Com a palavra, a direita templária

Com a palavra, a direita templária

Olavo de Carvalho e, consequentemente, seus seguidores, talvez sejam, neste momento, os mais bem-sucedidos intérpretes do profundo conservadorismo brasileiro. Como se deu a gênese do “olavismo”?

Todos os dias os meios de comunicação, há mais de ano, falam do “olavismo”, dos “olavistas”, dos “olavetes”. Mas nunca se explica o que seria esse misterioso grupo de pessoas, para além da ligação vaga com o professor Olavo de Carvalho, de quem seriam “alunos” ou “seguidores”. O próprio Olavo é referido como “ideólogo” ou “guru” da família Bolsonaro. Eu, pessoalmente, acho que a grande imprensa cumpre mal o seu papel de informar ao público, não só o conteúdo do pensamento de Olavo, mas também quem seriam os tais “olavetes”, e o movimento “olavista”. As referências sempre supõem o “olavismo” como um movimento unitário, uma coisa fechada, hierarquizada, homogênea, algo de que ele está muito longe de ser.

É dificil descrever o perfil arquetípico do “olavete”. Os que conheci primeiro eram estudantes universitários que queriam alguma coisa diferente, ou profissionais, por exemplo funcionários públicos, pessoas que tinham uma profissão e ao mesmo tempo queriam descobrir algo diferente. Pessoas que vieram do materialismo da esquerda, que se cansaram dela e começaram a procurar outra coisa. Isso aconteceu comigo. O sujeito está em uma universidade e de repente se cansa daquela lenga-lenga que não tem mais graça. Fica por um período neutro e, de repente, aparece Olavo. Então, você vê uma coisa completamente diferente, mística e conservadora, que valoriza a alta cultura e a “grande tradição” ocidental.

Em suma, havia uma demanda represada por esse tipo de conhecimento, por parte do pessoal que estava de saco cheio da esquerda. Por muito tempo o Olavo foi lido secretamente, e eu acho que isso ocorre ainda hoje. Professores universitários, juízes e advogados leem Olavo, mas não dizem. O “olavismo” sempre teve contato com a universidade e agora está tendo cada vez mais. Vários professores universitários já liam Olavo e, de alguma forma, estavam dialogando. Vários dele começaram a produzir dissertações de mestrado, inclusive no exterior, e artigos acadêmicos. São tantos que Olavo às vezes nem lhes dá atenção, porque, começou a crescer demais.

Qual é o perfil do “olavete”? Como esse sujeito foi encantado por Olavo de Carvalho?

O grande charme do “olavismo”, inicialmente, veio do seu caráter secreto, meio obscuro, como se fosse algo proibido. Ele atraiu uma porção de gente de inclinação conservadora, que estava cheio do politicamente correto e do marxismo cultural, e funcionou como uma espécie de para-raios. Mas ninguém tinha coragem, nem mesmo de curtir publicamente os posts do Olavo. Eu também não curtia os posts dele porque sabia que ia aparecer pra quem me segue no Facebook. Isso ia pegar mal com o pessoal com quem eu trabalhava, ligado às ciências humanas e às artes. Todo mundo era amigo, depois ia pro bar; mas, como a maioria era de esquerda, eu não podia me expor. Eu só curtia os comentários dele dentro do post, então era assim com todo mundo. As pessoas falavam no privado sobre Olavo, passavam as informações e começaram a se encontrar. Então, como algo quase sigiloso, a gente ia se conhecendo, formando grupos secretos. Ia se encontrando e trocando material. Havia também os manuscritos do Olavo, a parte mais esotérica da sua obra, que circulava muito menos. Aí eu fiquei de olhos ainda mais esbugalhados. “Introdução à Vida Intelectual” é espetacular, obra em que ele fala de astrologia e de outras questões abordadas pelo lado místico. Esse misticismo faz parte da história do Olavo, que era um excelente astrólogo, deu aula para muita gente, fez escola e se tornou famoso nesse ofício. Inclusive, muitos ficaram decepcionados quando ele abandonou a astrologia.

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É interessante comparar o Olavo com outros intelectuais conservadores influentes que o antecederam. Gilberto Freyre também tinha esse lado místico, também era um conservador, só que ele se tornou um homem muito institucional. Mas, como ele morreu associado à ditadura, quando o regime estava desmoralizado e o marxismo cultural estava em ascensão, seus discípulos se criaram fora do campo conservador. Mas Freyre, ainda que flertasse com a informalidade, era um aristocrata e estava longe de ser um sujeito escrachado como o Olavo. Também Lacerda, que não falava palavrão. Então, o Olavo tem essa originalidade, para além do esoterismo, que tornava a sua leitura ainda mais interessante.

A polêmica que Olavo provoca, por vezes, não é mais importante do que propriamente a essência de seus pensamentos?

Creio que a principal razão do êxito e da propagação de suas ideias se deve ao domínio do meio. Eu não lembro de nenhum outro intectual conservador usar as redes sociais de forma tão eloquente como Olavo, porque ele viu a capacidade de viralização de certas coisas muito antes de todo mundo. A principal característica do Olavo é que ele não tem intermediário. Olavo dá aula diretamente para os alunos, os alunos pagam e entra na conta dele. Não tem intermediários. Então todos os outros professores têm faculdades, instituições culturais, casa das artes, etc., que são intermediárias institucionais entre o intelectual e o seu público. Olavo não tem intermediário, porque ele brigou com todas as instituições. Ele foi expulso do Globo, da Folha. Nunca chegaria à universidade por causa da forma como age. Então, Olavo ficou sem intermediário e teve de criar seu próprio meio, e esse meio gerou uma força política sem precedentes. O fato é que ele se tornou tão autosuficiente que não há alguém superior, capaz de controlá-lo.

Agora, é claro que sua capacidade de criar polêmica e ser provocativo também contribuiu para disseminar sua obra. Olavo tem mil polêmicas, né? Esse comportamento tem um preço. Ele se mudou para os Estados Unidos porque começou a receber muita ameaça de morte. Acho, inclusive, que é o que vai acontecer comigo agora, em breve. A situação ficou insustentável: ele tinha muita briga com muita gente aqui no Brasil, de forma que, quando se mudou, nem estava mais no circuito Rio-São Paulo, mas em Curitiba. E ele não aguentava mais o Brasil, as pessoas que só conspiram contra e que querem teu mal. Foi para os Estados Unidos e se deu muito bem lá. Na Virgínia, as pessoas são muito simpáticas, tratam a todos muito bem. O COF (Curso Online de Filosofia) foi criado para pagar a faculdade da filha, que chegou com mais de 18 anos nos Estados Unidos e, por isso, não ganhou automaticamente a cidadania americana. Ela precisava fazer uma faculdade para poder permanecer por lá, e aí Olavo precisava pagar a faculdade, o que é caríssimo em dólar. Então ele inventou o COF pra ganhar uma grana e virou um sucesso absoluto.

Quem são os “olavistas” e como eles atuam?

Tem de tudo. Tem gente que só fica nas redes sociais, nunca lê livro nenhum, só lê o mínimo. Tem gente que lê todos os livros de Olavo, tem todos os livros decupados na cabeça. Tem aqueles que só usam os livros e não usam redes sociais, ou seja, estudam, produzem e ficam na sua. São pessoas que entendem muito, mas, como não têm uso das redes sociais, acabam não se destacando. Isso é lamentável, porque alguns dos melhores alunos de Olavo são assim. Quem está produzindo intelectualmente não tem tanto tempo para rede social. Então, quem acaba se destacando publicamente são aqueles que causam polêmica na rede social. Participar de uma grande polêmica passou a ser o ritual de entrada na nova direita.

Acho que o fenômeno explode em 2013. Com o lançamento do “O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota”, o mercado editorial da direita explodiu. E sabe como? As pessoas simplesmente tiravam uma foto com o livro e a postavam nas redes sociais, que era compartilhada pelo Olavo. Muitas pessoas acharam isso bonito e começaram a fazer as fotos para o Olavo compartilhar. Esse processo de viralização, esse boca a boca digital, transformou o livro em best-seller. Curiosamente, tudo que está nesse livro já estava disponível gratuitamente no site do Olavo. O livro é só uma coletânea.

A rede social é um habitat mais propício à nova direita?

A nova direita brasileira tem enorme capacidade de manejar esse meio, sem dúvida. Olavo se espalha nas redes sociais; o bolsonarismo se espalha nas redes sociais. Carlos Bolsonaro teve a ideia de fazer as redes sociais da familia, abrindo o perfil no Twitter do pai, do irmão, dele próprio. As pessoas começaram a criar memes para o Bolsonaro. Não sei se eram alunos do Olavo, mas ouviam o True Outspeak (programa no formato de rádio que Olavo fazia pela internet). O True Outspeak é uma gênese dessa linguagem de memes, porque é uma forma de se falar uma verdade tão na cara da pessoa, que ela fica chocada. Aquilo viraliza de alguma forma. A verdade pode ser muito dura, e o programa do Olavo era basicamente isso. A coisa foi assimilada, o pessoal começou a fazer memes e fazem até hoje. Essa gente, formada por alunos ou ao menos admiradores do Olavo, foi trabalhar com Bolsonaro e hoje compõe aquilo que ficou conhecido como o “gabinete do ódio”.

Então, sim, há uma conexão entre os olavistas e as propagandas nas redes sociais da família Bolsonaro. Ela surge no mesmo tempo dessa linguagem dos memes e foi crescendo de uma forma avassaladora a partir de 2011. Bombou nas manifestações de 2013 e 2014, nas eleições de 2018, e não parou de crescer. A direita hoje domina a linguagem dos memes, domina a internet. A pessoa da direita posta uma coisa e tem mil curtidas; o pessoal da esquerda posta e tem dez. Eles dizem que é robô, mas não é robô nada. Eu encontro com os robôs na rua, o pessoal que me segue no Twitter vem falar comigo. Você olha pra foto, parece um fake. Mas o cara existe. Essas pessoas começaram a se agregar em torno dessa estrutura comum de deboche escrachado. Há quem diga que o que une as Novas Direitas na França, no Brasil, nos EUA, é ser contra 1968. Pode ser. Essa coisa de “vamos construir um mundo melhor”, isso ficou velho, chato, insuportável. As pessoas ficaram de saco cheio com o bom-mocismo revolucionário, e isso foi bater na internet. É a forma como Bolsonaro e Olavo se comunicam. A comunicação através das redes sociais se tornou uma maneira de união entre essas pessoas.

O quanto o fator “Olavo” teve de peso na eleição do presdiente Bolsonaro?

Em 2008, Olavo disse: se um candidato perfeitamente conservador falar a verdade, ele vai ser eleito sem precisar de máquina, sem precisar de nada. Então, a profecia foi bastante acertada. Começou em 2014. Eu me lembro que Bolsonaro tentou se candidatar só para dizer a verdade na cara da Dilma. Ele acabou não conseguindo se candidatar, mas a coisa foi crescendo através das redes sociais. Por exemplo: como é que se descobriu Felipe Martins, que veio a ser assessor internacional da Presidência? Foi através de rede social! Ele estava viralizando; os posts dele tinham muitas curtidas e eles foram atraidos… chamaram atenção e acabaram dentro do governo. A forma como Bolsonaro entrou no PSL, de última hora, foi caótica. A campanha dele para presidente foi tudo de última hora, mais precário do se possa imaginar. Lá dentro é tudo bem diferente. A direita estava mais ou menos unida quando a gente estava contra o PT, e tudo era tudo novidade. Depois a coisa foi azedando de uma forma tal que a coalizão se desfez. O pessoal do MBL não se dá com ninguém – ninguém aguenta aqueles caras. Então, foi ficando muito difícil a relação.

Como se dá a participação dos “olavetes” no governo Bolsonaro? Ela é sistematizada, orgânica, ou as indicações se dão de maneira dispersa, aleatória?

Em primeiro lugar, devo dizer que o Olavo recebeu o convite para ser ministro da Educação ou da Cultura e recusou porque, como ministro, ele não ia poder falar as coisas que costuma falar. Além disso, ele não queria vir ao Brasil de jeito nenhum, porque ia causar muita confusão. Agora, é importante ressaltar que os “olavistas” proeminentes do governo não têm necessariamente contato com o próprio Olavo ou fizeram o curso. São as pessoas que veiculavam as ideias dele para as redes sociais. Sua popularidade os alçou ao governo. Mas, por mais contraditório que possa parecer, acho que o “olavismo” não tem muito futuro no governo, porque o Roberto Alvim (ex-secretário de Cultura) estragou muito. Sua queda deu muito argumento para os militares, porque eles são organizados, e os “olavistas” não têm hierarquia; são totalmente desorganizados. Esse negócio, por exemplo, de quem é ou não é aluno do Olavo, ninguém sabe! O cara pode estar escrito no COF e viu 10 aulas ou, então, pode não estar escrito no COF e ter assistido no YouTube – porque as pessoas compartilham muitas aulas. Muita gente usa a senha do amigo, vende as aulas pirateadas. O “olavismo” é um negócio difuso, espécie de geleia geral; não tem estrutura, bibliografia; é uma coisa complicada. No fundo, é “olavista” qualquer sujeito que diga que admira o Olavo, mesmo que não tenha visto nada ou lido nada. De igual modo, tem gente que lê Olavo e não fala. Está lá dentro do governo caladinho e em outros lugares também. Nem todo mundo é militante que está na internet compartilhando, fazendo meme, fazendo piada, escrevendo coisas que agradam o Olavo ou lhe puxando o saco.

Olavo de Carvalho é um agente de participação assídua nas decisões do governo?

O Olavo não costuma dar muito pitaco, a verdade é essa. Ele está sempre conversando com um monte de gente, das mais diversas áreas, dentro do governo, fora do governo, mas não sei até que ponto ele guia as pessoas nas suas ações. Eu acho que, com o Velez (Ricardo Velez Rodriguez, ex-ministro da Educação), por exemplo, ele não falava nada. O Velez entrou lá e acabou. Acho que foi um dos motivos de ele ter caído: ele perdeu o apoio de quem o colocou lá. Na área da Cultura há uma instabilidade total: um secretário a cada três meses. Isso tem a ver com a desestruturação do “olavismo” como movimento, porque existem muitas cisões internas. A vida do “olavismo” é um caos! O Olavo organiza as ideias intelectualmente, mas, na prática, sua atuação política é caótica. E existem muita inveja e competição entre os “olavistas” a respeito de quem chega perto do Olavo. Tem muita gente que se revoltou contra ele, porque não conseguiu se aproximar. Tem gente que quer porque quer ter contato e pede que alguém intermedeie uma visita ao Olavo em sua casa na Virgínia. Muitos, eu diria a maioria, não conseguem, ficam ressentidos e se voltam contra ele. Conheço pessoas, incluisve, que querem monopolizar o Olavo, e isso sempre aconteceu.

Quem forma o núcleo duro do “olavismo”?

Quem consegue agregar mesmo o Olavo é o Silvio Grimaldo, que criou o True Outspeak. Ele era aluno e amigo dos filhos do Olavo. Ele é praticamente um filho do Olavo. Vai lá, resolve tudo para ele e trata de botar para fora quem pensa em chegar perto do Olavo profissionalmente. Além do Silvio, havia outras pessoas mais próximas ou mais eminentes, como o Andreazza (Carlos Andreazza, editor-chefe da Record). Ele era o editor do Olavo, mas se cansou. E se cansou com toda a justiça, porque não tem quem aguente mesmo, né? A verdade é que, no fim das contas, todo mundo que aspira a um cargo no governo passou a se dizer “olavista”. Teve gente perguntando: “Será que o Olavo não ajuda a me manter no cargo não?” Esses foram aconselhados a não pedir, porque é capaz de piorar. O próprio governo já notou que o pessoal relacionado ao Olavo tende a ser desorganizado. Até o Felipe Martins foi rebaixado e terá de responder a um militar. Há inexperiência, falta de traquejo. O próprio Olavo fala politicamente, mas não no sentido partidário. Ele não quer se meter nessa seara. Ele está envolvido na luta ideológica. Ele não chega a fazer política partidária. Sei, por exemplo, que o presidente Bolsonaro ligou para ele para perguntar sobre a Regina Duarte e ele concordou. Acho que o presidente não indicaria simplesmente sem consultá-lo antes, porque sabe que se trata da área de influência do Olavo. Mas não se meteu na nomeação do Ernesto Araújo para o Itamaraty, até porque não é sua área de influência. Acho que é pura coincidência, não acredito que o Araújo tenha lido muitos textos do Olavo.

Qual o futuro do “olavismo”?

O “olavismo” foi incorporado pelo “bolsonarismo”; tem algumas caracteristicas dele. De alguma maneira um está indexado ao outro. Mas o futuro é uma grande incógnita. Gilberto Freyre tinha vários alunos e admiradores e depois seu pensamento se dispersou. Não sei se vai se criar uma cultura conservadora em torno do Olavo. Tem gente que é conservadora ou se diz conservadora, mas não gosta do Olavo. De toda a forma, creio que daqui a 20 ou 30 anos o pessoal vai estar lendo e discutindo Olavo. Ele fará parte da história intelectual brasileira. Mas, se seus alunos propriamente ditos vão emplacar intelectualmente, prefiro esperar que o tempo traga essa resposta.

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