As palavras e as coisas

As palavras e as coisas

José Vicente Santos de Mendonça, Advogado

 

a palavra bruto

é bruta

a palavra suave

é suave

Insight Inteligência - artigos e ensaios fora da curva

prefiro a palavra menoscabo

ao menosprezo

pois que isso: o menoscabo menoscaba

mas qual a natureza

de linotipia

esmegma

expectorações

e ainda:

será lícito permutar classes

como em:

o conde vronski mazurcava casadas

as palavras têm cor?

a palavra ânsia:

é plausível supor-lhe o azul-claro dos velhos hospitais?

e afinal:

há algo em seu tamanho que lhe prenuncie a alma

como em fim

poderia o fim

ser o encerramento bruto-abrupto de um prenúncio?

– há algo no silêncio e na cor das palavras,

há definitivamente algo em seu conteúdo

não diria mágico, diria vário

– diria bruto, diria suave, diria ânsia

diria que encerram coisas

arcanas

 

 

 

 

Comentários:

 

(1.) O título é referência óbvia a Foucault.

 

Mas é também, como qualquer título, um adiantamento do conteúdo: é um poema, ora bolas, sobre palavras e sobre coisas a que se referem as palavras.

 

(2.) “A palavra bruto é bruto/a palavra suave é suave” é uma frase do professor Antônio Francisco Dória, meu professor na Escola de Comunicação da UFRJ.

 

Com isso ele queria, se bem me recordo, refutar Ferdinand Saussure, linguista que não percebia relação de conteúdo entre significante e significado.

 

Porque, justamente, a palavra “bruto” tem um “brt” que trava a língua – embrutece –, ao passo que a palavra “suave”, com seu “su” caindo harmoniosamente num “vv”, é doce.

 

(3.) “Prefiro a palavra menoscabo ao menosprezo”.

 

A palavra “menoscabo” tem sabor arcaizante. Um jurista rola-bosta usaria uma palavra dessas numa petição zangada.

 

Ou seja: tal como nos versos anteriores, há relação entre significante e significado.

 

E mais: aqui, o significado é um significado “para fora”, operacional. Menoscabo é uma palavra-arma; ela não só tem um som, digamos, menoscabante, mas serve para ofender.

 

Toma essa, Saussure.

 

(4.) “Mas qual a natureza de linotipia/esmegma/expectorações”.

 

Essa talvez seja a parte mais críptica do poema.

 

Amigo meu, poeta publicado, leu o trecho e pediu explicações.

 

E a explicação começa, – como muita coisa nessa vida –, em Platão e num sonho.

 

É que Platão tinha a tal teoria das ideias. (Me acompanhe.) À palavra “pedra” corresponderia, num mundo das ideias, a ideia de “pedra”, da qual a “pedra” terrena seria, por assim dizer, cópia imperfeita. (Ok, isso tu lembra da aula de introdução à filosofia.)

 

Pois sim: em certo momento, começou-se a questionar qual seria a ideia de coisas cuja manifestação fosse diáfana, escorregadia. Por exemplo: a qual ideia corresponderia a “lama”?

 

Pois foi a isso a que pretendi me referir.

 

Se às ideias-palavras correspondem coisas-significados, a quais significantes ideais correspondem significados trânsfugos como “esmegma” (que não deixa de ser uma “lama”) ou “expectorações”?

 

Então, quando eu me pergunto “qual a natureza de”, estou me perguntando a qual ideia platônica – uma vez superada a clivagem significante-significado – referem-se tais palavras.

 

Mas o interessante vem agora: eu SONHEI com essa dúvida.

 

Sim: na quarta-feira agora, despertei de sonhos intranquilos envolvendo uma dúvida relativa ao mundo platônico das ideias.

 

Não sei se isso já aconteceu contigo.

 

(5.) “seria lícito permutar classes/como em: o conde vronski mazurcava casadas”

 

Essa é mole: estou transformando um substantivo (a “mazurca”, dancinha all the rage na época do Tolstoi e, que, inclusive figura com destaque em Anna Kariênina, de onde vem nosso conde) num verbo.

 

Mas o uso de “mazurcar”, nesse contexto, também apela a certo sentido rodrigueano. Além de o conde dançar a mazurca com mulheres casadas (espero que, a essa altura do campeonato, isso não seja nenhum SPOILER), ele lhes faz algo que soa vagamente – pornográfico? sexual?

 

Mudar classes pode trazer, em certos contextos sociais, SENTIDOS novos.

 

A prática da língua é, também e principalmente, uma pragmática da linguagem.

 

(6.) “as palavras têm cor?/a palavra ânsia?/é plausível supor-lhe o azul-claro dos velhos hospitais?”

 

Eu acho que a palavra ânsia tem cor azul clara, tipo a dos azulejos daqueles hospitais d´antanho (Santa Casa etc.).

 

Hoje em dia, hospital privado tenta parecer hotel, coloca madeira nas paredes, quadros nas paredes.

 

Mas a ansiedade hospitalar não é nada disso.

 

Ela é azul clara, como nos hospitais d´antanho.

 

(Na primeira versão do poema eu usava “hospitais d´antanho”, numa referência à Ballade des dames du temps jadis, do Villon. Mas ninguém ia perceber mesmo, então optei por “velhos” hospitais).

 

(7.) “há algo em seu tamanho que lhes prenuncie a alma/como em fim/poderia o fim/ser o encerramento bruto-abrupto de um prenúncio?”

 

O tamanho das palavras pode ter algo a ver com o seu significado?

 

A palavra “fim”, por curtinha, prenuncia términos? Ela encerra, com secura brupta-abrupta (novamente, Saussure), um início mais analítico-extenso, – um “prenúncio”?

 

E há um trocadilho: como “em fim” também pode ser lido “como enfim”.

 

Até porque o poema já está se encerrando, e vem aí a CHAVE DE OURO.

 

(8.) “– há algo no silêncio e na cor das palavras/há definitivamente algo em seu conteúdo/não diria mágico, diria vário/– diria bruto, diria suave, diria ânsia/diria que encerram coisas/arcanas”

 

Uma recapitulação do percurso. O tamanho curto (o silêncio) das palavras diz algo? Elas têm cor? E seu conteúdo?

 

Há algo nas palavras que não é mágico, como diria o clichê; mas que é polissêmico, que é polissignificativo, que é plúrimo, que convida à hiperleitura; que é mavioso; que é foda.

 

 

E, basicamente, foi isso o que eu quis dizer 🙂

 

 

O autor é procurador do Estado do Rio de Janeiro e professor universitário

jose.vicente@terra.com.br

One response to “As palavras e as coisas”

  1. Waldir Zagaglia disse:

    Adorei a poesia, odiei as explicações .Poesia não se explica poesia não é de quem a cria é de quem precisa dela.Na arte, qq espécie de arte ,mas principalmente na poesia não importa a motivação ou a intenção do poeta, mas como ela toca a quem lê

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