Cem anos da Grande Guerra: o impacto do conflito total

Cem anos da Grande Guerra: o impacto do conflito total

Christiane Vieira Laidler, historiadora

 

“Caiu. Não, atirou-se ao chão, porque um cão dos infernos chega uivando, um enorme obus, um asqueroso pão de açúcar, saído das trevas. Acha-se estendido, comprimindo o rosto no barro frio com as pernas escancaradas e os pés torcidos, colados ao chão. O produto de uma ciência barbarizada abate-se como o diabo em pessoa a trinta passos dele, penetrando obliquamente no solo, onde explode com espantosa violência e joga à altura de uma casa um jorro de terra, fogo, chumbo, ferro e de humanidade despedaçada…” (801)

 

Assim Thomas Mann narrou a última cena de Hans Castorp, protagonista de A Montanha Mágica, obra finalizada em 1924. O jovem alemão, da cidade de Hamburgo, formado em Engenharia, permanecera por sete anos no sanatório Berghof tratando de uma pequena lesão no pulmão. Nada o fizera deixar aquele lugar até a eclosão da Grande Guerra. Só então se viu livre, não pela força de um desejo interior, mas “por forças elementares exteriores” (796). Forças que mobilizaram igualmente os demais habitantes do sanatório, que desceram em alvoroço para a planície, e de lá para as frentes de batalha. Até o iluminista Settembrini, personagem que representa a fé no racionalismo e na civilização que o Ocidente criara, admitiu que utilizaria as poucas energias que lhe restavam para concitar o seu país à luta (797). E foi assim que, no final do romance, Thomas Mann delineou a questão que mobiliza o pensamento ocidental desde a Grande Guerra. Como foi possível que o progresso técnico tenha se transformado nesse “cão dos infernos”, saído das trevas? Que condições prepararam o terreno da “guerra total”, aceito como a natureza das coisas, como inevitável, apoiado pelas comunidades nacionais, embora destruísse, no seu percurso, todas as certezas e valores da “civilização” racionalista que supostamente levaria a humanidade a um futuro de paz, prosperidade e bem-estar?

Quase quarenta anos depois, outro escritor contemporâneo à Grande Guerra, e vítima de seus efeitos, diria que se procurasse o porquê da Europa ter se lançado à guerra em 1914, não encontraria “nenhum motivo razoável e nem mesmo um motivo” (ZWEIG, 1953: 181). O que ocorreu a Stefan Zweig, na tentativa de desvendar alguma lógica no processo, foi supor que o excesso de força e o dinamismo econômico, que envolveram disputas de territórios, serviço militar obrigatório e interesses da grande indústria armamentista levaram a um desastre de proporções jamais previstas. De outro lado, havia um otimismo coletivo baseado na confiança, na razão e na crença de que os partidos socialistas com seus milhões de seguidores, que combatiam a guerra em nome do internacionalismo, jamais aceitariam participar de conflitos. Essa confiança na civilização teria iludido os pacifistas, os racionalistas, e a totalidade das nações, na medida em que a extensão e magnitude do conflito não foram previstas (ZWEIG, 1953).

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Cada uma das potências europeias aceitou a guerra em julho de 1914. Nenhum esforço de mediação ou negociação aconteceu entre o ultimato da Áustria-Hungria à Sérvia e as declarações de guerra. Ao contrário, o que se viu foi uma série de conferências entre aliados e a mobilização imediata dos exércitos de todos os membros das duas alianças militares, com exceção da Itália, que entraria no conflito meses mais tarde. O que levou um conflito localizado à mobilização geral e à “guerra total”? O que explica a disponibilidade de todos os recursos em todas as potências europeias?

Neste artigo eu pretendo abordar alguns argumentos desenvolvidos pela historiografia sobre as condições políticas que levaram à guerra generalizada na Europa e, como consequência, nas colônias e mares da Ásia e da África, bem como sobre a dinâmica da “guerra total”, uma guerra de objetivos ilimitados e de mobilização total dos recursos materiais e humanos de cada nação envolvida. O argumento principal é o de que as rupturas provocadas pela Grande Guerra forjaram as condições do desenvolvimento histórico do século XX, o que implica uma breve análise dos impactos do conflito na parte final.

 

Antecedentes: as determinações da “guerra total”

Antes de 1914 a paz era o cenário esperado para a maioria dos europeus. Desde 1815 não houvera um conflito envolvendo todas as potências. A partir da virada do século XX, entretanto, a preocupação com a guerra industrializada era notória e se expressou por meio de uma agenda de conferências para a paz entre as potências e da criação do prêmio Nobel da Paz. O equilíbrio europeu, construído por meio de difíceis negociações na Conferência de Viena, após a derrota de Napoleão, parecia estar por um triz.

A relação entre o imperialismo e a guerra foi apontada por Lenin em 1916, e se tornou a interpretação clássica sobre a causa da Grande Guerra. Na fase monopolista do capitalismo, a concentração do capital havia gerado verdadeiros comitês de negócios, amplamente dominados pelo setor financeiro. Esses comitês passaram a governar de fato as nações industrializadas, traçando seus objetivos geopolíticos. As relações entre Estados e empresas passaram a ser de interdependência e, nesse sentido, as necessidades do capital se transformaram em agenda principal dos governos, incluindo a expansão de mercados exclusivos fora da Europa. Quando o mundo estivesse devidamente repartido, as nações disputariam as mesmas regiões, num processo dinâmico que acompanhava as transformações econômicas, tecnológicas e militares levadas a cabo por cada Estado (LENIN, 2011). Embora para inúmeros homens de negócios a guerra fosse um mal a ser evitado, em benefício do comércio – como se observa na agenda norte-americana nas conferências de paz (LAIDLER, 2010) – para os que chegaram atrasados à partilha do mundo, a guerra poderia se afigurar como o único meio de conquistar o seu “espaço vital”.

Os preparativos para a guerra tornaram-se progressivamente mais caros, na medida em que os Estados competiam uns com os outros para manter a primeira posição, tanto em números quanto em inovações tecnológicas. A dependência dos Estados em relação às condições de produção da guerra alteraram suas relações com a grande indústria. Esta passou a constituir uma necessidade política vital (HOBSBAWM, 1988).

E se a competição interimperialista a partir de 1880 ampliou a centralidade da indústria armamentista na vida política das potências industrializadas, com destaque para a produção naval, é fundamental que se considere também o papel econômico que a espiral armamentista desempenhou na superação da Grande Depressão iniciada em 1873. A atividade dessa grande indústria, cujo principal cliente era o Estado, teve papel crucial na alta dos preços e na retomada dos lucros por volta de 1896, iniciando o período conhecido como a Belle Époque. De acordo com Giovanni Arrighi, a alta dos preços refletiu não a superação da competição que levara à depressão, “mas uma mudança do seu lócus primário da esfera das relações interempresariais para a das relações interestatais” (1996: 277).

Entre as potências que se industrializaram a partir dos meados do século XIX, e tiveram papel destacado na competição por mercados, a Alemanha e os Estados Unidos figuram como as principais, por seu rápido desenvolvimento. A Alemanha despontou como potência militar e industrial de primeira linha em 1870, quando derrotou a França de Napoleão III no conflito que significou o arremate do processo de unificação dos povos de língua alemã da antiga Confederação Germânica, sob a liderança da Prússia. Em seguida teve um crescimento industrial mais rápido do que o das demais potências europeias. Enquanto a política externa levada a cabo por Bismarck foi cuidadosa em relação às outras potências, buscando limitar os objetivos do Estado alemão na Europa ao espaço da antiga Confederação, e negociando concessões no mundo colonial – esforço que foi demonstrado quando Berlim sediou a Conferência que decidiria os destinos do Congo e as condições da exploração da África (BARBOSA, 2008) – o equilíbrio europeu parecia preservado. Além disso, a rivalidade anglo-russa no Oriente Médio e na Ásia, afastavam as atenções dessas potências da questão da Alsácia-Lorena e de um possível expansionismo alemão.

Com Guilherme II, Imperador alemão que governou entre 1888 e o final da Grande Guerra, a insatisfação alemã “com a ordem internacional estruturada com vantagem para as potências mais velhas, consolidadas” passou a se manifestar sem censuras ou cuidados. A Alemanha foi, progressivamente, construindo um discurso para mostrar a capacidade e poder que já era capaz de ostentar frente aos pares na Europa (KENNEDY, 1989: 209).

Os objetivos expansionistas que pareciam resultar da ideia darwinista de um processo de contínuo aperfeiçoamento da raça, que implicava a eliminação dos mais frágeis, tinha como fundamento a história, o modelo empírico dos expansionismos e impérios, destacando-se, naquele contexto, a expansão do império britânico. A história dos dois séculos anteriores fora a da escalada do progresso técnico relacionado à ideia de civilização, e encontrou o seu apogeu no domínio dos mais fracos e atrasados pelos mais avançados do ponto de vista tecnológico (LAIDLER, 2010).

Em 1912, o general historiador prussiano Friedrich Von Bernhardi, publicou Deustchland und der nächste Krieg, expressando, com firme convicção, a contradição entre um propalado pacifismo e as exigências do nacionalismo, alimentado pela competição entre as nações colonialistas no contexto de ampla dominação britânica e francesa sobre vastas regiões do globo, o que lhes garantia vantagens competitivas e a manutenção da supremacia política e militar a despeito das condições reais de seu poder relativo. De acordo com Bernhardi:

 

“Todos os acordos firmados nas Conferências de Paz de Haia, em sua limitada esfera de ação, merecem o reconhecimento universal, como qualquer iniciativa possível de humanização da guerra. Mas uma questão totalmente diferente é a abolição total da guerra, ignorando seu papel necessário no desenvolvimento histórico.

 

Essa aspiração antagoniza diretamente as grandes leis universais que regulam toda a vida. A guerra é uma necessidade biológica de primeira importância, um elemento regulador na vida da humanidade que não pode ser dispensado, sem o qual um desenvolvimento doentio se seguirá, excluindo todos os avanços da raça, e, consequentemente, toda a real civilização.

 

[…]

 

Por fim, em todos os tempos o direito à conquista por meio da guerra foi admitido. Quando um povo cresce e não pode adquirir colônias de raças não civilizadas, logo o Estado precisa reter uma população excedente que não conseguirá alimentar. Então o único caminho a ser seguido é a aquisição do território necessário por meio da guerra. Assim, o instinto de autopreservação conduz inevitavelmente à guerra e à conquista do solo estrangeiro. Quem tem o direito é o vitorioso, e não o que tem a posse”1

 

O livro de Bernhardi expressava uma concepção da guerra como elemento fundamental da dinâmica evolutiva das sociedades, concepção que dificilmente poderia ser contestada pelos fatos, sintetizando a dinâmica histórica dos impérios que está na base do conceito de “espaço vital”. Mas não foi apenas entre os alemães que o darwinismo prosperou como alicerce científico das ideologias expansionistas. Mesmo na França, um símbolo da esquerda como Émile Zola, declarou em 1908 que

 

“a guerra é a própria vida! Na Natureza, nada existe que não tenha nascido, crescido ou se multiplicado por meio do combate. É necessário comer ou ser comido para que o mundo possa viver. Somente as nações guerreiras prosperaram; uma nação morre assim que se desarma”.2

 

A impossibilidade de serem obtidos acordos sobre desarmamento ou sobre a obrigatoriedade da arbitragem nas conferências de paz que aconteceram antes do conflito é a prova de que a guerra era entendida pelos Estados soberanos como um instrumento legítimo da política. O fato a ser destacado é a mudança do discurso alemão, assumidamente expansionista em nome de uma divisão do mundo que fizesse jus ao poder relativo das nações naquele contexto. A retórica acompanhava a trajetória ascendente do poderio econômico e militar alemão. O país que fizera a chamada “revolução militar” nos anos de 1860, ampliando o recrutamento e passando o controle do exército ao Estado-Maior, começou uma corrida naval em 1898 sob o comando do almirante Alfred Von Tirpitz, obrigando os britânicos a reposicionarem sua armada no mundo a fim de guarnecerem o Mar do Norte (KENNEDY, 1989).

Em 1882, a Alemanha e o Império Austro-Húngaro firmaram uma aliança militar que visava à preservação de ambos diante de desafios internos e externos. A Alemanha nascera cercada por grandes potências rivais, e a Áustria-Hungria administrava com dificuldades os problemas próprios de um império multiétnico, agravados pela questão dos Bálcãs, que a mantinha como rival do Império Russo. Embora a aliança de 1882 tenha significado a sua contrapartida por meio da aliança entre a França e Rússia, o equilíbrio europeu só começa a ser desmantelado quando a Grã-Bretanha deixa a sua posição de neutralidade e, rompendo rivalidades históricas, estabelece uma aliança com a França, em 1904, e com a Rússia, em 1907. Não fossem esses compromissos, os problemas da Monarquia Dual com a Sérvia em nada afetariam a Alemanha ou a França. E ainda assim, o fato determinante para a extensão da guerra, quando eclodiu o conflito, foi a tomada de posição britânica, que só pode ser explicada em face do avassalador desenvolvimento econômico e militar da Alemanha.

 

Eric Hobsbawm apontou outros elementos daquele contexto em que a Europa escorregou rapidamente para a “guerra total”. A derrota russa para o Japão em 1904 foi um fator adicional de grande importância para a ruptura do equilíbrio de poder na Europa. As crises e revoluções de 1905 teriam encorajado os alemães em suas reivindicações coloniais, como se viu nas investidas sobre o Marrocos. O recuo de Berlim na Conferência de Algeciras (1906) foi forçado pelo apoio britânico aos franceses, o que se repetiu em 1911 (HOBSBAWM, 1988). O aumento da tensão entre a Grã-Bretanha e a Alemanha, se por um lado favoreceu a França, por outro foi uma fonte de preocupação. O governo francês percebia que o abandono da posição de balança de poder por parte da Grã-Bretanha a levaria a um conflito caso a França se decidisse em qualquer tempo por uma guerra contra a Alemanha, o que determinaria um conflito de grandes proporções (MAcMILLAN, 2013).

Da mesma forma que encorajou os alemães em suas pretensões, a fragilidade do Império Russo favoreceu a Áustria-Hungria, que decidiu a anexar a Bósnia em 1908 por ocasião da revolução turca.

E a questão mais controversa nos debates entre os historiadores diz respeito às influências da política interna para a guerra. Afinal, a fragilidade de governos em processos agudos de crises, como as vividas pela autocracia russa após 1905 ou pela monarquia Áustro-Húngara, poderia levar a decisões dos governos em favor da guerra. Para Hobsbawm, a Áustria-Hungria tinha o maior interesse na guerra, uma vez que estava ameaçada de desintegração pelos nacionalismos que tinham como exemplo a luta e a vitória dos pequenos países dos Bálcãs contra o Império Turco. Da mesma forma, depois de 10 anos da derrota para o Japão, os russos não podiam demonstrar fraqueza, além disso, em 1913 e 1914 viviam a proximidade de uma nova onda de revoluções que certamente foi desativada pela lealdade militar. Apesar da constatação de que as crises internas e externas fundiram-se, alimentando-se mutuamente, o autor rejeita a hipótese de que a guerra tenha sido usada para desativar crises internas. No máximo essas crises seriam um dos elementos do cálculo político (HOBSBAWM, 1988).

O fato significativo é que a lealdade nacional não falhou. Apenas em 1917 haveria a primeira ruptura de uma das frentes internas, na Rússia. Nem mesmo os socialistas mantiveram a unidade em defesa do internacionalismo. Os exemplos são inúmeros, destacando-se Jean Jaurès3 e Benito Mussolini. Segundo François Furet, 1914 foi um “plebiscito dessa invenção europeia por excelência que é a nação”. Naquele contexto, a pertença nacional permanecia sendo o sentimento mais bem partilhado entre os europeus (FURET,1995: 53).

Outro elemento que parece ter centralidade para compreender o que chamo de lealdade nacional é o exército. O recrutamento e o serviço militar obrigatórios foram, sem dúvida, um importante fator da unidade nacional. A educação, ou formação, do cidadão ou súdito se completava de forma a homogeneizar valores e tradições nacionais. Se considerarmos que os exércitos eram ainda caminhos possíveis de reconhecimento e ascensão social, é possível concluir sobre a função integradora que cumpriram na composição dos nacionalismos no final do século XIX.

 

A guerra total

Em junho de 1914, o arquiduque do Império Áustro-Húngaro, Francisco Ferdinando, viajou à Bósnia a fim de inspecionar manobras que o exército da monarquia realizaria na região. Tratava-se de uma demonstração do poder da monarquia sobre uma área em disputa que havia sido anexada em 1908. Na visita que fez à capital Sarajevo, no dia 28, o arquiduque foi vítima de dois atentados. Sobreviveu ao primeiro, mas não ao segundo. Francisco Ferdinando e a mulher Sophie foram mortos a tiros. O assassino, Gravilo Princip, foi preso ainda na cena do crime. Outros dois conspiradores da organização conhecida como Mão Negra foram presos no mesmo dia. Todos eram bósnios, portanto súditos da Áustria-Hungria, mas as autoridades da monarquia suspeitavam do envolvimento de oficiais da inteligência militar da Sérvia, o que se confirmou depois da guerra (SONDHAUS, 2013).

O atentado em si dizia respeito unicamente à Áustria-Hungria, à Sérvia, e, possivelmente, à Rússia, para a qual não seria interessante se abster mais uma vez de uma disputa regional, como fizera na guerra dos Bálcãs de 1912. Mas o conflito local estrito não afetava em nada a França ou a Alemanha. Está claro hoje que a Áustria-Hungria desejou uma intervenção militar a fim de impedir sua desintegração pelos nacionalismos, mesmo correndo o risco de ter que enfrentar uma guerra contra a Rússia. Mas antes de começar seus preparativos, a monarquia procurou a Alemanha a fim de saber se podia contar com o seu apoio. Entre os militares alemães, que se preparavam para uma guerra necessária a fim de reordenar a hierarquia entre as potências, havia duas avaliações distintas. A do Estado-Maior do exército comandado pelo general Moltke, de que quanto mais cedo a guerra viesse maior seria a vantagem alemã diante dos russos. E a do almirante Tirpitz que não tinha a mesma segurança e preferia sua postergação, uma vez que sua principal rival num conflito podia ser a marinha britânica. A resposta da Alemanha foi positiva, garantindo apoio à Áustria-Hungria. Começaram então os preparativos para cumprir o antigo Plano Schlieffen, que previa uma vitória alemã rápida sobre a França, garantindo a retaguarda, para que então fosse lançada a ofensiva contra a Rússia. Com a carta branca da Alemanha, o governo austríaco preparou um ultimato à Sérvia em termos que garantissem a sua rejeição, incluindo o direito de autoridades austríacas atuarem na supressão de movimentos “subversivos” contra a monarquia em território sérvio. A partir desse momento, o castelo de cartas começou a desabar. Em 28 de julho a declaração de guerra do Império Áustro-Húngaro foi enviada à Sérvia, e em apenas uma semana oito países estavam em guerra (SONDHAUS, 2013).

O que se viu então foi um empreendimento militar sem precedentes na história humana. Milhões de homens vestiram fardas. A Grande Guerra sintetizaria as transformações pelas quais o mundo havia passado no século XIX. A industrialização da guerra transformara a guerra limitada em guerra total. Os novos meios de transporte e comunicação, a profissionalização dos exércitos nacionais, com recrutamento obrigatório, e a indústria armamentista em aliança com o Estado foram ingredientes de uma nova dinâmica da guerra, na qual todos os recursos humanos e materiais de uma nação podiam ser mobilizados e coordenados para a conquista dos objetivos militares (GIDDENS, 2001).

Os primeiros cinco meses de conflito desenganaram aqueles que acreditaram em uma guerra rápida. As perdas foram gigantescas, e em cada uma das frentes não havia vitoriosos ou derrotados, havia apenas o impasse que determinou a continuidade da guerra pelos quatro anos seguintes. Na frente ocidental, os avanços iniciais dos alemães foram contidos na vitória francesa no Marne. As baixas foram surpreendentes. Entre mortos, feridos e prisioneiros, a Grã-Bretanha perdera 85 mil homens, a França, 850 mil, e a Alemanha, 677 mil. Boa parte da Força Expedicionária Britânica havia sido destruída nos meses iniciais, sendo recomposta por novos corpos, divididos em dois exércitos já guarnecidos por tropas coloniais, e contingentes expressivos da Austrália, do Canadá, e da Nova Zelândia.

 

Nos Bálcãs, a Sérvia perdera 113 mil soldados, mais da metade de seu exército. Este foi o custo para recuperar Belgrado. Depois disso, a frente sérvia foi desativada porque a Áustria-Hungria precisou remanejar exércitos para a frente italiana. Na frente russa, os alemães conseguiram vitórias, mas, sem vencer na frente ocidental, não tinham forças suficientes para empreender uma ofensiva definitiva. Na Galícia, os russos venceram os austríacos. Da mesma forma como ocorria na frente ocidental, não havia vitórias definitivas, e as perdas eram monumentais. As baixas austríacas somavam 618 mil homens, e as russas, 250 mil (SONDHAUS, 2013).

No final de 1914 os beligerantes compreenderam melhor a magnitude do esforço que seria necessário para a manutenção das frentes de guerra. Todos estavam sem suprimentos, e a indústria ampliou a sua produção, na Europa e nos Estados Unidos. O conflito se estendeu pelo mundo colonial e, é claro, pelo Oriente Médio, que seria incorporado aos impérios britânico e francês após a derrota do Império Turco. O desafio de romper o impasse do equilíbrio de forças em cada uma das frentes foi acompanhado de uma série de inovações na indústria militar. A aviação desenvolveu-se rapidamente. Em princípio, de grande valor na observação aérea e na produção fotográfica, passou a ser utilizada também no bombardeio estratégico, ampliando sua capacidade de transporte já no final da guerra. O tanque foi aos poucos sendo adequado aos terrenos mais apropriados para o seu uso. E o submarino tornou-se a arma mais temível no ataque à navegação. (ARARIPE, 2008).

Nos meses finais de 1915, a frente ocidental estava estabilizada numa linha de 800 km que ia do mar do Norte à fronteira suíça. Ao longo da linha os dois lados cavaram trincheiras para que as posições fossem mantidas durante o inverno. As trincheiras permaneceriam por três anos, sem avanços ou recuos significativos (ARARIPE, 2008). Uma máquina de moer carne humana. Além da artilharia pesada, principal responsável pelas baixas da guerra, o terror foi ampliado com o uso do gás tóxico, outra inovação da guerra, e com as doenças.

No final do ano de 1916, os alemães decidiram arriscar mais, retomando a guerra submarina indiscriminada que haviam abandonado no início do conflito. A Alemanha sofria com o bloqueio a seus portos e com a falta de alimentos no país. Temia que a população deixasse de sustentar o esforço de guerra. O risco que assumia com essa retomada era o da entrada dos Estados Unidos na guerra, o que de fato ocorreria em 6 de abril de 1917.

 

Mil novecentos e dezessete foi um ano de mudanças no equilíbrio de forças. O regime czarista desabou sob o peso dos enormes custos impostos à população. O desabastecimento generalizado era resultado direto da mobilização de milhões de camponeses. Os custos da guerra também eram sentidos na sobrecarga de trabalho nas fábricas do país. Uma grande greve em Petrogrado, em janeiro, foi seguida de agitação que se espalhou pelo país. Em fevereiro, a grande manifestação de 200 mil trabalhadores recebeu a adesão das guarnições internas, formadas por novos recrutas e soldados convalescentes. A essa altura, a Rússia já havia perdido 2,7 milhões de homens, mortos ou feridos, além de 4 milhões de prisioneiros (SONDHAUS, 2013: 276). Era uma sangria. O motim foi seguido da proclamação do governo provisório pela Duma, e este decidiu pela continuidade na guerra, preparando nova ofensiva. O apoio francês, por meio do envio de armas e equipamentos, era uma garantia. O problema era o contingente, a deserção e a desorganização da cadeia de comando naquelas circunstâncias. A “ofensiva Kerensky” foi desastrosa, e o comando do exército russo acusou os efeitos da propaganda bolchevique, que teria alterado profundamente o moral das tropas na linha de frente. Crescia o apoio, entre os soldados e entre os russos em geral, à proposição bolchevique de encaminhamento imediato de negociações de paz, ainda que à custa de perdas territoriais. A ascensão dos bolcheviques ao poder, em outubro, daria início às negociações de paz que retirariam definitivamente a Rússia da guerra, desativando parte importante da frente oriental.

Ainda em 1917 as primeiras tropas norte-americanas começaram a chegar à Europa. A maior parte desembarcaria apenas em 1918, quando o contingente que atravessou o Atlântico chegou a 2 milhões de homens. Elas também levaram para a Europa a pandemia que ficou conhecida como Gripe Espanhola. O vírus havia se manifestado pela primeira vez em março de 1918, na base militar de Fort Riley, no Kansas. As transferências de soldados dentro dos Estados Unidos, e de lá para a Europa, rapidamente transformaram a mortífera gripe em pandemia mundial, contribuindo para o aumento da mortalidade nos campos de batalha, sobretudo na frente ocidental.

Depois do desastre de Caporetto, que reduziu o exército italiano à metade, do fracasso da ofensiva Nivelle, que deixou o exército francês assolado por motins, e da revolução na Rússia, seguida de sua saída da guerra – fato que daria vantagem decisiva à Alemanha na frente ocidental –, a chegada do grande contingente militar norte-americano foi absolutamente determinante para o fim do impasse europeu e a vitória da Entente. Também significou a possibilidade de permanência de mais de 500 mil soldados britânicos e coloniais no Oriente Médio até a completa derrota do Império Turco e a consecução do acordo de divisão da região entre a França e a Grã-Bretanha (SONDHAUS, 2013).

No final de setembro de 1918, Guilherme II foi avisado da necessidade do armistício, pois o exército alemão não podia mais sustentar suas posições. Diante da crise inevitável, o imperador entregou o governo aos partidos que haviam apoiado uma resolução de paz no Reichstag em julho de 1917, para que eles fossem responsabilizados pelos termos do acordo de paz que certamente seriam muito desfavoráveis à Alemanha. Este desfecho foi responsável pelo mito da “punhalada nas costas”, que funcionaria como um motor para nacionalistas e veteranos inconformados (SONDHAUS, 2013: 474). A suposta traição seria atribuída aos internacionalistas – socialistas e judeus.

 

Impactos da Grande Guerra: uma nova ordem

para o século XX

A Grande Guerra teve impactos profundos e duradouros, criando condições sociais, políticas e econômicas absolutamente novas no mundo. Não é exagero afirmar que ela forjou a ordem mundial que se impôs no século XX, tanto mais se considerarmos, como afirma boa parte da historiografia, que as duas guerras mundiais são o mesmo conflito, dividido por uma trégua de vinte anos. A Conferência de Paz de Paris estabeleceu a responsabilidade alemã pelo conflito, obrigando-a ao desarmamento e ao pagamento de todos os prejuízos. A Alemanha viveu profunda crise, administrada após os Tratados de Locarno (1925) e sua admissão na Liga das Nações (1926) por meio de empréstimos norte-americanos. Após a crise de 1929, as condições econômicas do país se deterioraram rapidamente com o fim da entrada daqueles recursos. Quatro anos depois Hitler assumiria o governo do país, disposto a rearmá-lo, contrariando as imposições do tratado de paz, e a retomar o expansionismo que garantiria ao povo alemão seu “espaço vital”.

Nos tratados que se seguiram à Conferência de Paz, o mapa europeu foi alterado pelos vencedores. Também foram modificadas as fronteiras coloniais, com a repartição das antigas colônias alemãs e do Império Turco. Os grandes impérios desmoronaram, pondo fim às dinastias Romanov, Habsburgo e Hohenzollern. Mas não se pode dizer que os vitoriosos europeus tenham obtido ganhos absolutos. Cada um deles saiu do conflito com dívidas vultosas, enfrentando a revolução, os movimentos nacionalistas nas colônias, e dependente da ajuda financeira e apoio político dos Estados Unidos, o maior vencedor de fato. A fragilidade da França e da Grã-Bretanha era evidente.

A revolução se espalhou. Marcaria decisivamente a história do século XX. Pouco mais de três décadas depois da chegada de Lenin à Estação Finlândia, em Petrogrado, um terço da humanidade estaria vivendo sob regimes derivados, de alguma forma, da revolução bolchevique. Sua origem está na desestruturação da ordem social europeia em razão do esforço de guerra. Ainda em 1917, diante da exaustão das sociedades envolvidas na guerra e da revolução que acontecia na Rússia, o desejo de paz e a revolução social haviam se fundido (HOBSBAWM, 1995: 66). A tese de Lenin relacionando a guerra ao imperialismo tornara-se um novo combustível para os movimentos revolucionários. Em janeiro de 1918, as manifestações antiguerra varreram a Europa. Começaram em Viena, chegaram às regiões tchecas da Alemanha, e culminaram com a revolta dos marinheiros austro-húngaros no Mar Adriático. Em setembro foi a vez da Bulgária, quando soldados desmobilizados marcharam sobre a capital e proclamaram a república. Em novembro, os soldados da base de Kiel começaram o movimento que se espalharia pela Alemanha, com a proclamação de uma república socialista na Baviera. Outra experiência foi a breve república soviética de Munique, na primavera de 1919 (HOBSBAWM, 1995: 73).

A onda revolucionária foi contida, mas deixou um aprendizado de resistências e lutas com duas consequências muito perceptíveis, ambas relacionadas à necessidade de recomposição da ordem ou da criação de uma nova ordem. De um lado, houve a incorporação de cidadãos – incluindo as mulheres – ao processo político, ou seja, a ampliação dos direitos como forma de domesticar as forças sociais. Esse processo foi mais profundo entre os vitoriosos e beneficiários das indenizações de guerra, situação na qual os vínculos nacionais se mantiveram mais fortes na medida em que os indivíduos podiam se ver recompensados pelo esforço de guerra. Além disso, a construção do discurso dos vitoriosos sobre a culpa dos perdedores caminhou no sentido de uma legitimação do conflito. Nesses casos, a ampliação da democracia foi um processo necessário e suficiente para a reconstrução da ordem. De outro lado, onde a desordem econômica e social se agravou no pós-guerra, como nos casos da Áustria, Alemanha e também Itália (esta absolutamente desestruturada, apesar de vitoriosa), houve um recrudescimento das forças revolucionárias e da reação contrarrevolucionária, com o surgimento dos partidos ultranacionalistas, como o Partido Fascista, e o Partido Nacional Socialista. A radicalização em torno desses dois polos políticos rompeu os constrangimentos liberais dos regimes representativos que existiam antes de 1914 na Itália, na Alemanha e também na pequena Áustria, onde parte significativa da população apoiava o Anschluss desde a Conferência de Versalhes.

Apesar de não ter havido a revolução mundial que os comunistas entendiam ser a condição para a própria manutenção de um programa revolucionário na Rússia, os partidos comunistas ganharam importância, notadamente nas lutas anti-imperialistas e de independências das colônias, como na China e na Indochina. Dessa forma, mesmo antes da ascensão soviética e da vitória contra o nazismo na Segunda Guerra Mundial, que determinariam a ordem bipolar da Guerra Fria, a influência de Lenin e da alternativa revolucionária foi um fenômeno novo cuja importância pode ser comprovada pelo surgimento dos partidos vinculados ao Comintern (1919-1943) em todas as regiões do mundo.

Os maiores benefícios da Grande Guerra foram colhidos pelos Estados Unidos. Antes do conflito, eram devedores do sistema financeiro britânico, cujos investimentos haviam permitido um desenvolvimento industrial e de infraestrutura sem paralelo no período. Tornaram-se credores dos Estados europeus, sua capacidade industrial foi ampliada pelas demandas da guerra, e, como consequência, passaram a força política central para a construção da ordem do pós-guerra. Além da atuação vitoriosa no campo de batalha, que lhes garantiu os direitos dos vencedores, constituíam, em 1919, a única nação com poder de dissuasão capaz de monitorar e defender a ordem estabelecida em Versalhes.

As condições da paz foram baseadas no programa dos 14 pontos do presidente Wilson, embora muitos dos pontos relacionados a fronteiras coincidindo com unidades étnicas não pudessem ser levados a cabo. A crônica do período e a historiografia passaram a atribuir a Wilson um idealismo kantiano, que informaria seu projeto para a constituição de uma instituição internacional capaz de garantir a paz entre as nações, mediando os conflitos e demandas a partir de um conselho.

 

Há duas observações importantes a serem feitas com relação ao Pacto da Liga das Nações, instituição imaginada por Wilson com o objetivo de garantir a paz entre as nações. A primeira é que havia um histórico anterior de negociações em favor de uma instância internacional garantidora da paz, que se materializou no Tribunal de Arbitragem, mais tarde transformado em Corte Internacional de Justiça, com sede em Haia. Este Tribunal teve sua origem no mesmo contexto de negociações internacionais que aprovou convenções fixando o direito da guerra ou direito de Haia, e, na origem, suas atribuições eram exatamente a resolução de conflitos entre as nações (LAIDLER, 2010). Uma segunda observação é quanto ao interesse norte-americano mais notório. Suas preocupações com a paz e com a manutenção de um relativo poder sobre a nova ordem, obtido desde logo por meio da condução do processo de paz, e, por conseguinte, de desmembramento e fragilização dos antigos impérios, eram a garantia de um mundo de paz e portas abertas para o comércio. Wilson havia sido um promotor das portas abertas, e até arrombadas, em casos de necessidade, de sorte que a nova ordem estabelecida era baseada não num idealismo de paz perpétua, mas num idealismo liberal cujo desenho institucional correspondia aos interesses da maior nação produtora de manufaturas do mundo, naquele contexto transformada também em centro financeiro.

Os termos de Versalhes foram os melhores para os propósitos do livre comércio, na medida em que determinou o surgimento de novos Estados cuja independência política dependia da proteção e favores das potências vitoriosas. Apesar das excepcionais condições de saída do conflito, o Senado norte-americano rejeitou a ratificação do Pacto da Liga e o comprometimento direto dos Estados Unidos com a manutenção da nova ordem. Mais tarde, os Estados Unidos estariam novamente em posição de neutralidade, sem responsabilidades para com as necessidades da Liga diante da quebra dos termos do Tratado de Versalhes por parte da Alemanha. A ausência da maior potência econômica e militar fragilizou a Liga das Nações, que passou a depender da atuação das antigas potências, traumatizadas e imobilizadas pelo terror de uma nova guerra.

O plano de Wilson foi diferente dos projetos anteriores de constituição de uma instituição internacional que garantisse a manutenção da paz. Estritamente político, o sistema de segurança passou a ser integrado não por juízes, mas pelas nações, por meio de uma assembleia. O poder decisório, no entanto, se concentraria no Conselho executivo, composto por quatro nações permanentes (as vitoriosas) e outras quatro eleitas pela assembleia (BANDEIRA, 2005: 82). Dessa forma foi constituída a Liga das Nações, antecedente da ordem igualmente hierárquica estabelecida pela Organização das Nações Unidas, no pós-Segunda Guerra Mundial. Mesmo fora da Liga, não há dúvidas de que os Estados Unidos saíram da guerra com vantagens econômicas comparativas que os definiam como player central no cenário mundial.

Por fim, é preciso mencionar o desequilíbrio que a potência norte-americana significou para o capitalismo como sistema que integrava os diversos mercados do mundo. A concentração da produção, a paulatina recuperação econômica das nações europeias e a bolha de crédito do mercado interno dos Estados Unidos foram elementos geradores da grande crise de 1929 que se espalhou rapidamente pelo mundo, deixando um rastro de desemprego e miséria, tanto nas nações industrializadas quanto nas colônias e nações dependentes. Este novo fenômeno foi decisivo para a radicalização política na Europa. Cresceram as mobilizações revolucionárias e trabalhistas, e os nacionalismos, com destaque para a ascensão do nazismo na Alemanha, entoando o discurso darwinista expansionista e denunciando os traidores internacionalistas de 1918.

 

Conclusão

A Grande Guerra, cuja duração e impactos não foram previstos por seus promotores, criou os desafios que pautariam a dinâmica política de todo o século XX. A revolução se espalhou pela Europa, deixando um rastro de radicalização e polarização política, com o surgimento dos novos partidos comunistas e de extrema direita, na década de 1920. Este fato foi motor para a negociação de inúmeros direitos sociais em sociedades marcadas pelas pressões de soldados desmobilizados e de mulheres trabalhadoras.

O amargo sabor da guerra ilimitada, sem vencedores possíveis por mais de quatro anos de combates impiedosos, permaneceu como memória e angústia. Como podia ter ocorrido aquele fenômeno devastador, assassino, irracional? O temor da repetição do massacre levaria a França a recusar-se ao enfrentamento de um segundo confronto com a Alemanha. Já para o povo alemão, ou pelo menos parte dele, a necessidade de uma compensação das perdas e da humilhação alimentou a ilusão de que um novo esforço, empreendido sob o comando do ultranacionalismo, podia ser a chance de retomar o antigo projeto de expansão. A Segunda Guerra Mundial ocorreu, dessa forma, como a etapa final do conflito anterior. Dela sairiam consolidadas as duas forças emergentes da primeira Grande Guerra: Estados Unidos e União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Como Trotski profetizara, “o bolchevismo e o americanismo imperialista eram os dois fatores da história contemporânea” (BANDIERA, 2005: 83).

 

“Ah, toda essa juventude, com suas mochilas e baionetas, com as capas e as botas enlameadas! Sonhando de modo humanístico-estético, poderíamos imaginá-la num quadro diferente. Poderíamos ter a seguinte visão: esses jovens montando e banhando cavalos numa enseada do mar, caminhando pela praia em companhia da namorada, achegando os lábios à orelha da meiga noiva, ou talvez ensinando uns aos outros, numa amizade feliz, o tiro de arco. Em lugar disso, jazem ali, com o nariz no barro bombardeado. Que façam isso com alegria, ainda que transidos de medo e cheios de saudades da mãe, é assunto à parte, que nos orgulha e envergonha, mas nunca nos deveria induzir a colocá-los nessa situação.” (Mann, 800)

 

A autora é professora do programa de pós-graduação em história social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

c.laidler@ig.com.br

 

NOTAS DE RODAPÉ

 

  1. O autor discutiu ainda os interesses escondidos dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha nas iniciativas de criação do tribunal de arbitragem. Segundo ele, os Estados Unidos pretendiam dominar a América Central e garantir seus interesses no Canal do Panamá. BERNHARDI, Friedrich Von. Germany and the next war. 1912. p. 18 e. (tradução livre)
  2. Apud Sondhaus, Lawrence. A Primeira Guerra Mundial. p. 42.
  3. O líder socialista Jean Jaurès é apontado como um dos grandes defensores do pacifismo nos anos anteriores à Grande Guerra. Mas manifestou seu apoio ao presidente francês Raymond Poincaré no momento em que este retornara da Rússia, viagem empreendida entre os dias 16 e 29 de julho de 1914. Por sua trajetória pacifista, foi assassinado por um nacionalista em 31 de julho de 1914.

 

BIBLIOGRAFIA

 

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