Desamparo e impotência – Homem, a quintessência do pó

Desamparo e impotência – Homem, a quintessência do pó

Marcia Neder, Psicanalista

 

“Ultimamente — não sei por que — perdi toda a alegria, desprezei todo o hábito dos exercícios, e, realmente, tudo pesa tanto na minha disposição que este grande cenário, a terra, me parece agora um promontório estéril; este magnífico dossel, o ar, vejam, este belo e flutuante firmamento, este teto majestoso, ornado de ouro e flama — não me parece mais que uma repulsiva e pestilenta congregação de vapores. Que obra de arte é o homem, como é nobre na razão, como é infinito em faculdades e, na forma e no movimento, como é expressivo e admirável, na ação é como um anjo, em inteligência, como um deus: a beleza do mundo, o paradigma dos animais. E, no entanto, para mim, o que é essa quintessência do pó?”

“Hamlet”

Os Náufragos da Rua da Providência

“Se o filme que vão ver parece-lhes enigmático ou incongruente, a vida também o é. Ele é repetitivo como a vida e, tal qual a vida, sujeito a mil interpretações. O autor declara que não quis utilizar símbolos, pelo menos inconscientemente. Talvez a melhor explicação para El Angel Exterminador seja que, racionalmente, ele não tem nenhuma.”

Insight Inteligência - artigos e ensaios fora da curva

Luis Buñuel

Luis Buñuel escreveu essa advertência ao público a pedido do primeiro cinema que exibiu “O Anjo Exterminador” em Paris. Ele voltou ao tema da interpretação em outras ocasiões, como aquela em que comentou a presença do urso e do rebanho de ovelhas em algumas cenas − uma referência a uma anfitriã em Nova York que tinha por hábito surpreender e divertir os convidados. Em uma dessas ocasiões, um jantar em que o diretor estava presente, ela trouxe esses animais repentinamente à sala. Nós nunca saberemos qual era a ideia dela, escreveu Buñuel em “Meu último suspiro”, “o que não impediu alguns críticos fanáticos por simbolismos de ver no urso o bolchevismo espreitando a sociedade capitalista paralisada por suas contradições”.

Para ele, seu filme é sobre um grupo de pessoas que numa noite vão jantar na casa de uma delas depois de assistir a um espetáculo teatral. Após a refeição, o grupo vai para o salão e, diz ele, “por uma razão inexplicável, não consegue mais sair dali”. “Razão inexplicável”, mistério que fisga o espectador e atrai muitas interpretações e explicações.

Em outra ocasião o diretor afirmou que “O Anjo Exterminador” nada mais era que um grupo de pessoas que não consegue fazer o que tem vontade – sair de uma sala. Uma impossibilidade inexplicável de satisfazer um desejo simples. “Isso acontece muito nos meus filmes”: em cada um deles há um desejo insatisfeito. Enfim e para completar, ele diz que essa impossibilidade de fazer o que se tem vontade, de satisfazer um desejo simples é seu tema favorito.

Neste Brasil pandêmico, quem somos nós confinados em casa (os que podem) e nos hospitais, no caso dos profissionais de saúde? O impacto do coronavírus na nossa vida psíquica, em especial o isolamento social sob o qual passamos a viver, teria algo em comum com aquele provocado nos personagens de Buñuel que não conseguem sair de uma sala, embora não estejam impedidos por qualquer proibição física, moral ou sanitária?

A resposta é sim, o que me levou a explorar neste artigo algumas questões que o filme me colocava. Desde o início da pandemia, flashes de “O Anjo Exterminador” apontavam um caminho que resolvi explorar aqui.

O vírus ocupou toda a humanidade ao mesmo tempo. Em escala planetária, mas aqui importam muito as nossas peculiaridades − que vão da extrema desigualdade social às seríssimas e diárias crises políticas que incidem diretamente na nossa saúde mental.

Não é preciso retomar esses dados, acessíveis a qualquer consulta rápida na internet, para afirmar o aumento e agravamento de perturbações e quadros de todo o espectro depressivo, incluído os casos de suicídio, que a pandemia, sozinha, teria sido suficiente para desencadear. No estágio atual em que nos encontramos, início de 2021, ela segue seu curso descontrolado, com aumentos estratosféricos e crescentes de mortos que não comovem o poder central, inabalável em sua reação “negacionista”.

Nós, profissionais de saúde que acompanhamos vidas, histórias pessoais ao longo de anos ou subitamente nas emergências da crise, lutamos diariamente buscando resistir ao drama individual dos pacientes, dos seus familiares, dos colegas. Não é preciso estar na linha de frente dessa guerra para ser alvejado por seus mísseis. Em todos os cantos do país, e mesmo fora, já que migramos para o mundo digital com atendimentos remotos, nós, psicanalistas, psicólogos, psiquiatras, terapeutas e todos os que vivemos a catástrofe, também lutamos para não soçobrar psiquicamente. Terapeutas e pacientes, estamos na mesma cena compartilhando sentimentos e sensações − experiência inacessível aos não dotados da capacidade de empatia.

Talvez possamos nos ver através do filme de Buñuel, com seus personagens confinados em uma sala. Que impacto psíquico provoca sobre eles e como lidam com a impossibilidade de sair dali? Como reagem às forças que imobilizam seus atos, seus pensamentos, aprisionando-os naquela sala? Por que não conseguem sair e como, finalmente, conseguem se libertar? Por que inicialmente sequer são capazes de notar a bizarrice do seu comportamento e esperam?

No teatro do absurdo de Samuel Beckett, Estragon e Vladimir pelo menos sabiam que estavam… esperando Godot. Mesmo não sabendo quem era Godot e sequer se ele existia, esse homem era para eles o sentido de seus atos – ou da sua paralisia. “O que estamos fazendo aqui, essa é a questão. Foi-nos dada uma oportunidade de descobrir. Sim, dentro desta imensa confusão, apenas uma coisa está clara: estamos esperando que Godot venha…”

Os personagens de Buñuel, por que e o que esperavam?

Mistério, charada, enigma: alguns psicanalistas, com os quais estou de acordo, situam o analista no lugar da “Esfinge”, deslocando-o daquela posição popular do onisciente decifrador de enigmas (“Freud explica”).

Buñuel e os surrealistas não são psicanalistas, mas a inspiração que encontraram na obra de Freud foi além da associação livre no método que chamaram de “o jogo do cadáver delicioso”. Um jogo no qual cada participante escrevia uma palavra em um papel, dobrava-o sem mostrá-la aos demais e em seguida o outro fazia o mesmo até que todos tivessem escrito a sua palavra. Depois, cada um abria o seu papel para, juntos, observarem o resultado. A primeira vez que jogaram a frase resultante foi: “o cadáver delicioso beberá o vinho novo”. Veio daí o nome do jogo, que tomavam como ponto de partida para sua criação artística.

Com esses feitiços do inconsciente os magos surrealistas criaram o mundo surreal. André Breton emprestou a livre associação de Freud para a sua “escrita automática”, um método que consistia em escrever tudo o que lhe passasse pela cabeça sem pensar, à margem do controle da razão. Dessa maneira o artista torna-se um demiurgo, criador de uma surrealidade, de uma realidade tecida com os fios do infantil e do onírico.

Volto ao filme de Buñuel, de 1962, com o método psicanalítico, que inclui os movimentos contratransferenciais do analista, o analista faz parte do campo do objeto. Além da sensação de sufocamento, opressão e desejo de liberdade mais ou menos óbvios que o filme provocava em mim, minha atenção se voltou para uma espécie de inquietação com a paralisia daqueles personagens imobilizados numa impotência que em alguns sentidos era também a minha, a nossa. Em psicanálise essa sensação tem nome, endereço e certidão de nascimento.

A impotência, a angústia do desamparo que ouvimos nesse lamento de Hamlet – “E, no entanto, para mim, o que é essa quintessência do pó?” − se entrelaçam com outros tantos conceitos psicanalíticos apontando para um ataque ao nosso narcisismo e suas consequências. “Narcisismo” que em psicanálise é mais complexo do que egoísmo ou individualismo e é, para Renato Mezan, “a marca distintiva do século XX, tanto em sua vertente megalomaníaca, autoerótica, quanto nas defesas narcísicas erigidas contra a sensação de estilhaçamento e fragmentação tão característica da psique contemporânea”, escreveu ele em “A interpretação dos sonhos: origem e contexto” (in “Interfaces da Psicanálise”, p. 29).

Originariamente “O Anjo Exterminador” se chamava “Os náufragos da rua da Providência”. “Um hábito surrealista relativo ao título”, diz Buñuel, consiste “em descobrir uma palavra ou grupo de palavras inesperadas que deem uma visão nova de um quadro ou de um livro”. O quadro não citado era “A Jangada da Medusa” (ou “Balsa da Medusa”) de Théodore Géricault, que está no Louvre. Como os “Náufragos da rua da Providência”, o quadro remete a um confinamento: homens confinados em um espaço aberto vagando à deriva em meio ao oceano.

Mas o diretor se lembrou do que um amigo lhe contara um ano antes e acabou mudando o título: o amigo “faria uma peça de teatro que ele queria intitular “O anjo exterminador”. Achei o título magnífico e disse: Se vejo isso num cartaz, entro imediatamente no teatro”. Decidido a saber se fora usado escreveu para o amigo que respondeu que não, não escrevera a peça “e que, de toda forma, o título não lhe pertencia, que constava do Apocalipse. Eu podia pegá-lo sem nenhum problema. Foi o que fiz, agradecendo”.

O filme começa com a câmera parada em uma igreja de onde ouvimos um coro. Seguem-se os créditos, o título do filme e, em seguida, o aviso que apresenta o nome original “Los náufragos de la calle de la Providencia”. A câmera nos leva por essa rua, que é a rua da mansão que será palco da história.

Um jantar de gala será servido para um grupo de convidados na saída de uma apresentação de ópera. Dois empregados no portão avisam ao mordomo que estão saindo e no dia seguinte voltarão. O mordomo se irrita, afinal há um jantar para ser servido. Os dois inventam um motivo qualquer e vão embora. Depois outros empregados, e mais outros, sucessivamente, vão deixando a casa.

Em outra sequência o grupo de convidados se dirige à mansão. Os anfitriões estão com eles. Edmundo, o dono da casa, toma a frente para entregar os casacos ao mordomo e surpreende-se por sua ausência na porta para recebê-los: “Lucas… Que estranho, Lucas não está aqui”.

Bem, deve estar lá em cima. O grupo sobe a escada. Para nosso espanto a cena da entrada se repete sem qualquer explicação ou conexão. Essa dissociação aumenta o estranhamento que o comportamento bizarro dos empregados já começara a provocar, bem como as cenas da entrada do grupo.

Há uma sequência que é parte dessa cena e que Buñuel comentará em suas memórias, “Meu Último Suspiro”. “Na vida como nos meus filmes”, ele diz, “sempre me senti atraído pelas coisas que se repetem”. “Não sei por que e não tento explicá-lo. Há pelo menos uma dezena de repetições em “El Ángel Exterminador”. Por exemplo, continua ele, dois homens se apresentam dizendo um ao outro “prazer”. A cena se repete em seguida: os dois homens novamente se cruzam e se apresentam como se não se conhecessem. E ainda uma terceira vez eles se encontram, se cumprimentam de modo caloroso, como dois amigos de longa data. Como ele escreveu na advertência ao público, o filme é enigmático e repetitivo como a vida e, como ela, sujeito a mil interpretações.

Na cozinha um dos empregados comunica que o caviar deve ser servido depois do prato principal. Durante o jantar, Edmundo levanta-se para fazer um brinde a Silvia por sua apresentação na ópera. E a mesma cena se repete sem que qualquer personagem esboce espanto, estranheza, curiosidade.

Terminado o jantar vão todos se sentar na sala contígua onde há um piano; eles tocam, cantam, conversam. Trocam discretas farpas de inveja e rivalidade. Quando começam a dar sinais de cansaço, alguns esboçam movimentos de saída que em seguida são abortados. Recostam-se por ali mesmo até que o dia amanhece.

Nesse momento, Edmundo comenta com a mulher que não sabe o que está acontecendo. Lucia responde que devem servir o café da manhã e que depois disso os convidados irão embora. Mas não haverá café da manhã para servir. Outros agora entreolham-se e se perguntam por que não foram embora. Começam a se dar conta de que desde a noite anterior ninguém consegue sair daquela sala. Não reagem, não fazem nada para mudar a situação. Apenas esperam. Resignados a sua impotência, só lhes parece estranho que ninguém tenha aparecido para “salvá-los”.

Só depois um deles observa: “É isto o que me preocupa. À noite depois da festa ninguém tentou ir embora. Por quê? Acha normal que tenhamos dormido nessa sala violando os princípios de nossas boas maneiras? Transformamos essa sala em um retiro cigano”. Diferentes respostas surgem e alguns reclamam do absurdo da situação, decididos a ir embora.

Do lado de fora o comandante comenta que a brigada enviada não entrou na casa e, o mais surpreendente, diz ele, é que sequer tentou entrar.

O tempo vai passando e, à medida que permanecem confinados, seu comportamento vai se despojando da cortesia civilizada. No lugar daquelas elegantes personagens surgem selvagens lutando individualmente por sua sobrevivência que o outro parece ameaçar. Um deles chama sua atenção: “Cavalheiros, lembrem-se de quem são e de como foram educados”.

Famintos, cansados, com sede, eles arrebentam uma parede da sala até que conseguem atingir o cano de onde a água jorra e há um empurra-empurra para sorvê-la vorazmente, para lavar o rosto, para se molhar. Os dias passam e eles encontram o bode expiatório: o culpado por sua situação só poderia ser o anfitrião, que acusam: “Matem-no. Acabem com ele”. Um dos convidados tenta impedir: “Pensem antes nas consequências terríveis de suas ações. Este ato cruel será só o começo. Não será o único. Será o fim da dignidade humana. Nada restará, além de animais selvagens”.

A agressividade dos comensais segue livre, escoando sem barreiras. Uns se pegam com facas e pancadaria, outros resolvem matar o dono da casa. Este caminha até o lugar em que está uma arma e diz que não há necessidade: “Não precisam brigar, terão o que querem”.

Desesperados, alguns fazem promessas apelando à providência divina: “Só um milagre pode nos tirar daqui. Por que não organizamos um rosário?” Lucia diz: “Edmundo e eu prometemos de coração organizar uma missa solene se a providência divina nos ajudar a sair dessa situação”.

Nesse momento Letícia, uma das convidadas, nota que os móveis e as pessoas estão na posição exata em que estavam na noite em que tudo começou. Pede para o grupo repetir toda a cena do outro dia, cada um devendo fazer um esforço de memória para se lembrar exatamente o que estavam fazendo. Imediatamente o grupo se reúne reproduzindo a cena e então começa a se dirigir para a porta.

Reaparecerão na missa encomendada pelos anfitriões para agradecer a providência divina que os salvou do confinamento. Quando a missa termina, os três padres que a rezaram dirigem-se para uma das portas laterais. Mas bruscamente se detêm, algo os impede de sair. Eles se olham e um deles diz ser melhor esperar que os fiéis saiam. A câmera mostra que os fiéis também estão parados nas portas.

Do lado de fora da igreja ouvimos o som de armas disparadas e vemos soldados correndo em direção a uma multidão que, ao que parece, é uma multidão de rebelados. Na última cena, um pequeno rebanho de ovelhas sobe lentamente a escadaria da igreja.

A Jangada da Medusa

“A jangada levou os sobreviventes ao limite da experiência humana. Delirantes, mortos de sede e fome, sacrificaram aqueles que se amotinavam, comeram os seus companheiros mortos e mataram os mais fracos”

Jonathan Miles sobre a fragata real francesa Medusa”

O quadro de Géricault registrou o naufrágio da fragata francesa chamada “Medusa”, em 1816. Os náufragos improvisaram uma jangada com os restos do navio nessa que foi uma “verdadeira tragédia no mar”, na qual homens desesperados, sobreviventes do naufrágio, confinados nesse espaço aberto vagam à deriva pelo oceano agarrados à balsa. Durante 13 dias eles vivem uma guerra fratricida pela sobrevivência nessa “balsa da sorte e do horror” chegando ao canibalismo. Lutam a lei do mais forte e, dos 150 homens a ela agarrados, apenas algo em torno de 10 a 15 sobreviveram.

Não sei se Buñuel fez alguma referência direta ao enorme quadro de Théodore Géricault (1718-1819), mas posteriormente ele falaria de sua dificuldade para ir tão longe com a sua história quanto gostaria e que se fosse fazer o filme novamente “deixaria os personagens presos um mês até que eles praticassem o canibalismo”.

Para Freud somos movidos pela sexualidade e agressividade: as pulsões eróticas e agressivas são o que impulsiona a psique humana, duas forças básicas que, se escoassem livres e soltas impediriam nossa vida em sociedade. Daí as defesas que se levantam em nós buscando moderá-las, canalizá-las para outras atividades já que dependemos de outro ser humano desde que nascemos. Se as liberássemos em seu estado bruto, afastaríamos esse outro ameaçando a nossa própria existência, já que, seres precários que somos ao nascer, sem o outro não sobreviveríamos. “Sua majestade, o bebê”, centro do mundo em suas fantasias narcísicas de onipotência e grandeza, compensará com suas fantasias inconscientes a impotência do desamparo e a inviabilidade da existência sem o outro. Fantasias que, crescendo, reencontraremos à noite em nossos sonhos, nos sintomas e em situações corriqueiras ou traumáticas que abalem nosso narcisismo. Em outros termos, nada na vida psíquica inconsciente se destrói com o tempo.

Ou aprendemos a criar nossos próprios recursos, nossas defesas, para maneirar o ímpeto desses impulsos que emergem com força do nosso interior prejudicando a existência do outro, ou seremos Robinson em nossas ilhas. Uma criança que sai mordendo todo mundo é um exemplar corriqueiro no ambiente escolar: ou aprende a dar outro destino a seus impulsos agressivos e eróticos que moderem sua fúria (sim, do beijo à mordida há uma questão de intensidade) ou será marginalizada do convívio com os amiguinhos. Soltas, sem peias, nossas pulsões nos transformam em náufragos à deriva da angústia que nos ameaça de dentro, provocando um estrago em nossa sociabilidade.

O “desamparo original” leva Freud a entender que a civilização surge da renúncia que fazemos a uma parcela de nossas pulsões. A vida com os outros, a vida em sociedade, exige de cada um de nós tal renúncia: não podemos fazer o que nos dá na telha, a menos que estejamos dispostos a pagar a fatura quando chegar. O mal-estar na cultura é o preço que pagamos para nos tornarmos seres humanos, seres da cultura. “Cavalheiros, lembrem-se de quem são e de como foram educados”, diz o personagem de Buñuel. “Pensem antes nas consequências terríveis de suas ações. Este ato cruel será só o começo. Não será o único. Será o fim da dignidade humana. Nada restará, além de animais selvagens”.

A convivência íntima derrubou os diques de sua educação, diques capazes de conter a fúria represada das pulsões. Destruídas as barreiras da civilização, emerge sem controle e com seu próprio ímpeto a nossa natureza pulsional erótica e agressiva.

Numa das lembranças que narra em “Meu Último Suspiro”, Buñuel chama a atenção do leitor para essa fúria agressiva que surgiu nele à revelia de sua vontade no período que estava no serviço militar em Madri e não encontrava quartos vagos. Juan Ceteno, irmão de um grande amigo, ofereceu-se para dividir com ele o quarto que ocupava e nele acrescentaram uma cama. Estudante de medicina, Juan saía cedo pela manhã:

“Antes de sair, penteava-se demoradamente diante do espelho, mas parando no cocuruto, deixando em desordem e abandonados os cabelos que não via atrás da cabeça. Depois de duas ou três semanas desse procedimento absurdo repetido diariamente, acabei por odiá-lo, apesar do favor que lhe devia. Ódio inexplicável, oriundo de um desvio obscuro do inconsciente, lembrado numa rápida cena de ‘O anjo exterminador’”.

“Amar ao próximo como a si mesmo” é um mandamento antinatural, diz Renato Mezan, lembrando Freud em “O Mal-Estar na Cultura”: natural é a agressividade inerente à natureza humana. Aí Freud (traduzido e citado por Mezan em “Sociedade, Cultura, Psicanálise”) escreve:

 

“O fragmento de realidade atrás disso tudo (que preferimos negar) é que o ser humano não é uma criatura terna e necessitada de amor, que quando muito se limitaria a defender-se caso atacado, mas que entre suas disposições pulsionais deve-se contar uma poderosa dose de agressividade. Por conseguinte, o próximo não é para ele somente um possível auxiliar e objeto sexual, mas também uma tentação para satisfazer sobre ele a sua agressividade, explorar sua força de trabalho sem retribuição, usá-lo sexualmente sem seu consentimento, apropriar-se dos seus bens, humilhá-lo, causar-lhe sofrimento, martirizá-lo e matá-lo. Homo homini lúpus”.

 

A metáfora do anjo do “extermínio” – que soou “magnífica” a Buñuel – era usada para a peste negra do século XIV e para a epidemia do cólera no século XIX, associando a doença com um castigo divino.

Os símbolos religiosos que abundam em “O Anjo Exterminador” levaram muitos a ver a obra como uma crítica à religião. Do título à cena final com a Igreja, passando pela abertura e o cenário com imagens religiosas e outras referências, tudo estaria em cena para manifestar uma moral repressora, uma consciência culpada e pecadora e sua consequente punição.

Entretanto, é possível olhar para essas referências religiosas por outras vias. O cordeiro é um símbolo cristão do sacrifício, do que é morto para salvar a vida dos outros, para expiar o que foi profanado, maculado, ofendido. No filme, cordeiros passeiam pela mansão e acabam atacados e devorados pelos famintos confinados. Mas o cordeiro é também a imagem do ser dócil, manso, como usamos comumente em nossa língua: “fulano chegou manso como um cordeiro”, por exemplo.

Como não notar aquela atitude dos confinados que se limitam a esperar? Esperam, rezam, entregam suas vidas e seu destino nas mãos do salvador e da Virgem a quem dedicam suas preces. Para Freud, a religião oferece um consolo à dureza da vida. Não é fácil viver, e o desamparo da criança é a raiz do pensamento religioso. A religião nos oferece a ilusão de um Pai protetor que nos ama e cuida de todos nós; ele é quem vai nos ajudar a viver sob as ameaças da Natureza, do desespero da vida, das situações sem saída, das injustiças sociais e políticas.

Quando os convidados alcançam o limiar – aberto, liberado − da sala, recuam. Não insistem, não lutam por sua liberdade. Aliás, não seria o caso de perguntar se eles efetivamente a desejam, se desejam ser livres, uma vez que entregam seu destino a outrem, à providência divina? O recurso aos céus, ao salvador – seja ele quem for – é uma defesa contra a angústia do desamparo original e manifesta um desejo de servidão. Trocamos a insegurança de falar em nome próprio pela servidão a um grupo ou a uma divindade, a uma autoridade, a um líder. A liberdade individual é ameaçadora. É como servos, dóceis, carneiros que os comensais permanecem na mansão.

O Anjo Exterminador é uma figura do Velho Testamento e, conforme o Apocalipse, volta e meia vem à Terra como um flagelo devastador para extirpar o mal e nos castigar por nossos pecados. Sua presença na cena desde o título do filme também poderia indicar a culpabilidade paralisante daquelas pessoas, incapazes por isso de transpor os limites que sequer buscam entender. A figura ameaçadora que Buñuel tanto fez questão de usar como título de seu filme encarna esse ser que extermina a humanidade pecadora por ordem de Deus.

Tudo no filme aponta para a impotência dos personagens que o diretor ressaltou, em seus próprios termos, ao dizer que seu filme é, como sempre, sobre a impossibilidade inexplicável de satisfazer um desejo simples. Ou, como disse em outra ocasião, uma impossibilidade de realizar a própria vontade. Não poder realizar um desejo simples ou impotência para transpor o limite é o que se atribui às proibições da religião que pune com o castigo e o sofrimento, da culpa ou outro, todo aquele que transgride.

Mas há uma outra referência importante no filme que não pertence ao território religioso. A Medusa é uma palavra que em sua origem grega significa “guardiã”, “protetora”, e na mitologia é o monstro feminino ameaçador. Curiosamente, é um monstro ameaçador precisamente por seu poder de paralisar: quem olha para ela é imediatamente transformado em pedra.

A mitologia, o imaginário cultural, não é indiferente à essa ambiguidade, pois assim ameaçadora e fatal, a cabeça da Medusa era usada como medalha ou amuleto para proteger, para afugentar o mal. Perseu, o herói que a venceu cortando a sua cabeça com a ajuda de Palas Atena inscreveu em seu escudo a imagem da Górgona. Depois presenteou a deusa, que também a colocou em seu escudo.

A importância da cabeça da Medusa na psicanálise extrapola os limites deste artigo. Limito-me a registrar que Freud a vê como a imagem da castração associada na criança à descoberta e negação do sexo materno: “O terror à Medusa é um terror à castração relacionado à visão de algo. (…) Várias análises nos familiarizaram com as circunstâncias nas quais isto ocorre: quando o menino, que até então resistiu a acreditar na ameaça de castração, vê os genitais femininos…” (Freud, “A cabeça da Medusa”).

A paralisia, a impotência dos confinados que é a nossa como também a dos náufragos da rua da Providência e dos náufragos da “Jangada da Medusa” evoca a outra, originária, que marca a condição humana por sua dependência absoluta em relação à mãe ou a um adulto em seu nascimento. O “estado de desamparo” nos lança na vida como seres dependentes do outro. É assim, esperando por alguém que venha nos salvar, que fazemos nossa estreia na vida. Nascidos e criados, podemos ser devolvidos a essas angústias, a essa “quintessência do pó” de que Hamlet se faz porta-voz. Situações traumáticas podem nos devolver às angústias das nossas origens, ao desamparo do qual tanto nos esforçamos para nos livrar.

“Não sou nada. Nunca serei nada”

E que Fernando Pessoa (“Poesias de Álvaro de Campos”) ecoa em “Tabacaria”: “Não sou nada. Nunca serei nada” e adiante: “Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta”.

“Isso dito, o isolamento acarreta, sim, uma sensação de impotência que é perfeitamente real, que nós não podemos combater sozinhos o coronavírus”, disse Renato Mezan em sua live, em maio de 2020. “Pode ser que pessoas próximas de nós, como já aconteceu com várias pessoas que estão nos ouvindo … pessoas próximas, amigas, familiares, serão atingidos, alguns morrerão; é isso que está acontecendo. Então essa situação produz mais do que a sensação, uma convicção, uma percepção de que nós somos pequenos, como nós somos frágeis. É um ponto sobre o qual Freud não deixa de insistir quando ele fala da potência da natureza e de como nós somos pequenos, impotentes, diante de uma avalanche, de um tsunami etc.; grandes fenômenos da natureza, furacões, tempestades, inundações e coisas dessa ordem que nos mostram a nossa pequenez e ofendem profundamente o nosso narcisismo, o nosso amor-próprio, a nossa vaidade e a nossa convicção de sermos o topo da natureza”.

Isso posto, o psicanalista se pergunta sobre as consequências: “Então o que vai acontecer com isso? Quando o narcisismo é ferido, a autoimagem esvazia, desincha. O resultado são sensações do espectro depressivo: tristeza, aborrecimento, às vezes depressão, às vezes melancolia (…)”.

Entre março e abril de 2020, início da pandemia e da quarentena, um estudo realizado pela UERJ e publicado pela revista The Lancet relatava um aumento de 90% de casos de depressão. Um ano já se passou, dados preliminares apontam para uma grande preocupação com a saúde mental dos profissionais de saúde envolvidos direta e indiretamente, com aumento de depressão, suicídio, crises de ansiedade.

No século XXI, o Anjo Exterminador volta espalhando o coronavírus por toda a humanidade. Subitamente nos confronta com a nossa pequenez, nossa insignificância. Escancara nossa vulnerabilidade aos nossos olhos e fere de morte nosso narcisismo. “Nós, pobres joguetes da natureza, precisamos contemplar nosso ser tão horrivelmente agitado com pensamentos além do alcance de nossas almas? Dize-me: para que tudo isto? A que fim obedece? Que deveríamos fazer?” (“Hamlet”).

Podemos negar a realidade. As consequências da negação dependem da posição que ocupamos na hierarquia do poder decisório e político da vida social. A negação da realidade ameaça a comunidade e desafia sua saúde mental com um arsenal inesgotável de comportamento ansiogênico. E nesse momento tudo o que menos precisamos é de mais ansiedade.

Outra maneira de nos protegermos da angústia do desamparo, do ataque ao nosso narcisismo é projetar no céu a figura idealizada do pai protetor; para Freud o substituto da mãe terna e acolhedora das origens que satisfaz a fome do bebê e se torna o seu primeiro objeto de amor e fonte de proteção como ele explica em “O Futuro de Uma Ilusão”:

“Quando, então, a pessoa em crescimento percebe que está destinada a ser sempre uma criança, que jamais pode prescindir da proteção contra as forças superiores desconhecidas, ele atribui a elas os traços da figura paterna, cria para si os deuses, que teme e que procura conquistar, e aos quais, no entanto, confia a sua proteção. É assim que o motivo do anseio pelo pai é idêntico à necessidade de proteção contra as consequências da impotência humana; a defesa contra o desamparo infantil empresta à reação contra o desamparo – que o adulto tem, necessariamente, de reconhecer como sendo justamente a formação da religião – seus traços característicos” (Freud in “O Futuro de Uma Ilusão”, p. 206-207).

Essa defesa implica a renúncia à liberdade, ou o desejo de servidão a um messias salvador. Esta é a fonte do poder de um líder, o nosso desejo de salvação, de proteção do desamparo que os náufragos da rua da Providência figuram. Eles sequer tentam sair sozinhos, à espera de alguém que os venha salvar em nome da providência divina. Quando o fizeram conseguiram sair.

“Vem, vamos embora, que esperar não é saber / Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”, diz a famosa canção, hino de uma geração (Geraldo Vandré, “Pra não dizer que não falei das flores”). Foi o que fez uma enfermeira no Brasil de 2021, quando acabou o oxigênio na região Norte do país.

No dia 12 de fevereiro de 2021 circulou na internet a imagem de uma enfermeira empurrando uma maca com uma paciente e seu cilindro de oxigênio pela estrada de terra (e barro, pois a época é de chuva) na Transamazônica, no Pará por causa de um bloqueio de caminhões. Impedidos de seguir o seu caminho e temendo que no congestionamento viesse a faltar o oxigênio quando toda a região vivia o pesadelo da falta desse elemento vital para a população, a enfermeira desceu da ambulância que transferia a paciente e, com o motorista, seguiram a pé o trajeto.

Essa imagem, um dos símbolos do Brasil na pandemia, é também a imagem da nossa liberdade de criar diante da angústia de uma situação traumática, a depender dos nossos recursos psíquicos. Com isso ela ofereceu a todos nós o oxigênio que também precisamos, numa demonstração de solidariedade, de humanidade que temos assistido ininterruptamente nos profissionais envolvidos diretamente com o caos, a situação traumática que temos vivido há mais de um ano.

 

A autora é pós-doutora em Psicologia Clínica

marcia@marcianeder.com.br

 

BIBLIOGRAFIA

Luis Buñuel. Meu Último Suspiro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.

Renato Mezan. Interfaces da Psicanálise, São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

Renato Mezan. Live: O humano no isolamento social, 9 de maio de 2020. https://www.youtube.com/watch?v=W_vL0dAwol0&ab_channel=AnnaSilviaRosaldeRosal

Renato Mezan. Sociedade, Cultura, Psicanálise. Reino Unido: Karnac, 2015.

2014. O Mal-Estar na Cultura in Obras Incompletas de Sigmund Freud, Belo Horizonte: Autêntica, 2014.

2014.Freud. O Futuro de Uma Ilusão in Obras Incompletas de Sigmund Freud. Belo Horizonte: Autêntica,

Shakespeare, W. Hamlet, trad. Barbara Heliodora. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2017.

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