Em cena: críticas de Ken Loach ao Neoliberalismo

Em cena: críticas de Ken Loach ao Neoliberalismo

Paula Sandrin, Francisco Veras e Rachel Pires do Rego

Imagens de Rachel Pires do Rego (colagem sobre papel vergê)

Exploração, resistência e luta dos trabalhadores: esses são alguns dos temas-chave dos filmes dirigidos pelo cineasta britânico Ken Loach. Da Guerra Civil Espanhola (“Terra e Liberdade”, 1995) à contrainsurgência aos sandinistas na Nicarágua (“Uma Canção para Carla”, 1996), da luta pelo direito de sindicalização nos Estados Unidos (“Pão e Rosas”, 2000) à Guerra de Independência da Irlanda (“Brisa de Mudança”, 2006), Loach retrata oprimidos de contextos diversos não como vítimas passivas, mas como pessoas que, coletivamente, batalham por um mundo mais justo. Seu tema favorito, no entanto, é a classe trabalhadora britânica, suas alegrias e tristezas, conquistas e derrotas; temas retratados em filmes como “Chuva de Pedras” (1993), “Meu Nome é Joe” (1998), “Felizes Dezesseis” (2002) “Mundo Livre” (2007), “A Parte dos Anjos” (2012), “Espírito de 45” (2013) “Eu, Daniel Blake” (2016) e “Você Não Estava Aqui” (2019).

Os ideais socialistas que Loach promove em seus filmes também balizam sua vida fora dos sets de filmagem. Na juventude, foi associado a grupos trotskistas britânicos, como a Liga Trabalhista Socialista, os Socialistas Internacionais e o Grupo Marxista Internacional. Foi também membro do Partido Trabalhista por 30 anos até deixá-lo em meados da década de 1990, enojado com o governo Tony Blair. Só retornou ao partido em 2017, então sob a liderança de Jeremy Corbyn, cujo programa socialista tinha a aprovação de Loach – Corbyn acabaria expulso da legenda, em 2021, por não ter “renegado” membros do partido acusados de antissemitismo.[1]

Loach não tem medo de criticar poderosos, sejam eles líderes partidários, Israel ou a monarquia britânica. Em 1977, recusou sua nomeação como oficial da Excelentíssima Ordem do Império Britânico (OBE, em inglês), por simbolizar tudo que considera desprezível: o clientelismo, a deferência à monarquia e o Império Britânico, “um monumento de exploração e conquista”, em suas palavras.[2]

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Este ensaio irá focar em três filmes de Ken Loach – “Espírito de 45” (2013), “Eu, Daniel Blake” (2016) e “Você Não Estava Aqui” (2019) – que podem ser lidos como uma trilogia não intencional por parte do diretor, sobre a ascensão e queda do estado de bem-estar social no Reino Unido. Em conjunto, as três obras ajudam a fazer sentido dos efeitos do neoliberalismo nas redes de proteção social, nas condições de trabalho e nos corpos e mentes de uma classe trabalhadora crescentemente precarizada e desmoralizada. Apesar de centrado no contexto britânico, os filmes tecem um panorama das cambiantes relações entre Estado, capital e trabalho que tem similaridades com processos em outros lugares do mundo.

A trilogia pode ser lida como parte lamento, parte denúncia e parte exortação para fazermos diferente. Como otimista, Ken Loach nos oferece, nos três filmes, subsídios para resgatarmos o espírito de coletividade perdido após 40 anos de políticas neoliberais.

Se, por um lado, a trilogia tem o mérito de nos ajudar a mapear os efeitos nefastos do neoliberalismo e de nos relembrar de ideais que poderiam ajudar a modificar o atual estado de coisas, por outro, ela não nos ajuda a entender a emergência dos populismos de direita e extrema direita atuais, que parecem mais atraentes para a combalida classe trabalhadora do que o espírito socialista que ainda anima Ken Loach. Afinal, grande parte da classe trabalhadora britânica, precarizada e ressentida, manifestou sua insatisfação votando a favor da saída do Reino Unido da União Europeia, atraída por uma campanha com tons nacionalistas e xenófobos, e não coletivistas e inclusivos.

O propósito deste ensaio é percorrer os filmes da trilogia em duas partes. Na primeira parte, daremos ênfase ao que a trilogia nos mostra e nos ajuda a entender. Na segunda parte, iremos enfatizar os seus silêncios, aquilo que ela não mostra, mas que é crucial para fazermos sentido da atmosfera afetiva que culminou no voto a favor do Brexit. Dentre os silêncios mais notórios e consequenciais, estão as hierarquias raciais no Reino Unido.

Ao retratar a classe trabalhadora britânica como predominantemente branca e preocupada quase que exclusivamente com a deterioração das suas condições materiais de vida, os filmes se tornam incapazes de capturar outras perdas sofridas por essa classe; perdas essas que são a chave do entendimento sobre a ascensão de populismos de direita e do voto a favor do Brexit.

Parte I – A versão do diretor

Comecemos pelo primeiro filme da trilogia, o documentário “Espírito de 45”, de 2013. O filme retrata o período, a partir do fim da Segunda Guerra Mundial, no qual passou a vigorar um “pacto nacional” entre Estado, empresariado e trabalhadores organizados (Shilliam 2018), que permitiu a criação do estado de bem-estar social, até sua desestabilização, a partir do governo de Margareth Thatcher.

O espírito de 45 é representado como otimista e alegre, um contraste nítido com o período sofrido da Segunda Guerra e anterior a ela. A abertura do filme intercala imagens de pessoas cantando, dançando e se beijando nas ruas de Londres ao som de jazz, comemorando o fim da guerra, com imagens da blitz – prédios em chamas, escombros e pessoas feridas – e relatos dos horrores sofridos.

O filme nos mostra como a vida da classe trabalhadora no período entre guerras era desoladora: famílias inteiras dividindo cômodos escuros e úmidos infestados de mofo, pulgas e ratos; mortes prematuras de mães e crianças; crianças sujas e rotas; trabalhos intermitentes; dificuldade de acesso a comida e serviços médicos, caros demais para pessoas com renda ínfima.

O fascismo havia sido vencido, mas não a pobreza, o desemprego e a desigualdade que assolavam o país desde o fim da Primeira Guerra. Mas a classe trabalhadora não estava mais disposta a ficar na fila do desemprego esperando por migalhas insuficientes para manter uma vida digna: o humor prevalecente era marcado pelo desejo de não experimentar “nunca mais” a guerra e tampouco uma paz gerida por ricos para ricos, que controlavam as indústrias, as minas, os bancos, a imprensa.

A vitória na guerra é apresentada como um catalizador de energias devotadas a vencer os problemas internos do país. O senso de coletividade que impulsionou o esforço de guerra agora deveria ser canalizado para reconstruir o país de forma a melhorar a vida da classe trabalhadora.

Como diz um dos entrevistados, enquanto a classe trabalhadora britânica vivia nas piores favelas da Europa, a Grã-Bretanha, o maior império do mundo, derrotava o fascismo. “São pessoas como nós que fizemos o trabalho da guerra; são pessoas como nós que farão o trabalho da paz”. Se era possível ter pleno emprego matando alemães, porque não seria possível ter pleno emprego construindo casas, escolas, recrutando professores, enfermeiros, médicos? O espírito de 45 era o espírito do “tudo é possível”. Em vez de cobiça e egoísmo, um por todos e todos por um.

Temendo que o espírito de coletividade que se intensificava pudesse levar à vitória do Partido Trabalhista nas eleições de 1945, os conservadores imprimiram cópias do livro “O Caminho da Servidão”, de Friedrich Hayek, um dos pais fundadores do neoliberalismo. A ideia avançada era que interferências, ainda que mínimas, do estado na economia levariam ao caminho do totalitarismo, da Alemanha nazista, da União Soviética stalinista. Winston Churchill instava a população a rejeitar os “socialistas extremos” e a marchar com ele sob a bandeira da liberdade, da prosperidade e da honra nacional. A campanha de medo não funcionou, e os trabalhistas ganharam de lavada, com uma maioria de 200 assentos no Parlamento.

Em 1946, é criado o National Health Service, um sistema de saúde público e gratuito para todos, “do berço ao túmulo”; em 1947, as minas de carvão foram nacionalizadas; e, em 1948, os serviços de transporte. Até o final da década, eletricidade e gás se tornaram propriedade pública, geridos por autoridades locais. Para solucionar conjuntamente os problemas de moradias insuficientes e insalubres e do desemprego, centenas de milhares de novas casas, com banheiros e jardins individuais, foram construídas.

O filme salta dos últimos anos da década de 1940 diretamente para 1979, quando Margareth Thatcher é eleita, e o “pacto nacional” começa a ser desmantelado, junto do estado de bem-estar social. Pouco nos é contado sobre os anos 50, 60 e 70: apenas que a indústria britânica sofreu com ausência de investimento e superprodução mundial e se tornou pouco competitiva. Não há menção aos governos trabalhistas e conservadores subsequentes, ao período de estagnação econômica e inflação, ao “Inverno do Descontentamento” de 1978 e 1979, marcado por greves gerais.

Pulamos para o início da era neoliberal, na qual ataques intelectuais ao keynesianismo, à nacionalização e à intervenção estatal na economia vão permitir a emergência do individualismo, da desregulamentação e da privatização dos vários setores, incluindo transporte, eletricidade e gás. Estado e empresariado, dois dos vértices do triângulo do “pacto nacional”, se unem e vencem a queda de braço com os trabalhadores, representados pelos sindicatos. A polícia reprime greves com brutalidade, minas de carvão são fechadas, indústrias automatizadas ou realocadas para países com mão de obra mais barata; salários, empregos e serviços públicos sofrem. Comunidades inteiras se tornam cidades-fantasma. O espírito de 45 é quebrado e a classe trabalhadora é deixada para trás.

Imagem 1 – Unidos, venceremos!

“Eu, Daniel Blake”, de 2016, o segundo filme da trilogia, retrata, por meio da vida de seu protagonista, os efeitos do estilhaçamento do espírito de 45.

Daniel Blake trabalhou a vida toda como carpinteiro, mas, em função de um problema de saúde, não pode mais exercer a profissão. Blake luta pela garantia de seus direitos básicos, um auxílio-doença ou um auxílio-desemprego, mas encontra uma série de obstáculos. Analfabeto digital, esbarra nas burocratizações e problemas de acessibilidade para preencher o formulário do auxílio. Aquela rede de proteção generosa forjada no pós-guerra se tornou burocrática e desumana. Depois de fazer uso de todos os canais “legítimos” de apelação – com toda a miséria e sofrimento diários –, Blake finalmente “quebra” e comete um “ato de vandalismo”: grafita o muro da agência que administra benefícios sociais com a frase “Eu, Daniel Blake, exijo minha data de apelação antes que eu morra de fome”.

Mais do que demandar o cumprimento de seus direitos básicos, ele denuncia os abusos da burocratização que o impedem de conseguir o auxílio e que o fazem esperar em regime de penúria. A ironia do sistema neoliberal: é exigido que o indivíduo seja cada vez mais autossuficiente e independente, que tome a sua vida nas suas mãos, mas quando Daniel vai, então, protestar com a lata de spray na mão, clamando e lutando por seus direitos, ele é reprimido, detido e advertido pela polícia. Blake é prontamente liberado por não ter antecedentes criminais, mas morre de um ataque cardíaco justamente no dia de sua audiência.

Se em “Espírito de 45” vemos coletividades protestando, fazendo greves e comemorando, em “Eu, Daniel Blake” vemos pessoas sozinhas, contando com a solidariedade eventual de um vizinho, de colegas de biblioteca, de um atendente mais humano. Apenas duas cenas mostram pessoas reunidas: na fila gigantesca para obter cesta básica e transeuntes que param para observar, fotografar, aplaudir, condenar ou rir do “vandalismo” de Blake. Apenas um transeunte se junta ao protesto, os outros mantém distância.

Atos de solidariedade acontecem principalmente entre Blake e Katie, desempregada e mãe solteira, que luta para pagar as contas e alimentar sua família. Eles passam a jantar juntos, dividindo a comida, Blake faz pequenos consertos na casa de Katie e brinquedos de madeira para as crianças, cuida delas enquanto Katie busca emprego e ela também retribui os favores. A amizade entre eles ajuda a tornar suas vidas um pouco mais suportáveis.

Se em “Espírito de 45” há otimismo, abundância e organização – planejamento urbano com casas confortáveis com jardins sendo construídas – em “Eu, Daniel Blake” há desolação e desorganização: lixo pelas ruas, casas deterioradas, móveis sendo vendidos para pagar dívidas. Podemos dizer que “Eu, Daniel Blake” captura o “espírito de 2016”, ano do filme e do Brexit: uma classe trabalhadora quebrada, material e psiquicamente, atomizada, cada um lutando pela própria sobrevivência, contando apenas com gestos de solidariedade privada aqui e acolá.

Imagem 2 – Mais água no feijão

Já no trabalho ficcional mais recente de Ken Loach, “Você Não Estava Aqui” (2018), são retratados outros efeitos do neoliberalismo: a flexibilização e precarização do trabalho. No filme, uma família constituída por pai (Ricky), mãe (Abbie), filho (Seb) e filha (Liza) tenta adaptar suas vidas às condições contemporâneas de trabalho que prometem autonomia e flexibilidade sob os slogans de “ser o próprio chefe”, “mestre do próprio destino”.

Ricky começa a trabalhar como prestador de um serviço de entrega que remunera de acordo com a quantidade e velocidade de entregas. Não há vínculo empregatício (“você trabalha conosco, não para nós”, é dito para Ricky na entrevista de emprego) nem salário fixo, apenas honorários, se cumpridas as metas. Ricky é atraído pelas promessas de autonomia e alta remuneração e movido pelo desejo de reaver a casa própria, perdida durante a crise de 2008.

No entanto, a dívida da família aumenta quando Ricky decide comprar a própria van para realizar as entregas, em vez de alugar uma das vans da empresa, com base na crença de que isso seria mais financeiramente vantajoso. Ricky acredita que tudo vai ficar melhor, em seis meses, um ano, dois anos, quando as dívidas forem pagas e o dinheiro acumulado.

No entanto, ser autônomo implica em arcar com custos e riscos. As “regras do jogo” são apresentadas já na primeira cena do filme, em que seu recrutador avisa que aquele trabalho distingue os perdedores dos guerreiros. A performance de Ricky vai ser monitorada por meio de um instrumento, caríssimo, de escaneamento de pacotes, que, ao contrário da van, não pertence a ele, mas à empresa. Metaforicamente, o contexto se assemelha com um jogo simples de videogame: há uma espécie de controle com comandos; mais horas jogando equivalem a mais pontos ou mais moedas; a velocidade possui um peso determinante; e a sobrevivência (no caso, a entrega de pacotes) é o que importa, mesmo com sangue, hematomas e arranhões.

Ricky, que no curso do filme urina em garrafas para não perder tempo, é brutalmente espancado em um assalto à sua van. Mas o pior não foi apanhar, e sim descobrir que ele tem que arcar com os custos do instrumento de escaneamento quebrado no assalto. Como não há direito a repouso remunerado por acidente no trabalho, e ele precisa cumprir metas para saldar suas dívidas, agora ainda maiores, ele decide continuar trabalhando, mesmo estando terrivelmente ferido. Cada atraso na entrega, cada meta não cumprida, cada hora ou dia de trabalho perdido precisa ser compensado com mais horas de expediente, não importa em quais condições. Um dos orgulhos coletivos do pós-Segunda Guerra, o sistema de saúde, também não é mais o mesmo. Quando Ricky precisou de um hospital, enfrentou descaso no atendimento e horas de espera.

A mãe da família, Abbie, trabalha sob uma lógica parecida: provê serviços de cuidado a pessoas idosas ou com deficiência e só recebe pelas visitas que faz. Também há a necessidade de gerenciamento do seu próprio tempo e é preciso rapidez para atender uma quantidade de pessoas considerável para fechar uma renda razoável. Seu horário de trabalho é “flexibilizado”: ela trabalha de 7h às 21h30.

Ricky e Abbie estão sempre em trânsito, cansados, executando múltiplas tarefas, tentando otimizar o tempo escasso, arrastando seus corpos pesados entre locais de trabalho e retornando ao lar para desmaiarem sentados na frente da televisão. Enquanto pai e mãe correm contra o tempo, os filhos do casal ficam sozinhos em casa. A vida da família é reconfigurada: o pai não consegue mais participar das reuniões de escola dos filhos, a mãe precisa estar preparada para atender um paciente a qualquer momento, inclusive quando a família consegue, em um raro momento, estar reunida em casa para jantar. Essa nova estrutura afeta a todos. Ricky e Abbie se tornam nervosos, desesperados, esgotados; Seb, o filho adolescente, expressa sua raiva em conflitos diretos com os pais e grafitando muros da cidade; Liza, a filha mais nova, tem problemas para dormir.

Ricky e Abbie estão quase sempre uniformizados, a vida toda gira em torno do trabalho. Se em “Eu, Daniel Blake”, na ausência de trabalho, havia oportunidades para lazer e descanso – quando o protagonista joga videogame com o vizinho e confecciona brinquedos para os filhos de Katie – aqui esses momentos são furtivos, entre uma entrega/visita e outra: Ricky divide um sanduíche com a filha dentro da van; a família se junta à Abbie em uma visita noturna de emergência.

A única fonte de solidariedade e rede de proteção é a família, e a solidão é um sentimento constante. Se em “Eu, Daniel Blake” o senso de coletividade estava esgarçado, mas ainda era possível contar com a eventual solidariedade de vizinhos, amigos e estranhos, em “Você Não Estava Aqui” não há amizade entre os “autônomos”, é cada um por si, e nem relacionamento com clientes: as entregas são rápidas, e grande parte da comunicação é áspera e violenta. De forma similar, no trabalho de Abbie, pessoas idosas ou com alguma deficiência aparentam viver sozinhas ou na presença de uma funcionária temporária, sem uma figura familiar presente.

A promessa de uma vida melhor, que seria possibilitada por trabalhos flexíveis como os de Ricky e Abbie, gera um otimismo cruel: um apego a um modo de vida que, em vez de levar à satisfação dos desejos, constitui uma ameaça ao bem-estar (Berlant 2011). A falta de opções os coloca em um cenário de alternativas infernais. Seus empregos exigem o tempo todo que eles se doem cada vez mais, trabalhem mais horas, em finais de semana, não tirem folgas, não tenham férias, aumentem a carga de trabalho como se a maior produtividade, eficiência e rapidez fossem proporcionar uma vida melhor. No entanto, as perspectivas e a esperança somem.

Essa é uma realidade que, apesar da velocidade, não se move ou, como no filme, piora. Não há mais esperança de um futuro melhor, como aquela que nutria o espírito de 45. Seb, o filho adolescente, não quer ir para a universidade, pois sabe que aumentaria a dívida da família e não acredita que um diploma universitário lhe renderia um bom emprego. Ele diz ao pai que simplesmente deseja que “as coisas voltassem a ser como eram”. Como eram, provavelmente, na era retratada no primeiro filme da trilogia. Em “Você Não Estava Aqui”, o presente não existe, o futuro está enlutado e o passado é pura nostalgia.

Imagem 3 – Farinha pouca, meu pirão primeiro

A nostalgia de Ken Loach pelo espírito de 45 fica mais clara quando uma das idosas atendida por Abbie exibe com orgulho, em uma das visitas, uma foto de um clube de trabalhadores que alimentava até 500 pessoas por dia durante a greve de mineradores de 1984. Essa cena serve para relembrar o espectador que um mundo melhor já foi possível. Se pudermos resgatar os cacos daquele espírito quebrado e uni-los novamente, será possível trazer esse mundo de volta.

Um dos entrevistados no primeiro filme da trilogia afirma que “esse sistema no qual vivemos é absolutamente podre e corrupto e quando mais rápido for embora, melhor”. Outro entrevistado diz que o desejo pelo controle democrático da economia constitui a essência do socialismo, mesmo que não receba esse nome, e que está presente de forma atomizada por todo o espectro político. A afirmação é seguida por imagens do Movimento Occupy.

As cenas finais do “Espírito de 45” mesclam o áudio do discurso de Clement Attlee por ocasião da vitória trabalhista nas eleições de 1945 – no qual o primeiro-ministro diz que, pela primeira vez na história do país, um governo com políticas socialistas havia sido eleito – com aquelas imagens de pessoas cantando, dançando e se beijando nas ruas em comemoração pelo fim da guerra que abriram o filme, só que agora em cores. A sequência de falas e imagens nos transmite a seguinte mensagem: a classe trabalhadora está farta de sofrer sob a hegemonia do capitalismo neoliberal; essa insatisfação pode nos conduzir em direção à retomada do espírito socialista e coletivo de 1945.

No entanto, como sabemos, a insatisfação da classe trabalhadora britânica com 40 anos de neoliberalismo não deu origem ao socialismo, mas ao Brexit. Foram forças políticas de direita que conseguiram capturar e canalizar essa insatisfação com mais eficiência. Para entendermos o que parece ser um paradoxo, precisamos incluir um fator que quase não aparece nos filmes de Ken Loach: a raça.

Parte II – Os cortes do diretor

Em todo o “Espírito de 45”, aparece apenas uma única pessoa negra: aos 89 minutos, vemos a foto de um homem, em uma manifestação, com o punho levantado, na frente de dois policiais. Esse silenciamento, que poderia parecer esquisito, dado que mais de meio milhão de pessoas de ex-colônias britânicas migraram para o país a partir do “British Nationality Act” de 1948, justamente o período retratado no documentário, é, na verdade, corriqueiro e sintomático da fusão entre classe e raça no imaginário britânico. Os filmes de Ken Loach são produto desse imaginário e ajudam a fortalecê-lo.

No livro “Race and the Undeserving Poor” (2018), Robbie Shilliam nos mostra como, historicamente, a classe trabalhadora britânica passou a ser definida em termos de raça. Em particular, Shilliam evidencia que houve no passado e que há no presente uma diferenciação entre os pobres considerados merecedores (de políticas sociais e trabalhistas) e os pobres não merecedores. Os pobres merecedores, considerados dignos (de ajuda e direitos) foram historicamente racializados como brancos, ao passo que os não merecedores, indignos, foram racializados como negros.

Mesmo no período do pós-guerra até a década de 1970, enquanto vigorava o estado de bem-estar social, a distinção entre merecedores e não merecedores foi fortificada. Aquele “pacto nacional” entre Estado, empresariado e trabalhadores organizados, norteado pela ideia da social-democracia nacional-keynesiana, que garantia o pleno emprego e mantinha uma rede de proteção social, não beneficiava a todos de forma equitativa.

Os imigrantes de ex-colônias britânicas e seus descendentes não usufruíram daquela inédita condição de bem-estar retratada em “Espírito de 45”, já que “a chegada de negros e asiáticos foi considerada indigna de segurança social e de bem-estar”, pois essas pessoas foram “associadas a potencial de anarquia e desordem (Shilliam 2018, p. 82 e p. 96, tradução livre). Por isso, esses grupos ocuparam posições mais precárias de empregabilidade e receberam acesso mínimo a bens públicos, principalmente moradia, pois eram considerados menos capazes de cuidar das propriedades, enquanto trabalhadores brancos ocuparam empregos mais seguros, bem pagos e desejáveis (Shilliam 2018, p. 103).

Nem todos os trabalhadores brancos, é claro, ocuparam tais postos de trabalho, mas a divisão racializada do trabalho os favoreceu de forma institucionalizada, mesmo que informalmente (Shilliam, 2018, p. 103). Nesse período do pós-guerra, portanto, enquanto o bem-estar social era discursivamente apresentado como universal, políticos conservadores e trabalhistas, e até mesmo sindicatos, fortificaram a distinção, estruturada pela raça, entre pobres dignos e indignos, merecedores e não merecedores. E, inadvertidamente, o mesmo faz Ken Loach em sua trilogia.

Os entrevistados de “Espírito de 45” frequentemente caracterizam a classe trabalhadora como composta por pessoas decentes, disciplinadas e ordeiras, que possuem desejos modestos: ter um emprego, uma família, uma vida digna. Pessoas merecedoras e dignas, portanto. O protagonista de “Eu, Daniel Blake” é apresentado como uma dessas pessoas decentes, disciplinadas e ordeiras: trabalhou a vida toda, pagou seus impostos, cuidou da esposa doente até sua morte, zela pela limpeza e ordem do conjunto habitacional onde reside brigando com o vizinho negro chamado “China”, que insiste em não descartar o lixo corretamente, e com um transeunte que permite que seu cachorro faça necessidades no jardim do conjunto.

Se seu vizinho China desiste de lidar com um sistema de seguridade social desumano, que massacra as pessoas, preferindo vender tênis de origem duvidosa para sobreviver, Daniel Blake insiste em manter o que entende como sua dignidade até o final, quando finalmente “quebra” e comete o “ato de vandalismo”.

Ricky e Abbie também compartilham das mesmas características. Ricky prefere passar fome a pedir seguro-desemprego: afinal, ele é um homem saudável e disposto a trabalhar duro para prover sua família. Abbie cuida de seus pacientes e de sua família com senso de responsabilidade e zelo, apesar de todas as tormentas que enfrenta.

Os três filmes de Ken Loach, portanto, centralizam uma classe trabalhadora branca, considerada digna e merecedora pelo “pacto nacional”, que é deixada para trás quando o pacto colapsa sob a égide do neoliberalismo introduzido por Thatcher e consolidado por governos trabalhistas e conservadores subsequentes.

O que a trilogia de Loach silencia são justamente as vicissitudes das relações entre a classe trabalhadora branca e a classe trabalhadora não branca, composta por descendentes daquelas levas migratórias do pós-guerra, sob a hegemonia do pacto nacional e, depois, sob a hegemonia neoliberal. Ken Loach poderia, por exemplo, ter optado por China como protagonista do segundo filme, e não Daniel Blake. Ou poderia ter dado mais atenção às relações, por vezes conflitivas, entre esses personagens.

Jogar luz sobre aquilo que Ken Loach não mostra nos ajuda não apenas a entender por que o diretor não foi capaz de capturar o “espírito de 2016”, mas também nos ajuda a explicar por que a direita britânica tem sido mais capaz de capturar as insatisfações de pessoas como aquelas retratadas nos filmes.

A destruição do pacto nacional por Thatcher gerou a desinstitucionalização da vantagem informal que o trabalhador branco tinha com a divisão do trabalho racializada (Shilliam, 2018, p. 109). Isso porque o governo da ex-primeira-ministra intensificou o processo de desindustrialização sem se preocupar com as condições de trabalho dos próprios trabalhadores industriais brancos. Shilliam observa, com isso, a formação de uma “white underclass” considerada vítima desse processo (p. 110). Para Thatcher, o pacto nacional contribuía para o desenvolvimento de características indignas; já o mercado, ajudava a cultivar características dignas (p. 115).

A revolução neoliberal de Thatcher era ambivalente em relação à raça: a destruição do pacto significou a destruição das vantagens informais de trabalhadores brancos em relação a não brancos e um nivelamento para baixo das condições de trabalho, já que empregos estáveis, bem pagos e desejáveis se tornaram escassos, mas seu sucesso eleitoral dependia da mobilização de um nacionalismo populista racializado (pp. 116 e 119).

Essa classe trabalhadora branca, favorecida e depois desfavorecida, foi constituída como um eleitorado importante, tanto para partidos trabalhistas quanto conservadores. No contexto do Brexit, grupos políticos a favor da saída do país da União Europeia, de esquerda e direita, prometiam resgatar aspectos de eras anteriores que eram apresentadas como mais positivas. Para as alas pró-Brexit do Partido Trabalhista, o período valorizado era o do pacto nacional. Para as alas pró-Brexit do Partido Conservador e para o UK Independence Party (UKIP), tratava-se do período imperial, quando o país era supostamente livre para estabelecer relações comerciais com qualquer país do mundo, não restrito à Política Comercial Comum da União Europeia.

No voto pela saída do Reino Unido da União Europeia, parte da classe trabalhadora branca se uniu àquela parte dos vencedores da globalização movidos por uma melancolia pós-colonial, apegados a uma fantasia nostálgica da Grã-Bretanha imperial.

Mas é importante enfatizar que o sentimento de ser “deixado para trás” não se resume a questões econômicas. O pacto colapsado por Thatcher foi substituído, a partir da década de 1990, por uma nova hegemonia, que Nancy Fraser, em seu texto “The Old Is Dying and the New Cannot Be Born”, chama de neoliberalismo progressista. Esse novo bloco hegemônico foi formado por uma aliança improvável entre os setores mais dinâmicos da economia, inclusive o financeiro, e as principais correntes “liberais”dos novos movimentos sociais (feminismo, antirracismo, multiculturalismo, ambientalismo e ativistas pelos direitos LGBTQIA+) que compartilhavam visões acerca da redistribuição e do reconhecimento.

No que diz respeito à redistribuição, o consenso era liberar as forças de mercado do estado (privatizando empresas estatais e diminuindo impostos e regulamentações, inclusive bancárias e trabalhistas) e globalizar a economia capitalista, incluindo a circulação de capital. Os efeitos desse consenso foram o enfraquecimento dos sindicatos, a desindustrialização, o aumento do endividamento das famílias, e a difusão de empregos instáveis e mal remunerados, principalmente no setor de serviços, como o de Ricky. São esses efeitos que Ken Loach retrata tão magistralmente na trilogia.

Essa política distributiva já era defendida, é claro, por expoentes do neoliberalismo enquanto teoria econômica, de Friedrich Hayek a Milton Friedman, e do neoliberalismo enquanto política econômica, de Barry Goldwater a Ronald Reagan e Margareth Thatcher, mas foi mesmo consolidada por Bill Clinton e Tony Blair. Esse foi um dos motivos, inclusive, que levou Ken Loach a sair do Partido Trabalhista na década de 1990. Para ele, as políticas de Blair continuaram a erodir a ideia de que “somos responsáveis um pelo outro, que somos o guardião de nossos irmãos e irmãs”.[3]

No que diz respeito ao reconhecimento, o consenso do bloco hegemônico neoliberal progressista girava em torno de ideais de diversidade e empoderamento: de mulheres, de LGBTQIA+, de grupos racializados. Justiça deixou de ser concebida como a abolição das hierarquias sociais e passou a ser entendida como empoderamento de algumas mulheres e algumas pessoas de grupos minoritários, para que o topo ficasse mais diversificado. Mulheres na capa da Forbes como CEOs de empresas, um presidente negro e assim por diante. Ou seja, os ideais que regiam o consenso na esfera do reconhecimento eram a meritocracia e o individualismo: “merecedores” dentro dos grupos minoritários chegariam ao topo. Os não “merecedores” ficariam onde estavam, ou piores, porque as políticas redistributivas regressivas impactavam mais severamente esse grupo de pessoas.

Ou seja, em termos de reconhecimento, o período de hegemonia do neoliberalismo progressista deu mais visibilidade para as minorias. Em termos de redistribuição, desmantelou redes de proteção social, precarizou o trabalho, desestabilizou os direitos e vantagens informais conquistados por sujeitos brancos no pacto nacional e arrastou grande parte da classe trabalhadora, branca e não branca, para baixo. A junção dessas duas coisas foi explosiva. A perda de direitos e vantagens informais da classe trabalhadora branca foi em grande parte atribuída não às políticas neoliberais, mas à conquista de direitos por minorias cada vez mais visíveis e à crescente imigração, dessa vez oriunda da União Europeia. Grande parte da classe trabalhadora branca passou a experimentar condições de vida antes exclusivas dos pobres considerados indignos e não merecedores, o que acrescentou sal à ferida.

Nas palavras de Naomi Klein, “Para as pessoas que viam a segurança e o status como seu direito inato – e isso significa, acima de tudo, homens brancos – essas perdas – materiais, simbólicas, psíquicas – são insuportáveis. Donald Trump fala diretamente a essa dor. A campanha do Brexit falou a essa dor. Assim como todos os partidos de extrema-direita em ascensão na Europa” (Klein, 2016). Nas palavras de Wendy Brown (2017), políticas econômicas neoliberais implementadas nas últimas quatro décadas geraram perdas que não foram experimentadas apenas, ou principalmente, como um declínio econômico, mas como a perda de supremacias branca e masculina; a perda de uma era marcada pela soberania e segurança do homem branco provedor e do estado-nação.

Esse destronamento socioeconômico, o estilhaçamento de imagens de gênero, raça e nação, leva a um ódio rancoroso ressentido (sexista, homofóbico, transfóbico, xenofóbico e racista). É esse gradiente afetivo que compõe o espírito de 2016, aquele que Ken Loach não conseguiu captar na trilogia, porque focou exclusivamente nos efeitos distributivos dos anos neoliberais. E é esse espírito de 2016 que ajuda a explicar por que parte da combalida classe trabalhadora branca foi atraída por discursos da direita pró-Brexit.

A Leave Campaign, a favor do Brexit, foi mais capaz de entender e canalizar em sua direção essa atmosfera afetiva complexa produzida tanto pela presença cada vez mais visível de grupos historicamente inferiorizados, seja em função das políticas de reconhecimento do neoliberalismo progressista ou de fluxos migratórios mais recentes, seja pelo desmantelamento de políticas sociais e precarização do trabalho. Em vez de reavivar o espírito socialista ou reafirmar o neoliberalismo progressista, a campanha ofereceu um nacionalismo melancólico, nostálgico, racializado, que coincidia com os desejos da classe trabalhadora branca de recapturar as seguranças racializadas do pacto nacional do pós-guerra e de restaurar imagens estilhaçadas de gênero, raça e nação. A Leave Campaign foi sagaz ao enquadrar discursivamente essa versão da nação britânica como em perigo e ao prometer restaurá-la, assim como a todos apegados a ela, com a saída da União Europeia. E, ao fazer isso, conseguiu desviar a atenção das políticas econômicas neoliberais, promovendo, no lugar do neoliberalismo progressista, um neoliberalismo reacionário.

Cenas para um próximo capítulo

Chamar atenção para os pontos cegos de Ken Loach não é exatamente inédito. O diretor já foi criticado por repetir em seus filmes o mesmo “sermão marxista” há 50 anos, por ser um exemplo clássico de um “dinossauro de esquerda”,[4] pela falta de complexidade de seus personagens femininos, que, em geral, só aparecem como objeto de interesse dos protagonistas masculinos, por se dizer um homem do povo, “desde que esse povo tenha um pênis”,[5] pela falta de representatividade de pessoas LGBTQIA+.[6]

O propósito de apontar aquilo que os filmes de Ken Loach não mostram não é “cancelar” o diretor por ser um expoente de uma esquerda “velha”, que prioriza a classe, em disputa com uma esquerda “nova”, pejorativamente chamada de “identitária”. Afinal de contas, apesar de restrita, a sensibilidade e o espírito socialista de Ken Loach se tornam ainda mais necessários em um contexto de desintegração da própria ideia de bem comum. O propósito aqui é mostrar como esse imaginário tão corriqueiro, que permite que a classe trabalhadora seja equacionada com sujeitos brancos e priorizada em análises políticas, e nos filmes de Ken Loach, é claro, gera obstáculos analíticos e políticos.

Diagnósticos do presente ficam empobrecidos quando não capturam dimensões cruciais da insatisfação de determinadas parcelas da população. Politicamente, a nostalgia por uma época na qual as coisas eram menos complicadas porque a classe trabalhadora era unida e não fraturada não é apenas baseada em uma leitura factualmente errada da realidade, como nos mostra Shilliam, mas coloca as demandas de movimentos antirracistas como secundárias e, aí sim, contribui para a fragmentação da esquerda. O propósito aqui, portanto, é contribuir para revisar narrativas de sucesso do passado para que as sequências futuras sejam menos excludentes.

REFERÊNCIAS

BERLANT, Lauren. Cruel Opstimism, 2011, Duke University Press.

BROWN, Wendy. “Neoliberalism’s Frankenstein: Authoritarian Freedom in Twenty-First Century ‘Democracies’”. Critical Times, vol.1, n.1, 2018, pp.60-79.

EU, DANIEL BLAKE. Direção: Ken Loach. Produção: Rebecca O’Brien. Roteiro: Paul Laverty. Reino Unido, 2016 (97 min.).

FRASER, Nancy. The Old Is Dying and the New Cannot Be Born: From Progressive Neoliberalism to Trump and Beyond. Londres: Verso, 2019.

KLEIN, Naomi. (2016). It was the Democrats’ embrace of neoliberalism that won it for Trump. The Guardian, 09/11/ 2016.

O ESPÍRITO DE 45. Direção: Ken Loach. Produção: Rebecca O’Brien, Kate Ogborn, Lisa Marie Russo. Roteiro: Ken Loach. Reino Unido, 2013 (94 min.).

SHILLIAM, Robert. Race and The Undeserving Poor. Reino Unido: Agenda Publishing, 2018.

VOCÊ NÃO ESTAVA AQUI. Direção: Ken Loach. Produção: Rebecca O’Brien. Roteiro: Ken Loach, Paul Laverty. Reino Unido, 2019 (100 min.).


[1] https://www.theguardian.com/film/2016/oct/15/ken-laoch-film-i-daniel-blake-kes-cathy-come-home-interview-simon-hattenstone.

[2] .http://news.bbc.co.uk/2/hi/entertainment/1217962.stm.

[3] https://www.theguardian.com/film/2016/oct/15/ken-laoch-film-i-daniel-blake-kes-cathy-come-home-interview-simon-hattenstone.

[4] https://www.theguardian.com/film/2016/oct/15/ken-laoch-film-i-daniel-blake-kes-cathy-come-home-interview-simon-hattenstone.

[5] https://www.spectator.co.uk/article/dick-swinging-filmmakers-like-ken-loach-constantly-write-real-women-and-our-struggles-out-of-history.

[6] https://www.spectator.co.uk/article/dick-swinging-filmmakers-like-ken-loach-constantly-write-real-women-and-our-struggles-out-of-history.

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