Chevalier Neukomm, quem diria, acabou na Rua do Passeio

Chevalier Neukomm, quem diria, acabou na Rua do Passeio

Mário Trilha, Músico e musicólogo

 

Je m’étais occupé beaucoup dans ce pays féerique, où tout est merveilleusement beau et grandiose.[1]

Sigismund Neukomm

“Esquisse Autobiographique”, Paris, 1858.

 

Insight Inteligência - artigos e ensaios fora da curva

Sigismund Neukomm (Salzburgo, 10 de julho de 1778 − Paris, 3 de abril de 1858), notável compositor, maestro, organista, pianista, flautista, teórico e crítico musical, viveu no Rio de Janeiro entre 1816 e 1821, desempenhando relevante papel artístico e social na corte carioca. Produto legítimo do centro canônico musical de enunciação germânico, foi frequentemente referenciado como o mais distinto discípulo do célebre Haydn. Seu período brasileiro deu, malgré lui, origem a muitas mistificações e ilações encontradas em textos que vão de romances, artigos, até respeitáveis livros de história geral e da música. É o patrono da cadeira número 6 da Academia Brasileira de Música.

Neukomm, primogênito de uma família numerosa, nasceu em Salzburgo, no dia 10 de julho de 1778, em uma casa em frente à antiga residência de Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791). Ele fazia a ressalva de não ter sido um prodígio como o ilustre conterrâneo, sem deixar de frisar que também manifestou precocemente o seu talento, desenvolvido graças aos cuidados do seu pai, o renomado helenista David Neukomm (1745-1805). Antes de completar sete anos, iniciou seus estudos musicais, sob a orientação do organista da catedral de Salzburgo, Franz Xaver Weisshauer (fl. 1785).

Apenas o estudo do órgão não satisfazia a inquietude musical de Neukomm, e logo ele passou a praticar os instrumentos de cordas e sopros, tendo se desenvolvido sobremaneira na flauta, instrumento com o qual se apresentou como concertista. (PELLEGRINI, 1936, p.6). Ainda adolescente passou a ter aulas com Michael Haydn (1737-1806), de quem recebeu sólida formação musical. Haydn o fez trabalhar seus Partitur-Fundament,[2] exercícios em todas as tonalidades maiores e menores, com inúmeras progressões de baixo, com a explicação viva voce durante as aulas. Michael Haydn também lhe confiou parte de suas funções como organista da catedral de Salzburgo e de outras igrejas (NEUKOMM, 1858, p.4).

Aos 16 anos, Neukomm foi nomeado organista titular da igreja da universidade de Salzburgo, e, aos 18, concluiu seus estudos de matemática e filosofia na mesma universidade. Em 1796, foi contratado como pianista correpetidor no Hoftheater de Salzburgo (PELLEGRINI, 1936, p.7). O período como correpetidor durou apenas um ano, e em março de 1797, Neukomm tomou a sua mais importante decisão, até então, em relação ao seu futuro musical: aprofundar seus conhecimentos musicais ao pé do mais renomado compositor da sua época, Joseph Haydn (1732-1809).

 

Eia Pater, fons amoris

Viena, nos últimos decênios do século XVIII, era para os músicos o equivalente ao que Roma foi para os pintores no Renascimento, onde não somente a música alemã circulava, mas grandes nomes contemporâneos da França e da Itália também estavam no gosto do público vienense. Neukomm, graças à recomendação de Michael Haydn, foi admitido no círculo dos alunos de Haydn. Aparentemente, o primeiro contato entre mestre e discípulo foi bastante frio, Haydn estava muito envolvido com a composição do grande oratório “Die Schöpfung” (“A Criação”), e teria dito que estava muito ocupado para aceitar novos alunos. (PELLEGRINI, 1936, p.9).

No entanto, as relações logo melhoraram, e o próprio Neukomm declarou que Haydn o acolheu com grande bondade e consentiu a sua presença no círculo restrito dos seus discípulos. Pouco tempo depois, a relação ganharia contornos afetivos, com o jovem aprendiz projetando no célebre mestre sexagenário uma segunda figura paterna (NEUKOMM, 1858, p.4).

Uma das tarefas mais importantes confiadas a Neukomm durante os seus anos junto a Haydn foi a de complementar ou arranjar obras do mestre. Como nos ateliês de artes plásticas dos grandes mestres do Renascimento, o artista consagrado somente se ocupava das seções mais relevantes da obra de arte, deixando os detalhes acessórios a cargo dos discípulos. Neukomm desempenhou exaustivas e importantes tarefas como assistente do mestre, com reduções de obras sinfônicas para agrupamentos de câmara, redução para piano do grande oratório “Die Schöpfung” e, sobretudo, o arranjo de mais de 70 canções escocesas, além de centenas de outras canções nacionais, encomenda do editor escocês George Thomson (DENORA, 1997, p.99).

Durante os sete anos de aprendizagem em Viena, Neukomm, sem prejuízo da sua atividade musical, também estudou história natural e medicina, tendo mesmo cogitado tornar-se engenheiro. Mas, muito cioso em garantir o seu sustento, propter panera lucrandum,[3] o seu ganha-pão eram as lições quotidianas de piano e canto (NEUKOMM, 1858, p.5). Entre os alunos que lhe proveram o pão nessa época estavam os dois filhos de Wolfgang Amadeus Mozart; Carl Thomas Mozart (1784-1858) e Franz Xaver Wolfgang Mozart (1791-1844). O período vienense foi bastante profícuo para a atividade composicional autoral de Neukomm, a tal ponto fértil que, em janeiro de 1804, aos 25 anos de idade, já sentiu a necessidade de criar um catálogo de suas próprias obras por ordem cronológica. Entretanto, em 5 de maio do mesmo ano, Neukomm deixou todo esse universo cosmopolita e a estreita convivência com o seu amado pai artístico, partindo para a Rússia.

 

O Jabot russo

No seu esboço autobiográfico, Neukomm mencionou sucintamente que, graças a um concurso de circunstâncias favoráveis, obteve o posto de mestre de capela no teatro alemão de São Petersburgo (NEUKOMM, 1858, p.5). No entanto, não fez nenhuma menção à razão que o levou a deixar Viena, pois nada indicava uma situação profissional ou artística insatisfatória que o compelisse a abandonar a capital austríaca. As evidências apontam uma urgência que contrasta com o quadro róseo oficialmente descrito.

Em uma carta, redigida em Viena, datada de 28 de março de 1804, para um destinatário não identificado, Neukomm revela grandes preocupações práticas e financeiras em relação à longa viagem até São Petersburgo. “Ich werde bis May längstens Anfangs Juni von hier nach Petersburg abreisen. Wie ich hinkommen werde, weiß ich noch nicht, denn in meiner Kasse sieht’s noch verdammt mager aus; aber fort muß ich, und sollte ich zu Fuße wandern müßen”[4] (ANGERMULLER, 1977, p.33). O indício mais antigo da provável motivação íntima de Neukomm é uma recensão, de autor anônimo, publicada no Allgemeine Musikaliche Zeitung em 7 de abril de 1813, sobre uma obra para piano de Neukomm em homenagem ao compositor e pianista tcheco Jan Ladislav Dussek (1760-1812), intitulada “Elégie harmonique pour le Pianoforte sur la mort de J. L. Dussek”.

O autor do texto apócrifo, ao fornecer dados biográficos de Neukomm, informa, referindo-se ao período russo, que posteriormente ele fez chegar até a Rússia um “relacionamento especial”: “Nachher brachte ein besonderes Verhältnis und der Rath seines väterlichen Freundes N[eukomm] nach Russland”[5] (ALLGEMEINE MUSIKALISCHE ZEITUNG, 1813, nº 14, p.234). O autor da recensão continua relatando que, para Neukomm, São Petersburgo foi um lugar que lhe permitiu exercer a atividade de artista freelance e uma “universidade de vida”: “und, in St. Petersburg, zu eyner freyern Kunstthätigkeit, wie auch in eine hörere Schule für die Welt, das Leben und seine vielseitigen Verhältnisse”.[6]

A segunda fonte coeva a tratar da motivação íntima da partida intempestiva de Neukomm para a Rússia foi outra recensão de uma obra do compositor, o oratório “Christi Grabelung”, publicada no Allgemeine Musikaliche Zeitung em 15 de agosto de 1827, redigida pelo cronista, compositor e fundador do jornal, Friederich Rochlitz (1769-1842). O autor da recensão conhecia Neukomm pessoalmente e tinha grande apreço pelo músico e por sua obra.

Na breve contextualização biográfica sobre o compositor, Rochlitz, ao mencionar a ida de Neukomm para São Petersburgo afirmou que a necessidade da deslocação do artista deveu-se a “circunstâncias especiais”, que não estava autorizado a relatar: “Besondere Verhältnisse, die näher zu bezeichnen wir erst die Erlaubniss haben müssten, führten N. fast noch in Jünglingsjahren nach St. Petersburg”[7] (ALLGEMEINE MUSIKALISCHE ZEITUNG, 1827, nº 33, p.563). A musicóloga austríaca Gisela Pellegrini (1894-1975), que, em 1936, publicou o texto biográfico “Sigismund Ritter von Neukomm. Ein vergessener Salzburger Musiker”,[8] também advogava a tese de que a necessidade premente de Neukomm partir intempestivamente para a Rússia deveu-se a questões de foro íntimo; contudo, com a característica pruderie da época, diz que os contemporâneos de Neukomm estenderam um véu oculto sobre o verdadeiro motivo (PELLEGRINI, 1936, p.12).[9]

A ida para a Rússia seria a primeira de várias mudanças de país, cultura e língua que Neukomm efetuou ao longo da vida. O motor da primeira mudança parece ter sido a sua homossexualidade, o que nos permite especular se as outras deslocações posteriores também poderiam estar ligadas aos “relacionamentos especiais”, às motivações de foro íntimo e ao estilo de vida a que o armário do século XIX obrigava.

A primeira composição relevante de Neukomm para o teatro alemão de São Petersburgo foi a ópera “Alexander am Indus”.[10] Estreou, com grande sucesso, em 15 de setembro de 1804, durante as comemorações do terceiro aniversário da coroação do Tzar Alexandre I (1777-1825). No ano seguinte, compôs um acompanhamento melodramático para instrumentos, do poema “Die Braut von Messina”, de Friederich Schiller (1759-1805). Ele contava em apresentar a música ao poeta, mas Schiller faleceu antes que a cópia da partitura chegasse até as suas mãos (NEUKOMM, 1858, P.5).

A fama que granjeou na Rússia lhe rendeu as primeiras honrarias públicas. Em 1807, foi nomeado membro da Sociedade Real de Música de Estocolmo, e, no ano seguinte, integrante da Sociedade Filarmônica de São Petersburgo. A partir de 1805, dedicou-se intensamente à composição de música sacra, utilizando textos em alemão, latim, italiano e russo.

Os anos de Neukomm na Rússia também parecem ter sido um período de frutíferos contatos profissionais, do início de sua fama como um dos alunos favoritos de Haydn e uma fase de algumas extravagâncias comportamentais, provavelmente inaceitáveis na conservadora capital dos Habsburgo. O escritor e dramaturgo Stepan Petrovitsch Zhikharev (1788-1860) nas suas memórias, intituladas “Zapiski sovremennika”,[11] mencionou Neukomm em duas entradas datadas de 13 e 20 março de 1805:

(13 de março, segunda-feira)

“Mal sentamo-nos à mesa, chegaram os novos convidados: o velho professor preferido de canto, o castrado Muschietti,[12] o qual dá aulas em Moscou para damas e moças em sua terceira geração, um alto e gordo bon vivant gourmé, e junto com ele meu conhecido, o jovem Neukomm, mestre de capela e compositor musical, um dos alunos mais amados do grandioso Haydn, que mora com o Steinsberg.[13] Fiquei surpreso ao vê-los juntos, mas o enigma rapidamente foi explicado: Muschietti sendo um verdadeiro e imparcial especialista em talentos musicais, desejando certamente segurar Neukomm em Moscou, preocupava-se em estabelecê-lo como mestre de capela. […] Com bastante dificuldade consegui reconhecer Neukomm, com seu enorme jabot que cobria quase por completo a sua barba e não sei como ele conseguiu lidar com a comida. E os brincos? Os brincos pareciam vir das rodas dianteiras das minhas carruagens! Só Deus sabe quem o ensinou a se vestir dessa forma. As madames bonitas, observando o músico talentoso, sorriam” (ZHIKAREV, 1934, p.51-52).

 

A extravagância da indumentária de Neukomm não deixou de causar certa espécie à boa sociedade moscovita.

Na entrada de 20 de março de 1805, foi relatado que o compositor alemão Johann Wilhelm Hässler (1747-1822)[14] demonstrava grande admiração por Neukomm, e que ele acalentava o desejo de fazê-lo seu sucessor em Moscou. No entanto, o jovem músico desejava se deslocar até Weimar, e de lá se estabelecer em Paris, contando com a intermediação de ninguém menos que Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), que o recomendou ao dramaturgo prussiano e general do exército imperial russo, Friederich Maximilian von Klinger (1752-1831):

(20 de março, segunda-feira)

Ele [Hässler] não ouve mais nada nas comunidades e sempre se alegra intensamente nas raras vezes em que se depara com tais composições como as de Neukomm, estas tão abundantes em riqueza, variedade e poder de ideias musicais. Disse que na velhice dos anos, ele irá deixar as aulas e gostaria de passá-las a Neukomm, caso este estabelecesse a sua moradia em Moscou. Mas, ao que parece, isso é impossível: Neukomm visa ir para Weimar e, de lá, a conselho de Goethe, pretende ir para Paris. O grande poeta alemão patrocina o jovem Neukomm para compor os excelentes coros do “Fausto” e forneceu-lhe uma carta para o seu amigo de São Petersburgo, o general Klinger (ZHIKAREV, 1934, p.57-58).[15]

Aparentemente, a intermediação de Goethe não resultou, ou tardou muito a se concretizar, pois Neukomm permaneceu na Rússia até junho de 1808 (NEUKOMM, 1858, p. 7).

 

O favorito

Um dos primeiros biógrafos de Haydn, o pintor alemão Albert Christoph Dies (1755-1822), que entrevistou o compositor dezenas de vezes, registrou na sua vigésima sétima visita, no dia 4 de junho de 1807, que mal Haydn lhe viu chegar logo desviou o assunto para o seu querido discípulo Neukomm, que lhe havia mandado uma carta de São Petersburgo informando sobre os concertos que dirigiu na Rússia com obras de Haydn, e reiterando que o mestre era seu pai e criador da sua felicidade (DIES, 1962, p.151-152). O outro biógrafo coevo de Haydn, o diplomata Georg August Griesinger (1769-1845), confirmou, nas suas “Biographische Notizen über Joseph Haydn”, a proximidade de Neukomm, embora de forma menos sentimental e entusiasta que Dies. Para Griesinger, Neukomm era um dos melhores e mais gratos discípulos de Haydn, ao lado de Ignaz Josef Pleyel (1757-1831) e Franciszek Lessel (c. 1780-1838): “Als seine besten und dankbaren Schüler pflegte er die Herren Pleyel, Neukomm und Lesse zu rühmen”[16] (GRIESINGER, 1810, p. 119). Outro biógrafo da época, o escritor e libretista italiano Giuseppe Carpani (1751-1825), na sua obra “Le Haydine”, ao ressaltar que o compositor não teve filhos biológicos, confirmou Neukomm como um dos filhos musicais do grande mestre, entre o já citado Pleyel e Joseph Weigl (1766-1846), que na verdade foi afilhado de batismo de Haydn e aluno de Antonio Salieri (1750-1825). Potremmo però chiamare col nome di figli suoi, alla maneira del Cherubini, il Pleyel, stato di proposito suo scolare, ed il Neukomm ed il Weigl; il quale ultimo, sebbene debba dirsi piú allievo del Salieri che dell Haydn.”[17] (CARPANI, 1823, p.271). Assim, podemos constatar a partir dos textos dos primeiros biógrafos de Haydn, ou seja; Dies, Griesinger e Carpani, que privaram da intimidade do compositor, a sempiterna condição de discípulo querido de Neukomm, que se consolidou, nos anos posteriores ao falecimento de Haydn, como um excelente título honorífico e cartão de visitas profissional, a ponto do triunvirato com Pleyel e Lessel, ou Weigl, desaparecer, progressivamente, nas fontes, e Neukomm assumir individualmente o título de discípulo mais querido. Ironicamente, a posteridade reteve o nome de Ludwig van Beethoven (1770-1827) como o grande aluno de Haydn.

No inverno de 1808, Neukomm chegou a Viena, onde reencontrou Haydn, aos 77 anos incompletos, muito debilitado, mas com todas as suas faculdades mentais preservadas, e mais emotivo e sensível que nunca. O derradeiro encontro de Neukomm com o seu pai artístico deu-se em 18 de fevereiro de 1809, pouco antes da invasão de Viena pelo exército francês. No momento da despedida, Haydn lhe presenteou com a partitura original de uma de suas missas, e Neukomm declarou que não trocaria o presente por nenhuma riqueza deste mundo. (DIES, 1962, p.173). O mestre faleceu em 31 de maio de 1809, apenas três meses após a partida do seu filho musical.

Ao serviço de Talleyrand

Em 7 de novembro de 1809, Neukomm chegou a Paris, onde permaneceu pouco tempo, deslocando-se em dezembro para Montbéliard, onde aderiu à maçonaria assinando o ato de fundação da sua loja junto ao Grand Orient de France, tornando-se membro da loja Les Amis Éprouvés de Montbéliard (VANDEVIJVERE, 2015, p.521). Regressou a Paris em 13 de maio de 1810, onde se estabeleceria até a sua vinda ao Brasil em 1816. Sobre os três primeiros anos do músico na capital francesa, ele próprio declarou que levava uma vida muito agradável, sem negligenciar o seu trabalho (NEUKOMM, 1858, p.8). Provavelmente o interesse primordial de Neukomm na capital francesa era o de aprofundar os seus conhecimentos de ópera (PELLEGRINI, 1936, p.20).

Por intermédio de Louise de Montmorency-Logny, princesa de Vaudémont (1763-1833), foi apresentado a Charles Maurice de Talleyrand-Périgord, príncipe de Bénévent (1754-1838). Talleyrand, apodado de diable boiteux (diabo coxo), foi um importantíssimo estadista francês, participante e sobrevivente de todas as turbulências do antigo regime, terror revolucionário, império napoleônico e restauração, descrito pelos seus detratores como cínico, corrupto e cheio de vícios, e, ao contrário, louvado pelos seus admiradores como pragmático, visionário, harmonioso e racional.

Logo Neukomm, que provavelmente conheceu a sua faceta mais graciosa, classificaria o político como um amigo devotado, que o engajaria, após a morte de Dussek, por obesidade, como o seu pianista residente. A ligação patronal duraria mais de 20 anos, com períodos intermitentes ocasionados pelas viagens de Neukomm.

A duradoura colaboração profissional de Neukomm com o príncipe de Bénévent deu azo a conjecturas sobre uma possível atuação do músico como uma espécie de diplomata, e uma atividade ainda mais improvável como informante ou espião. Nenhuma dessas funções extramusicais foram mencionadas nas fontes coevas. Talvez a especulação de atividades diplomáticas se deva, inicialmente, ao fato de o Allgemeine Musikalische Zeitung ter noticiado que Neukomm estava integrando a comitiva diplomática do príncipe Talleyrand, “Hr. Neukomm der sich gegenwärtig im diplomatischen Gefolge des franzöischen Staatsministers, Fürsten von Talleyrand, am wiener Congress befindet”[18] (ALLGEMEINE MUSIKALISCHE ZEITUNG, 1814, nº 49, p.830).

Suas alegadas atividades de espionagem, algumas vezes referidas atualmente, não são encontradas nas fontes coevas, e a hipótese tampouco é levantada pela biógrafa Gisela Pellegrini. O agente secreto Sigismund Neukomm, aparentemente, foi uma criação do escritor francês Jean Orieux (1907-1990), que na sua biografia romanceada de Talleyrand[19] descreveu uma cena um tanto folhetinesca, na qual o músico aparece tocando piano, a altas horas, no intuito de abafar as conversas secretas, levadas a cabo nos aposentos de Talleyrand em Viena, e assim impedindo que a polícia secreta do príncipe Klemens Wenzel von Metternich (1773-1859) se inteirasse das articulações francesas.

Não há, no entanto, margem para especulações quanto ao triunfo artístico de Neukomm no congresso de Viena. Em 21 de janeiro de 1815, diante de todas as cabeças coroadas, embaixadores e demais autoridades partícipes do congresso, teve executado, na Catedral de Santo Estevão, o seu Réquiem em dó menor, in memoriam de Luís XVI (1754-1793). O efetivo coral contou com quase 300 cantores, divididos em dois coros, um dirigido pelo próprio compositor, e o outro, por Antonio Salieri, mestre de capela do imperador da Áustria.

Os solos de soprano ficaram a cargo da irmã do compositor, Elisabeth Neukomm (1789-1816). A comoção gerada pela música foi tão intensa que Neukomm e Salieri foram agraciados, por Luís XVIII (1755-1826), com o título de Chevalier de la Légion d’Honneur. Antes de deixar Viena, o artista financiou uma lápide, de mais relevo, para o jazigo de Haydn no cemitério de Gumperdorfer (PELLEGRINI, 1936, p.23-24). Dois meses após o triunfo vienense, foi publicada uma curiosa nota no Allgemeine Musikalische Zeitung de 8 de março de 1815, negando um boato sobre o falecimento de Neukomm (ALLGEMEINE MUSIKALISCHE ZEITUNG, 1815, nº10, p.168). Em setembro, após o congresso e os 100 dias do efêmero retorno ao poder de Napoleão Bonaparte (1769-1821), o músico regressou a Paris com Talleyrand.

 

O país encantado

Em 1816, Neukomm aceitou uma “vantajosa oferta” (l’offre avantageuse) de Charles Emmanuel Sigismond de Montomorency-Luxembourg (1774-1861), Duque de Luxemburgo, embaixador extraordinário da França, encarregado de parabenizar D. João VI (1767-1826) por sua ascensão ao trono, reatar as relações diplomáticas e tratar da devolução da Guiana, para lhe acompanhar ao Rio de Janeiro. Embarcaram em Brest, na fragata Hermione, no dia 2 de abril, e chegaram ao Rio a 30 de maio[20] (OLIVEIRA LIMA, 2006, p.715).

Curiosamente uma notícia publicada em 18 de abril de 1816, na Gazeta do Rio de Janeiro, informava que Neukomm já teria desembarcado no Rio: “Em o navio americano Calphe, chegaram do Havre de Grace a este porto as pessoas abaixo nomeadas (a mór parte são artistas das quaes são Artistas de profissão) e que vem residir nesta Capital”. (GAZETA DO RIO DE JANEIRO, Nº 28, 1816, p.3). Na mesma notícia vemos o músico ser anunciado com o seu, já consolidado, título e cartão de visitas: “o mais distinto discípulo do célebre Haydn”. Além de Neukomm, os outros artistas mencionados são Joachim Le Breton (1760-1819), Auguste-Marie Taunay (1768-1824), Nicolas-Antoine Taunay (1755-1830), Jean-Baptiste Debret (1768-1848), Charles Simon Pradier (1783-1847) e Auguste Henri Victor Grandjean de Montigny (1776-1850), que viriam a constituir o núcleo duro do que se convencionou classificar posteriormente como Missão Artística Francesa.

O fato de Neukomm constar na lista dos artistas a bordo do Calphe deu azo a especulações e a ilações sobre a sua suposta participação na Missão Artística Francesa, que são, ainda atualmente, frequentemente repetidas em textos diversos. O mal-entendido parece ter começado a ser difundido por Manuel Araújo Porto Alegre (1806-1879): “O célebre Neukomm, discípulo de Haydn, que veio para esta côrte como lente de música quando veio a colônia artística dirigida por Lebreton para fundar a Academia das Bellas Artes” (PORTO-ALEGRE, 1856, p.36). No entanto, as fontes da época não evidenciam a sua integração ao grupo de artistas franceses, anteriormente ligados ao bonapartismo.[21] Ele não os mencionou na sua autobiografia.

O nome de Neukomm, ao contrário de todos os artistas franceses do grupo, não consta da lista de futuros professores na Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro, idealizada por Le Breton, no seu memorando, de 12 de junho de 1816, apresentado a António Araújo e Azevedo (1754-1817), 1º Conde da Barca; a música é apenas mencionada como um estudo complementar, mas desnecessária à base curricular da futura escola. (LEBRETON, 1959, p.293). Neukomm deu a entender, nas suas memórias, que não tinha um contrato preestabelecido para permanecer no Brasil, apenas trazia uma carta de recomendação de Talleyrand endereçada ao Conde da Barca, seu amigo íntimo desde os tempos que o nobre intelectual português exercia as funções de embaixador em Paris.

O Conde da Barca, nas palavras de Neukomm, era um homem de espírito esclarecido e de grandes conhecimentos, que o recebeu com grande bondade e o convidou a ser testemunha e partícipe da fundação de um novo império no novo mundo: “Nous avons l’espoir, me dit-il, de fonder un nouvel empire dans ce Nouveau-Monde, et ce sera pour vous d’un grand intérêt d’être témoin de cette période de développement”[22] (NEUKOMM, 1858, p.9).

Neukomm aceitou a oferta de trabalho e o convite para viver na casa do Conde da Barca, na rua do Passeio, número 42, um sobrado em frente ao Passeio Público.[23] O nobre tinha como única companhia o médico baiano Manuel Luís Álvares de Carvalho (1751-1825), cirurgião-mor do Reino. A partir de 1815, o Conde da Barca, também passou a ocupar, como segunda moradia, a chácara do Bom Retiro, no Engenho Velho. Neukomm não deixou de ressaltar que o nobre era como ele, pois não tinha se casado: “Il était comme moi, non marié, et n’avait pour toute compagnie, auprès de lui, qu’un ami âgé, le docteur Carvalho, homme très-distingué, médecin de l’infante Dona Isabella, future régente du Portugal”[24] (NEUKOMM, 1858, p.10). Essas linhas, aparentemente anódinas, são a única referência, em todo o texto autobiográfico, que o músico fornece sobre a sua vida privada.[25] Pellegrini frisou que nunca se conheceu qualquer relacionamento de Neukomm com mulheres e que quem renuncia sabe ao que renunciou (PELLEGRINI, 1936, p.60).

Como mencionado, o artista não foi assexuado, e teve outros relacionamentos, ainda que expressamente não relatados por ele no seu texto de velhice, já que se encontravam na categoria de “relacionamentos especiais”. O jornalista e escritor Laurentino Gomes abordou a questão sem eufemismo: “Um segundo enigma tem a ver com a sua vida privada. Bonito, famoso, solteiro e sem filhos, Neukomm tem seu nome numa lista de quatro homossexuais não assumidos da corte de dom João, elaborada por Luiz Mott, fundador e ex-presidente do grupo Gay da Bahia”[26] (GOMES, 2020, p.77).

Vale lembrar que os membros do governo de D. João VI, como o Conde da Barca, favoráveis a uma maior proximidade com a França, eram vistos com grande desconfiança pelo ala filo-inglesa do governo, e sobretudo por Percy Smythe, 6º Visconde de Strangford (1780-1855), embaixador inglês no Rio de Janeiro, que denunciou, em uma carta a Domingos António de Sousa Coutinho, Conde de Funchal (1760-1833), datada de 16 de janeiro de 1810, a existência de uma facção homossexual pró-França, e que entre esses afrancesados da corte carioca “jamais la pédérastie n’était si florissante”[27] (CORRÊA DO LAGO, 2014, p.3).

Lorde Strangford apenas nomeou os líderes da alegada facção; João de Almeida Melo e Castro. 5º Conde de Galvêas (1756-1814) e o núncio apostólico, o bispo italiano Lorenzo Callepi (1741-1817). Mas estendeu a pecha de “filhos de Sodoma” a todos os francófilos do governo joanino no Rio.

A particularidade de Neukomm ter ido viver na casa do Conde da Barca enquadra-se em um velho hábito do nobre intelectual Araújo e Azevedo, que tinha o costume de hospedar regularmente algum artista residente: “Na sua casa encontrava-se sempre hospedado algum profissional: ou o cavalheiro Neukomm, discípulo favorito de Haydn e compositor da real capela, ou um pintor italiano agarrado não se sabia onde, (…) ou outros artistas” (OLIVEIRA LIMA, 2006, p.167).

Segundo o próprio compositor, o rei lhe deu pagamento mais que suficiente para cobrir as suas despesas, sem lhe designar nenhuma função específica. Mas ele teve a felicidade de oferecer lições de música à infanta Dona Maria[28] (sic) a D. Pedro (1798-1828) e à sua futura esposa, Dona Leopoldina (1797-1826), aproveitando a ocasião para praticar a língua francesa. (NEUKOMM, 1858, p.10). Essa afirmação de Neukomm deu margem a todo tipo de ilações, deturpações e imprecisões, frequentemente repetidas na história da música brasileira, sobre a real extensão do seu papel de professor dos príncipes.

Pela inclusão da princesa Leopoldina podemos constatar que o relato se refere a um período posterior a 5 novembro de 1817, data de chegada da princesa austríaca ao Rio, o que parece indicar que durante os seus primeiros 17 ou 18 meses no Brasil, Neukomm não ofereceu lições aos infantes portugueses, que eram alunos de longa data do célebre compositor Marcos Portugal (1762-1830). D. Pedro já era um jovem adulto com muitos anos de formação musical, pois já tinha sido aluno do castrado italiano Giuseppe Totti (fl.1780-1832), e é provável que tenha tomado lições de outros professores, como Januário da Silva Arvelos (c.1790-c.1844) e o Padre José Maurício Nunes Garcia (1767-1830), o mais notável compositor brasileiro da época, mestre da Real Capela do Rio de Janeiro desde 1808.

  1. Pedro não somente fez a maior parte da sua instrução musical sob a orientação de Marcos Portugal, como, enquanto o mestre foi vivo, nunca prescindiu de seus conselhos para as suas próprias composições, sobretudo as utilizadas na Capela Real. Nesse contexto, as lições que Neukomm deu ao príncipe, foram de caráter mais informal e esporádico, o que talvez pudesse ser encaixado na definição atual de masterclass. Exatamente no mesmo período, em carta datada de 15 de novembro de 1817, destinada ao compositor austríaco Joseph von Eybler (1765-1846), Neukomm informava ao amigo que “o príncipe herdeiro ama sem dúvida a música, mas será difícil curar o seu estômago deteriorado. No começo sentia dentro de mim um clamor de apóstolo, mas o meu santo fervor já está muito mais morno, pois tenho pouca vontade de alcançar a coroa de mártir. Transeat cum caeteris!”[29] (NEUKOMM, 1817, apud SILVA, 2012, p.370).[30]

Mais reveladora ainda é a carta a uma amiga parisiense, datada de 12 de agosto de 1817, portanto anterior à chegada de Leopoldina, em que o próprio compositor austríaco revelou não incluir D. Pedro no rol dos seus alunos de fato: “j’ai deux Eléves, je n’y compte pas le Prince royal, qui s’occupe de la musique en Prince”[31] (ANGERMULLER, 1977, p.38-39).

O caso da infanta Isabel é muito semelhante, pois também era aluna regular de Marcos Portugal, e a princesa Leopoldina era uma jovem adulta quando chegou ao Rio, e já havia tido a sua instrução musical consolidada, sob a orientação do compositor Leopold Kozeluch (1747-1818),[32] em Viena (OBERACKER, 1973, p.18). Na verdade, a princesa trazia da Áustria uma recomendação positiva, em relação ao compatriota radicado no Rio, feita por Eybler “com caloroso zelo amigo” (NEUKOMM, 1817, apud SILVA, 2012, p.370). Assim, o papel de Neukomm, como didata dos príncipes, foi informal, o que não lhe impediu de fazer música com os infantes e lhes dedicar algumas obras.[33]

A lenda de Neukomm como professor de composição, harmonia e contraponto de D. Pedro, e como principal professor de música de sua irmã e de sua esposa, além de farol da vanguarda musical alemã nos trópicos, é uma criação posterior da história da música brasileira, fruto de uma visão darwinista germanófila eivada de preconceitos contra o alegado atraso das músicas italiana e portuguesa.

As duas únicas alunas no Rio, reconhecidas por Neukomm, foram sua antiga amiga Wilhemine von Langsdorff, née Schubert (fl.1804-1822.), esposa do Barão Georg Heinrich von Langsdorff (1774-1852), cônsul-geral da Rússia no Rio, que já tinha sido sua aluna no país eslavo,[34] e uma jovem não identificada de 16 anos, extremamente talentosa, possuidora de uma disciplina excepcional de estudo.[35] (ANGERMULLER, 1977, p.38-39). Curiosamente, o músico não fez menção a Francisco Manuel da Silva (1795-1865), compositor do hino nacional brasileiro, que, por essa altura, se declarava seu discípulo.

Neukomm foi um tanto contraditório em relação ao pagamento régio que eventualmente auferia, pois, se em um primeiro momento afirma que recebia o suficiente para as suas despesas, logo diz que viveu os seus anos no Rio sem depender da corte ou do Estado: “Ainsi je vécus pendant tout le temps de mon séjour à Rio Janeiro, de 1816 à 1821, au milieu de la famille royale, qui me combla de bontés; mais sans dépendre personnellement ni de la Cour, ni de l’État”.[36]

Na sua correspondência privada, a situação descrita é bem menos rósea. Na já referida carta à amiga parisiense, de 1818, Neukomm queixou-se de que ganhava tão pouco que não teria como economizar o necessário para regressar à Europa, além de frisar que não havia no Rio um só professor de música que fosse ao menos medíocre. Reclamou que todos trabalhavam por uma paga indigna e mesmo assim se dava por satisfeito, já que sendo famoso ganhava mais que os colegas locais: “Parmi les aveugles le borgne est Roi” [37](ANGEMULLER, 1977, p.38-39).

A precária situação de suas finanças é mais um indício da pouca consistência das suposições de que exercia algum tipo de atividade como informante ou espião de Talleyrand, pois certamente não teria problemas de caixa se fosse um agente infiltrado do governo francês.[38]

Em 21 de junho de 1817, faleceu o Conde da Barca, o que representou um duro golpe para Neukomm, que perdia de uma só vez o seu protetor e hospedeiro. Na ocasião compôs uma marcha fúnebre alusiva à morte do conde, dedicada ao seu amigo e único companheiro Manuel Luís de Carvalho.[39] O novo hospedeiro do músico austríaco seria o baiano José Egídio Álvares de Almeida, Barão de Santo Amaro (1767-1832).

A residência dos Santo Amaro e a dos Langsdorff eram espaços onde se reuniam habitualmente vários músicos e amadores da música, onde Neukomm pôde estreitar os laços de amizade com outros colegas músicos, como o Padre José Maurício Nunes Garcia. Em um episódio na casa dos Santo Amaro, Garcia acompanhou em uma barcarola o castrado napolitano Giovanni Francesco Fasciotti (fl.1816-1843), e, em seguida, demonstrou suas habilidades de improvisação ao piano, variando sobre o motivo da referida peça. Neukomm, ao relatar o episódio, referiu-se ao padre músico como o “maior improvisador do mundo” (PORTO-ALEGRE, 1856, p.36).

Como visto, Neukomm exerceu um papel relativamente informal no meio musical carioca, sendo assim os saraus, a música de câmara e os alunos da alta burguesia o seu propter panera lucrandum nos trópicos. Embora muitas fontes oitocentistas, sobretudo alemãs e francesas lhe tenham atribuído o cargo de mestre da Capela Real, o seu nome nunca esteve em nenhuma das relações nominais dos empregados da Capela Real, publicadas no Almanaque do Rio de Janeiro, em 1816 e 1817. Além disso, Neukomm se queixou, na já referida carta a Eybler:

“A ruindade da assim chamada música sacra [no Rio]. O deplorável trá-lá-lá de ópera bufa aqui neste lugar me aborrece tanto que evito aparecer na Capela Real […]. Neste país uma fuga é contrabando e com bons motivos. Os amantes das artes daqui acham minhas composições sacras tristes” (NEUKOMM, 1817, apud SILVA, 2012, p.369).

Neukomm tinha um discurso muito distinto nas suas declarações públicas, como nas notas para o Allgemeine Musikalische Zeitung e no seu texto autobiográfico, onde sempre é muito elogioso e galante, e nas suas correspondências privadas, extremamente depreciativas ao meio musical carioca, “onde há muitos que tem a empáfia de se intitularem professores de música, mas não chegam nem a medíocres” (ANGEMULLER, 1977, p.39). Ou ainda mais cruamente, que: “Os músicos aqui são quase todos verdadeiros biscateiros (wahre Tagelöhner); desde que aqui cheguei não consegui juntar um quarteto. A música aqui está na infância, mas é uma criança travessa e muito mal-educada de onde um inútil vai crescer” (NEUKOMM, 1817, apud SILVA, 2012, p.370).

Além do imaturo gosto local, havia outra dificuldade objetiva, a concorrência dos já estabelecidos compositores oficiais da Capela Real: José Maurício, Marcos Portugal e Fortunato Mazzioti (1782-1855). No entanto, Neukomm acabou por fazer concessões ao gosto musical carioca e de D. João VI, aficionado por música sacra,[40] e compôs a sua “Missa Solemnis pro Die Acclamationis Joannis VI” em “estilo híbrido com influências do operismo italiano” (CARDOSO, 2008, p.219).

Os naturalistas alemães Johann Baptist Von Spix (1781-1826) e Carl Friederich Philip Von Martius (1794-1868), que estiveram no Brasil, entre 1817 e 1820, também deram um parecer semelhante, relatando a imaturidade do gosto musical carioca, lamentando o insucesso da música sacra de Neukomm, escrita no “estilo dos mais famosos músicos alemães”, causando assim estranheza ao gosto luso-italiano local: “Für seine, ganz im Style der berühmtesten deutschen Musiker geschrieben, Messen war freilich die musikalische Bildung der Einwohner noch nicht reif”[41] (SPIX E MARTIUS, 1823, v.1, p.106).

A supremacia do gosto alemão é, na realidade, bem mais complexa do que a hegemonia da musicologia germânica impôs a partir do último quartel do século XIX. O próprio Neukomm tinha como referências sublimes de composição musical, além dos sacrossantos Mozart e Haydn, quatro grandes mestres italianos do passado: Giovanni Pierluigi Palestrina (1525-1594), Francesco Durante (1684-1755), Giovanni Battista Pergolesi (1710-1736) e Nicollò Jommelli (1714-1774) (ANGEMULLER, 1977, p.38-39).

Se as composições sacras do músico austríaco não faziam sucesso na corte tropical, ao menos ele demonstrou satisfação com o nível técnico dos músicos locais. No seu, muitas vezes referenciado, artigo para o Allgemeine Musikalische Zeitung, publicado em 19 de julho de 1820, relatando a estreia brasileira do “Réquiem” de Mozart, ocorrida na Igreja de Nossa Senhora do Parto, em dezembro de 1819, a cargo da Irmandade da Gloriosa Virgem e Mártir Santa Cecília, teceu loas aos músicos participantes, especialmente ao Padre José Maurício Nunes Garcia, que levou o gênio de Mozart a ser dignamente recebido no novo mundo: “Die Aufführung des Mozartischen Meisterwerkes liess nichts zu wünschen übrig; alle Talente wetteiferten um den genialien Fremdling Mozart in dieser neuen Welt würdig zu empfangen”[42] (ALLGEMEINE MUSIKALISCHE ZEITUNG, 1820, nº29, p.502-503).

Curiosamente, a notícia da estreia do “Réquiem” de Mozart já tinha sido publicada no mesmo jornal um mês antes, na edição de 7 de junho, e no relato, de autor apenas identificado como “um correspondente”, também informa que Neukomm e José Maurício estão preparando a estreia brasileira do oratório “A Criação de Haydn”, embora o primeiro mestre de capela local Marcos Portugal (der hiesege esrte Kappelmeister Marco Portogallo), não apreciasse que outro repertório, além do seu, fosse apresentado. (ALLGEMEINE MUSIKALISCHE ZEITUNG, 1820, nº23, p.401).

Talvez o correspondente local tenha sido o próprio Neukomm, que certamente teria bons motivos para cobiçar a posição profissional de Marcos Portugal na corte carioca, pois o lisboeta estava no topo do sistema musical da corte, desempenhado o cargo de Mestre de Suas Altezas e Diretor de Música da Corte, logo a ferina crítica sobre a putativa reserva de mercado do compositor oficial não foi desprovida de algum ressentimento.

De toda forma, em 24 de janeiro de 1821, o “Réquiem” de Mozart foi novamente apresentado no Rio, sempre com a regência de José Maurício Nunes Garcia. Para essa ocasião, Neukomm o completou de acordo com a liturgia católica romana, acrescentado, ao final da obra, o responsório “Libera me”, destinado à absolvição e inumação na “Missa dos Mortos”. Neukomm utilizou ideias musicais do original de Mozart, retiradas do “Dies Irae”, “Réquiem” e “Lacrimosa” para construir as seções do “Dies Illa”, “Réquiem” e “Kyrie” do seu magistral “Libera me”.

Neukomm participou, como coadjuvante e dedicatário, do primeiro livro sobre música impresso no Brasil, publicado em 1820, na Impressão Régia, “A notícia da vida e das obras de José Haydn”,[43] de Le Breton. O músico austríaco colaborou com 23 notas, inseridas pelo tradutor, que apenas se identificou como “Hum Amador”.[44]

O fato de não ter exercido uma posição oficial efetiva em nada lhe tolheu a capacidade criativa. Nos seus cinco anos cariocas, produziu 67 composições, embora no seu catálogo mencione apenas 45. Deixou de referir, por exemplo, a 20 belíssimos arranjos de modinhas de Joaquim Manuel da Câmara (1780-1840). Compôs obras para orquestra sinfônica, “grande orquestra militar”, piano solo, música de câmara, música vocal e música sacra. (MEYER; CASTAGNA, 2005, p.778).

Neukomm foi o primeiro compositor erudito a utilizar elementos populares brasileiros na música de concerto, como em duas obras de 1819: “A fantasia para flauta e piano L’Amourex”, dedicada aos Langsdorff, em que fez uso da modinha “A melancolia”, de Joaquim Manuel da Câmara, e, especialmente, o capricho para piano “O amor brazileiro”, sobre um lundu brasileiro.[45]

O período carioca de Neukomm se encerrou em 1821. Segundo o compositor, a decisão de regressar à Europa deveu-se ao conselho de alguns médicos após uma tuberculose (phthisie pulmonaire) que lhe deixou em estado preocupante[46] (NEUKOMM, 1858, p.10). Certamente a situação periclitante da corte carioca após a revolução liberal do Porto, de 24 de agosto de 1820, e o consequente regresso forçado a Portugal de D. João VI, em 25 de abril de 1821, fizeram-no compreender que não lhe restaria muito a fazer no contexto de empobrecimento súbito do Rio de Janeiro.

Assim, a bordo da fragata Matilde, em 15 de abril de 1821, deixou, em caráter definitivo, o pays féerique carioca. Compôs na noite anterior, já embarcado, uma singela canção de despedida: “Addio”, e registrou as saudades dos amigos do Rio em um adágio expressivo para piano, publicado pela casa Simrock de Bonn e Colônia, em 1822: “Les Adiex de Neukomm à ses amis à Rio de Janeiro”. Ao chegar a Lisboa, reviu D. João pela última vez, sendo agraciado pelo monarca com a Ordem de Cristo, e posteriormente, com a Ordem da Conceição, que lhe foi remetida para a França.

É muito plausível que, em julho de 1831, Neukomm tenha se encontrado em Paris com D. Pedro I, então imperador decaído.[47] Muito provavelmente, o último encontro do compositor com um membro da família imperial brasileira ocorreu em 1843, quando Francisca de Bragança (1824-1898), princesa de Joinville, chegou a Paris. Na ocasião, Neukomm lhe apresentou um arranjo do hino constitucional,[48] composto por seu pai, quando ainda era príncipe do Reino Unido do Brasil, Portugal e Algarves.

 

Peroratio lacrimosa

Após os anos no Brasil, Neukomm ainda viveria quase quatro décadas, com inúmeras viagens pela Europa e norte da África, sempre mantendo intensa e regular produção composicional; ele deixou um legado de quase duas mil obras. Sua música circulou por toda Europa, Brasil e Estados Unidos, saindo progressivamente do repertório ao longo da segunda metade do século XIX. As várias mistificações, equívocos e ilações encontradas nos textos de história da música brasileira ainda carecem de revisões e correções, sua obra ainda permanece relativamente pouco explorada, necessitando de mais performances, edições e estudos.

A presença desse singularíssimo personagem, no Rio de Janeiro, nos anos pré-independência é mais uma pérola na coroa da nossa extraordinária história; afinal, que outro país do continente americano contou com a presença de um discípulo querido de Haydn? Somente o país encantado com a sua singular Versalhes tropical poderia ter acolhido, no novo mundo, o Chevalier Neukomm. Libera Sigismundus, Domine, de morte aeterna.

 

O autor é pesquisador do Centro de Estudos de Sociologia e
Estética Musical – Lisboa.

mariotrilha@gmail.com

 

BIBLIOGRAFIA

ALLGEMEINE MUSIKALISCHE ZEITUNG. Leipzig: Breitkopf und Härtel, 1813, nº 14. 1814, nº 49. 1815, nº 10. 1818, nº 38. 1820, nº 23 e 29. 1827, nº 33.

ANGERMULLER, Rudolph. Sigismund Neukomm: Werkeverzeichnis Autobiographie Beziehungen zu seinen Zeitgenossen. München-Salzburg: Musikverlag Emil Katzbichler, 1977.

CARDOSO, André. A Música na Corte de D. João VI. São Paulo: Martins Editora, 2008.

CARPANI, Le Haydine: ovvero, Lettere sulla vita e le opere del celebre maestro Giuseppe Haydn. Padova: Tipografia Della Minerva, 1823.

CORRÊA DO LAGO, Pedro. Gays na Corte de D. João VI. Rio de Janeiro: Revista Piauí, 2014. disponível em https://piaui.folha.uol.com.br/gays-na-corte-de-d-joao-vi/

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LEBRETON, Joachim. Memória do Cavalheiro Le Breton para o estabelecimento da Escola de Belas Artes, no Rio de Janeiro. Revista do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Cultura, 1959, pp.285-305.

MEYER, Adriano; CASTAGNA, Paulo. A Produção Musical de Sigismund Neukomm no Brasil. Anais do 15º Congresso da ANPPOM, 2005.

NEUKOMM, Sigismund. Esquisse Autobiographique. Paris: La Maîtrise, 1858. Disponível em ttps://www.musicologie.org/theses/neukomm_01.html

OBERACKER, Carlos. A Imperatriz Leopoldina. Sua vida e sua época. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1973.

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PORTO-ALEGRE, Manuel Araújo. Apontamentos sobre a vida e a obra do padre José Maurício Nunes Garcia. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, XIX, 1856, pp.354-369.

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SPIX e MARTIUS, Reise in Brasilien auf Befehl Sr. Majestät Maximilian Joseph I. König von Baiern in den Jahren 1817-1820. v.1, München:Verlag M. Lindauer, 1823.

VANDEVIJVERE, Paul. Dictionnaire des compositeurs franc-maçons. Louvain-la-Neuve: EME Éditions, 2015.

ZHIKAREV, Stepan Petrovich. Zapiski sovremennika. Moscow: Academia, 1934.

 

NOTAS DE RODAPÉ

[1] Eu estive muitíssimo ocupado neste país encantado [Brasil], onde tudo é maravilhosamente belo e grandioso. (Tradução do autor.)

[2] Metodologia muito semelhante ao partimento italiano.

[3] Ganhando o próprio pão (tradução do autor).

[4] “Em maio, ou no máximo início de junho, viajarei daqui até Petersburgo. Como chegarei lá ainda não sei, já que as minhas finanças ainda estão desgraçadamente magras; mas devo partir, ainda que deva ir a pé” (tradução do autor).

[5] “Depois disso, um relacionamento especial e os conselhos de seu amigo paterno trouxeram N[eukomm] à Rússia” (tradução do autor).

[6] “E, em São Petersburgo, teve a liberdade de exercer uma atividade artística freelance, (a cidade) foi uma escola superior para o mundo, para a vida e para as relações multifacetadas” (tradução do autor).

[7] “Circunstâncias especiais, que teríamos de ter permissão para descrever com mais detalhes, levaram N[eukomm] a São Petersburgo ainda na sua juventude” (tradução de Filipe Cattapan, a pedido do autor).

[8] Sigismund Cavaleiro de Neukomm. Um músico salzburguês esquecido.

[9] Es waren jedenfalls innere Gründe, die ihn bestimmten, seine deutsche Heimat zu verlassen, doch breiteten seine Zeitgenossen einen verhüllenden Schleier über den wahren Grund.

[10] Possivelmente uma adaptação em alemão do “Alessandro nelle’Indie”, de Metastasio.

[11] Apontamentos de um contemporâneo.

[12] O castrado referido por Zhikharev era o italiano Pietro Muschietti (fl. 1770-1805), que fez grande carreira como primo uomo entre 1770 e 1791, tendo cantado na Itália, França, Áustria, Espanha e Alemanha, estreou várias óperas, como Mitridate, re di Ponto de Mozart; a partir de 1798, se encontram referências da sua atividade como professor de canto e compositor na Rússia.

[13] O Steinsberg, com quem Neukomm morava, quando estava na capital russa, era provavelmente o ator, diretor e dramaturgo Karl Franz Guolfinger Ritter von Steinsberg (1755-1806) engajado no teatro alemão de Moscou.

[14] Sobrinho e aluno do compositor e organista Johhann Christian Kittel (1732-1809), discípulo de Johann Sebastian Bach (1685-1750).

[15] Tradução do original russo, feita por Antonina Minekova, a pedido do autor.

[16] “Ele costumava elogiar os senhores Pleyel, Neukomm e Lesse como seus melhores e mais gratos alunos” (tradução do autor).

[17] “No entanto, podemos chamar com o nome de filhos seus, à maneira do Cherubini, Pleyel, que foi propositadamente seu estudante, Neukomm e Weigl, ainda que o último se deva dizer mais aluno de Salieri que de Haydn.” (Tradução do autor.)

[18] “Sr. Neukomm está atualmente na comitiva diplomática do ministro de Estado francês, o príncipe de Talleyrand, e encontra-se no Congresso vienense.” (Tradução do autor.)

[19] Talleyrand ou le Sphinx incompris, Flammarion, Paris, 1970. p.608-609.

[20] Neukomm, sempre muito diligente, aproveitou o longo período da viagem para compôr alguns motetos, marchas e música militar para a banda da fragata.

[21] Neukomm, como servidor de um membro do governo de Luis XVIII, dificilmente seria integrado a um grupo vinculado ao imperador decaído.

[22] “Nós temos a esperança, me disse ele, de fundar um novo império nesse Novo Mundo, e seria para você de grande interesse ser testemunha desse período de desenvolvimento” (tradução do autor).

[23] O prédio foi demolido em 1937, e em parte do seu terreno, encontra-se atualmente um terreno baldio.

[24] “Ele era como eu, não era casado, e tinha como única companhia, junto dele, somente um amigo de idade, o doutor Carvalho, homem muito distinto, médico da infanta Dona Isabel, futura regente de Portugal” (tradução do autor).

[25] O inventário póstumo de Neukomm, informa que ele faleceu solteiro e sem filhos. Francesarchives. Cota MC/ET/LXIV/797.

[26] Luiz Mott assegurou que a musicóloga Cleofe de Mattos Person teria declarado que Neukomm teve que deixar a corte dos Habsburgos por ser homossexual. Provavelmente trata-se de alguma fala em comunicação ou palestra, pois não há registro de tal afirmação nos escritos da renomada pesquisadora.

[27] “Nunca a pederastia floresceu tanto” (tradução do autor).

[28] Isabel Maria de Bragança (1801-1876).

[29] “Assim seja com os outros” (tradução do autor).

[30] Tradução do original em alemão feita por Luís Alves da Silva.

[31] “Tenho dois alunos, não incluo o príncipe real [entre os alunos] que se ocupa da música como príncipe (tradução do autor).

[32] Desde de 1792, após o falecimento de Mozart, Kozeluch ocupava as funções de Hofkomponist (compositor da corte) e de Kammerkapelmeister (mestre de capela de câmara) na corte vienense.

[33] Por exemplo: “Théme de Kozeluch varié pour le pianoforte et violoncello” (1817), a pedido da princesa Leopoldina; a “Sonate pour le pianoforte a quatre mains” (1819), dedicada à infanta Isabel Maria; ou “Marche Impériale composée à l’occasion de l’acclamation de S.M. Pierre I, Empereur du Brésil” (1822).

[34] Os Langdorff possuíam um grande piano inglês, que se destacava no Rio de então.

[35] Talvez a jovem aluna fosse Anna Eléonore Verquain Locatelli, dedicatária da grande sonata para piano “Le retour a la vie”, composta no Rio, em 10 de julho de 1819, ou, como apontado por Rosana Lancelotti, Maria Joanna de Almeida, dedicatária do capricho para piano “O amor brazileiro”, composto no Rio, em 3 de maio de 1819.

[36] “Assim, eu vivi durante todo o tempo de minha estadia no Rio de Janeiro, de 1816 a 1821, no meio da família real, que me cobria de bondades; mas sem depender pessoalmente nem da corte e nem do Estado” (tradução do autor).

[37] “Entre os cegos o caolho é rei” (tradução do autor).

[38] Nos arquivos do Quai d’Orsay (Ministério das Relações Exteriores da França), não há contrato, pagamento ou menção feitos a Neukomm.

[39] “Marche funèbre sur la mort du Comte da Barca”, composée et dediée à son ami Mr. Manoel Luiz de Carvalho, par le Chevalier Sigismond Neukomm.

[40] Inúmeros relatos da época comprovam o deleite do monarca com a música sacra, até mesmo versos populares corroboram a sua afeição: “Nós temos um rei chamado João, faz o que lhe dizem, come o que lhe dão, e vai a Mafra ouvir o cantochão”.

[41] “Para suas missas, escritas no estilo dos músicos alemães mais famosos, a educação musical dos habitantes ainda não estava madura” (tradução de Filipe Cattapan, a pedido do autor).

[42] A execução da obra-prima mozartiana não deixou nada a desejar; todos os talentos concorreram para que o genial forasteiro Mozart fosse dignamente recebido neste novo mundo. (Tradução do autor.)

[43] Trata-se da tradução brasileira de uma comunicação proferida por Le Breton, no Instituto de França, em 6 de outubro de 1810.

[44] Provavelmente Bento ou José da Silva Lisboa.

[45] Vale lembrar que os compositores brasileiros somente adotaram a prática na segunda metade do século XIX, em obras como “A cayumba, dança dos negros” (1857) de Antônio Carlos Gomes (1836-1896), “A Sertaneja” (1869) de Brasílio Itiberê da Cunha (1846-1913), o “Tango Brasileiro” (1890) de Alexandre Levy (1864-1892) ou a “Série Brasileira” (1891) de Alberto Nepomuceno (1864-1920).

[46] Na verdade, a tuberculose, e o seu estado de saúde de forma geral, agravado pelo desconforto com o clima tropical, o afligia desde 1818 (ALLGEMEINE MUSIKALISCHE ZEITUNG, 1818, nº38, p.674).

[47] Maço 92 – Doc. 4350 do INVENTÁRIO DOS DOCUMENTOS DO ARQUIVO DA CASA IMPERIAL DO BRASIL EXISTENTES NO CASTELO D’EU. 4 Jul. 1831 − Neukomm ou (Penkomm). Marquês de Rezende. − Carta pedindo audiência a D. Pedro. − Em francês. Acompanha outra do mesmo.

Há mais duas entradas sobre Neukomm no mesmo inventário: 27 Nov. 1826 − Sigismond Neukomm. − D. Pedro I. − Mensagem. − Comunica a Composição de uma Sinfonia heróica e 10 Mar. 1827 − Sigismundo Neukomm. − D. Pedro I. − Mensagem. − Em francês, e 10 Mar. 1827 − Sigismundo Neukomm. − D. Pedro I. − Mensagem. − Em francês.

[48] “Hymno constitucional, offerceido à naçaô Portugueza pello Principe Real, autor da

muzica e da Poesia. Ecrit sous la dictée de S.A.R. Don Pedro d’Alcantara, alors Principe Real do

Reino unido, arrangé pour le Piano-forté pour S.A.R. Madame la Princesse de Joinville à son

arrivée à Paris, 1843, par Sigismond Neukomm.”

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