A metamorfose estética e cultural

A metamorfose estética e cultural

Gilda Oswaldo Cruz

Os portugueses só começaram a interessar-se pelo território, descoberto por navegantes enviados por D. Manuel em 1501, após a implantação, em 1555, de uma colônia protestante francesa numa ilha da Baía de Guanabara, comandada pelo aventureiro Nicolas Durand de Villegagnon.

Hábeis negociadores, os mair – assim chamavam os índios aos franceses forjaram uma sólida aliança com os tupinambás, essencial tanto para a obtenção de alimentos, em troca de machados, facas e outros artigos, como para a aprendizagem de como subsistir no trópico: dormir em redes, defender-se dos mosquitos, comer mandioca e beber cauim. Já tinham sido eles advertidos pelo patrão calvinista, antes de embarcarem:

“Nem pão, nem vinho. Em vez de pão, uma farinha extraída de raizes. E como lá não crescem uvas, beberão caldo de milho fermentado pela saliva das índias. Em compensação, prometo-vos liberdade de credo.”

A aventura francesa acabou por correr mal para os protestantes, também sob o aspecto religioso, mas só após duríssimos combates travados durante mais de uma década contra os portugueses. Estes, aliados aos temiminós, igualmente habitantes da região e inimigos ancestrais dos tupinambás, lograram por fim expulsar definitivamente os obstinados calvinistas, com a diplomática intervenção de jesuítas, Anchieta e Nóbrega.

Denominados perô pelos índios tupinambás (e às vezes perô-angaipá, ou seja, “que nada valem”), a partir de então os portugueses confirmaram-se como únicos senhores brancos do território, embora os ataques de piratas e de traficantes europeus continuassem com caráter incidental durante os três séculos subsequentes.

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Desses rudes embates entre mairs e perôs resultaram duas consequências significativas: a fundação da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro por Estácio de Sá, em 1º de março de 1565, cerca do sopé do Pão de Açúcar, e a publicação, em 1576, de um extraordinário livro intitulado “Viagem à terra do Brasil”, do sapateiro calvinista Jean de Léry, que narra um segmento da fracassada aventura francesa e, sobretudo, o encontro dos calvinistas com a cultura aborígene.

O livro de Léry constitui o primeiro documento etnológico sobre os índios habitantes da Guanabara, e como tal é leitura fascinante, tanto por representar a pré-história da cidade do Rio de Janeiro como pela atenta e quase empática apresentação da cultura tupinambá. Como se não bastasse, seu estilo é claro e fluente, digno de um contemporâneo de Montaigne.

Indignado com a súbita renúncia de Villegagnon ao protestantismo e as suas práticas injustas e violentas como chefe da colônia, Léry foi expulso do forte com alguns companheiros e decidiu regressar à França numa viagem atribulada em que tiveram de comer seus cintos, suas correias, as velas de sebo do navio e mesmo as solas dos sapatos, fervidas longamente, como explica ao pormenor. Decidiu-se a narrar a experiência sobretudo para denunciar o comportamento do chefe traiçoeiro, mas ao fazê-lo deixou um documento precioso, que foi traduzido e reeditado várias vezes na Europa.

Ao ler a narrativa de Léry, cujo nome em língua tupi significa Grande Ostra, (para a hilaridade dos seus aliados) é impossível não reconhecer nos primeiros habitantes da Guanabara algo que poderíamos denominar Ortgeist carioca (espírito do lugar, assim como Zeitgeist significa o espírito de uma época). Assim, escreve ele: os selvagens “amam as pessoas alegres, galhofeiras, liberais, aborrecendo os taciturnos, avaros e neurastênicos”. Sua propensão aos excessos dionisíacos: “Eu os vi dançar e beber três dias e três noites consecutivas mas ainda, depois de saciados e bêbados a mais não poder, vomitarem quanto tinham bebido e recomeçarem mais bem dispostos do que antes”. A própria escassez de vestuário nas mulheres é louvada pelo maleável calvinista: “a nudez das índias nada deve a damas hipervestidas da Europa em formosura”. E, quanto à hospitalidade cariocas, registra: “recebem com muita cordialidade os estrangeiros”. E, ainda, o amor à estrita limpeza corporal: “Limpam as mães os rabinhos de seus filhos pequenos com gravetinhos, mantendo-os limpíssimos”. Por fim, a cortesia, virtude carioca por excelência: “Os selvagens não costumam interromper o discurso de ninguém”. Eis aí um retrato psicológico que nenhum carioca julgaria inverídico.

Muito singular é um certo diálogo referido por Léry e que cabe transcrever na íntegra, por sua pertinência atual:

“Os nossos tupinambás muito se admiram dos franceses e outros estrangeiros irem buscar o seu arabutan (pau-brasil). Uma vez um velho perguntou-me: Por que vindes vós outros, mairs e perôs, buscar lenha tão longe para vos aquecer? Não tendes madeira em vossa terra? Respondi que tínhamos muita, mas não daquela qualidade, e que não a queimávamos, como ele o supunha, mas dela extraíamos tinta para tingir, tal qual o faziam eles com os seus cordões de algodão e suas plumas.”

“Retrucou o velho imediatamente: – e porventura precisais de muito? – Sim, respondi-lhe, pois no nosso país existem negociantes que possuem mais panos, facas, tesouras, espelhos e outras mercadorias do que podeis imaginar e um só deles compra todo o pau-brasil com que muitos navios voltam carregados. – Ah, retrucou o selvagem, tu me contas maravilhas, acrescentando depois de bem compreender o que eu lhe dissera: – Mas esse homem tão rico de que me falas não morre? – Sim, disse eu, morre como os outros.”

“Mas os selvagens são grandes discursadores e costumam ir em qualquer assunto até o fim, por isso perguntou-me de novo: – e quando morrem para quem fica o que deixa? – Para seus filhos, se os têm, respondi; na falta deles para os irmãos ou parentes mais próximos. Na verdade, continuou o velho (…) agora vejo que vós outros mairs sois grandes loucos, pois atravessais o mar e sofreis grandes incômodos, (…) e trabalhais tanto para amontoar riquezas para vossos filhos ou para aqueles que vos sobrevivem! Não será a terra que vos nutriu suficiente para alimentá-los também? Temos pais, mães e filhos a quem amamos; mas estamos certos de que depois da nossa morte a terra que nos nutriu também os nutrirá, por isso descansamos sem maiores cuidados.”

Ainda nessa linha de raciocínio, Léry observa que os índios se abstinham de comer ovos, e se horrorizavam ao os ver comê-los: “os mair não têm paciência de esperar e comem uma galinha inteira num ovo!”.

Quando nos confrontamos com o estado atual de extrema degradação ambiental da outrora límpida baía, evocamos a olvidada sabedoria ecológica tupinambá com alguma melancolia.

Bons selvagens? Rousseau dixit, enganado. Viviam num paraíso terrestre de puríssimas águas, ares limpos, vicejantes florestas, abundantes frutos, caça e pesca, num clima ameno durante quase todo o ano, excetuando-se o verão. Ainda assim, o ideal da vida aborígene era o combate feroz e incessante aos inimigos, seus vizinhos étnica e linguisticamente aparentados, como única via para o aperfeiçoamento virtuoso do guerreiro através da exibição de coragem. Tal como na Grécia antiga. Ao contrário desses, não visavam butins materiais, nem mulheres. Apenas troféus vivos, monnaie vivante para maior honra e devoração ritual.

O outro polo estruturante da vida nativa era o culto aos mortos, mediante complexos rituais destinados a garantir que seus espíritos pudessem aceder ao Guajupiá, um paraíso dançante, lugar de repouso “onde as almas dançam sempre, sem que nada lhes falte”. Não seriam estranhas tais aspirações ao temperamento dos atuais cariocas. Menos próximas a eles, todavia, as condições para a correta vingança contra os inimigos do familiar morto, que consistia em prendê-los, abatê-los e devorá-los. Léry descreve o cerimonial: “com as clavas matam os inimigos com um único golpe na cabeça. Como um boi no matadouro”. E, a seguir, “as velhas esfregam e escaldam o corpo com água fervente para arrancar-lhe a pele”. Dançavam então longamente ao som de flautas e pífaros feitos dos ossos de antigos prisioneiros, para depois ingerirem “desde os dedos dos pés ao nariz e à cabeça, com exceção dos miolos, em que não tocam”.

A aventura de Villegagnon não seria a última ocasião em que os protestantes tentariam arrebatar a imensa terra brasilis ao domínio dos católicos. São já 30% dos brasileiros que hoje se declaram seguidores das igrejas reformadas pentecostais. Constituíram um dos apoios essenciais à eleição de Jair Bolsonaro à Presidência do Brasil em outubro 2018. Marcelo Crivella, que foi prefeito do Rio de Janeiro, ou seja, presidente da Câmara Municipal, é bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus, e tem sido acusado de sabotar tenazmente o Carnaval carioca por motivos religiosos, além de insuflar a destruição de templos de cultos afro-brasileiros, que abrigam, nas suas palavras, espíritos imundos. E assim investe contra o original e secular sincretismo religioso vigente no país. No Rio de Janeiro, como em qualquer cidade brasileira, não é incomum um cidadão declaradamente católico consultar os orixás num terreiro de umbanda, ou procurar cura para seus males corporais num templo espírita visitado pelo espectro do famoso Dr. Oswaldo Cruz (1872 -1917).

Façamos um salto de uns quantos séculos entre a fundação da cidade, em 1565 (Estácio de Sá, o fundador, perderia a vida dois anos mais tarde, ferido por uma certeira flecha tupinambá que lhe entrou sob a viseira do elmo e lhe perfurou um olho), até a chegada do Príncipe Regente e sua corte migrante em 1808, e que resultou na primeira abertura ao mundo dos portos brasileiros. Talvez a maior façanha da colonização portuguesa tenha sido o ciumento e radical fechamento dos portos ao longo de três séculos, protegendo a colossal extensão do território brasileiro da cobiça estrangeira.

Segundo os testemunhos dos estrangeiros visitantes, apesar do esplendor de sua moldura natural, o Rio de Janeiro nos alvores do século XIX era uma cidade suja, feia e mal-cheirosa. Esgotos a céu aberto, ausência de policiamento, pouca ou nenhuma iluminação, ruas tortas, casas mal construídas. Nos treze anos em que o Rio foi sede do Império português, a metamorfose foi radical. O príncipe regente tomou rápidas medidas de urbanização, mandou criar uma Intendência de Polícia, construiu chafarizes, pontes e calçadas. Ruas foram abertas. Instalou-se pela primeira vez a iluminação pública. Comerciantes ricos pagavam de seu bolso certos trabalhos e melhorias, obtendo em troca títulos de nobreza ou condecorações.

D. João possibilitou a qualquer cidadão a abertura de escolas de ensino básico, que funcionavam na própria casa do professor. O Jardim Botânico, dos mais belos que se conhecem, foi obra do príncipe, bem como a chamada Missão Francesa, pela qual foram chamados ao Rio artistas e arquitetos franceses para embelezar a urbe nascente. Surgiram teatros, montaram-se espetáculos musicais. A tradicional reclusão das mulheres brancas (“as branquinhas do reino”, como eram chamadas desdenhosamente pela população negra e mestiça), lamentada por vários visitantes estrangeiros, achava-se em vias de desaparecer. Já podiam as senhoras brancas sair à rua, frequentar cabeleireiros, comprar vestidos franceses, tomar o chá vespertino nas novas confeitarias.

De 50.000 habitantes, em 1808, a população carioca dobrou nos treze anos seguintes. A estreita rua do Ouvidor passou a exibir montras de lojas luxuosas, com últimos modelos da moda europeia.

Da enorme bagagem trazida pela corte ao Rio, assombravam os sessenta mil volumes que viriam a constituir o núcleo da Biblioteca Nacional, as coleções científicas. Gráficas, faculdades, festas públicas. Era o brilho das metrópoles europeias trazido de chofre ao modesto mundo carioca, até então provinciano e acanhado.

Parte da família real instalou-se na Quinta da Boa Vista – o príncipe regente, com D. Maria I já demente e os dois infantes, Pedro e Miguel – enquanto Carlota Joaquina e as filhas ocupavam uma mansão nas cercanias do atual Largo do Machado, a uma prudente distância do marido. D. Pedro apreciava nadar nu nas águas límpidas da baía, contam os cronistas, para fortalecer o corpo. Saía com o irmão a cavalo, caçavam nas florestas, namoravam. D. Pedro, bom guitarrista, embuçado para não ser reconhecido, frequentava os botequins boêmios do velho centro onde se fazia música até a madrugada.

Praticava-se na Guanabara e em suas redondezas a caça à baleia, denominada “armação”. Disso restam alguns topônimos, como a Ponta do Arpoador, em Ipanema, ou a Armação dos Búzios, na região dos lagos. Saltavam na Baía os golfinhos, animais heráldicos da cidade, tão jocosos como seus habitantes arquetípicos, os cariocas da mala vita, malandros dançarinos de lundu.

O trabalho braçal, evidentemente, era exercido por escravos, tanto nas casas como nas quintas e nas fazendas de cana-de-açúcar e café. Negros fugidos das fazendas instalavam-se em quilombos na Serra da Carioca, inspirando o pavor do “haitianismo”, ou seja, o pânico à sangrenta revolução de escravos que abalou o Haiti em 1794.

As condições sanitárias, porém, mantinham-se deploráveis, o que se foi agravando até ao ponto de a cidade passar a ser conhecida como o Porto Podre. A febre amarela atacava sobretudo os marinheiros estrangeiros, desprovidos da imunidade adquirida pelos autóctones, com óbitos numerosíssimos. A cidade, com o aumento exponencial da população, se tornara pestilenta.

Somente durante a República, a partir de 1889, alterar-se-ia o panorama sanitário da cidade, com as grandes reformas urbanísticas de Pereira Passos, o Haussmann da nova Rio de Janeiro e, sobretudo, o combate científico à peste bubônica e à febre amarela. Por fim, o porto foi declarado seguro.

Com o fim da Escravidão, em 1888, acorreu aos grandes centros urbanos a massa de cidadãos negros livres, sem moradia, sem educação, sem qualquer apoio das autoridades à sua sobrevivência. A implantação das favelas no Rio, iniciada ao término da Guerra de Canudos (1896-1897), origina-se do regresso à então capital dos combatentes do cruento massacre no sertão da Bahia. O nome favela remete a uma planta espinhosa, nativa da caatinga nordestina, que irrita a pele de quem a roça. Hoje, aproximadamente um quinto da população da megalópolis carioca habita uma favela, comunidade de moradores denominada por algum criativo funcionário do governo como “assentamento subnormal”.

A um visitante do século XXI à terra carioca (esse gentílico se aplica só aos habitantes da chamada “Cidade Maravilhosa”, alcunha criada em 1918 pelo escritor Coelho Neto), chama a atenção o fato de que os mapas da cidade não assinalem a localização das muitas centenas de favelas, algumas em morros, outros na planície, à volta da cidade. Delas consta apenas o topônimo, figurando como um espaço vazio e demarcado sem qualquer outra indicação.

Desse silenciado mundo de cidadãos sem direitos territoriais ou de saneamento provieram algumas das criações mais brilhantes da cultura carioca, como a invenção do samba, ou a celebração da festa carnavalesca mais famosa do planeta.

A partir de meados do século XX, ocorreu um momento marcante na história da cidade, quando nela habitavam músicos, escritores, pintores, cineastas, jornalistas, atores, desportistas e tantos outros criadores que projetaram a cultura do país mundo afora. Nesses anos era possível cruzar nas ruas do Rio com figuras com Oscar Niemeyer, Lucio Costa, Cândido Portinari, Heitor Villa-Lobos, Francisco Mignone, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, João Guimarães Rosa, Pixinguinha, João Gilberto, Tom Jobim, Clarice Lispector, Elizete Cardoso, Rubem Braga – cultor genial de um gênero literário eminentemente carioca, a crônica – Glauber Rocha, Chico Buarque, Garrincha, e tantas centenas de outros, nascidos alguns em outros pagos, mas aderentes ao sopro de liberdade e entusiasmo que oxigenava no período a vida e a cultura da cidade.

Fraturada social e economicamente, desigual, merecendo por muitas de suas vicissitudes a pertença ao mártir crivado de flechas que é o seu santo padroeiro (em homenagem ao rei D. Sebastião), a cidade mantém-se fiel ao seu espírito, bela na moldura, violenta nos contrastes e inexplicavelmente festiva.

Gilda Oswaldo Cruz

Bibliografia

Léry, Jean de – Viagem à terra do Brasil. Tradução de Sérgio Milliet. Livraria Martins, São Paulo,1941

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