Ascensão e queda do marxismo – os dados que saem dos livros

Ascensão e queda do marxismo – os dados que saem dos livros

Gláucio Ary Dillon Soares, Sociólogo

 

Este artigo tem dois objetivos, um metodológico e outro teórico. Metodologicamente, propo-nho que o estudo da frequência com que uma teoria, seus conceitos e autores são usados em livros, revistas e outros instrumentos da mídia seja um indicador útil da sua penetração no pen-samento da humanidade. Não é um indicador exato, não é uma medida, mas sua utilidade será tão ampla quanto a imaginação do pesquisador. Como um benefício adicional, pode ser usado para verificar se os regimes políticos, as ideologias do grupo no poder, a censura e a repres-são influenciam essa frequência.

Teoricamente, parto do suposto de que o marxismo foi a orientação teórica geral1 mais in-fluente e profícua durante várias décadas do século XX, declinando posteriormente. Se verda-deira, essa influência se refletirá na forma de uma curva; primeiramente, ilustrando um período de expansão, e posteriormente, um período de queda. Se, como também hipotetizo, foi uma orientação supranacional, essa curva deve estar presente em diversos países e regiões, aqui representados por idiomas. Seriam curvas semelhantes, mas não iguais, deixando espaço para as peculiaridades de uma nação, de uma região, de um grupo idiomático.

Hipotetizo, consistentemente, que há um conjunto de teorias, ideias e conceitos que atraves-sam fronteiras. Alguns cruzam tempo e espaço, outros não. O marxismo cruzou tempo e espa-ço, tornando-se uma orientação sociológica e teórica geral, com penetração em muitos países.2 A história de como essa orientação cruzou fronteiras, cresceu, atingiu um auge em países dife-rentes e entrou em declínio é parte do que pretendo ilustrar.

 

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A BASE DE DADOS

Em agosto de 2010, quase 130 milhões de livros haviam sido publicados no mundo, de acordo com um engenheiro do projeto chamado Google Books. A Google lançou-se, então, à tarefa de escanear esses livros (que foram escritos em 480 idiomas). Até junho daquele ano, tinha escaneado cerca de 12 milhões.3 A despeito do cuidado que tiveram em definir bem, obter e escanear os livros, é claro que não são universos nem amostras aleatórias dos livros publica-dos nesse ou naquele idioma. Não obstante, tanto mais central o idioma, maior a facilidade para encontrá-los. A codificação desses livros em alguns idiomas constituem os corpora que alguns analistas estão usando. Infelizmente, ainda não foi criado e disponibilizado um corpus em português.

Por isso, usei cinco corpora (Alemão, Espanhol, Francês, Inglês e Italiano) para demonstrar a semelhança do percurso seguido pelo marxismo. Os dados se referem às percentagens que as palavras que selecionei representam sobre o total de palavras do corpus em questão. Para exemplificar os efeitos da censura, tema desenvolvido em outro artigo, também foi utilizado o corpus em russo.

Usei, também, médias móveis trienais para suavizar picos e baixas que ocorrem em alguns anos e dificultam a visualização.

Essa base de dados, valiosíssima, tem seus problemas e limitações. Temos de perguntar o que significam os livros como parcela de toda a comunicação humana; temos de perguntar o que significam esses 30 milhões em relação ao total; gostaríamos de controlar a maior disper-são temática que parece ter caracterizado o último século, mas não temos como fazê-lo. Não obstante, há regularidades que permitem aumentar o grau da confiança que depositamos em nossas hipóteses.

 

A SIMULTANEIDADE RELATIVA DAS MUDANÇAS

NOS VÁRIOS CORPORA

Como o tempo dessas mudanças não ocorreu em um ou dois países, mas em muitos, e em línguas diferentes, uso as mudanças para realçar o caráter supranacional do marxismo. Além disso, como o timing do crescimento auge e o do declínio foram semelhantes em publicações em diferentes línguas, há indicações de que os que escreveram livros (e provavelmente os que os leram) em idiomas diferentes foram afetados em graus semelhantes por mudanças na histó-ria política e no pensamento político.

A Figura 1 mostra o uso da palavra marxismo em cinco corpora: Alemão (Marxismus); Espa-nhol (Marxismo); Francês (Marxisme); Inglês (Marxism) e Italiano (Marxismo).4 A base de dados diferencia maiúsculas de minúsculas. Porém, o uso da palavra com a primeira letra maiúscula é muito mais frequente do que a palavra com todas as letras minúsculas. Em nossa análise, so-mamos as duas.

O início da ascensão do marxismo depois da Primeira Guerra Mundial – particularmente du-rante e logo depois da Grande Depressão –, com exceção do Alemão, foi prejudicado, primeiro, pelo crescente ativismo dos nazistas, e depois, pela sua tomada do poder. Análises adicionais mostram como autores judeus que eram referência obrigatória em seus campos, como Einstein e Freud, foram quase suprimidos na Alemanha, o que demonstra que esse instrumento reflete e pode captar condições políticas, sobretudo a censura e a repressão. Nos demais idiomas, a ascensão do marxismo continuou, sendo muito rápida nas décadas de 1960 e 1970. Porém, o ponto de inflexão que marca o fim do ascenso e o início do declínio do marxismo não foi idên-tico nos cinco idiomas. A análise dos dados serve para negar hipóteses amplamente aceitas, como a grande influência da Queda do Muro de Berlim sobre o conteúdo dos livros publicados.

Outro teste que confirma essa simultaneidade é dado pelas correlações desde 1864 até em cinco corpora: com uma exceção, todas as correlações são iguais ou maiores do que 0,9 (uma igual, oito mais elevadas). A única inferior a esse altíssimo patamar está entre os corpora Ale-mão e Espanhol, que é 0,88! Os escritos não são uma amostra aleatória da população, e a con-clusão metodologicamente conservadora é que esse grupo ocupacional é semelhante em lín-guas (países?) diferentes, ainda que os países em que nasceram e/ou escreveram fossem (e sejam) estruturalmente muito diferentes. Arriscando mais, há uma internacionalização das elites, a despeito das dessemelhanças estruturais entre os países em que vivem.

 

A QUEDA DO MURO E O DECLÍNIO: AS CONEXÕES SÃO MAIS COMPLEXAS DO QUE PARECEM

Há uma tendência a associar causalmente eventos próximos no tempo. A Queda do Muro, seguida pelo colapso da União Soviética, é uma explicação intuitiva para o descenso do mar-xismo. Porém, é um erro considerar a Queda do Muro, em 9 de novembro de 1989, como um corte – ponto! – e não como a parte final e certamente indispensável para a compreensão de um processo mais extenso, mais antigo. Simbolicamente, é importantíssima; não obstante, não deve ser tomada como a origem do descenso relativo do marxismo, processo que estava em andamento há vários anos. Esse repensar transfere a periodização de um dia, de um evento, para um tempo bem maior.

Depois da criação das zonas, o trânsito de alemães entre elas era livre, mas muitos alemães orientais iam para a zona ocidental e… ficavam. Em 13 de agosto de 1961, a fronteira foi fecha-da e começou a construção do muro, com uma extensão de aproximadamente 140 quilômetros. Em junho de 1962, começou a construção de um segundo muro, perto de 100 metros para den-tro da Alemanha Oriental. É, portanto, possível que o colapso do sistema tenha começado qua-se três décadas antes, e que a construção do muro seja um ponto de corte melhor do que a sua derrubada. O que dizem nossos dados?

O fim do ascenso, em Espanhol, começou no final da década de 1970, como aconteceu em Francês, Italiano e Alemão. Em Inglês, esse processo se deu poucos anos mais tarde.

O rápido declínio se deu antes em Alemão, Francês e Italiano; logo depois em Inglês, e em seguida, em Espanhol. Poucos anos separam o início do descenso nos cinco idiomas.5

Detalhando o que aconteceu com a palavra marxismo em diversos corpora definidos por idiomas e grupos de idiomas ao longo do tempo, no corpus Espanhol, o uso do termo Marxis-mo teve mais de um período de crescimento: acelerado de 1920 até pouco antes de 1940, quando teve um declínio de alguns anos, coincidente com a pré-guerra e a guerra; posterior-mente, cresceu rapidamente durante três décadas (50, 60 e 70) e começou a declinar entre o final da década de 1970 e o início da década de 1980. Nesse idioma, o declínio se iniciou antes da Queda do Muro e se acelerou depois, continuando em queda livre até a virada do século. Os dados mais recentes, incompletos, sugerem uma desaceleração do declínio, até mesmo um possível plateau em nível relativamente baixo a partir de 2000.

Em Francês, o percurso foi semelhante: cresceu desde o início do século XX até o pré-guerra, declinou até a definição da guerra (a França estava ocupada) e explodiu no pós-guerra, até pouco antes da década de 1980, quando declinou aceleradamente. O comportamento re-cente é semelhante ao corpus Espanhol.

Em Inglês, mais semelhanças: o crescimento acelerado durante a Grande Depressão; uma redução (menor do que em Espanhol e Francês) no pré-guerra e durante a guerra, com reto-mada posterior do crescimento. O ponto de inflexão que assinala o declínio também se situa antes de 1989, antes da Queda do Muro de Berlim. Porém, diferente dos corpora anteriores (Espanhol e Francês), não se observa um plateau nos últimos anos, e sim a continuação do de-clínio. O comportamento recente é semelhante ao do idioma Alemão.

Em Italiano, o crescimento se acelerou depois da morte de Mussolini, mas com uma pequena queda após 1947, retomando o crescimento em 1957. Foi um crescimento muito rápido até 1976, quando começou a despencar.

Esses resultados mostram que o início do declínio do marxismo foi anterior à queda do mu-ro de Berlim e ao colapso da União Soviética. Mostram, também, que os livros publicados em cinco idiomas seguiram curvas semelhantes.

 

AUGE E DECLÍNIO DOS CONCEITOS E SUBTEORIAS

Aceitar que existem auges e declínios das teorias implica aceitar o mesmo em relação às subteorias e aos conceitos que as compõem. Porém, alguns conceitos e subteorias podem ser absorvidos e integrados, ainda que de forma modificada, por outras orientações teóricas ge-rais. Os conceitos e subteorias influenciam e deixam sua marca na nova matriz, e sobrevivem, ligados a ela. Mas sua vinculação primária com a teoria em declínio determina, também, o seu declínio: as referências e o uso de autores, conceitos, subteorias e teorias divergem entre si.

Selecionei três conceitos do marxismo entre os que foram menos absorvidos por outras teo-rias: proletariado, burguesia e o conflito entre eles, a luta de classes. No corpus mais extenso, Inglês, o que aconteceu com esses conceitos?

O proletariado é indispensável no marxismo: é o grande ator do futuro. Em Inglês, cresceu moderadamente entre as décadas de 1870 e 1910, explodiu até 1920 e decaiu durante alguns anos, retomando o crescimento explosivo no final da década, até 1937, quando arrefeceu a Depressão. Nessa data se iniciou um amplo período com muita variação até 1972-73, quando o termo caiu rapidamente em desuso. Mais 25 anos e voltou ao nível de 1918. A única tendência discernível atualmente é o declínio. Sua inimiga teórica, predestinada à derrota na teoria marxis-ta, fadada a ser superada no socialismo, a burguesia, conceitualmente seguiu um caminho se-melhante. Cresceu paralelamente ao conceito de proletariado, oscilou a partir de meados da década de 1930 até a de 1970, quando despencou. Em 2008, voltou ao nível de 1918.

A consciência de classe, condição indispensável à revolução proletária, levaria à luta de clas-ses que teve uma evolução isomórfica às anteriores, com pequenas diferenças. Cresceu lenta-mente do início da década de 1920 até meados da década de 1960, acelerando até 1980, quan-do despencou. Em 2008, o conceito foi menos usado, proporcionalmente, do que em 1920.

A Figura 2 mostra que o percurso na história dos conceitos foi semelhante. Cresceram a par-tir de 1880 até 1920, período que foi seguido de uma queda de alguns anos. Cresceram acele-radamente durante a Grande Depressão, atingindo um pico no fim da mesma. Desde 1940 até fins da década de 1950, nova queda, seguida de rápido crescimento. Finalmente, houve um des-censo contínuo a partir da segunda metade da década de 1970. Os três conceitos divergiriam durante muitas décadas, no meu entender, porque configuram uma subteoria das principais classes e do conflito entre elas. São conceitos importantes para o marxismo, que é uma teoria com alto grau de consistência.

Nas últimas quatro décadas, houve um descenso da influência do marxismo nas publicações. O fato desse descenso ter se iniciado e se acelerado antes da Queda do Muro de Berlim pode ser visto nas curvas referentes ao marxismo e seus conceitos.

 

EFEITOS DA REPRESSÃO

Talvez em nenhum corpus o efeito da ideologia que orienta uma ditadura, que censura e re-prime, tenha sido tão claro quanto durante a Alemanha nazista. A análise do one-gram Marxis-mus mostra que, diferente dos demais corpora, o crescimento acelerado do seu uso em livros teve que esperar o fim da guerra e a derrocada do nazismo. A censura e a intimidação foram mais amplas: por exemplo, as referências a autores judeus quase desapareceram durante o período nazista. Foi o que aconteceu, por exemplo, com Einstein, físico; Sigmund Freud e Mag-nus Hirschfeld, psicanalistas; Mahler, compositor e muitos mais.

Há censura, também, nas ditaduras de esquerda. Um exemplo é dado pela frequência das menções a Trotsky, que subiram e desceram de acordo com sua relação com o poder na Rús-sia. As referências a Троцкий subiram rapidamente de 1917 até 1929, junto com seu poder e influência. A fortuna de Trotsky mudou drasticamente em 1929, ano do seu exílio: as referências em russo declinaram abruptamente a partir daí. Para contrastar, a tendência das menções a Trotsky no corpus Inglês não mudou com o exílio. Aumentou continuamente desde meados da década de 1910 até o início da década de 1940. É outro evento que acaba determinando o iní-cio do fim das referências a figuras públicas: a morte. Em 20 de agosto de 1940, Trotsky foi assassinado no México, por ordem de Stalin. Num mundo em guerra e em ebulição, foi gradu-almente esquecido. As menções a suas ideias, ao seu trabalho e à sua obra se tornaram menos frequentes. Não obstante, sobrevivem mais de sete décadas depois de sua morte.

 

O QUE OS AUTORES APRENDERAM

O exame detalhado da frequência relativa com que conceitos aparecem em milhões de livros é uma ferramenta promissora. Usei essa ferramenta como um instrumento para sugerir que o marxismo e alguns dos seus conceitos seguiram uma trajetória, que incluiu períodos de aumen-to nas publicações, rápidos ou não, estabilidade durante poucos anos e um rápido declínio. É um exame parcial da presença dessa importantíssima teoria num igualmente importantíssimo meio de comunicação, o livro. Há outros meios de comunicação, alguns antigos, como jornais, revistas e rádio, e outros recentes, como a televisão e os meios eletrônicos. Ademais, há pro-blemas insolúveis de amostragem: os livros examinados, ainda que 30 milhões, não são amostra aleatória do total de livros publicados.

Considerando todas as limitações dos dados e da abordagem, duas conclusões se impõem: nenhuma teoria sociológica geral teve tanto impacto, durante tanto tempo, como o marxis-mo. O seu declínio não foi o resultado de sua substituição por outra orientação geral mais profícua. Não houve substituição. A segunda é que o marxismo seguiu o percurso esperado de uma grande teoria: cresceu, dominou o pensamento sociológico durante décadas, chegou a um teto, foi afetado por acontecimentos na política mundial e nas políticas nacionais, e teve uma queda acelerada, que continuava no início do novo milênio. Hoje, a sociologia é órfã, uma disciplina em busca de um autor, de um caminho.

Artigo escrito com a participação de Max Stabile.

 

O articulista é professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Uerj (IESP/UERJ)

soares.glaucio@gmail.com

 

  1. Essa não é uma expressão jogada ao vento: ela foi trabalhada em detalhe por Robert King Merton em Social Theory and Social Structure, Free Press, 1968, versão ampliada da original, de 1957.
  2. Há quase meio século proponho que o marxismo é uma orientação sociológica geral profícua. Não obstante, defendo, também, a ideia de que a transformação do marxismo em doutrina política sabota sua utilidade. (Ver Soares, G. A. D. Marxism as a General Sociological Orientation. British Journal of Sociology. Londres, v. XIX, pp. 365-374, 1968.)
  3. A base que usamos, mais atualizada, tem perto de 30 milhões de livros.
  4. Primeira letra tanto em maiúscula quanto em minúscula: foram somadas.
  5. Por “fim do ascenso” entenda-se, apenas, que o uso parou de crescer (sempre em relação ao total de palavras), e por “rápido declínio”, um período acelerado de queda no uso do conceito Marxismo.

 

 

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