Antinomia Atatürk ou o bósforo sob a sombra do Kemal e dos eternos gatos vadios de Istambul

Antinomia Atatürk ou o bósforo sob a sombra do Kemal e dos eternos gatos vadios de Istambul

Marcio Scalercio, Historiador

 

Muito antes

 

Ao longo do tempo, dos confins da Ásia, espalharam-se pelo mundo antigo diferentes ramos do povo turco. Os kipshack, danishmend, seldjuk, quirguizes, karamanianos, uzbeques, turcomanos, uigurs, otomanos e, para terminar, acrescentamos um vasto etc. As tribos turcas, que andavam de cá para acolá, nômades empedernidos, empregaram-se como mercenários prestando serviço em prol de todos aqueles que pudessem pagar. Belicosos e atrevidos, combatiam montados em cavalos pequenos, à moda da estepe, manejando mortais arcos compósitos. Foram empregados pelos califados árabes, pelos basileus bizantinos e os cruzados francos, quando estes estabeleceram seus potentados no Oriente Médio, e curvavam-se à necessidade de contar sempre com alguns esquadrões de cavalaria ligeira, denominados “turcopolos”.

 

Insight Inteligência - artigos e ensaios fora da curva

Não tardou para que os sultões e khans dos turcos ensaiassem carreiras solo. Abandonando o vaivém nômade, instalaram-se em territórios nas orlas do mar Negro e do Mediterrâneo, constituindo Estados próprios. A maioria dos turcos abandonou seus antigos cultos religiosos tradicionais e adotou o Islã sunita. Tomados pela empolgação dos recém-convertidos, adicionaram sangue novo à religião abraçando com fervor a condição de defensores da fé. Logo os califas árabes e os líderes da Pérsia sujeitaram-se à tutela militar dos sultões turcos. Estes não se quedaram inertes em relação aos cristãos. O vetusto Império Bizantino sentiu o tranco do poderio militar dos turcos de Seldjuk em Manzikert, no ano de 1071, quando o sultão Alp Arslan liquidou completamente um exército imperial na Anatólia. Desde então, acelerou-se o processo de modificação demográfica da Anatólia em favor dos turcos. As tribos foram se espalhando, arrebatando as antigas cidades e mudando seus nomes. Quebraram imagens, gregas ou cristãs, queimando ícones ortodoxos, convertendo igrejas orientais em mesquitas e ergueram nos flancos dos prédios sagrados esguios minaretes. Apagavam os vestígios dos povos de antanho, fazendo da península um mundo completamente turco. Os gregos persistiram dominando cidades no litoral do Mediterrâneo. Porém, nem isso seria para sempre.

 

Os pontentados liderados por diferentes tribos turcas se sucederam na Anatólia, até que, em meados do século XIII, ocorreu a ascensão meteórica dos turcos otomanos liderados pelo clã Osmanli. A escalada para o poder dos otomanos foi rápida, porém não isenta de contratempos e percalços. O pior deles deu-se em 1402, quando a Horda de Ouro liderada pelo líder turco-mongol Timur Khan – conhecido por nós, falantes da língua portuguesa, como Tamerlão – adentrou a Ásia Menor e desafiou o poderio do sultão Bayezid I Osmanli. O sultão reuniu seu exército sentindo muita confiança, pois seus guerreiros eram experimentados e haviam obtido alguns bons sucessos combatendo na Europa. Porém, a Horda de Ouro liquidou as tropas otomanas na Batalha de Ancara e, como a cereja que coroou a catástrofe, o próprio Bayezid foi capturado.

 

Tamerlão concebeu um modo peculiar de hospedar seu prisioneiro ilustre. Ordenou que seus ferreiros manufaturassem uma pequena gaiola de ferro que pudesse, por meio de uma corrente, ser suspensa até o alto de suas tendas ou nos tetos abobadados de seus palácios. Durante os festins, leituras de poesia, recepção de embaixadores e banquetes, o Khan considerava indispensável a presença de Bayezid, devidamente engaiolado, balouçando sobre as cabeças dos convivas. O sultão veio a falecer no ano seguinte, 1403, e os criados de Tamerlão deram um sumiço no corpo e na gaiola.

 

Pouco tempo depois, com a morte de Tamerlão Khan, o poder da Horda de Ouro desvaneceu, permitindo que os otomanos lambessem suas feridas, empossassem um novo sultão e reiniciassem sua senda imperial.

 

 

anteontem

 

Istambul, que já foi Constantinopla, é, desde o século XV, tão turca quanto um kebab. Mehmet II, sultão da dinastia turco-otomana dos Osmanlis, precipitou-se contra a cidade com todo o poderio militar que logrou amealhar. Os historiadores, quando tentam ser fiéis ao realismo, costumam ser modestos nos números, nos tamanhos, nas magnitudes. O sultão não sitiou a cidade dos últimos césares com um milhão de homens, como dizem os cronistas antigos. Oitenta mil soldados – o número realista – estava de bom tamanho.

 

Dentre eles, perfilavam os janízaros, escravos soldados do sultão, que formavam a elite do exército; os spahis, isto é, a cavalaria turca sustentada por “feudos” na Ásia Menor; os azaps, recrutados entre as populações turcas tornadas camponesas da Anatólia; os bashi-bazouks, muçulmanos devotos prontos para o martírio; além de uma multidão de escravos e voluntários, gente maltrapilha que seguiu o exército nutrindo expectativas quanto a um belo saque, ou a obtenção de um lote para começar vida nova na cidade. O sultão tinha consigo também uma esquadra respeitável e potente artilharia de sítio. Montou um cerco total. Nem mesmo os eternos gatos vadios de Constantinopla, ardilosos como um Ulisses de Homero, seriam capazes de encontrar uma brecha no anel mortal que se fechava sobre a cidade. Para eles, o jeito foi procurar esconderijos seguros para escapar dos panelões dos sitiados no momento em que o desespero da fome apertasse, situação que invariavelmente convertia carne de felino em petisco muito apreciado.

 

Constantinopla, nos tempos do cerco otomano, 1453, exibia sinais de veemente decadência. A população da cidade diminuíra, bairros inteiros se achavam abandonados, matagal tomava conta dos terrenos e muitas casas estavam em petição de miséria. Cidades possuem personalidade e opinião. Constantinopla foi erguida para ser a capital orgulhosa de um poderoso império. A Segunda Roma é a guardiã do estreito do Bósforo e do mar de Mármara, é a ponte entre a Europa e a Ásia. Habituada a ser festejada e reverenciada em todo o Velho Mundo, convivia muito mal com sua decadência. Os romanos fundadores haviam se tornado fantasmas, e os gregos, herdeiros do império do Oriente, perderam seu brilho e degradaram-se à condição de sombra. Constantinopla lembrava-se do luxo e da pompa imperial. As cidades nada esquecem. Não ficaria surpreso ao perceber que Constantinopla, do alto de suas torres e paredões, lançasse olhares lânguidos e convidativos na direção do sultão que a sitiava.

 

Convém lembrar que as cidades, especialmente as mais antigas, nunca traem de véspera. A primeira traição é sempre maquinada pelos seus moradores. Os gregos, ao perderem a pompa imperial, descuidaram da cidade. Constantinopla, que nada queria saber quanto a cenários geopolíticos, só atentava para a sua condição. Quando a metrópole finalmente caiu nas mãos dos atacantes, Mehmet II providenciou para que a cidade fosse repovoada. Distribuiu lotes entre artesãos e mercadores. Convocou arquitetos para a construção de palácios, quiosques e mesquitas. Trouxe para junto de si seus paxás (pashas), beis (beys), beyler-beys, agás (agas) e mulás (mulahs). Estimulou que as ordens de dervixes se instalassem na cidade. Ao tornar-se Istambul, Constantinopla alegremente trocou o manto púrpura desbotado e puído do império fantasma pelas vestes de seda das odaliscas do harém. Os turcos reconstruíram as casas, recauchutaram as muralhas e enfeitaram o chão de suas moradas com deslumbrantes tapetes. Abriram bazares onde de tudo se encontrava e absolutamente tudo podia ser mercadejado. Constantinopla, trajando sua roupa nova de Istambul, sorriu enamorada.

 

 

hoje

 

Os turcos continuam senhores de Istambul e aboletados nos estreitos. E não exibem qualquer intenção de desistir do lugar. Passeando pela cidade, percebi a bandeira encarnada com o crescente e a estrela branca por toda a parte. A metrópole parece mais turca do que nunca, e os estreitos também. Ao visitar Istambul, é impossível deixar de admirar a beleza e meditar um pouco acerca do significado histórico daqueles mares que estão por toda a parte, aprisionados pelos estreitos. A Convenção de Montreux, de 1936, confere a soberania sobre os estreitos do Bósforo e do Dardanelos à República da Turquia. Desde então, os turcos voltaram a ter autorização para fortificar a área. A República não tem o direito de cobrar pedágio aos navios que cruzam os estreitos, mas as embarcações devem contratar práticos de navegação turcos para atravessar com segurança. Em 1982, foi incluída uma emenda que autoriza o governo turco, a seu talante, fechar o acesso aos estreitos a navios de guerra em tempos de guerra ou paz. A Convenção das Nações Unidas Sobre o Direito do Mar, que entrou em vigor no ano de 1994, reconhece os princípios de Montreux – embora países como Rússia, Romênia, Bulgária, Grécia, Ucrânia e Chipre apresentem algumas objeções. Nada indica que os turcos prestem qualquer atenção a tais incômodos sentidos pelos seus inimigos ancestrais. Afinal, a Turquia está para os estreitos assim como os ingleses estão para Gibraltar. Diz a lenda que os súditos britânicos abandonarão a ilha de Gibraltar só no dia em que os macacos que lá residem forem embora. O mesmo pode-se dizer dos turcos. Só desistirão da posse dos estreitos no dia em que os gatos vadios abandonarem Istambul.

 

Estive em Istambul no mês de abril, época em que australianos e neozelandeses celebram o “Anzac Day” – mais precisamente, o dia 25 de abril. Anzac significa Australian and New Zealand Army Corps. Os australianos e neozelandeses combateram fielmente pelo Império Britânico nas duas guerras mundiais. Durante a Primeira Guerra Mundial – 1914 a 1918 –, destacaram-se na Campanha de Gallipoli.

 

 

ainda ontem

 

A península de Gallipoli situa-se na boca do estreito de Dardanelos, na face norte, muito próximo a Istambul. Ao se depararem com o impasse na Frente Ocidental e a surra que o exército alemão aplicava nos russos no Leste, os ingleses imaginaram um plano para vencer a guerra por meio de uma “abordagem indireta”. Em vez de quebrar os queixos contra os “hunos” entrincheirados, imaginaram que deviam atacar a “barriga mole” dos Impérios Centrais, isto é, os turcos. Winston Churchill, à época Primeiro Lorde do Almirantado, foi um dos maiores entusiastas do plano.

 

Assim, nos dias 24 e 25 de abril de 1915, após as frotas anglo-francesas combinadas terem tentado calar as baterias de costa do inimigo, tropas Anzac, britânicas e francesas iniciaram seu desembarque em Gallipoli. Os turcos foram apanhados de surpresa e a campanha era para ser um passeio à beira-mar para os aliados. Contudo, os planejadores da empreitada subestimaram gravemente o adversário em dois importantes quesitos: primeiro, quando se tratava de defender os estreitos e sua cidade de Istambul, os turcos, definitivamente, eram osso duro de roer; segundo, quis a sorte que, liderando a defesa na área mais vulnerável da linha turca, estivesse o sujeito que demonstrou ser a carne de pescoço mais dura do Oriente Próximo daquela época: o coronel Mustafá Kemal.

 

Mustafá era de família fortemente turca, mas nasceu em Salônica, cidade da Macedônia grega, no ano de 1881. Um caso típico da territorialidade muito peculiar dos velhos impérios multiétnicos de antanho. A Macedônia era uma província do Império Otomano e o pai de Mustafá era um funcionário público a serviço do governo do sultão naquelas plagas. Todos eram súditos do império, mas socialmente viviam separados dentro suas respectivas comunidades religiosas espalhadas pelo território otomano. A família de Mustafá era turca e muçulmana sunita e súdita do império, assim como as comunidades dos cristãos armênios, cristãos ortodoxos gregos, muçulmanos xiitas, cristãos assírios, cristãos nestorianos, judeus, e aqui acrescentamos mais um vasto etc.

 

Afinal, ao longo das eras, os títulos sonoros que acompanhavam o sultão deixam bem claro este ponto. O sultão, além de ser “a sombra de Alá na face da terra, o comandante dos valentes, o defensor da fé, o guardião da Sublime Porta, o rei de Jerusalém, o protetor dos Lugares Santos de Meca e Medina” – mais um etc. – era também “o refúgios dos povos”.

 

Mas na época de Mustafá, os sonoros títulos do sultão eram desdenhados até pelos felinos de Istambul. O Império Otomano vivia em franco declínio que já durava 100 anos. Merecera o triste apelido de “o homem doente da Europa”. Mustafá seguiu a carreira militar com afinco. As disciplinas do exército não o assustavam e, mais do que tudo na vida, Mustafá gostava de mandar nos outros. Claro que, como militar profissional, devia igualmente obedecer ordens de seus superiores. Mas para Mustafá, a condição de oficial subalterno era temporária e fazia parte dos “ossos do ofício”. Apreciava muito mais pavonear-se pelas ruas das cidades e nas recepções sociais envergando vistoso uniforme, coalhado de merecidas condecorações, luvas alvas e botas impecavelmente polidas. Mustafá era vaidoso como um galã de novela.

 

Seu temperamento e suas opiniões foram afetados intensamente pela decadência que corroía os alicerces do Império. Ao mesmo tempo que era um admirador do dinamismo das sociedades ocidentais, Mustafá cultivava um vívido desprezo por tudo aquilo que era “oriental”. Para ele, o mundo muçulmano coletivamente sentara-se à beira da calçada e, preguiçosamente, nada mais fazia a não ser fumar narguilé enquanto esperava o tempo passar. Qualquer tentativa de mudança era paralisada pela indolência e pela prisão sagrada representada pela religião islâmica, guarnecida por carcereiros que jamais descuidavam da vigilância, os mulás conservadores. O ódio de Mustafá a tudo aquilo que considerava como o tradicionalismo oriental atingia até o singelo fez, chapéu universalmente usado por burocratas, militares e dignatários do Império Otomano.

 

Desde 1908, ocupavam o poder do Império um grupo de oficiais do exército e seus aliados, apelidados de “Jovens Turcos”. Seu movimento político, o Comitê para a União e o Progresso, visava manter a integridade do Império Otomano modernizando-o dentro dos padrões ocidentais. O sultão continuava sendo o detentor formal do governo, mas era completamente tutelado pelos Jovens Turcos. Aparentemente a plataforma dos reformadores deveria agradar às preferências ocidentais de Mustafá. Este, porém, nunca foi próximo dos Jovens Turcos e não apreciava nem um pouco suas manifestas inclinações germanófilas. Mustafá era muito atento ao poderio britânico. Nada no mundo era mais ameaçador do que a Marinha Real em sua capacidade de projetar poder em qualquer lugar do mundo e, assim, contestar o domínio otomano sobre os estreitos. Mustafá era também um apaixonado pela cultura francesa. Falava o francês como se fosse um parisiense e um de seus entretenimentos favoritos era a leitura de romances e folhetins produzidos naquele país.

 

A implicância com o Oriente era refletida no comportamento de Mustafá ao longo de toda a sua vida. Jamais foi religioso, e duvidamos que sequer possuísse um tapete de oração. Era mulherengo contumaz, daqueles que não dispensavam frequentar assiduamente lupanares em busca da companhia de meninas do tipo daquelas que Toulouse Lautrec também apreciava e pintara em cores alegres. Bebia como um peixe. Além dos vinhos e do champanhe, tinha o hábito de regar as reuniões políticas que varavam a madrugada com a forte aguardente turca, o raki. Fumante inveterado, alternava o consumo de cigarros e charutos a cada momento em que estava acordado. Na época em que liderava o movimento nacionalista em Ancara, comentou a reportagem de um jornalista francês que dizia que a Turquia era governada por um beberrão, um surdo – seu companheiro de lutas, Ismet paxá e trezentos surdos-mudos – os membros da Assembleia Nacional. Mustafá reagiu contrariado: “Este homem está errado. A Turquia é governada apenas pelo beberrão.”

 

Mustafá, ao que tudo indicava, era um poço de vícios. Mas na verdade exibia virtudes também, exclusivamente aquelas que lhe interessavam. Tinha uma inteligência arguta e seu discurso era muito bem articulado. Era ao mesmo tempo um interessante proseador e um sujeito que, de forma concisa e imperiosa, despachava suas ordens de modo que não houvesse dúvidas quanto aos seus propósitos. De sua pessoa emanava uma aura de autoridade quase irresistível. Estudara com denodo a arte da guerra, o que, em termos profissionais, contribuíra para fazer dele um oficial muito acima da média. Vários de seus superiores não gostavam dele pessoalmente – Mustafá era arrogante desde o berçário, com um comportamento que beirava a insubordinação – mas lhe depositavam total confiança em matérias concernentes ao serviço. Seus subordinados geralmente apreciavam servir sob suas ordens, especialmente em tempos de guerra. Mustafá passava uma permanente sensação de que sabia o que estava fazendo, o que, sob o fogo do combate, trata-se de algo assaz reconfortante. Sempre liderava nas proximidades do front, abdicando manter seu quartel-general em confortáveis mansões a quilômetros de distância da refrega, um hábito cultivado pela maioria dos generais da Primeira Guerra Mundial. A visão do comandante perambulando pela linha de frente, correndo os riscos inerentes à batalha, amealhava o respeito e o apreço da soldadesca. Mustafá sentiu-se muito contrariado quando, ao entrar na Grande Guerra em 1915, os otomanos, sob os auspícios dos Jovens Turcos, aderiram à aliança com os Impérios Centrais. Não acreditava na vitória, mas como militar tinha de cumprir seu dever.

 

Na Campanha de Gallipoli, Mustafá, no posto de tenente-coronel, comandava a 19ª Divisão de Infantaria. Sua unidade foi transferida para área ocupando uma parte crucial da frente. Enquanto os aliados desembarcavam nas praias, os turcos fortificavam-se no alto dos penhascos que se precipitavam por toda a parte. De um lado, a coragem suicida dos atacantes, especialmente dos Anzacs, em tentar galgar os penhascos e assaltar as posições do inimigo. Do outro lado, a persistência tenaz dos infantes turcos, que mantiveram suas trincheiras a despeito do fogo da artilharia naval, da fome, da sede e da morte que os rodeava. Nas posições confiadas à 19ª, Mustafá, em seu quartel-general, comandava seus homens de perto. Não contente em rechaçar os Anzacs a fogo de metralhadora, fustigava-os com contra-ataques localizados.

 

Após pagar um enorme tributo de sangue, os Aliados ordenaram a retirada. Gallipoli foi uma incontestável vitória otomana e o momento em que Mustafá ganhou notoriedade aos olhos de seus compatriotas, o respeito do exército e, mais do que tudo, confirmou sobejamente tudo aquilo que pensava acerca de si mesmo.

 

 

hoje novamente

 

Sentei num restaurante e pedi um kebab. O prato veio acompanhado por salada, uma massa pequena de trigo e batatas fritas. Sempre achei saladas insípidas. Mas os turcos cobrem-nas de especiarias. Assim, ao degustá-las, é possível sentir no mínimo quatro diferentes sabores. Numa mesa atrás de mim estava um casal de australianos que aproveitavam para visitar a cidade após as cerimônias do Anzac Day em Gallipoli. Ao ouvirem meu pedido ao garçom, devido ao impecável inglês, perguntaram de onde eu era. O garçom, que se virava para levar o pedido, parou para escutar a resposta. Disse que eu era do Brasil. O garçom abriu um sorriso de orelha a orelha e foi providenciar meu prato. Os australianos, bastante simpáticos, perguntaram se eu não queria compartilhar a mesa e conversar. Aceitei e começamos a trocar impressões sobre a cidade de Istambul, suas maravilhas e sobre os turcos. Indagaram acerca do que mais me chamara a atenção na cidade. Respondi de chofre: Foi o Mustafá! Quem? perguntaram admirados. O Mustafá Kemal, respondi. Ele está por toda a parte.

 

Os australianos podem não saber de imediato quem diabos é o Mustafá, mas identificam claramente quando é mencionado o nome Kemal, o comandante turco da 19ª DI que aplicou uma dura carraspana em seus rapazes em 1915. Mais ainda se nos referimos a ele por meio do título que recebeu: Atatürk, o “Pai dos Turcos”. Expliquei que não queria ofendê-los com a minha resposta. Sabia que Kemal estava em Gallipoli e que eles, australianos, estavam ali para honrar a memória daqueles que haviam tombado na Campanha. Claro que respeitava isso – muito embora pense até hoje como são estranhos os povos que celebram derrotas. Evidente também que fiquei maravilhado ao visitar a Hagia Sophia, a Mesquita Azul, o palácio de Topkapi, o harém e o tesouro do sultão. Nada se compara à emoção que senti ao apreciar os acervos do museu de arqueologia de Istambul. Lá, exibidos ao público, estão os artefatos das diferentes cidades de Troia. Disse que li sobre Troia por toda a minha vida, e ao ver os objetos de perto, através das vitrines protetoras, não pude deixar de dizer em pensamento: “Olá, velhos amigos, finalmente nos encontramos.”

 

Mas é a sombra do Mustafá que se projeta sobre a cidade. Ao percorrer o caminho que ia de meu hotel até a área de Sultan Ahmet, passei por um longo muro que acredito pertencer a uma guarnição do exército. Ao longo da parede, está permanentemente exposta uma galeria de grandes imagens de Mustafá em vários momentos de sua vida. O sujeito simplesmente adorava deixar se fotografar. Vislumbrei uma foto dele nos tempos de jovem oficial, usando o fez que tanto odiava e com as pontas dos bigodes viradas para cima, ao estilo Napoleão III; uma outra imagem quando comandou em Gallipoli – trajando farda de campanha, luvas negras e segurando o binóculo; vi ainda uma foto de quando liderou o movimento nacionalista. A derrota otomana na Primeira Guerra Mundial quase custou a eliminação da nação turca. As potências vitoriosas ditaram aos turcos uma “paz cartaginesa” por meio do Tratado de Sèvres. Istambul foi ocupada pelo inimigo, os exércitos gregos invadiram a Trácia e o litoral da Ásia Menor, os turcos perigavam perder o controle dos estreitos. Sabemos que o Império Otomano cometeu excessos durante a guerra, sendo que o pior deles foi o massacre dos armênios. Mustafá, porém, nada queria saber sobre isso. Mobilizou todo o seu prestígio, perseverança, engenho e arte para salvar a nação turca.

 

Cruzou os estreitos e ganhou a Anatólia, formando um movimento nacionalista sediado em Ancara. Uniu as diferentes facções turcas sob o seu comando, ignorou o governo “moloide” que, sob tutela Aliada, expedia ordens entreguistas de Istambul. Em curto espaço de tempo e de forma surpreendente, reergueu o exército turco, pontapeou os gregos de volta para o mar e, separadamente, entrou em acordo com as potências estrangeiras, primeiro com os bolcheviques soviéticos e depois com os franceses e italianos. Ato contínuo, arrebatou o poder no país inteiro, extinguiu a monarquia, proclamou a República e encerrou a existência do Califado. Reformou as instituições e a sociedade turca, moldando-as de acordo com os parâmetros ocidentalizados que tanto apreciava. Governou com vigorosas doses de autoritarismo impenitente. Vingou-se do tradicionalismo oriental proibindo o fez.

 

Desde Mustafá, a disputa pela posse da alma turca continua em curso. De um lado, o dinamismo do mundo ocidental, materialista e capitalista. De outro, o islamismo, que não deixou de ser uma das marcas mais preeminentes da identidade turca. Tudo isso ainda se desenrola por lá. Tudo isso pode ser observado quando se visita Istambul, sob testemunho constante dos gatos vadios que perambulam livremente pela cidade, exibindo um ar de sempre eterno pouco caso.

 

O articulista é professor da PUC-Rio

scalercio@link.com.br

 

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *