Decodificando Bannon – Manual da comunicação fascista

Decodificando Bannon – Manual da comunicação fascista

Peter Johann Coutinho, Físico

 

Muitos analistas democráticos brasileiros discutem a ameaça fascista no governo Bolsonaro, assim como fizeram no governo Trump. Em muitos casos, há surpresa, apreensão (às vezes exagerada), menosprezo (quando não devia ocorrer), esnobismo (especialmente diante da postura anti-intelectual, como na pandemia de Covid-19) e outras atitudes que mais ajudam do que atrapalham os jogadores do fascismo. Para eles, a distração alheia é vista como uma dádiva. Como ilustração, durante a pandemia de Covid-19, Brasil e Estados Unidos foram lançados em verdadeiras tragédias sociais incentivados pelo alto grau de caos utilizado pelos setores extremos de sua base.

No governo Trump, o que ocorreu no Capitólio em 6 de janeiro de 2021 também foi tratado como “um golpe iminente”, mas se mostrou como um grande fracasso: quatro trumpistas desarmados morreram, embora tenham causado a morte de um policial. Dias depois, o FBI observou que as redes sociais prometiam ações armadas em todos os 50 estados dos EUA. Mas nenhum estado foi alvo de ações armadas. Novamente, essas eram as mesmas atitudes de surpresa diante do “imprevisível” no surgimento do fascismo clássico, nas implementações de Mussolini e Hitler.

O drama se vê em alguns exemplos. Na América, cerca de 150 artigos entre 1925 e 1932 sobre Mussolini foram, na maioria, neutros, confusos ou de tom positivo: para o The New York Times, o fascismo, como um “novo experimento”, tiraria a Itália da turbulência e a levaria para a “normalidade”; em 1928, o Daily Mail chamou Mussolini de “Napoleão dos tempos modernos”.

No fim dos anos 20, a Newsweek disse que Hitler era uma figura “sem sentido”, de “dialeto selvagem” e parecia Charlie Chaplin. A Cosmopolitan afirmava que ele era “tão volúvel quanto inseguro”. Em 1930, o NY Times disse que a exposição ao público alemão deixaria visível sua própria futilidade. Seria apenas para “levantar a moral de seu público radical”.

Insight Inteligência - artigos e ensaios fora da curva

Quando chegou ao cargo, em janeiro de 1933, o The Washington Post disse que Hitler teria de se tornar mais moderado ou “cairia por ele próprio”. O NY Times seguia na mesma linha, afirmando que Hitler seria “forçado” a operar dentro de um governo, pois os políticos “sóbrios” iriam “submergir” o movimento nazista. Após sua nomeação, o NY Times disse que a exposição “ao público alemão sua própria futilidade”, sendo obrigado a se tornar moderado. Em síntese, não conseguiam prever o risco e avaliar esses líderes de forma realista.

Hoje em dia, apenas culpar o caos informacional não adianta, embora seja um ponto indispensável na avaliação. Nos tempos de Goebbels não havia internet e a desinformação chegou a patamares difíceis de serem superados até mesmo nos dias atuais.

O fascismo original dos tempos de Mussolini até pode ser utilizado como explicação para os eventos atuais que ameaçaram a democracia dos Estados Unidos, mas é insuficiente. Como disse Umberto Eco em seus 14 critérios para o que definiu como “fascismo eterno”,1 o fascismo é um jogo que pode ser jogado de várias formas. As brechas encontradas nas redes sociais permitiram novas formas macabras.

Em tempos de milícias paramilitares substituídas por perfis falsos, o culto ao heroísmo do fascismo clássico nem pode ocorrer, pois perfis falsos não ganham medalha. Na readaptação que podemos definir como bannonismo, presente no Brasil e nos Estados Unidos, o jogo permanece enganoso aos observadores externos, mas as regras não podem mudar. Consequentemente, podem ser decifradas.

A dinâmica do fascismo

Três metodologias – além do suporte do material de autores sobre o fascismo, como Umberto Eco, Robert Paxton, Michael Mann e outros – ajudam a compreender melhor essas regras e como elas se readaptaram após o que podemos chamar de “fascismo AG/DG”, ou seja, antes ou depois do evento online Gamergate, de agosto de 2014. Desde então, o movimento alt-right (direita alternativa), criado em 2010 por Richard Spencer, incorporou a estratégia do Gamergate e, mais do que isso, se tornou parte da estratégia de Steve Bannon na campanha de Trump e durante todo seu governo. Em um de seus pontos centrais, a estratégia se baseia em alto volume de perfis falsos praticando assédio online de forma organizada. No Brasil, ocorreu algo similar.

A dinâmica social, desenhada pelo psicólogo social Kurt Lewin nos anos 30 e 40, vinha para trazer mais previsibilidade aos comportamentos de grupo. Junto, Lewin criou as dinâmicas de grupo,2 colocando o comportamento humano em ambientes testáveis e de forma realista.3 Grupos de crianças passaram meses em teste sob diferentes tipos de líderes. O líder democrático deixava os meninos participarem das decisões, havia um ambiente de colaboração. Com isso, a motivação era mais duradoura, eles se sentiam parte dos resultados e era preciso de pouca monitoração. Já com o líder autocrático, não havia participação das crianças nas decisões. A motivação era alta no início, mas se perdia com o tempo. Quando o líder não estava por perto, chegavam a conspirar contra ele. Logo, era preciso de mais rigidez nas punições e uma monitoração mais constante. Observa-se que existia uma empolgação inicial nos sistemas mais autoritários, mas como ela se perdia, haveria como consequência uma maior repressão. Melhor dica do que essa para confirmar o que traria o fascismo não há.

Em sua fórmula da teoria de campo, ou C=f[P,A], que opera em função de sua personalidade e do ambiente que possui em torno de si,4 um líder de orientação autocrática ou democrática tende a atrair determinados perfis de liderados e busca um ambiente onde sua pulsão possa ser exercida. O que os diferencia, na prática? Pela teoria do seletorado, com base na teoria dos jogos, é basicamente pelo comportamento da coalizão.

Em 2003, os autores da teoria do seletorado, Bruce Bueno de Mesquita, Alastair Smith, Randolph M. Siverson, James D. Morrow, se basearam na teoria dos jogos, mas agora adaptada para a política entre autocráticos e democráticos. É focada especificamente no autointeresse não apenas do líder, mas também da coalizão.5 Se uma democracia é fundamentada em uma coalizão ampla em torno do líder, uma autocracia é baseada em uma coalizão reduzida.

Como nas autocracias, a negociação é baseada em bens privados – usufruídos apenas pelo líder e seus aliados –, a produtividade não é tão relevante. Aumenta-se a repressão e censura. Nas democracias, a popularidade real do líder conta muito mais na negociação, pois não é possível usar bens privados (pelo alto número de membros) e bens públicos já estão disponíveis para a população. Por isso, é preciso ampliar a produtividade. Isso depende de garantir mais liberdade, autonomia e independência para os cidadãos.

Quer em democracias, quer em autocracias, todos os processos de queda do governante podem ser estudados por esse equilíbrio de forças. O ponto central de observação está nas movimentações da coalizão. Autocráticos tendem a buscar mais riscos pela ruptura. Democráticos querem evitar esses riscos, buscando maior estabilidade. Esses métodos bastam para monitorar democráticos e autocráticos lineares, mas não englobam o fascismo, que nada mais é que o primeiro sistema político feito para organizações caóticas.

Uma das dicas para entender que o fascismo era basicamente um método de autocracia para organizações caóticas veio de Eco, ao usar o termo “desconjuntamento ordenado”, ou uma “confusão estruturada”. Por isso, observar os cinco estágios do fascismo, de Paxton, e a teoria do caos nos ajuda.

Nos cinco estágios propostos por Paxton para estratégia fascista temos: E1, criação dos movimentos – o surgimento a partir de movimentos focados em submissão ao líder e à violência; E2, enraizamento no sistema político – aliança com setores da elite e democráticos de direita, que tendem a ser descartados depois; E3, tomada de poder – ocupação do espaço suficiente para executar o poder definido pelos fascistas; E4, exercício de poder – aplicação efetiva do poder pelo grupo; e E5, radicalização ou entropia – isso pode incluir um longo tempo de contínuas radicalizações, ou o colapso do próprio sistema.

Por que é assim? Isso porque o fascismo prevê, em E2 (enraizamento no poder), uma aliança entre fascistas e membros da elite e do conservadorismo moderado após ter passado pela criação de movimentos paramilitares. A coalizão moderada costuma se surpreender com os extremistas. Entretanto, a redução da coalizão chega a tal ponto que o sistema pode alcançar o estágio E5 (radicalização ou entropia). Na Itália, Mussolini ainda pôde ser interrompido pelo Conselho Fascista e depois demitido e preso pelo Rei Emanuel III. Portanto, transitou pelo estágio E5, voltou ao estágio E4, sendo retirado do poder. Com Hitler, não havia ninguém que pudesse pará-lo, ficando o país por vários anos no estágio E5, sendo interrompido apenas a partir de fora. Isso significa que o caos progressivo só podia ser interrompido pela entropia.

A teoria do caos foi descoberta por Edward Lorenz em 1963 ao estudar fenômenos meteorológicos.6 Ao visualizar uma cadeia de eventos aparentemente caóticos, Lorenz mostrou que há um padrão no caos, ou seja, em eventos aparentemente aleatórios, como se fosse uma “desordem organizada”. Em cadeias de eventos muito complexas, há grande quantidade de iterações. A busca é pelos “atratores” que levam a eventos aparentemente caóticos. Na ciência, receberam o nome de “atrator de Lorenz”. O que se busca na teoria do caos é o entendimento da dependência sensível das condições iniciais.

Qualquer organização humana é um sistema, podendo ser linear ou caótico. Elas são feitas quase sempre para operar de maneira linear e, às vezes, são atingidas pelo caos. Assim, precisam reagir a esses eventos quando ocorrem. Por outro lado, uma organização caótica irá atrair os eventos caóticos.

Segundo Thiétard e Forgues, são seis os aspectos de uma organização caótica:7 (1) Acoplamento de forças contrárias, (2) Caminhada da estabilidade ao caos sob processo discreto de mudança, (3) Pequenas mudanças que não podem ser previstas a longo prazo, (4) Novas estabilidades emergem (os atratores estranhos, assimilados às organizações anteriores), (5) Padrões semelhantes devem ser encontrados em diferentes escalas, (6) Durante uma única vida organizacional ou entre duas organizações diferentes, ações semelhantes nunca devem levar ao mesmo resultado.

Na primeira característica, acoplamento de forças contrárias, está o segredo. Uma organização em que não há questionamento sequer no círculo interno já mostra acoplamento de duas forças contrárias (o líder e seu círculo interno) em relação ao entendimento das regras do jogo. A partir daí, o nível de relação com as demais forças tende a seguir o padrão de submissão, vinda a partir de cima. Quanto maior for esse acoplamento de forças contrárias, mais caótica será a organização.

Analistas tradicionais se confundem ao buscar ordem onde há apenas caos planejado. Mas ao descobrirmos isso notamos que estamos diante de algo tão (ou até mais) previsível que uma organização linear, bastando prestar atenção nos padrões, nos vícios, nas manias, nos recursos etc. Isso vale tanto para os jogos fascistas clássicos como seu uso a partir das estratégias desenvolvidas por Steve Bannon depois de 2014.

As regras do jogo

Ao assumirmos que tratamos de uma organização caótica, que normalmente se junta a organizações lineares, devemos considerar uma série de fatores para análise. Em primeiro, os Grupos: na perspectiva de uma organização caótica, quais são esses grupos? Podemos tratá-los como cinco: G1 (coalizão interna), G2 (coalizão útil), G3 (coalizão dispensável), G4 (dissidentes) e G5 (oposição declarada). Já que a dinâmica social é um norte, temos o fator Ambiente, que, na atualidade, são três: AV (ambiente virtual), AS (ambiente social) e AP (ambiente político).

Não se deve esquecer o fator Personalidade, considerando o líder e seus principais auxiliares: geralmente a liderança possui personalidade narcisista destrutiva, e seus liderados mais próximos se dividem entre pessoas com graus de sadismo, psicopatia e outros transtornos similares, ou pessoas normais cujo ressentimento é instrumentalizado ideologicamente.

O quarto fator mostra o “momentum” da estratégia. É o Estágio, em número de cinco, como já vimos. Por último, é preciso ver o quão longe a estratégia pode ser capaz de chegar. No quinto fator, temos a Capacidade, conforme as regras para o jogo: são 18 regras, sendo que seis, em específico, permitem a evolução em termos de capacidade em relação ao contingente.

Especificamente em relação a essas 18 regras, uma abordagem mais detalhada é necessária. Se observamos o Ambiente (virtual ou social) de origem da estratégia, os Grupos (e como eles estão avançando mais ou menos sobre eles), a Personalidade (do líder e de seus liderados), o Estágio (que mostra até onde a estratégia avançou), podemos visualizar as regras a seguir.

A regra mais fundamental, 1 “normalização de abusos”, diz o grau em que um líder pratica abusos diante do mundo exterior e também dentro de seu grupo, além de como isso é normalizado. É o fundamento de tudo. O recrutamento é tratado na regra 2 “exploração da frustração”, e seu reforço, na regra 3 “elitismo de massa”. Duas regras em específico, 4 “doutrina de cativeiro” e 5 “submissão à autoridade”, servem para justificar o aceite desse esquema de submissão pleno. As três regras seguintes, 6 “manipulação multinível”, 7 “proselitismo enganoso” e 8 “controle da pureza”, servem para controlar a manutenção interna do grupo, além de reforçar o senso de pertencimento.

Como o controle da pureza é brutal, tudo se reforça com a exploração emocional, nas regras 9 “chantagem emocional” e 10 “gaslighting”. A regra 11 “sistemas de significação” vai mais do que apenas dar a doutrina para justificar a submissão, mas sistemas baseados em itens como teorias da conspiração, retórica apocalíptica e outros recursos para manter a (falsa) coerência dentro de um ambiente de contínuo isolamento. Todas essas regras são visíveis, mas não tão simples de mensurar em relação ao contingente, seu nível de organização etc.

Mas seis regras em específico são facilmente mensuráveis quanto ao aumento ou diminuição de contingente de correligionários e a intensidade com que se manifestam. Então são tratadas como capacidades. C1 (irracionalidade sistemática) se compõe das regras 12 “anti-intelectualismo” e 13 “realidade paralela”. Já C2 (desconexão da moralidade), regras 14 “identificação pelo inimigo” e 15 “disposição eliminacionalista”, depende do avanço de C1. Em C3 (comportamento antisocial), temos as regras 16 “glorificação da violência” e 17 “ruptura social”. Espera-se que quase 100% estejam aderentes a C1, 85% a 95% a C2 e, no máximo, 30% aderentes a C3.

Assim, medir o avanço de contingente em C1, C2 e C3 (o que pode ser visto, por exemplo, em monitoração de redes) é algo factível, tornando-os previsíveis, mas sem esquecer as demais regras. E temos ainda a última e fundamental regra: 18 “abuso da dissonância cognitiva”, que define o grau em que a liderança consegue explorar a dissonância cognitiva (em todos os níveis de cognição, não apenas quanto a realidade, mas emoção, identidade etc.).

A junção de C1, C2 e C3, além da observação especial nas regras 1 “normalização de abusos” e 18 “abuso da dissonância cognitiva”, permite o centro do cálculo. Isso porque são observáveis mais facilmente. Algumas regras ficam restritas aos membros internos, mas outras podem ser vistas a partir de agora, como a regra 11 “sistemas de significação”.

Seja no modelo clássico, de Mussolini e Hitler, ou na versão protofascista, vista no bannonismo, o jogo é o mesmo, mas há vias diferentes. No fascismo clássico, priorizava-se o AS – Ambiente Social (onde as forças paramilitares atuavam e faziam uso de movimento de massas). No bannonismo, a prioridade é pelo AV – Ambiente Virtual (onde milícias virtuais ditam o tom das ações). Isso já é uma grande modificação em termos de aceite de risco, pois, como a chance deles se traduzirem em dano físico é menor, perfis falsos tendem a assumir mais riscos.

No fascismo clássico, Mussolini e Hitler passaram por todos os estágios. Por mais tempo, ficaram em E4 e E5. No E4 (exercício de poder), havia o disciplinamento contínuo às regras do jogo fascista, às quais as elites e os conservadores se adaptavam. Em E5 (radicalização ou entropia), o sistema se mantém em contínuas radicalizações ou então entra em entropia, ou seja, perde seu “ponto de parada”.

Quanto às 18 regras, nota-se que a regra 1 “normalização de abusos”, foi aplicada muito mais fortemente por Hitler do que por Mussolini. Por isso, Hitler converteu a Alemanha em uma autocracia em um mês, enquanto Mussolini demorou três anos para fazê-lo. Em termos de C1 “irracionalidade sistematizada”, Hitler também alcançou um estágio superior, pois, mesmo censurando a mídia (como fez Mussolini), não aniquilou a cultura vigente. Quanto à C2 “desconexão da moralidade”, ambos alcançaram altos estágios diante de seus correligionários, mas Hitler precisou ir muito mais longe para bloquear a empatia até perante o Holocausto. Em termos de C3 “comportamento antissocial”, a SS estava muito mais disposta ao barbarismo em larga escala do que na Itália. Quanto à regra 18 “abuso da dissonância cognitiva”, a submissão a todo tipo de contradição foi mais ampla. Caso contrário, seria inaceitável, para a população comum, permitir a normalização do Holocausto.

Observe que no estágio E1 (criação de movimentos), Mussolini não perderia para Hitler em termos de C3 “comportamento antissocial”. Quando chegaram ao poder, isso mudou: Hitler o superou em várias voltas nessa capacidade. Isso tem a ver também com o grau em que ocorreu o estágio E3 (tomada de poder). Mussolini poderia ser interrompido pelo Conselho Fascista e pelo rei, como foi. Então, mesmo transitando às vezes pelo estágio E5 (radicalização ou entropia), foi trazido de volta para o estágio E4 (exercício do poder), de onde foi retirado pelo sistema. Já Hitler chegou ao estágio E5 (radicalização ou entropia) e não saiu mais de lá até ocorrer a entropia.

Isso se definiu no estágio E3 (tomada de poder). Lembre-se que a primeira regra das organizações caóticas é o acoplamento de forças contrárias. Se até dentro do grupo G1 (coalizão interna), não há permissão para questionamento, troca de informações e controle de poder, o acoplamento de forças contrárias será maior. Logo, Hitler criou a organização caótica perfeita. Mas, com Mussolini, dentro do grupo G1 (coalizão interna), ele não podia ser interrompido em suas intenções de conclamar guerras, por exemplo, mas podia ser aconselhado; além de que, em situações extremas, o próprio conselho, junto com o rei, tinha poder para destituí-lo. Dessa forma, o acoplamento de forças contrárias era alto, mas não o suficiente para torná-lo incontrolável e imprevisível dentro do sistema.

O fascismo, enfim, é basicamente um jogo baseado na plena submissão, em estrutura piramidal, que depende de uma metodologia para implementar padrões para uma organização caótica buscar o poder de forma autocrática, principalmente quando se alinha a organizações lineares. Agora podemos ver como o jogo feito pelo bannonismo é o mesmo, mas em diferentes níveis.

A estratégia bannonista

Há uma linha do tempo que explica a estratégia usada por Steve Bannon, que influenciou a extrema direita em democracias como a dos Estados Unidos, Itália e Brasil e pode ser observada a partir de uma evolução das oportunidades dadas pelas redes sociais (e suas vulnerabilidades).

Ambos se aproveitam, conforme os estágios de Paxton, de E1 (criação de movimentos). Porém, agora o ambiente era outro: AV – Ambiente Virtual. Nos Estados Unidos, a alt-right acontecia desde 2010, mas sua atuação não saía dos submundos das redes. Mas em agosto de 2014, surgiu o evento Gamergate, em que cerca de seis mil perfis falsos realizaram uma série de ataques a membros da mídia progressista ligada a videojogos e desenvolvedoras feministas. Esses ataques incluíram assédio, ameaças de estupro e morte,8 doxxing (vazamento de informações privadas), ataques a apoiadores e até ameaças de atentado a bomba (contra Anita Sarkeesian, em outubro de 2014, que cancelou sua palestra em Utah por esse motivo).9

Depois do Gamergate, Steve Bannon se aliou ao polemista Milo Yiannopoulos para integrar as milícias virtuais a todos os grupos extremistas da alt-right. O surgimento desses grupos foi espontâneo. Aqueles que entram no grupo extremo vão aos poucos se aprofundando na câmara de eco, mas também agindo diante do mundo exterior com uso de enganos e armadilhas, o que aumenta o senso de “pertencimento”.

Desde o início, James Lawrence, editor-colaborador de um dos blogs mais populares da alt-right, diz que o movimento deveria “aproveitar ao máximo o formidável poder da internet para aterrorizar a esquerda e a falsa direita”. Definem como “trolling transgressivo”, com forte efeito de “choque e pavor” para desequilibrar oponentes. Collin Liddel menciona a “simplicidade, repetitividade, espirais de pureza, puerilidade, anonimato” e “viralidade (valor de choque) do trolling” como uma “droga de passagem” para as ideias mais sérias do alt-right.10

Em Charlottesville, o uso de suásticas, palavras de ordem antissemitas, emblemas como a runa pré-romana Othala (símbolo favorito do NSDAP por um período) e o Sol Negro (Sonnenrad, escolhido pelo líder nazista e comandante da tropa paramilitar SS Heinrich Himmler) são escolhas nada acidentais. São feitos para gerar a ambiguidade necessária. O principal estrategista dessas táticas é Andrew Anglin,11 com base em seu site The Daily Stormer, inspirado em seu nome no jornal de propaganda nazista Der Stürmer, fundado por Julius Streicher em 1923, que postulava a exterminação dos judeus. Anglin era especialista em “troll storming” e fugiu do país após receber condenações judiciais na casa dos U$ 14 milhões.

Mesmo que os grupos surjam espontaneamente, poderiam ser incentivados e direcionados a partir do uso de táticas de apoio ambíguo. A associação direta de líderes democráticos com membros de perfil racista e antissemita, por exemplo, seria inaceitável. Estrategicamente, o ecossistema funciona de forma descentralizada e não hierárquica. A passagem pelo estágio E2 (enraizamento no poder), é vista basicamente no nível de apoio a um líder forte, que retribui radicalizando seu discurso e tornando-se mais abusivo que o normal para uma democracia, conforme a regra 1 “normalização de abusos”.

Em uma democracia, esses grupos não podem estar em uma hierarquia formal, ao contrário das “troll farms” de Orban (Hungria), Erdogan (Turquia), Maduro (Venezuela) e Rússia (Putin). Ali a trolagem maligna é integralmente financiada pelo Estado. Não é preciso de motivação excessiva pela fé, mas garantir o recebimento de verba estatal. No fascismo, o elemento de fé é fundamental, gerando mais impulso por ação espontânea violenta, mas bem menos controle. Como exemplo, víamos ameaças ao vice Mike Pence por alt-righters na invasão do capitólio, algo impensável em “troll farms” hierarquizadas (e geralmente submissas ao exército).

“Grupos de pertencimento”

No bannonismo, é claro que alguns líderes estão interessados em monetização. Mas isso é para poucos líderes. A grande maioria atua espontaneamente, passando a integrar “grupos de pertencimento”. Se não for assim, a estrutura seria logo descoberta e a atuação espontânea se diluiria. Essa inovação traz um problema: grupos de ação antissocial surgidos nas redes (sob perfis falsos) pertencem a um universo diferente daqueles surgidos para praticar a violência física nos centros urbanos e rurais, como os Camisas Negras. Logo, são “universos” que não necessariamente se conectam.

Entretanto, isso cria um cenário em que haverá disputa no mercado da “economia de atenção”. A consequência muitas vezes não é vista de forma tão direta como nos modelos clássicos do fascismo. Mas o caos informacional produzido por esses grupos chegou a motivar um líder como Donald Trump a tratar a pandemia pelo discurso do anti-intelectualismo, ampliando o número de mortes além do aceitável. Atualmente, mais de 80% dos atentados terroristas dos EUA são praticados pela extrema direita pela via do padrão dos “lobos solitários”. O modelo bannonista se aproveita das brechas da democracia, podendo até causar danos a ela, mas pelo fato de que as milícias virtuais não empregam a barbárie das forças paramilitares clássicas, muitas ameaças feitas não se convertem em danos reais. Mas causam instabilidade e danos indiretos.

Esse novo modelo de protofascismo, aliado a grupos neoliberais, age prioritariamente nas redes sociais. Seu caos informacional gera vítimas, como no caso da pandemia, e é até capaz de envolver uma nação em realidade paralela, mas possui suas limitações. Por exemplo, há uma vulnerabilidade que não pode ser superada, chegando a amplificar um dos problemas do fascismo original. O próprio ambiente virtual, menos violento, mas incentivado pelo anonimato, amplia o uso do sadismo, como se viu em testes feitos pelo psicólogo social e um grupo de estudo composto por Erin E. Buckels, Paul D. Trapnell e Delroy L. Paulhus, em que afirmam “pode-se dizer que trolls online são sádicos cotidianos prototípicos.”12 Para Paulhus, se o anonimato fosse eliminado, esse tipo de trolagem talvez caísse “90 por cento”. Esse é o tipo de perfil que compõe o padrão da trolagem online.

Com maior nível de riscos aceitos junto com a percepção de menor consequência (pelo uso de perfis falsos), o grau de riscos aceitos traz ainda mais rapidamente a impossibilidade de se reconhecer o “ponto de parada” mesmo em uma democracia. Isso talvez explique que a estratégia de Bannon, adotada por Trump, tenha causado prejuízos a sua candidatura a ponto de não ser reeleito, algo inesperado na história dos últimos presidentes dos Estados Unidos, à direita ou a esquerda.

No modelo de Paxton, isso seria o estágio E5 (radicalização ou entropia)? Possivelmente, mas em um âmbito menor, pois tratava-se de uma democracia. Notadamente, pode até ter ocorrido alguma passagem rápida pelos estágios E5 e E4, mas o líder permaneceu no estágio E3 (tomada do poder). Isso significaria que o discurso extremista chegou ao centro do poder (mas não os grupos), mas não o suficiente para disciplinar o sistema (que seria o estágio E4). E, pela via eleições, Trump perdeu e ainda deu vexame no final. Eram os riscos de se jogar o jogo.

O cenário brasileiro

No Brasil, o modelo bannonista também foi aplicado, mas agora com diferenciais significativos. Ao considerarmos os estágios de Paxton, grupos de seguidores de Olavo de Carvalho, os olavistas, viram alguns de seus adeptos chegarem até a ministérios, como Ernesto Araújo (Relações Exteriores) e Ricardo Vélez Rodriguez (Educação). Do mesmo modo que se via nos Estados Unidos, havia um ecossistema com: (1) perfis falsos organizados, (2) linchamentos virtuais, (3) mídia amadora, (4) manipulação artificial do debate. Porém, um quinto item fez a diferença: (5) comportamento sectário.

Lembre-se que a relação desses grupos se referencia por 5 deles. Para o olavismo, além do grupo G1 (coalizão interna), é possível visualizar os demais. Em G2 (coalizão útil), existem os olavistas úteis, mas não ao ponto de merecerem maior confiança; e os neoliberais, que dão aval ao discurso extremo. Em G3 (coalizão dispensável), estão os demais membros da coalizão, que podem ser expurgados conforme a conveniência. Em G4 (dissidentes), podemos visualizar um grupo como o MBL, que mesmo votando no líder (ou apoiando pautas do líder, como reforma da Previdência), passou a discordar dele publicamente. Já em G5 (oposição declarada), se encontra a esquerda em geral, a mídia, as instituições etc. Caso o líder considere o grupo mais extremo como sua linha de orientação, terá a mesma percepção sobre os demais grupos.

Diante desses novos jogos, o Brasil se surpreendeu ao ver, desde janeiro de 2019, a maioria dos linchamentos públicos ocorrer dentro da coalizão no poder e não contra adversários declarados, como nos casos do vice, general Hamilton Mourão; o ministro Gustavo Bebianno, Ricado Vélez Rodrigues e o general Santos Cruz, foram linchados entre outros. Depois dos linchamentos, Bebianno e Santos Cruz foram demitidos. Na alt-right isso também ocorre, mas em nível menor.

Na alt-right, há um ecossistema de diferentes grupos e doutrinas que devem convergir em diversos pontos básicos, mas não todos. No olavismo, não existe essa variação, tornando-se mais fácil uma unificação em torno de ideias, mesmo que os grupos estejam descentralizados. Conforme a teoria do seletorado, o que se via, especialmente nos primeiros seis meses de governo, era a substituição de membros moderados da coalizão por extremistas. Em novembro de 2019, o olavista Ricardo Alvim foi nomeado como secretário da Cultura. Era nítida a ampliação da taxa de extremismo na coalizão. Isso ainda não significava redução de base, mas ampliação de perfis dispostos a essa ruptura e diminuição dos perfis democráticos.

Não se sabe se há alguma conexão hierárquica entre Olavo de Carvalho e esses grupos, mas há claramente grupos olavistas dominando o debate extremo. Como fator adicional, Olavo e outros influenciadores extremos permanecem fora do Brasil, isentos de riscos. Se há grupos no Brasil, alguns deles usando milícias com perfis falsos, temos uma ampliação de riscos a serem aceitos sem expectativa de consequência. Não é surpresa que o nível de abuso tende a ser muito maior.

Isso se viu no comportamento até de ministros olavistas. Em 16 de janeiro de 2020, Roberto Alvim publicou um vídeo cujo discurso era um decalque de um feito pelo ministro da propaganda do nazismo, Joseph Goebbels. Não havia só discurso. Na estética, o vídeo adotava semelhanças com o nazismo, incluindo sua vestimenta. Considerada por Hitler como decisiva em sua vida, a ópera “Logengrin”, de Richard Wagner, tocava ao fundo. Da madrugada até o amanhecer do dia 17, o repúdio foi generalizado. Alvim disse que não havia “nada de errado com a frase”, mas a pressão veio de todos, e ele foi demitido no mesmo dia.

Meses depois, ocorreu a queda do mais estratégico ministro olavista no governo até então, Abraham Weintraub, do Ministério da Educação. Quando foi divulgado o conteúdo de uma reunião ministerial em 22 de abril de 2020, havia ali uma solicitação acima de qualquer justificativa. Alegando que “a gente tá perdendo a luta pela liberdade”, sugeriu: “por mim, botava esses vagabundos todos na cadeia. Começando no STF”. Dias depois, a Polícia Federal ouviu o ministro em seu escritório e o resultado foi o esperado: ele ficou em silêncio. Depois de sua queda, acabou adquirindo um cargo no Banco Mundial.

No olavismo, posições estratégicas conquistadas na cultura e educação foram perdidas por dificuldade em se calcular os limites de “parada”. Isso não significa que novos extremistas não possam ser adicionados, mas há mais riscos para a própria liderança em relação ao seu nível de controle. Em consequência, a ausência de hierarquia entre os grupos é útil quando existem avanços, por exemplo, como as ameaças ao STF, que geram danos aos membros, mas não à liderança. Mas essa utilidade (que facilita a dispensa de indesejáveis) vem junto com menor nível de controle.

Nunca se deve esquecer que a ausência de uma hierarquia formal dilui os riscos. Muito provavelmente não há um “gabinete do ódio” formal, sendo mais provável a existência de um núcleo de seleção/apoio/divulgação de grupos descentralizados, especialmente para evitar riscos. É claro que ações organizadas podem ocorrer, mas, em democracias, isso sempre amplia riscos. Caso alguns membros “saiam do tom”, podem ser descartados mais facilmente quando não estão em uma hierarquia formal.

No caso de Alvim e Weintraub tudo soava como “trolagem”. Os mais extremos nesse jogo de “trolagem” são aqueles definidos como “edgelords”, termo cunhado por Sarah Nyberg nas salas de IRC no início de 2000.13 O objetivo era tentar superar uns aos outros com discurso chocante. Se “saírem do tom”, podem ser descartados, como também se viu recentemente com o deputado Daniel Silveira, que lançou uma ameaça ao STF, sendo preso e ainda pediu desculpas diante do Congresso diante da requisição por ser mais específico.

Assim como todo grupo extremista, há estratégias de isolamento, participação espontânea e facilidade de descartar aqueles que tenham se tornado um empecilho. Enquanto isso, líderes podem testar limites de seu discurso abusivo. Porém, como a ação online gera menos risco de vida (embora riscos pessoais, em outros aspectos) do que as antigas ações paramilitares, pode ser ainda mais difícil saber o limite aceitável para o avanço.

Olhando para as 18 regras do jogo, a número 1 “normalização de abusos” é levada a graus absurdos, como requisição pela deposição do STF, xingamentos a repórteres, comportamento vulgar especialmente diante de mulheres etc. Na regra 2 “exploração de frustração”, é notório como exploram de forma distorcida a frustração e o medo das pessoas contra minorias que conseguiram emancipações, por exemplo. Pela regra 3 “elitismo de massa”, é fácil vê-los apregoar serem parte de uma “alta cultura”, enquanto promovem conhecimento vulgar.

Na regra 4 “doutrina de cativeiro”, nota-se como rejeitam padrões iluministas, priorizam hierarquias no padrão medieval. Com a regra 5 “submissão à autoridade”, vemos como o culto à personalidade chegou a estágios muitas vezes até ridículos. Mas é com a regra 6 “controle da pureza” que se nota como os expurgos ocorreram dentro da base sob camadas de linchamento público, com métodos de submissão humilhante e culto à confissão. Ou seja, ministros como Bebianno e Santos Cruz não foram chamados a uma reunião a portas fechadas para serem demitidos. Foram humilhados publicamente e, somente depois, demitidos. Esse é o cenário clássico de sistemas de plena submissão.

Na regra 7 “manipulação multinível”, campanhas artificiais de hashtag são levantadas enquanto os jogadores fingem ser tudo espontâneo e, mesmo quando se descobre a manipulação, não a reconhecem como não. É porque não podem. Na regra 8 “proselitismo enganoso”, é normal ver grupos de extremistas se unirem para enganar membros que não estão preparados para os jogos. Em termos de exploração emocional, a regra 9 “chantagem emocional” se vê na contínua tentativa de explorar indevidamente a emoção de incautos, geralmente com regras de duplo padrão. Na regra 10 “gaslighting”, inicialmente buscam fazer os adeptos se sentirem incapazes (se estiverem fora do grupo), mas, aos poucos eles aplicam os mesmos grupos naqueles que estão fora. Conforme a regra 11 “sistemas de significação”, eles dão base para a manutenção da doutrina do grupo. Mas isso inclui teorias da conspiração diversas, entre elas a tese da conspiração de que há um “marxismo cultural”.

Especificamente na capacidade C1 (irracionalidade sistemática), o uso da regra 12 “anti-intelectualismo” saiu do controle. Inclusive a perda do ministro Weintraub foi um ponto de grande derrota para o olavismo. Eles perderam alguém capaz de avançar o anti-intelectualismo como poucos. Na regra 13 – “realidade paralela”, a confecção de pós-verdade aumenta dia a dia, seguindo os mesmos padrões do que se via nos Estados Unidos. Em plena pandemia a junção dessas duas regras impulsionou a tragédia.

Na capacidade C2 (desconexão da moralidade), notava-se a regra 14 “identificação pelo inimigo”, usada especialmente na fase em que governadores e prefeitos foram nomeados como alvo, e, mesmo sem justificativa alguma, adeptos aceitavam qualquer explicação conveniente para a manutenção do ódio e da fobia, amparados pelas teorias da conspiração. Na regra 15 “disposição eliminacionista”, vários recursos foram usados para desumanizar oponentes e até adotar postura e desprezo às vítimas da pandemia. Um recurso aqui é o endosso a violências passadas, como elogiar ditadores do passado. É mais sutil do que elogiar ditadores atual, mas passa a mensagem aos extremistas.

Na capacidade C3 (comportamento antissocial), pela regra 16 “glorificação da violência”, se via o aumento de discurso requisitando, de forma explícita, a violência, inclusive contra o STF. Na regra 17 “ruptura social”, víamos até a ação de “edgelords” em ministérios. Mas em termos de evolução para atentados terroristas isso não chegou a níveis significativos.

De mais deprimente foi o avanço da regra 18 “abuso da dissonância cognitiva”, em que se usam recursos como comunicação ambígua, mensagens contraditórias, duplo vínculo e interrupção de padrões. Pode-se dizer que, em vez de planejamento contra a pandemia, se via o abuso da dissonância cognitiva. Como não havia plano nacional, a comunicação ambígua já era explorada. Afirmações eram lançadas de forma contraditória. Dado que não havia um plano e os jogos de dissonância eram feitos a todo momento, o duplo vínculo significava criar situações em que alguém poderia ser “culpado por ter feito o plano” como “culpado por não liberar as pessoas para o comércio”. Na interrupção de padrões, os abusos escalavam progressivamente. No Brasil, bem como nos Estados Unidos, isso fez com que lideranças tomassem a decisão pelo caos em plena pandemia.

Isso não é dizer que Jair Bolsonaro (bem como Donald Trump) seja fascista, mas sim que a ação de grupos extremistas nas redes incentivou o discurso cada vez mais anticivilizacional. Especialmente na questão da pandemia, como o comportamento antissocial foi muito maior (dado que até perfis fora do Brasil usavam discurso extremo), era natural que o caos informacional fosse impulsionado tanto quanto possível. Isso leva a uma situação em que o sistema, em si, provavelmente não tem mais como parar. Provavelmente, há muitas posições olavistas conquistadas. Sem a geração contínua de caos, não se sustentarão.

A história, então, se repete. Mas depois do bannonismo, não há mais o mesmo fascismo como nos formatos clássicos, mas grupos extremos nas redes jogando pelo protofascismo e, ainda por cima, auxiliados por grupos neoliberais que os ajudam nisso. Não conseguem converter sua produção de caos para o formato de milícias paramilitares, o que provavelmente já é tarde demais para fazer. Mas novamente o jogo é jogado da mesma forma, em novos contextos, agora com menos coragem (de novo: perfis falsos não ganham medalhas), mas não há nada de imprevisível nisso.

Qual o final do jogo?

Muitos questionam: como termina esse jogo? Infelizmente, as organizações caóticas são previsíveis, menos em um aspecto: seu término, pois o princípio diz que durante uma única vida organizacional ou entre duas organizações diferentes, ações semelhantes nunca devem levar ao mesmo resultado.

Aquilo que ocorreu com Trump é uma coisa, mas a forma de término do jogo no Brasil pode ser outra. Mais importante é saber prever se avançam ou não, e nisso são previsíveis. Há vulnerabilidades no novo jogo. O cálculo de riscos é ainda mais difícil para a liderança, pois a diluição de riscos em estruturas descentralizadas sob perfis falsos dificulta cálculos de “ponto de parada”. Isso explica a perda de duas posições estratégicas pela extrema direita (Alvim e Weintraub), além de outras figuras que tiveram que ser dispensadas. Para opositores é oportunidade de “ajudá-los” a encontrar a entropia mais rapidamente. Conhecer seus métodos e não se espantar com eles também já ajuda bastante.

Considerando os 5 grupos em torno desses jogadores, o de maior poder de reação é G5 (oposição declarada), que pode incluir centristas, esquerdistas, a mídia e representantes das instituições. O grupo G5 é o único que não tem compromisso qualquer, pois não votou no governo. Já os grupos G3 (coalizão dispensável) e G4 (dissidentes) possuem alguma forma de compromisso por terem pelo menos eleito o governo.

Isso se nota no fato de que foi do grupo G5 que vieram as principais reações, como aquelas da jornalista Patrícia Campos Mello, de Felipe Neto e o grupo Sleeping Giants. Já nos grupos G3 e G4 há bastante tolerância aos abusos, além da confiança exagerada na “economia de atenção”. Por exemplo, se há um ataque ao indivíduo ou a alguém de seu grupo, mas há ampliação de atenção, isso não é visto como um problema. Essa confusão é útil para os grupos mais extremos. Por isso, a quebra da “economia de atenção” é essencial para o grupo G5, mas é o oposto para os grupos G3 e G4. Quais as consequências se isso for normalizado?

Grupos dissidentes, que seriam uma “alternativa à esquerda”, mas não alinhados, podem acabar se tornando mais extremistas e contraditórios, dificultando o posicionamento da oposição de fato ao governo. Assim, esses grupos podem buscar falsas equivalências para justificar abusos aceitos na “economia de atenção”, o que deve ser visto com cuidado pela oposição, que acabaria renunciando a alguns de seus valores. Logo, é preciso tomar cuidado com as supostas posições de “centro”.

Por que isso acontece? Porque na história do fascismo um grupo que exige tal nível de submissão não está em par de comparação com grupos que discutem publicamente seus critérios, ideias e aceitam autocrítica. A tendência é que o “centrismo” se torne contraditório e busque se adaptar ao grupo mais extremo. Para os grupos em G5 (oposição declarada), isso abre um leque de possibilidades para posicionamento político, mas isso requer ações em grupo, não de conciliação forçada de ideias, mas de convergência na oposição às tentativas de normalização de abusos da extrema direita. Se for preciso quebrar a “economia de atenção” – com estratégias de bloqueio em massa −, que assim seja. Isso geraria uma consequência adversa à liderança: aumento da autofagia interna, especialmente pelo sectarismo.

É onde começariam a ser definidas as estratégias de reação organizada para levar a extrema direita ao processo de entropia (mesmo que seja em menor escala), semelhante ao que passou Trump, que perdeu apoio entre republicanos importantes e motivou uma unificação surpreendente dos setores progressistas, perdendo não apenas a reeleição, como causou danos à estratégia da extrema direita nos EUA. Isso talvez ocorra porque esse fascismo distribuído é um “modelo sob teste”, que dificulta ainda mais o cálculo do nível de ruptura aceitável. O ponto certo de entropia? Estamos por descobrir. Mas formas de combater o jogo já podem ser plenamente estudadas e combatidas. Conhecer como pensam e suas estratégias é o começo do planejamento de reações efetivas. Esse foi o objetivo de ter decifrado o bannonismo, aplicado nos EUA e no Brasil, nestas páginas.

 

peterjohanncoutinho09@gmail.com

 

NOTAS DE RODAPÉ

  1. Livro: Fascismo Eterno, de Umberto Eco.
  2. Livro: The Conceptual Representation and measurement of Psychological forces, de Kurt Lewin.
  3. Livro: A Dynamic Theory of Personality, de Kurt Lewin.
  4. Livro: Field Theory in Social Science, de Kurt Lewin.
  5. Livro: The Logic of Political Survival, de Bruce Bueno de Mesquita, Alistair Smith, Randolph Siverson e James B. Morrow.
  6. Artigo: “Deterministic non-periodic flow”, de Edward Lorenz (1963). Journal of the Atmospheric Sciences. 20 (2): 130–141.
  7. Artigo: “Chaos Theory and Organization”, por R.A. Thétart e B. Forgues, em Organization Science, Vol. 5, No.1, Focused issue: European Perspective on Organization Theory (Jan-Feb 1995), pp. 19-31.
  8. Texto: “Gamergate and the new horde of digital saboteurs”, por Fruzsina Eordogh. The Christian Science Monitor.
  9. Texto: “Feminist media critic calls for boycott of Utah Campuses”, pr Eric Alberty para o The Salt Lake Tribune
  10. Texto: “1488 is the Gateway Drug to Alt-Right not the Other Way Around”, por Colin Liddell em Counter-Currents.
  11. Texto: “The Making of an American Nazi”, de Luke O’Brien. The Atlantic.
  12. Artigo: “Behavioral Confirmation of Everyday Sadism”, de Erin E. Buckels, Daniel N. Jones e Delroy L Paulhus. University of British Columbia e University of Texas at El Paso. Link: https://www2.psych.ubc.ca/~dpaulhus/research/DARK_TRIAD/ARTICLES/PS.2013.Buckels-Jones-Paulhus.pdf
  13. Texto: “I´m Sarah Nyberg, and I Was a Teenage Edgelord”, por Sarah Nyberg. Link: https://medium.com/@srhbutts/i-m-sarah-nyberg-and-i-was-a-teenage-edgelord-b8a460b27e10

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