Heurísticas: yes, a opinião pública também é irracional!

Heurísticas: yes, a opinião pública também é irracional!

José Vicente Santos de Mendonça, Advogado

 

  1. SANTA MARIA E O DIA EM QUE O CÉU CAIU SOBRE NOSSAS CABEÇAS

 

No dia 15 de fevereiro de 2013 um meteorito rasgou o céu da Rússia. Não houve vítimas fatais, mas o evento despertou preocupação. O governo americano poderá direcionar verbas públicas para um esquecido programa da Nasa destinado à detecção de objetos espaciais (Spaceguard Survey). Uma fundação privada voltada ao mesmo objetivo – a B612, nome do planetinha do pequeno príncipe, fundada por um ex-funcionário da Nasa que foi para o Google – recebeu doações recordes.1 Talvez os gauleses dos quadrinhos tivessem razão. Talvez haja sentido em temer que o céu caia sobre nossas cabeças. Sendo assim, melhor prevenir do que remediar.

 

Um mês antes, um incêndio na cidade universitária de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, matou 239 pessoas. As circunstâncias da tragédia são conhecidas. Pouco depois, governos locais e estaduais lançaram ofensiva contra más condições de restaurantes, bares e casas de show. Nos quatro dias posteriores a Santa Maria, só no estado do Rio de Janeiro foram fechados 127 estabelecimentos.2

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O que esses eventos têm em comum? As respostas que a sociedade deu a eles são representativas do mesmo fenômeno: o viés da disponibilidade. O que significa tal viés, e outros, e o que o governo pode vir a fazer para neutralizá-los e afetar sua vida são temas deste texto.

 

  1. HEURÍSTICAS E VIESES: HUMANOS, DEMASIADO HUMANOS

 

Em meados dos anos 70, um pioneiro programa de pesquisa levado a cabo por dois professores israelenses, o psicólogo Daniel Kahneman e o economista Amos Tversky, identificou que, quando tomamos decisões, usamos muitas vezes heurísticas – numa definição simples, atalhos mentais. Na maioria das vezes, utilizar heurísticas é estratégia bem-sucedida.3 Não teríamos tempo nem energia para devotarmos atenção a cada escolha do dia a dia. Confiamos na opinião de experts (lembre-se da última vez que você perguntou sobre marcas de carro para seu primo aficionado antes de comprar seu veículo); imitamos o que amigos e parentes fazem, ou seguimos suas recomendações (você provavelmente perguntou a amigos sobre onde comer numa viagem a um país para o qual nunca foi); na dúvida entre dois produtos, um caro e outro barato, optamos pela terceira opção intermediária. É natural que seja assim.

 

Mas há um problema: heurísticas são traiçoeiras. Úteis em muitos casos, tais atalhos, em certas circunstâncias, levam-nos a erros (no jargão da área, elas produzem vieses cognitivos).4 Kahneman e Tversky, em estudo seminal, identificaram três heurísticas e seus respectivos vieses: a heurística da representatividade, a heurística da disponibilidade, e o efeito de ancoragem. A heurística da representatividade faz com que nos desviemos da estatística em prol de associações de ideias fundadas em estereótipos. Exercício clássico: imagine que João seja tímido, fechado em si mesmo, ainda que prestativo. João é alguém que procura, antes de tudo, ordem e estrutura. É mais provável que João seja um bibliotecário ou um fazendeiro? A resposta correta é fazendeiro – existem mais fazendeiros do que bibliotecários no mundo. No entanto, muitos creem que João seria provavelmente um bibliotecário apenas porque ele se pareceria com um.

 

O efeito de ancoragem é ainda mais surpreendente. Ele sugere que o ser humano tende a escolher respostas que sejam próximas a valores ou informações sugeridos pela pergunta – ainda quando tais valores não tenham absolutamente nada a ver com a resposta. Num famoso experimento de Kahneman e Tversky, perguntava-se a um grupo qual o percentual de países africanos que participavam da ONU. Antes da resposta, girava-se uma roda com números que variavam entre um e cem, mas que estava “maceteada” para cair sempre no número 10 ou no número 65. Quando a roda parava de girar no número 10, os participantes respondiam que, na média, 25% dos países da ONU eram africanos. Quando a roda parava em 65, a média das respostas era de que os países africanos compunham 45% das Nações Unidas. Em outro experimento, pedia-se a dois grupos diferentes de estudantes do ensino médio para, em cinco segundos, estimar os resultados de (8 x 7 x 6 x 5 x 4 x 3 x 2 x 1) ou de (1 x 2 x 3 x 4 x 5 x 6 x 7 x 8). O primeiro grupo chutava números maiores (estimativa média de 2.250) do que o segundo (estimativa média de 512). A sugestão é que os estudantes tenham sido guiados por uma âncora mental associada aos primeiros números de sua respectiva sequência.5

 

Chegamos, por fim, à heurística da disponibilidade mencionada na introdução. Ela está associada à saliência de certos eventos na memória coletiva. Tal heurística afirma que as pessoas concluem a respeito da probabilidade de determinado evento com base na facilidade com que ocorrências dele podem ser lembradas. É por isso que, em geral, preocupa-se mais com furacões logo após haver-se passado por um; e é por isso que riscos mais recentes ou mais espetaculares são mais combatidos do que riscos mais triviais ou mais distantes no tempo. Piscinas domésticas são mais perigosas do que depósitos de lixo nuclear, mas o público em geral não parece acreditar nisso.6

 

Após essas pesquisas iniciais, uma nova área do conhecimento surgiu – a economia comportamental – e dezenas de heurísticas e de vieses cognitivos foram propostos e pesquisados. Alguns dos mais importantes incluem o viés de otimismo (as pessoas são irrealisticamente otimistas a respeito de suas capacidades e de seu grau de exposição a riscos; noivos eram perguntados sobre qual a média de casamentos que, naquele ano, terminariam em divórcio, e respondiam corretamente – 50% –, mas, quando perguntados sobre a probabilidade de seu próprio casamento acabar em divórcio, a média estatística era de incríveis zero por cento7); o viés de status quo (em geral, prefere-se manter opções já feitas); a aversão à perda (as pessoas possuem mais medo de perder do que ânsia de ganhar) e o chamado efeito da dotação (endowment effect; as pessoas valorizam mais bens que possuem do que bens idênticos que não possuem); e os efeitos da forma de apresentação da informação (a informação é mais persuasiva quando é clara e direta; quando se afirma que “pessoas parecidas a você” estão fazendo o mesmo; quando há elementos visuais de auxílio [cores, formatos etc.]; quando o conteúdo da informação é apresentado antes como um ganho potencial do que um risco potencial).8

 

Estudos clássicos explicam a estrutura cognitiva que gera tais desvios usando um modelo bipolar. É como se existissem dois sistemas de pensamento dentro de nós: um responsável pela intuição e por processos mentais automáticos; outro, responsável por processos conscientes, racionais, deliberados. Cabe ao sistema automático a maioria das tarefas cotidianas.9 Sua domesticação, pelo sistema consciente, leva tempo e requer esforço. As interações entre os sistemas é que geram os vieses.

 

A conclusão dessas pesquisas sugere modéstia quanto às nossas capacidades como agentes racionais: seres humanos, justamente porque humanos, são máquinas imperfeitas (se é que algum dia a metáfora mecanicista valeu algo).

 

III. UM EMPURRÃOZINHO NÃO DÓI

 

Mas podem tais “defeitos de fabricação” constituir as bases de políticas públicas? Há quem pense que sim. Saem as teorias políticas de base filosófica; saem discussões sobre democracia, equidade, integridade. Entram estudos empíricos sobre psicologia social. Bem-vindo ao mundo do empurrãozinho.

 

Empurrãozinho?

 

Os professores americanos Richard Thaler e Cass Sunstein escreveram artigo – “O paternalismo libertário não é um oximoro”, e, dado o sucesso, ampliaram-no para o que viria a ser um best-seller. No livro “Nudge – O empurrão para a escolha certa”, na tradução em português, sugerem que o poder público deveria agir como um “arquiteto de escolhas”. O governo deveria elaborar estruturas de escolhas que incrementassem o melhor interesse dos cidadãos. Tais estruturas de escolhas seriam justamente baseadas em heurísticas e vieses cognitivos. Se isso soa abstrato, considere os seguintes exemplos:

 

  • As pessoas consomem mais o que veem primeiro. Assim, uma estratégia para o combate à obesidade infantil poderia ser a da colocação de frutas ao alcance do olhar das crianças.

 

  • Considerando o viés do status quo, o poder público, mercê de estimular o incremento do sistema de previdência, poderia deixar opção pré-marcada a favor de contribuições para um plano em todos os contratos de trabalho. Caso o empregado não concorde com ela, bastaria desmarcá-la.

 

  • Ainda considerando o viés de status quo, a pré-opção em todos os documentos seria em favor da doação de órgãos em caso de acidente fatal.

 

  • Campanhas públicas a favor de certa conduta utilizar-se-iam de elementos visuais (cores e formatos), e referir-se-iam à prática de outros cidadãos (“tantas pessoas fizeram isso”).

 

Tais práticas seriam nudges – empurrõezinhos em favor de condutas. Na definição dos autores: “Um nudge é qualquer aspecto de uma arquitetura de escolha que altera o comportamento das pessoas de uma forma previsível sem vedar quaisquer opções ou alterar significativamente seu incentivo econômico.”10 Em termos práticos, os nudges usam, como técnicas básicas, os poderes da apresentação da informação e a força das opções default.

 

Thaler e Sunstein defendem a proposta com base em dois argumentos. Primeiro: realizar empurrõezinhos é algo inevitável. Sempre que há uma escolha a ser feita, existem opções – conscientes ou não – a respeito da forma como ela será apresentada. Segundo: não só o governo, mas também empresas constroem empurrõezinhos o tempo todo. Pense naquela vez em que você continuou assinando revista que não queria graças ao sistema de renovação automática. Empurrõezinhos seriam inevitáveis – e estariam em todo lugar.11

 

Mas quando haveria justificativa para o poder público arquitetar escolhas? Quando as pessoas estão diante de situações nas quais há alta probabilidade de que façam escolhas ruins. Quatro são os casos. (i) Quando há diferenças significativas de tempo entre os custos e os benefícios da escolha (ir para a academia versus comer um chocolate); (ii) Quando é difícil realizar escolha razoável por ausência de informação ou de capacidade de processamento daquele tipo de informação. Por exemplo: ao escolher entre dois produtos financeiros complexos, o cidadão médio não possui tempo, capacidade de reflexão ou acesso a todas as informações relevantes; (iii) Quando não há qualquer feedback a respeito das escolhas (daí não existir qualquer curva de aprendizado); (iv) Quando há pouca possibilidade de obtenção de informação via repetição da prática (é o caso de decisões centrais da vida, como casamento ou compra de imóveis).

 

Há um porém: mesmo nesses casos, o poder público só poderia efetuar o empurrãozinho quando o mercado privado, sozinho, não solucionasse tais problemas. Não é incomum. Garantias estendidas para celulares não fazem sentido econômico – os riscos são reduzidos vis-à-vis seu custo para algo que a maioria das pessoas troca em poucos anos. Mas não conte com o mercado para informá-lo disso.

 

É diante desse pano de fundo de escolhas equivocadas, agentes enviesados e inevitabilidade que Thaler e Sunstein dão ares teóricos à sua proposta. Chamam-na de paternalismo libertário. Há nela algo de paternalista, pois a arquitetura de escolhas visa, sim, induzir comportamentos. Mas também seria libertária, pois a possibilidade de escolha estaria sempre presente. Não seria um paternalismo puro. Seria um soft paternalism.

 

  1. ASCENSÃO E MODERAÇÃO DO NUDGE-STATE. SEIS CRÍTICAS

 

O livro fez barulho. Sunstein, professor de Harvard, aceitou o convite de seu ex-aluno Obama e foi para o cargo de administrador do Office of Regulatory and Information Affairs, órgão central fiscalizador das agências federais. Uma vez lá, colocou em prática suas ideias. Mudou o default dos contratos de trabalho: agora, o padrão americano é contribuir para um plano de previdência privada instituído pelo empregador. Alterou o padrão da “pirâmide alimentar” – um pôster do Departamento de Agricultura com as porções diárias recomendadas para uma refeição saudável. Antes, o pôster mostrava um boneco subindo uma escada, cuja base era constituída por uma pirâmide colorida com as porções de grãos, proteína, carboidratos. Agora, chama-se “My Plate”, e é um prato dividido em cores com os nomes dos tipos de alimentos. (Digite “USDA Food Pyramid” e “My Plate” no Google e compare você mesmo.) Desde então, e de modo geral, a economia comportamental ganhou ares de assunto do dia na academia e em círculos profissionais. Pipocam consultorias especializadas em arquitetura da escolha. Há blogs devotados ao assunto. Prêmios para os melhores nudges. Na semana anterior àquela em que este texto foi escrito, Sunstein, de volta a Harvard, lançou o Programa de Economia Comportamental da Faculdade de Direito.

 

Só que nem tudo são flores nesse mundo de empurrões paternalistas. Há quem critique a proposta. Pode-se resumir o conteúdo mais usual da crítica em seis grandes blocos, a seguir apenas brevemente relatados.

 

1 O paternalismo libertário é oportunista. O paternalismo libertário lida com os problemas de autocontrole e de deficiência cognitiva não com o propósito de neutralizá-los, mas para tirar proveito deles. É oportunista.

 

2 Há dúvida sobre a realidade das “escolhas” que estão sendo oferecidas. Talvez o elemento de “escolha” do paternalismo libertário seja apenas uma ilusão autojustificadora. Se 90% das pessoas escolhem a opção determinada pelo poder público, podemos realmente falar em escolhas livres?

 

3 Há um problema moral no fato de as pessoas não saberem que estão sendo influenciadas a fazer algo pelo governo. Por que, afinal, exige-se que infomerciais exponham subtítulos deixando claro sua natureza? (Resposta: por uma questão de transparência.) Pode-se alegar, inclusive, que expor tal informação possui qualidades morais. O poder público não estaria abusando da boa-fé dos cidadãos quando “desenha escolhas” (isto é, tenta influenciar seu comportamento) sem deixá-los informados a respeito disso? Será que o governo estaria tentando neutralizar as defesas naturais das pessoas contra anúncios publicitários e informação enviesada? Seria legítimo agir assim?

 

4 O paternalismo libertário vai contra a possibilidade de experimentação. Talvez fosse melhor que as pessoas fossem livres para aprender com o resultado de suas – boas ou más – práticas.

 

5 O paternalismo libertário troca os vieses individuais pelos vieses dos reguladores. Talvez o paternalismo libertário não leve em inteira consideração a possibilidade de falha de governo.

 

6 O risco do terreno escorregadio: o paternalismo libertário pode começar certo, mas então fornecer base para o abuso regulatório. Existem “graus” para se identificar um paternalismo libertário e um não libertário?

 

  1. UM TEMA EM ABERTO

 

O nudge como instrumento de política pública ainda é relativa novidade no Brasil. Não há, por exemplo, uma teoria brasileira da compatibilidade constitucional do empurrãozinho. Também a abordagem que propõe – de base empírica e focada em psicologia social – nos é estranha. Somos a república dos bacharéis, nem tanto da pesquisa transdisciplinar. Por outro lado, como também adoramos importar conceitos, talvez as tendências se cancelem e cheguemos a um meio-termo de ouro.

 

Apenas para indicar possíveis rumos do debate, seria interessante replicar as pesquisas realizadas no exterior no Brasil, para que se pudesse identificar alguma variância cultural, e, mesmo, verificar a efetividade das técnicas. Antes disso, no plano teórico e teórico-prático, é importante analisar se a proposta sobrevive, inócua ou adaptada, às críticas. Outra dúvida seria se nossa realidade rejeita o paternalismo não libertário como a sociedade americana o faz. Faz sentido falar num empurrãozinho à brasileira? Quais os vieses a se priorizar na nossa realidade?

 

Até realizamos estudos próprios, o assunto paira no ar como uma hipótese consistente. Como um meteoro no céu: até cair, é apenas uma possibilidade.

 

O autor é procurador do Estado no Rio de Janeiro e professor de Regulação da Universidade Gama Filho.

jose.vicente@terra.com.br

 

NOTAS DE RODAPÉ

 

  1. New York Times, edição nacional, 17 de fevereiro de 2013. “For Asteroid Hunters, Business is Looking Up.”
  2. O Globo, 1º de fevereiro de 2013. “Em quatro dias, Estado do Rio tem 127 casas irregulares interditadas.”
  3. GIGERENZER, Gerd; TOOD, Peter M.; ABC Research Group. Simple Heuristics That Make Us Smart. Oxford: Oxford University Press, 1999.
  4. O estudo clássico é TVERSKY, Amos; KAHNEMAN, Daniel. Judgment under uncertainty: Heuristics and Biases. In: Science, vol. 185, 1974.
  5. TVERSKY, Amos; KAHNEMAN, Daniel. Judgment under Uncertainty: Heuristics and Biases. In: Science, vol. 185, 1974.
  6. BREYER, Stephen. Breaking the Vicious Circle: Toward Effective Risk Regulation. Cambridge: Harvard University Press, 1993.
  7. Outro experimento clássico: pediu-se a estudantes de MBA que se colocassem num ranking diante de seus colegas de turma. O resultado é que ninguém se colocou em posições inferiores ao tercil superior.
  8. Uma taxonomia mais extensa de vieses pode ser encontrada em RABIN, Matthew. Psychology and Economics. Journal of Economic Literature. Vol. 36. N. 1. (1998). p. 11-46.
  9. GILBERT, Daniel. Thinking Lightly About Others: Automatic Components of the Social Inference Process. In: ULEMAN, James S.; BARGH, John (Eds.). Unintended Thought. New Jersey: Prentice-Hall, 1989. p. 189-211.
  10. THALER, Richard H.; SUNSTEIN, Cass R. Nudge: Improving Decisions about Health, Wealth, and Happiness. Nova York: Penguin, 2008, p. 6.
  11. Literalmente: os urinóis do aeroporto de Amsterdã possuem uma mosca pintada em seu interior. Seria um nudge para evitar o que alguns chamariam, inteiramente fora da teoria econômica, de spill-over effects.

 

 

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