E fez-se a dilucidação – As raízes da cognição humana

E fez-se a dilucidação – As raízes da cognição humana

Leonardo Braga Martins, Oficial de Marinha Submarinista

 

No século XIX, um intenso debate dividiu as opiniões dos pensadores ocidentais sobre a natureza da vida. O método científico, tal como nós o conhecemos, gozava de prestígio e boa saúde. O termo cientista, em oposição ao termo “artista” aludia à crença de que o verdadeiro conhecimento só podia ser obtido pelo exercício de uma razão supostamente pura. Fazer ciência seria produzir conhecimento pelo uso do raciocínio lógico, enquanto a arte, por outro lado, resumia-se a um “mero” exercício de imaginação.

Quando Isac Newton (1642-1727) apresentou leis universais que a todos os corpos governavam, inspirou um frenesi por leis universais em todo canto. O paradigma do mundo mecânico, previsível e fracionável, onde o olhar detalhado sobre cada uma das partes revelava os segredos de tudo, afetou não só as ciências ditas “duras”, mas também as ciências sociais e a biologia. Nesta última, entretanto, a visão reducionista dos animais como máquinas, criaturas imutáveis, reguladas e reguláveis, cairia por terra diante de outro grande nome da

ciência: Charles Darwin (1809-1882). A teoria da evolução nos falava de um mundo bem mais estranho, onde a aleatoriedade tinha um papel central. A sorte era responsável por produzir diferentes cepas da vida pelo processo de mutação. E o ambiente determinaria quais delas seriam vencedoras (as mais adaptadas).

Logo, tudo ficaria mais claro, quando o esgotamento da abordagem cartesiana na biologia daria origem ao pensamento sistêmico do século XX. Com o advento do microscópio, muito foi possível saber sobre as minúsculas estruturas que formavam os tecidos vivos e sobre os pequenos animais que estavam entre nós e dentro de nós. Mas permaneciam incógnitas as relações entre eles. Nasceu daí a necessidade de estudar não só os componentes de um sistema, mas principalmente as suas relações. Um novo paradigma se estabelecia, o paradigma da parte pelo todo.

Insight Inteligência - artigos e ensaios fora da curva

Fritjof Capra, um dos mais notáveis pensadores sistêmicos do nosso tempo, apresenta de modo sucinto e elegante os aspectos centrais dessa nova concepção:

 

De acordo com a visão sistêmica, as propriedades essenciais de um organismo, ou sistema vivo, são propriedades do todo, propriedades que nenhuma das partes possui. Elas surgem das interações e relações entre as partes. Essas propriedades são destruídas quando o sistema é dissecado, física ou teoricamente, em elementos isolados. Embora possamos discernir partes individuais em qualquer sistema, essas partes não são isoladas, e a natureza do todo é sempre diferente da mera soma das suas partes. (CAPRA, 2014, p. 96)

 

Muitos cerraram ombros na construção desse novo olhar sobre a natureza. Eu me atrevo a selecionar para a discussão somente dois deles, assumindo confessa e enorme culpa – os filósofos Joseph Woodger (1894-1981) e Charlie Broad (1887-1971).

Woodger (2013) concebeu a ideia da vida organizada como uma rede de sistemas dentro de sistemas, dispostos numa hierarquia de complexidade. Broad, em seu livro “The Mind and its Place in Nature”, de 1925, introduziu o conceito de “propriedade emergente” para nomear as características únicas de um arranjo sistêmico que não são encontradas nem em seus níveis componentes e nem em seus níveis superiores (GUSTAVSSON, 2014). Juntos, Woodger e Broad nos oferecem bases para extrapolar as relações entre células, tecidos, órgãos, sistemas, indivíduos e ecossistemas, alertados da existência de propriedades típicas de cada um destes níveis e que não são herdadas ou transmitidas nem para cima nem para baixo na escala de complexidade.

Reunindo à mesa Darwin, Woodger e Broad, posso imaginá-los chegando a uma conclusão lógica e assustadoramente óbvia. Considerando a evolução da vida como a história das pequenas partes bem-sucedidas de um ecossistema, podemos afirmar que o todo determinou a conformidade das partes. E que, dentro dessa perspectiva, o código genético é essencialmente uma fusão do registro dos “todos” que já existiram, as paisagens vivas que já habitaram nosso planeta.

 

A COGNIÇÃO

A compreensão das capacidades cognitivas humanas é destarte inalienável da discussão sobre a história evolutiva da vida na Terra. Contudo, um alerta se faz necessário antes de iniciar a jornada. A visão de que o homem é o fim de um grande processo evolutivo e que seus ancestrais eram versões incompletas ou inacabadas desse sucesso constitui percepção enviesada da história evolutiva presentemente aceita. O biólogo Richard Dawkins ilustra as privações cognitivas a que se está sujeito pela adoção da análise a posteriori.

 

A história tem sido definida como uma coisa depois da outra. Essa ideia pode ser considerada um alerta entre duas tentações, mas eu, devidamente alertado, flertarei cautelosamente com ambas. Primeiro o historiador é tentado a vasculhar o passado à procura de padrões que se repetem; ou, pelo menos, como diria Mark Twain, ele tende a buscar razão e rima em tudo. Esse apetite por padrões afronta quem acha que a história não vai a lugar nenhum e não segue regras – “a história costuma ser um negócio aleatório, confuso”, como também disse o próprio Mark Twain. A segunda tentação do historiador é a soberba do presente: achar que o passado teve por objetivo o tempo atual, como se os personagens do enredo da história não tivessem nada melhor a fazer da vida do que prenunciar-nos. (DAWKINS, 2009. p.17)

 

Neste trabalho, busca-se comedidamente as evidências de padrões repetidos e diferenciações, perscrutando a história a partir de uma análise a priori. O homem será tomado como herdeiro de seus ancestrais, e não como épico objetivo da existência deles. E para melhor delimitar o recorte da pesquisa, a evolução da capacidade cognitiva dos seres vivos será analisada segundo um campo importante do pensamento sistêmico, a cibernética, tal como prescreve Von Bertalanffy (1901-1972):

 

A cibernética é uma teoria dos sistemas de controle baseada na comunicação (transferência de informação) entre o sistema e o meio e dentro do sistema, e do controle (retroação) da função dos sistemas com respeito ao ambiente. (…) Em biologia e em outras ciências fundamentais, o modelo cibernético serve para descrever a estrutura formal de mecanismos reguladores, por exemplo, por meio de diagramas de bloco e de fluxogramas. Assim, a estrutura reguladora pode ser reconhecida, mesmo quando os mecanismos reais permanecem desconhecidos ou não são descritos, e o sistema é uma “caixa preta” definida somente pela entrada e pela saída. (BERTALANFFY, 2008, p. 43)

 

O processo descrito, conforme a citação, é conhecido como retroação, realimentação ou, em língua inglesa, feedback. Sua representação gráfica consta da figura 1.

Aliando o pensamento de rede com o modelo cibernético, é possível compreender a cognição como um processo de acoplamento entre o meio ambiente e o organismo. A interação, capturada pelos receptores, será enviada para o sistema de interpretação e controle. Se essa informação representar a situação desejada pelo organismo, nada será feito. Mas se ela representar uma situação indesejada, o sistema de controle expedirá uma ordem de atuação. Esta atuação tem como propósito reestabelecer a condição ideal.

Se a atuação for eficaz, ela irá alterar a forma como o organismo interage com o ambiente e, por conseguinte, os estímulos recebidos. Quando os novos estímulos recebidos representarem a situação desejada, o sistema de controle vai comandar a interrupção da atuação.

Há inúmeros exemplos cotidianos de mecanismos de realimentação. A comparação entre o fogão e o ferro de passar pode ser útil numa primeira aproximação. Ao acionar o queimador de um fogão, regula-se o fluxo de gás para a chama. O “fogo alto” é obtido pelo maior fluxo possível de gás, enquanto o “fogo baixo”, pelo menor. O que o cozinheiro deseja, ao usar o fogão, é a alteração da temperatura dos alimentos em processamento, a fim de promover certas reações químicas e físicas do seu interesse. Mas o fogão em si não consegue controlar a temperatura dos alimentos – ele simplesmente aplica neles o calor. Assim, cabe ao cozinheiro monitorar a situação dos alimentos e alterar o fluxo de gás à medida que os efeitos desejados são obtidos. O fogão, portanto, não é dotado de um sistema de controle por realimentação.

O ferro de passar funciona de outro jeito. Por ocasião do acionamento, seleciona-se em seu termostato qual é a temperatura desejada. No início o sensor de temperatura (receptor) recebe a informação de ferro frio e a envia ao termostato (sistema de controle). A situação de ferro frio é indesejada – o sistema de controle percebe isso e comanda uma ação (aquecer-se) para o mecanismo atuador (a bancada de resistências elétricas, responsável por converter energia elétrica em térmica). Quando a temperatura-alvo é atingida, o sistema de controle cessa o comando de aquecimento.

O ferro de passar é, portanto, um dispositivo que funciona por meio de um mecanismo de realimentação, e seu sistema de controle o comanda em função do propósito estabelecido pelo seu criador, o fabricante, e dos ajustes estabelecidos pelo seu usuário (no caso a temperatura desejada). Considerando que, segundo as palavras de Bertalanffy (2008), esses mecanismos se aplicam também à biologia, é pertinente se perguntar nesse momento o que difere o sistema de controle de um ferro de passar do equivalente instalado em um organismo vivo e, em última instância, da categoria do nosso interesse – o ser humano.

 

O CONTROLE PELO EQUILÍBRIO

Os organismos vivos contam com um sistema de controle por realimentação (WIENER, 1998) cujo estado desejado é o equilíbrio com o ambiente, processo denominado homeostase (CANON, 1932, p. 24). O neurocientista português Antônio Damásio (2011) bem sintetiza a relação entre a homeostase e o controle da vida ao afirmar que, de um modo geral, o êxito de todo o organismo vivo pode ser determinado pelo seu sucesso em atingir a maturidade reprodutiva e que a homeostase seria o mecanismo de controle central para obter esse sucesso.

Falando sobre um organismo complexo como o ser humano, um vasto conjunto de parâmetros são controlados, incluindo, por exemplo, os níveis de concentração das substâncias que circulam no corpo e outras variáveis como temperatura e acidez. O sistema funciona por meio de faixas de regulação, cada uma delas composta por vários setores. O setor ideal, que podemos imaginar usualmente no centro da escala, circunscreve os valores em que o organismo pode funcionar de modo mais eficiente, segundo as suas peculiaridades. Nos extremos da escala, “a viabilidade do tecido vivo declina, e o risco de doença e morte aumenta” (DAMÁSIO, 2011, p. 69). Desse modo, uma questão central para a vida é a necessidade constante de tomar medidas para manter ou reconduzir os parâmetros de funcionamento para os setores ideais de suas faixas de regulação. Estes, portanto, precisam ser desejados pelo organismo para assegurar a sua existência. É o caso do homem, que, ao sentir frio, “tem vontade” de agasalhar-se, para sair do setor indesejado, e o fará até que a temperatura confortável seja atingida (o setor desejado).

Destarte não nos surpreende que Damásio (2011) tenha proposto um papel determinante para a homeostase nos processos de cognição e ação do homem:

 

Os valores que os humanos atribuem a objetos e atividades teriam, assim, alguma relação, não importa o quanto ela seja indireta ou remota, com estas duas condições: primeiro a manutenção geral do tecido vivo dentro da faixa homeostática apropriada ao seu contexto corrente; segundo, a regulação específica requerida para que esse processo funcione dentro do setor da faixa homeostática associado ao bem-estar, levando-se em conta o contexto corrente. (DAMÁSIO, 2011, p. 69)

 

Essa afirmação tem profundos impactos no decorrer desta análise, pois determina que, para cada indivíduo, certos objetos têm maior importância para o sistema sensorial e constituem alvos prioritários da atenção. E, de modo análogo, há predileção por certas ações em detrimento de outras. A experiência cotidiana e uma boa sorte de trabalhos produzidos por filósofos e cientistas corroboram a ideia da cognição e ação seletivas como características do ser humano (e de outros animais também).

 

A INVENÇÃO DO FUTURO

Ao concluir suas considerações sobre a importância primordial da homeostase, Damásio questiona a suficiência do mecanismo de realimentação (feedback) na gestão da vida e propõe que a emergência do pensamento consciente é fruto da necessidade de implementar um mecanismo mais sofisticado – o de feedforward ou antecipatório – para “permitir aos organismos prever esses desequilíbrios e motivar a exploração de ambientes que provavelmente oferecem soluções” (DAMÁSIO, 2011, p. 64).

O mecanismo antecipatório funciona do seguinte modo. O organismo detecta sinais no ambiente que indicam a possibilidade de, no futuro, uma determinada condição se concretizar, seja ela desejada ou indesejada. No primeiro caso (condição desejada) ele é instigado a tomar medidas no presente para (1) aumentar a probabilidade de ocorrência do evento e (2) se posicionar previamente para melhor explorar as vantagens decorrentes. No segundo caso, diante da perspectiva contrária, deve ele planejar e executar medidas para (1) evitar que a condição indesejada se instale e (2) mitigar os seus efeitos danosos.

A implementação desse tipo de mecanismo exige um processamento de informação mais avançado, disponível apenas em organismos multicelulares equipados com neurônios. Estas células especiais contam com prolongamentos para a recepção de sinais bioelétricos (dentritos) e um único para a transmissão (axônio). Em associação com os gliócitos, os neurônios formam complexos circuitos de comando e controle que funcionam integrados aos demais controles do organismo (de natureza química).

 

COGNIÇÃO HUMANA

Dawkins (2009) acredita que, possivelmente, a consciência sobre o futuro tenha sido responsável pela revolução cultural humana batizada de “O Grande Salto para Frente” datada em 40.000 anos a.C. Na sua visão, a história evolutiva do homem foi profundamente marcada pela capacidade de conceber e comunicar ao outro as ideias centrais do sistema antecipatório – o futuro e a incerteza. Na diferença entre “a lagoa que nós dois podemos ver” e “quem sabe existe uma lagoa do outro lado do morro”, reside o salto sociocultural da capacidade de planejar conscientemente e coletivamente o futuro pela manipulação de abstrações, o que hoje o senso comum conhece como imaginação.

Mas tal como afirma Dawkins (2007), a evolução é cumulativa e progressiva, e assim novas capacidades são usualmente construídas a partir da adaptação dos mecanismos anteriores existentes. No caso do homem, a resposta foi o advento da homeostase sociocultural, tal como esclarece Damásio:

 

A reflexão consciente e o planejamento da ação introduzem novas possibilidades no governo da vida acima da homeostase automatizada, em uma sensacional novidade da fisiologia. A reflexão consciente pode inclusive questionar e modular a homeostase automática e decidir sobre os limites homeostáticos ótimos em um nível que é superior ao necessário para a sobrevivência e que conduz ao bem-estar com maior frequência. O bem-estar sonhado e esperado tornou-se uma ativa motivação das ações humanas. A homeostase sociocultural adicionou-se como uma nova camada funcional da gestão da vida, mas a homeostase biológica permaneceu. (DAMÁSIO, 2011, p. 356)

 

Entretanto, antes de prosseguir, cabe fazer neste momento um balanço geral sobre quais capacidades cognitivas são necessárias para sustentação da vida humana. Registra-se aqui o convite para o exercício de uma sequência lógica de encadeamentos, a partir de alguns conceitos já citados.

O homem precisa lidar com estímulos, que são a entrada dos sistemas de realimentação e precisa lidar com anomalias, que são as entradas do sistema antecipatório. Esta divisão é didática, e obedece a terminologia empregada na Teoria Geral dos Sistemas, já que não possuímos canais específicos para estímulos e anomalias. Todos eles são sinais em nossos sentidos. Um único sinal pode, inclusive, servir como estímulo para uma ação imediata e anomalia para os cálculos do futuro.

No que tange ao mecanismo de feedback, os sinais são detectados a partir dos sensores disponíveis e há necessidade de uma memória, a serviço do sistema de controle, composta de vasta biblioteca de faixas homeostáticas e de modos de resposta aos desequilíbrios que por ventura venham a ocorrer.

No sistema antecipatório (feedforward), o tratamento das anomalias requer mais do que isso, pois as conclusões sobre o futuro demandam a formulação de cenários e a imaginação do que pode acontecer, incluindo aí o próprio sujeito. Nesse caso, a biblioteca precisa contar com uma seção de objetos, uma seção detalhada sobre o protagonista (regularmente atualizada) e um catálogo de interações entre eles. Há necessidade também de um espaço de trabalho onde a dinâmica, a partir das anomalias detectadas, seja calculada – o palco em que os objetos interagem com o “eu” simulado –, daí emergindo as diversas narrativas possíveis em que o sujeito age de um ou de outro modo e que resultam em desfechos mais ou menos desejados. Todavia, não se pode esquecer de um detalhe importante, já citado. A homeostase se impõe como critério de valoração de objetos e atividades. Por conseguinte, no vasculhamento constante do ambiente, o organismo dá prioridade para certos sinais em detrimento de outros. A cognição é, portanto, seletiva e subjetiva, ocorrendo de acordo com as faixas homeostáticas “instaladas” no organismo.

As simulações e narrativas produzidas deste modo são destarte precárias, construídas a partir de dados parciais. Os dados são parciais por dois motivos. Primeiro porque os sentidos humanos não abarcam todos os fenômenos físicos observáveis na natureza. Cada espécie conta com um arsenal de sensores diferentes. Muitos sinais, para nós imperceptíveis, são detectados por outras espécies. O ornitorrinco, por exemplo, é capaz de localizar suas presas dentro d’água pelas alterações do campo magnético; os morcegos e os golfinhos contam com um sistema de telemetria ativa baseado no som; e os cães são capazes de ouvir sons em frequências inacessíveis para o ouvido humano.

Segundo porque, entre os sinais disponíveis, aproveitamos apenas a parte que interessa para a manutenção do equilíbrio com o ambiente. Para ser processado, o sinal deve ser de interesse para alguma faixa homeostática.

Os elementos propostos podem ainda ser divididos em duas categorias utilizando a natureza do registro como critério – os dados gravados no código genético compõem as disposições biológicas e acumulam os bilhões de anos de ajustes bem-sucedidos com o ambiente, conduzidos pelas espécies ancestrais. Os dados gravados na mente compõem as disposições socioculturais1 e correspondem ao conhecimento adquirido pelo processo de aprendizagem. Nas sociedades humanas, a transmissão desse conhecimento (ensino) de um indivíduo para outro teve um papel central na construção do mundo, tal como conhecemos, e nós, assim como outros animais, possuímos neurônios específicos para isso, os neurônios espelho. Mas, ao contrário do que o senso comum parece indicar, existe uma profunda interdependência entre os dois conjuntos de registros, já que:

 

Nessa ideia de que existem duas amplas classes de homeostase, a básica e a sociocultural, não se deve interpretar que esta última é uma construção puramente “cultural” enquanto a primeira é “biológica”. Biologia e cultura são totalmente interativas. A homeostase sociocultural é moldada pelo funcionamento de muitas mentes cujos cérebros foram primeiro construídos de certo modo sob a orientação de genomas específicos. Curiosamente, existem evidências cada vez mais numerosas de que os avanços culturais podem conduzir a profundas modificações do genoma humano. (DAMASIO, 2011 p. 357)

 

EMOÇÕES, SENTIMENTOS, PRAZER E DOR

Nossa digressão não apontou a necessidade de um elemento existente na experiência – a emoção. Há vasta literatura tratando do assunto e muitos pontos de vista diferentes. Mas Damásio (2012) define as emoções de forma simples e operacional: elas são modos de operação do corpo humano, imbricados no sistema antecipatório. A explicação, ainda segundo Damásio (2012) é a seguinte. Cada emoção representa uma variante de funcionamento do corpo, mais eficiente para lidar com determinado tipo de situação.

A ativação do modo de funcionamento é automática, sendo disparada pela detecção de determinados sinais pré-programados nas disposições biológicas e/ou socioculturais associadas à preparação do corpo para responder a determinadas circunstâncias. É, pois, um recurso adicional do sistema antecipatório, cuja a justificativa está provavelmente amparada na demanda por eficiência. Explico melhor.

Ao lidar com uma determinada realidade, supõe-se que o cérebro processe os sinais recebidos medindo-os simultaneamente em diversas réguas das faixas homeostáticas. Se as faixas homeostáticas controlam o processo de cognição e ação, diferentes estados emocionais só podem produzir comportamentos diferentes se ativarem diferentes conjuntos de faixas. Esse esquema hipotético é bem econômico se observarmos cuidadosamente. Um cérebro limitado em sua capacidade de processamento poderia dar conta de uma grande variedade de situações, alocando a preciosa atenção apenas às faixas necessárias para o momento.

Depois que a emoção é selecionada e altera o funcionamento do corpo, a consciência “fica sabendo” das mudanças ocorridas nos diversos órgãos, como, por exemplo, alterações do batimento cardíaco. Esta experiência consciente das alterações do corpo é batizada de “sentimento” (DAMÁSIO, 2012) e está inserida na ponte de entendimento entre os sistemas de controle bioquímicos e bioelétricos que existem no corpo, onde sensações prazerosas e dolorosas cumprem papéis indispensáveis.

 

O que agora percebemos como sensações de dor ou prazer, ou como punições ou recompensas, corresponde diretamente a estados integrados do tecido vivo em um organismo, sucedendo-se uns aos outros na atividade natural de gerenciar a vida. O mapeamento cerebral de estados nos quais os parâmetros de tecidos se afastam significativamente da faixa homeostática em uma direção não conducente à sobrevivência é percebido com uma qualidade que viemos a denominar dor e punição. Analogamente, quando tecidos funcionam na melhor parte da faixa homeostática é percebido com uma qualidade que viemos a denominar prazer e recompensa. (DAMÁSIO, 2011, p. 74)

 

SÍNTESE

É possível resumir estes indispensáveis achados de pesquisa do seguinte modo: a cognição funciona de acordo com as disposições biológicas e socioculturais. As disposições biológicas têm origem genética, e assim os seres humanos compartilham vasto acervo de disposições básicas comuns com seus concestrais (espécies que guardam, na árvore da vida, ao menos um ancestral comum). (DAWKINS, 2009)

As disposições socioculturais, por outro lado, são fruto de todo o processo de aprendizado do indivíduo, incluindo não só a sua educação formal mas toda a sua experiência de vida. Nesse caso, em populações que contenham milhões de indivíduos espalhados em diferentes nichos ambientais, haverá sensíveis diferenças entre os objetos apreendidos, o acervo de respostas e a escala de valoração aplicada.

As pessoas terão diferentes formas de ver o mundo em função das regiões em que moram, línguas que falam, profissões que exercem e religiões que professam. Notamos, uma vez mais, o todo construindo a parte, uma parte que carrega previamente os “todos” ancestrais em suas disposições biológicas. Recordo as limitações da apreensão individual de conhecimento ao afirmar aqui mesmo na Insight Inteligência que:

 

Os esquemas mentais determinam a forma como interpretamos o mundo e tratamos os dados recebidos, podendo captá-los ou ignorá-los por exemplo. A realidade em nossas mentes é, portanto, sem exagero ou aforismo, uma representação precária e incompleta da “verdade”, fortemente determinada pela forma como fomos educados a ver. Funciona de modo análogo ao processo científico formal, em que a escolha das evidências a serem pesquisadas e analisadas em um fenômeno depende da teoria que escolhemos para explicá-lo. (MARTINS, 2014)

 

PRÓTESES

Ao longo da história, as fronteiras da cognição e da ação foram ampliadas pela criatividade humana. Equipados com o sistema antecipatório, os homo sapiens puderam fazer mais do que a própria evolução exigira. A capacidade de vasculhar possibilidades de futuro, por meio de simulação, permitiu ao homem imaginar cenários impossíveis e viabilizá-los por novos métodos ou apetrechos, as chamadas próteses (BARTRA, 2014).

Com o auxílio de Bartra (2014), no que diz respeito aos processos analisados, define-se prótese como esquema mental ou instrumento material que permite o desenvolvimento ou a ampliação das capacidades biológicas potenciais. As próteses podem ser consideradas os maiores diferenciais da sociedade humana quando nos comparamos a outras espécies. Automóveis, espadas, cidades e livros permitem que façamos coisas extraordinárias.

Essa capacidade ampliada se realiza sempre por meio da associação binomial da prótese material (o instrumento propriamente dito) com a prótese mental (conjunto de instruções necessárias ao manuseio do equipamento). Um bom exemplo é a linguagem escrita (intangível, mental), cujo domínio é requisito para o uso de um livro (material).

Esta relação, contudo, não é exclusiva. Um mesmo objeto, manuseado por pessoas dotadas de diferentes próteses mentais, proporcionará diferentes capacidades. Uma ilustração apropriada pode ser extraída do filme “Os Deuses devem ter ficado loucos”, em que uma tribo africana, que jamais tivera contato com o mundo ocidental, vê cair dos céus uma garrafa de refrigerante (jogada pela janela de um avião). O estranho objeto é transparente como a água, mas é duro como pedra… pode ser usado para macerar alimentos ou para esticar couro de cobra. Com ele também é possível fazer sons soprando ou batendo – um verdadeiro presente dos deuses! Mas, para nós, é apenas uma garrafa de vidro vazia.

É curioso perceber como nos regozijamos ao ver artistas e inventores dando usos que nunca tínhamos pensado para materiais e objetos conhecidos. Deve fazer parte dos prazeres inatos do ser humano. Dos prazeres do feedforward. Mas nem tudo são flores nesse mundo da inovação.

As próteses foram incorporadas de um tal modo ao nosso estilo de vida que nos tornamos dependentes delas. A metrópole pode ser destacada como a maior das próteses coletivas operadas pelo homem. Dependemos de suas artérias para receber água e comida e de suas veias para despachar nossos resíduos. Sob sua pele vivemos em pequenas células, os “apartamentos”, e para ela vendemos nossa força de trabalho.

 

O TODO

O conhecimento técnico-profissional produziu máquinas muito antes da ciência produzir explicações. Assim, logo ao nascer, a abordagem cartesiana encontrou na sociedade moderna condições muito favoráveis para emergência de um campo novo, híbrido de ciência e técnica mecanicistas – a tecnologia.

Embora, o século XXI tenha observado o alvorecer do pensamento sistêmico, o reducionismo mecanicista há muito ditara os costumes da administração científica e da economia política, delineando com lápis grosso os contornos da prática social. O modo de produção taylorista impôs ao homem a conformidade com o ritmo da máquina, uma inversão curiosa de papéis entre criatura e criador. A economia construiu todo o seu arcabouço a partir da premissa errada do homem como agente econômico racional (KAHNEMAN, 2012). A justiça assumiu a testemunha como gravador automático de cenas, quando se sabe hoje que as memórias podem ser alteradas (COSTANDI, 2013).

As elites dirigentes tratavam (e ainda tratam em boa parte do mundo) os homens como “ferramentas animadas”, termo que Aristóteles utilizava para se referir aos escravos (GERMANO, 2011). A lógica da prótese é extremamente poderosa – induz facilmente a visão do outro exclusivamente como força de trabalho, e o quer previsível, regulável e programável – a antítese daquilo que o pensamento sistêmico concebe para a vida.

Observando as redes de relações sociais de hoje, é possível ver que o mundo experimenta uma complexidade sem precedentes. Os homo sapiens nunca foram tantos, nunca foram tão conectados e nunca antes tiveram um inventário tão poderoso e intrincado de próteses (também arranjadas, em sua maior parte, em grandes redes). Não há consenso na compreensão dessa escala transformadora, mas há uma boa sorte de evidências apontando esse primata de poucos pelos como uma força global e irresistível (STEFFEN, 2011).

 

O ESCLARECIMENTO

Somos muitos e vemos o mundo de diferentes modos. Cada um desses modos será uma representação seletiva e parcial da realidade, porque se beneficia de um conjunto limitado de sensores e próteses materiais e os interpreta a partir de diferentes disposições socioculturais, o lócus das próteses intangíveis. As representações coletivas, construídas a partir de grupos multiculturais, podem ser muito mais ricas e capazes de empoderar individualmente seus membros pelo entrecruzamento de visões – o melhor caminho para lidarmos com os desafios impostos por esse mundo de inédita complexidade.

No final das contas, a competência que urge por espaço em nossas práticas é bem simples: reconhecer que o inventário individual de disposições socioculturais é limitado e transmitido com propósitos alheios à vontade de quem recebe.2 Nossa razão individual representa o modo de pensar de outros e a história de suas interações com mundos ancestrais. Sabe-se Deus quais dessas práticas e concepções são válidas para mim, para você e para os outros sete bilhões de universos particulares que coabitam o planeta.

Destarte, para exercer de fato o livre arbítrio, é preciso que o sujeito arregace as mangas e explore outras culturas, em busca de novas disposições e, portanto, de novas formas de ver e interagir, capazes de enriquecer a sua visão e, por conseguinte, a sua ação no mundo. Desse modo, ganhamos o poder da escolha libertando a vontade de sua prisão invisível, reducionista e cartesiana. Tal como prescreve Immanuel Kant (1724-1804) “preceitos e fórmulas, estes instrumentos mecânicos do uso racional, ou antes do abuso, de seus dons naturais, são os grilhões de uma perpétua menoridade. Quem dele se livrasse, só seria capaz de dar um salto inseguro, mesmo sobre o mais estreito fosso, porque não está habituado a este movimento livre” (KANT, 2006 apud KLEIN, 2009, p. 212). Pois se faz preciso dar o próximo passo evolucionário, mesmo que cambaleante, na direção de um homo “que sabe que não sabe”.

Ouso afirmar, por fim, que a liberdade para aprender é a única liberdade primária do homem. Nela, todas as demais se amparam. Desse modo, decidir aprender é, em essência, decidir ser.

Livre.

 

O autor é capitão de corveta da Marinha de Guerra do Brasil e mestre em Defesa Civil pela Universidade Federal Fluminense (UFF).

bragamartins@gmail.com

 

NOTAS DE RODAPÉ

 

  1. É equivocada a ideia de que as disposições socioculturais são exclusividade do homem. Os chimpanzés, por exemplo, também dispõe de cultura, e várias de suas populações demonstram comportamentos peculiares como o manuseio de ferramentas simples, que são transmitidos entre gerações pela interação social. (DAWKINS, 2009)
  2. Essa competência é conhecida como capacidade metacognitiva. Requisito indispensável para que as pessoas, como membros de equipes, sejam capazes de reconhecer as limitações do seu conhecimento e assim valorar a contribuição do outro.

 

BIBLIOGRAFIA

BARTRA, Roger. Antropology of the Brain: conscioness, culture and free will. Cambrigde: Cambrigde University Press, 2014.

BERTALANFFY, Ludwig. Teoria Geral dos Sistemas: fundamentos, desenvolvimento e aplicações. Tradução de Francisco Guimarães. Petrópolis, RJ: 2008.

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CAPRA, Fritjof; LUISI, Pier L. A Visão Sistêmica da Vida: uma concepção unificada e suas implicações filosóficas, políticas, sociais e econômicas. Tradução Maria Teruya Eichemberg, Newton Roberval Eichemberg. São Paulo: Cultrix, 2014.

COSTANDI, Moheb. Corrupted Memory. Nature, v. 500, n. 15, p. 268-270, 2013. Disponível em <http://www.nature.com/polopoly_fs/1.13543!/menu/main/topColumns/topLeftColumn/pdf/500268a.pdf>. Acesso em 27 fev. 2015

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DAWKINS, Richard. A Grande História da Evolução. Tradução de Laura Teixeira Motta. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

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