Detonando Ludwig von Mises – Oliveira Vianna inaugura a crítica brasileira ao neoliberalismo

Detonando Ludwig von Mises – Oliveira Vianna inaugura a crítica brasileira ao neoliberalismo

Christian Edward Cyril Lynch, Jurista e cientista político

 

Popularizada durante a década de 1990, a história da recepção do neoliberalismo à obra de Ludwig von Mises (1881-1973) no Brasil está por ser feita. O modesto objetivo deste artigo é o de fornecer uma pequena contribuição, noticiando, de forma mais descritiva do que analítica, a impressão que a seu respeito deixou um dos mais renomados intelectuais brasileiros do século XX: o jurista, historiador e sociólogo político Francisco José de Oliveira Vianna (1881-1951).

 

O pensamento político de Oliveira Vianna não pode ser adequadamente compreendido pelo emprego mecânico de categorias analíticas extraídas da teoria produzida nos países como a França, Inglaterra e os Estados Unidos, tais como “fascismo”, “autoritarismo” e “conservadorismo”, frequentemente empregados por seus analistas. O chamado conservadorismo de Oliveira Vianna estaria mais próximo do absolutismo ou reformismo ilustrado, ideologia de modernização pelo alto que se tornara hegemônica nos países periféricos da Europa (como Prússia, Rússia, mas também Portugal e Espanha). A partir de um diagnóstico de inexistência, inorganicidade e fragilidade de suas sociedades, julgadas periféricas e atrasadas frente à Grã-Bretanha, o absolutismo ou reformismo ilustrado pregava um processo de modernização das estruturas sociais empreendido por um príncipe dotado de ciência, força e vontade. Julgando-se ainda mais atrasados que suas antigas metrópoles, e às voltas com guerras civis, a primeira preocupação dos conservadores ibero-americanos foi naturalmente a de buscarem organizar um governo dotado de autoridade, ou seja, intervencionista e unitário. Um Estado forte lhes parecia àquela altura indispensável para conferir governabilidade a um território imenso, quase sempre superior à dos países europeus, vencendo a resistência dos poderes concorrentes – principalmente de proprietários de terra de mentalidade feudal. Em outras palavras, sem um Estado unitário e poderoso, não haveria como domar a anarquia e promover a civilização na América Ibérica. No caso brasileiro, esse pensamento tributário do reformismo ilustrado se manifestou na orientação política e intelectual de José Bonifácio (1763-1838) e de Carneiro de Campos (1768-1836), o Marquês de Caravelas, dois primeiros-ministros de Dom Pedro I (1798-1834).

Era essa a razão por que, durante a Primeira República, Oliveira Vianna tornou a sua crítica à ação desagregadora do liberalismo brasileiro uma espécie de baixo contínuo que atravessaria toda a sua obra. Éramos uma população “dispersa e centrífuga, de tipo ganglionar, distribuindo-se por um território imenso, sem nenhuma estruturação orgânica”. Aqui, a formação social dispersa em latifúndios isolados na imensidão do território teria constituído uma mentalidade extremamente individualista, egoística e antissocial, avessa a qualquer tipo de associativismo. Aquilo de que o Brasil carecia, portanto, era de compensar essa má formação, solidificando “uma vasta massa social ainda em estado ganglionar, subdividida em quase duas dezenas de núcleos provinciais, inteiramente isolados entre si material e moralmente” (Vianna, 1987, p. 275). Esse objetivo, porém, só poderia ser atingido “pela instituição de um Estado centralizado, com um governo nacional poderoso, dominador, unitário, incontrastável, provido de capacidades bastantes para realizar, na sua plenitude” (…) “a consolidação da nacionalidade e a organização da sua ordem legal” (Vianna, 1987, p. 276). No entanto, em vez de aplicarem ao país o remédio de que ele carecia, inspiradas por um cosmopolitismo estrangeiro e por um teorismo abstrato, as elites brasileiras insistiam em ministrar-lhe fórmulas liberais de desconcentração do poder em voga na Europa ocidental e na América do Norte, cujas culturas eram produtos de outras vivências e experiências. Tratava-se de um “idealismo utópico” que, buscando erigir uma sociedade diferente daquela existente, não levava em conta os dados da experiência nacional, e que supunham que nossa sociedade fosse semelhante àquelas do Atlântico Norte (Vianna, 1922, p. 17). O resultado era que aquilo que nossas elites julgavam empregar como remédio aos nossos males potencializava, ao contrário, a desagregação, o feudalismo e a anarquia herdados da formação colonial; liberalismo, entre nós, “nada mais significava do que caudilhismo local ou provincial” (Vianna, 1987, p. 212).

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O exemplo dos saquaremas: um idealismo orgânico e não utópico

De fato, a primeira tentativa promovida pelos liberais de desconcentrar o poder político por meio do federalismo e do enfraquecimento do poder executivo resultara, durante a década de 1830, no caos das rebeliões provinciais e no quase desmoronamento do balbuciante projeto nacional brasileiro. Haviam esquecido de que, “entre nós, sempre foi o poder central o grande e único defensor de nossas liberdades locais” (Vianna, 1922, p. 60). Era por isso que Oliveira Vianna dedicava uma admiração irrestrita às lideranças conservadoras que, a partir de 1837, haviam revertido aquele processo pelo estabelecimento da força do Estado nacional. “Espíritos gloriosos de ‘reacionários’, claras mentalidades de tipo realista e objetivo”, saquaremas como Bernardo Pereira de Vasconcelos (1795-1850), Paulino José Soares de Sousa (1807-1866), o Visconde de Uruguai, Honório Hermeto Carneiro Leão (1801-1856), o Marquês de Paraná, e Luís Alves de Lima e Silva (1803-1880), o Duque de Caxias, teriam demonstrado possuir “a compreensão exata e lúcida da missão da autoridade e do Poder central numa nacionalidade em formação, como a nossa” (Vianna, 1974, p. 105). Embora também aspirassem a uma ordem de coisas diferente e melhor do que a existente, aqueles estadistas conservadores, ao contrário dos liberais, teriam buscado fazer “obra prática, objetiva, realística, experimental”, razão pela qual sua orientação política poderia ser qualificada como a de um “verdadeiro idealismo orgânico”, ou seja, extraído da experiência do passado e da sociedade brasileira (Vianna, 1922, p. 87). Depois, ao longo do Segundo Reinado, esse processo pôde continuar com mais segurança, graças ao aval a ele concedido por Dom Pedro II (1825-1891), figura apartidária, carismática, tolerante e patriótica. Auxiliado pela pequena elite de estadistas saquaremas, investida do sentido nacional e cívico do destino brasileiro, o Poder Moderador da Coroa pudera abafar os interesses particularistas e corruptores do regionalismo e do individualismo, herança maldita de nossa má formação colonial (Vianna, 1987, p. 217).

 

Entretanto, grande era o contraste entre o Segundo Reinado e a Primeira República, durante a qual Oliveira Vianna escrevia. Com a queda do Império, os liberais haviam retomado a dianteira do processo político e, orientados por seu idealismo utópico, restauraram de modo ainda mais completo o modelo americanista, federativo e oligárquico da Regência. Imaginaram que houvesse aqui uma sociedade anglo-saxã, “com opinião organizada, arregimentada e militante” (Vianna, 1927, p. 43). O resultado havia sido a dispersão política, a hegemonia das oligarquias provinciais, um sistema anárquico de intervenções federais e um patriotismo estadualista exacerbado, com que a República solapava a árdua obra de construção nacional operada pela monarquia. Era o que todos viam então a olhos nus. No Império, o Poder Moderador servira de eixo centrípeto da vida nacional; com a República, aquele centro diretor desaparecera e, com ela, o sentido nacional da nossa existência política (Vianna, 1974, p. 12). Entretanto, embora frustrados com o fracasso do experimento de 1891, os liberais Rui Barbosa (1849-1923) e Assis Brasil (1857-1938) insistiam nas mesmas fórmulas representativas anglo-saxãs, de antemão fadadas ao fracasso, na medida em que a nossa sociedade não apresentava o solidarismo típico das culturas onde o liberalismo vicejava: “O que é principal numa democracia é a existência de uma opinião organizada” (Vianna, 1927, p. 90). Ora, era precisamente o que não havia entre nós.

A sobrevivência do projeto brasileiro não dependia da reiteração das velhas fórmulas desagregadoras, mas de uma reação nacionalista capaz de reverter o processo de erosão da nossa nacionalidade, semelhante àquela operada pelos saquaremas no final da década de 1830. Os liberais não percebiam que no Brasil a obra da centralização caminhava paralela àquela de instauração e organização da ordem jurídica e à aceleração do processo de consolidação da ordem nacional. Impunha-se assim à nossa classe política, imbuída de um espírito nacionalista, e recorrendo à experiência que nos fornecia o estudo do nosso passado, “restaurar, dentro do regime republicano, o grande programa legalizador e nacionalizador dos estadistas de tipo autoritário do período imperial” (Vianna, 1952, p. 104). Só o Estado nacional brasileiro, com seu prestígio incontrastável, poderia servir de força centrípeta para adotar as medidas necessárias à conversão da insolidária, decaída e fragmentária população brasileira numa autêntica sociedade, dotada de todos os caracteres nacionais que a notabilizavam nos países cêntricos, tais como o respeito à legalidade, aos direitos civis e à coisa pública. Nesse sentido, o nacionalismo poderia desempenhar um papel de relevo. “No fundo, tudo se resume em afirmar a nossa condição de Nação, não só politicamente independente, como até então, mas também economicamente independente, em face dos outros povos” (Vianna, 1952, p. 107). Enquanto veículo de superação do partidarismo egoístico, o nacionalismo constituía uma força que poderia catalisar a natureza belicosa e competitiva do homem ocidental, não apenas para obras de destruição e conquista, mas em prol de um ideal coletivo superior em moralidade. Era esse o caso do nacionalismo no continente americano, que se revelava capaz de, conciliando-se com o pacifismo, “criar um ideal de solidariedade interna e externa, um idealismo nacionalista que não colida, nem se antagonize, com um idealismo internacionalista, desenvolvendo-se sem preocupações de guerra e destruição” (Vianna, 1952, p. 107).

 

O papel pedagógico do corporativismo

Além das razões próprias da deficiente formação histórica da nossa nacionalidade, havia ainda uma razão adicional, de cunho geral, para as críticas ao liberalismo tecidas por Oliveira Vianna nas décadas de 1920 e 1930: ele se tornara anacrônico. Os acontecimentos do pós-guerra evidenciavam que o processo de civilização não se processava pela crescente afirmação do indivíduo em face do Estado ou dos interesses de grupo profissional. Com a incorporação das massas ao processo político, o que se via no mundo do pós-guerra era a generalizada restrição dos antigos excessos do individualismo oligárquico em benefício da coletividade, entendida como nacionalidade ou classe profissional. Para apaziguar os choques cada vez mais intensos entre o capital e o trabalho, chegara-se à conclusão de que apenas um Estado capaz de intervir de modo imparcial no domínio socioeconômico podia restabelecer a harmonia social ameaçada pelos conflitos de classes. Com seus postulados individualistas e sua crença na harmonização espontânea do conflito, o Estado liberal perdera o bonde da História: o século XX seria o século das organizações profissionais, dos grupos econômicos e das categorias profissionais. O fortalecimento do poder do Estado implicava reconhecer a inevitabilidade da organização dos interesses das classes profissionais em sindicatos e corporações.

 

Areação ao individualismo exagerado pela recomposição da organização socioeconômica em bases corporativas começara havia quase um século, em torno de 1830. Com seus sindicatos de patrões e empregados, suas corporações profissionais modernas e suas autarquias previdenciárias, o regime corporativo moderno resultava da evolução social do regime industrial. Nada tendo de contrária à liberdade e à democracia, atravessando a vida socioeconômica de países tão insuspeitos quanto os Estados Unidos e a Grã-Bretanha, a moderna organização corporativa não era um apanágio dos regimes autoritários. Na Europa católica, em particular, ela encontrara sua pedra fundamental na doutrina social da Igreja, que apelava ao espírito de solidariedade cristã a fim de que seus fiéis ajudassem aqueles que sofriam privações em função da injusta organização da sociedade moderna. Era o que Oliveira Vianna afirmava, para refutar a tese liberal que relacionava corporativismo ao totalitarismo alemão e italiano:

 

“Nem o sindicalismo, nem o corporativismo são, aliás, instituições totalitárias; eles antecedem de muito o advento dos regimes totalitários na Europa. O corporativismo contemporâneo não se originara de Hitler ou Mussolini, mas do pensamento católico contido nas encíclicas de Leão XIII e Pio XI, tais como a Rerum Novarum e a Quadragesimo Anno” (Vianna, 1974, p. 90).

 

Voltada para o bem-estar de toda a sociedade e não para apenas uma parte dela, a nova organização socioeconômica do mundo moderno exigia, porém, uma nova pedagogia para suas elites dirigentes, diversa daquela que predominara durante a hegemonia liberal do século anterior, e que era voltada para o individualismo. As elites dos países modernos careciam agora de uma educação que as habilitasse a compreender a necessidade que havia de compatibilizar o indivíduo com suas obrigações para com a coletividade. O intuito dessa nova educação não seria, como no socialismo marxista, o de absorver o indivíduo no grupo, mas de completá-lo pela mentalidade solidarista. A Suécia seria um país exemplar dessa comunhão do indivíduo com a coletividade; lá, as classes teriam cessado de lutar graças à legislação trabalhista que lhes harmonizara os interesses: “Eles [os suecos] conciliam, perfeitamente, o seu individualismo característico com o mais alto sentimento, do interesse coletivo e com as mais expressivas realizações no campo da solidariedade social e corporativa” (Vianna, 1974, p. 39). O processo de superação do laissez faire pelo reconhecimento, pelo Estado, da organização corporativa da sociedade não ocorria apenas na Itália fascista, na Rússia bolchevista ou na Alemanha nazista, mas também na Suécia socialdemocrata, nos Estados Unidos do New Deal e na Grã-Bretanha dos trabalhistas. Cada país solucionara aquela equação, conforme suas necessidades e tradições. No Brasil, a educação das elites para a vida grupal era uma exigência ainda mais urgente, dada a sua falta absoluta de espírito republicano; isto é, de sentido de seu dever cívico, decorrente de sua formação social carente de vínculos solidários: “Instruímos o indivíduo, saturamo-lo de conhecimentos ou de ideias e, depois, o atiramos no seio da sociedade, animado de um sentimento individualista absorvente, como se fora um pequenino monstro, antissocial e anticristão” (Vianna, 1974, p. 25).

Era preciso, portanto, educar as elites brasileiras para o sentido coletivo da existência, nelas incutindo o hábito de servir à associação, à classe, à comuna e à Nação, no sentido anglo-saxão do termo, para criar uma mentalidade de reverência à coletividade. A organização profissional do povo brasileiro era um requisito necessário de sua sobrevivência no mundo que emergiria “do caos atual, em que mergulha a nossa civilização cristã” (Vianna, 1974, p. 90). A nossa burguesia industrial só se lembrava de procurar o Estado nos tempos de crise econômica, dele exigindo todas as medidas que os protegessem das intempéries. Em tempos de bonança, ela fugia do governo como o diabo da cruz, renegando qualquer possibilidade de intervenção daquele, em nome do interesse comum: “O nosso país não tem – digamos com franqueza – elites econômicas à altura da sua atual situação no mundo.

O que cada um quer é apenas isto: salvar a si mesmo, com o mínimo de sacrifícios pessoais” (Vianna, 1974, pp. 64, 65). Caberia ao Estado brasileiro, em síntese, equipar-se para arbitrar essas relações de trabalho, educar as diferentes classes a deliberar sobre seus interesses e intervir para dar a essas categorias a organização obrigatória que deveriam ter, disciplinando pela racionalização, a produção individual e a produção coletiva, condicionando-as às exigências e possibilidades dos mercados compradores; e educando, nos hábitos de cooperação e da solidariedade corporativa, as nossas elites industriais. Aqui, dados os males de sua má formação social e a ausência de conflitos de classes, que não teriam ainda chegado a existir entre nós, o regime corporativo teria por função minorar o sofrimento e a privação dos miseráveis, em nome dos valores de justiça cristãos, e cumprir o papel pedagógico de ensinar patrões e empregados a deliberar sobre seus próprios interesses e a transigirem, tendo em vista o interesse público. Sob a prudente tutela do Estado, o corporativismo seria o meio por que o Estado conseguiria organizar em classes os interesses inorgânicos da sociedade brasileira e educá-las para representarem-nos em conformidade com os valores cívicos:

 

“Temos que operar a evolução análoga à operada modernamente pelas democracias europeias. Temos que abandonar nossas velhas praxes de dissociação e isolamento e iniciar a aplicação sistemática de uma política de aproximação entre os dois grupos – o governante e o governado; de modo a tornar, de maneira permanente, os centros legislativos e administrativos mais acessíveis, mais suscetíveis, mais permeáveis à influência dos interesses e opiniões das outras classes, das classes que não governam, especialmente das classes produtoras” (Vianna, 1974, p. 132).

 

Intervenção do Estado e reforma social

Estava claro, portanto, que o Brasil deveria abrir mão do ultrapassado modelo liberal de Estado e recepcionar as teses relativas ao regime corporativo e ao sistema de planejamento econômico, a fim de se converter numa democracia social. Para tanto, concorriam tanto causas endógenas (a nossa fraqueza enquanto nacionalidade, entendida como sociedade solidária) quanto exógenas (a transformação do Estado moderno desencadeada pela democratização e pelo advento das massas no processo político).

A preocupação central de Oliveira Vianna no que diz respeito à instalação de seu modelo democrata cristão – fazer justiça social – era reduzir as desigualdades, de modo a retirar o proletariado urbano e o rural da ignorância e da miséria. Nesse sentido, era inevitável que o Estado procedesse à realização de reformas socioeconômicas de vulto. Embora entendesse que a miséria era eterna como o mundo e, como tal, ineliminável, era preciso reconhecer que havia dois tipos diferentes de miseráveis. O primeiro era aquele que, por fatores de ordem biológica, eram incapazes “de qualquer tendência ascensional ou de melhoria”. Esta era a “miséria normal”, para o qual o Estado estava aparelhado, com seus asilos, hospitais, reformatórios e prisões. O segundo tipo de miséria, porém, tinha origem na injusta divisão da riqueza. Eram os miseráveis capazes, que não conseguiam vencer o seu estado de decaimento porque a sociedade não lhe dava meios para tanto. Esta era a miséria injusta, porque oriunda da má organização socioeconômica do país: “O centro do problema social do nosso povo está nisto: criar as condições sociais, econômicas e espirituais que permitem à nossa vasta massa proletária dos campos e das cidades – dos campos principalmente – essa pacífica ascensão e capilaridade dos seus elementos mais bem dotados e capazes” (Vianna, 1974, p. 93). Era preciso assegurar a eles, pela intervenção do Estado, uma igualdade de ponto de partida, assegurando aos capazes uma pequena propriedade: “Devemos encaminhar por aí, assegurando, tanto quanto possível, aos milhões de proletários brasileiros – vivam nas suas favelas urbanas ou nas suas choças do sertão – uma casa barata ou um lote de terra” (Vianna, 1974, p. 94).

 

Por outro lado, e para demonstrar que as medidas interventoras pelo seu ideal democrata cristão não possuíam qualquer laivo socialista de origem marxista, Oliveira Vianna frisava que a sua realização não exigia, nem a planificação do conjunto da economia brasileira, nem a corporativização de toda a sua vida social, nem a supressão da propriedade privada. A razão disso é que o novo regime socioeconômico brasileiro não poderia ser decalque de qualquer outro, fosse bolchevista ou fascista; ele precisava ser elaborado a partir da particularidade da experiência brasileira e de suas necessidades: “O problema do corporativização do Brasil revela aspectos absolutamente originais. Essa originalidade é que nos obriga a procurar para ele uma solução peculiar, própria, brasileira” (Vianna, 1974, p. 84).

A particularidade que mais parecia merecedora de atenção dizia respeito à desproporção aqui existente entre a imensidade do território e a escassez de população, que impactava diretamente no alcance das medidas a serem adotadas em matéria de descentralização decisória, planificação econômica, regime corporativo e reforma social. A necessidade de um Estado forte e centralizado politicamente deveria ser compensada por um regime de considerável descentralização administrativa, de natureza eminentemente funcional e autárquica. Da mesma forma, a planificação econômica precisava também se conciliar com os imperativos da nossa política demográfica: as grandes regiões inexploradas do nosso território ainda estavam por ser ocupadas, e para tanto, nada melhor que entregar essa tarefa ao espírito de livre iniciativa, do pleno individualismo e de propriedade privada.

Em terceiro lugar, a desproporção entre o tamanho do território e a baixa densidade populacional também tornava dispensável a adoção do regime corporativo no mundo rural. A nova legislação social deveria por ora cobrir apenas o mundo urbano do litoral, envolvido em questões de trabalho na indústria e no comércio, e como tal envolvido pelas relações capitalistas. Esse ainda não era o caso do mundo rural, que por ora deveria ser deixado “intacto, fora da ação tutelar e renovadora desta nova política social” (Vianna, 1951, p. 16). Uma vez que o destino fornecera ao Brasil bens em excesso para distribuir para todos os que dele necessitassem, não havia nele qualquer necessidade de adotar “a solução coletivista dos países do Velho Mundo, atormentados com a pletora demográfica”, e muito menos “a eliminação das nossas classes ditas burguesas”, sobretudo aquela “representada pela grande propriedade territorial” (Vianna, 1974, p. 95). O problema social brasileiro não deveria ser resolvido pela proletarização das classes possuidoras, mas pela elevação do proletariado à categoria de classe proprietária, a partir da difusão e generalização da propriedade privada “até os limites de nossas possibilidades” (Vianna, 1951, p. 14). Era dessa forma que Oliveira Vianna respondia àqueles liberais que o acusavam de visar à coletivização da propriedade privada – fosse comunista revolucionário à Karl Marx (1818-1883), ou socialdemocrata reformista à Eduard Bernstein (1850-1932). Tratava-se de um projeto democrata cristão de natureza “orgânica”, ou seja, inspirado pelo estudo das particularidades e necessidades nacionais:

 

O nosso sindicalismo, ao contrário, é profissional, corporativo, cristão. Não prega nem pratica a luta de classes. Não reconhece o marxismo revolucionário, nem o marxismo reformista. Busca nas encíclicas dos grandes papas, de Leão XIII e de Pio XI, a sua inspiração e princípios. É na carta de Malines que ele encontra o padrão de suas normas e das suas formas de ação. Não traz à sociedade brasileira um espírito de desunião, de antagonismo, de lutas; mas um princípio de aproximação, de colaboração, de pacificação” (Vianna, 1951, p. 81).

 

Oliveira Vianna, leitor de Mises

Em 1939, Vianna era um intelectual realizado no plano pessoal. Sua extensa obra lhe granjeara a admiração irrestrita de nacionalistas reformistas, entre os quais se destacavam Juarez Távora (1898-1975), antigo chefe do movimento tenentista, que o procuraria para que elaborasse um programa de partido (Vianna, 1974b, p. 179), e o próprio Getúlio Vargas (1882-1954), desde quando ainda ocupava na Câmara o cargo de deputado federal (Lira Neto, 2012, p. 237). Aos 58 anos de idade, o autor de O Ocaso do Império escrevia nos jornais mais importantes do Brasil, sendo membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) e da Academia Brasileira de Letras (ABL). Era ainda catedrático da Faculdade de Direito de Niterói e Consultor Jurídico do Ministério do Trabalho. No ano seguinte, ele viria a ocupar no ano seguinte o cargo de ministro do Tribunal de Contas da União. Para completar essa realização pessoal, estava o fato de que a orientação da vida política brasileira depois de 1930 correspondera em grande medida àquela advogada por Oliveira Vianna. Ao romper com os padrões liberais e oligárquicos da Primeira República, o regime estatista, nacionalista e centralizador da Era Vargas representara na prática a reação “neossaquarema” desejada por ele, desde Populações Meridionais do Brasil (1920). O ponto máximo dessa escalada havia sido a instauração do Estado Novo: ao fortalecer o governo nacional, reduzir o papel do Parlamento, favorecer a colaboração das classes e dos conselhos técnicos, introduzir o modo corporativo, operar uma descentralização autárquica e reagir contra os partidos políticos, o Brasil pudera reencontrar o sentido nacional de sua existência:

 

“Todos estes itens, consagrados na nova Constituição, representam velhos ideais meus, que venho defendendo desde Populações Meridionais do Brasil até Problemas de Direito Corporativo. Ideais que não buscam sua origem fora de nós, nem são nascidos porventura da bibliossugestão; mas que resultam de uma observação longa e direta do nosso meio político e das suas peculiaridades, das falhas da nossa cultura cívica e dos seus reflexos sobre o mecanismo dos poderes públicos. No fundo: idealismo orgânico contra idealismo utópico” (Vianna, 1927, pp. 175, 176).

 

Nos vinte anos anteriores, Oliveira Vianna já se envolvera em dezenas de polêmicas tanto com intelectuais socialistas, à esquerda – que o acusavam de fascista –, quanto com outros, liberais, à direita – que o acusavam de socialista. Em matéria de economia, ele terçara armas com juristas liberais como Waldemar Martins Ferreira (1885-1964), que, baseados em concepções hauridas das velhas concepções jurídicas individualistas, se opunham à organização corporativa e à criação da Justiça do Trabalho (Vianna, 1938, p. 28). Ele também já se defrontara com aqueles que, resignados à organização social de Vargas, como Roberto Simonsen (1889-1948), defendiam, porém, uma proposta de organização corporativa que se limitasse a enquadrar os trabalhadores, deixando de fora da tutela do Estado as associações patronais (Costa, 1999, p. 54). Em todos esses debates, e como sói acontecer em países periféricos, a invocação de autores (norte-americanos e europeus) em defesa das posições defendidas por cada autor adquiria uma importância capital, porque adquiriram aqui foros de “autoridades” na matéria.

 

Era por esse motivo que, sempre que tomava conhecimento das obras de autores de nomeada, inclusive estrangeiros, Oliveira Vianna se via provocado a posicionar-se publicamente acerca delas, criticando as que endossavam as suas orientações e refutando aquelas que as contrariavam. Foi certamente por essa razão que, ao ler uma edição francesa de 1938 do tratado de Ludwig von Mises – O Socialismo: Análise Econômica e Sociológica (Mises, 1938), publicada originalmente em alemão no ano de 1922 –, o sociólogo fluminense se sentiu impelido a criticar aquilo que nele lhe parecia exagerado e incompatível com as necessidades que o Ocidente contemporâneo, em geral, e o Brasil, em particular, tinham de um regime político, social e econômico corporativo.

Como é sabido, Ludwig von Mises viria a ser um dos mais influentes pensadores liberais do século XX, e um dos principais responsáveis, depois da Segunda Grande Guerra, pelo renascimento da crença na superioridade do livre mercado sobre o planejamento econômico governamental. Ao lado de Hayek, Mises ocupa lugar de destaque na chamada Escola Austríaca de Economia, uma famosa corrente do liberalismo econômico contemporâneo, cujas doutrinas foram estruturadas a partir dos escritos do economista e jurista austríaco Carl Menger (1840-1921). O Socialismo era já então um dos trabalhos mais importantes escritos de Mises, e tivera por origem o artigo “O Cálculo Econômico sob o Socialismo” publicado pela primeira vez em 1920.

O argumento central de Mises nesse texto é que: “Em um Estado socialista, cada mudança econômica se torna um empreendimento cujo sucesso não pode nem ser estimado antecipadamente e nem ser determinado retroativamente. Há apenas movimentos cegos. O socialismo é a abolição da racionalidade econômica” (Mises, 2012, p. 33). A tese misesiana de que, nem mesmo em hipótese, uma economia planejada tal como nos diferentes modelos “socialistas” teria condições de alocar de modo eficiente os recursos escassos da sociedade. Com a abolição do sistema de preços de um livre mercado, os planificadores centrais não teriam, honestamente, nenhuma ideia do valor real dos fatores de produção, o que impossibilita, assim, o conhecimento dos lucros ou das perdas é retomado como argumento econômico principal do livro O Socialismo (Mises, 1992, pp. 112, 123). No entanto, o tratado expande a crítica ao socialismo para o campo aberto das chamadas Humanidades, como a Filosofia, a Psicologia, a Antropologia, a Sociologia, a Ciência Política, as Relações Internacionais e a História. Diferente do artigo, a crítica de Mises não se dirige apenas ao que denominou de “formas particulares de socialismo”, representadas pelo socialismo marxista, pelo socialismo militarista, pelo socialismo cristão e pelo socialismo das guildas; mas, se volta, também, contra os chamados “sistemas pseudossocialistas”, que incluiriam o solidarismo, o corporativismo, o sindicalismo e qualquer outra forma de intervencionismo do Estado na ordem econômica. O impacto do livro O Socialismo de Mises em alguns jovens intelectuais foi intenso, a ponto de fazer com que abandonassem completamente as convicções socialistas ou socialdemocratas, tornando a obra, portanto, responsável pela formação de uma verdadeira nova geração de liberais ou de conservadores críticos do marxismo, como Friedrich Hayek, Lionel Robbins, Wilhelm Röpke e Eric Voeglin.

Antes que os liberais brasileiros começassem a se valer do livro de Mises para atacar a obra social do Estado Novo, Oliveira Vianna tratou de posicionar-se criticamente a respeito dela, absorvendo o que lhe parecia útil e rechaçando o que lhe parecia exagerado e anacrônico no tratado do economista austríaco. O artigo em que o sociólogo fluminense produziu sua crítica à obra O Socialismo chamava-se “O juiz Brandeis e o seu americanismo”, tendo sido publicado na Revista Forense em março de 1939 (Depois de sua morte, o artigo foi republicado em 1951, devidamente atualizado, numa coletânea de artigos denominada Problemas de Organização, Problema de Direção). No artigo, não faltavam referências respeitosas e mesmo elogiosas ao economista austríaco: “Mises é um notável professor da Universidade de Viena e já possui uma autoridade que transcende às fronteiras de seu país. É um dos chefes da nova escola austríaca de economia política e conta, com seus discípulos, grandes nomes da cultura europeia”. Vianna se confessava encantado com sua crítica ao socialismo de corte marxista, “de incomparável lucidez, objetiva e cientificamente conduzida”. Poucos teriam sido tão “poderosos na argumentação, assim insinuantes e persuasivos na análise, assim conhecedores dos inúmeros pontos vulneráveis daquela ideologia” (Vianna, 1974, p. 120). Em sua opinião, Mises era “um espírito realista, objetivo, prático”, que argumentava com uma antropologia realista, e comprovando com “admirável dialética e poder de convicção” a impossibilidade de realização de uma economia coletivizada. Não havia dúvidas de que, fundado na propriedade privada e na iniciativa individual, com seus quadros de operários e empregados, o capitalismo era capaz de produzir de modo incomparavelmente mais eficiente, comparado ao regime da produção coletivizada, “com a sua complicada hierarquia de funcionários burocratizados”. Com exemplos tirados das últimas experiências da Alemanha e da Áustria, o austríaco demonstrava – e provava – que sempre que o Estado montava e explorava empresas industriais, o seu fracasso era certo.

 

Osociólogo fluminense não se pejava de criticar, todavia, o conceito empregado por Mises para designar o que fosse o socialismo, que lhe parecia “muito pessoal” (Vianna, 1974, p. 120). Para Mises, o corporativismo e o sindicalismo como modos de organização socioeconômica eram apenas variações do socialismo, e que preparavam, como ele, a passagem da economia capitalista e privada para a economia coletiva e estatizada. Para Vianna, por sua vez, o socialismo era a ideologia que pregava a abolição da propriedade privada e consequente passagem, às mãos do Estado, de todos os meios de produção. Incomodava-o, por conseguinte, o fato de que o economista austríaco o empregasse para enquadrar igualmente aqueles que, embora partidários da propriedade privada, também defendiam o intervencionismo econômico e/ou a estatização ou nacionalização dos serviços públicos e alguns setores privados da economia – entre os quais se achava, naturalmente, o próprio Oliveira Vianna. A seu juízo, o intelectual vienense estava sendo vitimado pelo espírito de sistema, enfermidade típica da mentalidade germânica que conduzia à ortodoxia e a conclusões absurdas e exageradas:

 

“Partidário da economia capitalista, achando que a ela se devem todas as excelências da civilização atual, Mises não tem a mais leve simpatia pelas formas de intervencionismo do Estado na ordem econômica. Daí a sua injusta apreciação das diversas modalidades do controle econômico, com que o Estado Moderno está realizando a disciplina da economia privada no sentido de assegurar o predomínio dos interesses gerais e nacionais sobre os interesses particulares e privados” (Vianna, 1974, p. 123).

 

Além disso, Oliveira Vianna sustentava que Mises se equivocava ao acreditar que, naquele momento, o mundo testemunhasse o recuo da economia reguladora em prol da privada. Conforme sua técnica habitual de argumentação, Vianna trazia em seu reforço a autoridade de Ernst Wagemann (1884-1956), outro economista germânico muito respeitado à época, que em A Estratégia Econômica, de 1937, sustentara a tese oposta à de Mises; isto é, a de avanço progressivo da ação do Estado sobre a economia (Wagemann, 1937). O eventual abandono das tentativas anteriores de dirigir a totalidade da economia não significava recuo do Estado para as formas anteriores de não intervenção, típicas do liberalismo de Adam Smith (1723-1790) e de Jean-Baptiste Say (1767-1832), mas de redirecionamento daquela intervenção, a fim de realizá-la para modalidades indiretas de controle e disciplina, por meio das autarquias administrativas e das instituições corporativas.

A fim de se antepor ao liberalismo individualista de Mises, Vianna invocava o exemplo do liberalismo social ou progressista de Louis Brandeis (1856-1941), juiz da Suprema Corte dos Estados Unidos. Contra o entendimento majoritário daquele tribunal, segundo o qual a nova legislação social elaborada pelos Estados contrariaria a liberdade contratual consagrada na Constituição, Brandeis entendia ser preciso adequar a interpretação constitucional à natureza cambiante da vida social, abandonando-se o individualismo dos velhos cânones em benefício de uma “jurisprudência sociológica”. A antiga ênfase do hermeneuta no exame da vontade do legislador histórico deveria ser substituída pela sensibilidade sociológica do juiz na apreensão da mudança e das novas necessidades sociais. Esta orientação teria se tornado majoritária na Suprema Corte em 1937, quando a maioria de seus juízes teria se curvado aos postulados do New Deal do presidente Franklin Delano Roosevelt (1882-1945). Lutando como ninguém contra “os excessos e desmandos do capitalismo”, a atitude de Brandeis seria exemplar de um “individualismo grupalista” que escapava tanto à tentação liberal atomística que prevalecera no século XIX, quanto à tentação totalitária coletivista. Era desse modo, assim, que Oliveira Vianna buscava contrapor o velho individualismo de Mises ao novo individualismo, de cunho grupalista ou corporativo, de Brandeis:

 

“Mises pensa salvar o indivíduo e a liberdade econômica da abstenção do Estado por uma volta ao individualismo liberal, do estilo antigrupalista. Brandeis pensa, ao contrário, que o indivíduo e a sua liberdade econômica só poderão ser salvos pelo Estado, intervindo como força de equilíbrio entre o indivíduo e as grandes entidades organizadas pelo capitalismo industrial. Para ele, essa liberdade só poderá subsistir pondo o indivíduo sob a égide do seu grupo profissional; quer dizer, – por uma volta ao individualismo grupalista” (Vianna, 1974, p. 124).

 

A postura de Brandeis em defesa de “um intervencionismo do Estado, com a latitude revolucionária e socializadora que lhe deu Roosevelt, ao lado de quem se colocou resolutamente” nada tivera, todavia, de socialista, marxista ou comunista. Ao combater as demasias do capitalismo, que oligarquizara a vida norte-americana, aquele magistrado tivera em vista apenas “restaurar os princípios fundamentais do povo americano: o individualismo e a democracia” (Vianna, 1974, p. 119). Endossando a interpretação do movimento progressista estadunidense, Oliveira Vianna entendia que, no fundo, Brandeis agira como um verdadeiro conservador: o desenvolvimento brutal do capitalismo nos Estados Unidos estava retirando do povo americano o direito a uma vida autônoma e livre e destruindo a sua liberdade, cujo gozo passara a ser privilégio dos grandes industriais e financistas. Era por isso que aquele magistrado voltara-se para a defesa da legislação social: naquele novo contexto de emergência das massas, o regime corporativo se lhe afigurara o único modo de preservar a tradicional liberdade americana. Brandeis era assim apresentado por Oliveira Vianna ao público brasileiro, não como o socialista de Mises, mas como o reformista conservador que ele julgava ser. Na verdade, a liberdade correria perigo se, contra a ameaça socialista, o Ocidente insistisse em vetustas fórmulas liberais, ou neoliberais, que, cegas, diante das novas necessidades sociais, negando a possibilidade de uma terceira via, não tratariam de remediar as demandas das massas. Era o melhor presente que se poderia fazer aos socialistas marxistas: manter o proletariado em estado de permanente descontentamento, disponíveis para qualquer ação revolucionária:

 

“Para realizar-se a preservação do indivíduo, o que se faz preciso é, antes de tudo, restaurar o grupo e meter dentro dele o indivíduo. O grupalismo ou solidarismo se tornou, assim, o complemento necessário do individualismo: é impossível realizar plenamente o indivíduo sem constituir, organizar e desenvolver o grupo – esta é a conclusão do pensamento social moderno. Pelo menos, nos países livres e democráticos, onde os direitos naturais da pessoa humana são ainda reconhecidos – e sobrevivem nas leis e nos costumes” (Vianna, 1974, p. 126).

 

Conclusão

Teórico do regime sindical e corporativo, Oliveira Vianna não poderia deixar de se sentir interpelado por Ludwig von Mises, que considerava como socialistas ou preparatórias do socialismo marxista todas as terceiras vias imaginadas a partir do final do século XIX. Se Mises buscava desqualificar todas as tentativas de se encontrar um meio termo entre liberalismo e socialismo, acusando-as de se acharem no mesmo campo deste último, Oliveira Vianna desqualificava como anacrônica a pretensão de Mises, que tentava combater o inimigo comum com uma doutrina superada e incompatível com o conturbado mundo democratizado do século XX. Contra Mises, Oliveira Vianna lançava mão da autoridade de Brandeis, jurista comprometido com a mudança social sem, todavia, romper com as mais legítimas tradições nacionais norte-americanas. Tratava-se de uma defesa da liberdade concebida de modo diverso do individualismo atomístico da Revolução Francesa, que tivera na Lei de Le Chapelier o seu estandarte supremo. Tratava-se, ao revés, de um “individua­lismo grupalista ou corporativo” que se conciliava com as exigências sociais.

Era ao lado do juiz Louis Brandeis, claro, que Oliveira Vianna se colocava. Ao pôr-se ao lado de Franklin Delano Roosevelt, cujo governo endossara as posições por ele defendidas desde muito no sentido de, valendo-se da sociologia, ao produzir uma legislação comprometida com a justiça social, Brandeis reproduziria, nos Estados Unidos, a posição do próprio Oliveira Vianna, que se pusera ao lado de Getúlio Vargas no Brasil para produzir uma legislação social, na qualidade de conselheiro jurídico do Ministério do Trabalho. É digno de nota perceber o esforço que o pensador fluminense fazia para, à semelhança dos novos liberais ingleses, dos progressistas americanos e dos radicais franceses, sustentar-se no campo da defesa da liberdade individual. Ele apresentava a modernidade das corporações, enquanto instâncias de representação de interesses colocados entre o Estado e o indivíduo, como verdadeiras salvaguardas da liberdade abismada num mundo dominado pelas multidões e pelo instinto igualitarista, que ameaçavam mergulhá-lo no caos anticristão do marxismo. Se os liberais brasileiros queriam de fato combater o comunismo, sem cair no fascismo, deveriam refugar a tentação dos argumentos individualistas de Ludwig von Mises, e aderir à única fórmula prática por que a liberdade naquele contexto poderia sobreviver: o regime corporativo, na modalidade democrata cristã ideada por Oliveira Vianna, realizada, ainda que de modo incompleto, pelo idealismo orgânico dos dirigentes do Estado Novo.

 

O autor é professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ) e pesquisador da Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB).

clynch@iesp.uerj.br

 

BIBLIOGRAFIA

 

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