Entrevista com os sem-teto

Entrevista com os sem-teto

O sem-teto não é um pedinte ou mendigo por definição, mas muitas vezes alguém cujo desalento – no sentido da classificação do IBGE (aqueles que desistiram de procurar emprego) – “opta” por uma vida de abandono do lar, como parte do “pacote do desespero”. O nosso sem-teto não é o clochard ou o homeless, cuja dimensão psicológica e existencial muitas vezes predomina, o que não quer dizer que esse fenômeno não ocorra aqui, ainda que menos. A brabeira debaixo das nossas marquises é o mau trato social, que vem do desemprego estrutural – e do provocado pelo próprio governo –, dos horrores do lar e da falta de perspectiva no sentido mais amplo, que inclui a falência afetiva. Esse coquetel leva à depressão, ao alcoolismo e à negação de si próprio. Os depoimentos dos sem-teto concedidos à Insight Inteligência mostram que alguns casos coabitam a resignação com a construção de um novo personagem, criado para afirmar a sua condição. O problema dos sem-teto, que prosseguem se ampliando no país, vai além da motivação econômica, trazendo questões multidisciplinares, como a sociologia e a psicologia comportamental. É fundamental também perscrutar o que eles próprios pensam da sua condição. Consideramos que essa sondagem é premissa para uma avaliação de um problema que tem características de chaga social, mas também pode ser uma escolha, ainda que induzida por motivações fora do controle, restritivas, pouco abonadoras e expulsivas das condições de vida convencionais. Melhor ouvi-los do que só deduzirmos. Com a palavra, os sem-teto.

 

Nome: Jordelino Lopes Soares Filho, “mas todo mundo me chama de Turca”

Localização: Vista Alegre, porta da Paróquia São Rafael Arcanjo

Idade: Não revelada

Profissão: Pedreiro

Insight Inteligência - artigos e ensaios fora da curva

Data da entrevista: 23 de novembro, 18h22

Há quanto tempo estou na rua? Perdi as contas. Eu tenho casa. Na Pavuna. Meus filhos moram lá. Minha princesa tem 22 anos; o menino, 18. Mas a vida dá muita volta e a cabeça da gente também. Depois que minha mãe morreu, eu preferi ficar na rua do que brigando com meus irmãos. Sempre tem um valente, e eu não sou bom de briga. Pode até parecer mentira, mas já ganhei muito dinheiro. E perdi também. Gastava R$ 2 mil, R$ 3 mil por mês. Muita cachaça. Eu me separei da minha mulher por causa da bebida. Bebia todo dia, muito, não parava. Mas nunca levantei um dedo em casa. Só brigo comigo mesmo. A facilidade e a dificuldade sou eu mesmo. Sorte que doença não me pega. Quer dizer, só a bebida, que é doença que a gente mesmo cria pra gente. Já fui internado dentro de um Igreja, lá em Saracuruna. Minha filha me levou. Mas quando eu retorno para a rua, o mundo gira de volta para o mesmo lugar. A maldita cachaça e o cigarro… Parece uma coisa que puxa a gente. Eu quero muito voltar a ter um emprego. Sou trabalhador, pedreiro do bom. Sabe o que é uma parede fora de esquadro? Nunca deixei uma parede fora do esquadro. Eu vou voltar a trabalhar… Bem, tem a bebida…  E tem o cigarro…  Eu posso até me enganar. Mas não sei se quero enganar Deus…”

 

Nome: Denilson Lemos da Silva 

Localização: Avenida Oliveira Belo, Vila da Penha, calçada do bar Manga Rosa Café

Idade: “Nem sei mais”

Profissão: “Você não vai acreditar, mas sou segurança”

Data da entrevista: 27 de novembro, 6h33

 

A rua não matou meus sonhos. O maior sonho que eu tenho é alugar um quarto. Eu já tive uma casa. Era da minha mãe e eu morava com ela. Mas, antes de morrer, minha mãe vendeu a casa. O dinheiro acabou e eu vim para a rua. Eu era segurança. Parece até mentira, né? Trabalhei em uma loja na Rua da Passagem, em Botafogo. Era um tempo bom. Saber que um “dindim” vai cair na conta todo mês é uma alegria. Eu já falei que era segurança, não é? E sabe o que é mais engraçado? O meu maior problema é a segurança (começa a chorar). Eu tenho medo. É muito difícil se sentir seguro na rua. Quando aparece um carro jogando o farol alto para cima de mim, a minha perna bambeia. Eu acho que alguém vai passar e atirar. De maldade, mesmo. Quem vai dar falta de um sem-teto? Talvez o pessoal das igrejas. Eles até conhecem a gente pelo nome. Trazem comida, remédio. Para a minha família, eu não volto. Eles ficaram me julgando depois da morte da minha mãe. E quem julga é Deus! Ele não me deixa perder a fé. A minha vida está toda escangalhada, mas vai melhorar. Eu ainda vou ser feliz.””

 

Nome: Marcelo Ferreira Congo

Localização: Centro, Rua do Riachuelo, esquina com a subida para a Paula Matos

Idade: 43 anos

Profissão: Motorista. “Tenho carteira e tudo. Quer dizer, menos emprego”

Data da entrevista: 29 de novembro, 17h30

 

Quem se acostuma a morar na rua? Estou nessa há quatro anos e acho que nunca vou me acostumar. Ninguém está aqui porque quer. A vida é que cuspiu a gente para debaixo da marquise. Minha irmã morreu. Depois, minha namorada também. Pirei! Minha mente ficou mal, não segurei a onda. Comecei a brigar com quase toda a família. Até o dia que eu não queria mais ver ninguém e ninguém queria me ver. Meus parentes são o maior problema da minha vida. Quer dizer, o segundo maior. O maior é a minha cabeça mesmo. Mas não faço mal a ninguém. Só a mim mesmo. Os moradores daqui me ajudam mais do que eu mereço. Fome eu não passo. Também não sinto frio. Se não fosse por eles, eu estaria perdido. Político não cuida da gente, não! O único que eu gostei foi o Brizola. Os outros são um lixo. Mas eu também não quero saber de político, não! Não quero ver nenhum na minha frente. Quem eu queria ver mesmo era meu pai. Quem sabe um milagre não acontece?”

 

Nome: Jovelina Maria Coelho

Localização: Tijuca, Rua Haddock Lobo, sob a marquise do Banco Itaú

Idade: 64 anos

Profissão: Vendedora

Data da entrevista: 29 de novembro, 18h20

 

As pessoas perderam o amor no coração. Você oferece uma bala, um chocolate, e elas passam correndo, como se tivessem medo. Na verdade, não sei se é medo ou desprezo. Nem um cão sarnento é tratado assim. Antigamente, todo mundo ajudava todo mundo. Hoje ninguém quer mais saber de ninguém. Isso de que o brasileiro ajuda quando pode é uma grande mentira. A gente tem que se virar como dá. Antes pelo menos eu podia voltar para casa. Mas há uns quatro anos perdi tudo com uma chuvarada. O temporal levou minha casa, geladeira, fogão, TV. Mas tudo isso a gente compra de novo. O que a gente não compra é foto de filho pequeno. Foi tudo embora com a água. É o que mais me dói. Mas não tenho tempo para chorar. Tenho neto para sustentar e eles ainda não têm idade para trabalhar. Eu compro e vendo doces, junto dinheiro e pago o aluguel deles. Não me importo de morar na rua sabendo que meus netos têm um teto. Quando chove, eles não se molham. Se a gente não trabalhar, esquece o resto. O governo está se lixando para a gente. Na verdade, quase todo o governo. Na época do Lula, eu não estaria nessa situação. Foi o único presidente que deu assistência para todos. O resto é só derrota. Bem, agora tem esse auxílio aí. R$ 400, não é isso? Eu vou correr atrás. Ia ajudar muito. Eu preciso vender R$ 100 em doce todos os dias. Não consigo. Tem dia que não boto nem R$ 20 no bolso. Mas, enquanto tiver saúde, continuo insistindo. Os ratos incomodam à noite. Mas sempre que eu me ajeito aqui nesse colchonete para dormir, eu lembro que meus netos têm casa. É o que importa.”

 

Nome: Bruno Correa de Almeida Viana

Localização: Rua do Catete, Muro do Museu da República

Idade: “Sei não”

Profissão: “Nunca tive”

Data da entrevista: 26 de novembro, 15h18

 

Não sei nem que dia é hoje, quanto mais o tempo em que estou nas ruas. Eu era muito moleque quando caí no mundo. Nasci e fui criado na favela do Arará, em Benfica. Aquilo lá é ruim demais. Bandido para tudo que é lado. Mas pelo menos eu tinha uma casinha. Quando minha mãe e minha avó morreram, meu primo vendeu tudo e desapareceu. Eu fiquei na pior, sem ter onde morar. Eu sou um largado no mundo. Não existo. Mas não sinto falta de uma casa, não. Eu sinto falta é de ter uma família. Também queria ter estudado, aprendido uma profissão. Mas ninguém socorre a gente. Político não anda na rua. Não sabe como é a vida de pobre. Aqui dentro morou um presidente, não foi? (Aponta para dentro do Palácio do Catete). Queria que ele ainda morasse aqui para abrir o portão e ver dez, 15 colegas dormindo em cima do papelão.”

 

Nome: Gerard Bezerra

Localização: Passeio Público, Centro do Rio

Idade: 56 anos

Profissão: Copeiro

Data da entrevista: 26 de novembro, 14h58

 

Eu sou pato novo. Vim para a rua há uns dois anos. Eu não conseguia emprego como copeiro e fui trabalhar como caseiro. Tinha um teto e comida. Mas minha mulher morreu e eu me desesperei. Comecei a beber e a andar perdido por aí. Até tem uns abrigos para a gente ficar, mas não são agradáveis. Desculpe a sinceridade, mas é muita putaria. A gente está lá e o cara mete o pé na porta com uma mulher e começa a fazer sexo ali, na frente de todo mundo, sem a menor vergonha. Pô, não é lugar par isso. Por isso, eu prefiro dormir na rua do que ir para um bagulho desses. Às vezes, alguém chega e fala: “Sai dessa vida”. E eu respondo: “Me ajuda que eu saio”. Mas cadê que alguém ajuda?” Eu ando só com a roupa do corpo. Como o que sobra dos restaurantes, o que eu consigo pegar no lixo. Nunca peguei nada de ninguém, não faço nada de errado. Só bebo cachaça. Mas aí é desespero.”

 

Depoimentos concedidos à jornalista Daniele Soares

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *