Exegese da embriaguez incondicional

Exegese da embriaguez incondicional

Fernando Lokschin, Médico

 

“Quando as jabuticabas ficavam como mel, dizia Narizinho, as vespas escolhiam as melhores frutas, furavam-nas com o ferrão, enfiavam meio corpo dentro e deixavam-se ficar muito quietinhas, sugando até caírem de bêbadas”, contou Monteiro Lobato às crianças em 1931.

Não só a vespa, o chipanzé evita comer algumas frutas maduras para depois usufruir da sua fermentação, e o elefante intoxicado pela amarula, como todo  bêbado, pode se tornar muito destrutivo.

O homem é mais atraído pelo álcool que a vespa, o chipanzé ou o elefante. ‘Substância rara guardada escondida na natureza’ (Brillat-Savarin,1848), sempre se deu um jeito de obtê-la. O esquimó fermentava a gordura de foca, o tupinambá mascava a mandioca. Toda fauna e flora foi matéria-prima, desde o mel de abelha e leite de égua, até a casca de batata e o esterco fresco.

Onde havia sociedade estava o álcool, presença universal como a vida diurna, linguagem, tabu de incesto, guerra e religiosidade. Sua valorização foi sempre privilegiada, frequentemente com status divino: entusiasmo (en-theo-asmos), ‘estar com deus’, significava originalmente ‘beber álcool’ e espírito tem o sentido de ‘álcool destilado’.

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A civilização inventou o álcool e a recíproca é verdadeira. Houve muitas culturas sem roda, sem escrita, sem fogo, poucas sem álcool. A agricultura brotou do cultivo da cevada e o pão cresceu da levedura da cerveja respingada na farinha. Há quem sugira que as palavras germânicas para ‘pão’ (A. brod; I. bread, Hol. brood) derivem do Ger. brauen, ‘fazer cerveja’. Beber parece intrínseco à natureza humana.

O fim do nomadismo; as cidades brotaram em áreas irrigadas a produtoras de cereais cuja finalidade era ser tanto bebida como comida. A cerâmica moldou-se para armazenar a cevada fermentada e, milênios depois, foi a cervejaria que deu início à Revolução Industrial.

O álcool descobriu o mundo invisível. A química nasceu da destilação, a microbiologia da fermentação: como o pão e o queijo, o álcool é obra de fungos e bactérias. A pasteurização foi desenvolvida na tentativa de tornar a cerveja francesa boa como a alemã e foi usada no álcool 32 anos antes que no leite. A refrigeração surgiu para controlar a fermentação, só depois para conservar o alimento.

A dimensão cultural do álcool é tal que o verbo beber sem objeto direto – e ainda bebida, embebedar, bêbado, bebedeira – não é alusivo à água. A linguagem a traduzir os valores dos falantes, o Dicionário Houaiss lista nada menos do que  nove centenas de sinônimos para o verbete ‘cachaça’! E nem deveria causar surpresa saber que o termo embevecer seja derivado de ‘beber’.

Se Hitler usou gás, Zyklon B, na final solution, a arma de destruição de massa da divindade no extermínio de sua criação foi água pura – 40 dias de chuva. Um ano cercado por água, não surpreende que as duas providências do sobrevivente Noé para repovoar (e melhorar) o mundo tenham sido plantar uma videira e tomar um pileque – inclusive, ato típico de bebum, fazendo um strip-tease.

 

Eque coincidência a arca atracar no Monte Ararat, divisa entre Turquia e Irã, bem na origem geográfica da vinha. Primeira documentação dos benefícios à saúde do Resveratrol, Noé viveu 950 anos, tornando-se o patrono não dos longevos ou marujos, mas dos borrachos.

Nascimento, acasalamento, morte, álcool – a religião monopoliza os valores que fundamentam a existência. O pão era o corpo e o vinho era o sangue de Osíris, o deus egípcio. Se os escravos que construíam as pirâmides tomavam cerveja (5 litros por dia), os nobres, futuros moradores, bebiam vinho. Junto ao sarcófago de Tutancâmon, um rei menino, havia 26 ânforas de vinho, tintos e brancos, todas com safra, origem e produtor especificados.

Herança pagã, o judaísmo e sua dissidência cristã são embebidos em vinho. A vinha é a planta mais citada na Bíblia: 261 vezes. Foi presente de Deus aos homens, fonte de alegria, sabedoria e saúde. O Velho Testamento concebe o povo judeu como uma vinha – ‘a planta da predileção divina’ – transplantada do Egito até Canaã. O shabat inicia com a oração junto ao vinho e o casamento se consuma no quebrar da taça na qual os noivos compartilharam a bebida. Preceito talmúdico humanizante, no Purim o fiel deve beber até confundir o ‘Maldito Hamán’ com o ‘Abençoado Mordechai’, o inimigo com o protetor, o mal com o bem.

Um judeu celibatário vivendo à beira-mar junto ao grupo de amigos pescadores, Jesus tinha uma dieta mediterrânea: peixe, oliva, pão e, em momentos especiais, cordeiro e vinho. Sua religião se fez nesta dieta: o fiel representado como peixe, Cristo (G. krisma), o ‘untado (com óleo)’, é o cordeiro de Deus, líder do rebanho; pão é seu corpo e vinho, seu sangue. A estreia sobrenatural de Jesus foi pela transformação da água em vinho durante um rito de fertilidade, uma festa de bodas.

O cristianismo ficou multinacional e ao abstêmio foi interditada a vida eclesiástica: beber era propagar o evangelho. No Séc. XVI, na Catedral de Sevilha, em seus 24 altares e 400 missas diárias, 2.500 tonéis de vinho eram esvaziados a cada ano.

Munique, a capital mundial da cerveja, quer dizer ‘monastério’. Todo mosteiro sem o terroir para a vinha, tinha uma cervejaria. Houve dezenas de santos e milagres cervejeiros. Santa Brígida transformou a água do banho de um leprosário na mais cristalina das cervejas. Ernest Renan (1892) conta do Santo Winnoch de Tours, “pio mas ébrio a ponto de ser acorrentado para não perseguir aldeãos com facas, pedras e porretes – assim mesmo, um santo”.

Apesar das palavras álcool e alambique serem árabes, o islã interdita o álcool na vida terrena – embora apregoe seu amplo consumo (aos homens) no Paraíso. Para o Corão, cada uva esconde um demônio. Ironicamente, uma geografia tão receptiva à vinha criminalizou o desfrutar do vinho. O primeiro registro arqueológico relacionado ao vinho é um jarro descoberto no Irã e datado de 5400 a.C., e o primeiro registro escrito é um tablete de barro de 3300 a.C. que versa sobre encontrado no Iraque e sobre cerveja.

A visita do presidente iraniano à França em 1999 trouxe uma crise diplomática: Muhammad Khatami recusava-se  sentar à mesa com vinho; Jacques Chirac, à  mesa sem vinho.

Churchill deixou o registro do jantar que ofereceu a Ibn Sa’ud, rei da Arábia Saudita, em 1945: “Quando soube da proibição de beber álcool ou fumar frente à autoridade real disse que se a religião de Sua Majestade o impedia de beber e fumar, eu devia deixar bem claro que minha regra de vida considerava um rito sagrado o ato de fumar charutos e consumir álcool antes, depois, durante e, se necessário, nos intervalos das refeições. O rei graciosamente aceitou minha posição.”

 

até parece mentira a história de Wladimir de Kiev (998 d.C) cujo reino serviu de raiz para a moderna Rússia. Querendo juntar o povo em uma crença, Wladimir considerou as três religiões monoteístas. A perda de Jerusalém era prova de que Deus abandonara os judeus; o islamismo era sombrio e a alma eslava não brilharia sem álcool. A Rússia foi batizada no cristianismo bizantino.

Cinco séculos antes de Colombo, o primeiro nome europeu da América foi Winland, ironicamente conferido por nórdicos bebedores de cerveja. O álcool esteve presente na primeira recepção brasileira: Cabral ofereceu vinho aos dois índios que subiram a bordo, mas, “mal lhe puseram a boca, não gostaram nada, nem quiseram mais”, conta Caminha. Acostumados ao cauim, os tupinambás escolhiam as anciãs com piores dentições para mascar e regurgitar a mandioca. Quanto mais séptica a boca melhor a fermentação.

As leis astecas eram draconianas com o álcool. O plebeu flagrado bebendo ilicitamente tinha o cabelo raspado, a casa demolida, às vezes apedrejado. Nobres e anciãos (mais de 52 anos…) tinham o consumo liberado. A maioria do povo morria antes da idade de beber, mas havia exceções: as grávidas eram encorajadas a beber e, no festival Pillauana (‘embriaguês dos bebês’), que ocorria a cada quatro anos, os nascidos no período tinham as orelhas furadas e eram forçados a beber pulque, a aguardente de milho. A embriaguez asteca era determinada astrologicamente: todos nascidos no dia Umetochitli, ‘sob influência do Coelho-2’, eram destinados exclusivamente ao álcool.

Nossos ancestrais bebiam muito. A começar por Noé e Ulisses, os marinheiros são afilhados do álcool – a água não viaja bem. Na circum-navegação de Fernando de Magalhães, o suprimento de vinho custou o dobro da  nau capitânia, San Antonio; o gasto com sherry maior do que com canhões e pólvora (Gately, 2011).

O álcool era a munição dos exércitos; para o legionário romano, o hoplita grego e o guerreiro germânico um item importante como alimento e armamento, fundamental à camaradagem e bravura. No fronte de 1914 os ingleses eram abastecidos por rum antilhano, os franceses, vin pinard, “o item mais valorizado da ração”. Do outro lado da trincheira, os alemães tinham cerveja e conhaque. Quando a oferta aumentava, os beneficiados pressentiam a iminência do combate.

Na Segunda Grande Guerra, os oficiais nazistas tinham um prazer especial em celebrar vitórias com champanhe francesa – suprimentos de champanhe enviados ao norte da África forneceram a pista ao serviço secreto britânico que se preparava uma ofensiva na região.

A demanda por champanhe na França ocupada foi tal que surgiram as ‘Spécial Cuvée pour la Whermacht’, todas de péssima qualidade. Francois Tattinger, produtor da champanhe que leva seu nome, foi preso por isto.

Mesmo que os russos recebessem muita vodca, o exército vermelho conviveu com uma endemia de mortes por ingestão de solvente industrial, fluido de freio e líquido anticongelamento.

Na Batalha da Inglaterra, as cervejarias foram especialmente bombardeadas, reconhecimento de sua importância estratégica. No Vietnã, cada soldado americano recebia duas latas de cerveja por dia, cada divisão, 50 quilos de gelo. Mais cerveja, outras bebidas e drogas eram adquiridas no mercado paralelo.

Ao brindar à saúde de copo na mão fazemos justiça a uma longa convivência. Nosso metabolismo está bem adaptado ao álcool. Se seus malefícios – que são tantos – fossem maiores que os benefícios, sua presença não estaria tão enraizada na civilização. Está no DNA; herdamos o álcool, fomos selecionados para gostar dele. Nossos antepassados que bebiam álcool viveram e se multiplicaram mais legando-nos este traço genético. As sociedades criaram bebidas quentes ou alcoólicas a fim de reduzir a fragilidade da água à contaminação. No vinho, a sabedoria, na cerveja a força, na água a bactéria, diz o provérbio alemão.

Além do poder antisséptico – o álcool é produto de excreção, bebemos os dejetos dos fungos e bactérias –, há a ação conservante sobre os cereais e o aporte de sete calorias por grama. O hieróglifo egípcio para alimento é uma fatia de pão junto a um jarro de cerveja. Boa parte do sustento nutricional do mundo antigo foi feito em álcool.

Outro fator está no próprio intelecto que dizem caracterizar a espécie – a realidade nua e crua pede um bálsamo ocasional. Quem foi capaz de inventar a alegria? Perguntam Borges e a Bíblia. O álcool acompanha, conforta, inspira e sociabiliza; é capaz de aumentar a alegria e de afogar a mágoa. Haveria mais filosofia numa garrafa que em toda a biblioteca, dizia Pasteur. Conforto também: ‘Numc est bibendum, ‘hora de beber’, foi a reação de Horácio à morte de Cleópatra.

Perguntados o que fariam à véspera de um ataque nuclear, a maioria dos laureados com o Nobel abriria uma garrafa especial. O álcool cerca as passagens, encontros e despedidas. Na França, toda a criança que nascia, filho do senhor ou servo, era recepcionada com vinho – o seio vinha depois.

 

são muitas utilidades. Como o Almirante Nelson não queria ter o mar como sepultura, seu corpo foi conservado num barril de conhaque de seu navio capitânia. Frente ao pelotão de fuzilamento, Mata Hari tomou chumbo e champanhe. Hitler e Eva Braun brindaram com champanhe sua cerimônia acoplada de casamento e suicídio. O Drury Theatre de Londres incendiava (1809), e seu proprietário, Richard Sheridan, sentava-se num café vizinho dizendo ao garçom: “preciso de um copo de vinho para contemplar a chama na lareira de casa.”

Se bebo, vocês ficam interessantes, disse alguém entre amigos. O álcool aproxima. O costume de celebrar com brindes e bebidas remonta às libações aos deuses. Invocamos anseios e, se honrávamos deuses, passamos a honrar mortais. Como observou J. K. Jerome em 1889, “Nunca comemos à saúde de alguém, sempre bebemos. Porque não nos levantamos de quando em vez e comemos uma torta ao sucesso de um amigo?”

Para os gregos a mistura de água com vinho era a bebida humana. Vinho puro, como bebiam os Trácios e Cintianos, era barbárie e água pura, própria do animal e do homem sem paixão. Para Hegesandro de Delfos (Séc. IIIAC) água empestava o corpo com um odor desagradável, contava que “infames bebedores de água, Anquilomolos e Moschos, quando entravam nos banhos públicos, todos os outros frequentadores saíam apressadamente”.

 

Houve os que sentiam a água em antagonismo ao álcool. Baudelaire exigia que o garçom retirasse o jarro d’água da mesa dos cafés onde sentava. “A visão da água me faz mal”, dizia o poeta enquanto bebia Absinto, que em grego (apsinthion) quer dizer ‘imbebível’! Alfred Jarry, o autor de Ubu Rei, outro devoto do Absinto (“a deusa verde”), também evitava a água: “Terrível veneno, solvente tão corrosivo que, entre todas as substâncias, é a escolhida para faxinas e lavagens.”

O álcool era o travesseiro das decisões. Conforme Heródoto, “os helenos bebiam pesadamente para tomar uma decisão. Se a resolução fosse referendada quando sóbrios era colocada em prática. Por outro lado, se decidiam sóbrios, bebiam depois para conferir alcoolizados.”

Medicamentos e entorpecentes se entrelaçam a ponto de dividirem o termo ‘droga’. O álcool é sedativo, fortificante e anti-infeccioso. Para o gladiador ferido, beber vinho era o que mais próximo havia de uma transfusão de sangue. Hipócrates usava o vinho como panaceia em todas as enfermidades com a exceção da krapaile (origem da palavra ‘crápula’), a dor de cabeça a que se segue o excesso de álcool.

A ressaca é o menor dos problemas. Há a violência: bêbado, Alexandre matou seus amigos Clito e Calestene. Há o abuso: as filhas embriagaram Lot para serem por ele engravidadas. Há a doença: Fernando Pessoa escreveu A Tabacaria,  mas morreu no bar; a cirrose driblou Garrincha e pôs um The End em Glauber Rocha. Há o acidente: parceiros de copo de Ulisses, Elpenor despencou do telhado onde dormia e Polixene, trôpego, quebrou a cabeça ao cair no chão. Um exemplo recente e real foi a morte etílica da Princesa de Gales, Diana.

É lida simples nos problemas complexos é a proibição. No início do século XX, Suécia, Dinamarca, Finlândia, Noruega, Nova Zelândia, Austrália, Rússia e Estados Unidos criminalizaram o álcool. Todos fracassaram. Além de organizar a máfia, propagar a violência e aumentar a mortalidade, a lei seca norte-americana estimulou o uso do álcool a tal ponto que o psicólogo Carl Rogers sugeriu que o melhor a ser feito pela educação seria também proibir.

Em 1926 o biólogo Raymond Pearl demonstrou que a adição de álcool à ração deixava os frangos mais longevos. A linha que correlaciona o álcool com a saúde humana espelha a letra ‘J’, há muito dano no excesso, mas a sorte do abstêmio é pior do que a do bebedor prudente. No geral, 10% dos adultos não podem beber álcool, prejudicam a si e aos outros, os outros deveriam. Para La Reynière: “não há amigo melhor na moderação, não há inimigo pior no exagero”. A bebida é dádiva para 90% da sociedade, para os outros (no Brasil mais de 10 milhões!), maldição.

A embriaguez interfere com a aptidão de dirigir. Naturalistas suecos observaram que os pássaros que comem cerejas fermentadas têm risco maior de bater em vidraças.

A relação dos acidentes de trânsito com o álcool sanguíneo traça uma linha paralela a base desde o zero até a taxa 0.08 mg/dc para a partir daí subir e logo subir muito. Por isto a maioria das legislações permitem o dirigir até taxas de 0.06 ou 0.08. Quase 80% das fatalidades referentes ao álcool cursam com taxas acima de 1.6: 1.7 era o teor do motorista de Lady Diana em fuga dos paparazzi e da vida.

 

Nos Estados Unidos, a redução do nível de álcool para dirigir de 1.0 para 0.8 em 2000 fez por aumentar os acidentes. A explicação é que quando um grande grupo de pequeno risco tem de ser monitorado, o pequeno grupo de grande risco é negligenciado. Para Radley Balko (Washington Times, 30/10/05) “baixar a taxa de 1.0 para 0.8 foi como diminuir o limite de velocidade de 100 para 80km/h a fim coibir os motoristas que correm a 140.”

As evidências mostram que trazer uma criança no carro ou dirigir com menos de 35 anos equivalem ao risco da taxa de 0.8. Espirrar, limpar óculos, fumar, distrair-se, beber água, discutir, namorar, tomar tranquilizantes, dormir pouco, estar cansado, tudo soma perigo ao dirigir. Na atenção, a traseira da moça compete com a do caminhão.

A taxa brasileira de 0.02 não tem base epidemiológica e na América só se equipara à de Cuba, a pior frota rodoviária do mundo, e a da Colômbia, o exemplo do outro tráfego. Impede um casal de compartilhar um vinho no bistrô (e não há gastronomia sem o vinho) e possa, na segurança e conforto de seu carro, retornar para casa para ‘fazer a digestão da forma mais encantadora’ (Guia dos Gulosos, 1808) já que todos os prazeres são complementares. ‘Depois de Baco, Vênus’, escreveu Chaucer no Séc. XVI.

 

Para Tucídides, o historiador, os povos mediterrâneos ascenderam da barbárie no cultivo da oliveira e vinha. Os gregos diziam que onde há videiras, há civilização, fizeram também a bela observação que o clima ideal da vinha era o de paz. Épocas de concórdia geravam cepas melhores que as de violência. De fato, as sociedades que não toleram o álcool têm dificuldade de tolerar a liberdade, a equanimidade, a diversidade, a novidade. Têm se interditado ao futuro. Não progridem, parecendo nunca perder a oportunidade de perder a oportunidade. A intolerância embriaga.

Assim continua o soneto de Borges, ‘O vinho flui rubro ao longo das gerações/ Como o rio do tempo e no árduo caminho / Nos invade sua música, seu fogo e seus leões.’ Nossa cultura é invadida pela música e os leões do álcool. Como cantou Raul Seixas, ele mesmo vítima da bebida, “um poeta inspirado em coca-cola, que poesia mais estranha iria expressar”. São evoluções, transformações, subversões e revoluções da cultura, só o álcool é constante. ‘Embriague-se’, de Baudelaire, é um dos mais belos versos da língua francesa. Picasso desenhou dezenas de Bacos, Matisse pintou coros de bacantes. Os ingleses Francis Bacon e Lucien Freud e os americanos Pollock e De Kooning eram alcoolistas. O próprio personagem ‘o Vagabundo’ de Charlie Chaplin repete a figura e coreografia do bêbado. Hemingway, Scott Fitzgerald, Ezra Pound e Cole Porter viveram a Paris da belle époque refugiados da Lei Seca. Fernando Pessoa sofria de desassossego, “bebo muito, até a exaustão.”

Os irlandeses Joyce e Beckett tiveram crises de alcoolismo, e praticamente todo o cânone literário norte-americano foi escrito com etanol: Poe, Jack London, Faulkner, Steinbeck, O’Neill, Kerouac, Capote, Tennessee Williams, Norman Mailer, Edward Albee. De fato os 15.000 litros de café sorvidos por Balzac para escrever a Comédia Humana ou as 15 xícaras diárias de Voltaire são exceções.

Os tempos estão mais sóbrios, os excessos são de moderação. A foto do carro oficial do então presidente Lula ostentando no para-brisa o cartaz ‘Movido a álcool’ fez graça no noticiário internacional. João Paulo II, ‘o papa esportista’, morreu aos 85 anos bebendo religiosamente duas doses de vodca polonesa ao deitar. Elisabeth, a rainha mãe, ‘a mulher mais perigosa da Inglaterra’, na visão de Hitler, viveu 101 anos na companhia diária de “um Dubonnet com gim mais dois copos de vinho tinto no meio dia, um Martini e um porto ao entardecer e duas taças de champanhe no jantar”, na estimativa ‘conservadora’ do Guardian. Já Elisabeth I, a construtora do reino e, quatro séculos depois, Winston Churchill, o salvador, bebiam desde o desjejum.

Numa época da casa sem cozinha, da comida industrializada de micro-ondas, com 30% das refeições feitas em automóvel, frequentemente em movimento (EUA), é o álcool que preserva alguma liturgia de ingestão, seja um gesto de deferência, uma palavra de brinde, um toque de copo, uma troca de olhar. A herança do beber como culto religioso ainda vive; nenhuma outra área do comportamento é tão envolta em cerimonial, o leges compotanti romano, as leis do beber.

Separar o ‘Abençoado Mordechai’ do ‘Maldito Hamán, proteção da destruição, depende de proporção. Como tudo na natureza, é a dose é que faz o bálsamo ou o veneno. Na filosofia de Homer Simpson, o beber é causa e solução para todos os problemas da vida.

O grego Eubulo, o sábio, recomendava beber no máximo três taças: a primeira para a saúde, a segunda para o prazer, a terceira para o sono. E 2500 anos depois, esta seria a recomendação do médico sensato. Ian Gately encerra sua ‘História Social do Álcool’ com a sentença: “As pessoas que bebem com frequência, mas com moderação, são mais calmas, mais saudáveis, mais longevas, mais cultas, mais ricas, mais inteligentes e mais felizes do que as que nada bebem.” Só imagino que mal ficaria se nada bebesse, daí a gratidão.

Dorothy Parker, que tanto desfrutou do álcool e da vida, compõe com o encanto costumeiro o valor da temperança, a consideração que o melhor, como no corpo, está no meio: I like to have a Martini / Two at the very most / After three I’m under the table / After four I’m under the host.

Quem não gostaria de ter compartilhado alguns Martinis com Dorothy Parker?

 

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