Andy Warhol encontra (e tropeça em) Lima Barreto

Andy Warhol encontra (e tropeça em) Lima Barreto

Francisco Rohan de Lima

Francisco Rohan de Lima, 66 anos, é advogado no Rio de Janeiro, escritor, autor de A Razão Societária (Renovar, 2015), obra de ensaios jurídicos; foi a primeira pessoa a entrevistar Susan Sontag para um jornal brasileiro.

Em 1968, apareceu pela primeira vez a frase atribuída a Andy Warhol (1928-1987), o célebre artista, maior figura da pop art, e que profetizava: “No futuro, todos serão famosos por quinze minutos”. Hoje, a frase soa óbvia. Literalmente todo mundo usa essa frase, mesmo na sua versão resumida: “Quinze minutos de fama”. Mas, mesmo em 68 – ano agitado aquele, cheio de frases, slogans e palavras de ordem –, a frase chocava e mereceu tornar-se um lugar comum internacional. Está em canções, filmes, livros e, todos os dias, em algum jornal do planeta.

Primeiro, pela ideia aparentemente original. Segundo, pela ironia que contém. Pode ser também falada, escrita ou interpretada com euforia e sarcasmo.  Terceiro, pelo aspecto profético: tornou-se conhecida em 1968 e hoje, devido à massificação da arte, à internet e ao mundo de celebridades e subcelebridades instantâneas, faz parte da realidade cultural e da indústria do entretenimento.

Quanto à autoria, todavia, a frase é mal atribuída a Warhol. O diretor do Museu de Arte de Estocolmo, Suécia, um sujeito chamado Pontus Hultén, devia preparar o programa de uma exposição de Andy Warhol no museu em 1968 e, por sua conta, teria criado a frase e atribuído a Warhol. Questionado por Olle Granath, redator do programa, Hultén teria dito: “Ok, a frase não foi pronunciada ou escrita por Andy Warhol, mas ele poderia perfeitamente tê-lo feito”, e tascou a frase no programa da exposição.

Há uma segunda versão. O fotógrafo, ativista de direitos civis e aventureiro norte-americano, Nat Finkelstein, alegava que, em 1966, estava fotografando Andy Warhol para um livro, e muitas pessoas queriam participar da foto. Na ocasião, Warhol teria comentado: “Todos querem ficar famosos”, ao que Finkelstein teria adicionado: “Sim, por cerca de quinze minutos, Andy”.

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Na pesquisa que fiz há, ainda, referências do século XVI a “Nine days wonder”, uma frase intraduzível atribuída a um ator shakespeariano, que teria realizado a proeza de dançar cem milhas em nove dias. Mas o sentido nesse caso é muito distante da ideia contida na frase atribuída a Andy Warhol.

Pois bem, estava posto em sossego, quando relia o nosso Lima Barreto, em “O triste fim de Policarpo Quaresma”, e levei um susto ao deparar-me com a seguinte frase: “Houve um em Niterói que teve seu quarto de hora de celebridade” e prossegue: “… Os jornais dotempo ocuparam-se com ele… Um herói!Passou a revolta e foi esquecido...”. Num primeiro momento, pensei que algum editor mais contemporâneo pudesse ter “atualizado” Lima Barreto, trazendo seu texto clássico para uma dicção mais moderna, ou algo assim. Fui depressa à primeira edição, publicada em 1915, pela Revista dos Tribunaes, e a frase estava lá desde sempre… brilhando.

Com os diabos, uma ideia atravessa a cabeça de um gênio brasileiro no começo do século XX, que lhe dá contexto, associa-lhe a palavra “celebridade”, dominante na conversa popular de nossos dias, refere-se à mídia impressa, e vem repousar na suposta autoria de Andy Warhol, que pode ter sequer cogitado ou pensado em dizer ou escrever a frase.

Lima Barreto acertou não apenas o sentido. Não fez uma profecia. Fez uma constatação (“Passou a revolta e foi esquecido”, assinalou). A fama, ele deixa claro, já podia ser efêmera em 1915, quando a escreveu em livro. Mas acertou também até o tempo de brilho e de fama: 15 minutos! Um “quarto de hora” ele escreveu e… cravou.

Lima Barreto, que viveu entre 1881 e 1922 no Rio de Janeiro, publicou “Policarpo” em 1915, em livro. É uma sátira poderosa e irretorquível sobre o Brasil, infelizmente uma melancólica fotografia confirmada do que somos. O nepotismo, o clientelismo, o fisiologismo, as mamadas nas tetas de um Estado falido. Está tudo ali. Escorre do livro esse país de elites precárias. Quanto mais oficial, mais cafona, mais hipócrita, mais arbitrário, patriarcal, mais excludente. “Policarpo” poderia ter sido escrito hoje. Um gênio da raça, esse Lima Barreto. Com o temperamento difícil, debilitado, morreu ignorado e incompreendido, rejeitado três vezes pela Academia Brasileira de Letras. Vem sendo resgatado e cada vez mais reconhecido com o passar dos anos, graças ao seu estilo moderno de escrita e uma combatividade incansável, crítica e incontornável.

Sua biógrafa Lilia Schwarcz, em obra notável, “Lima Barreto, triste visionário”, nos conta que “Policarpo” foi o livro que Lima Barreto “apostou mais”. Acrescenta que “Lima tinha urgência, e a recepção dos jornais ficava aquém do que ele esperava e projetava”. Schwarcz recolheu do diário do escritor esta anotação feita em março de 1916: “O carnaval passou… e[os jornais]não têm tempo de falar no meu livro”. O escritor era alcoólatra e foi submetido duas vezes a internações psiquiátricas. Morreu em casa, aos 41 anos, de um ataque cardíaco.

Sim, afinal, uma história triste. Nada de 15 minutos de fama para Lima Barreto – o mundo vai continuar atribuindo sua frase a Andy Warhol – porém, uma mais longa lembrança de leitores agradecidos, que ele jamais sonharia ter.

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