Gaúcho, do delito ao mito

Gaúcho, do delito ao mito

Fernando Lokschin, Médico

 

Ele anda sempre fugindo. Sempre pobre e perseguido;

não tem cova nem ninho como se fora um maldito,

porque ser gaúcho… ser gaúcho é delito

Martin Fierro, Jose Hernandez, 1872

Insight Inteligência - artigos e ensaios fora da curva

 

Se até a crosta da Terra muda, imaginem a linguagem de seus inquilinos, que é feita de ar. Cada palavra está sempre em transformação e representa, a cada momento, a resultante de todos os seus prévios enunciados. Imprimimos nuanças de som e de sentido a todo termo que pronunciamos. Assim como as espécies e as ideias, o idioma evolui conforme uma seleção natural de forma e conteúdo.

Na poesia de Manoel de Barros, “as palavras se sujam de nós na viagem” – e também se limpam. No século XIX democracia era palavrão, uma turba sem leis; já ditador era honraria, o magistrado escolhido para legislar frente a uma crise. Presidente começou como o chefe do presídio, a guarnição militar afastada do centro de comando.

Bom antes era bonito, feio era fétido, vilão era aldeão, bravo era selvagem. Marechal foi promovido de cavalariço (I. mare), sommelier ascendeu do tratador das bestas de carga (F. somme), ministro começou como um servidor menor (L. minus).

É assim em todos os idiomas. Palavras podem se tornar insultos, podem ficar elogiosas; nice é néscio elevado a bom e silly é abençoado rebaixado a bobo. Para a maioria dos franceses, até o final da II Guerra, collaborationniste não era sinônimo de traidor. Composto em 1934, o louvor de Cole Porter: “You’re the top, you’re Mussolini” acabou expurgado da letra; o Duce migrou do top ao button arrastando consigo na rima o inocente Houdini.

Um termo que em dois idiomas e três nacionalidades sofreu enorme valorização foi gaúcho. A palavra surgiu na região onde hoje está a sofisticada Punta del Este, e seus primeiros registros já descrevem salteadores e contrabandistas. O intendente de Maldonado escreve ao vice-rei colonial “haviendo noticia que algunos gahuchos se havian dejado ver a la Sierra, mande a los tenientes de Milicias” (1771) e um despacho de Montevidéu enfatiza “no se consentirá em dicha estancia contrabandistas, bagamundos u ociosos que aqui se conocen por Gauchos” (1780).

Gaudério, sinônimo de gaúcho, também surgiu depreciado como na definição do padre espanhol Xavier Henis (1754): “Paulistas que têm a propriedade e o costume de vender o que não é seu e que são chamados gaudérios.” Na descrição do Rio da Prata, Felipe de Haedo descreve sem nominar (1778): “…andejando de província em província, preocupando-se de jogatina e de muitos outros vícios, praticando roubos nas estradas, furtando gado, vivendo nos matos. Não podem ser subjugados porque não há prisão para qual possam ser mandados.”

O naturalista Felix Azarra (1801) chama o gaúcho de “ralé do Rio da Prata… criminosos fugidos dos cárceres da Espanha e do Brasil… que por suas brutalidades tiveram de fugir para o deserto”. Complementa “sua nudez, suas barbas crescidas, seu cabelo sempre despenteado, sua sujeira e a brutalidade de sua aparência o tornam horrível de ver”.

No primeiro estudo antropológico na região, “Gaúcho, o Caçador de Gado” (1942), Madaline Nichols resume: “Seu trabalho era grandemente ilegal; seu caráter lamentavelmente repreensível, sua posição social à margem da lei.”

A palavra gaúcho tem origem controversa – há mais de 60 suposições. Há quem sugira uma origem quíchua afim a guacho, ‘órfão, indigente’ e guasca, ‘tira de couro’. Guasca, antes também depreciativa, acabou sinônimo de gaúcho pela atividade de courear a vaca. Há o consenso, mesmo entre os espanhóis, que a pronúncia portuguesa com a tônica do ‘ú’ seria a mais próxima da original do termo.

Os gaúchos não cuidavam, caçavam o gado bravio das vastas planícies do pampa, “espaço de duas Franças”. Rivalidades entre a Espanha e Portugal (e a aliada Inglaterra) davam amparo ao abate não autorizado na propriedade de uma coroa para venda na outra. Não à toa que capital derive do L. caput, ‘cabeça (de gado)’ e a terra e suas benfeitorias sejam bens ‘imóveis’, já que, diferentemente do gado, não podem ser deslocadas em face de guerras e revoluções.

Haveria quase 50 milhões de cabeças de gado no pampa. Milhares desses animais eram arrebanhados, transferidos de uma área para outra, jarretados e degolados nas vacarias, abates que podiam durar meses. A carne, “bastante para alimentar todo um exército”, era deixada para “onças, cães selvagens e aves de rapina”. O couro seco valia quatro vezes o preço do boi vivo.

No local e na época, o couro era a fonte única de divisas e substituía todos os materiais: ferro, madeira, tecidos. Não havia pregos, os barris tinham correias como aros e as carretas eram firmadas por amarras de couro úmido. As embarcações, as pelotas, eram uma peça de couro costurada nas extremidades. Nichols relata que os condenados eram costurados em uma bolsa de couro molhado e deixados ao sol para “morrerem miseravelmente” enquanto o saco encolhia ao secar.

O pastoreio e a agricultura eram tarefas de escravos negros e índios; os gaúchos, homens livres, ocupavam-se do abate do gado e da venda do couro. Geralmente mestiços de espanhóis ou portugueses com índios ou negros, os gaúchos se definiam mais pela atividade do que pela origem.

Curiosamente o Rio Grande do Sul começou no Uruguai, na margem do Rio da Prata bem oposta a Buenos Aires. Quando os portugueses ali fundaram a Colônia de Sacramento (1680), o Brasil terminava em São Paulo. Na ótica da Espanha, Sacramento era um “posto avançado… para fins de contrabando”, e Montevidéu fora erigida “sobre uma atalaia portuguesa de 1724”, para que súditos espanhóis pudessem vigiar e coibir as atividades dos “falsos vizinhos” lusos da foz do Rio da Prata…

Já no nome, o Rio da Prata traduz a cobiça e o engano. A rara prata encontrada nos adornos índios vinha da distante montanha andina de Potosí. No pampa, chamado pelos europeus de ‘deserto’ e ‘Saara verde’, riqueza eram as enormes manadas de vacas e cavalos que, introduzidos pelos espanhóis, ali se desenvolveram em estado selvagem. Para dar a dimensão do comércio do couro, entre 1798 e 1804 cerca de 40 navios de 200 a 250 toneladas trouxeram sal, açúcar e mercadorias europeias a Montevidéu levando peças compradas ou roubadas na região.

O gaúcho só ser entendido cavalgando, suas pernas eram as do cavalo, juntos formavam um todo – um centauro, como disse Garibaldi (e Vitor Hugo e José de Alencar). Suas botas eram ‘de garrão de potro’, o couro das patas traseiras do animal enfiadas nas pernas do homem. Para buscar algo a curta distância, montava. Desmontado para dormir, o catre eram os arreios. Recém-nascidos eram acostumados a cavalgar junto ao pai ou aos irmãos. Scarlett relata: “eles tentarão montar um potro de três anos pela cauda, quando eles próprios não tenham mais idade do que isso”. Pescava-se a cavalo, tomava-se banho a cavalo, há registros de gaúchos rezando a cavalo. Até os defuntos cavalgavam, os esquifes viajavam para a cova amarrados no costado do cavalo.

Hurchison (1865) descreveu “um dentista tratando os dentes de um pobre camarada, ambos montados a cavalo”. Os mendigos imploravam “uma esmola por amor de Deus”, a cavalo – o animal não excluía mendicância. Nas palavras de Nichols, o cavalo era mais do que as calças, era o próprio corpo.

Cavalo, que em latim também nasceu pejorativamente, cabalus, o animal de má qualidade, é chamado pelo gaúcho de pingo, termo carinhoso destinado à criança, ‘pequeno, pingo de gente’. Ao final do século XIX, ‘apear’ do cavalo em solo privado sem o convite do proprietário era falta grave. Da observância ou não dessa norma, muitos viajantes se surpreendiam com o calor da hospitalidade ou a frieza do rechaço que recebiam.

Arsène Isabelle, chegando por via fluvial a São Borja (1834), caminhou uma légua desde o porto ao po-

voado: “os habitantes, acostumados como os argentinos e os orientais a não darem um passo a pé, olhavam-nos admirados”. E o reverendo John Murray (1871) relata o espanto dos animais do campo ao vê-lo caminhando. Pássaros, vacas e mulas curiosos, “cabeças levantadas, orelhas em pé”, pois nunca haviam visto um bípede como aquele antes…

Seminômade, desprovido de posses, a riqueza valorizada pelo gaúcho eram os adornos de prata dos arreios de montaria. Há registros do homem seminu, ‘sans cullotes’, sem teto, carente de sal e de açúcar, mas com a indumentária do cavalo finamente decorada. O luxo eram as esporas e os arreios, as necessidades, a aguardente, o tabaco e a erva-mate.

Atravessando essa região “sem Deus, sem rei e sem lei”, o inglês Luccok aprendeu que o segredo de sobrevivência era a confiança. Luccok solicitava ao gaúcho auxílio no cuidado por seus pertences. Concordando, o malfeitor se transformava num guardião a defender a propriedade alheia – e a palavra empenhada – a custo da própria vida.

O gaúcho desmontava para comer. Se a região tem hoje o maior consumo de carne bovina do mundo, antes este era o alimento único. Havia fartura de carne e a ausência de tudo o mais. Viajando pelo Rio Grande do Sul (1821), Saint-Hilaire descreveu a ração militar como “carne assada com fígado para oficiais e carne assada com farinha de carne torrada para os soldados”. Garibaldi registrou em seu diário a dieta de seu comandante, “o presidente” Bento Gonçalves: “carne assada e água pura”.

Se Baguet (1845) apreciou carne assada no couro, “prato suculento, delicioso, sem rival na cozinha europeia”, e Lallemant (1858) confessou que “nenhum assado europeu desbanca esse boeuf aux champs do Rio Grande”, Richard Burton (1868) não gostou do “asado de costela, a única matéria-prima sólida daqui”… “não tendo afiado meus dentes nem tratado de guarnecê-los com pontas de aço… divirto-me em mastigá-lo como se fosse borracha”.

De utensílios, o gaúcho tinha uma vasilha para ferver a água do mate, uma guampa como caneca, e a faca – único talher, a arma da degola e ferramenta da carneação. Para alimento, só a língua, o céu da boca, o tutano e, às vezes, a ‘manta’ de costela, a maior parte da rês era desprezada.

O gaúcho era um “parasita do gado”. Lallemant opinava que, “apesar do solo fértil, à pobre gente não resta mais do que comer carne duas ou três vezes por dia”, pois “a criação de gado faz-se por si mesma” mas “…lavrar com os braços, semear, colher – nisso ninguém pensa”. “Antes privar-se de tudo e satisfazer-se com carne…”. E comparava: “Se na Alemanha o pobre se lamenta por não ter carne a semana inteira, somente feijão e batatas, nas Missões, a pobre família só tem carne, não pode comprar feijão.” Lagos piscosos eram ignorados, e há registros de pessoas que nunca haviam comido uma fatia de pão.

No seu relato de viagem pelo Rio da Prata e o Rio Grande do Sul, Arsène Isabelle (1834) fala de “brancos habituados a não fazer nada… poupam-se, às vezes, até da fadiga da meditação!”

Os suprimentos dos exércitos eram só ‘artigos de prazer’ – erva-mate, tabaco e aguardente –, os gaúchos supriam suas próprias necessidades: carne. Saint-Hilaire atribuía “à dieta carnívora dos habitantes dessa capitania (gaúchos) hábitos cruéis e sanguinários. Na batalha de Taquarembó, eles massacraram impiedosamente mulheres e crianças e teriam matado todos os prisioneiros se os oficiais a isso não se opusessem”.

“… Seus filhos se criam vendo somente rios, desertos, homens vagos correndo atrás de feras e touros, matando-se friamente como se degolassem uma vaca”, escreveu Azara (1809). A selvageria era parte da criação, forjada menos na carne e mais no sangue do cotidiano, seja na história atávica de guerras, seja na degola de animais. Já o primeiro europeu a conhecer o Rio da Prata (1515), Juan de Solis foi massacrado pelos charruas. Os índios do pampa só faziam prisioneiros mulheres e crianças – os brancos, nem estes. O governador de Buenos Aires, Jose Andonaegui (1757), degolava todos os índios que capturava, de qualquer sexo e idade. Chamava a isso de o verdadeiro batismo de sangue.

Sir Richard Burton, quando cônsul em Santos e em visita às tropas brasileiras na Guerra do Paraguai, faz relato do “gaúcho generoso cortando a garganta de um amigo só para curar o pobrecito de uma dor de cabeça”, e diz que os arreios de cavalo do ditador Rosas eram feitos “com a pele de um político inimigo”…

Jorge Luiz Borges vivenciou tal violência numa visita à cidade brasileira de Livramento, em 1934. Ao entrar em um bar, assistiu a um homem interromper as inconveniências de um bêbado com dois tiros certeiros. No dia seguinte encontrou o homicida no mesmo bar como se nada de excepcional houvesse ocorrido. O impacto desse crime no autor e na obra foi enorme, tema recorrente em suas entrevistas e em pelo menos cinco de seus contos.

Todo homem acima de 16 anos andava armado, pistola e faca na cintura, cujos ferimentos eram a causa principal de morte. A presença da violência na paisagem transparece na palavra coxilha, a ondulação típica do pampa. O termo se criou no espanhol platense desde cuchila, a faca que o gaúcho traz à cintura, pelo formato da lâmina.

Na convivência com os gaúchos, Darwin (1833) é ambivalente: “Olham para você como se cortassem sua garganta e fizessem uma reverência ao mesmo tempo”, elogia, “nunca vi pessoas mais orgulhosas de seu trabalho, uma atividade tão simples”, e critica, “os roubos consequentes, a jogatina, a muita bebida e extrema indolência”. Quando o cientista perguntou a dois gaúchos argentinos por que não trabalhavam, ouviu, de um, “os dias são demasiados longos”; e de outro, “sou demasiado pobre para trabalhar”.

O estabelecimento de divisas, a concessão de terras e suas demarcações com aramados acabaram enraizando a atividade do gaúcho em peão de estância, tropeiro e combatente.

A fronteira, habitat do gaúcho, é propícia tanto ao contrabando quanto à guerra. Três quartos do Brasil foram conquistados da Espanha – respeitado o Tratado de Tordesilhas, o país acabaria em Laguna. Todo o território entre Laguna e o Rio da Prata, a fronteira sul pretendida pelos portugueses, foi por três séculos praça de guerra, propriedade ora de um reino, ora de outro.

Vivia-se em pé de guerra, paz era o ínterim entre uma guerra e outra revolução. As cidades nasceram das armas, Montevidéu surgiu como cidadela; Rio Grande, Rio Pardo e Porto Alegre eram fortificações; Cachoeira e Encruzilhada, quartéis; Santa Maria e Bagé, acampamentos de tropas. Os três monumentos coloniais do Uruguai eram brasileiros – a Colônia de Sacramento e os fortes de Santa Tereza e de São Miguel. Se todo o Uruguai esteve anexado ao Brasil de 1817 a 1825 –, Montevidéu com o título de ‘Cidade de D. Pedro’ – o Oeste do Rio Grande do Sul foi espanhol até 1801 – o sotaque permanece.

A primeira máquina bélica foi o cavalo, e o pobre sempre foi a bucha de canhão. Hábeis cavaleiros, pobres e com poucas ligações sociais, habituados à violência e à rusticidade, necessitados de butim, os gaúchos se destacaram em batalha. Chamar o gaúcho a lutar era “uma oportunidade social”, algo “simples como chamar os tártaros”, dizia Nichols, “aqueles homens consideravam a batalha como extensão de sua rotina campeira”.

Nos exércitos quase não havia infantaria, era indigno combater desmontado. Vistos pelos generais como a negação da hierarquia militar, para Saint-Hilaire “os gaúchos estão sempre dispostos a lutar, mas é difícil sujeitá-los à disciplina… nunca desertam pela covardia, quando o fazem é pela inatividade”.

As cargas de cavalaria deixaram Burton perplexo: “a guerra gaúcha consiste na dispersão antes do combate, no galope em todas as direções, no brandir ao ar revólveres e pistolas, em gritar o slogan do pele-vermelha e ofender porcamente os parentes femininos uns dos outros”. Já Garibaldi se lembrava dos gaúchos como a melhor cavalaria e lamentava a ausência na Itália “daqueles centauros, avezados a carregar uma massa de infantaria com o mesmo desembaraço como se fosse uma tropa de gado”.

As ferramentas de trabalho campeiro eram as armas de combate. Estrangeiros lutando nas guerras platinas temiam os lançamentos de laços e boleadeiras: “qualquer coisa é melhor do que morrer arrastado por um cavalo a galope”, registrou Richard Burton. Luccock (1858) viu uma perdiz ser alvejada com a boleadeira, e Dreys (1825) testemunhou o golpe certeiro num abutre planando no ar.

O primeiro a ostentar o título ‘presidente da república’ na América do Sul foi Bento Gonçalves, comandante farroupilha. A guerra que os gaúchos travaram lutando contra si mesmos criou a República de Piratini, que funcionou por uma década (1835-45) com toda a organização de estado: ministros, leis, tribunais, correios, acordos internacionais, clero, exército, polícia e o reconhecimento internacional de Uruguai, Estados Unidos, França e Inglaterra.

Foi durante a Campanha Farroupilha que os nascidos no Rio Grande do Sul receberam, e assumiram, o gentílico de gaúchos. Está expressa nessa guerra a histórica ambivalência com o Brasil: integração e autoridade. David Canabarro recusou as tropas argentinas de Rosas com a frase: “Senhor! O primeiro de vossos soldados que ultrapassar a fronteira fornecerá o sangue com que assinaremos a paz de Piratini com os imperiais, pois acima de nosso amor à República está o nosso brio de brasileiros.”

Vinte anos de paz e começa a Guerra do Paraguai. De 1864 a 1870, é nesse período que o termo ‘gaúcho’ se torna mais popular e menos pejorativo. Um terço das tropas brasileiras – toda a cavalaria – é proveniente do estado e inclui muitos combatentes farroupilhas. Quando D. Pedro II viajou a Uruguaiana para assinar a rendição das tropas invasores no Rio Grande do Sul, vestiu chapéu de aba larga, pala, bombacha, botas e esporas, em suma uma flamante ‘pilcha gaúcha’!

Iniciara-se em 1824 a imigração de alemães e, depois, a de italianos, que compõem as principais etnias no Rio Grande do Sul. Junto com polacos, árabes e judeus foi emergindo uma classe de pequenos produtores rurais em contraponto aos estancieiros e a uma burguesia urbana de artesãos e comerciantes. Há relatos de imigrantes vestindo bombachas e tomando mate, se ‘aquerenciando’, antes de dominar o idioma. O mito do gaúcho não se diluiu, fortaleceu-se com o recém-chegado em busca de uma nova vida e nova identidade.

O romantismo literário da época emprestou forma e conteúdo à épica gaúcha de altivez, valentia, independência e desdita. O poema “Martin Fierro”, ‘épico nacional da Argentina’, é escrito por Jose Hernandez em Livramento (1872). Sarmiento escreve “Facundo”, também no exílio, em 1865, e Simões Lopes publica “Contos Gauchescos” em Pelotas, em 1912. O cearense José de Alencar, sem nunca pisar no pampa, publica em 1870 o romance, “O Gaúcho”. O Buffalo Bill’s Wild West Show’ (1893) exibia as habilidades equestres de gaúchos junto às de peles-vermelhas, mongóis, árabes, turcos e cossacos. Até Walt Witman cita o “guacho… the bra-

zilian vaquero” no Poem of Salutation (1865): “I see the incomparable rider of horses with his lasso on his arm / I see over the pampas the pursuit of wild cattle for their hides.”

Mas o Rio Grande guerreava mais do que lia. Matava-se e morria-se por ideais e bobagens. “Nossas mulheres raramente despiam o luto”, lamentou Erico Verissimo. A Revolução Federalista (1893-95), maragatos versus pica-paus, causou 12.000 mortes, muitas no ritual da degola, ‘a gravata colorada’ a imitar a degola da ovelha. A vítima era imobilizada entre as pernas do executor, o pescoço tracionado pelo queixo ou as narinas, e a faca transpassada na garganta de orelha a orelha. Somente em Rio Negro, Adão Latorre, degolador maragato, teria matado 300 governistas. Na represália, Cherenque, o carrasco governista, degolaria 250 maragatos. A crônica é pródiga em atos macabros como castrações (outra lida campeira trazida para a guerra) e corridas de degolados. O líder revolucionário Gumercino Saraiva, dois dias depois de morto em batalha, teve a sepultura violada, o corpo decapitado e a cabeça levada numa caixa de chapéu ao governador do estado!

O ano de 1923 transcorre em nova luta armada, maragatos versus chimangos. É possível que a memória do pai degolado nesses combates aflorasse quando Leonel Brizola, governador do Rio Grande do Sul, microfone e metralhadora em punho, garantiu a ordem institucional do país (1961): “Não daremos o primeiro, mas o segundo tiro será nosso.” Talvez também aflorasse quando, revólver na cintura, tomou a palavra no Comício da Central do Brasil, evento para o qual nem fora convidado, inflamou os ânimos e os temores, ajudando a precipitar o Golpe Militar de 1964.

Em 1924 inicia-se em Santo Ângelo a marcha liderada por Luiz Carlos Prestes: 1.500 homens, 30 meses, 25.000km, a fome e o cólera. Em 1930, um telegrama desde Porto Alegre anuncia a Revolução na qual Getulio Vargas, lenço colorado no pescoço, proclama ‘O Rio Grande de pé pelo Brasil’. Um grupo de gaúchos ‘cumpre a promessa’ de amarrar os cavalos no obelisco da Avenida Rio Branco na então capital do país – ‘coestaduanos’ chamados por Erico Veríssimo “não gaúchos legítimos, mas paródias de opereta”.

A verdade é que as vicissitudes de geografia e história, de colonização e cultura fizeram com que a gente do Rio Grande do Sul desempenhasse um papel central na condução do país com resultados que beiram do menos ao mais ou menos. Com 3% da área, 6% da população e 6,6% do PIB, um terço da vida republicana nacional foi liderado por gaúchos. Dos cinco generais que governaram o Brasil entre 1964 e 1985, três eram gaúchos e um quarto era filho de gaúchos e fascinado por cavalos…

Se o gaúcho é figura emblemática no Uruguai e na Argentina, no Rio Grande do Sul se tornou a identidade mítica no inconsciente coletivo da população. O principal monumento do estado é O Laçador, a sede do governo se chama Piratini, a Assembleia Legislativa é o Palácio Farroupilha e a condecoração é a do Ponche Verde, nome do tratado de paz, uma ‘rendição honrosa’… Se o Sete de Setembro é marcado pelo formalismo militar, o Vinte de Setembro, Proclamação da República Piratini, encerra uma semana inteira de festejos populares que inclui acampamentos, churrascos, mateadas e desfile de cavalariços. A bandeira do estado traz uma faixa vermelha, entre o verde e o amarelo e enfatiza o sangue gaúcho derramado em prol do país.

A cada batalha sublimada de futebol, o hino do estado é cantado com um ardor a prenunciar uma carga de cavalaria. As polarizações continuam extremas – externas e internas. Gremistas e colorados se travestem de ximangos e maragatos e exibem uma rivalidade que só tem equivalente entre o Real Madrid espanhol e o Barcelona catalão.

A verdade é que esse ‘cristão selvagem’, ‘ralé da sociedade’, ‘cossaco da América’, ‘parasita do gado’, ‘pária social, ‘crioulo preguiçoso, ‘virgulino donpedritense’, ‘com tantos crimes como Judas’, ‘sem chefes, sem leis, sem polícia’, ‘sem moral social’ conquistou o corpo e a alma do Rio Grande do Sul. O fora da lei virou paradigma, herói que cada um sonha existir e anseia despertar dentro de si e dentro dos seus.

Bom exemplo é o senador Pinheiro Machado, veterano do Paraguai e da Revolução Federalista, que deu a ordem tipicamente gauchesca ao cocheiro de sua carruagem cercada por populares: “Siga, mas não tão rápido que pareça covardia, não tão lento que pareça provocação.”

Paro por aqui. O texto que era para ser curto como estribo de anão ficou comprido como suspiro de velório, como diz o gaúcho.

 

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