Fascínio pelo fascismo

Fascínio pelo fascismo

Leandro Faro, Psicanalista

 

Eu presto atenção no que eles dizem
Mas eles não dizem nada,
Fidel e Pinochet tiram sarro de você que não faz nada,
E eu começo a achar normal que algum boçal
Atire bombas na embaixada1

 

Não importa se na boca de apologetas ou opositores, desde que fora alçado ao status de conceito, o fascismo jamais saíra totalmente de moda. Óbvio que as consequências nefastas da Segunda Guerra e as subsequentes descobertas das práticas de extermínio nazistas nos campos de concentração deram ao termo sentido pungentemente negativo. Sem que, no entanto, mesmo após o conceito ter sido tão extensamente debatido, tenha diminuído seu aspecto traumático, ou seja, tenha inflado seu apelo emocional e relegado ao termo, ou melhor, à pecha de “fascista”, a função de ofensa, como forma de deslegitimação da fala de qualquer interlocutor reconhecidamente reacionário. Na medida em que fascista é sempre o outro, fascismo e reacionarismo tornam-se, indevidamente, sinônimos.2

Um estudo breve sobre o tema já apresenta uma série de dificuldades para a compreensão do fenômeno a partir de suas raízes metapsicológicas. Muitos autores têm se dedicado a compreender o fascismo segundo sua história política: das agendas econômicas e da relação entre as distintas classes sociais. Obviamente, essas abordagens têm sido preciosas para uma delimitação apurada do conceito. No entanto, apesar da importância em estudar os aspectos formais do fascismo, seus métodos, as circunstâncias históricas e políticas da sua ascensão, os diferentes conteúdos discursivos, enfim, em buscar compreender teoricamente seus aspectos mais gerais, ainda resta a típica confusão neurótica entre a palavra e a coisa, como seria apontado por Freud. E a coisa, nesse caso, é insuportável demais para que possa ser dita. Eis o fundamento do trauma.

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Daí, é como se a história passasse diante de cada um como algo externo, como um sintoma, do qual recusamos fazer parte, mas que insiste em sempre retornar. Almejamos o fato e o processo frio, a formalização, a teoria perscrutadora das verdades; está aí o aplacamento pulsional proporcionado pelo discurso imaginário, como seria dito por Lacan. E como proposto por ele, só descortinando as dualidades inexoráveis ao simbólico que podemos tatear o real do trauma, sempre não dito. Recorremos aquilo que deixamos escapar, daquilo no conceito que nos atravessa de forma mais íntima do que gostaríamos de admitir: qual é o mistério por trás da fascinação produzida pelo fascismo?

Em oposição, como na memória dos traumatizados de guerra, as questões que imediatamente chamaram a atenção dos intelectuais após a ascensão do nazismo alemão e o irromper da Segunda Grande Guerra fora justamente o insistente retorno das questões pertinentes aos afetos e às intimidades. De início, insistiram na responsabilização mais íntima diante da barbárie, a ponto de se tornar uma tendência a proposição de um fascismo interno:3 de uma verve individual e personalíssima do fascismo que deveria ser combatida, como uma forma de profilaxia ao surgimento de novos momentos históricos de eclosão da barbárie experimentada. A fonte de angústia era justamente a falta de limites entre a violência cometida pelo outro e aquela violência que é minha.

 

“O adversário estratégico é o fascismo […] o fascismo que está dentro de cada um de nós, em nossas cabeças e em nosso comportamento de todos os dias; o fascismo, que nos faz amar o poder e desejar verdadeiramente o que nos oprime e nos explora”.4

 

Mesmo a proteção psíquica proporcionada pelos grandes modelos explicativos, de caráter universalizante e que levavam em conta apenas as forças materiais e a dinâmica dos meios de produção, acabou por se colocar em xeque diante do fenômeno fascista. A força da adesão de massas do fascismo tornou insustentável a noção do marxismo tradicional de que bastava uma crise geral do capitalismo e um operariado numeroso e bem organizado para que se despertasse a consciência de classe e consequentemente levasse à eclosão, como um fenômeno natural da revolução socialista. Ficaram evidentes os limites do materialismo estrito para a construção da chamada consciência de classe, e, por isso, tornou-se uma necessidade incorporar ao debate acerca da alienação e da ideologia outros campos, como a psicanálise.

É dessa busca em promover um diálogo entre esses campos de saber que surge determinada interpretação das noções freudianas acerca da repressão sexual e que vão marcar os estudos posteriores sobre o fascismo. Apresenta-se como resposta ao dilema da consciência um método preventivo – uma consciência livre seria a consequência direta da liberação dos desejos sexuais culturalmente reprimidos, e o fascismo seria um reflexo, uma cristalização, o produto dessa repressão. É evidente o impacto dessa interpretação da obra freudiana, que vinculava a noção de autoritarismo com rigor moral, e estes com a repressão sexual, e, por conseguinte militava sobre a pressuposição de que, com a eliminação da repressão sobre nossa sexualidade, como numa relação de causa e efeito, significaria o fim do autoritarismo.5 Estimuladas pelo diálogo entre o marxismo e a psicanálise, a questão da consciência se tornou central e, em certa medida, demarcou a forma como construímos nosso hiperindividualismo: marca do mundo contemporâneo.

Hoje, o estágio neoliberal do capitalismo tem como pressuposto fundamental a suspensão dos limites sobre o desejo, a partir da sua mercantilização.6 Ou seja, os novos imperativos deixaram de se regular em torno da repressão e da culpa e passam a se organizar pelo imperativo do “goze sem limites”.7 Isso lança evidência de que, tendo em vista a ascensão de líderes e a popularização de grupos neofascistas em todo o mundo ocidental, a suspensão das repressões sexuais não representou vacina contra o retorno do elemento traumático.

Mesmo levando em conta que a concepção de sexualidade totalmente livre tem limites que não podemos ignorar, pois, diante desse novo imperativo de gozo, fica pressuposta a interdição de qualquer forma de desejo que não possa ser fetichizada em mercadoria e valor. Por isso, não podemos perder de vista o caráter extremamente reativo dessas novas formas de fascismo diante de qualquer manifestação de diversidade ou diferença sexual. Porém, nesse ponto, ainda é ininteligível a necessidade de repressão sexual sobre a constituição das bases populares do fascismo. Existiria alguma relação entre a libido reprimida e a sedução do fascismo pelas massas?

 

Toda forma de poder é uma forma de morrer por nada,
Toda forma de conduta se transforma numa luta armada,
A história se repete
Mas a força deixa a história mal contada

 

Não foram poucos os investimentos das ciências psicológicas, ainda em seus primeiros passos, em busca de compreender o comportamento das ditas “turbas ensandecidas”, dos movimentos de massa que representavam instabilidade política para a opinião pública e ameaça real para as elites do século XVIII e, obviamente, a partir desses estudos, criar meios para seduzi-la. Já nas primeiras pesquisas psicológicas, ainda na virada do século XVIII para o XIX, equiparava-se a disposição psíquica das grandes massas ao status de “besta incontrolável” e de “hipnotizado”:8 O grupo era definido como impulsivo, mutável e irritável, conduzido essencialmente por seu inconsciente; porém seus impulsos poderiam ser “generosos ou cruéis, heroicos ou covardes”, dependendo das circunstâncias.

Cada membro do grupo é investido de sentimento de onipotência, e, com ele, a noção de impossibilidade ou proibição desaparece. O grupo é extremamente crédulo e aberto a influências: pensaria por imagens, por associação; seus sentimentos são sempre muito simples e muito exagerados; não conhece a dúvida nem a incerteza e por isso tende a ir a extremos; uma pequena suspeita se converte em certeza, uma pequena antipatia torna-se ódio. O grupo só pode ser excitado por um estímulo excessivo; para se produzir qualquer feito sobre ele não é necessário nenhum argumento convincente, basta exagerar e repetir a mesma ideia diversas vezes, exacerbando as emoções mais fortes.

É ao mesmo tempo intolerante e obediente à autoridade; da mesma forma que tende a só valorizar a força e a violência, quer ser dirigido, oprimido e temer seus senhores. Não obstante, é inteiramente conservador e tem profunda aversão por todas as inovações e progressos, além de um respeito ilimitado pela tradição.

Nos grupos, as ideias mais contraditórias podem coexistir e tolerarem-se mutuamente, sem que nenhum conflito surja da contradição lógica entre elas. Está sujeito aos poderes mágicos das palavras: razão ou argumentos são insuficientes para combater certas palavras ou expressões. Possui um anseio tão forte de subserviência que se submete a qualquer um que se indique como chefe. O grupo é um rebanho obediente, que nunca poderia viver sem um senhor.

Essa definição do comportamento grupal ou de massas suscita tantas questões que cabe aqui fazer algumas ressalvas. Primeiro, podemos apontar um tentador afastamento entre a própria ideia de massa e a ideia de indivíduo – é narcisicamente complexo reconhecer que nossa própria racionalidade não é tão determinante sobre nosso procedimento como gostamos de acreditar, e, pior, que essa racionalidade pode ser posta em xeque quão logo pertençamos a um grupo. Da mesma forma como procederam as elites intelectualizadas, demarcando insistentemente sua alteridade em relação às massas, se colocando como racionalidade superior, tendemos a nos posicionar “fora do jogo” − o seduzível, o hipnotizável, a vítima da própria irracionalidade é sempre o outro.

Em segundo lugar, fica a mensagem deslegitimadora das elites diante da capacidade de criação, inovação e dos atos mais altruístas e empáticos forjados num contexto grupal. A admissão de qualquer característica positiva colocaria em questão o monopólio da razão nas mãos dessa mesma elite. E, por último, o fascismo é uma tecnologia, e por isso salta aos olhos a aproximação entre o saber e a técnica produzidos pelos primeiros passos das ciências psicológicas e o efeito que esse saber produziu na formulação das técnicas de propaganda. Tanto na ascensão do nazifascismo, que conquistou as camadas médias alemãs que viriam a se constituir as suas principais bases populares, quanto nos procedimentos adotados por Jair Bolsonaro, seguindo a direção de Trump, no uso das novas tecnologias de propaganda, como os serviços de desinformação e os logaritmos quase místicos do big data. O fascismo se constitui em um profundo elemento agregador, com finalidade política, das técnicas e dos saberes de determinada época.

Extrapolando os limites iniciais dessa definição das massas, fica a constatação de que as instituições que representam historicamente nossos maiores baluartes civilizatórios não se fundamentam em bases racionais, mas nesses mesmos pressupostos do comportamento grupal, a saber: a Igreja e o Exército. Não é nada difícil perceber que essa base estruturalmente irracional de ambas as instituições foi um forte mobilizador das críticas modernas a nossas bases civilizatórias. Kant, em seu famoso texto acerca do esclarecimento, já apontara o papel simbólico de ambas como empecilho ao advento da razão como base da civilização, e dá como solução ao problema a individualização das questões éticas, lançando a responsabilidade sobre o procedimento pessoal e, assim, apontando para um fundamento eminentemente moral:

 

“A minoridade é a incapacidade de se servir de seu próprio entendimento sem a tutela de um outro. É a si próprio que se deve atribuir essa minoridade, uma vez que ela não resulta da falta de entendimento, mas da falta de resolução e de coragem necessárias para utilizar seu entendimento sem a tutela de outro. Sapere aude! Tenha a coragem de te servir de teu próprio entendimento, tal é, portanto, a divisa do Esclarecimento”.9

 

Freud foi igualmente afetado pelo estatuto irracional que fundamenta as duas instituições, e toma ambas como objeto de análise no seu “passo além” acerca da psicologia dos grupos. Seu reconhecimento ético da universalidade do inconsciente desloca obrigatoriamente a sua análise de qualquer tentativa de fazer distinção entre homens, raças ou credos na força ou natureza dos impulsos inconscientes. Isso talvez por se posicionar do outro lado do jogo: um imigrante judeu num mundo violentamente antissemita.

Ele inicia sua análise desses dois grupamentos, o Exército e a Igreja,10 de caráter tão distintos das multidões, marcadamente fugazes e desorganizadas, apontando o que eles têm em comum: primeiramente, seu caráter artificial. Em outras palavras, que ambos necessitam empregar algum tipo de força externa para evitar sua desagregação; e, em segundo, nenhum desses grupos dá espaço para a escolha de participar ou não deles, e qualquer tentativa de deixá-los é passível de toda sorte de punições e humilhações.

Hoje, tanto a situação circunstancial das Forças Armadas como a nova dinâmica religiosa surgida com a ascensão do movimento neopentecostal subverteram em certa medida essas características apontadas por Freud. Como ocorre tipicamente em toda manifestação do fascismo, as Forças Armadas acabam por se verem diminuídas em importância e ampliado seu estatuto de subalternidade frente a valorização de grupamentos paramilitares como representantes legítimos do poder estabelecido – processo evidente, tanto na Itália de Mussolini com seus Camisas Negras como no estabelecimento de milícias armadas por todo o Brasil.

Já a igreja evangélica neopentecostal em ascensão impõe uma nova dinâmica religiosa à medida que o cristianismo perde o status compulsório do catolicismo tradicional. Diante dessas mudanças, o que vemos é a substituição da força da obrigatoriedade pelo aumento de seus aspectos coercitivo e territorial; e pelo simultâneo aumento da sua força emocional, da chamada a ação de suas ideologias e da legitimidade mística da sua verdade, tanto na esfera militar como na religiosa.

Além dessas semelhanças mais aparentes e facilmente distinguíveis, Freud chama a atenção para outra, psicologicamente tão ou mais importante, porém nem sempre tão evidente: o amor. O mesmo laço que envolve os cristãos à figura do Cristo envolve uns para com os outros membros daquele grupo, e o mesmo se dá no exército ou em estruturas militarizadas; é na medida da crença do amor de um general que ama a todos os soldados de igual forma que eles forjam os laços entre si. Não obstante a estrutura hierárquica do exército criar diversos subgrupos internos, cada líder direto acaba sendo o general e o pai de sua própria companhia.

Pelo amor, cada indivíduo componente do grupo estaria veiculado por um duplo laço: está ligado por laços libidinais ao líder (Cristo ou o general, ou a líderes mais metafísicos, como a Nação) e ao mesmo tempo está conectado aos demais membros. Esse fator é determinante para que compreendamos o talvez principal de todos os fenômenos até aqui estudados: somos seduzidos justamente pela falta de liberdade e autonomia do indivíduo. E não seria esta a essência da paixão?

Faz parte da paixão o fenômeno de supervalorização sexual: eximimos o objeto sexual de qualquer espécie de crítica, valorizamos suas características mais do que das outras pessoas. Atribuímos essa falsificação do julgamento à idealização. Tratamos o objeto de igual forma que tratamos nosso Eu, e, desta forma, “quando estamos amando, uma quantidade considerável de libido narcisista transborda para o objeto”. Poderíamos, nesse caso, dizer que o objeto fora colocado no lugar do Eu. Os sintomas se intensificam à medida que aumentam os afetos envolvidos. No caso, por exemplo, da paixão juvenil, ocorre um profundo desinvestimento do Eu, na mesma proporção do superinvestimento no objeto da paixão, tornando o autossacrifício uma consequência natural. Caso em que o objeto consome o Eu, ou melhor, o objeto é colocado no lugar do próprio ideal do Eu. Assim, é possível definir o extremo do enamoramento como “um estado em que o Eu introjetou o objeto em si próprio”.

O enamoramento nutrido na relação entre os grupos e o líder nos aponta para a centralidade do líder em todo aparato de sedução do fascismo: ele está no fundamento, não apenas das estratégias de propaganda dos movimentos fascistas como da sua própria ideologia. O apelo à formação desses laços libidinais, quer seja com o Führer, quer com os demais “cidadãos da nação”, lança luz sobre como o líder se constitui na sua principal estratégia de propaganda e de como sua figura é capaz de mobilizar as sociedades para as quais foram criadas, e por que essa mobilização é tão efetiva. O saber constituído acerca do comportamento das massas pelas aristocracias ressentidas com a revolução burguesa se converteu num “guia de sedução” para o fascismo ascendente.

Mas, diante de tanto amor reunido, onde fica o ódio?

 

E o fascismo é fascinante
Deixa a gente ignorante e fascinada
E é tão fácil ir adiante e se esquecer
Que a coisa toda tá errada
Eu presto atenção no que eles dizem
Mas eles não dizem nada

 

“Na realidade, nossos concidadãos não decaíram tanto quanto temíamos porque nunca subiram tanto quanto acreditávamos.”11 Não fora sem razão o estupor de Freud diante da constatação, inicialmente clínica, mas posteriormente confirmada pela extrema violência das duas grandes guerras e pela ascensão do antissemitismo, de que somos inclinados ao mal. A descoberta representa uma completa subversão do antigo paradigma da racionalidade kantiana. Nosso conteúdo inconsciente mais profundo não faz distinção entre bem e mal, certo ou errado, virtude e pecado, nem mesmo entre mentira e verdade;12 ao contrário, a culpa se estabelece como verdade inexorável da nossa incapacidade estrutural de lidar com o peso dos nossos próprios impulsos, e torna ainda mais palpável o conteúdo amoral deles. A mesma agressividade com que se enfrenta um dilema ou questão intelectual, uma injustiça social ou uma superação pessoal, é da mesma substância da pesada culpa que impomos internamente ao eu, e do ódio necessário à violência e à barbárie.

Tal como na metáfora do cristal quebrado de Freud,13 em que a patologia seria um extremo do que compreendemos por normalidade, apontando para as frestas constituidoras do cristal inteiro, a partir das fissuras perceptíveis no cristal quebrado, talvez o fascismo nos sirva como espécie de “extremo patológico” daquilo que já encontramos na “normalidade.” Apesar do ineditismo e da forma específica que o fascismo assumiu em nossa história, algo em suas manifestações acaba por transcender a ele. A difícil constatação de que as sementes do fascismo estão presentes em todos os seres humanos, sem exceção, e que por isso encontramos suas manifestações nas formas de mobilização do psiquismo, demanda de nós, tanto quanto já demandou no passado, que voltemos nossos olhos para nossa civilização per se.

É a partir dessa descoberta que Freud cria a noção de Supereu: é a instância psíquica representante da moralidade, interiorizada na constituição do sujeito neurótico, que possibilita a internalização dos impulsos agressivos e que faz do Eu o seu maior beneficiário e sua maior vítima, na medida em que ao mesmo tempo que atua como principal oponente do Eu, ainda dá a este os limites e possibilidades para o seu desejo e aspirações. Isso porque a associação que Freud faz entre o sentimento de culpa e o acesso direto que o Supereu tem a cotas de energia dos impulsos mais violentos, acaba por explicar as razões da agressividade com que o Supereu trata o Eu. A mesma agressividade de quando as repressões se suspendem e a violência contra o outro emerge.

Porém, a tese de Freud merece considerações: ela carrega os valores de uma época e com eles sua ideologia. A noção de que a civilização demandaria em seu estado “mais evoluído” a ausência total da violência não se confirmara em nenhum momento histórico, nem mesmo nos locais nos quais esses valores de civilidade eram determinantes, como insiste os devotos do conceito de totalitarismo. O exemplo fulcral da onipresente violência colonial e na escravidão persistente na economia alegadamente mais dinâmica e liberal do mundo é suficiente para que questionemos essa possibilidade.

O argumento obviamente não retira a importância da formulação freudiana, porém, amplia suas implicações: antes da regulação acerca das paixões mais sexualizadas as quais Freud conjugou sobre o conceito de libido, a experiência histórica e os estudos acerca do fenômeno da violência apontam que a gestão sobre nossos impulsos mais agressivos, chamados por ele de Pulsão de Morte, tende a ser mais determinante para o estabelecimento da civilização do que a censura sobre a sexualidade. Lupus est homo homini lúpus.14 A gestão da agressividade tem como pressuposto o monopólio jurídico e moral da violência e da sua justificativa. Não é oportuno que percamos de vista que o fascismo só pode ser tomado como fruto e como resultado de algo inerente ao nosso processo civilizatório.

Quer seja no fascismo clássico do entreguerras ou suas novas roupagens no  contemporâneo, verificamos com certa facilidade o quanto a dinâmica do amor na identificação com o líder articula-se com a legitimação do uso da violência como forma de fazer política. Desde cedo fora percebido o quanto o próprio amor pelo líder, no fascismo, fundamenta-se sobre um ódio anterior e sem o qual a própria posição do líder seria no máximo contextual: a construção de um inimigo comum tende a fortalecer ainda mais os laços de amor e afeição dos seguidores para com o líder e por conseguinte entre os próprios membros do grupo. Está dado o enamoramento entre a vida e a morte, o amor e o ódio.

O estatuto ambivalente do Supereu freudiano parece forjado sob medida para a realização da identificação com o líder fascista, pois ele tomaria para si a materialização dessa instância a partir dessa dupla relação: ao mesmo tempo em que incorpora os ideais sociais e a ideologia do grupo, administrando amor, externaliza a agressividade sob a forma da permissividade da violência contra os inimigos em comum, gerindo o ódio. Ou seja: o líder encarna o Supereu externamente aos indivíduos, numa situação análoga à paranoia, produzindo uma regressão a determinada etapa da infância, em que a única força de coerção moral conhecida pela criança é a observação da autoridade. Enquanto encarnado na figura do líder fascista, o estímulo à violência propagada pela máquina de desinformação e pelo próprio conteúdo autoritário de seu discurso tende a produzir a percepção de que: “Agora pode. Papai deixou!”

E assim se opera nos grupos a identificação com o líder. Quanto mais cheio de autoridade e capaz de encarnar os ideais culturais mais elevados, mesmo que reinterpretados à luz da ideologia fascista, maior as condições de que esses indivíduos internalizem o líder em seu próprio Eu. A partir dessa internalização do líder como substituto do Pai, ou da Lei, os indivíduos passam a ter, nas vitórias e conquistas do líder, novas e substitutivas possibilidades de autossatisfação.

A permissividade com a violência, até então socialmente reprovada, é interpretada pelo Eu como a legitimação do seu próprio Supereu quanto ao uso da violência como uma nova possibilidade de satisfação antes reprimida. E por isso, quanto mais intocado e admirado o líder, e quanto maior a permissão para o uso da violência, maior a tolerância do sujeito com sua própria miséria.

 

O Fascismo é uma concepção totalitária do primado da política, concebida como uma experiência de integração para realizar a fusão do indivíduo e das massas na unidade orgânica e mística da nação como uma comunidade étnica e moral […]. Implica a adoção de medidas de discriminação e perseguição contra aqueles considerados fora desta comunidade, quer como inimigos do regime ou membros de raças consideradas inferiores ou perigosas para a integridade da nação.15

Assim, o fascismo funda-se na ideia de que é pernicioso para a causa nacional qualquer forma de divisão da população, fortalecendo a cumplicidade entre os irmãos, para que possam, enfim, proteger o Pai-Nação. Essa Nação que, como o Pai, ama a todos os seus filhos, e os ama exclusivamente, e, para tal, nada mais oportuno que estabelecer de antemão uma distinção entre os que são amados e os que não o são. Para isso, aponta-se o diferente e o estrangeiro como principal causa dos problemas, eliminando a necessidade de estabelecermos distinções inoportunas entre os irmãos-cidadãos e garantindo a eles acesso livre à violência que antes fora monopolizada pelo pai, em defesa dele próprio, o garantidor dos laços daquele grupo.16

Para tanto, o povo deve se unir, ignorar as tensões sociais e políticas e trabalhar pelo bem da nação. Por isso, os movimentos fascistas tipicamente realizam um sequestro contra as culturas onde parasita, tomando os principais valores sociais daquelas comunidades de forma pervertida e reinventando à luz do seu próprio extremismo as tradições e os ideais daquela cultura.

Aqui, voltamos à questão da necessidade de repressão sexual do fascismo. O sucesso e a força da identificação estão intimamente relacionados com a universalização de cada detalhe da existência dos irmãos-cidadãos. Demarcar materialmente esse vínculo simbólico com o Líder e com a Nação potencializa a força pulsional que veicula cada indivíduo a todos os outros. E a função do inimigo aqui reitera ainda mais os vínculos, na medida em que existe uma demarcação material e clara de quem nós não somos e contra quem devemos nos unir e combater. A normatização e controle da vida sexual perpassa, portanto, sob um critério de identificação; ou seja, na medida em que sou representante da única e aceitável forma de experiência desejante, torno qualquer dissenção interna contra essa normalização, voltando minha própria culpa sobre o outro.

De forma mais afinada, podemos concluir que, não apenas o fascismo é um espelho dos grupos mentais ou da psicologia de massas, como poderíamos explicar a ascensão e a popularização dos ideais fascistas a partir daí. A ideologia do fascismo precisa corresponder, por conta da legitimação da violência contra os inimigos (da nação ou da família), a uma nova forma de condução da pulsão de morte, que teria enfim uma dupla consequência na gestão dos impulsos violentos: ao mesmo tempo em que ressalta os vínculos de afeição entre os membros da comunidade, na suspensão das restrições sociais, a violência contra os “inimigos da nação” dá a pulsão de morte novos caminhos, agora suspensos de qualquer sentimento de culpa ou peso moral, já que estão sendo legitimados pelo representante externo do Supereu: o líder fascista.

Por toda a elaboração desses escritos breves, ficou o atravessamento da violência. Tomá-la por algo previamente reprovável nos liga a uma tradição idealista que ignora o próprio movimento da história; porém, a busca por legitimação da violência é característica marcante, não apenas do fascismo como dos movimentos de reação à violência opressiva dos movimentos de expansão do capitalismo, como no colonialismo e nas novas facetas imperialistas.

E por isso o estudo mais aprofundado da violência, não a partir da busca por sua essência, mas compreendendo seu fundamento ético, histórico e político, se torna imprescindível para que não mais caiamos no equívoco moral de se equiparar toda violência como algo antecipadamente reprovável, nem no absurdo de legitimar toda e qualquer forma de violência como possível ou aceitável.

 

leandrofaro1@hotmail.com

 

REFERÊNCIAS

  1. ENGENHEIROS DO HAWAI. Música: “Toda forma de poder”, Álbum: Longe demais das capitais, 1986.
  2. KONDER, Leandro. Introdução ao fascismo. Rio de Janeiro: Graal, 1977.
  3. ECO, Umberto. O fascismo eterno. in: Cinco Escritos Morais, Rio de Janeiro: Record, 2002.
  4. FOUCAULT, Michell. Introdução à vida não-fascista. Prefácio de: Gilles Deleuze e Félix Guattari. Anti-Oedipus: Capitalism and Schizophrenia, New York: Viking Press, 1977, pp. XI-XIV. 2011.
  5. REICH, Wilhelm. (1933) Psicologia de massas do fascismo. 2 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
  6. DARDOT, P; LAVAL, C. A nova razão do mundo: ensaios sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016.
  7. MELMAM, C. O Homem sem gravidade. 1 ed. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2005.
  8. LE BON, Gustav. (1895) Psicologia das Multidões. Rio de Janeiro: Martins Fontes,
  9. KANT, Immanuel. (1783) Resposta para a questão: O que é esclarecimento, In: Textos Seletos, 2 ed. Petrópolis: Vozes, 1985.
  10. FREUD, Sigmund. (1921) Psicologia dos grupos e análise do Eu. Obras completas, vol. 15. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
  11. FREUD, Sigmund. (1915) Reflexões para os tempos de guerra e morte. Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
  12. FREUD, Sigmund. (1914) Sobre o conceito de narcisismo: Uma introdução. Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
  13. FREUD, Sigmund. (1933[1932]) Novas conferências introdutórias sobre a psicanálise. Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, vol. XXII. Rio de Janeiro: Imago, 1976.
  14. HOBBER, Thomas. (1642) Do Cidadão. Tradução, apresentação e notas: Renato Jamine Ribeiro. 3a ed. São Paulo: Martins Fomes, 2002.
  15. GENTILE, E. Fascismo. Storia e interpretazione. Roma: Bari. 2002.
  16. FREUD, Sigmund. (1930 [1929]) O mal-estar na civilização. Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, vol. XXI. Rio de Janeiro: Imago, 1974.

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