Grindelia de Oliveira Júnior ou farmacopeia pega, mata e come

Grindelia de Oliveira Júnior ou farmacopeia pega, mata e come

Gustavo Maia Gomes, economista

 

Para quem, como eu, era criança ou adolescente nos anos 1950/60, o que primeiro vem à lembrança, quando pensa em remédios daquela época, são nomes: Melhoral, Gastricol, Enteroviofórmio, Cafiaspirina, Atroveran, Alka-Seltzer, Mercúrio-Cromo, Bromil, Emulsão de Scott, Óleo de Rícino, Cibalena e, acima de todos, Grindelia de Oliveira Júnior. Como iria alguém esquecer um xarope desses? Talvez ele nem mais existisse, quando nasci. Mas meu pai nunca deixava de mencioná-lo. Podia ser inócuo – provavelmente, era. Isso não lhe abalaria a reputação. Seu segredo estava no nome.

Depois, me ocorrem os bordões da propaganda: “Tosse, bronquite, rouquidão? Xarope Brandão, o defensor do pulmão”; “Melhoral, Melhoral, é melhor e não faz mal”; “Fimatosan, melhor não tem, é o amigo que lhe convém”; “Regulador Xavier, a saúde da mulher. Número 1: excesso; Número 2: escassez”; “Cafiaspirina é Bayer e se é Bayer é bom”; “Pílulas de Vida do Dr. Ross: pequeninas, mas resolvem”. Isso tudo, naturalmente, foi antes do Doril, que viria a ser, talvez, o campeão dos slogans. Mas eu já não era criança ou adolescente, quando repetia a paródia: “Tomou Doril? Vá à puta que o pariu.”

– Bem, a frase oficial diferia um pouco desta.

Em terceiro lugar, na ordem das coisas relembradas, está a certeza de que havia um remédio infalível para cada doença. Os anúncios mais audaciosos tinham aparecido alguns anos antes, porém o espírito geral ainda não mudara tanto. Uma das peças mais incisivas havia sido a do xarope Grindelia de Oliveira Júnior, publicada nos jornais em 1935. Consistia na gravura (reproduzida acima) de um homem tossindo em sua poltrona, assistido pela mulher e o filho. Asma? Coqueluche? Tuberculose? Talvez, sim, pois o espectro da morte se faz presente, em segundo plano, pairando na sala. Todos estão preocupados, menos o anunciante. Aquilo, para ele, é fichinha:

Insight Inteligência - artigos e ensaios fora da curva

 

Isto não é nada. Absolutamente nada, porque não há tosse, seja ela asmática, coqueluche seca ou com expectoração que resista aos efeitos das primeiras colheradas do Grindelia de Oliveira Júnior. As donas de casa sabem disso e sempre têm à mão o famoso Grindelia de Oliveira Júnior, um remédio que não falha. (1935)

 

O texto não afirma ser o xarope capaz de vencer a tuberculose, porém a figura da morte rondando o lugar deixava clara a mensagem: aquela tosse podia ser coisa ruim. Não para quem tomasse Grindelia de Oliveira Júnior. Havia muitos outros remédios que se proclamavam miraculosos, nos anos imediatamente anteriores à minha infância. Eles continuavam a ser anunciados e vendidos, nas décadas de 1950 e 1960, mas a sua propaganda já era menos presunçosa. Dou alguns exemplos bem antigos:

  • O Gastricol curava “cólicas, empachamento, falta de ar, falta de apetite, enjoo do mar, enjoo das senhoras grávidas, palpitações, enxaquecas, tonturas, vômitos, prisão de ventre, gases etc. etc.” (1917)
  • O Tayuyá de São João da Barra resolvia tudo e mais alguma coisa: “sífilis; úlceras; feridas; dores; impingens; reumatismo articular, muscular e cerebral; artritismo; moléstias da pele, darthros (sic), eczemas, erupções.” (1923)
  • O Licor de Cacau Xavier era “o meio seguro e infalível para combater as lombrigas dos seus filhos. Além de ser um lombrigueiro gostoso, dispensa dieta e pode ser tomado em qualquer mês ou lua”. (1942)
  • O colírio Moura Brasil fazia “o milagre de transformar os olhos irritados e vermelhos em olhos claros e belos, com a vantagem de evitar que a gripe, o sarampo e a escarlatina encontrem nos olhos uma porta aberta”. (1947)1

Nunca tomei o Tayuyá, nem o Licor de Cacau Xavier. Do Gastricol, pude comprovar a eficácia contra a má digestão – de enjoos marítimos ou devidos à gravidez entendo pouco. Quanto ao colírio Moura Brasil, devia ser, à época, a mesma água de hoje, mas o experimentei, sim. Provavelmente por isso, jamais a gripe, o sarampo e a escarlatina encontraram em meus olhos uma porta aberta para entrar.

 

* * *

 

Neste texto, faço uma viagem sentimental à farmacopeia brasileira do século passado, especialmente, os anos entre 1920 e 1960. É uma viagem, parcialmente, inspirada em minhas recordações dos remédios que eu tomava ou ouvia falar, quando criança e adolescente – ou seja, aí pelos anos 1950 e 1960 – e, principalmente, guiada pelos maravilhosos registros que pude encontrar a respeito na rede mundial de computadores. Falarei, principalmente, da propaganda, a comunicação estabelecida, via anúncios em jornais e revistas, entre os fabricantes de remédios e seus potenciais compradores. Mas não apenas dela: também do significado subjetivo que os remédios tinham ou têm para outras pessoas, que escreveram ou estão escrevendo sobre eles.

Uma última coisa, neste fim do começo: como sempre acontece com os fenômenos sociais, nenhuma história disso ou daquilo se contém em si mesma. Os remédios – quais eram eles; que qualidades tinham ou diziam ter; como eram anunciados, vendidos e comprados; o que as pessoas pensavam deles – faziam parte de um universo mais amplo. Portanto, nossa viagem sentimental à farmacopeia brasileira nos anos 1920/60 não deixará de percorrer, também, os caminhos mais amplos de nossa evolução como povo.

 

CAFIASPIRINA É BAYER, E SE É BAYER, É BOM

Três medicamentos contra a dor e os resfriados tiveram proeminência no Brasil da primeira metade do século XX: a Cafiaspirina e a Instantina, da Bayer; e o Melhoral, da Sidney Ross. As peças publicitárias do primeiro deles são especialmente interessantes, como tento mostrar nesta seção.2

A Cafiaspirina foi licenciada pela Diretoria Geral de Saúde Pública em 7 de outubro de 1916, segundo nos informa um “reclame” publicado em 1924 e reproduzido abaixo, à esquerda. O texto deste anúncio é um verdadeiro documento literário, escrito de modo a transmitir emoção e comunicar uma importante novidade: “a dor física é hoje absolutamente dominável.”

 

O HOMEM É UM JOGUETE que passa de mão em mão, pelo acidentado caminho da existência. Há mãos carinhosas, há mãos sem misericórdia. A da alegria hoje acaricia-o, fá-lo sorrir e solta-o amanhã; a da dor segura-o logo a seguir, fá-lo chorar e do mesmo modo abandona-o. A mão do triunfo eleva-o; a da falência abate-o.

Mas o homem, apesar de insignificante em face do destino, aprendeu a defender-se de certos assaltos contra os quais ainda ontem se sentia impotente. Assim, por exemplo, a dor física é hoje absolutamente dominável graças a CAFIASPIRINA, o admirável analgésico moderno que faz desaparecer em poucos momentos as dores de cabeça, garganta e ouvidos, as nevralgias, o mal-estar causado por excessos alcoólicos, os resfriados e que nunca afeta o coração. (1924)

 

Se em 1924 o homem era um joguete, um ano depois a mulher já parecia mais esclarecida, no anúncio “Que Prodigiosa Transformação!” acima, à direita. A Cafiaspirina, naturalmente, fazia toda a diferença entre o “que martírio!” e o “que alívio!”. Ou seja: se não aprenderam, ainda, então aprendam, caras senhoras: vale a pena entrar na droga.

Em algum outro lugar, provavelmente, na mesma década de 1920, a Bayer voltava a doutrinar os potenciais clientes, dessa vez, decretando a ineficácia dos velhos “unguentos e cozimentos de ervas” e, em contrapartida, enaltecendo as virtudes de seu próprio produto. No primeiro anúncio abaixo, uma menina moderna, conhecedora dos poderes maravilhosos da Cafiaspirina, apresenta sua tia Mariquinhas (“é o anjo da casa”, diz Stellinha).

Pelo visto, a Mariquinhas é meio burra, mas ela parece ter captado a mensagem.

 

Antigamente a tia Mariquinhas, para qualquer dor, acudia logo com unguentos e cozimentos de ervas; naturalmente, o resultado não satisfazia a ânsia de fazer o bem com que tia Mariquinhas veio ao mundo. Mas a experiência foi-lhe ensinando que o mais simples e eficaz que existe é a CAFIASPIRINA.

E agora, quando há em casa uma dor de cabeça, de dentes ou de ouvido, uma enxaqueca ou uma nevralgia, com que satisfação ela salta com uma dose de Cafiaspirina e vê em poucos minutos aliviar-se o sofrimento do ente querido! (c. 1920)

 

Com a tia Mariquinhas de lição aprendida, o laboratório perguntava (em 1935) a um grupo de três foliões se cada um deles “tem se divertido muito no carnaval”. O que vinha depois, no texto, era previsível:

 

Aproveite o mais possível esses dias felizes, porque passam depressa e só voltam daqui a um ano. Se amanhecer cansado, com dor de cabeça, lembre-se de que CAFIASPIRINA é excelente contra esse horrível abatimento que invade o corpo e o espírito no dia seguinte a uma noite de farra. (1935)

 

A partir de 1942, os anúncios de Cafiaspirina abandonam o modelo dos textos edificantes, destinados a doutrinar o povo sobre as virtudes de um medicamento relativamente novo. Já se tratava, então, de fixar a imagem positiva que havia sido construída para o produto, associando-o, por exemplo, a uma moça bonita, bem vestida, com ares independentes e apresentada numa pose de trabalho não doméstico. (Uma secretária, talvez, no anúncio de 1942.) Ou a uma mulher elegante, segurando uma pomba da paz, simbolizando (e nele pegando carona) a conjuntura otimista que o Brasil e o mundo viviam, cinco anos depois da Segunda Guerra. Ou às festas do quarto centenário do Rio de Janeiro, outro momento de júbilo para a cidade e o país, em 1965.

Comercializada no Brasil de 1916 e 1986, a Cafiaspirina foi relançada em 2005 (portanto, depois de 20 anos ausente do mercado), porque “a Bayer, que constantemente faz pesquisas junto ao consumidor e à classe médica, constatou a necessidade de oferecer um medicamento eficaz no combate à dor de cabeça forte”.3

 

BIOTÔNICO FONTOURA: FERRO PARA O SANGUE,

FÓSFORO PARA OS NERVOS

Produto genuinamente brasileiro, o Biotônico Fontoura foi lançado em 1910. Oitenta e quatro anos depois, uma matéria publicada na principal revista do país dizia: “O Laboratório Fontoura fechou há uma década, mas suas marcas Biotônico Fontoura e Detefon continuam sendo vendidas até hoje.” 4

Deve haver pouca gente de minha época que desconheça aquele remédio ou as aventuras do personagem Jeca Tatuzinho, criado por Monteiro Lobato para o Almanaque do Biotônico Fontoura. Tratava-se, além de tudo, de um xarope gostoso, qualidade que não devia ser independente dos quase 20% de álcool etílico que entravam na sua formulação. (Foi somente em 2001 que o governo determinou que essa mistura não poderia continuar.)

Não obstante ser Monteiro Lobato (hoje perseguido pelos idiotas que tentam instalar o racismo na cultura brasileira) um escritor bastante divulgado na época de minha infância e adolescência, o primeiro contato que tive com ele foi intermediado pelo Biotônico Fontoura, que imprimia e divulgava as historinhas com o personagem Jeca Tatuzinho (em algumas versões, Jeca Tatu), criado por Lobato.

Jeca era um homem cheio de vermes, lombrigas, amarelão e outras mazelas, que o faziam parecer preguiçoso, avesso ao trabalho, improdutivo. Quando o personagem apareceu, em 1924, ele refletia muito bem uma sociedade cuja grande maioria da população vivia e trabalhava na área rural, em condições insalubres. O personagem de Monteiro Lobato denunciava esse estado de coisas, mas também ensinava noções de higiene e saneamento e, naturalmente, informava a todos os leitores as propriedades extraordinárias do Biotônico e do vermífugo Ankilostomina Fontoura.

As histórias de Jeca Tatu tinham um final feliz, pois quem tomava os produtos Fontoura se tornava sadio, forte, bem disposto, trabalhador, produtivo, feliz e rico. Segundo um autor:

 

Considerada a peça publicitária de maior sucesso na história da propaganda brasileira [o personagem de Monteiro Lobato inspiraria, no centenário do autor, 1982] a criação do Prêmio Jeca Tatu. Instituído pela agência CBBA – Castelo Branco e Associados, [o prêmio] representou uma homenagem “à obra-prima da comunicação persuasiva de caráter educativo, plenamente enquadrada na missão social agregada ao marketing e à propaganda”.5

 

Depois de tudo, o Biotônico Fontoura entrou para o universo cultural popular brasileiro de forma definitiva, e isso é refletido, entre outras coisas, pela grande quantidade de livros em que ele é citado, quase invariavelmente, de forma carinhosa.

Alguns exemplos:

 

Dráuzio Varela, que passou meses como médico voluntário no então presídio de Carandiru, em São Paulo, relata episódios em que os presos lhe pediam autorização para receber o Biotônico Fontoura nas visitas de seus parentes.

 

Outra vez, apareceu um descendente de árabes, nariz avantajado, cheio de correntes embaraçadas nos pelos do peito:

– Doutor, preciso uma receita de Biotônico Fontoura, que eu tomo desde pequeno, para a minha família trazer na visita.6

 

A “receita” era necessária para que a segurança permitisse a entrada do medicamento no presídio. Como não viu nada demais na solicitação, Varela atendeu ao árabe, após o que pedidos de outros presos se multiplicaram. O médico desconfiou. Terminou descobrindo que os detentos misturavam o Biotônico a uma cachaça que eles mesmos, clandestinamente, fabricavam, produzindo uma droga poderosa.

Moacyr Scliar também tem algo a dizer sobre o remédio:

 

O Biotônico Fontoura – o nome foi dado por Lobato – era visto pelo público exatamente como isso, um tônico vital, um grande antídoto para a tristeza brasileira. E funcionava, sim, para os Jecas Tatus. Muitos deles eram portadores de ancilostomíase, uma verminose que pode provocar grave anemia, tratável pelo ferro do Biotônico.7

 

O radialista e homem de televisão Heródoto Barbeiro, durante muitos anos âncora da Rádio CBN e da TV Cultura de São Paulo, contou a seguinte história:

 

Alguém tinha de fazer os serviços mais exóticos na TV Caramelo de Taiaçupeba. As necessidades das produções eram as mais imprevisíveis e tinha de haver um responsável por isso. Os pedidos batiam no almoxarifado: um relógio de ponto, tipo Red bel, uma tevê de válvulas, um vidro de Biotônico Fontoura, um par de galochas (…) Mané Rodrigues, o nordestino pançudo, chefe do almoxarifado, não aguentava mais.8

 

E, finalmente, o remédio também chegou ao futebol:

 

Desde que voltou da Itália, Zico não vem dando sorte com os nordestinos. Primeiro, mesmo de penetra, o alagoano Jacozinho roubou a festa em que o Galinho voltou a vestir a camisa rubro-negra. No domingo, outro craque habilidoso, parecendo um Jeca Tatu ainda não recuperado pelo Biotônico Fontoura, mostrou que a temporada de surpresas deste ano está apenas no começo. 9

 

Imaginem só o que teria acontecido com Jacozinho e seu colega Craque Habilidoso se eles tivessem tomado o Biotônico Fontoura. Teriam ofuscado Zico até hoje.

 

BROMIL: O AMIGO DO PEITO

Bastava haver uma garrafinha daquele remédio em casa que eu a esvaziava em poucos dias, estivesse ou não com tosse. O também brasileiro xarope Bromil tinha – e tem, pois continua a existir – uma qualidade inesquecível: era ainda mais gostoso que o Biotônico Fontoura. E mais antigo, também. Seus primeiros anúncios, com textos escritos por importantes poetas, são de 1906. Olavo Bilac o chamava de “amigo do peito”. Para um expectorante, vinha a calhar.

A ligação entre publicidade e poesia foi uma invenção do gaúcho Felipe Daudt de Oliveira, cujo tio João Daudt Filho fundara o primeiro laboratório produtor de remédios do Brasil, em 1882. Hoje com 130 anos, o Laboratório Daudt permanece ativo, embora não seja mais proprietário da marca Bromil. Esta foi comprada pela EMS, “a empresa que reinventa o mercado farmacêutico”, segundo suas próprias palavras, mas não consegue fazer seu site na internet funcionar direito.

É pena que o Bromil, embora continue na praça, já não associe seu nome a peças publicitárias tão sofisticadas como as Bromilíadas, uma extensa paródia ao camoniano Lusíadas. Com 1.102 estrofes e 8.816 versos decassílabos, com estrofação sempre na oitava rima (estou copiando o blog Almanaque), as Bromilíadas foram escritas por Bastos Tigre, o mesmo autor do slogan “Se é Bayer é bom”, e fizeram grande sucesso. Começavam assim:

 

Os homens de pulmões martirizados

Que, de uma simples tosse renitente,

Por contínuos acessos torturados

Passaram inda além da febre ardente;

Em perigos de vida atormentados,

Mais de quanto é capaz um pobre doente,

Entre vários remédios encontraram,

O Bromil que eles tanto sublimaram10

 

E continuavam desse modo:

 

E também as memórias gloriosas

Dos doutores que o foram receitando,

Com fé no seu império e milagrosas

Curas foram nos clientes operando

E os que o Bromil por formas misteriosas

Vive da lei da morte libertando,

Cantando espalharei por toda parte

Se a tanto me ajudar engenho e arte

 

Para somente terminar muitas e muitas e muitas estrofes adiante.

Se a tanto me ajudar engenho e arte, recordarei uma coisa ao leitor: quase ao mesmo tempo que as Bromilíadas iam sendo publicadas, o Biotônico Fontoura tinha Monteiro Lobato dando vida à sua principal peça publicitária. Nem precisaria dizer: no Brasil, já não se fazem anúncios de remédios como antigamente.

Bromilíadas à parte, também havia espaço para versos menos nobres, na propaganda do Bromil. Um seresteiro engasgado, por exemplo, como o da ilustração acima (à direita), podia ouvir sua musa declinar, compreensiva:

 

… Falta-lhe a voz, de repente!

E ela, vendo-o ansioso e rouco

Reconforta-o, sorridente:

Não te aflijas por tão pouco

Deite Bromil à garganta

E vai ver que bem que canta

 

De qualquer modo, nem só de poetas e poemas viviam os xaropes brasileiros. Para quem não fosse sensível à sutileza, havia as mensagens mais diretas: tosses que provocavam verdadeiros furacões em torno da pessoa adoentada; surras bromélicas aplicadas em crianças travessas, que apanhavam suspirando o nome “Bromil”.

Quem sabe essa estratégia mais agressiva refletisse o sentimento do Laboratório Daudt de que a propaganda excessivamente erudita dos Olavo Bilac e Bastos Tigre talvez não estivesse impulsionando as vendas tanto quanto seria desejável. Imagino que, um dia, lá pelos idos de 1920 ou 1930, os diretores da empresa tenham se reunido e chegado à conclusão de que iria quebrar se continuassem a vender seu xarope somente para intelectuais parnasianos.

– Esqueçam Olavo Bilac e convoquem o Reginaldo Rossi, deve ter dito um deles, antecipando o futuro.

 

CAPIVAROL: O REMÉDIO NEM TEVE TANTA IMPORTÂNCIA.

MAS O ALMANAQUE…

Lá atrás, bem lá atrás, consumia-se o óleo de capivara como remédio contra fraqueza, reumatismo, contusões – e como afrodisíaco, relata Hitoshi Nomura. E continua: “Tão largo era seu uso que deu origem a uma fórmula industrializada de fortificante – o Capivarol.” Até fins da década de 1990, o remédio ainda existia (parece que ainda existe, mas não pude encontrar evidências disso), embora “o óleo de capivara figur[e], hoje, em ínfima percentagem, dada a dizimação da espécie”. 11

Na verdade, com o passar do tempo, muito mais importante do que o tônico passou a ser o Almanaque Capivarol, publicado anualmente, a partir de 1919, para promover o remédio. O mais recente que conheço foi publicado em 1979; na internet, há menções a uma edição de 1980, mas isso parece informação falsa. No Almanaque (a capa da de 1949 é reproduzida abaixo, à esquerda), sempre se podia encontravam as peças publicitárias do remédio.

O Capivarol usava e abusava de depoimentos de pessoas que se diziam beneficiárias de seus poderes extraordinários. Dois desses depoimentos (registrados nos anúncios abaixo), entre muitos outros, merecem ser relembrados. O homem do cartaz ao centro, por exemplo, tinha o seguinte a dizer:

 

Com grande satisfação e muito grato, ofereço-lhe a minha fotografia, antes e depois de usar o CAPIVAROL, comprovando a cura que tive com esse milagroso remédio. Há 10 anos que sofria de uma bronquite crônica, muitas dores no peito, nas costas e nas pernas, falta de apetite, cada vez mais magro e já desanimado da vida. Tomei tantos remédios e nada de melhora. (…) Hoje, graças a Deus e ao CAPIVAROL estou completamente curado. Pesava 50 quilos e estou agora pesando 72 quilos, tendo engordado 22 quilos em cinco meses. Os amigos se admiram de minha cura, e eu só digo TOME CAPIVAROL! (Pedro Bachega, Franca, São Paulo, 23/3/1925)

 

A mãe da menina do anúncio à direita também entregou duas fotografias ao editor do Almanaque Capivarol (a estratégia publicitária do “antes e depois” era usada por quase todos os remédios; como já vimos, para o Biotônico Fontoura e, com o respaldo de Olavo Bilac, também o xarope Bromil). Eis o depoimento da senhora, em 1942:

 

Minha filhinha Norma, hoje com 3 anos de idade, aos 2 anos estava tão fraca que, além de não andar, os seus movimentos eram fraquíssimos e, tendo usado quatro vidros do Capivarol, hoje se acha forte, já anda e possui maior força nas juntas. Tenho também outra filhinha, Ruth, com 6 anos que, a exemplo de sua irmã, tomou dois vidros desse preparado, obtendo ótimo resultado na cor, na força e na disposição para alimentar-se, assim como na alegria de brincar e saltar nos jardins.12

 

Com frequência, a propaganda incluía a palavra de médicos, sempre atestando que Capivarol era mesmo a salvação para fraqueza, reumatismo e contusões. O medicamento também se incorporou à cultura popular, como o comprovam esses versos de Zé Limeira, o poeta do absurdo:

 

Minha mãe era católica

E meu pai era católico.

Ele romano apostólico.

Ela romana apostólica.

Tivero um dia uma cólica

Que chamam dor de barriga,

Vomitaro uma lombriga

Do tamanho dum farol.

Tomaro Capivarol,

Diz a tradição antiga13

 

O Almanaque Capivarol era uma espécie de Papai Sabe Tudo, muito consultado pelos intelectuais amantes do verniz. Virou sinônimo de conhecimento enciclopédico, mas superficial. Ou falso.

 

ELIXIR SANATIVO, PRESENÇA NOS ESTÁDIOS

“O que há em comum entre a General Electric, a gigante americana que fatura 100 bilhões de dólares (…), e o Laboratório Pernambucano Ltda., o Laperli, modesta indústria do Recife que fatura 2,5 milhões de reais produzindo remédios à base de plantas medicinais do Nordeste?”, perguntava Jomar Morais, da revista Exame, em 12 de janeiro de 2000.

Ele mesmo responde (abrevio um pouco):

 

Aparentemente, nada. Mas as duas empresas fazem parte de um mesmo e seleto clube internacional: o das organizações cujas marcas atravessaram o século XX. A saga da GE todos conhecem. Coube, porém, a um certo Elixir Sanativo, produto fitoterápico concebido há mais de um século por um curandeiro de Limoeiro, no interior de Pernambuco, inscrever o Laperli entre os donos das marcas mais longevas do planeta.14

 

O Elixir Sanativo é uma mistura de ervas medicinais (aroeira, angico, mandacaru e camupu), descoberta em 1888 por João Gabriel Firmino de Figueiredo, que venceu o tempo e se mantém firme no mercado. “Há mais de um século, o remédio é usado por milhares de pessoas para estancar sangramentos, [ajudar na] extração de dentes, e curar úlcera e estomatites, entre outras doenças.” 15

Dele eu ouvia muito falar, sem jamais ter precisado experimentá-lo.

 

EMULSÃO DE SCOTT E O HOMEM-BACALHAU

Nunca tomei a Emulsão de Scott, mas uma das lembranças mais marcantes que tenho dos remédios de minha infância e adolescência está diretamente associada a ela: a figura do pescador encurvado carregando nas costas um peixe maior do que ele mesmo. Impossível de ser esquecido, o cartaz estava nas portas de todas as farmácias, às vezes, mostrando o homem – e, portanto, também o peixe – em tamanho natural. A Wikipedia diz que a Emulsão de Scott “é um tradicional medicamento à base de óleo de fígado de bacalhau, notável pelo sabor acentuado, que muitos consideram desagradável”.

Essa frase “muitos consideram desagradável” é uma subdeclaração e passa tão longe da verdade quanto dizer que Eike Batista ganha o salário mínimo. Pois não são “muitos”, são todos; e nem é “desagradável”, é indeglutível. Não sei isso por experiência própria, pois, como disse, nunca fui obrigado a ingerir aquilo lá. Nem foi meu irmão quem me disse (sendo quatro anos mais velho, ele teve probabilidade maior que eu de nascer na Idade das Trevas), pois ele também não tomou. Foi a unanimidade dos nossos amigos. E vejo que, também, de alguns não amigos, gente que não conheço, mas que o Google encontrou na rede mundial de computadores.

Um deles é Roberto Bahy, radialista em Canoas, Rio Grande do Sul:

 

Um dos medicamentos populares mais antigos do mundo, a Emulsão de Scott vem aterrorizando criancinhas desde 1830, quando o Sr. John Smith engarrafou o famigerado óleo de fígado de bacalhau. Uma coisa tão ruim só pode continuar no mercado por ter realmente algum benefício para a saúde. [De fato, ele] contém muita vitamina A e D, cálcio, fósforo e Ômega 3. As mães acreditam que ela [aumenta] a resistência do organismo e fortalece ossos e dentes.16

 

Outro é Marcos Dhotta, que mantém um blog de nome esquisito (“Caríssimas Catrevagens”). Edito um pouco seu texto. Ele conta que estava em casa de uma amiga quando teve

 

uma visão do capeta: um vidro de EMULSÃO DE SCOTT!!! Lembram? Aquele remédio [que era um] “purgante sinistro”. Daí eu perguntei para ela: o que esta coisa está fazendo na sua cozinha? E ela me respondeu: é um fortificante que eu estou dando para os meninos, eles tomam três vezes ao dia. Eu não quis acreditar… Como é que uma mãe em pleno século XXI ainda faz um negócio desses com os filhos? Ela só pode ser mais uma daquelas mães torturadoras do século passado… Igual às nossas, que corriam atrás da gente com uma colher cheinha de Emulsão de Scott…17

 

Na propaganda oficial, as “pessoas pálidas são pálidas porque não derivam suficiente nutrição do que comem”, de onde se seguiria que elas “necessitam de Emulsão de Scott, que é um alimento concentrado produtor de sangue rico, forças, carnes e vigor”. Mas será que valia o sacrifício?

Mesmo que não valesse, continuava a ser verdadeiro que a figura do homem carregando um bacalhau maior que ele mesmo foi um grande achado da propaganda. Uma prova que o desenho está na cabeça de todos nós é a charge que o cartunista Ique fez do então presidente Lula, em pleno auge da crise política envolvendo o Senado, em julho de 2009.

O contexto em que a charge de Lula carregando o bacalhau Sarney (na página ao lado, acima) foi produzida está definido nesta citação:

 

Crise no Senado deixa CNJ e CNMP sem conselheiros. A paralisia do Senado, que há várias semanas tem a crise na Casa como o principal tema de sua pauta, vem prejudicando os órgãos de controle administrativo do Poder Judiciário e do Ministério Público. 18

 

Pelo visto, a Emulsión de Lulascott foi suficiente para atenuar os efeitos daquela crise. Mais difícil seria encontrar bacalhau em quantidade suficiente para os dirceus, genoínos e delúbiois derrubados pelo julgamento do mensalão, em outubro de 2012.

 

VIKELP OU QUANDO OS MAGROS QUERIAM ENGORDAR

Você pode não saber, mas já houve época em que os magros queriam engordar. A solução para eles, finalmente descoberta na década de 1940, era o Vikelp. Não o conheci e creio que na minha época de infância e adolescência ele já tinha seguido o destino dos amigos de Stálin, ou seja, desaparecer sem deixar rastro. Minha mãe, por exemplo, durante muito tempo a única mulher em nossa casa, tinha medo de ganhar peso, não o contrário.

– Sou magra de nascença… nunca passarei disto!, diz a mulher-tábua da esquerda.

– Eu dizia o mesmo antes de usar Vikelp!, responde a gostosona da direita.

Era outro mundo, não? Mas, cá pra nós, a gostosona é muito mais feminina e bonita que a magrela; a cheinha à direita, no segundo anúncio, ganha de dez a zero das esqueléticas que, hoje, passam por beldades, tipo Gisele Bündchen, sempre, e Angelina Jolie, depois que endoidou.

O texto do anúncio (na próxima página, acima, à esquerda) é longo, mas merece ser reproduzido aqui. A parte principal dele, pelo menos:

 

Eis uma boa notícia para as pessoas “magras de nascença” que, embora bem alimentadas, não conseguem aumento de peso, por menor que seja. Foi descoberto um novo método de obter vários quilos de carnes rijas que cubram as saliências e depressões que tanto enfeiam as pessoas magras de ambos os sexos, mesmo daquelas que durante vários anos tiveram o peso muito abaixo do normal. Garante-se um aumento de 1,5 a 3,5 quilos numa semana, conquanto não sejam raros os casos de obtenção de 5 a 7 quilos no mesmo espaço de tempo.

Use Vikelp durante uma semana e veja a diferença. Se você não lucrar ao menos 2 quilos, devolveremos o seu dinheiro. (1940)19

 

Não sei se a propaganda do Vikelp, em algum outro lugar, advertia para os perigos do uso excessivo daquele medicamento. Era bom que o fizesse, pois uma imaginária comparação “antes e depois” de alguns de seus usuários poderia gerar resultados drásticos, como os mostrados a seguir (fotos de baixo).

É o caso de dizer: também não vamos exagerar.

 

XAROPE SÃO JOÃO E OUTRAS BARBARIDADES

Algumas peças publicitárias se destacavam pela sua agressividade, ou excesso de ênfase. O Xarope São João, por exemplo, mostrava um homem oprimido por forças ocultas que não lhe deixavam gritar. As Pastilhas Rinsy ilustravam com a própria imagem do Diabo sua caracterização das doenças dos rins, que prometiam combater e derrotar. Bronchisan combatia a asma com a rapidez de quem corta uma faixa de pano.

Bons tempos aqueles em que os remédios podiam tudo.

Tinha mais. Um homem caído ao chão, com torniquetes cravados em seu corpo, tentava alcançar um vidro de Urodonal, que também devia ser bom para os rins; outro, prostrado na poltrona, ponderava, abatido, se valia mais a pena suicidar-se ou tomar a Urotropina; um terceiro, derrotado por um pileque, sonhava com Gardenal.

Imagina só o que uma dose de Gardenal não faria a uma pessoa naquele estado!

 

REMÉDIOS, MERCADO E PROPAGANDA

Nas primeiras décadas do século passado, alguém poderia dizer sobre as três lembranças que tive ao pensar nos remédios da minha infância e adolescência:

– Nomes, bordões, poderes miraculosos de cura – de onde veio tudo isso? Nenhuma dessas coisas está conosco há muito tempo.

Algumas, até estavam. Havia marcas, sim. Vimos, por exemplo, que uns poucos anúncios apelativos datam do século XIX, como é o caso daquele do homem impedido de gritar e a quem só o Xarope São João podia socorrer. Em 1906, ou um pouco depois, o Bromil já fazia propaganda com versos de Bastos Tigre e cartas de Olavo Bilac. É difícil dizer se esses remédios eram vendidos em todo o Brasil – quase certamente, não o eram –, mas nas maiores cidades, sim, prefigurando o mercado nacional. Inventar bordões é, também, uma prática antiga: “Se é Bayer, é bom” foi criado em 1922.

Mas tudo isso não passava de ensaios do que estava por vir, pois, até os anos 1920/1930, o Brasil era uma sociedade quase toda rural, cuja prática médica se baseava, em larga medida, em remédios doméstica ou artesanalmente produzidos e, nas poucas cidades então existentes, em manipulações farmacêuticas feitas sob encomenda. Havia, sim, medicamentos industrializados, mas eram raros. Nomes, marcas, bordões, propaganda paga existiam apenas em pequena escala e em poucos lugares.

De qualquer modo, a urbanização já havia começado, não apenas em São Paulo, em consequência da expansão cafeeira e da industrialização. Aos poucos, a concentração das pessoas nas cidades, longe dos ambientes onde elas e seus ancestrais haviam sempre vivido, foi pondo em cheque a medicina das receitas caseiras ou artesanais, abrindo uma oportunidade à indústria farmacêutica que, entretanto, só podia produzir economicamente se o fizesse em grandes quantidades.

Em tal ambiente, a propaganda de remédios encontrou um espaço a preencher e uma função a desempenhar. Para que as drogas industrializadas tivessem compradores, as pessoas deviam ser informadas não somente que elas existiam, mas que eram, na verdade, superiores aos medicamentos antigos. Daí as marcas aparecerem em número cada vez maior; daí também o tipo de publicidade feito, por um lado, educativo; por outro, repleto de afirmações duvidosas sobre as qualidades dos medicamentos. Os anúncios são longos, repetem bordões e fazem promessas mil, mas, no processo, criam a clientela.

Nessa mesma linha, a maior escala da produção permitida pelas modernas unidades fabris possibilitou e exigiu que o mercado de medicamentos deixasse de se limitar a uma região. Em 1950/60, subperíodo que privilegio neste texto, ele já era um mercado nacional. Evidência disso é que, dos 53 remédios de que pude me recordar, listados em anexo, somente três (Gastricol, Elixir Sanativo, Gotas Arthur de Carvalho) eram vendidos exclusivamente no Nordeste, sua região de origem. Outros três (Elixir Paregórico, Extrato Hepático e Óleo de Rícino) tinham características especiais, não sendo, propriamente, marcas, enquanto os 47 restantes – ampla maioria, portanto – se difundiam por todo o país.20

Era um mercado nacional que havia sido criado, majoritariamente, por empresas estrangeiras, cada uma delas cuidando de promover suas drogas específicas. Depois da pioneira Glaxo (britânica, 1908), vieram a Bayer, alemã, que se estabeleceu no Brasil em 1911 (onde já tinha um representante desde 1896); a francesa Rhodia (1919), a americana Sidney Ross (1920), as alemães Merck e Shering (1923), a suíça Roche (1931), a Jonhson & Johnson (EUA, 1933), a Ciba (Suíça, 1934) e a Abbott (EUA, 1937). De tal modo que

 

no início da década de 1960, pelo menos 95% [da indústria farmacêutica] já se encontra[vam] em mãos estrangeiras. Evidentemente, isso implicaria transformações nas formas de vender e de anunciar os novos medicamentos – boa parte deles sintéticos – em substituição às substâncias naturais de base vegetal e animal. 21

 

A formação do mercado de produtos farmacêuticos e o desenvolvimento da propaganda dos remédios ocorrem, portanto, simultaneamente. O efetivo controle governamental sobre o conteúdo dos anúncios, contudo, somente viria a acontecer com grande atraso. A primeira tentativa de fazê-lo, em 1931 (Getúlio Vargas/Belisário Penna), foi extremamente tímida, parecendo que o governo, com tantos problemas a enfrentar, não considerava os evidentes exageros das promessas de cura um assunto suficientemente importante para merecer sua atenção.22

Ainda, praticamente, sem regulamentação, o segmento publicitário de medicamentos teve um grande impulso a partir de 1932,

 

quando as autoridades permitiram a veiculação de anúncios [de remédios] em rádio, desde que os radialistas não citassem os considerados ofensivos à população. Propagandas de roupas íntimas, remédios para hemorroidas, flatulências, cólicas, por exemplo, estavam banidas.23

 

Embora, bem no espírito da época, ainda fosse proibido falar em peidos e diarreias, ninguém se preocupava em verificar, com seriedade, se os remédios podiam cumprir as promessas que faziam. De qualquer modo, à sombra da inércia oficial, mas buscando reforçar a própria credibilidade, os fabricantes de alguns deles recorriam a “autoridades médicas” ou a depoimentos de usuários das drogas (invariavelmente, muito satisfeitos), a fim de respaldar as suas apregoadas qualidades.

Apesar de, pelo lado negativo, a propaganda atribuir poderes fantasiosos aos remédios, não se pode negar que os anúncios desempenharam um papel importante na “tarefa de implantar novos hábitos de higiene, saúde e beleza”, como assinalam Maria das Graças Magalhães e seus coautores. Segundo ela e eles, os textos e as imagens dos “reclamistas”, especialmente a partir da década de 1930,

 

vão introduzir não só as novas drogas científicas, mas novos padrões de comportamento, usos e costumes. Em busca de mercado para seus produtos industriais, a propaganda dos laboratórios arremete contra o modo de vida passado, sobrepondo-se às práticas artesanais de medicina caseira e desqualificando-as.24

 

No futuro, a atribuição exagerada de propriedades miraculosas aos medicamentos viria a ser parcialmente eliminada (em 2/2/1993, na página 58, a Veja noticiava que “o Ministério da Saúde vai cassar o registro de produtos farmacêuticos que fazem propaganda enganosa”), embora ainda existisse em meados do século passado, quando eu era criança e adolescente. Muitas das histórias contadas acima exemplificam isso.

– Mas… o que é feito da Grindelia de Oliveira Júnior?

 

gustavomaiagomes@gmail.com

 

  1. Fontes: Gastricol: Diário do Povo (6/7/1917), em http://memoria.bn.br/DocReader/cache/2587408850135/I0000675-06(01206×01806).jpg; Tayuyá: O Malho, (1923), no Blog de Iba Mendes, http://www.ibamendes.com/2012_08_01_archive.html; Licor de Cacau Xavier: revista A Cigarra (abril de 1942), Arquivo Público do Estado de São Paulo, https://www.facebook.com/photo.php?fbid=442714885767359&set=a.182256991813151.41635.182206948484822&type=1&theater; Colírio Moura Brasil: O Estado de São Paulo (6/11/1947), em http://blogs.estadao.com.br/reclames-do-estadao/files/2012/07/1947.11.6-col%C3%ADrio-moura-brasil-luz-ofuscante-praia.jpg.
  2. A liderança do Melhoral, Cafiaspirina e Instantina no mercado de analgésicos (em 1942) é documentada em Tania Quintaneiro, “O mercado farmacêutico brasileiro e o esforço de guerra norte-americano”, Estudos Históricos, Rio de Janeiro, nO 29, 2002, p. 154. (Em http://www.google.com/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=1&ved=0CCQQFjAA&url=http%3A%2F%2Fbibliotecadigital.fgv.br%2Fojs%2Findex.php%2Freh%2Farticle%2Fdownload%2F2155%2F1294&ei=WT1vUPmFPJKY9QTLjIDgDw&usg=AFQjCNE_nEgO9XaPxfhvS5u6-8lMNV6exQ&sig2=G3sg9KclLHCyMLftt1ICSA)
  3. “Bayer moderniza embalagens da linha Aspirina”, (29/09/2005), em http://www.febrafar.com.br/index.php?cat_id=5&pag_id=3664
  4. Veja, 27/7/1994, pág. 107.
  5. Extraído do blog História no Vestibular, em http://historianovest.blogspot.com.br/2010/11/monteiro-lobato-jeca-tatuzinho.html (15/10/2010)
  6. Dráuzio Varela, Estação Carandiru. Companhia das Letras, São Paulo, 1999, pág. 93
  7. Moacyr Scliar, Saturno nos Trópicos: A melancolia Européia chega ao Brasil. São Paulo Companhia das Letras, 2003. Pág. 231
  8. Herodoto Barbeiro, Fora do ar: Histórias dos bastidores do rádio e da televisão contadas pelo âncora da CBN e da TV Cultura, Ediouro, São Paulo, 2007, pág. 123
  9. Revista Placar 26/7/1985, pág. 16
  10. Blog Almanaque, Bromil, xarope e poesia, em http://almanaque.blog.br/2010/05/bromil-xarope-e-poesia/ (maio 2010)
  11. NOMURA, Hitoshi. Os animais no folclore. Mossoró: Fundação Vingt-un Rosado, 1996, p. 44.
  12. A foto do anúncio está reproduzida em MAGALHÃES, Maria das Graças S.; GOMES, Mario Luiz; COSTA, Silvana G. A. da. Saúde e alegria: Uma releitura dos depoimentos dos almanaques de farmácia, s/d. Em http://alb.com.br/arquivo-morto/edicoes_anteriores/anais17/txtcompletos/sem12/COLE_935.pdf (seção “Saúde e alegria”).
  13. TEJO, Orlando. Zé Limeira, poeta do absurdo. Universitária, 2000.
  14. MORAIS, Jomar. “Elixir da vida longa”. Em http://exame.abril.com.br/revista-exame/edicoes/0705/noticias/elixir-da-vida-longa-m0048478 (12/1/2000).
  15. “Curando diversos males”. Enciclopédia Nordeste. Em http://onordeste.com/onordeste/enciclopediaNordeste/index.php?titulo=Elixir+Sanativo&ltr=e&id_perso=2698.
  16. Em http://jovemguardasempre.blogspot.com.br/2012/08/emulsao-de-scott.html (10/8/2012).
  17. Marcos Dhotta. Em http://carissimascatrevagens.blogspot.com.br/2009/03/emulsao-de-scott-o-purgante.html (29/3/2009).
  18. Alerta Brasil. Em http://alertabrasil.blogspot.com.br/2009/07/cnj-e-cnmp-desfalcados-de-conselheiros.html (2/7/ 2009).
  19. O Estado de S. Paulo, 7/4/1940. Em http://blogs.estadao.com.br/reclames-do-estadao/tag/vikelp.
  20. Pelas informações que pude obter, o Elixir Paregórico, o Extrato Hepático e o Óleo de Rícino eram produzidos em várias partes do Brasil, mas por diferentes empresas, muitas vezes em moldes artesanais. Não havia um mercado nacional para cada uma das versões regionais desses produtos.
  21. Eduardo Bueno e Paula Taitelbaum. Vendendo saúde: A história da propaganda de medicamentos no Brasil (2008), p. 73. Em http://www.anvisa.gov.br/propaganda/ vendendo_saude.pdf.
  22. Idem, ibid.
  23. ESQUENAZI, Rose. “As bulas da história” (2004). Em http://ias2.epharmatecnologia.com.br/ sa/sec/newsdtl_dtl?p_informa=4244.
  24. MAGALHÃES, Maria das Graças S.; GOMES, Mario Luiz; COSTA, Silvana G. A. da. Saúde e alegria: Uma releitura dos depoimentos dos almanaques de farmácia, s/d. Em http://alb.com.br/arquivo-morto/edicoes_anteriores/anais17/txtcompletos/sem12/COLE_935.pdf.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

Há muitos blogs e outras fontes de informações sobre o passado, em geral, e os velhos remédios usados no Brasil, em particular. Consultei, principalmente:

DoceDeni, por Denise Pazito (blog), http://3.bp.blogspot.com/-3tnw0BsyM88/TXmrwYFmFeI/AAAAAAAAE1I/UsPM6zO0ajM/s1600/docedeni.logo.png

Eduardo Bueno e Paula Taitelbaum, Vendendo Saúde: A História da Propaganda de Medicamentos no Brasil, (2008) em http://www.anvisa.gov.br/propaganda/vendendo_saude.pdf

Iba Mendes Pesquisa (blog), http://www.ibamendes.com/

Jóias do tempo (blog), João Lázaro, http://joiasdotempo.blogspot.com.br/

Maria das Graças Sandi Magalhães, Mario Luiz Gomes e Silvana Gonçalves Alvim da Costa, “Saúde e Alegria: Uma Releitura dos Depoimentos dos Almanaques de Farmácia”, s/d, em http://alb.com.br/arquivo-morto/edicoes_anteriores/anais17/txtcompletos/sem12/COLE_935.pdfMedicamentos usados no passado (filme), em http://www.youtube.com/watch?v=ufJscSm8JzY

Paula Renata Camargo de Jesus, “Propaganda de Medicamentos – pra você ficar legal!”, Universidade IMES/São Caetano do Sul/SP e UNISANTA/Santos/SP, s/data (posterior a 2004). Em http://www.cit.sc.gov.br/propaganda/pdfs/artigos/propaganda_pra_%20ficar_legal.pdf

“Reclames do Estadão: a História contada pelos anúncios impressos desde 1878” (blog), http://blogs.estadao.com.br/reclames-do-estadao/tag/remedio/

Rose Esquenazi, “As bulas da história”, (2004), em

http://ias2.epharmatecnologia.com.br/sa/sec/newsdtl_dtl?p_informa=4244

Tania Quintaneiro, “O mercado famacêutico brasileiro

e o esforço de guerra norte-americano”, Estudos Históricos, Rio de Janeiro, nO 29, 2002, pp. 141·164. Em http://www.google.com/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=1&ved=0CCQQFjAA&url=http%3A%2F%2Fbibliotecadigital.fgv.br%2Fojs%2Findex.php%2Freh%2Farticle%2Fdownload%2F2155%2F1294&ei=WT1vUPmFPJKY9QTLjIDgDw&usg=AFQjCNE_nEgO9XaPxfhvS5u6-8lMNV6exQ&sig2=G3sg9KclLHCyMLftt1ICSA

As demais referências são feitas no próprio texto, geralmente, por meio do link para a página de onde foi colhida a foto ou os elementos para a redação da seção específica.

 

AS MARCAS CITADAS

 

Cinquenta e três marcas (ou tipos) de remédios foram lembradas como importantes, na época considerada. A maioria, mas não todas, foi citada no texto. Em ordem alfabética (nas colunas), elas são as seguintes:

 

Alka Seltzer

Ankilostomina Fontoura

Antisardina

Atroveran

Band-Aid

Biotônico Fontoura

Bromil

Bronchisan

Cafiaspirina

Capivarol

Cibalena

Colírio Moura Brasil

Elixir Paregórico

Elixir Sanativo

Emplastro Sabiá

Emulsão de Scott

Entero-Viofórmio

Extrato Hepático

Gardenal

Gastricol

Gotas Artur de Carvalho

Grindélia de Oliveira Jr.

Hipoglós

Instantina

Iodex

Iofoscal

Lavolho

Leite de Magnésia de Phillips

Licor de Cacau Xavier

Magnésia Bisurada

Melhoral

Mercúrio Cromo

Novalgina

Nutrogenol Granado

Óleo de Rícino

Pastilhas Rinsy

Pastilhas Valda

Phimatosan

Pílulas de Vida do Dr. Ross

Polvilho Antisséptico Granado

Pomada Minancora

Regulador Xavier

Rhum Creosotado

Sal de Frutas Eno

Sonrisal

Tayuyá de São João

da Barra

Urotropina

Urudonal

Vick Vaporub

Vigoron

Vikelp

Xarope Brandão

Xarope São João

 

 

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