As damas do parque

As damas do parque

Dante Coelho de Lima

Domingo no Parque Eduardo VII em Lisboa. Os raios cálidos do sol da primavera já secaram o orvalho da noite nesse que é o maior e mais bonito espaço verde da capital lusitana.

Mas é também o território onde elas reinam nas manhãs de domingo.

Elas vêm de todas as partes. Umas desembarcam na estação Parque do Metro, sobem a pequena e inclinada rua Eugenio dos Santos e cruzam os jardins de sebes geometricamente recortadas do Parque. Outras saltam dos autocarros na paragem do Marquês de Pombal e sobem a Alameda Edgar Cardoso. Ali umas e outras chegam esbaforidas e tomam assentos nos bancos para retomar a respiração e descansar um pouco. Uma delas abana o leque que rescende a sândalo e desabafa:

— Ai, Jesus, que está a ficar cada vez mais difícil galgar essas ladeiras.

Enquanto os primeiros clientes não chegam, elas logo põem-se à faina de preparar-se para o batente do dia, que pretendem seja intenso e proveitoso.

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Arrumadinhas, cabelos bem cuidados, enxugam quaisquer vestígios de suor na testa, retiram da bolsa os estojos de maquiagem e se entregam apressadamente a dissimular os implacáveis efeitos do tempo.

Em certos domingos mais quentes de verão costumam vir metidas em seus melhores vestidos, que em algumas deixam mostrar umas pernas que um dia foram formosas.

Se fazem coquetes e vêm cheirosas, essas flores de outono.

Sim, amigo leitor, são elas, as senhoras namoradeiras do Parque Eduardo VII. Elas correm contra o tempo, pois seu prazo de validade anda à beira do vencimento.

Os clientes não tardam a aparecer. Ao volante de seus automóveis, são senhores encanecidos. Aposentados, taxistas, com seus velhos Mercedes-Benz verde e preto, pequenos comerciantes, funcionários públicos de baixa hierarquia e carreiras sem ambição, que ali chegam em busca de algumas poucas horas de morno prazer. E de companhia feminina. Têm rostos bem escanhoados, bigodes aparados com esmero para a ocasião. Um ou outro tem na cabeça a boina inglesa quadriculada que acoberta a calvície da idade. Tiram longas baforadas dos cigarros que impregnam o interior do carro. A elegância de outrora já se foi há tempos e as fatiotas algo surradas tentam inutilmente esconder uma pança que há muito se instalou.

As damas da manhã esperam seus clientes. Habituais, mas não só. O tempo passa, carros vão e vem, subindo e descendo a Alameda, que não tem saída. Uma delas reflete e observa, resignada.

— Se calhar, o António não vem hoje.

Uma buzina familiar a arranca de seu pensamento. Ela entra lépida no automóvel. Ele nem cuida de ser galante, como ela teria querido, e abrir a porta do passageiro. Pronto, já lá está ela, bem instalada incensando o carro com as exalações intensas do perfume barato.

Se abraçam. Não parece haver entre eles uma simples relação de negócio entre prostituta e cliente. Não há negociação de preço ou condições. Seus encontros serão furtivos, mas de nenhuma maneira denotam algo pecaminoso. São talvez dois amigos que se encontram para afogar as mágoas de uma imensa solidão.

E lá se vão. Para onde? Namorar? Certamente. Com sorte um almocinho naquela boa tasca em Cascais.

As outras, que ficaram à espera dos clientes, vasculham a bolsa e de lá retiram agulhas e novelos, para retomar a confecção daquele minúsculo par de meias, mimo futuro para o netinho que virá mês que vem.

O mercado das damas outonais funciona até o início da tarde, quando o cenário é ocupado por personagens mais jovens, com as quais não se aventuram a competir.

Nessas manhãs de domingo, na nossa caminhada em torno do Parque, um amigo e eu nos acostumamos a topar com essas tristes senhoras no ocaso de um viço feminino que elas teimam em querer prolongar. Já vai longe o tempo em que algumas daquelascachopas trigueiras vindas do Alentejo profundo ainda encantavam os rapazes de boas famílias de Lisboa.

E, vez por outra, assistimos quando a visão de um carro que se aproxima e reduz a marcha desperta numa delas um fugaz brilho nos olhos. O novo cliente potencial repara, perscruta, avalia. Acelera e faz meia volta. O brilho no olhar dela se desfaz. Dá de ombros, guarda agulhas e novelos na bolsa e vai embora.

Quem sabe o próximo domingo lhe reserve sorte melhor.

Afinal, fazer o trottoir é preciso. Viver, não tanto.

Dante Coelho de Lima, “Diplomata”

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