A tempestade ideológica apenas começou

A tempestade ideológica apenas começou

Michele Prado

 

O desligamento de Jair Bolsonaro do cargo máximo do chefe do Executivo – exercido com desonra − não é garantia de que o bolsonarismo fenecerá visto que a extrema-direita saiu das franjas do debate público e hoje está no mainstream. O amplo e disforme sistema de crenças da extrema-direita hoje orienta uma parcela[1] não irrelevante da sociedade e uma Rede Alternativa de Influência (RAI) − que opera na radicalização e na mobilização extremista em velocidade superior aos mecanismos legais de contenção − está estabelecida e com acesso aos veículos de imprensa tradicionais.

No dia 31 de Agosto de 2021, por exemplo, o deputado estadual do PSL de Santa Catarina, Jesse Lopes, publicou em suas redes sociais uma foto ao lado do agressor − condenado por tentativa de homicídio – de Maria da Penha, a mulher cuja luta pela punição de seu agressor nomeou a Lei nº 11.340, de 7 de agosto de 2006, que cria mecanismos para coibir, punir e prevenir a violência doméstica e familiar contra a mulher. O discurso infame do deputado trouxe pistas de que essa ação não era apenas uma provocação irresponsável de mais um misógino que habita o universo bolsonarista, mas a reverberação − no debate público − de ideias que regem o imaginário de um ecossistema virtual essencialmente misógino e ultramasculinista da extrema-direita: a manosfera.[2]

Nos dias posteriores, nas mídias sociais e em grupos de WhatsApp bolsonaristas, surgiram vídeos de apoio à ação do deputado com retórica oriunda de um subgrupo da manosfera, o MRA’s (Mens Rights Activists) – Ativistas de direitos dos homens – nos quais fundem um antifeminismo beligerante à visão apocalíptica de uma suposta decadência do Ocidente devido aos avanços civilizatórios na equidade entre gêneros; rejeitam a ordem social não mais hierarquizada por gênero e argumentam que as leis de proteção às mulheres discriminam os homens e emasculam a sociedade. Essa retórica que antes estava restrita ao submundo da web, atualmente encontra representação na esfera legislativa e na direita brasileira, mesmo naquela não bolsonarista.

         Com a internet e a comunicação globalizada, agentes, movimentos e partidos de direita radical e/ou extrema saíram das sombras e hoje alcançam um público de centenas de milhões de pessoas com um simples clique. Um artigo ou uma publicação em uma mídia social pode alcançar um público que anteriormente era restrito aos perímetros locais desses agentes extremistas. Atualmente, o extremismo político/ideológico e/ou religioso aumentou mundialmente o seu raio de alcance e esses conceitos nos chegam através de diversos processos, desde um compartilhamento no WhatsApp (uma plataforma livre de qualquer moderação), dos algoritmos dessas plataformas ou até mesmo através do engajamento que pode ser produzido quando denunciamos um perfil/conteúdo extremista. A far-right brasileira e internacional domina as ferramentas de propaganda computacional para amplificar e normalizar suas ideias e pautas há algumas décadas.

Insight Inteligência - artigos e ensaios fora da curva

Desde a reabilitação do conceito de “Metapolítica” (a ideia de que mudanças políticas são produzidas a partir de um processo gradual de mudanças culturais) pela Nouvelle Droite (grupo de estudos da extrema-direita francesa surgido no final da década de 60) até a amplificação desse conceito pela a Alt-Right e seus métodos de propaganda computacional e assédio coordenado online, a Janela de Overton (o conjunto de ideias e conceitos políticos que o público está disposto a aceitar) sofre expansão, e alguns países fornecem exemplos cristalinos do quão perene pode ser a ampliação dos limites do que é aceitável no discurso público.

Nos Estados Unidos, a derrota eleitoral e moral de Donald Trump não desmobilizou a direita radical e extremista que formam suas bases, e nada indica que no Brasil será diferente após a deposição (através do processo institucional de impeachment) ou a derrota eleitoral de Jair Bolsonaro. Naquele país, o Partido Republicano permanece sequestrado pelas correntes da Alt-Right (direita alternativa), paleoconservadores, paleolibertários e pela direita radical cristã, que reúne desde dominionistas aos remanescentes da Moral Majority e sua versão do século XXI, o Tea Party.

A mobilização extremista e o terrorismo estocástico – discursos que incitam atores aleatórios para a realização de atos violentos −  produzidos pelo ex-presidente americano levou milhares de seus apoiadores a protagonizarem a cena impensável no país que era considerado um farol da Democracia Liberal no mundo, a invasão do Capitólio, que provocou um saldo de cinco mortos, mais de cem pessoas feridas e fissuras nos alicerces da democracia americana, levando o governo de Joe Biden a encarar a questão do extremismo doméstico como assunto de saúde pública e o terrorismo de extrema-direita  e/ou o extremismo violento ideologicamente motivado como a maior ameaça doméstica no país.

Em junho de 2021, a Casa Branca lançou um plano de estratégia nacional de combate ao terrorismo doméstico, o National Strategy for Countering Domestic Terrorism[3] após as investigações das agências de segurança e relatórios[4] produzidos por programas internacionais de combate ao extremismo revelarem a ampla gama de conceitos e grupos da extrema-direita no episódio do cerco ao Congresso americano: neonazistas, soberanistas, supremacistas étnicos, milícias políticas paramilitares antigovernamentais (3%, Proud Boys, Oath Keepers e o Boogaloo Bois) e uma massa amorfa, porém crédula, nas teorias e cultos conspiratórios que regem o imaginário da far-right, desde o culto Qanon à teoria de fraude eleitoral.

A radicalização − e o subsequente extremismo que pode ou não chegar ao extremismo com ação violenta – é passível de ocorrer com qualquer ideologia e crença; no início dos anos 2000, por exemplo, o extremismo islâmico foi a maior ameaça aos países ocidentais. Porém, a tendência que se observa agora é um aumento exponencial do terrorismo doméstico de extrema-direita.  Dados obtidos por centros internacionais de monitoramento e pesquisa do extremismo e terrorismo doméstico indicam que a maior parte dos atentados na última década é oriounda de extremistas de direita, jihadistas, extremistas de esquerda e outros grupos extremistas como ecofascistas, grupos radicais antiaborto e grupos extremistas religiosos, nesta ordem.

Em números, segundo o Global Terrorism Index de 2020[5], nos EUA, Europa Ocidental e Oceania, os ataques de extrema direita aumentaram 250% desde 2014, e as mortes causadas por esses ataques aumentaram em 709% no mesmo período, ultrapassando os atentados terroristas de salafi-jihadistas (no Ocidente). Diferentemente do extremismo islâmico, que em geral é executado por indivíduos envolvidos em organizações verticais, o terrorismo doméstico de extrema-direita é mais provável de ser executado por indivíduos não filiados a um grupo terrorista específico, o que dificulta a prevenção e o trabalho das agências de contraterrorismo.

A institucionalização das teorias conspiratórias: ameaça à democracia e indução à mobilização extremista

Em uma entrevista ao programa Poder em Foco (SBT), no dia 16 de dezembro de 2019, o presidente da República, Jair Bolsonaro, declarou que era necessária a implementação do voto impresso e afirmou que tinha suspeitas de ter sido vítima de fraude eleitoral nas eleições de 2018 – eleição esta que não apenas o elegeu como também proporcionou uma grande bancada[6] de parlamentares apoiadores. Não era a primeira vez que seus discursos apresentaram retóricas conspiracionistas; porém, as declarações nessa entrevista já sinalizavam que a teoria conspiratória de fraude eleitoral seria mais explorada e utilizada para mobilizar sua base de apoio, em especial as RAI’s (redes alternativas de influência). Segundo Bolsonaro, a prova da fraude era sua análise incorreta das apurações eleitorais, comparando a primeira parcial divulgada pelo Tribunal superior eleitoral − o início da apuração, portanto – com o resultado final do primeiro turno.

Ainda no dia do resultado oficial divulgado pelo TSE, o então candidato lançou[7] a primeira tese conspiratória de que os resultados foram fraudados: “Se tivéssemos confiança no voto eletrônico, já teríamos o voto do futuro presidente da República decidido no dia de hoje”, disse ele. E, desde então, suas afirmações que lançam dúvidas e condicionam os cidadãos a desconfiarem das instituições democráticas são cada vez mais frequentes até chegarem às ameaças vocalizadas de que ele não aceitará o resultado das próximas eleições.

RAI’s operam com foco na mobilização extremista

As teorias da conspiração povoam o imaginário da far-right transnacional e da maior parte das correntes radicais que compõem esse conjunto disforme. Assim como outras teorias foram compartilhadas de forma transnacional (The Great Replacement, Globalismo, Marxismo Cultural, Eurábia, The Great Reset, Catedral, QAnon), líderes políticos de direita radical e extrema-direita ao redor do globo introduziram em seus repertórios as falsas alegações sobre fraudes eleitorais e radicalizam cidadãos de tal forma que muitos chegam ao extremo com ação violenta, vide a invasão ao Capitólio (EUA) em 6 de Janeiro de 2021.

    O hábito de contar histórias faz parte da natureza humana, assim como a busca por padrões e conexões. A teoria conspiratória surge, geralmente, quando há o desejo de respostas simples para problemas complexos ou para que se possa capitalizar ganhos políticos e/ou financeiros com o compartilhamento viral dessas teorias. Nem todas as teorias conspiratórias são falsas, como por exemplo os casos Watergate e Irã-contras. Porém, há outras totalmente inverídicas e muitas que datam há mais de um século e que ainda permanecem alimentando outras, como as teorias conspiratórias antissemitas − que em geral estão no cerne da maior parte das teorias da conspiração que povoam o imaginário dos espectros ideológicos extremos – seja à esquerda ou à direita.

Como afirmo em meu livro, “Tempestade Ideológica – Bolsonarismo: A Alt-Right e o Populismo Iliberal no Brasil”, teorias da conspiração têm desempenhado um papel significativo na história da humanidade e atuaram na formação do imaginário da nova direita brasileira de forma relevante.

Após a Segunda Guerra Mundial e o subsequente novo arranjo geopolítico com a Guerra Fria, a mentalidade paranoide intensificou-se, especialmente nas fileiras da direita radical e da extrema-direita americana. E a partir dos anos 90, com a chegada da internet, essas teorias conspiratórias tornaram-se parte fixa nas crenças e nos discursos da far-right, alcançando um público global. São dezenas de teorias conspiratórias que alimentam o sistema de crenças da direita brasileira e muitas sobreposições, pois, quando os indivíduos acreditam numa teoria da conspiração, eles ficam mais propensos a endossar outras.

Na última década, com essa quarta onda de extrema-direita que o mundo enfrenta, as teorias da conspiração estão atuando como vetores diretos na radicalização e no extremismo. Grande parte dos atentados de terrorismo doméstico, executados por terroristas de extrema-direita, por exemplo, foi motivada pela crença em teorias da conspiração como a Eurábia[8] – a existência de uma grande conspiração entre muçulmanos e a União Europeia para, através de leis de migração, modificar a demografia e a cultura da Europa −, do Marxismo Cultural (atentado de Breivik, Noruega) e a teoria The Great Replacement  (atentado na Nova Zelândia e em El Paso, nos EUA).

Houve também um aumento exponencial dos crimes de antissemitismo segundo relatórios[9] da ADL (Liga Antidifamação). Teorias conspiratórias contra George Soros, a Nova Ordem Mundial, o Globalismo, The Great Replacement e a teoria QAnon também incidem em todo o universo mental do bolsonarismo; tais conceitos foram e ainda são compartilhados pelos influenciadores digitais (especialmente aqueles ligados ao ideólogo conspiracionista Olavo de Carvalho).

Esses conteúdos conseguem atingir milhares de compartilhamentos e retirou do anonimato muitos indivíduos – que passaram a capitalizar através de canais no YouTube e artigos para blogs da direita radical; a sobreposição dessas teorias formam a medula da militância bolsonarista e, dessa forma, uma base coesa (em torno de 30% do eleitorado) de apoio ao presidente é mantida sempre mobilizada, resultando no esgarçamento do tecido social, ataques contra as instituições e apelos a uma ruptura da ordem democrática.

Pensadores e propagandistas da extrema-direita adequam as teorias conspiratórias conforme desejam; sobrepõem a outras e criam arcabouços teóricos que levam, inevitavelmente, à radicalização. No cerne dessas teorias, duas obsessões: a questão racial e uma rejeição aos princípios liberais.[10]

    Para Benjamim Lee,[11] o ponto mais claro de cruzamento entre radicalização e teoria da conspiração está na criação e estruturação de relatos narrativos do mundo, pois teorias conspiratórias apresentam explicações simples para os eventos. Os crédulos capturados por essas teorias tendem a dissensões e rompimentos com aqueles que não compartilham da crença em teorias conspiratórias, levando-os à possibilidade de engajamento com grupos e ideias que prometem uma alternativa radical.

Teorias da conspiração, apesar de não amparadas em evidências que resistam ao escrutínio, resistem ao tempo e podem provocar resultados fatais, como, por exemplo, o descontrole da pandemia de Covid-19, especialmente em países como o Brasil e os EUA, durante o governo Trump, cujos líderes são indivíduos crédulos nessas teorias. Enquanto as pessoas não capturadas pelas teorias conspiratórias mantêm um ceticismo saudável diante dos eventos (realizam escrutínio das evidências, esforçam-se em buscar coerência, respondem às provas empíricas), aqueles capturados pelo pensamento conspiratório buscam apenas o contraditório e apresentam um grau extremo de suspeita que impede a crença em qualquer coisa que não se encaixe na teoria da conspiração, além de desconfiarem das provas empíricas (LEWANDOWSKY e COOK, 2020).[12]

Apesar de muitos acreditarem, de fato, naqueles conteúdos que compartilham, o fator monetização não é irrelevante. Medidas legais para desmonetização de canais que produzem conteúdo conspiracionista e/ou discursos de ódio podem apresentar eficácia, pois produzir conteúdo desse tipo gera altos retornos financeiros, e a monetização é vetor relevante para a escalada da radicalização. O problema se agrava quando há a assimilação – e subsequente reverberação − dessas teorias por líderes políticos que utilizam as mídias de massa para retóricas beligerantes, visões apocalípticas, exclusivistas e ameaçadoras, e assim retira das margens do debate público essa cosmovisão paranoide e em desacordo aos princípios básicos de respeito à dignidade humana amplificando o seu alcance na sociedade.

No Brasil, essa mobilização extremista vem sendo praticada há mais de uma década, tanto por agentes da extrema-direita e suas redes alternativas de influência como pelo governo federal, ao passo que o presidente da República institucionaliza as teorias conspiratórias e incentiva a desconfiança dos cidadãos nas instituições liberais.

O ecossistema da far-right internacional viraliza teorias conspiratórias de fraude eleitoral

Os ataques ao Capitólio, por exemplo, foram o resultado de um longo processo de desinformação – verbalizadas pelo então presidente Donald Trump −, e uma amálgama de teorias conspiratórias, milícias políticas (Oath Keepers, 3%, Proud Boys, Boogaloo etc.), ódio armado e extremismo, conforme mencionado anteriormente.

Ativistas de direita radical e figuras da mídia (em especial a Fox News) foram responsáveis ​​por promover narrativas que reivindicam que a fraude foi generalizada nos Estados Unidos e a campanha “Stop The Steal”, verbalizada por Donald Trump, não foi interrompida pelas plataformas de mídia. Atualmente, essa teoria conspiratória modificou-se para a “Election Fraude” e continua a mobilizar as fileiras radicais da direita americana, ressoando no Brasil. Em Agosto, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, que mantém relações com partidos e líderes de movimentos da far-right internacional, viajou aos EUA e palestrou no simpósio promovido pelo teórico conspiracionista da extrema-direita americana, Mike Lindell, ao lado de Steve Bannon, e verbalizou a teoria conspiratória de fraude eleitoral no Brasil.

Na Europa, Eduardo Bolsonaro é signatário da Carta de Madri, um projeto intercontinental da Fundação Disenso,[13] criada pelo político do partido de direita radical espanhol VOX, Santiago Abascal. A Carta de Madri afirma que a chamada Iberosfera é “sequestrada por regimes totalitários de inspiração comunista sob a égide do regime cubano e de iniciativas como o Fórum de São Paulo e o Grupo Puebla, que se infiltram nos centros de poder para impor sua agenda ideológica.”

Ainda dentro da transnacionalidade dessas ideias e teorias conspiratórias, um exemplo é a  Coreia do Sul, país no qual o ecossistema digital da direita radical também[14] utilizou narrativas conspiratórias a respeito de fraude eleitoral nas eleições de 2020, e relatório[15] recente publicado pelo ISD Global demonstra que as eleições regionais na Alemanha foram inundadas com as mesmas teorias verificadas antes no debate público americano, coreano e brasileiro.

No Brasil, desenha-se um caldo de cultura semelhante. Uma tragédia anunciada. No mais recente decreto para ampliar acesso às armas, o presidente foi enfático ao mencionar que ele relaciona a posse de armas ao “direito de defesa do contraditório” (emulando os discursos das milícias políticas paramilitares existentes nos EUA) enquanto parlamentares governistas tentam transformar a teoria conspiratória de fraude eleitoral em lei.[16] Jair Bolsonaro incentiva a criação de milícias políticas de extrema-direita.

Estas não possuem, na maior parte das vezes, comandos centralizados. Em geral, são pulverizadas. São motivadas, essencialmente, pela credulidade em teorias conspiratórias de que existe uma tentativa de dominação global praticada e planejada por atores ocultos que comandam governos de todos os países, cujo objetivo último seria escravizar as populações e restringir liberdades individuais. Ao fomentar a crença apocalíptica de que os resultados das eleições são ilegítimos, Jair Bolsonaro investe na radicalização e tenta criar antecipadamente justificativas para o seu objetivo de ruptura institucional.

Desligamento e desengajamento

     As redes alternativas de influência operam, em grande parte, em plataformas livres da moderação de conteúdo como o Telegram, Parler, WhatsApp e mais recentemente a nova rede criada por Jason Mille – ex-assessor de Trump – o Gettr, e nas plataformas mais tradicionais que ainda não conseguiram responder com eficácia a alta capacidade de mobilização das redes de desinformação praticadas por esses agentes radicais e extremistas. As câmaras de eco atuam no reforço e legitimização dessas crenças, criando uma identidade grupal e senso de pertencimento, o que torna mais difícil o desligamento e desengajamento dos indivíduos radicalizados. Algumas iniciativas das plataformas buscam soluções para combater e prevenir a radicalização.

Recentemente, o Twitter lançou um projeto piloto de moderação de conteúdo que poderá ser realizado pelos próprios usuários – o Birdwatch,[17] − no qual as informações enganosas poderão sofrer notas de correção por outros usuários; porém, ainda está em teste e restrito a poucos cidadãos americanos que se cadastraram. Outro obstáculo para a interrupção dessa rede desinformação é o processo de gamificação produzido pela credulidade em teorias conspiratórias: as pessoas se sentem participando de um jogo no qual cada novo QDrops ou evento (como a Covid-19) é uma pista nova que comprovaria suas próprias suspeitas. Soma-se a essa gamificação, o senso de pertencimento a um grupo com um suposto objetivo superior (evitar a decadência do Ocidente, o fim dos homens e da masculinidade, salvar a família tradicional etc.).

Segundo Cynthia Miller-Idriss,[18] especialista em extremismo e radicalização, se as pessoas forem informadas preventivamente de que estão sendo deliberadamente enganadas e manipuladas, elas podem desenvolver resiliência a essas mensagens conspiratórias. Esse processo é conhecido como inoculação ou prebunking. Iniciativas como a produção de pequenos filmes e jogos com mensagens de inoculação também vêm sendo produzidas por centros[19] de pesquisa internacionais, mas no Brasil ainda não ocorre nada semelhante que consiga atingir um público relevante.

Outra sugestão é a publicação de contranarrativas feitas por ex-membros de grupos radicais, pois exercem efeito maior sobre os conspiracionistas, exercitando a “empatia” nesses processos que são também emocionais. Em vez de simplesmente ridicularizar, o ideal é tentar levar a pessoa a exercer o pensamento crítico individual, para que ela própria perceba as pontas soltas e incongruentes de suas crenças.

Sites de verificação dos fatos também ajudam a interromper a rede de desinformação, além de campanhas institucionais com foco na alfabetização democrática e de cidadania digital. O monitoramento para a compreensão da integração da extrema direita nos espaços públicos, em particular aqueles espaços onde os jovens encontrarão a extrema direita, é fundamental para a prevenção da radicalização e um possível extremismo violento ideologicamente motivado (EVIM).

Embora a face mais visível das consequências causadas pela “mainstremização” dos conceitos e teorias conspiratórias da extrema-direita seja o EVIM, há outros perigos contra a Democracia Liberal e seus pilares, em especial quando essas ideias extremistas se normalizam dentro de grupos sociais que detêm o monopólio da força (forças militares) e grupos com grande representatividade eleitoral, como as comunidades de cristãos e evangélicos.

Armados e furiosos

Na tarde de um domingo de sol, dia 28 de março de 2021, em um cartão postal da Bahia (Farol da Barra), o soldado Wesley Soares Goes estacionou seu carro e fortemente armado atirou para o alto e fez discursos desconexos. Wesley estava com fardamento e o rosto pintado de verde e amarelo. Entre uma fala e outra, era possível reconhecer em seus discursos a retórica do bolsonarismo a respeito do lockdown e contra as medidas de prevenção da Covid-19 realizadas por prefeitos e governadores. Após quase quatro horas de tentativas de negociação com o BOPE (Batalhão de Operações Especiais) para a sua rendição, verbalizou que havia chegado o seu momento, fez uma contagem regressiva e iniciou os disparos contra os seus colegas de farda. Foi abatido.

O caso de terrorismo doméstico, ou extremismo violento ideologicamente motivado, ocorreu numa área que além de cartão postal é também essencialmente residencial, colocando em risco moradores da região e pedestres além das forças policiais que atuavam na negociação. A Secretaria de Segurança Pública da Bahia encarou o evento, com desfecho fatal, como um caso de suicídio, fruto de um surto psicótico. Nas RAI’s bolsonaristas, parlamentares como os deputados Bia Kicis e Eduardo Bolsonaro enalteceram a ação do soldado, e chegaram a publicar que ele “foi abatido” porque “disse não às ordens de Rui Costa (governador da Bahia)”, mas apagaram logo depois de suas contas no Twitter. Era a legitimização do EVIM e do “mito heroico” sempre presente na cosmovisão de extremistas.

No mês seguinte, um policial do Paraná em surto psicótico fez uma funcionária da empresa aérea Gol como refém, no saguão do aeroporto internacional de Guarulhos, e, após negociação, houve sua rendição. Mais recentemente, às vésperas das manifestações (golpistas) bolsonaristas no 7 de Setembro, um coronel da Polícia Militar do Estado de São Paulo − Aleksander Lacerda − foi afastado do comando da PM por desrespeitar o regulamento da corporação e postar publicamente ataques ao STF, ao governador do estado, João Dória Jr.,  e convocação para os atos.

A ameaça da extrema-direita infiltrada nas fileiras militares

       Jair Bolsonaro construiu sua carreira política como representante dos interesses das corporações militares. Hoje o Brasil ocupa a liderança no ranking de militarização do governo. Trata-se da democracia com mais militares ocupando cargos da administração pública; acima das Filipinas, que foi líder durante anos.  No “Dossiê Militarização”,[20] publicado em fevereiro de 2021, um levantamento realizado pela Secretaria Geral de Controle Externo do Tribunal de Contas da União, em julho de 2020, informou “que o número total de militares ativos e na reserva ocupando cargos civis no governo Bolsonaro era de 6.157 e que o referido número representava um aumento de 108,22% em relação a 2016 (TCU, 2020b). Esses militares estão atuando em cargos comissionados, por contratos temporários, e acumulando funções nas mais diferentes áreas da administração pública”.

O aparelhamento e a imiscuidade entre instituições de Estado e instituições de governo assumem um potencial maior de radicalização e EVIM quando os conceitos extremistas passam a fazer parte da crença dos indivíduos que as compõem, e agentes extremistas atuam no recrutamento de membros das forças militares não apenas no Brasil, mas em âmbito global. Na Alemanha, revelações de pontos de vista da extrema-direita nas forças armadas alemãs levaram à dissolução[21] de todo um pelotão de combate da unidade de forças especiais de elite − o KSK − em 2020 porque foi considerado irreversivelmente influenciado por conceitos extremistas.

No Canadá, também em 2020, Corey Hurren, um militar da reserva, jogou seu carro contra o portão da residência oficial do governador geral do Canadá, a Rideau Cottage. Investigações[22] apontaram que Hurren exibia um histórico de crenças nas teorias conspiratórias da extrema-direita.

No cerco ao Capitólio dos EUA, 43 dos 357 (12%) [23] indivíduos acusados pelos tribunais federais tinham experiência militar, sendo 93% veteranos e o restante oficiais da ativa. Além disso, 37% tinham alguma afiliação com as milícias políticas paramilitares, como a Oath Keepers e o Proud Boys. Após a divulgação dos relatórios pelas forças de segurança, Lloyd Austin, atual secretário de defesa que recentemente assumiu o Pentágono, ordenou que cada ramo das Forças Armadas se reunisse para discutir a ameaça representada pela supremacia branca e o extremismo dentro das forças armadas americanas. Mas esse não foi o único[24] caso de extremismo dentro das forças armadas americanas.

O atentado de terrorismo doméstico mais mortal da história dos EUA, em Oklahoma City, foi executado por um veterano da Guerra do Golfo, Timothy McVeigh. Em 2019, o tenente da Guarda Costeira, Christopher P. Hasson, foi acusado[25] de planejar ataques terroristas que incluíam o uso de armas biológicas. Hasson, um nacionalista branco, elaborou uma lista de alvos contendo jornalistas e políticos que deveriam ser mortos. Seu intuito era acelerar uma “guerra racial” e a subsequente formação de um etnoestado branco. Promotores do caso informaram que o terrorista havia estudado manuais de outros extremistas de direita, como o de Andrew Breivik, nos quais teorias como a do Marxismo Cultural, Globalismo e Eurábia estavam presentes.

As mesmas teorias, introduzidas no debate público por Olavo de Carvalho e seus alunos, formam parte do imaginário da extrema-direita bolsonarista. Num trabalho de conclusão de curso apresentado[26] para a Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, para a obtenção do título de Especialista em Ciências Militares, com ênfase em Defesa Nacional, Mateus Fernandes Brum discorre a respeito da teoria conspiratória do globalismo e o papel do Exército e cita como referências bibliográficas diversos teóricos da conspiração do ecossistema digital bolsonarista: “O Globalismo é uma ideologia e um movimento extremamente difuso. As definições em relação a este fenômeno são bastante diversas e, por vezes, possuem pontos de divergência. O mesmo é apresentado em um espectro que abrange desde uma simples confusão com a noção de globalização até o extremo de um Governo Mundial Totalitário”.

Evidencia-se, dessa forma, que a infiltração das ideias da extrema-direita dentro das forças militares não é algo que ainda ocorrerá, mas sim contemporâneo. No Brasil, o histórico de motins e insurreições de forças policiais militares em alguns estados acenderam o alerta dos governadores, porém relatórios de monitoramento a respeito de radicalização e extremismo dentro dessas fileiras não são de conhecimento público. Se existem, falta transparência por parte do poder público.

Alguns estudos[27] sugerem fatores que podem tornar militares mais suscetíveis à radicalização e potencialmente com resultados mais drásticos: estresse pós-traumático, efeitos cognitivos decorrentes da experiência em combates violentos como uma perda de sensibilidade perante a violência, a sensação de não serem valorizados e reconhecidos no seio de suas sociedades e pela opinião pública e até mesmo o próprio processo de “marcialização” podem influenciar na vulnerabilidade desses indivíduos à radicalização.

Um número crescente de atentados terroristas de extrema-direita e incidentes envolvendo militares que foram cooptados por conceitos extremistas levou vários países a encarar o problema da radicalização e extremismo (inclusive online) com mais seriedade e foco. Além dos EUA, que divulgaram o plano de estratégia nacional para o combate ao extremismo e solicitaram um monitoramento do extremismo infiltrado em suas forças armadas, a Alemanha criou e publicou recentemente o maior plano da história do país (e do mundo) para a prevenção contra a radicalização e o extremismo.

Em agosto deste ano, o governo alemão anunciou que investirá, entre 2021 e 2024, mais de um bilhão de euros para combater o extremismo, de forma geral, com foco no racismo e extremismo de direita. O Handbuch Extremismusprävention [28] (o manual de prevenção ao extremismo) contém impressionantes 756 páginas e apresenta 89 medidas de prevenção, divididas em sete capítulos, que foram produzidas por profissionais de várias áreas (sociólogos, psicólogos, juristas, Ministério da Defesa, pesquisadores e membros de comunidades vítimas de intolerância e extremismo) e reforça a necessidade de mais transparência em relação ao extremismo de direita dentro dos departamentos governamentais e das forças armadas, por meio de relatórios anuais obrigatórios, pesquisas sobre atitudes políticas, comentários e ações racistas, homofóbicas, antissemitas, anti-imigrantes e outras condutas odiosas.

Pede também uma expansão da cooperação entre as autoridades de segurança e a sociedade civil para, em conjunto, encontrarem soluções e uma abordagem cívica para a questão: maior alfabetização democrática, inclusão e cidadania digital.

A dimensão da ameaça em haver − dentro das forças militares − visões extremistas é ampliada em relação aos civis, pois trata-se de indivíduos com acesso a armas, treinamento tático e informações confidenciais e muitos agentes extremistas buscam exatamente essa gama de características para recrutar mais indivíduos aos seus grupos. Visões extremistas dentro dessas corporações também podem produzir um aumento na violência policial, em especial relacionado a atos racistas, além do risco real de motins e insurreições dentro das corporações.

Os danos, quando ocorre ação de extremismo violento ideologicamente motivado, são irreparáveis, porém, há outros danos que podem corromper o sistema democrático legal e, no limite, conseguir estabelecer uma forma autocrática de sistema.

Um extremista possui uma cosmovisão que desconsidera as regras do Estado Democrático de Direito, em particular a ideia de direitos humanos e o princípio do pluralismo, ou seja, rejeita a variedade legítima de interesses, pontos de vista e opiniões que a Constituição salvaguarda.

A crença – ao extremo − em teorias conspiratórias com visões apocalíticas de final dos tempos, por exemplo, conduz ao entendimento de estarem travando uma suposta guerra espiritual e que dessa batalha depende a sobrevivência da “civilização cristã, atuando na formação de bodes expiatórios que podem ser personificados como inimigo em um indivíduo específico (como por exemplo as teorias contra o bilionário húngaro George Soros) até um conjunto de pessoas, instituições ou todo um sistema político.

  Deus Vult

A primeira frase que o assessor da Presidência da República para assuntos internacionais, Filipe Martins, escreveu em sua conta na plataforma Twitter no dia da posse de Jair Bolsonaro foi “A nova era chegou! É tudo nosso! Deus Vult!”.

As duas expressões, “Deus Vult “ e “A Nova Era”, ainda não eram conhecidas do público brasileiro em geral, mas há anos já eram compartilhadas na bolha virtual da direita (também internacional). Nas últimas décadas a extrema-direita procura meios mais sofisticados para ampliar seus conceitos e mensagens e assim se dissociar da imagem reacionária e racista. Símbolos e slogans específicos são utilizados com mais frequência do que discursos que deixem em evidência suas reais intenções e visões de mundo.

“Deus Vult” (“Deus quer”) faz referência ao grito do povo em resposta ao Papa Urbano II quando foi anunciado o início da Primeira Cruzada pelo pontífice (1095) e agrega para os extremistas a noção de defesa do Cristianismo contra supostas ameaças. Dentro desse pensamento místico, alguns membros da extrema-direita se enxergam como novos Cavaleiros Templários e acreditam que suas ações (consequentemente os resultados delas, não importando os meios utilizados) estão conectadas com a vontade de Deus. Dessa forma são, segundo eles, moralmente superiores aos seus opositores.

Nessa “guerra santa” e cultural, o inimigo é – segundo eles – insidioso, corrompe a Igreja e a sociedade desde dentro e através do (teoria conspiratória) marxismo Cultural. Até que ponto esse discurso foi infiltrado nas comunidades católicas e pentecostais do Brasil ainda é pesquisa a ser feita, mas a captura dessas comunidades pelo bolsonarismo é refletida em números.

Jair Bolsonaro, mesmo distante em comportamentos e discursos dos preceitos cristãos, conseguiu uma vantagem eleitoral de 11 milhões de votos a mais entre evangélicos do que o seu adversário no segundo turno, Fernando Haddad. Nas manifestações governistas do 7 de setembro, discursos de pastores verbalizaram parte das teorias que regem o imaginário do bolsonarismo assim como profecias a respeito de um apocalipse iminente. Se no Brasil o ativismo da direita radical cristã emergiu como um tsunami repleto de mentalidade conspiratória somente nos últimos anos, nos EUA é uma realidade desde o final da década de 1970, com o movimento do fundamentalista Jerry Falwell, o Moral Majority, vetor importante na eleição de Ronald Reagan.

A maioria moral

    No senso comum estabeleceu-se como marco inicial do ativismo da direita religiosa americana o caso Roe versus Wade, decisão da Suprema Corte na qual o Tribunal decidiu sobre a legalização do aborto em 1973. Mas foi somente no final daquela década e após o caso Green versus Connally – a respeito da não isenção de impostos para escolas segregadas – é que se deu início ao ativismo cristão nos EUA e a criação da Moral Majority.

     Anos antes, a Suprema Corte dos Estados Unidos havia proferido a histórica decisão sobre a segregação racial no caso Brown versus Board of Education (1954). O Tribunal considerou que “as instalações educacionais separadas são inerentemente desiguais” e nos anos seguintes os tribunais americanos tiveram que enfrentar as várias estratégias do Sul do país destinadas a evitar (ou postergar) a transição de escolas públicas segregadas para escolas públicas integradas.

Uma dessas estratégias foi a criação de academias e escolas privadas racialmente segregadas. Em 1969, por exemplo, o número de alunos brancos matriculados nas escolas da rede pública no condado de Holmes caiu de 771 para 28; no ano seguinte, esse número caiu para zero (BALMER, 2021).[29]

Nesse mesmo ano, um grupo de pais afro-americanos, no Mississippi, processou o Departamento do Tesouro para impedir que três novas academias privadas segregadas garantissem isenção total de impostos, argumentando que suas políticas de segregação impediam o status de entidades de caridade (portanto, isentas de impostos). Em 1971, a decisão em Green versus Connally deferiu o fim da isenção para instituições privadas que praticavam segregação.

No período de transição, o Internal Revenue Service (IRS), principal órgão da lei tributária federal, enviava questionários para as academias vinculadas à Igreja que praticavam a segregação racial, incluindo a escola de Jerry Falwell, Lynchburg Christian School (a atual Liberty Christian Academy no estado da Virgínia), o que o levou à fúria e, sob o argumento de “liberdade religiosa”, vociferou em sua rede televangelista que “era mais fácil abrir uma casa de massagens do que uma escola cristã” mas deixava desconhecida do seu público a motivação financeira e racial de sua fúria.

Quando outra universidade fundamentalista com segregação racial, a Bob Jones University, foi despojada do status de isenção de impostos, líderes evangélicos e cristãos radicais decidiram que era a gota d’água e deram início ao ativismo da direita religiosa. Enquanto Falwell lançou seu movimento com o auxílio de outro baluarte cristão, Paul Weyrich, a Moral Majority, reuniu milhares de padres, pastores e rabinos e teve ramificações até no Brasil através das suas conexões com TFP – Tradição, Família e Prosperidade.

Segundo o pesquisador Benjamin Arthur Cowan,[30] Weyrich esteve pelo menos quatro vezes no Brasil para palestras e reuniões com os líderes da TFP, Plínio Corrêa de Oliveira e Mario Navarro da Costa (representante da TFP em Washington); e a unificação dos discursos dessa nova direita cristã transnacional firmou-se em temas como “defesa da família tradicional”, contra o aborto, contra o Concílio Vaticano II, o anticomunismo, contra direitos dos homossexuais e contra a mudança na ordem social não mais hierarquizada por gênero; todas as pautas também do bolsonarismo e da far-right internacional. Mas um ponto específico tornou-se foco do ativismo da direita religiosa: aumentar a participação de religiosos na Suprema Corte para, dessa forma, salvar da suposta decadência secularista a “civilização judaico-cristã “ e a América.

O DOMINIONISMO

“Deus acima de tudo”. “Não tem essa historinha de Estado laico, não. O Estado é cristão e a minoria que for contra, que se mude. As minorias têm que se curvar para as maiorias” – Jair Bolsonaro.[31]

“Sustentem esse homem, apoiem-no. Deus falou que os dois primeiros anos dele não seriam fáceis. Mas foi Deus quem o escolheu.”[32]

A ideia de que as Escrituras deram o domínio sobre a Terra para os cristãos e que, portanto, eles devem tomar as rédeas da sociedade secular para implementar um estado teocrático surgiu nos anos 70 nos EUA com o fundamentalista Rousas John Rushdoony (que serviu de inspiração para o movimento do homeschool cristão) e hoje permeia parcela relevante da extrema-direita religiosa. Numa leitura pervertida do Antigo Testamento, Rushdoony afirmava que os cristãos, e somente os cristãos, seriam soldados de Deus para ocupar todas as instituições seculares até o retorno de Cristo.

Chip Berlet e Frederick Clarkson, especialistas sobre movimentos de extrema-direita, divide o Dominionismo (ou teonomia) em duas correntes, uma mais forte e extremista, o Reconstrucionismo Cristão que “busca substituir o governo secular e, subsequentemente, a Constituição, por um sistema político e judicial baseado na Lei do Antigo Testamento” e uma versão suave. As principais características, segundo os autores, são: “Os dominionistas celebram o nacionalismo cristão, pois acreditam que os Estados Unidos já foram, e devem ser, mais uma vez, uma nação cristã”.

Dessa forma, eles negam as raízes iluministas da democracia americana. Os dominionistas promovem a supremacia religiosa, na medida em que geralmente não respeitam a igualdade de outras religiões, ou mesmo outras versões do cristianismo, e endossam visões teocráticas, na medida em que acreditam que os Dez Mandamentos, ou “lei bíblica”, devem ser o fundamento da lei americana, e que a “Constituição dos Estados Unidos deve ser vista como um veículo para a implementação dos princípios bíblicos” (BERLET,CLARKSON-2005).[33]  Longe de ser um movimento periférico, o dominionismo mobiliza a extrema-direita religiosa na esfera política americana e forneceu base para a revolta populista de direita radical, o Tea Party, sendo representado principalmente pela fundamentalista Sarah Palin e pelo o senador republicano Ted Cruz, e está presente no Brasil através de representantes de algumas congregações neopentecostais.

Em 2009, foi realizado no Brasil o primeiro Congresso dos 7 Montes, relativo à teoria dominionista das sete montanhas: “A cultura é moldada por sete esferas ou montanhas na sociedade. Se pudermos influenciar cada uma dessas esferas para Cristo, venceremos a cultura de nossa nação”.[34] As montanhas seriam a mídia, governo, educação, economia, religião, entretenimento e família. Ao conquistar essas áreas de influência, seria então possível levar uma nação para o reino de Deus. A duas faces mais visíveis da influência do dominionismo no governo do Brasil é o pastor conselheiro de Jair Bolsonaro, líder da Igreja Internacional da Graça de Deus, R. R. Soares, e a ministra Damares Alves.

O alcance da infiltração dessas crenças é tal que abrange desde comunidades evangélicas a católicas, apesar da oposição do Vaticano. Em 2017, a revista jesuíta La Civiltà Cattolica, editada em Roma, publicou um artigo[35] de Antonio Spadaro e Figueroa condenando e alertando aos perigos do que eles chamaram de “ecumenismo fundamentalista”. Referindo-se ao ecumenismo entre fundamentalistas evangélicos dominionistas e integralistas católicos, reunidos pelo mesmo desejo de influência religiosa na esfera política, ele afirma “que promovem um ecumenismo de conflito que os une no sonho nostálgico de um tipo teocrático de estado”, cuja perspectiva mais perigosa poderia “ser atribuída à sua visão xenófoba e islamofóbica que deseja paredes e deportações purificadoras”. Ressaltaram “que o elemento religioso nunca deve ser confundido com o político.

Confundir poder espiritual com poder temporal significa sujeitar um ao outro”. Ainda no artigo, afirmaram que “o Papa Francisco rejeita radicalmente a ideia de ativar um Reino de Deus na terra como estava na base do Sacro Império Romano e de formas políticas e institucionais semelhantes, inclusive no nível de um ‘partido’” e criticaram também o nacionalismo cristão – “uma estrutura cultural, uma coleção de mitos, tradições, símbolos, narrativas e sistemas de valores que idealiza e defende uma fusão do cristianismo com a vida cívica de um país” (WHITEHEAD, PERRY 2020)[36] − crescente em países nos quais houve a ascensão dos populistas de direita radical na última década (Polônia, Brasil, Hungria, Índia e EUA). Para Spadoro e Figueroa, “as raízes cristãs de um povo nunca devem ser entendidas de maneira étnica e o etnicismo triunfalista, arrogante e vingativo é, na verdade, o oposto do Cristianismo”.

O artigo finaliza com uma declaração do Papa Francisco que, em tese, deveria desmontar as narrativas hereges e apocalípticas dos dominionistas, integralistas e nacionalistas cristãos − “Sim, a Europa tem raízes cristãs. O cristianismo tem o dever de regá-las, mas com espírito de serviço, como no lava-pés. O dever do Cristianismo para a Europa é o de servir”porém, não os desmobilizou.

Na esteira da ascensão de líderes populistas que tentam minar, por dentro, as Democracias Liberais, transformado-as em Democracias Iliberais, através do processo de legalismo autocrático, os intelectuais orgânicos da direita radical assumiram o papel de coveiros do Liberalismo. Diariamente, o ecossistema de mídia da far-right internacional traz obituários da ordem liberal e uma espantosa defesa do “integralismo cristão” como alternativa para o fim do conflito perpétuo entre cristãos e o secularismo da modernidade.

Enquanto Patrick Deneen,[37] teórico político conservador da Universidade de Notre Dame, aconselhou em seu livro “Por que o Liberalismo fracassou?” os católicos abandonarem a vida política nacional e se concentrar nas comunidades locais (localismo), veio de um renomado jurista, professor de direito na Harvard Law School, uma assombrosa defesa, e proposta, do integralismo cristão como nova ordem político-social.

Em nome da lei, de Deus

O Integralismo Católico rejeita radicalmente o secularismo, pois, na sua cosmovisão, “o homem tem um fim temporal e um fim eterno. Há dois poderes que o governam: um poder temporal e um poder espiritual. E, visto que o fim temporal do homem está subordinado ao seu fim eterno, o poder temporal deve estar subordinado ao poder espiritual”.[38] Em outras palavras, o integralismo sustenta que a Democracia Liberal é incompatível com a Igreja Católica, e o Estado não deve ser separado do Cristianismo em nenhuma esfera, nem mesmo jurídica.

Apelos pelo integralismo católico antes restritos às franjas da extrema-direita conservadora americana saíram das sombras com a defesa de um dos maiores (até recentemente) juristas americanos, o conservador recém-convertido Adrian Vermeule, professor de direito em Havard. Em 2020, num artigo[39] para a revista The Atlantic, Vermeule propôs o que ele chama de Constitucionalismo do Bem Comum: os conservadores deveriam abordar a interpretação constitucional com uma leitura moral subjetiva (cristã) e defendeu o uso do poder do Estado para promover o “bem comum” (e o que é o bem comum seria decidido pelos próprios juristas cristãos).

Segundo Vermeule, “O Estado deve desfrutar de autoridade para refrear as pretensões sociais e econômicas dos liberais urbanistas que tantas vezes colocam as suas próprias satisfações (financeiras e sexuais) e o bem da sua classe ou meio social acima do bem comum. Seu constitucionalismo do bem comum rejeita o liberalismo enquanto filosofia política, preferindo a hierarquia ao igualitarismo e a autocracia aos direitos individuais. O moderno Estado-nação secular é preterido em favor de algo mais parecido, talvez, com os Estados confessionais” (STEFFENS, BARRETO LISBOA 2020).[40]

Se o leitor pensou em teocracia, está correto. Não seria alarmante, caso a proposta estivesse restrita aos círculos marginais da extrema-direita. Porém, proeminentes intelectuais conservadores da direita radical americana como R.R. Reno, editor da revista católica First Things, saíram em defesa de Vermeule, assim como políticos do Partido Republicano e atualmente é um projeto da Universidade de Oxford – o Common Good Project.[41] No Brasil, a admiração por Adrian Vermeule e suas ideias radicais não se resumem às fileiras bolsonaristas. Formadores de opinião da direita “moderada” e antibolsonaristas são grandes propagandistas e admiradores de Vermeule.

O enraizamento dos conceitos e teorias da extrema-direita no debate público pode nos trazer desde extremismo doméstico ideologicamente motivado até um país com tribunais repletos de juízes “terrivelmente evangélicos” que farão a leitura da Constituição baseados em suas crenças religiosas, como deseja Jair Bolsonaro e muitas correntes da direita brasileira, incluindo as não bolsonaristas.

NOTAS DE RODAPÉ

 

[1] Pesquisa publicada pelo Atlas Intel demonstra que, apesar do alto índice de rejeição, 32% aprovam o governo de Jair Bolsonaro – Coleta de dados entre 30 de Agosto e 4 de Setembro de 2021. Disponível em https://atlasintel.org/poll/brazil-national-2021-09-06

[2] A Manosfera é um conglomerado de movimentos misóginos (Incels, MGTOW, PUAS, MRA’s) baseados na web e focados nas “questões masculinas”.

[3] Relatório completo do National Strategy for Countering Domestic Terrorism está disponível em https://int.nyt.com/data/documenttools/biden-s-strategy-for-combating-domestic-extremism/22ddf1f2f328e688/full.pdf

[4] “This is Our House!” A Preliminary Assessment of the Capitol Hill Siege Participants – Program on Extremism – The George Washington University – Relatório completo disponível em https://extremism.gwu.edu/sites/g/files/zaxdzs2191/f/This-Is-Our-House.pdf

[5] Global Terrorism Index 2020 − disponível em https://www.visionofhumanity.org/wp-content/uploads/2020/11/GTI-2020-Briefing.pdf

[6] O Partido Social Liberal – PSL – formou a segunda maior bancada da Câmara ao eleger 52 deputados federais. Ver em https://www.gazetadopovo.com.br/politica/republica/eleicoes-2018/partido-de-bolsonaro-elege-52-deputados-federais-e-vira-a-2-maior-bancada-da-camara-2t7hlkoocmgrixf985wdmeasf/

[7] Ver em https://veja.abril.com.br/politica/se-urna-fosse-confiavel-eleicao-teria-sido-decidida-hoje-diz-bolsonaro/

[8] BERGMAN, Eirikur − The Eurabia Conspiracy Theory,  2021. Disponível em https://www.academia.edu/46963780/The_Eurabia_Conspiracy_Theory,

[9] Audit of Antisemitic Incidents 2020 – Disponível em https://www.adl.org/audit2020

[10] PRADO, Michele – Tempestade Ideológica – Bolsonarismo: A Alt-Right e o Populismo Iliberal no Brasil – 2021 (Editora Lux).

[11] LEE, Benjamim – Radicalisation and Conspiracy Theories. London: Taylor & Francis Group, 2020.

[12] LEWANDOWSKY, Stephan; COOK, John. The Conspiracy Theory Handbook. Center for Climate Change Communication. 2020. Disponível em: https://www.climatechangecommunication.org/wp-content/uploads/2020/03/ConspiracyTheoryHandbook.pdf

[13] Fundacion Disenso – Disponível em https://fundaciondisenso.org/carta-de-madrid/

[14] Before Trump, South Korean Conservatives Also Claimed a ‘Stolen’ Election

https://thediplomat.com/2020/11/before-trump-south-korean-conservatives-also-claimed-a-stolen-election/

[15] Desinformationskampagnen gegen die Wahl: Befunde aus Sachsen-Anhalt Nora Mathelemuse und Julia Smirnova – ISD GLOBAl – 2021 – https://www.isdglobal.org/isd-publications/desinformationskampagnen-gegen-die-wahl-befunde-aus-sachsen-anhalt/

[16] Bia Kicis: “Voto auditável é para tornar a urna mais segura” − https://www.youtube.com/watch?v=GrpKalgCwE8

[17] BirdWacth – https://blog.twitter.com/en_us/topics/product/2021/introducing-birdwatch-a-community-based-approach-to-misinformation

[18] Cynthia Miller-Idriss é uma autora premiada e estudiosa do extremismo e da radicalização. Ela dirige o Laboratório de Pesquisa e Inovação de Polarização e Extremismo (PERIL) no Center for University Excellence (CUE) da American University em Washington, DC, onde também é professora na School of Public Affairs e na School of Education. A Dra. Miller-Idriss testemunhou perante o Congresso dos EUA e regularmente informa agências de política, segurança, educação e inteligência nos EUA, nas Nações Unidas e em outros países sobre as tendências do extremismo violento doméstico e estratégias para prevenção e desligamento. Ela atua no conselho consultivo internacional do Centro de Pesquisa sobre Extremismo (C-REX) em Oslo, Noruega, e é membro do Comitê Consultivo de Rastreamento de Ódio e Extremismo do Southern Poverty Law Center (SPLC). Autora de vários livros, entre eles “Hate in The Homeland – The New Global Far Right” e “The Extreme GoneMainstream”.

[20] DOSSIÊ: MILITARIZAÇÃO DO GOVERNO BOLSONARO E INTERVENÇÃO NAS INSTITUIÇÕES FEDERAIS DE ENSINO – Andes Sindicato Nacional – Disponível em https://www.andes.org.br/diretorios/files/renata/abril2021/DossieMilitarizacao.pdf

[21] KSK: German special forces company dissolved due to far-right concerns – Disponível em https://www.dw.com/en/ksk-german-special-forces-company-dissolved-due-to-far-right-concerns/a-54386661

[22] Investigating the Radical Right’s Presence in the Military – Center for Analisys of the Radical Right (CARR) – Disponível em https://www.radicalrightanalysis.com/2020/08/17/investigating-the-radical-rights-presence-in-the-military/

[23] This is War – Examining Military Experience Among the Capitol Hill Siege Participants – Program On Extremism- The George Washington University – Relatório completo disponível em https://extremism.gwu.edu/sites/g/files/zaxdzs2191/f/This_is_War.pdf

[24] Os EUA exibem um longo histórico de relação e infiltração extremista nas forças armadas. Kathleen Belew analisa o movimento White Power e as milícias paramilitares em seu livro Bring The War HomeThe White Power Movement and Paramilitary America 2018 Havard University Press.

[25] Coast Guard Officer Plotted Terror Attacks at His Desk – Disponível em https://news.e-servicis.com/news/tech/judge-denies-request-to-free-coast-guard-officer-accused-of-mass-murder-plot-1.1T/

[26] O Globalismo e o papel do Exército Brasileiro − Maj Cav MATEUS FERNANDES BRUM DA SILVA – Disponível em https://bdex.eb.mil.br/jspui/bitstream/123456789/6096/1/MO%206166%20-%20BRUM.pdf

[27] Håvard Haugstvedt & Daniel Koehler (2021): Armed and Explosive? An Explorative Statistical Analysis of Extremist Radicalization Cases with Military Background, Terrorism and Political Violence, DOI: 10.1080/09546553.2021.1957675 – Disponível em : https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/09546553.2021.1957675

[28] Manual completo disponível no link  https://www.bka.das-richtige-machen.de/SharedDocs/Downloads/DE/Publikationen/Publikationsreihen/PolizeiUndForschung/1_54_HandbuchExtremismuspraevention.html

[29] BALMER, Randall – Bad Faith: Race and the Rise of the Religious Right – 2021 – (Editora Eardmans)

[30] COWAN, Benjamin Arthur – A hemispheric moral majority: Brazil and the transnational construction of the New Right – Revista Brasileira de política internacional 61 (2) 2018  https://doi.org/10.1590/0034-7329201800204

[31]  Disponível em https://noticias.gospelmais.com.br/jair-bolsonaro-brasil-estado-cristao-contra-se-mude-88394.html

[32] Discurso do pastor congolês Steve Kunda compartilhado na conta oficial de Jair Bolsonaro no twitter em 19/05/2019.

[33] BERLET, Chip e CLARKSON, FREDERICK – The Rise of Dominionism Remaking America as a Christian Nationn – 2005 – Disponível em http://www.politicalresearch.org/sites/default/files/2018-10/PE-Winter-2005.pdf

[34] ENLOW, Johnny – The Seven Mountain Prophecy: Unveiling the Coming Elijah Revolution – Creation House (2015)

[35] EVANGELICAL FUNDAMENTALISM AND CATHOLIC INTEGRALISM: A SURPRISING ECUMENISM – Spadaro e Figueroa – Disponível em https://www.laciviltacattolica.it/articolo/evangelical-fundamentalism-and-catholic-integralism-in-the-usa-a-surprising-ecumenism/

[36] WHITEHEAD, Andrew L. e  PERRY, Samuel L. – TAKING AMERICA BACK FOR GOD – 2020 ( Oxford University Press)

[37] DENEEN, Patrick – Por que o liberalismo fracassou? – 2020 – Editora Ayne

[38] Integralism in Three Sentences –  Disponível em https://thejosias.com/2016/10/17/integralism-in-three-sentences/

[39] Beyond Originalism -The dominant conservative philosophy for interpreting the Constitution – Disponível em

[40] Nikolay Steffens e Wladimir Barreto Lisboa − As duas faces do decisionismo: constitucionalismo do bem comum e democracia iliberal – 2020 − doispontos: Curitiba, São Carlos, volume 17, número 2, p. 170-187, dezembro de 2020. ISSN 2179-7412.

DOI: 10.5380/dp.v17i2.74235

[41] Common Good Project – Disponível em https://www.law.ox.ac.uk/research/common-good-project

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *