Ética Neopentecostal e o Espírito do Neoliberalismo

Ética Neopentecostal e o Espírito do Neoliberalismo

Mais do que uma referência conceitual, a obra de Max Weber (1999) “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo” representou um marco histórico na análise sociológica do capitalismo. Sua maior inovação foi retirar a religião do lugar separado, alheia ao poder e ao sistema produtivo, para entender como a própria ética religiosa se articula com essas duas esferas. Essa abordagem ganha atualidade quando constatamos o impacto das mudanças religiosas no Brasil e no mundo: ao mesmo tempo em que tendem a incorporar uma organização empresarial e assumir os valores de mercado, as igrejas cristãs se tornam uma força política relevante, capaz de influenciar os rumos políticos das nações, como exemplo emblemático do nosso país. Por isso, cabe pensarmos numa relação análoga: seria possível mensurar o espírito do neoliberalismo a partir da ascensão de uma ética neopentecostal?

Para isso, nossa primeira referência é, obviamente, a sociologia. No entanto, para que possamos compreender os impactos subjetivos sobre essas mudanças no sistema produtivo e na sua ideologia, tomamos a teoria psicanalítica como instrumento para ancorar nosso trajeto, buscando as bases determinantes do sujeito neoliberal a partir da teologia neopentecostal. Convém, portanto, revisitar esses dois alicerces, quer para a compreensão do neopentecostalismo, quer para a conceituação de neoliberalismo.

Como nos apontou Weber, a teologia calvinista da predestinação, antes de produzir alguma forma de devoção mística, acabou por gerar o efeito oposto – o “desencantamento do mundo”. Resultado de uma profunda ressignificação do trabalho, retirado do lugar de “maldição pelo pecado original” da antiga ética católica e alçado ao lugar de devoção ascética racional. E, se nada foge ao saber e ao propósito de Deus, e Seus desígnios são imperscrutáveis, resta apenas um sinal de Suas preferências:

“Assim, toda árvore boa produz bons frutos, e toda árvore má produz frutos maus. Não pode a árvore boa dar maus frutos; nem a árvore má dar frutos bons. Toda árvore que não dá bom fruto corta-se e lança-se no fogo. Portanto, pelos seus frutos os conhecereis.”[1]

No entanto, a própria história da religiosidade protestante norte-americana, ainda em seu momento colonial, dá evidências de uma forte demanda de misticismo no interior do ascetismo calvinista. Weber ressalta que, diante do império do racionalismo burguês, esse apelo ao místico estava fadado à “superação”. De certo, durante o período de ascensão do capitalismo norte-americano, o Ethos protestante de racionalização do trabalho disputa contra os antigos valores do ancient régime, não pelos corações e mentes, mas pela capacidade de produção, de poupança e de investimento – a mesma lógica do livre mercado e da livre concorrência passam a regular também o espírito.

Em oposto, o espírito do capitalismo que busca o sociólogo, se aproxima mais do inconsciente freudiano que do Espírito Santo professado pelo “beato puritano”. Longe de se confundir com o metafísico ou com o místico da experiência religiosa, Weber busca no algo em comum das significações dos homens em sua própria época os fundamentos éticos do capitalismo em ascensão. Antes de tomar o puritanismo a partir de uma crítica à sua moral religiosa, ele soube perceber na sua ética os fundamentos do capitalismo.

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Não poderia ser maior a distância entre o trabalho de Weber e os primeiros estudos sobre o neopentecostalismo. A maior crítica que se tem feito aos trabalhos sociológicos sobre a ascensão pentecostal é de elitismo. Por certo, os escritos iniciais sobre o tema situam os fenômenos no contexto religiosidade popular, e com a delimitação, emergem os preconceitos típicos em relação as manifestações de origem popular. Seu sucesso é explicado pelo perfil de seu público-alvo, pobre e ignorante, a mensagem é encarada como nula ou simplória demais para merecer consideração. “Intelectualmente indefesos” e “incautos e incultos” são alcunhas comuns para identificar o crente. A magia, o emocionalismo e a pobreza teológica são suas insígnias (MARIZ, 1995). A máquina de repressão sobre o misticismo tem contornos de classe.

Censura e repressão

A fundamentação racionalista tornada global pela universalidade do próprio capitalismo tem os mesmos frutos do desencantamento do mundo weberiano: censura e repressão sobre a experiência mística. A crítica racionalista ao emocionalismo pentecostal se baseia na noção de que só pode ser genuína a experiência religiosa na medida em que transcende às emoções, sob o risco de engano. O paradoxo grita: a legitimidade da religião como reflexo da racionalidade da sua teologia e de suas práticas.

O “desencantamento do mundo” marcou a teologia de forma tão crítica que o milagre foi circunscrito à antiguidade. No presente, Deus agiria de forma mais sutil, submetido às leis da natureza determinadas pela ciência e delineadas pela razão. Uma castração tão profunda sobre a onipotência divina jamais ocorreria sem uma reação à altura. O misticismo ressurge como resistência ao racionalismo.

Essa contradição, para Weber, está dada ainda na formação das grandes religiões monoteístas, que já carregavam as sementes para o processo de racionalização ético-religiosa. Para Freud (1905[1989]), no entanto, a censura sobre o misticismo é mais bem interpretada como recalque, e não superação. O famoso caso das Bruxas de Salém[2] dá força ao argumento: o sintoma é, por definição, o retorno daquilo que fora recalcado (LAPLANCHE, PONTALIS, 1970).

Porém, o que volta, sempre é novo. A novidade, no entanto, se submete à máxima de Marx e Engels (2007): “A história se repete primeiro como tragédia e depois como farsa”. O que Kant (1990) chamou de esclarecimento, ou iluminação, carregava em si o processo inexorável de desencantamento, que, como apontado por Adorno e Horkheimer (1985), jamais cessou. Paradoxalmente, o pressuposto do esclarecimento kantiano de que o indivíduo tem o dever e a responsabilidade de analisar e decidir sobre o mundo por sua própria razão também admite a possibilidade de que esse dever seja tomado por direito e que a verdade seja transferida, do debate público à crença pessoal. É a própria secularização a grande reencantadora do mundo.

A relação que Weber estabelece entre o ethos ascético puritano e o capitalismo industrial em seu período de consolidação é hoje quase um senso comum: era um problema ao capitalismo ascendente a antiga ética de condenação da usura e do enriquecimento, logo, a nova ética deveria valorizar o trabalho e a troca. Para a lógica neoliberal, o anátema é demarcado por qualquer impeditivo à tomada da totalidade da experiência humana pelo mercado. Ao contrário do laissez-faire do liberalismo clássico, para os teóricos neoliberais, o livre mercado é um derivado desnaturalizado, mas por ser uma construção política, jurídica e cultural, deve ser gerida por mecanismos análogos.

Logo, a ética neoliberal deve reiterar e fortalecer esses mesmos mecanismos, quer sejam político-jurídicos, quer sejam ideológicos (almeida). Para isso, precisa, ao mesmo tempo, ser total (no sentido de gerir o mercado das verdades sobre todas as coisas e, assim, dar conta de toda a experiência possível), e também, garantir o acesso a maior de todas as liberdades – o mundo pleno do consumo:

“Trazei todos os dízimos à casa do Tesouro, para que haja mantimento na minha casa; e provai-me nisto, diz o SENHOR dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu e não derramar sobre vós bênção sem medida.”[3]

Ao contrário da ética calvinista, que, apesar do individualismo da valorização do esforço, jamais pôde superar plenamente a força do coletivo, o novo ethos não teme paradoxos: é hiperindividualista porque opera coletivamente para garantir a primazia dos direitos do indivíduo. Somente no contexto dos templos e das igrejas disseminadas territorialmente que poderíamos engendrar algo dessa ordem – coletivos atuando politicamente pelo interesse do eu. E que, ainda creem, calvinisticamente, no emblema da prosperidade financeira como indício da graça divina.

No entanto, o que aqui chamamos de interesse do indivíduo não opera, na teologia neopentecostal, no mesmo registro que comumente damos à expressão. Trata-se da construção de um mundo em que Deus possa demarcar de forma clara a desigualdade entre os homens, para que haja dependência somente da sua graça. Apenas assim será possível “separar o joio do trigo”, minimizando ao máximo a confusão promovida pelos ideais e direitos coletivos, entre os escolhidos e os amaldiçoados. O estado de bem-estar social é um problema, na medida em que o poder secular concorre com Deus no provisionamento das nossas necessidades fundamentais. Olhando para o ateísmo crescente nos países do Norte europeu,[4] os líderes religiosos realmente têm com o que se preocupar.

Não andeis, pois, inquietos, dizendo: Que comeremos, ou que beberemos, ou com que nos vestiremos? Porque todas estas coisas os gentios procuram. Decerto vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas estas coisas; Mas, buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas.[5]

Essa noção neopentecostal de indivíduo, alicerçada numa desigualdade estrutural e discursivamente positivada, não é distinta do ideal hiperindividualista neoliberal. Por uma via delirante, a fobia social de um estado controlador, que se imponha sobre as vontades individuais, ao mesmo tempo em que produz indivíduos assujeitados, abre caminho para a construção de um Estado totalitário e massificador.

O que alguns pesquisadores tomaram inocentemente por “aventureirismo político”, se transformou em um projeto de poder bem delineado. Municiado não apenas com a fé, mas também com um novo projeto de Estado. Reservando os benefícios do liberalismo clássico às elites financeiras, enquanto impõe, de forma paternalista, o punitivismo institucional aos da base (Wacquant apud Andrade, 2019). Evidenciando, assim, alguns limites nesses primeiros trabalhos sociológicos que merecem destaque, pois já apontam para a ética própria do neopentecostalismo tão cara para a compreensão do espírito do neoliberalismo.

Em primeiro lugar, a ascensão rápida de denominações neopentecostais com características massificadoras, tais como as pioneiras Igreja Universal do Reino de Deus, de Edir Macedo, e a Igreja Internacional da Graça de Deus, de R. R. Soares, centralizou o estudo acadêmico sobre o neopentecostalismo nessas instituições, como se elas representassem o fenômeno em sua “essência”, desconsiderando que o maior crescimento dos evangélicos tem ocorrido principalmente nas comunidades independentes, com perfis e públicos-alvo distintos.

Em segundo, apesar da independência com que atuam essas denominações, há sentimento de irmandade entre seus membros, e, com a comunicação que existe entre seus atores, troca de concepções teológicas. Essas ideias, então, disputam por adesão: de púlpito em púlpito, de pastor em pastor, de crente em crente, numa dinâmica concorrencial correspondente à lógica de mercado – a verdade é reconhecida por seu valor como mercadoria.

A gestão do conflito entre autonomia e irmandade se dá de forma análoga ao mercado neoliberal: uma livre concorrência “convertida”. As igrejas que não crescem, apresentam problemas de produtividade. Isso é indicativo de uma igreja “morta”, na qual Deus não tem liberdade para agir. Portanto, a teologia que recebe a insígnia da aprovação divina é aquela que produz um maior número de conversões (foco da Igreja Universal e suas similares), e que garanta uma máquina eclesiástica de formação de novas lideranças (foco das novas denominações, de gestão cada vez mais empresarial).

Por fim, o aparecimento de uma força política neopentecostal organizada e que tem, a passos largos, levado a cabo um projeto específico de poder, lança por terra a alegação de ignorância. E de que, por simplória, sua teologia jamais permitiria a adesão de outros grupos além dos mais marginalizados. Há muito que a teologia neopentecostal deixou de ser um produto feito para as classes mais baixas e conquistou mercados bem mais refinados e exigentes.

Um exemplo da inocência de circunscrever o neopentecostalismo ao registro da pauperização, é a força crescente de grupos interdenominacionais formados por perfis empresariais, como o caso emblemático da Associação dos Homens de Negócio do Evangelho Pleno, a ADHONEP. Ela estabelece seu objetivo de “difundir e incentivar a observação e prática de princípios sociais (…) fundados na Bíblia Sagrada”. Somente esse objetivo não apresenta novidade ou emblema da sua importância estratégica, não fosse a amplitude da atuação da associação e a delimitação do seu público-alvo:

“tem nos formadores de opinião o seu público-alvo, razão pela qual reúne empresários, profissionais liberais, autoridades civis e militares, executivos, esportistas, artistas, intelectuais e outras pessoas que, por razões as mais diversas, tornam-se excluídas das preciosas informações que envolvem os temas tratados nos eventos da Associação.”[6]

Em termos objetivos, a maior função de instituições como a ADHONEP é garantir um espaço preferencial para que seu público, financeiramente destacado, possa se organizar, tanto litúrgica como politicamente. Atuam, assim, como uma organização de classe, financiando, ao mesmo tempo, a divulgação do evangelho e a tomada de poder político. Sua estrutura segue o padrão típico da empresa capitalista, sendo que sua principal mercadoria é sua teologia, vendável às igrejas por conta de seu status interdenominacional.

A “mão invisível do mercado” não é tão invisível assim. Existe uma atuação política objetiva e estratégica, tanto do mercado financeiro, como do mercado da fé. Ambos estão hoje muito bem representados, ocupando desde cadeiras de vereadores até ministérios, e atuam politicamente pelos mesmos motivos: a garantia da continuidade e da ampliação do próprio mercado e a submissão do estado à nova função de sacralizá-lo e garantir as liberdades individuais, o acesso facilitado a cargos públicos e privados e eliminando direitos trabalhistas.

A desnaturalização do livre mercado, promovida pelo ideário neoliberal, tornou-o o novo alvo da regulamentação estatal. Porém, ao contrário do mercado financeiro, que jamais sofre por crises de fé, o mercado “gospel” necessita de uma base teológico-doutrinária que justifique a atuação política dos fiéis. Em especial quando consideramos que, antes da ascensão do neopentecostalismo, que já nascera politicamente ativo, existia, no interior do pentecostalismo mais tradicional uma forte resistência ao envolvimento da igreja com política partidária. “Ninguém pode servir a dois senhores, pois odiará um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro.”[7]

Uma reviravolta tão relevante — que impôs, inclusive sobre as matrizes mais tradicionais, sua força — demanda uma análise metapsicológica. De igual forma como Freud (1921[2011]) se debruçou sobre a Igreja (e o exército) para analisar os fenômenos de massa de seu tempo,[8] e Weber sobre as mudanças da ética religiosa, para compreender os fundamentos do capitalismo, ainda hoje as transformações nas religiões são centrais na compreensão dos impactos ideológicos e doutrinários dos diferentes momentos históricos do capitalismo.

Tomamos, por isso, ambos os fundamentos: o sociológico e o psicanalítico, acrescido da teologia, para dar borda ao zeitgeist dessa doutrina econômica que, ao tornar-se paradigmática, marca uma nova etapa histórica do capitalismo, denominada neoliberalismo. Partimos, assim, da renovação da ética religiosa correspondente a ele, através da ascensão de uma nova forma de cristianismo, o neopentecostalismo, e com ele, sua ética.

Neopentecostalismo e neoliberalismo: Um estudo de caso

Não é possível compreender qualquer manifestação religiosa sem antes entender como a crença se relaciona com seu passado mítico. Porém, para que ele exerça sua função, é necessário que se traduza em uma ruptura, um cisma, uma revolução – um evento que seja um marco histórico por excelência. Para que sustente o status diferenciado de divisor de eras, demanda que a situação anterior ao seu advento não apenas seja obrigatoriamente negativa como possa ser tomada por reflexo de tudo que a crença se propõe a combater e, ao mesmo tempo, sustente simbolicamente o que a crença pretende ser – é o que dá sustentação doutrinária ao tabu religioso.

O fundamentalismo místico cristão contemporâneo nasceu como resposta à revolução dos costumes e à luta pelos direitos civis, que promoveram sucessivas ondas de secularização e de questionamentos sobre os alicerces religiosos tradicionais que marcavam a cultura norte-americana (MALHEIROS, 2015). Era o cenário para o surgimento da Teologia do Domínio, notadamente branca e reativa aos direitos civis, e para o avivamento da Rua Azusa (de 1906 até 1915), marcadamente negro e considerado o primeiro movimento pentecostal do mundo, questionando o afastamento da juventude negra dos “Caminhos do Senhor” – nasciam a mãe e o pai do neopentecostalismo contemporâneo.

O primeiro pressuposto essencial da profissão de fé pentecostal é análogo ao do fundamentalismo cristão que lhe precedeu. Este teve nascimento formal em 1910, quando a Assembleia Geral Presbiteriana assina documento em que reitera, entre as comunidades mais tradicionais, serem os pontos fundamentais da fé cristã, reafirmados diante da ameaça racionalista liberal: 1o, a inerrância do texto bíblico; 2o, o fato de Jesus ter nascido de uma virgem; 3o, a morte de Jesus, que garantiu a redenção humana; 4o, a ressurreição de Jesus; e 5o, a crença nos milagres de Jesus.

De certo, um item é determinante para sustentar a todos os outros: a radicalização do sola scriptura[9]luterano. Trata-se da crença de que a Bíblia Sagrada é a Palavra de Deus revelada ao homem por intermédio do Espírito Santo e, portanto, contém em si toda a Verdade, que fundamentou a nova perspectiva teológica de que mesmo Deus estaria diminuído em sua glória pela sujeição Dele a sua própria Palavra:

“Deus não é homem para que minta, nem filho de homem para que se arrependa.

Acaso ele fala e deixa de agir?

Acaso promete e deixa de cumprir?”[10]

A noção de fetiche em Freud (1927a[1996]) dialoga intimamente com a posição que a Bíblia assume como Palavra de Deus revelada, incorrigível e eterna. Tem função de eliminar qualquer incompletude no objeto de desejo por substituir o falo perdido. O outro se torna objeto pleno, na medida em que é acoplado nele o fetiche, e assim, pode-se satisfazer plenamente num objeto sem falhas, por conta do fetiche, não do objeto. Ressalta-se que o fetiche está na base teológica (e ideológica) para a reação fundamentalista que transformaria Deus no mordomo da Igreja, no meio preferencial de realização dos sonhos consumistas contemporâneos. Ao menos para aqueles que têm efetivamente acesso à sua Revelação.

Para isso, era preciso um mito fundador com naipe de fetiche. Que sacralizasse o desejo individual ao universo do consumo, e que, ao mesmo tempo, recuperasse o misticismo e o sobrenatural na experiência religiosa cristã, rompendo com os principais sinais de disciplina e ascese que marcam o espírito do capitalismo em suas origens. Que transcendesse, ainda, os limites da racionalidade secular, representando a primazia da verdade cristã sobre as ideias do “mundo”. Que tivesse como seu principal opositor a onda secularizadora que atravessava os EUA e, com ela, a crescente laicização do sistema educacional norte-americano, e; ao mesmo tempo, pudesse dar as bases teológicas para o envolvimento político dos “cristãos genuínos”, tornados principais arautos da implementação das políticas neoliberais.

Qual seria então o mito fundador do pentecostalismo? O evento bíblico da descida do Espírito Santo sobre os apóstolos e sobre a comunidade cristã:

“Chegando o dia de Pentecoste, estavam todos reunidos num só lugar. De repente veio do céu um som, como de um vento muito forte, e encheu toda a casa na qual estavam assentados. E viram o que parecia línguas de fogo, que se separaram e pousaram sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar noutras línguas, conforme o Espírito os capacitava.”[11]

Não é mais no evento da crucificação, mas na descida do poder do Espírito Santo sobre os apóstolos e a comunidade cristã primitiva que o pentecostalismo tem sua principal referência teológica. A teologia cristã desloca-se do “cada um tomar a sua cruz”,[12] presente, de forma rarefeita, até mesmo na devoção calvinista mais secularizada, para o “esses sinais seguirão aqueles que creem”[13] do pentecostalismo mais tradicional, e culminarão no “provai-me nisto, diz o Senhor dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu e não derramar sobre vós bênção sem medida”[14] do neopentecostalismo contemporâneo.

Como se explica, então, a ascensão de uma teologia mística correspondente ao novo capitalismo quando o próprio sistema se fundamenta na alegação da sua própria racionalidade?

A principal alegação de Friedrich Hayek (1990) ao defender o modelo neoliberal de radicalização do livre mercado é, mais do que idealista, essencialmente mística, ou mistificadora. Conforme defendido por ele, os modelos de intervenção social – todos tachados igualmente de socialistas, distintos somente em grau de radicalidade – são os grandes responsáveis pela ascensão do nazifascismo alemão, seu produto obrigatório. Não devemos ser, para Hayek, levados pela aparência emancipadora do socialismo, pois seus efeitos são assustadores, mas na crença de que o sistema de livre iniciativa não “(…) fracassou em nossa época, mas a de que tal sistema ainda não foi posto em prática”.[15] O reino da liberdade teorizado pelos primeiros pensadores liberais a partir da implementação de uma efetiva política de livre mercado jamais pôde ser experimentada, pois nunca foi de fato um livre mercado enquanto regulado por um estado atravessado por concepções coletivistas de garantias fundamentais e de direitos sociais. O passado mítico do neoliberalismo é um futuro que jamais ocorreu – eis a maior de todas as mistificações.

Conforme esperamos demonstrar, o conflito existente na Alemanha entre a “direita” nacional-socialista e a “esquerda” é o tipo de conflito que sempre se verifica entre facções socialistas rivais. Se essa interpretação for correta, significará, todavia, que muitos daqueles refugiados socialistas, ao aferrarem-se às suas ideias, estão atualmente, embora com a melhor boa vontade do mundo, cooperando para induzir seu país adotivo a seguir o caminho tomado pela Alemanha. (HAYEK, 1990)

É necessário, também ao neoliberalismo, um fetiche para sustentar sua utopia. Na ausência de um livro sagrado, restou alçar um saber a substituto do falo. É na economia mainstream onde o neoliberalismo retira sua verdade. Sua linguagem técnica legitima suas previsões e análises, mais do que seus efeitos concretos. Sua utopia de livre mercado ganha o semblante de descrição científica do real, tornando-a, enfim, em projeto político (ANDRADE, 2019). Dessa forma, qualquer outro saber que questione o novo status quo se equivoca, por lhe escapar as verdades matemáticas da ciência econômica, tornando todo o saber humano de antemão submetido à lógica econômica neoliberal. Produzindo discursivamente uma associação obrigatória entre as ciências econômicas e a sua lógica.

Uma das grandes discussões acerca do telos[16] neopentecostal gira em torno de qual seria seu valor primordial (MARIZ, 1995). Boa parte dos pesquisadores aponta para o “ide por todo mundo e pregai e evangelho a toda criatura”[17] e, por isso, toma como seu principal valor o chamado evangelístico, e, assim, seriam as almas o seu capital; um segundo grupo, centrando suas análises na Teologia da Prosperidade, foca no apelo financeiro constante e nas promessas de retorno e, por isso, supõe que a demanda por almas estaria submetida à demanda por dinheiro, tornando-o seu principal valor. Sem alongar muito, essas duas grandes metas – almas e dinheiro – estão obrigatoriamente imbricadas, tanto no âmbito discursivo como na prática, pois quanto mais fiéis, mais dízimos e ofertas. Por essa razão, é impensável estabelecer uma distinção precisa.

Qualquer semelhança com as famosas pirâmides financeiras não é coincidência (REINHARDT, 2021). Os modelos organizacionais dessas denominações menos centralizadas e mais dinâmicas é celular, tornando “cada lar uma igreja, cada membro um líder.” A ideia é que o discipulado ocorra em forma de rede. Ele vai desde o pastor principal da igreja, que escolhe um seleto grupo para serem seus discípulos, e esses discípulos, quando são reconhecidos como “crentes maduros”, também escolhem, em meio à igreja, um outro grupo, e essa lógica se estende até incorporar cada membro daquela comunidade.

A estratégia transcende, no entanto, esse aspecto discipular mais direto, e, por consequência, mais pessoal. Um esquema concorrencial atravessa os grupos. Uma célula de “sucesso”, ou seja, aquela capaz de atrair mais ímpios e torná-los convertidos, pode ser “puxada pra cima” na hierarquia, se tornando mais próxima do pastor principal e coordenando um número maior de células abaixo de si. Os membros mais promissores são cotados para serem consagrados pastores e se tornarem assalariados da igreja.

Não é preciso dizer que esse modelo produziu hierarquias e cargos cada vez mais rebuscados, com inúmeros títulos e ministérios: de obreiros a diáconos, de missionários a pastores e de bispos a apóstolos; isso sem falar dos títulos referentes aos dons do Espírito Santo: intercessores, ministros de louvor, profetas, ministros de libertação e batalha espiritual… O céu é, literalmente, o limite.

Novamente, surge mais uma ressonância entre o neopentecostalismo e o neoliberalismo: enquanto indústria espiritual, o telos da igreja evangélica neopentecostal pode ser definido com “produzir capital humano para Deus”. (REINHARDT, 2021). A produção de capital humano pressupõe a gestão de uma estrutura eclesiástica complexa, similar a uma empresa, que seja eficaz em uma dupla função: na atração de novos fiéis e na transformação desses novos fiéis em líderes capazes de converter a outros, formando novos líderes, exponencialmente.

A voz do mercado é a voz de “deus”

Mais do que uma simples adesão a determinada forma de comunicação, a linguagem de mercado é a principal mediadora para a negociação das fronteiras éticas, sociais e ontológicas dentro do neopentecostalismo, sendo a teologia da prosperidade apenas uma delas (COLEMAN, 2017). Para eles, o apelo à linguagem do mercado não representa nenhuma forma de degradação da fé, mas, sim, um sinal de inovação da prática do cristianismo na história. E, por isso, não se trata de uma concessão dos valores cristãos, mas da possibilidade de exercer o governo, outorgado por Deus, por aqueles que legitimamente honram e respeitam sua Vontade. (ENGELKE, 2013). “Povoai e sujeitai toda a terra (…)”.[18] Esse é o fundamento principal da Teologia do Domínio.

A estratégia, fundamentada numa realidade metafísica que se impõe sobre a realidade política, tem um texto bíblico específico para sua legitimação teológica. É um versículo conhecido nos púlpitos pentecostais como um tratado de batalha espiritual, dado pelo apóstolo Paulo à igreja cristã:

“porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne, e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes.”[19]

Para um leitor incauto, o versículo pode ser compreendido como mais uma lista de nomes para o demônio, das tantas já forjadas no seio da teologia católica. No entanto, esse trecho é tomado teologicamente como a revelação das hierarquias e da forma de organização dos demônios que atuam “nas regiões celestes”. Uma cópia imperfeita e corrompida da organização do Reino dos Céus.

A estrutura hierárquica vai desde as “forças espirituais do mal”, as castas inferiores de demônios, responsáveis pela corrupção individual das almas, até os principados e potestades, de mais alta hierarquia, de atuação continental. Essa leitura pressupõe duas empresas concorrentes na disputa pelas almas humanas. Como uma sombra, imitando e corrompendo as ideias inovadoras do “Céu Ltda” há uma espécie de “Inferno S.A.”. A gestão empresarial está dada, a priori, como a única forma de administração eficaz, perfeita por advir da própria forma de estruturação do Reino de Deus, e que, no entanto, é passível de corrupção e de degradação, ao se afastar de seus sublimes propósitos.

É, portanto, a presença de Deus na vida do convertido seu diferencial na concorrência meritocrática. Enquanto o mercado é disputado pelos ímpios por suas capacidades individuais e sua versatilidade para se adaptar às novas demandas, o cristão disputa, não com suas próprias capacidades, mas com os dons outorgados a cada fiel mediante o batismo do Espírito Santo. Em uma relação de simbiose metafísica, o Espírito Santo torna-se a força sobrenatural determinante do sucesso da igreja e de cada um dos seus componentes, e o cristão torna-se o legítimo representante de Deus, na ocupação de novos territórios, na guerra contra o Diabo pelas almas humanas.

Essa teologia de ocupação territorial é fundamental em qualquer análise da atuação política do neopentecostalismo. O domínio espiritual de territórios (chamado comumente de batalha espiritual) se confunde com a tomada do poder secular de tal forma que, teologicamente, ambas as atuações se fundem. Ao mesmo tempo em que se alicerça num aspecto completamente religioso, através de jejuns, orações, clamores, vigílias; também dispõe de atuação político-partidária bem objetiva. Assim, o sucesso de um pleito eleitoral é compreendido, não como fruto de mobilização política ou das somas dos votos individuais, mas como manifestação da glória de Deus. O “bom político” não é quem defende os interesses dos seus eleitores, mas aquele que efetivamente demarca sua posição e se levanta contra os valores dissonantes dos princípios cristãos.

A figura do líder sofre drásticas mutações: enquanto no início do século XX ele assumia contornos de exceção, representando aquilo que a pessoa comum jamais seria, e, por isso, se sustentava num tipo de identificação de caráter subalternizante; sob o neoliberalismo, o líder passa a refletir o “si mesmo” de cada existência individual. Sem abandonar seu status de exceção, deixa de significar coerção para representar liberdade para ser igualmente exceção. O antigo soberano torna-se o gestor, que lidera pelo exemplo e por critérios técnicos.

No momento em que um homem de Deus, missionado para alargar as fronteiras do Reino dos Céus, se torna ministro do Supremo Tribunal Federal, por exemplo, não ocorre apenas a ocupação de um cargo. Para o cristão neopentecostal, o ato representa muito mais. Significa o despojamento real dos principados e das potestades que regiam sobrenaturalmente sobre aquela fatia específica do poder secular, libertando de suas influências todos os níveis de atuação do servo do Senhor: desde seus colegas e subalternos, que se veem livres das influências diabólicas mais diretas e se tornam mais receptivas ao evangelho, até o próprio sistema de justiça secular, tradicionalmente campo de atuação dos demônios mais poderosos do inferno. Significa, assim, um passo decisivo na conquista total da nação para o Reino dos Céus.[20]

Os estudos sociológicos divergem quando buscam situar a matriz política neopentecostal (MARIZ, 1995). Para um grupo, o fenômeno tem características emancipadoras por construírem redes sociais de apoio, quando analisadas em sua atuação nas periferias, e que, portanto, apesar do conteúdo reacionário da sua teologia, sua significação perpassaria mais pelos seus efeitos emancipatórios.

Já para outro grupo, o conteúdo conservador e totalitário[21] da sua doutrina é muito relevante no discurso neopentecostal para que possamos ignorar suas raízes autoritárias. É possível que um fenômeno marginal e periférico, com características de massa, possa se sustentar conservador? Ou esse conteúdo reacionário e autoritário tenderia a diminuir por força dessas características? Tivemos essa resposta nas urnas brasileiras, em 2018.

Os dilemas sobre a natureza política do neopentecostalismo e a dinâmica do neoliberalismo também confluem nesse ponto. Parte dos estudos associa neoliberalismo e democracia, tomando por certo que um sistema democrático seria pressuposto para a implementação da sua agenda.[22] Enquanto isso, pesquisas apontam, em oposto, para uma verve autoritária inexorável, sobre os fundamentos e sobre a implantação prática da austeridade neoliberais, e para a ascensão mundial de lideranças protofascistas encampando suas políticas.

Enquanto o alicerce do liberalismo clássico é a dimensão da “troca entre iguais”, no neoliberalismo esse alicerce é deslocado para a dimensão da concorrência. Por isso, o ethos neoliberal, em sua essência, se assenta na desigualdade. De forma que, conferir qualquer espaço para a democracia, é antitético e paradoxal.

Existem, portanto, mais razões para compreender como equivocada qualquer tentativa de confundir neopentecostalismo com emancipação, e neoliberalismo com democracia. Seja em seus fundamentos éticos, seja em suas raízes metapsicológicas, o autoritarismo se apresenta nos fundamentos da produção de subjetividades de ambos os fenômenos.

Perverso ou melancólico: luta de classes na constituição da subjetividade neoliberal

A noção de que o pentecostalismo e o neopentecostalismo seriam obrigatoriamente marcados pela pauperização também mostrou sua força nos trabalhos que se propuseram a analisar o neopentecostalismo a partir do referencial teórico psicanalítico.

A primeira dessas tentativas leva a marca desse preconceito. É tomado como pressuposto que o milagre, a cura, a ascensão social e financeira prometidas; ou seja, o retorno almejado pela fé, é, a priori, impossível. Cada demanda pelo sobrenatural é marcada pelo “princípio da promessa sem cumprimento” (PARAVIDINI, 2009). Diante de um clamor que não cessa e de uma resposta que inevitavelmente nunca virá, a primeira hipótese para a subjetividade neopentecostal é de masoquismo. Diante da impossibilidade de retorno da demanda que o fiel lança para Deus, fica subentendida a existência de alguma satisfação inconsciente ligada ao sofrimento e à humilhação do sujeito.

Sem aprofundar no desenvolvimento da noção de masoquismo na obra freudiana, importa, para os objetivos deste ensaio, entender que ela culminou no chamado masoquismo moral (LAPLANCHE, PONTALIS, 1970). Em que um sentimento de culpa inconsciente procura a posição de vítima sem que nenhum traço de satisfação esteja implicado no fato. Isso ocorre porque a mesma energia destrutiva que gostaríamos de despejar sobre o outro acaba sendo represada pelo dique das proibições morais e retornando com a mesma força e agressividade sobre o próprio eu (ANDRADE, 2011).

Entendendo isso, podemos mensurar algumas consequências do diagnóstico de masoquismo do neopentecostalismo e do neoliberalismo. Inicialmente, é notório nos estudos de Freud (1927b[1996]), que algo desse masoquismo é característico das religiões judaico-cristãs, em suas raízes fundamentais. É difícil, portanto, delimitar o que, nesse masoquismo neopentecostal, seria inovação ou continuidade com o legado de severidade interna, tão marcante do cristianismo em toda sua história. No que diz respeito ao neoliberalismo, fica ainda mais difícil sustentar o diagnóstico de masoquismo. Seu paradigma da gestão do desejo segue a fórmula do “goze a qualquer preço” (MELMAN, 2003), e não parece que essa forma de gestão seja diferente no neopentecostalismo.

A construção de uma metapsicologia do sujeito neoliberal forjado sob o ethos neopentecostal aponta sempre para um resíduo, um resto. Esse outro também se constitui sujeito nesse processo, e também é produto da máquina constituidora de subjetividades neoliberais. Mesmo na hipótese diagnóstica de masoquismo, podemos perceber a sobra: quando Freud concebeu inicialmente seus estudos sobre a patologia, ele a pensou a partir do sadismo, como uma díade complementar.

Ao mesmo tempo em que o masoquista retira satisfação não apenas da dor, mas da sua redução a objeto do outro, o sádico opera a relação inversa: sua satisfação está em dominar para reduzir o outro a mero objeto de satisfação.

No que se refere ao neoliberalismo, o diagnóstico de perversão é um caminho possível. A política é implementada por reforma, e não por convencimento, e, sempre que possível, medidas autoritárias podem ser demandadas para acelerar sua implementação, como no caso do laboratório neoliberal chileno sob a ditadura Pinochet, apoiado pela Escola de Chicago. Não pode haver a criação de qualquer força subjetiva de coerção interna quando a miséria é imposta e a única chave explicativa que é oferecida ao sujeito é a responsabilização direta por tudo que lhe acomete. Tal como no sadismo, o indivíduo neoliberal é o sujeito tornado em objeto.

Ao mesmo tempo em que o neoliberalismo faz um uso oportunista de qualquer situação de emergência humanitária como pretexto para implementação de suas políticas, ele mesmo produz novas crises que reiteram ad eternum a sua alegação da necessidade de mais neoliberalismo. Não existe nenhuma mobilização pulsional, diante das sucessivas crises que suas políticas lançam sobre o sujeito.

Não importa o quão calamitoso seja, qualquer evento que possa ser descrito como uma emergência humanitária é traduzido como “uma janela de oportunidade para reformas estruturais nos planos político e econômico”, não importa sua natureza ou gravidade: “(…) de epidemias a pandemias, desastres naturais até golpes de estado e guerras”. Irrelevante que carreguem a marca do choque traumático, na medida que provocam a mobilização social e psicológica de toda sorte de angústias (LIMA, 2020).

Naomi Klein (2008) propõe a tortura como metáfora para essa produção do desastre do neoliberalismo: é uma “forma sistemática de violência psicológica e física” com a finalidade de “gerar confusão e desorientação temporária no torturado”, arruína suas barreiras psíquicas, “forçando-o a se desprender de suas próprias convicções e consciência, tornando-o facilmente suscetível as sugestões dos torturadores, cedendo a sua vontade”.

Os limites da metáfora são mais ou menos claros: não existe tortura sem a figura, mesmo encoberta, do torturador; e, no neoliberalismo, o “trabalhador é livre pra carregar sua própria chibata”.[23]

É no neopentecostalismo que encontramos a operação invertida, feita sob medida para a gestão e produção de crises neoliberais. A geração de subjetividades, ao mesmo tempo, completamente resignadas diante das intempéries e determinadas a transformar suas crises pessoais em novas oportunidades de alargar as fronteiras do Reino dos Céus. Resignadas com sua chibata, porque o que lhes acomete ou é uma prova de Deus a sua fé, ou é culpa de algum pecado cometido e ainda não confessado; determinadas com sua Bíblia fetiche, pois sabem que “o tempo de Deus não é o tempo do homem” e que, a Seu tempo, a bênção virá. Aqui, a sobra se inverte: para alguém, a bênção vem.

O crente só não é recompensado com “bênçãos sem medida” por conta de alguma incapacidade sua. Logo, exigir de Deus o que é seu por direito é uma profissão de fé. É necessário querer do fundo da alma e crer com todo entendimento que aquilo que se busca é possível, agradecendo antecipadamente, na crença de que o pedido já fora atendido. A máquina de produção da subjetividade neopentecostal demanda uma censura severa sobre a realidade, na qual o testemunho de vitória do irmão em Cristo se torna vitória própria no processo de identificação.

O análogo disso na perspectiva neoliberal também tem a função de gestão social dessas reações psíquicas. Sua perpetuação está intimamente condicionada a disseminação do ideário da identidade de si e do empreendedorismo (Dardot e Laval, 2016). De igual forma, a nova ética neoliberal – “identidade, accountability e empreendedorismo” – é igualmente determinante para a própria existência e perpetuação do neoliberalismo (LIMA, 2020).

Como solução para os desastres, produzidos em cadeia, emergem as reformas estruturais, que paulatinamente tornam os estados mínimos para a população, e máximos para os grandes acumuladores de capital, com a concessão de benefícios e isenções e a transferência acintosa de renda para o mercado financeiro[24].

A lógica do “milagre impossível” não se sustenta por uma série de razões, das quais apontaremos algumas. A rede de sociabilidade criada no contexto das periferias não apenas aumenta as possibilidades de empregabilidade e ajuda social como representa um incremento significativo nas cartas de clientes e de trabalhadores de baixa remuneração para os empresários de todos os níveis. Além disso, a lógica perversa do “empreendedor de si” tem ampliadas suas chances de retorno na medida em que a formação financeira, a disciplina e a disposição para assumir riscos, características demandadas para a manutenção de um negócio, são naturais ao fiel, pois estruturam a própria igreja, sua teologia e seu discurso empresarial.

É aqui onde a noção de luta de classes se impõe sobre a análise da relação entre a ética neopentecostal e o neoliberalismo a partir do diagnóstico psicanalítico: retornando ao fetiche freudiano (LOPES, 2019). Dê um lado estão a Bíblia, que submete Deus aos desejos do fiel e justifica o sofrimento do ímpio; a Economia, que submete ao mercado; a cultura; as formas de sociabilidade; e as ciências, ambas erigidas como verdades infalíveis. Do outro, a chibata, onipresente, tanto na culpa pelo pecado como na lógica meritocrática.

Fetiches “sagrados”

A Bíblia-Economia-Fetiche nos aponta para a perversão. É uma representação viável, quer para o neopentecostalismo, quer para o neoliberalismo. Já a chibata é um “fetiche às avessas”, que materializa a opressão autoinfligida pela própria culpa e necessidade. A chibata que se volta contra o eu, não sob a forma de culpa superegoica, como teorizada por Freud, mas delirantemente individualista, em sua responsabilidade sobre absolutamente toda a desgraça que lhe acomete.

Se Deus é sem falhas, qual a necessidade do fetiche? Se o fetiche funciona, qual falha de Deus ele encobre de forma tão eficaz? Não é fácil encontrar uma resposta unívoca para essas perguntas. Só neste artigo, já saltam aos olhos a quantidade de “não ditos” em cada detalhe da crença que seriam altamente interessantes, do ponto de vista psíquico, de serem tamponados pelo fetiche. Com o agravo de que, conforme o paradigma freudiano, quanto maior as forças de resistência investidas no acobertamento da questão conflitiva, maior o impacto da ideia recalcada nas formações psicopatológicas.

“Estarei eu errado?” Como resistência, o cristão ergue, falicamente, a Bíblia, que obviamente precisa ser protegida de tudo que agrida sua integridade e sua legitimidade como verdade. É o mais fundamental questionamento e que precisa, por isso, ser severamente reprimido para sustentar a fé fundamentalista. “Meu caminho é o único legítimo?” A força que esse estatuto de universalidade exige para se sustentar tem, ao longo da história, se traduzido em agressividade e violência, reiterando ainda mais a dúvida que pretendia combater.

Quando essa dúvida é reprimida com eficácia, ocorre uma reversão que produz profundo apaixonamento a partir da identificação com o grupo. “Tudo que tive que abdicar, ao me tornar crente, me salvou da danação ou me garantiu uma vida sem satisfação?” Esse questionamento está no bojo de diferentes estratégias neopentecostais para angariar seguidores: músicas em diferentes estilos com letras gospel, eventos e shows, intensa vida social dentro da igreja. Tudo para garantir ao cristão o mesmo acesso à satisfação que tinha antes da conversão, ao mesmo tempo que explora um novo nicho de mercado em ascensão.

Também tem sua força reconhecida pelo peso social dos testemunhos pessoais, em que se descreve o quanto a vida pregressa desregrada significou morte e destruição, e a conversão representou nova vida e novas possibilidades de satisfação: ser “ex-alguma coisa” é sinal do favor e do amor de Deus manifesto na história do crente.

É agora que a filosofia é capaz de nos dar uma síntese das, aparentemente multifacetadas, verdades traumáticas ocultas na teologia neopentecostal. À sua maneira, são um recalque da constatação nietzschiana: “Deus está morto”, ou melhor, do retorno do recalcado sob a forma de sintoma. Foi a civilização sem Deus que o filósofo descreveu ao se referir à modernidade, que lançou as bases para que essas questões pudessem ser formuladas. E que sustentam a necessidade de um fetiche que tampone a maior de todas as faltas, a inexistência. Seria então a reação mais violenta e odiosa do novo fundamentalismo um reflexo da insistência em adorar um trono vazio?

O objeto recalcado, no neoliberalismo, não é tão elaborado, porém, decisivo. Existem evidências significativas da necessidade neoliberal em recalcar as próprias consequências da implementação da sua agenda. Foram seus próprios elaboradores que criaram o nome neoliberalismo. No entanto, depois da sua implementação, durante os governos Thatcher, na Inglaterra, e Reagan, nos EUA, o título ganhou sentido exclusivamente negativo. A partir daí, o nome neoliberalismo passou a ser violentamente rejeitado. Fernando Henrique Cardoso, nosso sociólogo ex-presidente, respondeu à alcunha de neoliberal, que seus críticos lhe atribuíram, com uma inovação linguística: “Neobobismo”.

Freud (2011) nos indica a estratégia psíquica mais interessante para o sujeito lidar com um objeto perdido: o luto. No entanto, é difícil sustentar a tese de que tenha sido esse o caminho da religião e do capitalismo contemporâneos. Certamente a chibata não pertence a uma subjetividade enlutada. Retornemos aos fundamentos do luto para encontrar o que pode ter ocorrido nesse ínterim, que nos parece um caminho promissor na busca da outra face da díade subjetiva neoliberal; daquilo que sobra e que grita.

O luto pode ser descrito, como Freud aponta, como “a reação à perda de uma pessoa querida ou de uma abstração que esteja no lugar dela, como pátria, liberdade, ideal etc.” Seus sintomas são: “um desânimo profundamente doloroso, uma suspensão do interesse pelo mundo externo, perda da capacidade de amar, inibição de toda atividade (…)” e uma fixação no objeto perdido, que se torna onipresente.

Existe uma relação inequívoca entre o luto e a melancolia: ao mesmo tempo que compartilham de um mesmo escopo sintomático, são opostas quando situadas entre o normal e o patológico. Enquanto no luto[25], vemos a presença reiterada do objeto perdido, sem que a dor da perda promova a retirada do conteúdo para o inconsciente, permitindo o trabalho de desinvestimento pulsional no objeto; na melancolia, o que ocorre é a retirada do objeto perdido da consciência.

Esse processo repressivo sobre o objeto perdido acaba por somar à melancolia um sintoma não encontrado no trabalho de luto: “um rebaixamento extraordinário do seu sentimento de autoestima, um enorme empobrecimento do ego”. No luto, é o mundo que se embota, tornando-se “pobre e vazio”, enquanto na melancolia, é o próprio eu que se torna alvo do embotamento pulsional.

Não nos deixemos, entretanto, nos enganar quanto às definições. Apesar de não ser obrigatório, não é nada incomum a presença da culpa no luto. No entanto, mesmo essa culpa é marcada pela ambivalência e vem permeada de dúvidas. Isso ocorre porque a ambivalência também marca a relação do sujeito com o objeto enquanto presente: todo objeto de amor é também objeto de ódio e ressentimento; e não é apenas a libido que precisa voltar ao eu, mas também essa agressividade. No final do trabalho de luto, a libido se transforma em saudade ou ressentimento, e o desprezo, em conciliação ou asco.

Já na melancolia, não há ambivalência. Ao contrário, o próprio eu se torna alvo das pulsões agressivas: é “indigno, incapaz e moralmente desprezível; ele se recrimina, se insulta e espera ser rejeitado e castigado”. Na medida em que não existe objeto perdido na consciência, o eu se torna alvo de todo o ódio que antes era dirigido ao objeto. As pulsões violentas tornam o sujeito no carrasco de si mesmo.

“O quadro desse delírio de inferioridade – predominantemente moral – se completa com insônia, recusa de alimento e uma superação – extremamente notável do ponto de vista psicológico – da pulsão que compele todo ser vivo a se apegar à vida.” (FREUD, 2011)

Enfim, deparamo-nos com a segunda parte da nossa díade neoliberal/neopentecostal. Diante do trono vazio, só existem duas posições admissíveis para a proteção da fé: ou se faz uso da Bíblia-Lei do Pai para garantir a objetificação do mundo aos próprios desígnios do filho perverso, e assim preencher o vazio do trono com seu próprio reflexo; ou se reage com violência à constatação da morte do Pai, algo que, por ser impossível de se admitir a nível consciente, retorna, agressiva e delirantemente, sobre o eu.

Aquilo que tem gritado desde o início destas páginas tem vociferado contra si mesmo, por ser o único, completo e suficiente responsável pela sua própria maldição. Ou por se encontrar alienado dos motivos concretos que engendraram sua miséria, ou por se encontrar alienado do próprio trono vazio.

“O autotormento indubitavelmente deleitável da melancolia significa, (…) a satisfação de tendências sádicas e de tendências ao ódio relativas a um objeto, que por essa via sofreram um retorno para a própria pessoa.” (FREUD, 2011)

Depois da díade desvelada, cabe-nos pensar em como ela se relaciona na situação concreta. Já pudemos demonstrar como essa articulação ocorre no neoliberalismo: produção e gestão perversa de sucessivas ondas de crise, somadas a responsabilização extrema da sua vítima, através da implantação do ideário individualista e meritocrático do empreendedor de si mesmo. Para que pensemos no neopentecostalismo, precisamos alcançar um degrau teórico além do que já tratamos até aqui.

Quando adentramos num culto neopentecostal, não nos deparamos com a melancolia estampada nos rostos, muito menos no comportamento dos fiéis. Ao contrário, o clima de ininterrupta excitação nos faz questionar a legitimidade do diagnóstico, diante da apresentação que fizemos dos sintomas melancólicos. Porém, existe um aspecto da melancolia que explica a própria mobilização pulsional excessiva que encontramos no culto neopentecostal: a existência de uma fase maníaca na consecução do trabalho pulsional melancólico.

Freud (2011) ressalta que: “Não apenas é lícito, como imperioso, estender também à mania a explicação analítica da melancolia.” Pois, apesar de nem sempre ser presente, as operações psíquicas que sustentam ambos os estados, por opostas, têm os mesmos fundamentos psíquicos. Os exemplos que Freud utiliza para explicar o mecanismo da mania são: a embriaguez alcoólica, desde que seja alegre, por conta da supressão, por intoxicação, do gasto pulsional demandado na repressão imposta pela civilização; e o “enamoramento juvenil” (FREUD, 1921), por promover a total substituição do eu pelo objeto, que é alçado a um estado de perfeição igualmente delirante. Parece-nos que tanto a fragilização do eu na melancolia clínica como a fragilização que lhe é imposta pela noção de indivíduo produzem sintomas delirantes.

Manias e manias

Nem aqui, no âmbito da gestão das subjetividades, neoliberalismo e neopentecostalismo se distinguem muito. Para o neoliberalismo, a mania é ótima para os negócios, pois lança o sujeito num consumo delirante e desenfreado; e a melancolia, ótima para a implementação das reformas, por garantir sujeitos incapazes de reconhecerem a realidade e reagirem. No neopentecostalismo, por sua vez, a mania mantém o espírito de elevada e constante excitação, imprescindível para a sustentação mística e sobrenatural da sua teologia. Já a melancolia mantém o sujeito aprisionado à reversão da agressividade, que migra do trono vazio para o eu, sem que a realidade possa se opor a essa operação.

“Na medida em que, como um faminto, o maníaco sai em busca de novos investimentos de objeto, ele nos demonstra de um modo inequívoco sua libertação do objeto que o fez sofrer.” (FREUD, 2011)

Apesar disso, esse circuito fechado que vai da perversão à melancolia, mesmo eficaz em sua função de inibir qualquer reação do sujeito, não é tão sólido e coeso como aparenta. A pedra de tropeço da fé cristã fundamentalista já estava dada desde a sua criação, e merece ser aqui relembrada: tudo se iniciou como uma reação aos efeitos da entrada dos saberes científicos nas escolas americanas. E a história provou que essa reação tinha razão em seu propósito de lutar contra a ocupação da ciência nas escolas – por todos os países em que a educação se desenvolveu com qualidade e com fundamentos críticos e abordagem científica, a religião perdeu sua aderência.

Diante disso, salta aos olhos como a influência política sobre a educação é crucial para a manutenção de ambas as máquinas de produção de sujeitos: a neopentecostal e a neoliberal. As igrejas insistem em inserir doutrinas não científicas nos currículos escolares, ao mesmo tempo que organizam uma cruzada moral contra educadores e cientistas.

Enquanto o neoliberalismo segue reformando paulatinamente os sistemas públicos de ensino de diferentes países, transferindo para a iniciativa privada os recursos que deveriam ser investidos na educação pública, além de implementar a homogeneização global dos currículos, para garantir a mobilidade internacional do trabalhador ainda enquanto estudante.

“Os efeitos da utopia neoliberal sobre o mundo real são conhecidos: sofrimento, desigualdade, desaparecimento dos universos autônomos de produção cultural, destruição das instituições coletivas e darwinismo moral.” (BOURDIEU, 1998: 144-145)

O que temos visto hoje é reflexo objetivo desses esforços fundamentalistas, seu produto é o chamado “negacionismo científico”, disseminado em escala global. Não é em conflito com as forças modernas secularizadoras que ocorre o retorno do misticismo, mas por consequência da própria modernidade. Os limites das teorias científicas em dar conta da verdade e de seu status de parcialidade e transitoriedade condenam a verdade científica de hoje a de ser superada obrigatoriamente pela próxima teoria (KUNH, 2012).

A realidade passa a ter, em suas próprias bases, a contradição posta, diante de qualquer busca pela coerência. Frente ao desamparo, qualquer noção que nos garanta uma base estável sob a qual julgar verdade e mentira tem potencial para valorização no mercado das ideologias. E se essa ideia puder, sob qualquer pretexto, concorrer com a inconstante verdade da ciência, cessa a angústia de se estar à deriva em um mundo caótico e indeterminado, momento em que a mania emerge.

No mesmo espírito, o século XX acompanhou dois fenômenos paralelos em nossas concepções científicas, em certos termos, dissonantes. De um lado, a ascensão da astrofísica e da microfísica, da matemática topológica e da exponencial alienação proporcionada pela nova existência virtual, às quais estamos hoje compulsoriamente submetidos, consolida as ciências exatas e da natureza como as legítimas substituidoras da crença e da magia. De outro, as ciências humanas e sociais atingiram um patamar analítico sobre o saber, o poder e sobre si mesmas nunca antes visto. Ao mesmo tempo que se tornam críticas minuciosas de cada elemento da realidade, transformam os fenômenos mais simples em tal complexidade que qualquer leigo se vê incapaz de compreendê-los.

Os saberes “estáveis”[26] são valorizados. Qualquer outro é inconvenientemente problematizador e deve ser, por suposto, tomado a priori como engano e ilusão. E mesmo entre os saberes admitidos como substitutos da magia, devem, para garantir sua legitimidade, se submeter ao fetiche-economia, sob pena de heresia, como ocorreu com as ciências sociais.

“Maldito o homem que confia no homem”[27]

Referências bibliográficas

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WEBER, Max. (1905) Ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Pioneira, 1999.


[1]           Bíblia Sagrada: Mateus 7:17-20. As citações bíblicas apresentadas não são aleatórias, mas um recorte dos trechos mais utilizados nos púlpitos, na justificativa de determinada doutrina ou teologia.

[2]              Série de julgamentos que ocorreu na região de Salém entre os anos de 1692 e 1693, que se caracterizou por uma “caça às bruxas” que vitimou mais de 20 mulheres e que envolveu delação entre vizinhos e outras formas questionáveis de inquérito.

[3]           Malaquias 3:10.

[4]              Por consequência de profundos investimentos sociais e fatores socioeconômicos, os países do norte da Europa apresentam hoje os maiores índices de desenvolvimento humano e de pessoas autodeclaradas ateias.

[5]           Mateus 6:31-33

[6]           Página da ADHONEP: https://adhonep.org.br/conheca-a-adhonep/

[7]           Bíblia Sagrada: Mateus 6:24a.

[8]           Psicologia das Massas e Análise do Eu: obra considerada por muitos como profética, pois prenunciou muitos dos fenômenos e estratégias típicas do nazifascismo, que ascenderia ao poder tempos mais tarde.

[9]           Sola Scriptura é o princípio da reforma protestante, segundo o qual a Bíblia tem absoluta primazia, sendo ela a única regra de Fé e Prática que todo ser humano deve seguir.

[10]         Números 23:19.

[11]         Bíblia Sagrada: Atos 2:1-4.

[12]         Bíblia Sagrada: Lucas 9:23.

[13]         Bíblia Sagrada: Marcos 16:17.

[14]         Bíblia Sagrada: Malaquias 3:10.

[15]        Franklin D. Roosevelt, citado por Hayek (1990)

[16]         1. Ponto ou estado de caráter atrativo ou concludente para o qual se move uma realidade; finalidade, objetivo, alvo, destino. 2. Fase final, derradeira; a última parte, o remate. (Dicionário Oxford)

[17]         Bíblia: Marcos 16:15.

[18]         Bíblia Sagrada: Gênesis 9:7a.

[19]        Bíblia Sagrada: Efésios 6:12

[20]         A lógica autoritária pode ser facilmente verbalizada quando protegida pela máxima: “nossa luta não é contra a carne ou o sangue”.

[21]         O termo totalitário aqui utilizado se afasta da noção de totalitarismo de Hannah Arendt. O conceito, para a autora, tem função de reunir o nazifascismo ao stalinismo como fenômenos de uma mesma matriz, o termo aqui tem função de aproximar os aspectos totalizantes da teologia neopentecostal e a gama totalizante do livre mercado neoliberal.

[22]         Um discurso típico de defesa da implantação das políticas neoliberais alega que somente assim preservaremos a democracia.

[23]         Paulo Galo: líder do Movimento dos Entregadores Antifascistas. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=bmUhQJVXw8o&t=16s

[24]         Vide a operação de salvamento dos bancos pelo governo dos EUA após a crise de 2008.

[25]         O melhor exemplo do luto diante da “Morte de Deus” é a militância ateísta que tem se estabelecido nos últimos anos. São os ateus militantes quem mais têm se dedicado a estudar os princípios da fé, sob o pretexto de combatê-la. Diz-se, entre os evangélicos, que ninguém conhece melhor a Bíblia do que um ateu. O Deus morto é onipresente, como no luto.

[26]         O impacto dessa relativização assola até mesmo o debate interno das ciências humanas e sociais, transformando suas conclusões em algo mais próximo da narrativa literária do que de um saber científico.

[27]         Bíblia Sagrada: Jeremias 17:5a.

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