na qual as palavras introdutórias ao processo de alfabetização tinham forte conotação de compromisso sociopolítico. No Rio, a polícia do governador Carlos Lacerda apreendeu a cartilha, considerando-a subversiva, tendo que liberá-la por pressão dos bispos. Já iam se alinhando as posições opostas presentes no golpe.

A grande divisão se deu em torno ao polêmico tema da reforma agrária. A estrutura agrícola permanecera intocada, desde 1850, com a Lei de Terras, que fortalecera o latifúndio. Mas, já em 1950, o bispo de Campanha, D. Inocêncio Engelke declarara: “Com nós, sem nós ou contra nós se realizará a reforma rural”. No outro lado do espectro ideológico, dez anos depois, viria posição contrária, em livro dos bispos Geraldo Sigaud e Castro Mayer e do professor Plínio Corrêa de Oliveira, “Reforma agrária – questão de consciência”, crítica contundente contra qualquer tentativa de mudança na estrutura rural.

Em 1962, a CNBB elaborou um Plano de Emergência, onde se indicavam mudanças estruturais, mas num compromisso entre diferentes tendências do episcopado. Ali se dizia: “Somos solícitos no combate ao comunismo, mas nem sempre assumimos a mesma atitude diante do capitalismo liberal”. Em julho desse ano, os bispos declaram, lado a lado: “às autoridades incumbe deter a agitação vermelha”, para indicar a seguir: “ninguém desconhece o clamor das massas que, martirizadas pelo espectro da fome, vão chegando aqui e ali às raias do desespero”. Assinaram documentos daqueles anos o Cardeal do Rio;

  1. Augusto da Silva, de Salvador; e D. Vicente Scherer, de Porto Alegre, conhecidos por posições conservadoras, ao lado do Cardeal Vasconcelos Motta, de São Paulo e de
  2. Fernando Gomes, de Goiânia, sensíveis ao social.

A Comissão Central da CNBB redigiu uma mensagem, dia 30 de abril de 1963, um ano antes do golpe, bastante contundente. Começava dizendo: “Nossa ordem é, ainda, viciada pela pesada carga de uma tradição capitalista, que dominou o Ocidente por séculos passados. É uma ordem de coisas na qual o poder econômico, o dinheiro, ainda detém a última instância das decisões econômicas, políticas e sociais”. Denunciava as tentativas “das soluções marxistas, não menos desumanizantes”, mas indicava que “ninguém pode supor que tal ordem de coisas seja uma ordem cristã”. E retomava várias sugestões das “reformas de base” do governo: agrária, da empresa, da administração, da previdência, das eleições e da educação. Os bispos reconheciam que não competia a eles “definir que fórmulas poderão melhor responder às condições atuais da realidade brasileira”, mas afirmavam que, “a desapropriação por interesse social, não contraria em nada a Doutrina Social da Igreja, mas é uma das formas viáveis de realizar… a função social da propriedade rural”.

Nesse mesmo momento, os bispos tocaram também num ponto extremamente sensível, que desencadeou a reação violenta dos setores conservadores por meio da imprensa: “Não cremos constituir um atentado contra o direito de propriedade uma indenização total ou parcial, em dinheiro ou em títulos da dívida pública”. Esse era um detalhe polêmico, e o documento tomou posição diferente; inclusive, de amplos setores do mundo católico e de parte do episcopado. Talvez esse tenha sido um documento que rompeu aquela atitude de compromisso entre diferentes tendências e já refletia o crescente clima de radicalização na sociedade, que repercutia na própria Igreja. Os próximos meses aceleraram o conflito e encaminharam os cristãos para o alinhamento em posições antagônicas.

 

Os anos da ditadura

Os últimos meses do governo de João Goulart foram tempos de intensa radicalização. Uma parte significativa de cristãos e membros da estrutura eclesiástica católica ajudou a preparar o golpe de estado. Este não foi uma ação circunscrita aos militares, como algumas quarteladas na América Latina, mas um amplo movimento de setores da população e do Exército. E aí se encontravam cristãos que temiam uma posição de esquerda que levaria a uma “cubanização do país”. Em carta que Alceu Amoroso Lima me escreveu dia 8 de março de 1964, dias antes do golpe, indicava: “No Brasil, então… Você está vendo o que se está passando com essa monstruosa simbiose das Congregações Marianas e das Senhoras da Ação Católica, ou da Democracia, com a Ordem e o status quo, e a Propriedade e o Capitalismo! Uma simbiose monstruosa, mas aceita e defendida violentamente por 80% dos católicos e por percentagem grande da Hierarquia. Há também, sem dúvida, os que veem longe, e não sou nunca, de modo algum, um pessimista”.

Uma campanha do rosário do Padre Patrick Peyton, em meses anteriores, com o lema “uma família que reza unida permanece unida”, preparara o terreno para, em São Paulo, dia 19 de março de 1964, a primeira Marcha da Família, com Deus, pela liberdade, uma resposta ao comício da Central, dia 13 de março, em que João Goulart anunciou a concretização das reformas de base. O presidente dissera ali: “O cristianismo nunca foi o escudo para privilégios condenados pelo santo padre, nem também, os rosários podem ser levantados contra a vontade do povo… Os rosários não podem ser erguidos contra aqueles que reclamam a discriminação da propriedade da terra, hoje ainda em mãos de tão poucos, de tão pequena minoria”. Já o Padre Peyton defendera antes que o rosário seria “a mais poderosa alavanca que eleva o mundo do deprimente materialismo em que se encontra”.

Nesse contexto, surgem as Marchas. A primeira delas ocorreu, então, no dia de São José. Estimou-se a presença de 500 mil pessoas. Compareceram o governador de São Paulo, Adhemar de Barros, com sua esposa, o governador da Guanabara, Carlos Lacerda, e o vice-presidente do Senado, Auro de Moura Andrade. Ali falou o senador Padre Calazans: “Hoje é o dia de São José, padroeiro da família, o nosso padroeiro. Fidel Castro é o padroeiro de Brizola… aqui está a resposta ao plebiscito da Guanabara: não! não! e não!” Nos dias seguintes aconteceram Marchas em várias cidades de São Paulo e uma no Paraná.

O Padre Francisco Laje, suplente de deputado federal de Minas Gerais, nos primeiros dias de abril, foi preso e espancado pela Polícia Militar. Pediram que se despisse e, quando seu rosário caiu, chutaram-no dizendo: “Padre do diabo”.

Em 6 de junho de 1964, a polícia entrou num apartamento em Laranjeiras e prendeu dirigentes da JEC e da JUC. Confundiu o dirigente da JEC, Carlos Alberto Libânio Christo, futuro Frei Betto, com Betinho (Herbert José de Souza), fundador da Ação Popular. Todos foram soltos pela intervenção de D. Cândido Padin, assistente nacional da Ação Católica.

No dia 7 de maio, Amoroso Lima escreveu o artigo que ficou famoso, com o título “Terrorismo cultural”: “Quando são demitidos de seus cargos homens de reputação mundial no plano da educação, como Anísio Teixeira, no plano da sociologia, como Josué de Castro, no plano da economia, como Celso Furtado, simplesmente por pensarem de modo diferente da nova ideologia dominante, estamos no plano do terrorismo cultural. Quando se prendem filósofos puramente metafísicos, como um Ubaldo Puppi, não se sabe o porquê, ou jovens líderes intelectuais, como um Luiz Alberto Gomez de Souza e outros, simplesmente porque se considera que seus métodos de alfabetização são ‘subversivos’, estamos no plano do terrorismo cultural”. Esse artigo provocou um chamado telefônico do próprio presidente Castelo Branco ao Dr. Alceu, a quem ele julgou mal informado. Eu fora preso em Juiz de Fora, dia 5 de março, permanecendo detido até o mesmo dia do artigo do Dr. Alceu.

Dia 27 de maio, a CNBB se reniu. Os debates foram tensos, confusos e produziram um comunicado que pareceu ser um compromisso entre os que aplaudiam o golpe e os que falavam de justiça social. Mas os primeiros estão bem mais presentes no documento. Ele proclamava: “Agradecemos aos militares que, com grave risco de suas vidas (sic!), se levantaram em nome dos supremos interesses da nação, e gratos somos a quantos concorreram para a libertarem do abismo iminente”. Apressou-se em apontar abusos de muitos militantes cristãos, com “idealismo mal aplicado”, que teriam enganado a vigilância dos pastores. E tratava de manifestar aos militares que, mesmo antes da “revolução”, os bispos tinham advertido e procurado corrigir os culpados, fossem sacerdotes ou leigos. Mas, em direção contrária, numa atitude de defesa corporativa, indicava: “Não aceitamos e nem poderemos aceitar nunca a acusação injusta, generalizada e gratuita, velada ou explícita, pela qual bispos, sacerdotes, fiéis ou organizações como, por exemplo, a Ação Católica e o MEB, são comunistas ou comunizantes”. Havia, logo depois do golpe, na operação “arrastão”, cerca de 300 leigos e clérigos, na prisão.

Há outro documento anterior de 17 bispos, reunidos na capital pernambucana, no dia 13 de abril de 1964, por ocasião da posse de D. Hélder como arcebispo de Olinda e Recife, com uma orientação diferente. Retomaram trechos do documento de abril de 1963, um ano antes, reafirmando a necessidade de reformas de base e denunciando as restrições à liberdade e as primeiras arbitrariedades. Thomas Bruneau escreveu que, comparando os dois documentos, de abril e de maio, é como se fossem preparados por grupos distintos. Vemos aí profundas diferenças na Igreja Católica, vindas de mais atrás, fortalecidas pela nova conjuntura. Dizia o documento do Recife: “Manifestamos, como pastores, um duplo anseio: que inocentes, eventual­mente detidos em um momento de inevitável confusão, sejam quanto antes restituídos à liberdade; e que mesmo os culpados sejam livres de vexames e tratados com o respeito que merece toda a criatura humana”. O texto ainda é cuidadoso, e a alusão a inocentes e culpados é indefinida. A alocução de D. Hélder, falando de justiça social e de direitos humanos, irritou os militares presentes.

Em outubro de 1964, durante o concílio, os bispos se reuniram em Roma, para realizar eleições na CNBB. Houve um contraste entre o clima de abertura no concílio, do qual D. Hélder foi um dos responsáveis e a posição do episcopado brasileiro em relação à CNBB. Venceram os conservadores.

 

Em novembro de 1966, veio então a decisão da CNBB: “O secretariado nacional do Apostolado dos Leigos comunica a dissolução das equipes da JUC, JEC e JIC”. Assim, praticamente desapareceu a Ação Católica, um ano e meio antes do encontro episcopal de Medellín em 1968 quando, além disso, no mundo inteiro, se firmava o papel protagonista da juventude. Porém em direção oposta, 1968 é o ano do AI-5 e do “golpe dentro do golpe” do regime militar. Um documento de antigos dirigentes da JUC se despedia melancolicamente: “É isso que nos une: a inquietação, a fuga à acomodação, a busca de uma superação constante, o posicionamento consciente do mundo”. No ano seguinte, realizou-se em Buga, na Colômbia o Encontro de Pastoral Universitária do Conselho Episcopal Latino-americano (CELAM). Esse encontro fez parte dos momentos preparatórios do Encontro dos Bispos em Medellín (1968). Ali foi lançada a ideia de libertação.

Nos debates em Buga, o arcebispo de Porto Alegre, D. Vicente Scherer, fez reservas ao termo libertação, que, para ele, fazia pensar nos movimentos insurrecionais de libertação nacional. Foi, então, quando interveio Monsenhor Charles Moeller, da Congregação da Doutrina da Fé da Santa Sé, teólogo e humanista belga, que havia publicado uma importante série de livros, “Literatura do século XX e cristianismo” (Casterman, 1954). Piscando-me o olho, pôs-se a citar textos conciliares, onde apareciam os termos liberantur e liberationem; com isso “liberou” para a ortodoxia o uso da expressão.

A ACO e a JOC sucederam à JUC como os movimentos mais importantes da renovação da Igreja. Em maio de 1966, a ACO denunciou: “A situação da classe operária no Nordeste é marcada, sobretudo, pelo desprezo ao homem. Esse desprezo de que são vítimas os trabalhadores se traduz num clima de perseguições de todo tipo… O homem que sofre tantas injustiças é um homem sem liberdade, sem perspectiva, sem esperança, sem fé, sem amor”. Os bispos nordestinos responderam com um manifesto, em julho, um dos documentos mais progressistas até esse momento: “Não pode haver desenvolvimento ou promoção onde não se coloca o homem em primeiro lugar… A Igreja deve favorecer … aqueles que parecem estar condenados à estagnação, vivendo em condições sub-humanas”. A polícia confiscou o documento, proibiu os bispos de publicá-lo,

e os militares em Recife acusaram D. Hélder de ser um comunista subversivo e o ameaçaram com a prisão.

Entre 1967 e 1968 houve um período que Charles Antoine chamou de “resistência e hesitações”. Em novembro de 1967, a Comissão Central da CNBB publicou um documento conciliador, “Missão da hierarquia no mundo de hoje”. Ali se lê: “A Igreja exige o maior respeito aos direitos fundamentais da pessoa humana, assim como o acatamento à autoridade pública, como responsável pela promoção do bem comum. Dentro dos respectivos campos, a Igreja e o Estado gozam de autonomia e independência”. Nessa ocasião, o presidente Costa e Silva chegou a dizer: “Não há atrito entre Igreja e governo, o que existem são divergências entre alguns elementos do clero e alguns oficiais das forças armadas, mas não divergências entre as duas instituições”.

 

Cativeiro social e década eclesial gloriosa

Esses foram os verdadeiros anos de chumbo. O clima político fechou na América Latina, com o AI-5 no Brasil (1968), golpes no Chile (1973), no Uruguai (1973) e na Argentina (1976). Mas foi nesse momento que se realizou a reunião episcopal de Medellín, trazendo a centralidade do pobre, a libertação como meta e indicou a importância das comunidades eclesiais de base. Chamo esse tempo, de 1968 a 1979, de década gloriosa, quando setores da Igreja não só enfrentaram o arbítrio, mas, inclusive, se colocaram à frente do processo histórico. A Igreja Católica, que chegara com atraso em seu diálogo com a modernidade, agora estava em dia e, mesmo, em certos aspectos, adiantava-se na América Latina ao tempo histórico da sociedade. Seguia a divisão dentro da Igreja, mas, se vão afirmando na base, o que D. Hélder chamou as “minorias abraâmicas” e se desenvolveram as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), no momento em que a Igreja, entre 1968 e 1979, passa a ser um dos poucos espaços abertos na sociedade civil.

Nos primeiros anos da ditadura, D. Hélder acolheu perseguidos políticos, visitou prisões e levantou sua voz de protesto. Os militares não se atreveram a prendê-lo, mas, em 1969, torturaram e mataram, com requintes de selvageria, um de seus sacerdotes mais próximos, o Padre Henrique Pereira Neto, assistente dos jovens na diocese. Seu corpo, terrivelmente mutilado, foi encontrado num campo da periferia. D. Hélder sofreu intensamente e sentiu que era a ele que queriam atingir por meio do Padre Henrique. Por esse tempo, Gustavo Gutiérrez terminava seu livro clássico, “Teologia da Libertação”, esteve no Recife e escreveu uma dedicatória para esse sacerdote-mártir.

Em 1968, eram treze os sacerdotes encarcerados. “O manto protetor da batina não pode proteger o crime”, dizia o ministro da Justiça. “Esses padres foram presos porque abandonaram a pregação do Evangelho, devotando-se a uma pregação política e ideológica, bem como à organização da subversão e de movimentos guerrilheiros armados para a derrubada do regime”, declarou o general Alvaro Cardoso, comandante da 4ª Região Militar.

Houve mudanças na Igreja. D. João Resende Costa, arcebispo de Belo Horizonte, em 12 de dezembro de 1968, na véspera da decretação do AI-5, separou-se do regime que saudara e declarou: “sei por ciência direta pessoal e segura: os depoimentos dos sacerdotes e do diácono preso não são aceitos como expressão da verdade porque foram usados com eles espancamentos e torturas. Para honra do nosso Exército denunciamos esses horrores…” Tratava-se da prisão, em novembro, de três padres assuncionistas franceses e de um diácono brasileiro.

Em 1968, o bispo D. Cândido Padin preparou um documento interno para a CNBB, mostrando a incompatibilidade entre a doutrina da segurança nacional dos militares, ensinada na Escola Superior de Guerra, e o pensamento social da Igreja Católica. Esse documento teve influência na declaração da CNBB posterior ao AI-5.

Nessa ocasião, a Igreja Católica demorou em pronunciar-se. Por dois meses manteve-se em silêncio. Por pressão do núncio apostólico, D. Sebastiano Baggio, foi redigido um forte documento, que era para ficar interno à Igreja, mas que o Correio da Manhã publicou na íntegra. Ali se dizia: “A situação institucionalizada no mês de dezembro último possibilita arbitrariedade, entre as quais a violação de direitos fundamentais, como o da defesa, de legítima expressão do pensamento e de informação: ameaça à dignidade da pessoa humana, de maneira física ou moral…”.

 

Ogovernador de São Paulo, Roberto de Abreu Sodré, declarou sobre D. Hélder: “Ele pertence à máquina de propaganda do partido comunista… ele recebe para isso, ele viaja para isso… usam-no para denegrir o Brasil. É o que este Fidel Castro de batina tem feito na Europa”. Mas chegava o espírito corporativo, inclusive de bispos conservadores. D. Agnello Rossi solicitou que Sodré provasse o que dissera. D. Vicente Scherer pediu que dessem a D. Hélder o direito de defesa. Até D. Sigaud declarou: “D. Hélder é meu irmão em Cristo e nós nos amamos e estimamos como irmãos, embora discordemos como responsáveis pela sorte de nossos rebanhos”. As embaixadas em Copenhague e Oslo foram mobilizadas para que D. Hélder não recebesse o prêmio Nobel. E o próprio D. Sigaud juntou-se à campanha, argumentando que “as consequências que a condecoração do arcebispo do Recife acarretarão podem tornar-se catastróficas para a Igreja do Brasil”. Preterido por três vezes, numa delas foi Kissinger o contemplado. D. Hélder recebeu o Prêmio Alternativo da Paz.

Mas ele continuou a fazer denúncias pelo mundo, reunindo grandes multidões, como no Palácio dos Esportes, em Paris. Seu nome, então, foi vetado e deixou de aparecer na imprensa brasileira. Entre 1974 e 1978, vários conflitos surgiram entre a Igreja Católica e o Estado. Em 1974, um relatório do Exército declarava: “O clero se constitui o mais atuante dos inimigos que atentam contra a segurança nacional (vide documento de D. Padin), promovendo, através de processos nitidamente subversivos, a substituição da estrutura político – social – econômica brasileira por uma nova ordem, em tudo semelhante à filosofia marxista”.

Em outubro de 1976, D. Waldyr Calheiros foi ameaçado por forças paramilitares. Em novembro, o missionário italiano Padre Florentino Marboni, que trabalhava na Amazônia, foi torturado e obrigado a assinar uma declaração onde dizia que a Igreja realizava uma ação subversiva. Solto, negou a declaração e a Comissão Pastoral da Terra (CPT) denunciou a tortura. O ministro da Justiça acusou a CPT de mentir. Em novembro, D. Estevão Cardoso, bispo de Conceição do Araguaia e D. Alano Pena, de Marabá, foram interrogados. Em dezembro, o secretário de segurança de São Paulo, o truculento coronel Erasmo Dias, acusou o bispo de Goiás, o dominicano D. Tomás Balduíno, de comunista.

A ordem dos dominicanos tinha uma história anterior de presença na renovação da Igreja: na Ação Católica, Frei Romeu Dale na JUC e Frei Mateus Rocha na JEC; Frei Carlos Josaphat no jornal Brasil Urgente, Frei Benevenuto Santa Cruz na livraria Duas Cidades e no acompanhamento de Padre Lebret O.P. no Brasil. No período da ditadura, um grupo de jovens frades dominicanos entrou para a vida política clandestina, ligados à ALN de Mariguella. Frei Betto, no Sul, ajudava fugitivos a saírem do país. Outros trabalhavam em São Paulo. Em novembro de 1969, foram presos e barbaramente torturados dois frades, Ivo e Fernando, e levados pelo delegado Fleury a um lugar onde Mariguella ia comparecer para encontrá-los. Este foi cercado e morto, e a imprensa passou a notícia insidiosa de que os frades tinham entregado Mariguella. Outro frade, Frei Tito de Alencar Lima, também foi preso e terrivelmente torturado. Foi deportado para o Chile em 1971 e, em 1974, nos arredores de Lyon, se matou, perseguido a distância pela lembrança do torturador Fleury. Três dominicanos, Betto, Ivo e Fernando foram condenados e permaneceram na prisão por vários anos.

Em outubro de 1971, D. Pedro Casaldáliga, recém-nomeado prelado de São Felix do Araguaia, fez duras críticas ao regime em sua primeira carta pastoral: “Uma Igreja na Amazônia em luta contra o latifúndio e a marginalização social”. Foi detido e houve tentativas de expulsá-lo do país. Dois meses depois, os bispos do regional do Centro-Oeste escreveram: “Temos ouvido o grito silencioso de algumas famílias, angustiadas com a maneira como foram presos os seus… O terror cresce”. Os bispos do Nordeste, em maio de 1973, lançaram um dos documentos mais radicais daqueles tempos: “Eu ouvi os gritos de meu povo”, em que condenavam o “terrorismo oficial”. Denunciavam “medidas de perseguição a operários, camponeses e intelectuais… vexames infligidos a padres e militantes das Igrejas cristãs, tudo isso assumindo as mais variadas formas de encarceramento, torturas, mutilações e assassinatos”.

Em 1977, na XV Assembleia Geral da CNBB, por 230 votos a 3, aprovou o documento “Exigências cristãs de uma ordem política”. Ali se fazia uma crítica ao processo que excluía a maioria da população e afirmava a importância da participação popular e das liberdades democráticas. Em Elementos para uma política social (1979) denunciava que “os ricos ficam cada vez mais ricos, à custa dos pobres, que ficam cada vez mais pobres”.

Surgiu a ideia de criar uma comissão destinada a discutir as relações entre a Igreja e o Estado, assim como as denúncias de torturas. Foi criada a Comissão Bipartite, tendo, de um lado, alguns bispos e o professor Candido Mendes e, do outro, militares como o general Muricy e o filósofo Tarcísio Padilha. Entretanto, seus resultados não foram levados em conta pelos militares no poder.

Para acompanhar os casos de violações aos direitos humanos, foram criadas a Comissão Nacional Justiça e Paz e comissões estaduais, a mais notória a de São Paulo, sob a orientação do Cardeal Arns. O secretário geral da Comissão Nacional, professor Candido Mendes, preparou um relatório com doze depoimentos de torturas, que foi encaminhado à Assembleia Geral da CNBB em maio de 1970. A partir dele, os bispos denunciaram “a incidência dos casos de tortura”, mas amenizaram a afirmação dizendo: “Estamos certos de que, se comprovados tais fatos, dificilmente poderiam corresponder a uma orientação oficial do governo”. Na Assembleia de 1971, Candido Mendes, em sessão privativa, apresentou uma bem documentada exposição sobre torturas, prisões e outros arbítrios, que fez conhecer a realidade a bispos que a ignoravam ou fingiam fazê-lo. Mas outros seguiam em suas posições de apoio ao regime. D. Sigaud, bispo de Diamantina, declarou numa ocasião: “confissões não se conseguem com bombons”. O mesmo bispo afirmou em Roma, durante o concílio, com terrível tranquilidade: “se há violência, é só durante os interrogatórios”.

A CPT foi criada em 1975. Ela teve um papel destacado na elaboração do documento da CNBB de 1980, “A Igreja e os problemas da terra”. E pelos anos seguintes fez denúncias de violência contra os camponeses e da ação dos grileiros. Antes, em abril de 1972, surgiu o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), produto dos agentes missionários da Amazônia. Os dois organismos foram referências para o trabalho pastoral e permanentemente denunciavam violações aos direitos humanos e o arbítrio policial. Eles se desenvolveram pelo país, nesses anos de maior repressão e foram sinais proféticos de uma Igreja destemida.

 

Abertura na sociedade, inverno na Igreja

A partir dos anos 70, a relação entre Igreja e sociedade de certa maneira se inverteu. Na sociedade, deu-se um processo de abertura lenta e gradual. Não foi um ato unilateral do poder. Ela foi sendo conquistada. Em meados de 1970, surgiu o Movimento Feminino pela Anistia, em 1978 a Comissão Brasileira pela Anistia, sediada na Associação Brasileira de Imprensa. Finalmente, o presidente João Figueiredo promulgou, em 28 de agosto de 1979, a Lei da Anistia.

Em contraste, na Igreja se deu um processo inverso. O saudoso Padre Libânio escreveu sobre a volta à grande disciplina, num fechamento eclesiástico. Ele se referiu também a um inverno na Igreja. Na base, entretanto, continuou o processo dinâmico nas pastorais sociais e nas Comunidades Eclesiais de Base. Mas a Congregação da Doutrina da Fé, dirigida por Joseph Ratzinger, publicou uma instrução sobre a Teologia da Libertação, em agosto de 1984, alertando para riscos e possíveis desvios.

 

João Paulo II e a nova primavera de Francisco

O papa João Paulo II foi uma das mais fortes personalidades do século XX, que modificou a geopolítica do mundo, com uma presença política como de Inocêncio III ou de Júlio II. Dotado de um notável carisma, é um verdadeiro ícone para as multidões e para os jovens, estes mais atentos à sua figura e à sua dimensão simbólica do que aos seus ensinamentos. Para a Igreja, ele representou uma inflexão rumo ao conservadorismo. O pontificado João Paulo começa em 78, com posições duras. No Brasil, há um paradoxo: a política se abre; a Igreja Católica se fecha, a partir de sua cúpula. Esse momento coincide com ascensão de João Paulo II.

Um bom parâmetro desse quadro é a quantidade de bispos conservadores que foram nomeados no período de João Paulo II. Em 1979/80, havia 60 bispos progressistas, que podem ser chamados transformadores. Do lado conservador eram 40. Havia ainda os moderados, no meio, que, nesse período, se aliaram aos transformadores. Nos anos 90, o quadro já havia se invertido. Eram, no máximo, 40 transformadores, e os conservadores somava entre 60 e 70.

João Paulo II é um dos responsáveis pela crise do socialismo real. Sob seu comando, houve uma aliança entre o Vaticano e os Estados Unidos. Foi um jogo de troca. O Papa intervém na Polônia e apoia a oposição na Nicarágua. Nesse cenário, um diretor da CIA, católico fervoroso, teve um papel importante: Vernon Walters. Ele esteve no Brasil para auxiliar nos preparativos do golpe de 64. Pois Walters foi a ponte entre a CIA e o Papa. O pontificado de João Paulo II está intrinsecamente ligado à política norte-americana. O Papa prestou um grande serviço aos Estados Unidos, colaborando com a queda do socialismo. A ruína na Polônia foi o primeiro passo para a União Soviética desmantelar-se.

Uma imagem ilustra bem a posição do Papa: a célebre foto de João Paulo II na Nicarágua, em que o sacerdote e poeta Ernesto Cardenal faz uma genuflexão na frente do Papa, e este faz com o dedo o sinal como se dissesse: “você não pode”. O retrato é claríssimo. Nessa mesma viagem, durante missa papal em uma praça, uma multidão de 700 mil pessoas começou a gritar: “Viva o sandinismo!”. E João Paulo responde: “Calem-se! Calem-se!”. Furioso. A Nicarágua era muito católica, mas apoiava uma revolução de orientação marxista.

Essa postura conservadora, antitransformista, leva, dentro da Igreja, ao crescimento de uma espiritualidade intimista e não social. Surge daí o movimento carismático. Influenciados por João Paulo II, aparecem outros movimentos carismáticos, como um grupo integrista na Itália. Há pouco tempo, esses italianos queriam eleger Angelo Scola, arcebispo conservador de Milão, como sucessor de Bento XVI.

Revendo todo esse itinerário descrito, não se pode deixar de fazer uma observação sobre os anos recentes. Fortes setores da Igreja, clérigos e leigos, lutaram pelos direitos humanos, denunciaram a repressão, pediram por justiça social e reformas sociais. A teologia abriu-se aos problemas da ecologia, do gênero, da ética e da diversidade sexual. Entretanto, a hierarquia nem sempre acompanhou os problemas emergentes na sociedade, como aqueles ligados aos problemas da sexualidade e da reprodução humana. No caso da Igreja Católica, é como se ela, no plano doutrinal e em orientações pastorais, tivesse ficado estancada depois da encíclica Humanae Vitae, de 1968. Isso chegou a uma situação esquizofrênica, entre a doutrina pregada e a prática vivida.

A Igreja, ao longo dos anos, tem movimentos antagônicos, contrários. É nesse cenário de crise interna que surge a figura do Papa Francisco, trazendo consigo uma nova filosofia: discutir a doutrina por meio de gestos e de fatos. O novo Papa introduz uma outra postura, que pode levar a mudanças na doutrina e no espírito. É o retorno da Igreja dos pobres. Mas não podemos deixar de ressalvar que, não obstante a nova postura, o Papa Francisco conclui o trabalho de dissolução do socialismo real, promovendo o acordo que resultou no reatamento das relações entre Brasil e Cuba.

Para Bento XVI, a Igreja deveria ser pequena. Ele não tinha medo que a Igreja diminuísse, desde que fosse uma instituição forte, coesa. Já Francisco pensa o contrário. Então, assim como houve uma primavera com o João XXIII, quando ele convocou o Concílio de 1959 a 1962, estamos vivendo uma nova primavera. Ao que parece, essa igreja mais conservadora, mais integrada, está sendo desafiada pelo Papa Francisco. Neste momento, vislumbro uma possibilidade real de transformação profunda.

Foi nos anos de chumbo na sociedade e em dois pontificados, que cresceu o trabalho eclesial mais fecundo nas bases eclesiais e inclusive em alguns meios eclesiásticos significativos. Na tribulação se desenvolvem a exemplaridade e a profecia.

 

*Depoimento a Luiz Cesar Faro e Kelly Nascimento.

 

Luiz Alberto Gómez de Souza é diretor do Programa de Estudos Avançados em Ciência e Religião da Universidade Cândido Mendes.

 

 

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