Interseções analógicas: poesia e heráldica em Camilo Pessanha

Interseções analógicas: poesia e heráldica em Camilo Pessanha

Miguel Metelo de Seixas, historiador

 

Camilo Pessanha ocupa um lugar à parte na literatura portuguesa. Por motivos diversos e desiguais no que respeita à profundidade das causas: umas ligadas à rareza da sua obra poética – das poucas inseríveis na corrente simbolista – condensada num único livro, Clepsidra; outras derivadas da carga exótica do escritor imbuído de civilização chinesa, que viveu e produziu no clima insólito de Macau, onde morreu em meio a fumos de incenso (entre outros) e fama cultivada de escritor maldito. A sua poesia – densa, complexa, evocativa – manteve por isso até aos nossos dias um fascínio indiscernível da aura do autor.

A minha presente indagação acerca de Pessanha não partiu, contudo, da sua obra poética: derivou mais prosaicamente de uma visita ao cemitério de São Miguel, em Macau, onde jaz seu corpo em campa singela. A laje tumular apresenta uma figuração das armas do seu nome de família. Ao contemplá-la, formulei a pergunta: porque estão aquelas armas ali? Que relação haveria entre Camilo Pessanha e a heráldica? E foi ao tentar responder que me deparei com um tema cuja complexidade primeiro me intrigou, para depois me espantar e finalmente me maravilhar. Para essa viagem convido o leitor.

 

Comecemos com um pouco de heráldica pura e dura. Não obstante a ausência de colorido, a leitura das armas inscritas na pedra está ao alcance de qualquer heraldista: um campo de prata, uma banda dentelada de vermelho carregada de três flores-de-lis do campo; virol de prata e de vermelho; timbre, uma asa de vermelho carregada de uma flor-de-lis de prata. Tampouco se afigura difícil a sua identificação: são as armas dos Pessanhas, tal como se conhecem desde o século XIV, e vêm iluminadas, desenhadas ou descritas em armoriais, tratados heráldicos e nobiliários. O exemplar mais remoto das armas desta família de que tenhamos notícia em Portugal data de 1364 e consiste no selo de Lançarote Pessanha, almirante de Portugal (havia então apenas um almirante em todo o reino: para designá-lo, dizia-se simplesmente o almirante, por antonomásia). O selo de Lançarote Pessanha apresenta já uma banda dentelada carregada de três flores-de-lis. Estes Pessanhas eram de origem genovesa, não sendo claro se o nome original seria Pessagno ou Passano; as fontes portuguesas grafam o nome de formas variadas (Pessagno, Pezagno, Pizagno), só com o tempo estabilizadas em Pessanha e Passanha. Nas grandes compilações de armas da nobreza portuguesa, os armoriais mandados reunir pelos reis da Casa de Avis nos século XV e XVI, lá constam as armas destes Pessanhas, verdadeiramente belas na sua simplicidade hierática, de significado impenetrável.

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O chantre eborense Severim de Faria, querendo deslindar o mistério, fornece uma explicação curiosa: “Teem por armas, em campo de prata, huma banda sanguinha, com dentes de serra, pelo solar em Genova se chamar Penha ou Serra roxa, que em nossa linguagem é vermelha, com tres flôres de liz, de prata”. Não nos iludamos: este gênero de explicações deve ser entendido como um esforço de filologia imaginária. Sem desprimor para a erudição, por vezes crédula, do erudito chantre.

Mas a mera identificação das armas representadas na campa de Camilo Pessanha revela-se insuficiente, por si só, para compreender como foram elas ali parar. Procuremos averiguar as circunstâncias da feitura da lápide.

Camilo Pessanha morreu a 1º de Março de 1926, quando a tuberculose pulmonar ceifou o seu corpo debilitado por anos de fraqueza constante e imoderado consumo de ópio. O enterro foi simples, de acordo com a vontade expressa no testamento do defunto: nem música, nem coroas, nem acompanhamento religioso; a mortalha foi transportada num armão militar, coberto pela bandeira nacional, e desceu à terra entre os discursos da praxe. Esses, não logrou o poeta evitá-los.

A campa foi construída a mando de João Manuel de Almeida Pessanha, único filho do sepultado. Que razões terão influído na escolha de João Manuel? Para responder, talvez seja necessário voltar um pouco atrás, até ao enquadramento familiar do sepultado. Camilo Pessanha nasceu em 1867, filho natural de Francisco Antônio de Almeida Pessanha (ele próprio filho ilegítimo de José Benedito de Almeida Pessanha), então estudante de Direito em Coimbra, e de sua criada Maria do Espírito Santo Duarte Pereira. Pelo lado paterno, Camilo entroncava numa antiga linhagem transmontana, com acrisolada consciência da sua fidalguia; por via materna, tinha o poeta raízes populares beirãs. Esse desnível ficou patente no fato de Maria do Espírito Santo ter seguido sempre Francisco Antônio, desde os tempos de estudo em Coimbra até ao culminar da carreira de magistratura, pela vida fora e ao sabor das suas colocações, não, porém, como legítima mulher: apenas como criada e depois governanta. Isso não obstante ter sido mãe dos sucessivos e únicos filhos do magistrado, sempre perfilhados pelo próprio, o que prova a constância de uma relação afetuosa nunca transposta para a conformidade das convenções sociais. Logo à nascença, encontramos assim em Camilo o desequilíbrio entre origens nobres e humildes, entre vivências públicas e privadas, produtor de uma consciência de grandeza marcada pelo ferrete da bastardia.

Tal ambiguidade foi transmitida por Camilo Pessanha à sua descendência. O poeta não chegou a casar, mas adquiriu uma concubina chinesa, a qual recusou separar-se de uma filha que já tinha. Dessa concubina, com quem Camilo manteve uma relação difícil, nasceu em data incerta o seu único filho, João Manuel. Este, por sua vez, teve de Francisca Xavier de Sousa do Espírito Santo uma filha, chamada Maria Rosa dos Remédios do Espírito Santo, nascida em 1915 (ainda em vida do poeta, portanto). Após a morte da sua concubina, Camilo tomou por companheira Kuoc Ngan Ieng (Maria Ieng pelo batismo), filha da mesma. Esta sequência de filiações terá levado o poeta a comentar, com ácida ironia, que a ilegitimidade parecia hereditária na família.

No caso de João Manuel Pessanha, o peso da bastardia era acrescentado pelo da mestiçagem. A relação existente entre pai e filho estava longe de ser boa. Alguns biógrafos dão a entender que Camilo não confiava no comportamento da mãe de João Manuel e que nutria sérias dúvidas acerca da paternidade deste. Os relatos da época mostram sempre Camilo a tratar com extrema dureza, senão mesmo desprezo, aquele seu filho. Não será pois de estranhar que João Manuel tenha sentido necessidade de compensar a ilegitimidade e a falta de afeto do pai, recorrendo ao empolamento da nobreza da sua linhagem. Daí a escolha da campa armoriada, desprovida de referências sentimentais ou mesmo de alusões à condição literária, em que apenas avultam as armas dos Pessanhas, numa afirmação tão pomposa quão frágil.

Podemos, entretanto, indagar qual terá sido a fonte a que João Manuel recorreu para a figuração destas armas. A resposta é fácil: as armas da campa são diretamente copiadas da capa ou folha de rosto da Noticia Historica dos Almirantes Pessanhas e Sua Descendencia Dada no Anno de 1900, da autoria de José Benedito de Almeida Pessanha, primo coirmão de Camilo. Creio que tal livro desempenhou um papel até agora insuspeito na vida e obra do poeta. E, afinal, acompanhou-o também depois da morte. Sabe-se que Camilo possuía um exemplar desta obra, que lhe fora oferecida pelo autor, seu parente próximo e íntimo. Apesar de Camilo ter doado a sua livraria ao Estado Português, afigura-se natural que a Noticia Historica, dado o seu cunho familiar, tenha transitado para as mãos de João Manuel, e que este se tenha socorrido dela para a encomenda da laje armoriada com que quis ornamentar o sepulcro do pai.

Explicada, assim, a presença das armas na campa de Camilo Pessanha, mantém-se contudo uma questão subjacente: qual terá sido a relação do poeta com a heráldica? Não duvidemos que os seus primeiros contatos com este saber se tenham originado no âmbito familiar e pelo viés da genealogia. A esse respeito, as ligações familiares parecem ter desempenhado, para Camilo, um papel da maior importância, não só no seio do inusitado lar formado pelo pai e pela mãe, como na proximidade para com os irmãos (quatro ao todo) resultantes desta união, como ainda nas relações com a sua tia Maria Augusta (irmã do pai), com o seu primo direito José Benedito (filho desta) e com o seu primo afastado Alberto Osório de Castro e respectiva descendência (sobretudo a filha Ana, que Camilo chegou a pedir em casamento).

Pouco sabemos, é certo, do teor do convívio de Camilo com estes seus parentes, com exceção da relação de amizade com os primos Osórios de Castro, amplamente descrita e analisada por se ter revestido de carácter literário. Será porém de realçar um nítido sentimento de consciência de linhagem que perpassa pela correspondência trocada com José Benedito. Tal sentimento desenvolve-se sobretudo em redor do solar da família, a casa de Marmelos, junto a Mirandela, em Trás-os-Montes, da qual Camilo fala com apaixonada devoção e saudade. Foi aliás para Mirandela que Camilo obteve a sua primeira colocação oficial, como subdelegado do procurador régio, no ano de 1892; teve portanto ocasião para aprofundar os laços com esses seus parentes, e sentir como sua a casa histórica da sua família, então pertença de sua tia, a morgada D. Maria Augusta Pessanha. O seu grau de intimidade com seu primo José Benedito era de tal ordem que, numa carta de 25 de Outubro de 1905, Camilo considerava “desnecessário que me convidasses para ir passar convosco uma temporada: era esse o meu propósito desde Macau, se, porventura, e contra grande número de probabilidades, chegasse ao reino”.

A noção de pertença ao solar transmontano leva o poeta a afirmar, nessa mesma carta: “Parti de Macau sem esperanças de arribar a este torrão das minhas saudades, ao qual exclusivamente a minha alma pertence, como bem sabes… Os ossos mesquinhos, ai de mim!, esses pertencem, por um destino invencível e absurdo, ao chão antipático do exílio. Tantas vezes o tenho dito: quanto eu não desejaria vir a morrer aí, nessa velha e afetuosa casa de Marmelos, de caquexia como o D. Roberto!…” Para além da ideia de pertença e de identidade traduzida no desejo expresso de vir a morrer na casa de Marmelos, onde chegou a passar largas temporadas, existe neste trecho um resquício de lenda familiar, mesmo que seja um mero episódio anedótico do falecimento de um parente distante (cujas circunstâncias, não explicitadas nem por Camilo nem por José Benedito, permanecem alheias ao nosso conhecimento). Ora, essas lendas familiares funcionam como consciência de linhagem, cimentando as relações entre os membros de uma casa mediante referências a um passado comum, que os distingue de todas as restantes famílias. Acresce que Carolino Pessanha, pai de José Benedito, havia mandado construir um palacete no centro de Mirandela, na Praça do Município, dotando-o de uma pedra de armas de Pessanhas (cremos, portanto, semelhante à iluminura da capa e folha de rosto da obra de seu filho).

Tanto Camilo como o seu primo José Benedito partilhavam assim a consciência de linhagem, tanto mais aguda quanto, em ambos os casos, havia que compensar a ilegitimidade das filiações (no caso de Camilo, tanto pelo pai como pelo avô paterno; no caso de José Benedito, pelo avô paterno). A obra de José Benedito, dada à luz no ano de 1900, traduz de forma inequívoca esse desejo de exaltação da estirpe dos Pessanhas, realçando o prestígio dos primeiros membros da família implantados em Portugal, enaltecendo a importância do cargo de almirante do reino, vincando o entronque dos Pessanhas transmontanos nessa linhagem de almirantes, salientando os cargos, foros e carreiras dos ascendentes mais próximos, ilustrando as loas genealógicas com a singeleza hierática das suas vetustas armas.

Sabemos que José Benedito ofereceu a Camilo um exemplar deste seu trabalho. O poeta só veio a agradecê-lo cinco anos mais tarde, pois nesse mesmo ano de 1900 sofrera a perda da sua mãe, que o deixara muito abalado. Quando finalmente se recompôs, voltou a comunicar com seu primo: “Decerto suspeitaste da longa e dolorosa tragédia espiritual, cujo resultado fatal e final foi a lamentável ruína que há dois anos eu sou. Não terás, pois, estranhado que eu não te agradecesse a tua memória sobre os Pessanhas; e terás adivinhado que foi através de lágrimas que eu a li e li a dedicatória amorável do meu exemplar. O que eu apreciei esse teu trabalho paciente, antecipadamente o sabias pelas minhas vivas instâncias para que tu não desanimasses de o fazer, e para que o publicasses: eu tenho tão intensa como tu a devoção do passado, das almas mortas, de todas as coisas mortas e abandonadas”. Além da alusão às lágrimas com que leu o trabalho, percebe-se que havia entre Camilo e José Benedito conversas costumeiras acerca de temas genealógicos familiares, aos quais o poeta parece ter dedicado alguma atenção, encorajando as investigações do primo. Na devoção ao passado, ou a um passado comum, estavam pois irmanados os dois autores.

Outrossim, quando se refere a relação de Camilo com Alberto Osório de Castro (e seus descendentes), é habitual considerá-la sob o ângulo das relações literárias e de amizade. Mas convém lembrar que existiam também relações de parentesco e, sobretudo, que esse parentesco incluía a consciência de descenderem ambos de detentores da dignidade de almirante do reino, pois os Osórios de Castro provinham comprovadamente de D. Antônio Benedito de Castro, quarto conde de Resende e titular daquele prestigioso cargo áulico. Mais uma vez, embora os laços de parentesco não fossem tão próximos quanto os que uniam Camilo e José Benedito, também com Alberto Osório de Castro existia a comunhão de uma mitologia familiar, um passado glorioso entendido como próprio e idiossincrático.

 

Nutrida nestes devaneios nobiliárquicos, não espanta que a pena de Camilo Pessanha tenha desde cedo exprimido apetência pelos temas heráldicos. Após a chegada a Macau, ao relatar as suas primeiras impressões em carta dirigida ao pai, Camilo afirmava: “Ninguém na Europa imaginará o que é uma procissão portuguesa na China, o pálio com as armas de Portugal bordadas, embandeirados os fortes e dois pobres chavecos do porto, um exército de trezentos transmontanos, beirões e graves maratas bronzeados da Velha Goa”. Mesmo na sua observação da cultura chinesa, o olhar de Camilo era irresistivelmente atraído pelas imagens emblemáticas; assim, a primeira das oito elegias chinesas que traduziu, intitulada “Ascensão ao Mirante do Kiang”, começa deste modo:

 

“Este altíssimo torreão abandonado foi outrora célebre

Aqui plantou seus estandartes, ornados de dragões, o fundador da dinastia Han.”

 

O fascínio pela emblemática chinesa está patente no fato de Camilo Pessanha ter escolhido para seu ex-líbris um carimbo quadrangular, a tinta vermelha, com caracteres chineses arcaicos que significam “Selo da antiga biblioteca ‘Ramos entrelaçados de ameixoeira’ de Pui-sane-Ngá” (representação fonética de Pessanha), conforme descoberta de Danilo Barreiros.

Esta mesma atenção pelas figurações heráldicas transparece num dos primeiros poemas escritos por Camilo e mais tarde inseridos em Clepsidra, intitulado “Castelo de Óbidos” (originalmente, tinha por título “Quando?”), vila onde exerceu o seu ofício entre a colocação de Mirandela e de Macau:

 

“Quando se erguerão as seteiras

Outra vez, do castelo em ruína,

E haverá gritos e bandeiras

Na fria aragem matutina?

 

Se ouvirá tocar a rebate

Sobre a planície abandonada?

E sairemos ao combate

De cota e elmo e a longa espada?

 

Quando iremos, tristes e sérios,

Nas prolixas e vãs contendas,

Soltando juras, impropérios,

Pelas divisas e legendas?

 

E voltaremos, os antigos,

E puríssimos lidadores,

(Quantos trabalhos e perigos!)

Quase mortos e vencedores?

 

E quando, ó Doce Infanta Real,

Nos sorrirás do belveder?

– Magra figura de vitral,

Por quem nós fomos combater…”

 

É notório o fascínio de Pessanha pelas “imagens guerreiras, sugerindo a força, a energia e a coragem” (como assinala Christine Pâris-Montech) numa evocação ansiosa de um passado revoluto. A poesia de Camilo Pessanha é atravessada por imagens colhidas no imaginário heráldico: em “Depois da luta e depois da conquista”, surge um “leão armado, uma espada nos dentes”; ao passo que no poema “Porque o melhor, enfim” se evocam “choques de armaduras/E tinidos de espadas”. Pessanha insere-se pois no movimento de contestação do “estado de torpor resignado” que se sentia em Portugal na geração dos “Vencidos da Vida”, participando no desejo e esforço de renovação da consciência nacional. O passado glorioso era invocado como modelo moral para a regeneração da nação.

Deve porém notar-se uma clara orientação do poeta, ao fio dos anos, para considerar com reserva esses alentos juvenis; a desilusão transmuta o entusiasmo em ironia. No término do processo que o levou a publicar o seu único livro de poemas, Clepsidra, Camilo elegeu a seguinte “inscrição” para abertura:

 

“Eu vi a luz em um país perdido.

A minha alma é lânguida e inerme.

Oh! Quem pudesse deslizar sem ruído!

No chão sumir-se, como faz um verme…”

 

Reparemos no primeiro verso, e no ideário de saudade desesperada, de remissão para uma origem longínqua cujo fulgor se perdeu entretanto, deixando de estar ao alcance. O “país longínquo” pode ser entendido como a terra natal, certamente, mas também como o conjunto de sonhos de grandeza e de virtude que lhe estão associados. Nesse sentido se compreenderá que o primeiro dos poemas da Clepsidra, logo a seguir à inscrição inicial, seja o soneto em que o poeta descreve o seu brasão:

 

“Tatuagens complicadas do meu peito:

– Trophéos, emblemas, dois leões aládos…

Mais, entre corações engrinaldados,

Um enorme, soberbo, amor perfeito…

 

E o meu brazão… Tem de oiro n’um quartel

Vermelho, um lys; tem no outro uma donzella,

Em campo de azul, de prata o corpo, aquella

Que é no meu braço como que um broquel.

 

Timbre: rompante, a megalomania…

Divisa: um ai, – que insiste noite e dia

Lembrando ruinas, sepulturas rasas…

 

Entre castellos serpes batalhantes,

E aguias de negro, desfraldando as azas,

Que realça de oiro um colar de besantes!”

 

Os estudiosos da poesia de Pessanha apontam a importância deste soneto, pois ele abre – diríamos quase: explica – o teor do livro, fornecendo à partida um retrato moral e psicológico do autor, transmitido pelo seu brasão imaginário. Antes de nos aventurarmos na interpretação do brasão, vejamos onde terá Camilo colhido inspiração para as figuras heráldicas nomeadas no poema. Para além das designações genéricas de troféus, emblemas e brasão, o poeta refere dois leões alados, uma flor-de-lis num campo de vermelho, uma donzela de prata em campo de azul, castelos, serpes batalhantes, águias de negro carregadas de besantes de ouro. Ora, creio que todas estas figuras provêm de brasões existentes, conhecidos pelo autor e intimamente relacionados com ele. Com efeito:

– O campo de vermelho carregado de uma flor-de-lis inspira-se diretamente na figura central das armas dos Pessanhas, tendo ainda a vantagem de ser um tradicional símbolo da pureza (e como tal, atributo da Virgem). Para além de ter estas armas presentes pela folha de rosto da Noticia Histórica dos Almirantes Pessanhas, Camilo conhecia forçosamente as pedras de armas familiares, quer da casa de Marmelos, quer do palacete de Mirandela, quer porventura do monumento fúnebre erigido à memória de Carolino Pessanha (pai de José Benedito, autor da Noticia…), todas elas com as armas plenas de Pessanhas;

– A donzela de prata, bem como as imagens dos dois leões alados e das serpes batalhantes, inspiram-se no brasão da cidade de Coimbra, de onde Camilo era natural e onde morou na sua juventude, tendo aí obtido o seu grau acadêmico. Para além da escolha radicar em motivos biográficos bem compreensíveis, Camilo pode ter optado pela referência à donzela de prata e aos leões e serpes batalhantes pelo seu valor simbólico. Na verdade, o brasão de Coimbra foi amplamente estudado na época em que Camilo se formou, e nos anos subsequentes; diversos estudiosos (como Antônio Maria Seabra de Albuquerque e Augusto Simões de Castro) chamaram a atenção para a dimensão simbólica ou mesmo esotérica destas armas, o que não deixaria de exercer fascínio sobre o poeta simbolista, estando a atração de Camilo pela dimensão esotérica outrossim em consonância com sua filiação maçônica.

– A torre provém das armas da família Morais, sobrenome tradicionalmente usado, segundo refere José Benedito, pelos ascendentes de Camilo desde o casamento de Francisco Pessanha Vilhegas com D. Joana de Sá Morais, do lugar de Arcas. O filho primogênito deste casamento chamou-se Leandro de Sá Morais e foi o primeiro administrador do vínculo da capela de São Caetano, em Arcas, criado por seu avô materno Antônio de Sá Morais. É possível que a herança deste vínculo obrigasse ao uso de nome e armas de Morais, o que explicaria a continuidade deste sobrenome na linhagem;

– A águia de negro carregada de besantes de ouro representa o timbre das armas da família Almeida. Trata-se de um sobrenome usado pelos ascendentes de Camilo desde o século XVIII e que o poeta carregava no seu nome oficial, tendo-o transmitido ao seu filho e à respectiva descendência. A introdução desse sobrenome data do casamento de Francisco de Lobão Morais Pessanha (irmão de Leandro de Sá Morais, citado supra) com D. Isabel de Almeida, também de Arcas. O filho primogênito deste casamento chamou-se Francisco José de Sá de Almeida Morais Pessanha e, além de administrar o vínculo de São Caetano, beneficiou também de outro instituído por seu tio materno Antônio de Sá de Almeida. Mais uma vez, é possível que a administração deste novo vínculo estivesse ligada à obrigação de uso de nome e armas, assim se explicando a permanência do sobrenome Almeida. O solar dos viscondes de Arcas, no concelho de Macedo de Cavaleiros, não longe de Mirandela e da casa de Marmelos, e que Camilo Pessanha deveria conhecer, ostenta o escudo de Almeidas no segundo quartel da sua pedra de armas.

– Por fim, retornemos às serpes batalhantes. Além de se terem eventualmente inspirado nas armas de Coimbra (em que se afrontam um leão e uma serpe alada), estes seres fantásticos figuravam, tal como o autor os nomeia, como motivo gráfico da capa e da folha de rosto da obra genealógica do seu primo José Benedito.

Assim, o brasão imaginário de Camilo Pessanha é composto de esmaltes e figuras inspirados nas armas de família da sua linhagem, nas da cidade de Coimbra e em elementos heráldicos decorativos retirados da Noticia Historica. Num primeiro nível de análise, as alusões heráldicas do soneto têm pois um valor de cariz genealógico e biográfico. Mas é óbvio que o brasão criado pelo poeta não se limita a reproduzir de forma gratuita tais figuras: elas são decompostas e amalgamadas num novo ordenamento, dotado de valor simbólico.

Convém assinalar, antes de mais, que a colocação deste soneto no início da Clepsidra pode ser entendido como uma declaração de intenções por parte do poeta. Assim se deverá compreender o primeiro verso, um dos poucos que, na poética de Pessanha, começa com um substantivo: “Tatuagens complicadas do meu peito” revela que as figuras heráldicas, de interpretação complexa, inacessíveis para aquele que não dispuser das ferramentas adequadas para as decifrar, se encontram entranhadas na pele, inserindo-se no peito, ou seja, no coração do poeta. Note-se que Pessanha não diz “no meu peito”, mas sim “do meu peito”: os emblemas não são exteriores, decorativos, mas interiores; o poeta apresta-se a revelar o âmago do seu ser.

Entramos portanto numa “representação hieroglífica do poeta”, não tanto “no sentido de apontar para sentidos ocultos, como no de fazer aparecer no poema um ‘eu’ cuja configuração e natureza são originariamente gráficas […] como se as imagens tatuadas resistissem à decifração e à descrição discursiva” (Gustavo Rubim). Desta forma, o poema não constitui uma mera alusão simbólica a uma realidade que se quer representar através de figuras alegóricas; pelo contrário, a escrita do poema é entendida como uma transposição de imagens que formam a própria identidade gráfica ou emblemática do corpo do poeta: não do seu corpo pessoal, mas do seu corpo figurativo. Ao realizar esta projeção, “a figuração do poeta convertida em representação de representações evoca direta ou indiretamente a tradição do poema emblemático e permite ao soneto de Pessanha a disponibilidade para ganhar a dimensão de uma nova poética do emblema ou, pelo menos, de uma poética que revaloriza uma concepção emblemática da poesia” (novamente Rubim). Tal concepção não é apenas válida para este soneto, ela abrange toda a obra de Pessanha; na verdade, ao escolher este poema para abrir a sua colectânea, o autor está a fornecer ao leitor a chave com que deve ser entendida toda a sua poética.

Para compreender esta dimensão, vejamos o exemplo das cores. Já foi feita a análise da importância das imagens cromáticas na obra de Pessanha: assim, por exemplo, o branco representa as noções de infinito, de deserto, de pureza, de dor, podendo estabelecer-se simbolismos semelhantes para os restantes cromatismos. Há que notar, entretanto, que a poética de Pessanha não se alimenta de variações cromáticas, o que é bastante curioso. Apenas estão presentes cores essenciais, sem qualquer indicação de matizes. Vejamos o conjunto de referências a cores na poesia de Camilo Pessanha (Quadro 1).

E, notemo-lo agora, as cores de Pessanha não só se limitam a cores “puras”, isto é, não adjetivadas (A única exceção poderia ser a expressão “cor-de-rosa viva”; pensamos porém que o adjectivo viva se reporta somente a rosa, com cujo gênero concorda, e não a cor-de-rosa), como correspondem também aos escassos esmaltes heráldicos: os dois metais: prata (branco) e ouro (amarelo); e quatro das cinco cores: vermelho, azul, verde, negro e púrpura (roxo). Figura por fim a carnação, isto é, o tom de pele (cor-de-rosa), também admitido e presente na armaria.

Tal como na heráldica clássica, verifica-se na poesia de Pessanha um marcado predomínio dos metais (prata e ouro) com relação às cores (Quadros 2 e 3). Notemos que, do rol dos esmaltes, há dois que desempenham um papel peculiar na poética de Pessanha, pois são os únicos a constituir o título de um poema: Branco e Vermelho. Eles correspondem ao metal e cor das armas dos Pessanhas, para além de serem a bicromia mais recorrente na heráldica medieval europeia.

Numa poesia tão amplamente emblemática ou, se quisermos, visual, esta limitação cromática pode espantar à partida. Nesse sentido, já foi notado que “O valor das cores em Pessanha é quase sempre mais emblemático, simbólico, do que decorativo: a associação exerce-se neste aspecto como em tantos outros. São as cores lisas do brasão, cores heráldicas, mortas; é o amarelo no tope do navio – cor convencional da maldição que lança o código aos barcos empestados:

 

‘Ou siga, maldito,

Co’a bandeira amarela…’

E o roxo, símbolo do martírio, nos pés lacerados do caminhante:

‘Meus pobres pés dorir,

Já roxos dos espinhos’”.

(Esther de Lemos)

 

De igual forma, no Poema Final, o vermelho remete para expectorações de sangue, aludindo à doença e à morte que se encaminha; ao passo que o azul aparece em fulgurações que lembram experiências alucinogênias. Mas verdadeiramente característico da poesia de Pessanha é o fato de as cores não se limitarem a este aspecto simbólico, mas antes valerem como dimensão abstrata. Daí a limitação do seu número e a falta de adjetivação: não são cores concretas, mas sim valores cromáticos abstratos, criados com a intenção de provocar uma sugestão analógica na mente do leitor. O mesmo Poema Final, com que Pessanha quis encerrar Clepsidra, declara-o expressamente:

 

“Ó cores virtuais que jazeis subterrâneas

– Fulgurações azuis, vermelhos de hemoptise,

Represados clarões, cromáticas vesânias –,

No limbo onde esperais a luz que vos batize,As pálpebras cerrai, ansiosas não veleis.”

 

Assim, mais importante do que a sua dimensão simbólica é a caracterização das cores como “virtuais”: elas jazem subterrâneas num limbo, à espera de uma “luz” que lhes dê vida. Essa luz é, forçosamente, a leitura, interpretação, imagem própria que o leitor fará delas. São pois cores abstratas, que lançam um apelo analógico à mente do leitor/ouvinte.

Os esmaltes heráldicos possuem, obviamente, um valor quer descritivo, quer simbólico; porém a essência da cor heráldica não reside nem num, nem noutro. Com efeito, aquilo que os esmaltes heráldicos apresentam como característica própria e singular é o fato de serem cores abstratas. Assim, quando se descrevem umas determinadas armas dizendo que têm um campo de vermelho, não se está a aludir a nenhuma cor concreta (muito menos a um matiz), nem a fazer referência ao seu possível simbolismo; mas a referir um valor abstrato, perene, evocatório. Desta forma, o brasão daquelas determinadas armas terá sempre um campo de vermelho, quaisquer que sejam as figurações concretas dessas armas (e as variações na representação da respectiva cor) e quaisquer que sejam as interpretações simbólicas que lhe forem conferidas ao longo dos tempos. A heráldica criou assim a noção de cor abstrata, não descritiva nem simbólica, mas evocativa. Ao cristalizar uma descrição na imutabilidade dos seus termos heráldicos (ou seja, no brasão), a heráldica tornou-se responsável pela construção de uma noção de abstração, pois a figura heráldica deixa de depender da sua representação concreta.

Mais ainda: ao permitir a coexistência de um brasão teórico e de uma infinitude de representações, a heráldica estabeleceu uma relação como até então não existia entre a linguagem escrita, conceptual, e a linguagem gráfica, representativa. Cada emblema heráldico existe forçosamente no campo abstrato, que é a sua essência, e nas suas manifestações concretas, que por assim dizer ativam a sua aplicação. Desse fato proveio o valor literário da linguagem heráldica, já presente nos romances do século XIII; mais tarde, pela mesma lógica, a emblemática tão em voga no final da Idade Média e ao longo da Idade Moderna retomou, em termos semióticos, este princípio posto em prática pela heráldica.

Tal como incorporou a noção de cor heráldica ou abstrata, Camilo Pessanha apropriou-se também da linguagem e gramática peculiares da heráldica, ou seja, daquilo a que tecnicamente se chama o brasão. Como vimos, o poeta integrou na sua obra, em primeiro lugar, diversas figuras e termos heráldicos, como as designações genéricas de troféus; emblemas; brasão; ou os elementos específicos quartel vermelho; lis; campo de azul; de prata o corpo; broquel; timbre; rompante; entre castelos; serpes batalhantes; águias de negro; asas de oiro; colar de besantes. Mas, além dessa apropriação circunstancial de mero vocabulário, Camilo moldou a sua linguagem poética às normas gramaticais próprias do brasão. Observe-se, por exemplo, o verso “De silva doida uma haste esquiva” do poema Desce em folhedos tenros a colina, que se assemelha a um ordenamento heráldico. Ou, nos três primeiros versos de Vermelho e Branco, o mais “heráldico” dos poemas não incluídos na Clepsidra:

 

“A dor, forte e imprevista,

Ferindo-me, imprevista,

De branca e de imprevista”

 

Assim, Pessanha recorria amiúde à desarticulação sintática, à alteração da ordem das palavras típica da linguagem heráldica. Esta característica já foi apontada como “aparentemente ligada ao gosto da época” (Barbara Spaggiari). Creio, contudo, que ela significa mais.

Para Camilo Pessanha, segundo esta mesma autora, “a dimensão metafísica do universo é recuperada através da poesia, à qual é requerida a função de decifrar o mistério da existência. Esta missão de gnose é confiada às forças irracionais do homem, exaltando a intuição, a associação, a analogia, e descobrindo a magia do órfico, do esotérico e do inefável”. As palavras devem “sugerir e não descrever a realidade”. Ora, para esse efeito, Camilo procura uma linguagem peculiar, que se distinga do uso comum e por isso funcione como veículo de associação e de abstração, com o objetivo de “subtrair a escrita à concepção que a encerra nos limites de um sistema convencional de signos” (Gustavo Rubim).

Esta linguagem não convencional e sugestiva foi a da heráldica. O brasão permite sintetizar em palavras, fixando-a, uma realidade variável, mutante e, em si mesma, inefável. O brasão é um criptograma de valor evocativo, que reenvia, em última instância, para uma realidade dupla e inacessível porque abstrata: a essência das armas e o conjunto de instrumentos teóricos usados como código para descrever (apreender) essa realidade e transmiti-la. Contraponhamos o verso inicial da Clepsidra com outro colhido no poema final deste livro:

 

“Tatuagens complicadas do meu peito”

“Ó cores virtuais que jazeis subterrâneas”

 

Pessanha anuncia, no primeiro, que descreverá as figuras que definem a sua essência (o que fará mediante recurso ao seu brasão imaginário ou, mais genericamente, ao código do brasão); e, no fim da obra, volta a advertir o leitor de que falou por imagens, recorrendo às tais cores virtuais – ou seja, heráldicas.

Nesse sentido, a heráldica desempenha na obra de Camilo Pessanha um papel semelhante ao do exotismo pois, como refere Sara de Almeida Leite, “exotismo e sugestão têm em comum a faculdade, ou pressupõem o desejo, por parte do artista, de veicular a ideia de um espaço, de uma realidade, de uma situação, que se definam, paradoxalmente, numa dimensão ideal em que conhecido/desconhecido se fundem misteriosamente”. Desta forma, “a sugestão e o exotismo convergem assim para uma intenção comum: a de apresentar uma visão interior, uma experiência subjetiva, que através de uma linguagem particular consiga insinuar-se de tal modo na mente do leitor que este se sinta partilhar dessa experiência como se a tivesse vivido”.

A poesia é em si um processo semiótico, “Mas os signos da poesia (sinédoque) são de valor duplo ou duplo sentido, remetendo para um processo de interpretação. Pelo que os signos deixam de ser mera sinédoque (de pars pro toto) para se transformar em metonímia”, para perscrutar “a natureza íntima das coisas”, “tornar visível o invisível” (Gustavo Rubim). Cria-se assim uma estrutura em abismo, generalizada e ilimitada, que nunca se esgota na intenção de produzir ou determinar um sentido. O símbolo vale não já por remeter para uma segunda realidade, mas pelo seu poder evocativo. Compreende-se que essa capacidade de evocação ou sugestão seja essencial, pois a poética de Pessanha centra-se precisamente na tentativa de captação do inefável, haurido em seus vértices transitórios.

Por isso, a poesia de Camilo Pessanha já foi definida como “poesia emblemática”. Mas num emblema, figuras e palavras escritas completam-se mutuamente, dependendo umas das outras para veicular ao leitor/observador uma determinada mensagem simbólica. Na heráldica, ao invés, a figura e o texto escrito podem ser totalmente independentes, existindo entre eles uma relação de abstração: a figura representa um texto original cujo significado direto ou simbólico, por sua vez, não é evidente ou pode mesmo não existir. Nesse sentido, a heráldica não é apenas simbólica, mas verdadeiramente abstrata.

Por isso, a heráldica assume em Pessanha um carácter nuclear: o fenômeno da heráldica assemelha-se ao fenômeno da poesia. Verifica-se uma similitude de procedimentos de representação através de uma linguagem cujos signos não são necessariamente dotados de sentido, ou cujo sentido é múltiplo ou inacessível (porque essencialmente indizível). Para o poeta, essa é a única forma de chegar ao âmago da realidade, para lá das convenções de representação e de escrita. De atingir o brasão para lá das suas representações.

Nesta deambulação pelas armas de Camilo Pessanha, deparamo-nos assim com dois conceitos diferentes de heráldica. O primeiro conota-a como código representativo de identificação e valor social. Nesse âmbito se inscreve a campa, cujas armas são da responsabilidade do filho do poeta. Aí jaz o corpo pessoal, físico e perecível, de Camilo Pessanha. O segundo constitui um sistema de captação e representação da realidade mediante a capacidade de abstração e de sugestão; de interseções analógicas. Aí reside o corpo figurado, cuja perenidade se vê assegurada pelo poema. Esse é, quanto a mim, o brasão de Camilo Pessanha.

 

O autor é professor da Universidade Lusíada de Lisboa e investigador do Centro de História de Além-Mar da Universidade Nova de Lisboa.

miguelmeteloseixas@gmail.com

 

 

 

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