Cidades perdidas, submersas, transplantadas

Cidades perdidas, submersas, transplantadas

Gustavo Maia Gomes, Economista

 

No passado, cultivamos lendas sobre cidades perdidas nas florestas, quiçá testemunhos de antiquíssimas civilizações. Em tempos recentes, erigimos barragens e inundamos ruas, casas, igrejas. Algumas vezes, reconstruímos tudo; em outras, apenas deixamos afundar. As cidades pré-colombianas nunca foram encontradas, embora se acredite, hoje, que existiram, em formas irredutíveis aos padrões europeus; as submersas, sabemos onde estão. Quando as águas baixam, elas reaparecem, contemplam seu antigo mundo – e choram. Todas, menos uma. Mazagão não submergiu. Foi trazida das praias marroquinas, na África, para o Amapá, no século 18. Por mais que a maré baixe e ela estique o pescoço, não enxergará o próprio passado.

 

  1. Cidades perdidas

Em meados do século 16, um punhado de espanhóis desceu o Amazonas das nascentes à foz. Foi a primeira vez que europeus navegaram toda a extensão do rio. Francisco Orellana e seus comandados passaram ao lado de cidades indígenas, mas não as viram. Trezentos anos depois, aconteceu o contrário: o padre Benigno de Carvalho acreditou ter visto, nas matas da Bahia, uma cidade que jamais existira. Já no século 20, o explorador inglês Percy Fawcett, (que viria a ser o inspirador do personagem Indiana Jones) embrenhou-se pelos sertões do Mato Grosso em busca de uma mítica e grandiosa cidade “Z”. Nunca a encontrou.

 

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Lugar de muitos índios

Até a fundação de Belém, em 1616, os portugueses tiveram pouco interesse e quase nenhuma presença na Amazônia. Os espanhóis, ao contrário, andaram por ali já no início dos anos 1540. No “Relatório sobre o novo descobrimento do famoso Rio Grande, descoberto por graça divina, desde a sua nascente até à foz, pelo Capitão de Orellana”, Frei Gaspar de Carvajal diz ter avistado aldeias indígenas se estendendo por até 25 quilômetros, uma moradia colada à outra, ao longo das margens do Amazonas. Se a descrição for correta, Orellana (1511-46) descobriu uma cidade pré-colombiana no hoje território brasileiro.

Certamente, ela não era semelhante às urbes europeias, nem se parecia com as então recém-encontradas no México e no Peru. Mesmo assim, tantos quilômetros de habitações adjacentes teriam de abrigar população enorme e concentrada. Seria, enfim, uma cidade? Quando, na segunda metade do século 20, arqueólogos pesquisaram a região – o livro Amazônia: A ilusão de um paraíso, de Betty Meggers (1921-2012), foi publicado em 1971 –, a conclusão inicial deles foi que a floresta não tinha capacidade de suportar grandes aglomerações humanas. Gaspar de Carvajal havia, portanto, exagerado em sua memória.

Mais recentemente, essa posição perdeu popularidade no meio científico. Anna Roosevelt (nascida em 1946), Michael Heckenberger (1959) e Eduardo Góes Neves (1966), entre outros, têm defendido a existência de “sociedades complexas” com grandes concentrações populacionais na Amazônia anterior à chegada dos europeus. Heckenberger, professor da Universidade da Flórida, em particular, que há muitos anos visita regularmente o Brasil, escreveu: “Trabalhando com os índios cuicuro [região do Alto Xingu, MT], escavei uma rede de cidades, aldeias e estradas ancestrais que já sustentou uma população indígena talvez 20 vezes maior em seu tamanho do que a atual.”1

Mesmo o mais ferrenho adepto da tese de que existiram cidades na Amazônia pré-colombiana, entretanto, admite que elas não se pareciam com as de outras regiões das Américas. As habitações eram distribuídas por um grande território, não havia imponentes edificações administrativas ou religiosas e, sobretudo, nada era feito de pedra. Quando os povos que as construíram deixaram de existir, ou tiveram sua população grandemente reduzida, sobretudo, mas não apenas, depois do contato com os colonizadores europeus, o tempo se encarregou de apagar quase todos os seus traços. Gaspar de Carvajal pode ter sido não apenas o primeiro europeu a testemunhar sua existência, mas também um dos últimos.

 

Da Amazônia à Bahia

Dois séculos depois de Francisco Orellana descer o Rio Amazonas, outro episódio importante aconteceu relativo às cidades pré-colombianas. Começou assim: durante dez anos (1743-53), um grupo de paulistas bandeirantes vagou pelos sertões da Bahia, em busca das lendárias Minas de Prata do Muribeca, alcunha de Robério Dias, que as teria descoberto nos primeiros anos 1600. Consta que Muribeca havia prometido ao Rei de Espanha e Portugal (era a época da União Ibérica, 1580-1640) revelar a localização das minas, em troca de um título de marquês. Viajou à Europa, mas não conseguiu convencer o monarca. Instado a revelar seu segredo, mesmo sem receber o que pretendia, manteve-se calado até morrer na prisão.

Apesar de todo o empenho, os bandeirantes dos anos 1743-53 jamais encontraram as supostas minas do Muribeca. Foram obrigados a desistir. Mas, então, provavelmente, alguém que participara da expedição, ou dela teve conhecimento detalhado, escreveu e enviou a um amigo do Rio de Janeiro a “Relação histórica de uma oculta e grande povoação antiguíssima sem moradores, que se descobriu no ano de 1753”. Este documento – mais tarde conhecido como Manuscrito 512 – contava a descoberta de uma cidade muito antiga e abandonada, mas não fornecia sua localização precisa. O papel ficou perdido durante várias décadas, até que, em 1838, apareceu na então Biblioteca da Corte, hoje Biblioteca Nacional.

Reproduzido no primeiro número (1839) da revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), a “Relação histórica” suscitou enorme curiosidade. O Instituto decidiu tirar a limpo se o documento contava mesmo a verdade. Na época, havia urgência de descobrir ou inventar um passado grandioso para o Brasil, capaz de legitimar o país recém-criado que queria ser nação. Nessa luta, o Manuscrito 512 poderia ser de grande ajuda. Seu anônimo autor descreve um conjunto de edificações cujas ruínas ele afirmava haver descoberto. O achado teria características de uma cidade clássica romana, com pórticos, imponentes edifícios, templos majestosos e estátuas de heróis em poses dignificantes. A cidade e seus monumentos seriam feitos em pedra, compondo um conjunto incomparavelmente mais imponente que a pobreza arquitetônica até então conhecida do Brasil anterior a 1500.

Era tudo mentira, mas isso ainda não se sabia.

 

O padre maluco

Em 1841, dois anos depois de publicada a “Relação histórica”, o cônego Benigno José da Carvalho e Cunha (?-1852), que morava na Bahia, foi convidado a verificar se a tal povoação “antiquíssima”, citada no Manuscrito 512, realmente existia. Para fazê-lo, o padre precisaria de um vultoso financiamento, afinal, concedido ao Instituto Histórico e Geográfico por Pedro II, seu patrono. Com a verba no bolso, o padre se embrenhou nas matas da Chapada Diamantina, onde imaginou que a cidade se encontraria, mas nunca achou nada. Por quase uma década, andou pela região, estranhamente, gastando parte de seus recursos na construção de pontes e estradas. Escreveu ao Instituto umas tantas cartas, nas quais enviava poucas informações confiáveis e muitos pedidos de mais dinheiro, até ser esquecido. Há versões de que enlouqueceu. Sabe-se que veio a morrer na cidade da Bahia, em 1852.

O fracasso da expedição de Benigno Carvalho gerou constrangimento, obrigando o Instituto Histórico e Geográfico a ser mais cauteloso ao patrocinar futuras empreitadas semelhantes. Nenhuma ação concreta (exceto publicar o material que lhe fora enviado) foi tomada pela direção do IHGB quando, por exemplo, em 1848, um major Manoel Rodrigues de Oliveira remeteu longo documento argumentando que a cidade perdida, realmente, existia, mas vinha sendo procurada no lugar errado. Que ficasse perdida e esquecida, pensou a direção do Instituto.

Esquecida, não ficaria por muito tempo. Em 1862, José de Alencar (1829-77) – já então um escritor famoso – começou a publicar, em folhetos, seu romance As Minas de Prata, apresentado como continuação de O Guarani, no qual um dos personagens principais era o notório Robério “Muribeca” Dias. Mas Alencar, ao contrário de outros escritores indianistas como Gonçalves de Magalhães (1811-82; A Confederação dos Tamoios) e Gonçalves Dias (1823-64, “Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá…”) não tinha ligações com o Instituto. Talvez por isso, seu romance falhou em suscitar novas excursões em busca da cidade perdida.

 

A história se torna internacional

É mais ou menos nessa época, fim dos anos 1860, que outro personagem extraordinário entra na história. O britânico Richard Francis Burton (1821-90) foi o maior explorador e aventureiro ocidental do século 19. Entre 1865 e 1869, ele morou no Brasil e viajou pelo país, após o que, como sempre fazia, escreveu um livro (Explorations of the Highlands of Brazil, 1869) que fez sucesso no mundo todo. De quebra, sua mulher traduziu para o inglês e fez publicar no livro do marido o Manuscrito 512. Percy Fawcett, muito provavelmente, o leu.

Mais novo que Burton, igualmente irrequieto, o coronel inglês Percy Harrison Fawcett (1867-1925) ficou fascinado pela cidade perdida da Bahia. Em 1921, ele explorou a Chapada Diamantina à sua procura, guiando-se não só pelo Manuscrito 512, como também pelas indicações fornecidas por outro viajante britânico, Sullivan Beare, que havia sido cônsul no Rio de Janeiro e dizia haver conhecido uma cidade antiga e abandonada como a descrita no documento de 1753. Fawcett nada encontrou. Em outra tentativa, ele explorou a região do Alto Xingu, no Mato Grosso, em busca da cidade “Z”. Não se sabe se ele acreditava tratar-se da mesma, supostamente, encontrada pelos bandeirantes do século 18, mas poderia ser.

Fawcett publicou livros, também ganhou fama mundial, porém não achou cidade alguma, fosse a “Z”, fosse a do Manuscrito 512. Em compensação, inspirou a criação do personagem Indiana Jones, celebrizado numa cinematográfica dos anos entre 1981 e 2008. Na sua última aventura, em 1925, tal qual um verdadeiro Indiana Jones, Fawcett enfiou-se nas matas, na direção da Serra do Roncador, acompanhado do filho e de outro inglês. Tratava-se de território desconhecido, habitado por povos indígenas, possivelmente, inamistosos. Os três desapareceram, para sempre. Devido à sua celebridade e ao fato de ele estar em missão científica oficial, muitas expedições foram organizadas para resgatá-lo e a seus acompanhantes. Ou, pelo menos, descobrir o que lhes havia acontecido. Nos anos subsequentes, mais de cem pessoas teriam morrido na tentativa de saber o destino do coronel e dos outros dois acompanhantes. Nenhuma conseguiu.

 

Lampião no Mato Grosso

Tudo isso é bastante conhecido. O que vou acrescentar, agora, não é. Em pesquisas recentes, deparei com a seguinte notícia, publicada no jornal A Província, do Recife, em 13 de maio de 1932:

 

Em vez de esclarecê-lo, o explorador inglês capitão A. M. Morris complica ainda mais o já misterioso caso do Coronel Fawcett

Lampião [Virgulino Ferreira da Silva, 1898-1938, o cangaceiro nordestino] teria sido visto no sertão mato-grossense trazendo consigo as armas do famoso desaparecido.

(…)

Conta [o capitão] Morris que, estando certa vez numa povoação perdida nos confins mato-grossenses, salvou da morte um homem que pertencia a um grupo de outros, chegado pouco antes à localidade. Conquistou, dessa maneira, as simpatias dos rudes sertanejos.

Deste ponto em diante, deixemos ao próprio Morris a tarefa de contar sua singular aventura.

“Fixei fortemente a minha atenção no homem moreno de óculos. Notei que conduzia um compasso prismático em cuja cobertura se viam as iniciais P. H. F. e um revólver cuja bolsa de couro era do tipo militar britânico. Do outro lado, uma cartucheira. Aquelas iniciais P. H. F. me bailaram na cabeça: P. H. Fawcett!

– Desculpe, senhor, disse, quebrando o silêncio – Ainda não tive a honra de saber o seu nome.

– Lampião – respondeu ele, com simplicidade, mas com uma certa ponta de orgulho.

Tive um choque. Aquele pacato tipo não era outro senão o bandido feroz cuja fama corre de um extremo ao outro do continente. Ele tinha cem mortes nas costas e, invariavelmente, cortava as orelhas dos cadáveres de suas vítimas.

Ele ficou satisfeito com minha surpresa.

– Sim, sou eu mesmo esse homem. Peça o que quiser em recompensa por ter salvo a vida de meu irmão.

Imediatamente, excitou-se a minha imaginação. As armas são preciosidades nas florestas brasileiras. Daria o famoso bandoleiro suas armas? Eu precisava daquele revólver e daquele compasso.

– Nunca podia imaginar – comecei em tom cortês – que me fosse dada tão grande honra. O seu nome é, na verdade, tão famoso em Montevidéu como em Lima. Congratulo-me de lhe ter prestado um pequeno favor.

Lampião sorriu. O padre chegou para avisar que a comida estava pronta. Enquanto comíamos, meu pensamento estava cheio de conjeturas. Teria Lampião morto o coronel Fawcett? Estariam as orelhas do coronel fazendo parte de sua coleção? Ofereci-lhe a minha bolsa de fumo. E enquanto ele enrolava o cigarro, decidi me aventurar:

– Diga-me, senhor, como obteve esse revólver e este compasso? Eles devem ter uma história interessante.2”

 

O relato d’A Província continua. Lampião teria dado os objetos ao Capitão Morris, que deixou o local o mais rapidamente possível. Não há notícias do que as armas tenham sido, jamais, mostradas ao público, como provas de que Fawcett tinha, de fato, morrido, talvez, assassinado por Lampião. De fato, a presença do cangaceiro nordestino em terras tão distantes é altamente improvável e, tanto quanto eu saiba, jamais foi alegada em outro testemunho.

 

Epílogo

Em 1952, o indigenista Orlando Villas Boas (1914-2002), seguindo pistas fornecidas por índios da região onde Fawcett havia andado, encontrou uma ossada que ele acreditou ser do explorador. Provavelmente, não era, pois um dentista que havia tratado dele, após examinar os restos mortais, negou essa possibilidade. A prova definitiva, entretanto, não foi conseguida, pela aparente razão de que os descendentes do coronel não têm permitido que seja feito o exame de DNA.

O fato é que a cidade perdida da Bahia ou de Mato Grosso nunca foi encontrada. Já não se acredita, hoje, que ela ou elas tenham jamais existido. Mas a lenda continua.

 

  1. Submergida? Nem tanto

São João Marcos, no Rio de Janeiro, é um caso único. Condenada a submergir, recusou-se a fazê-lo. A barragem do Ribeirão das Lajes, pertencente à emprega Light, foi alteada, em 1941. A previsão era que elas cobrissem a cidade, mas as águas jamais chegaram à cota prevista. Inundaram, apenas, uma pequena parte do local. O erro de cálculo, contudo, não beneficiou o pequeno distrito, cujas casas foram destruídas previamente ao fechamento das comportas. Transformada em cidade fantasma, São João Marcos somente renasceu, parcialmente, como um parque ecológico e ambiental, em 2011, setenta anos depois de ter sido posta abaixo.

 

A sentença

Na ditadura varguista, com a imprensa sob censura, a notícia foi, inicialmente, dada numa versão palatável: “A vila de São João Marcos está condenada não a desaparecer, mas a ser transferida para outro local.”3 Freguesia fundada em 1739 por João Machado Pereira, “que ali erigiu capela”, fora promovida, em 1811, a Vila São João do Príncipe, por decreto de D. João. Com a República, teve seu nome trocado para São João Marcos (1890), até que, em 1938, perdeu a condição de cidade, sendo incorporada a Rio Claro.

Economicamente, São João Marcos escreveu, a partir do início do século 20, uma história de decadência (“Os 18 mil habitantes do fim do século [19] caíram para 878, hoje.”)4, mas os anos de riqueza haviam contribuído para que se erguessem ali belas construções que foram preservadas pela mesma estagnação econômica. “À vista disso, o interventor federal baixou decreto instituindo comissão especial para estudar medidas para a preservação do patrimônio histórico daquela vila.”5 Preservação, de um lado; destruição, de outro. A antiga cidade tinha sido a mais rica da província. Sua situação piorou com o declínio do café no Rio de Janeiro e a construção, entre 1907 e 1911, da barragem do Ribeirão das Lajes, que inundou muitas fazendas e parte da sua área urbana. Agora, o Rio de Janeiro precisava de mais água e mais energia elétrica; a barragem do Ribeirão das Lajes seria alteada; São João Marcos que saísse do caminho.

Reações logo apareceram. “Acham-se sobressaltados os proprietários dos terrenos que circundam a represa da Light, pelo decreto que autoriza a desapropriação dos mesmos”, informava um jornal do Rio de Janeiro.6 Outro aduzia: “Inúmeros lavradores de São João Marcos, revoltados contra as medidas ilegais e arbitrárias, protestam publicamente contra o ato de pressão da Light, que procura dessa forma aniquilar sessenta por cento da cultura local.”7 Eles sabiam do que estavam falando. Alguns tinham testemunhado a chegada das águas em 1911.

Pressentindo uma segunda inundação, os moradores haviam conseguido, em 1939, que o local fosse tombado pelo governo. De nada adiantou: menos de um ano depois, Getúlio “destombou” São João Marcos e permitiu que a Light derrubasse tudo: teatro, escola, delegacia, igreja, casas. Era preciso impedir que as pessoas permanecessem em suas casas, ou voltassem para elas. “Desço uma calçada de pedras gordas”, escreveu o jornalista Francisco de Assis Barbosa, “com o capim crescendo nos interstícios. Como é domingo, hoje não houve demolições. A Companhia derruba as casas e ateia fogo no madeirame. Não sobra nenhum pedaço para contar a história.”8

 

Resistência

Mesmo sendo uma luta desigual, os marcosenses não se entregariam sem resistir. “Muita gente não se conforma de deixar o município. Há os que saíram e já voltaram. Não sabem para onde ir. Estão vivendo no mato, ao Deus-dará. (…) Em São João Marcos, não se pode mais enterrar os mortos. O desgraçado que esticar as canelas tem que ser carregado na rede até [a localidade de] Passa Três.”9 Era verdade, até os cemitérios tinham sido transferidos. Um edital do prefeito de Rio Claro deu sessenta dias para os familiares depositarem os restos mortais de seus parentes em local mais seguro. E assim foi feito.10

A maior realização da “comissão especial” instituída pelo interventor Amaral Peixoto foi contribuir para que a igreja matriz – derrubada a dinamite – fosse reconstruída alguns quilômetros adiante. Mas isso demorou. Na matéria já citada, Francisco de Assis Barbosa escreveu: “Reservo a minha derradeira visita para a Igreja Matriz de São João Marcos. (…) Sampaio, o sineiro, está na porta. É um homem pequeno e feio, quase um anão. Responde humildemente às minhas perguntas. (…) São João Marcos está no altar com seu manto bordado de ouro. A igreja está em silêncio. Onde estão as cadeiras? – Já levaram, responde o sineiro, tartamudo. Sampaio quase não sabe falar. Gesticula com os braços, olha o santo com ternura, como quem diz: – São João Marcos saberá tirar a desforra.”11

Em 1943, a inundação tinha avançado. “As águas da represa do Ribeirão das Lages já atingiram a praça onde está localizada a igreja, relíquia das épocas coloniais”, informava o Correio da Manhã. “Nos dias de chuva, o líquido acumulado beija os pedestais da velha matriz, junto de cujo altar-mor rezaram gerações de brasileiros. [Mas] o presidente da República resolveu que o tradicional templo fosse [reconstruído].” Só que “o local escolhido para a reconstrução da igreja não corresponde ao que era de se esperar. É o Rubião, ponto de acesso difícil e quase deserto. Não há ali nenhum dos habitantes que louvavam São João Marcos e nem sequer o local está situado dentro do município que essa cidade outrora fora cabeça de comarca. Rubião é no município de Mangaratiba e, portanto, com a reconstrução, lá, da matriz referida, nenhuma homenagem é prestada aos fieis de São João Marcos”.12

Muitas águas ainda se passaram até que a igreja fosse, afinal, reerguida, nos últimos dias de 1949.13 A reconstrução da cidade, entretanto, jamais ocorreu. Noticiava O Globo, em 1984: “Quarenta anos depois do dilúvio, a esperança renasce: Os deserdados de São Marcos perto de voltar à terra boa.”14 Não se tratava de moradores da cidade, contudo, mas de trabalhadores rurais. Quanto àqueles, hoje, já morreram ou perderam a esperança de ter sua cidade devolvida. Há um bairro de Mangaratiba que leva o nome de São João Marcos. Ele foi criado por marcosenses expulsos de suas terras. Mas não se trata de uma reconstrução em qualquer sentido razoável.

 

Paradoxo

O paradoxo é que as águas jamais inundaram São João Marcos, como os engenheiros da Light haviam previsto. Foi um erro de cálculo, ou uma mistificação deliberada, para evitar que ficasse gente morando nas cercanias da represa? Ainda não se sabe. Voltando a O Globo, numa matéria de 1981: “Hoje, São João Marcos é um fantasma. Suas ruínas, há três anos à tona no leito seco da represa, de repente, espalharam inquietantes dúvidas: teria havido, realmente, necessidade de destruir tão rico e valioso patrimônio? Descobriu-se, por exemplo, que boa parte da cidade jamais foi inundada. Escaparia das águas, sem necessidade de demolição, a igreja matriz construída entre 1783 e 1801”.15

Desde 2011, a antiga São João Marcos abriga um parque arqueológico e ambiental, cuja ideia é preservar, pelo menos, o traçado estrutural da cidade. Parece que o parque vai bem. Estão conseguindo reconstruir, com as próprias pedras originais, as fachadas de algumas casas e parte do portal de entrada da igreja matriz. O busto de Feliciano Sodré, um marco da antiga cidade, foi trazido de volta à praça. Como indicador de sucesso, o parque, em seus três primeiros anos, recebeu 30 mil visitantes. Tem (ou tinha?) financiamento do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) para obras de restauração e de pesquisa arqueológica. A eterna Light apoia o empreendimento. Seria um pedido de desculpas?

 

  1. As três Canudos

Entre as cidades submersas que voltaram à tona, na atual seca do Sudeste e do Nordeste, Canudos, na Bahia, é um caso emblemático, mas não único. Guapé (MG), inundada por Furnas em 1963, também emergiu das águas, assim como Redenção da Serra e Natividade da Serra (São Paulo), que ficaram debaixo da represa Paraibuna, dez anos depois. O bairro de Mogi das Cruzes (Região Metropolitana de São Paulo) coberto no início da década de 1970 pelas águas do Rio Jundiaí, tinha aparecido, pela última vez, há vinte anos. Já pode ser novamente visto.

As partes das cidades baianas de Sento Sé, Remanso, Casa Nova e Pilão Arcado submergidas em 1974 pelas águas do Rio São Francisco acumuladas no lago artificial de Sobradinho estão, quase todas, à mostra. São Rafael, no Vale do Açu, Rio Grande do Norte, desde 1983, no fundo do Açude Armando Ribeiro Gonçalves, voltou à superfície. Petrolândia, em Pernambuco, que desapareceu em 1988 nas águas da barragem de Itaparica (também no Rio São Francisco), voltou a mostrar uma parte grande da sua igreja principal. Jaguaribara, no Ceará, que o enchimento do açude Castanhão encobriu, em 2002, está de novo visível.

Mas é de Canudos que irei falar.

 

Caminhando entre as ruínas

As ruínas das duas primeiras cidades chamadas Canudos apareceram por inteiro em 1999 e, mais recentemente, em 2013. Depois disso, voltaram a ser cobertas pelas águas do açude Cocorobó, embora o guia histórico Izaílton Almeida, do Memorial Antônio Conselheiro, informe (em 27/8/15) que, tendo o nível das águas baixado novamente, as poucas partes mais altas ainda existentes das velhas cidades começaram a reaparecer. Exceto do ponto de vista turístico, essa não é uma boa notícia. Para o sertanejo, falta de chuvas nunca é boa notícia.

Em 1999, aproveitando a seca que expôs as ruínas das duas cidades construídas no mesmo lugar, pesquisadores da Universidade Estadual da Bahia descobriram o antigo cemitério, conseguiram retirar algum material para estudo, mas tiveram a decepção, no dia seguinte, de ver que o local havia sido invadido por vândalos, supostamente, em busca de metais preciosos. “Hoje, pouco resta do cemitério, mas a estiagem permite que se ande em meio às ruínas das duas Canudos”, escreveu Guilherme Freitas para O Globo, em 2013. “A mais antiga [ruína] é o pedestal do cruzeiro, que ficava na Praça das Igrejas construída por Antônio Conselheiro. A mais imponente é a arcada de uma igreja erguida por sobreviventes.”16

Outras sobrevivências do acontecimento mais marcante da história de Canudos – a guerra que quase desmoraliza o Exército nacional da recém-proclamada República – são escassas. O Instituto Popular Memorial guarda o cruzeiro fincado em frente à igreja velha e que foi dali retirado depois de findos os combates. O Memorial Antônio Conselheiro tem relíquias arqueológicas como animais, ossadas e utensílios do arraial. Não é muito. Quase tudo foi perdido, retirado do local ou, simplesmente, destruído.

 

Canudos submersas

A primeira Canudos – das três que já tiveram esse nome – surgiu no século 18, mas ganhou notoriedade apenas a partir de 1893, quando ali chegaram Antônio Vicente Mendes Maciel, o Conselheiro (1830-97), e seus seguidores. O beato trocou o nome do vilarejo para Belo Monte, mais bonito que Canudos, com certeza, porém muito pouco descritivo, pois a pequena cidade ficava num vale. Quatro anos depois, ela seria destruída na guerra celebrizada pela cobertura da imprensa contemporânea e, sobretudo, pelo sucesso do livro Os Sertões, de Euclides da Cunha (1866-1909).

O fim da primeira Canudos teve episódios dramáticos, como se esperaria de um desfecho de guerra. Em 1966, Luís Paraguaçu colheu o depoimento de Hermenegilda Ferreira do Vale. Ela nem sabia sua idade, mas lembrava que sua mãe trabalhara na casa do Conselheiro. O pai e a própria Hermenegilda também estavam por perto, na época da guerra. Os dois morreram num tiroteio. A menina sobreviveu, sem saber direito como. Testemunhou os últimos momentos da cidade erguida pelo Profeta e seus seguidores. “Foi uma correria medonha, por todo o povoado”, diz ela. “As tropas entraram e foram tocando fogo em tudo. Agarravam os homens e levavam para a igreja, para degolá-los.”

– Não desejo a ninguém que veja uma coisa daquelas. Os soldados entravam nas casas, as mulheres se ajoelhavam nos pés daqueles miseráveis, implorando que não matassem seus maridos. Eles diziam que sim e metiam o punhal no peito delas. Matavam também os meninos. Serviam-se das mulheres. Fiquei quase louca de chorar e eles me pouparam. Dois dias depois, deixaram o povoado. Tanta era a carniça, que os urubus nem mais comiam. Um fedor danado.

Hermenegilda foi buscar outras paragens, mas, depois de dez anos ou mais, ei-la de volta a Canudos, agora a segunda Canudos que, em 1969, seria inundada pelo açude Cocorobó.

– Rumei para uma fazenda perto, ali vivi por algum tempo, casei-me e voltei para Canudos. Minha filha me mantém, carregando lenha e água. É o triste fim de minha vida. Pagaram seis mil cruzeiros pela nossa casinha, que não dão para comprar uma porta e vão inundar Canudos. Aqui ficarei e as águas me sepultarão.17

Uma reportagem rememorativa dos cem anos desde o fim dos combates descreve como ficou Canudos quando a guerra terminou, segundo o depoimento de Manuel Ciríaco ao jornalista Odorico Tavares, prestado exatamente meio século antes: “Era de fazer medo. A podridão fedia a léguas de distância, os bichos a gente via correndo pelos cadáveres e urubu fazia nuvem. (…) Todas essas colinas que o senhor vê estão cheias de ossos de jagunços. Acabou-se Canudos e, durante uns dez anos, só se vinha aqui de passagem.”18

Foram abaixo quase todas as construções, inclusive, as duas igrejas, ambas construídas por Antônio Conselheiro, a segunda, jamais terminada. Depois desse período, durante o qual o lugar permaneceu deserto de gente, outra cidade começou a surgir ali, em torno de 1910. Era a segunda Canudos, habitada, em grande medida, por sobreviventes da chacina de 1897 ou seus descendentes. Teria vida curta. Menos de 40 anos depois de seu surgimento, uma ameaça definitiva pairou sobre ela: “A construção do açude Cocorobó se arrastou durante 25 anos, [porém], desde 1944, técnicos alemães, austríacos e franceses [já formulavam] sugestões para o projeto”, dizia uma reportagem do Jornal do Brasil no ano em que as águas represadas fizeram a cidade desaparecer.19

Isso foi em março de 1969. A barragem já estava, praticamente, pronta, exceto pelo sangradouro, quando começou a chover torrencialmente nos sertões da Bahia. Em seis dias, o açude de Cocorobó recebeu 160 milhões de metros cúbicos de água (o total máximo projetado era de 243 milhões), criando um imenso lago um ano antes do tempo em que isso era esperado. “A pressa da natureza acabou por sepultar para sempre a vila de Canudos, imortalizada por Euclides da Cunha”, escreveu Isidro Duarte. E continuou: “As águas do Rio Vaza Barris, no sertão da Bahia, que deixaram a geografia e entraram na História como testemunhas da heroica e comovente epopeia de Antônio Conselheiro e seus jagunços, começaram a rolar, semana passada, para a formação da represa de Cocorobó. O antigo arraial de Canudos desaparecerá.”20

Desapareceu, efetivamente, deixando poucas lembranças materiais. Dessa vez, o ato final da cidade foi menos traumático. Desde 1967, a segunda Canudos tinha sido evacuada, exceto por uns poucos habitantes. Manuel Sales, Maria dos Prazeres e Nininha Dones insistiram em ficar, até mesmo depois que a imagem do Santo Antônio, padroeiro da cidade, foi trasladada para a Vila de Cocorobó (que depois adotou o nome de Canudos, a terceira Canudos), doze quilômetros distante. Não acreditavam que as águas do açude pudessem chegar, um dia, até à velha cidade. Seus casebres eram três dos pouquíssimos que ainda existiam ali, “porque os que abandonaram a vila levaram o material que sobrou após a demolição das antigas moradas”.21

Maria Antônia dos Santos, 73 anos à época em que foi entrevistada, “vivia feliz com os pais e irmãos quando soube da construção do açude. A água da barragem subiu da noite para o dia. Muitos tentaram resistir, inclusive sua família. – Saímos com água no pescoço, conta”. Francina de Souza Varjão também teve de se mudar, ante a iminência da inundação. “Foi um desprazer, moço, Nasci e me criei em Canudos. Meu marido era o agente do Correio. Deixei contrariada a minha casa.” Um terceiro personagem, sobrevivente da guerra, também deu seu depoimento:

“Isolada nas proximidades do deserto do Raso da Catarina, vivendo de recordações retalhadas da guerra, D. Francisca, 102 anos, surpreende pela delicadeza da voz e precisão com que usa as palavras.”

– Dona Francisca, depois da construção do açude, a vida melhorou no sertão de Canudos?, pergunta o repórter.

– Para muitos, melhorou e para outros piorou. Quem tinha sua terrinha, com o açude, ficou sem nada.22

 

A situação, hoje

E a terceira Canudos? Nasceu em outro lugar e sua origem está ligada às obras de construção do açude Cocorobó. Não corre risco de ser inundada; a possibilidade de desaparecer por efeito de uma nova guerra é quase nenhuma. Nisso, a Vila Nova de Canudos não lembra as anteriores. Em outros aspectos, sim. O ambiente físico inóspito, quase deserto, é o mesmo descrito por Euclides da Cunha em 1902, n’Os Sertões. A água acumulada fez diferença, mas não a ponto de eliminar a pobreza dos moradores. “A economia local, baseada no cultivo da banana no perímetro irrigado do açude, se apoia em programas federais como o Bolsa Família, que atende [2013], 2.769 famílias, ou mais de 70% da população, e o microcrédito, que só este ano injetou R$ 1 milhão na cidade.” 23

Na cidade existe, até mesmo, uma Associação dos Sem Teto de Canudos, que, ainda hoje, tem nostalgia de Antônio Conselheiro.

 

  1. A cidade que veio da África

Assim como aconteceu com Canudos, também houve três Mazagão. A primeira foi fundada pelos portugueses em 1513, nas praias de Marrocos. Era, na verdade, menos cidade do que entreposto militar e comercial, e tinha a função de dar suporte ao comércio com as Índias. Como ela, outras existiram, distribuídas em diferentes pontos da costa africana. Em meados do século 18, entretanto, as relações com o Oriente haviam perdido importância para Portugal, ao mesmo tempo em que a defesa dos seus postos avançados ficou mais dispendiosa. As fortificações africanas foram sendo tomadas, uma a uma, pelos muçulmanos. Por vezes, sem que houvesse combates. Apenas Mazagão resistia.

Por essa época, Sebastião José de Carvalho e Melo (1699-1782), primeiro-ministro de Dom José I e futuro marquês de Pombal, na tentativa de revitalizar o império português, passou a dar atenção prioritária ao Brasil, àquela altura, o esteio financeiro da Fazenda real. Era preciso garantir a segurança das possessões coloniais na América, o que incluía ocupar e policiar a Amazônia. Quando, em 1769, Mazagão se encontrava sob forte ataque dos mouros, Pombal decidiu que ela seria abandonada. Seus habitantes iriam cruzar o oceano, enviados ao Pará, onde a cidadela seria reconstruída. A segunda Mazagão não apenas seria povoada pelas mesmas pessoas que antes viviam em Marrocos; ela cumpriria, também, idênticos objetivos estratégicos de garantir a posse de um território e a segurança de uma rota comercial.

Em 11 de março de 1769, duas mil pessoas foram evacuadas da primeira Mazagão e conduzidas a Lisboa. Dali, em setembro, elas seriam embarcadas para Belém, onde permaneceram durante três anos, até serem, finalmente, transferidas ao seu novo lar, no Brasil. “O projeto da fundação de Vila Nova de Mazagão apontava para a construção de mais de 500 casas.” 24 Em 1773, só 56 estavam concluídas, mas a cidade começou a ser ocupada assim mesmo. Poucos anos depois, contudo, as doenças tropicais e a falta de condições para a sobrevivência daquela gente no local escolhido para alojá-la forçaram uma nova mudança. A cidade que veio da África foi abandonada (o local passando a ser conhecido, desde então, como “Velha Mazagão”) e uma nova se ergueu alguns quilômetros mais ao sul. Essa é a Mazagão atual. A terceira.

 

Na África25

A contestação à presença dos europeus no Norte da África começou cedo. Em 1534, já estavam ocupadas por forças islâmicas as colônias portuguesas de Safim, Azamor e Arzila. Mazagão, entretanto, embora sob constante ameaça, se mantinha firme. O Rei Dom João III decidiu, então, torná-la inexpugnável. Com a ajuda dos melhores arquitetos do Renascimento, foi erguida uma fortaleza cercada por fossos profundos, com planta em formato de estrela de quatro pontas. Na vila instalada por trás dos muros, construíram-se casas, uma prisão, uma igreja paroquial e um hospital. Segundo as fontes citadas por Marcelo Testoni, “a cidade-forte de Mazagão foi, até 1769, a maior obra construída por portugueses fora da Europa”.26

A formidável construção, entretanto, não impediu que continuassem as investidas muçulmanas. Ao longo do século 16, Mazagão foi alvo de sucessivos cercos, mas conseguiu resistir aos ataques. “Cada nova vitória era comemorada pela população com procissões e jogos que exaltavam a supremacia católica diante do Islã. Contudo, a privação e a tensão sempre estiveram atreladas à rotina daquela gente. Tarefas comuns, como buscar água ou arar os campos eram sempre arriscadas”, relata Testoni. Mais ou menos a mesma situação persistiu pelos anos 1600. No século 18, gastos excessivos da realeza comprometeram as finanças de Portugal, dificultando a defesa de Mazagão. “Como se não bastasse, os exércitos mouros haviam se multiplicado, assim como as epidemias e pragas. Sem o auxílio da metrópole, o caos era inevitável”, continua Testoni.

Em setembro de 1763, Sebastião José de Carvalho e Melo decidiu substituir o governador de Mazagão e nomear seu sobrinho Dinis Gregório de Melo Castro de Mendonça. O novo governador logo percebeu que manter Mazagão sob controle português não seria fácil. Pediu reforços. Foi atendido. Não bastou. Os muçulmanos formaram um exército de 75 mil combatentes, bem armados, e fustigaram a fortaleza. Em janeiro de 1769, exigiram sua rendição.

Tudo isso acontecia num momento em que “Mazagão não atendia mais aos interesses comerciais, marítimos, administrativos e religiosos de Portugal”. Por isso, a decisão de abandonar a fortaleza tornou-se inevitável. No início de março, uma trégua foi acertada entre as partes para a retirada dos moradores. “Enquanto mulheres e crianças eram levadas a bordo com as riquezas da igreja e os documentos oficiais do governo, os homens esvaziavam as casas e prédios públicos e destruíam tudo que pudesse cair nas mãos dos muçulmanos. Ao final, o ‘espírito’ da fortaleza deixou o litoral marroquino, repartido em 14 caravelas, rumo a Lisboa.”27

De acordo com documentos da época citados por José Manuel Azevedo e Silva, “embarcaram 2.092 pessoas (Mazagão chegou a ter mais de 3000 habitantes, o que faz supor que algumas famílias já teriam sido evacuadas antes), [das quais] 1.497 maiores de 10 anos e 595 menores dessa idade. Ao todo, eram 418 famílias, cuja composição oscilava entre 2 e os 11 membros, tendo-se em conta que integravam a família os criados, os escravos e os enjeitados”.28

 

No Brasil

Quando chegaram a Portugal, os refugiados de Mazagão não sabiam o que lhes aguardava, mas o governo, sim. Eles iriam ser reembarcados para o Brasil, onde uma cidade-fortaleza em tudo semelhante à que eles haviam deixado para trás seria construída. Não eram, ainda, planos muito precisos. A Coroa demorou meses para definir o local da nova Mazagão. Somente em setembro de 1769 a frota zarpou para Belém do Pará. Àquela altura, parte dos exilados havia escapado do controle, enquanto outros aventureiros foram incluídos no grupo. Quando, afinal, partiram do Tejo, as embarcações levavam os futuros colonos, mercadorias, materiais de construção, objetos de culto e recursos para viabilizar a Mazagão da Amazônia. Uma nova etapa da epopeia começava.

A frota chegou ao Brasil em janeiro de 1770 e as pessoas que ela trazia foram alojadas precariamente na cidade de Belém. A expectativa era que sua estada fosse de poucos dias, meses, no máximo, mas o tempo passava e a mudança para a nova cidade ia sendo adiada. Reconstruir Mazagão, ao sul de Macapá (local, finalmente, definido) custaria muito dinheiro para as finanças sempre cambaleantes do Erário Real. “Os meses de espera logo evoluíram para anos”, informa Testoni.

Uma parte das famílias tinha se abrigado em regiões próximas, mas mantinha a esperança de ser premiada com uma cidade majestosa feita, especialmente, para eles. “Um local que justificasse tantos atrasos.” Pura expectativa. Quando, afinal, o lugar ficou em condições de receber seus primeiros habitantes, eles descobriram que “a Vila Nova de Mazagão era precariamente erguida, a começar pelas casas modestas e de estrutura questionável”, registrou o historiador Paulo de Assunção, citado por Marcelo Testoni. De qualquer forma, um arremedo de cidade – que incluía a igreja e uns poucos prédios públicos – chegou a ser construído e recebeu moradores.

Um documento de 1784 contava que

 

“A Vila de Mazagão (…) está na margem setentrional do Rio Mutuacá, duas léguas e meia superior à sua barra. No ano de 1770, se condecorou vila por ordem do Senhor rei D. José I, e pela mesma se mandaram erigir nela moradas de casas para cômodo dos moradores da praça de Mazagão na costa da África, que para este Estado tinham vindo no fim do ano de 1769, depois de largar a dita praça ao imperador de Marrocos.”29

 

Por que reconstruir Mazagão exatamente naquele ponto e trazendo da África seus antigos moradores? Azevedo e Silva explica que tudo fazia parte de um plano de defesa da Amazônia. “De fato, quando em 1753 o gabinete josefino decidiu criar dois regimentos militares no Pará, formados por cerca de 1.200 homens, instalou um na cidade de Belém (…) e o outro na recém-criada vila de Macapá.” Vila Vistosa e Mazagão formariam parte desse mesmo sistema. Naturalmente, “no pensamento do rei e do seu gabinete, que povoadores mais adequados à fundação desta última vila que as gentes da praça marroquina de Mazagão, habituadas a lidar com situações de guerra?”30

Na verdade, nada deu certo na segunda Mazagão, a primeira brasileira. As fortificações defensivas jamais foram construídas. As casas entregues aos habitantes eram insuficientes para abrigar a todos. Ergueu-se uma igreja, mas ela tombou antes de ser concluída, por defeito na construção. Os egressos de Marrocos não conviveram bem com a floresta tropical. Sua agricultura era insuficiente até mesmo para o próprio sustento. Enquanto as doenças proliferavam, muita gente fugiu em busca de vida melhor. “Em pedaços”, diz Testoni, a cidade “ainda suportou virar o século 19, antes de entregar os pontos. Sua sentença se consumou em 18 de outubro de 1828, com a instituição da Vila de Macapá como capital da região. Mas somente em 1833 os últimos 40 moradores receberam uma notificação real que suprimia o nome da localidade, agora substituído pelo de Regeneração.”31

Mazagão não morreria de todo, entretanto. Uma nova vila se formou, a terceira, 30 quilômetros distante da anterior, e ainda hoje existe, com o mesmo nome trazido da África. Com apenas 19 mil habitantes, não é um modelo de prosperidade. Quase não tem agricultura, nem pecuária, nem indústrias. A economia se baseia nos serviços, ou seja, no governo. O programa Bolsa Família é uma entidade muito conhecida, ali.

Abandonado desde o princípio do século 20, o local do Amapá onde os portugueses, em 1770, começaram a construir a cidade transplantada passou a ser conhecido como Mazagão Velho. Em 2003, ele voltou à tona, quando arqueólogos da Universidade Federal de Pernambuco descobriram os restos da antiga igreja, de tumbas coletivas, e das ruas em torno da praça principal da cidade que atravessara o oceano, quase dois séculos e meio antes.

No Marrocos, a antiga fortaleza dos portugueses passou muitos anos entregue a si mesma, até ser reaberta em 1821, como bairro judeu. Antes conhecida como Mahdouma (Destruída), depois se tornou El Jadida (Renovada). A velha Mazagão, ex-cidade portuguesa na África, ainda hoje está lá. Em 2004, ganhou o título de patrimônio da humanidade.

Pelas fotos, já que nunca estive lá, é um espetáculo.

 

gustavomaiagomes@gmail.com

 

NOTAS DE RODAPÉ

 

  1. Michael J. Heckenberger. “As cidades perdidas da Amazônia”, Scientific American Brasil, s/d, em http://www2.uol.com.br/sciam/reportagens/as_cidades_perdidas_da_amazonia.html
  2. “Em vez de esclarecê-lo, o explorador inglês Capitão A. M. Morris complica ainda mais o já misterioso caso do Coronel Fawcett”, A Província (Recife), 13/5/1932.
  3. Correio da Manhã, 29/6/1940, pág. 3.
  4. O Globo, 28/5/1984, pág. 6.
  5. Correio da Manhã, 26/9/1940, pág. 5.
  6. Gazeta de Notícias, 7/8/1940, pág. 3.
  7. A Noite, 25/10/1940, pág. 4.
  8. Francisco de Assis Barbosa. “4.600 brasileiros que não querem desaparecer”. Diretrizes, 20/11/1941, pág. 8.
  9. Francisco de Assis Barbosa, idem, ibid., pág. 30.
  10. Correio da Manhã, 11/8/1942, pág. 6; A Noite, 30/12/1942, pág. 10.
  11. Francisco de Assis Barbosa. “4.600 brasileiros que não querem desaparecer”. Diretrizes, 20/11/1941, pág. 30.
  12. Correio da Manhã, 29/9/1943, pág. 2.
  13. Correio da Manhã, 21/12/1949, pág. 14..
  14. O Globo, 28/5/1984, pág. 6.
  15. O Globo, 11/1/1981, pág. 16.
  16. Guilherme Freitas, “Imagens da Resistência”. O Globo, 21/12/13, (edição matutina; caderno Prosa e Verso, pág. 2).
  17. Luís Paraguaçu. “O que resta de Canudos arrasada”, O Globo, 19/1/1966 (edição matutina, Geral, pág. 15).
  18. Roberto Pompeu de Toledo. “O Legado do Conselheiro, 2: Duas vezes morto, duas vezes ressuscitado”. Veja, 3/9/97, pág. 71.
  19. Isidro Duarte. “Canudos: Uma história encerrada”. Jornal do Brasil, Caderno B, 26/3/1969.
  20. Brasil aos domingos. Jornal do Brasil, 23/9/1962, pag. 17
  21. Isidro Duarte. “Canudos: Uma história encerrada”. Jornal do Brasil, Caderno B, 26/3/1969.
  22. “Com a estiagem, cidade de Canudos volta a aparecer após 17 anos”. Correio 24 Horas online, 5/5/13, in http://www.correio24horas.com.br/detalhe/noticia/com-a-estiagem-cidade-de-canudos-volta-a-aparecer-apos-17-anos/. Isidro Duarte. “Canudos: Uma história encerrada”. Jornal do Brasil, Caderno B, 26/3/1969. “Oitenta e dois anos depois: Canudos na memória dos que ainda vivem”. Jornal do Brasil, 18/6/79, pág. 10.
  23. Guilherme Freitas, “Imagens da Resistência”. O Globo, 21/12/13, (edição matutina; caderno Prosa e Verso, pág. 2)
  24. José Manuel Azevedo e Silva. “De Marrocos para a Amazónia”, in http://www.uc.pt/chsc/recursos/jmas, pág. 11.
  25. Esta seção e a próxima seguem de perto o texto de Marcelo Testoni, “Mazagão: A cidade que atravessou o mar”, Aventuras na História, 04/09/2013. (Disponível na Internet.)
  26. Id., ibid.
  27. Id., ibid.
  28. José Manuel Azevedo e Silva. “De Marrocos para a Amazónia”, in http://www.uc.pt/chsc/recursos/jmas, pág. 6
  29. “Roteiro corográfico da viagem que o Ilmo. e Exmo. Sr. Martinho de Souza e Albuquerque, governador e capitão geral do Estado do Brasil, determinou fazer ao rio das Amazonas, em a parte que fica compreendida na capitania do Grão-Pará: tudo em destino de ocularmente observar e socorrer a praça, fortalezas e povoações que lhes são confrontantes.” Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil, vol. 12, n. 15, 30 Trimestre de 1859. (A viagem de Martinho de Souza e Albuquerque foi feita em 1784.)
  30. José Manuel Azevedo e Silva. “De Marrocos para a Amazónia”, in http://www.uc.pt/chsc/recursos/jmas, pág. 12
  31. Marcelo Testoni, “Mazagão: A cidade que atravessou o mar”, Aventuras na História, 04/09/2013. (Disponível na Internet.)

 

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