Invasões bárbaras (e consentidas)

Invasões bárbaras (e consentidas)

Deonísio da Silva, Escritor

 

Em 1993 ainda era possível surpreender-se. A bela e gostosa Sharon Stone, com as imagens ainda frescas na memória de todos do extraordinário cruzar de pernas sem calcinhas no filme anterior, “Instinto selvagem”, era vigiada por câmeras ubíquas, instaladas por William Baldwin em todo o prédio de luxo onde ambos moravam (ele, o dono; ela, inquilina), cada qual em seu apartamento, mas que diferença fazia para o espião? Como um deus que tudo vê, pior do que o triângulo ameaçador, com um olho no ângulo superior, quase sempre posto ao lado do crucifixo nos seminários onde estudaram tantos, ele vigiava tudo. Em vez de “Deus me vê”, “O vizinho me vê”. Sexo, repressão e bisbilhotagem. Sharon Stone chorando durante um orgasmo é coisa de nunca mais se esquecer, cala-te, boca! Um detalhe curioso: Baldwin pediu para excluir a cena em que ele fazia um nu frontal. Mas hoje as locadoras apresentam uma versão sem cortes, com diversas cenas que foram cortadas da telona, mas alto lá! O pudor americano, de ethos protestante, não causa escândalos nem em jardins da infância e educandários para pequerruchos brasileiros.

Nesses trópicos, seguindo Freud sem querer, a vida sexual começa cedo, em parte pelo clima, depois pela praia e antes de tudo pelos costumes paradoxais de um país que nasceu sob o signo da Contrarreforma, com ampla hegemonia do Concílio de Trento, mas com padres e demais colonizadores cercados de índios pelados por todos os lados na Ilha de Vera Cruz. Nem mesmo depois de mudado o nome para Santa Cruz ou Brasil, a repressão triunfou. Ao contrário, os franceses perderam a invasão de Portugal, mas, logo após a queda de Napoleão, para cá vieram com tudo, principalmente com costumes mais avançados do que aqueles vazados pelos padrões da época no século XIX!

O roteiro é de Joe Eszterhas. As ações se passam em Manhatan, o celebérrimo território de Nova York. A bela se envolve com a fera, e é desejada também por outro vizinho, Tom Berenguer, um furioso em estado bruto, suspeito número um dos assassinatos que ali ocorrem, escritor complicado e misterioso, com ideias sinistras.  “Invasão de privacidade”, adaptado do nome original, “Sliver”, logo estava disponível nas locadoras de vídeo, mas a censura nas salas prescrevia 18 anos, ave!

Repressão a gente empacota e vende, devem pensar os produtores. Phillip Noyce, o diretor, deve ter agradado à Paramount, que ganhou um bom dinheiro com aquele filme, ao mesmo tempo comercial e artisticamente muito bem cuidado, com trilha sonora de clássicos da música eletrônica, com destaque para os da banda de roque industrial Young Gods. Sucesso mundial, arrecadou 116 milhões de dólares, uma fortuna para a época.

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O cinema, o vídeo e a televisão devem muito à literatura. “Invasão de privacidade” retoma em verdade o clássico personagem de George Orwell, Big Brother, figura solar do romance “1984”, publicado em 1948! A frase Big Brother is watching you, assim ambígua, pode significar que o Grande Irmão cuida de ti e também o Grande Irmão te vigia.

Mas se antes todos temiam o Big Brother, agora as coisas parecem de ponta-cabeça. Milhões de pessoas buscam olhar – melhor ainda se forem olhadas – os outros, vigiá-los, acompanhar cada pedaço do dia de suas vidas, com câmeras que por enquanto, mas só por enquanto, excluem o banheiro, ainda que, naturalmente, não o chuveiro.

A prova dos nove? Os milhões de telespectadores do programa homônimo da TV Globo, logo imitado por outras emissoras com nomes diferentes, mas sempre com o propósito solar do Big Brother original e do filme “Invasão de privacidade”: o voyeurismo. Voyeurs e voyeuses – sim, as mulheres também são multidões no prazer de espiar a vida alheia e talvez tenham antecedido os homens nesse particular.

Vivemos hoje na mídia, ao lado dessa patologia, uma outra de proporções igualmente alarmantes, a da confissão. A mídia, principalmente a televisão e a internet, transformou-se em um gigantesco confessionário.

A peça de madeira que hoje ainda vemos em igrejas e catedrais inclui uma treliça de madeira – talvez o conceito mais próximo do inglês “Sliver”, título original de “Invasão de privacidade”, cujo significado é lasca, tira. Inventado na Idade Média por engenhoso carpinteiro, a pedido de autoridade eclesiástica superior, tinha o fim de evitar que ao confessar-se a pecadora, mesmo sinceramente arrependida dos pecados, principalmente daqueles contra a castidade, se agarrasse ao confessor e daqueles abraços de mútuo conforto entre penitente e confessor nascessem pecados ainda maiores do que aqueles que estavam sendo relatados. A treliça deixava passar a voz, não a imagem dos pecadores que, ajoelhados e contritos, aguardavam a penitência e a absolvição, prometendo nunca mais pecar! Voltavam a pecar, naturalmente, do contrário a próxima safra da igreja ia para as cucuias, mas os ritos não dispensavam três coisas: a confissão, o arrependimento e a promessa de não fazer mais aquilo!

Agora é tudo sem treliça. E se o sujeito quiser o descruzar de pernas sem calcinhas e muito mais, raramente com a elegância da primeira descruzada da diva, agora já caminhando para o acaso da sua estonteante beleza, as ferramentas – não é assim que são chamadas? – estão à disposição na rede.

Há celebridades instantâneas e explícitas, querendo mesmo se mostrar para vender os corpos, como garotas de programas e ofícios de domínio conexo, que há poucos anos se anunciavam como cachorras, potrancas e gatas – afinal temos um passado agropecuário glorioso, um presente igualmente abundante e um futuro promissor para quem põe tudo à venda – e também as implícitas, como aquelas pessoas que vão aos programas de televisão protagonizar os mais escandalosos barracos.

Você troca de canal? Nem eu! São imperdíveis retratos de nossa modernidade. Logo após um suado pastor subir o monte não sei das quantas com um volume enorme às costas, cujo título é “Livro da Vida”, vem outro anunciar as tribulações anunciadas por profetas furiosos. Aliás, eles adoram a palavra “tribulação” e se fixam no Antigo Testamento, pois o Novo é muito suave para o que objetivam. É preciso ameaçar o povo, não libertá-lo!

Depois disso, nas altas horas principalmente, vem o resto, aquilo que não pôde ser proclamado nos programas matutinos e vespertinos, em meio a receitas culinárias e conselhos matrimoniais. Que vemos, então? Nos mais contidos, muitas lingeries. Nos mais explícitos, nenhuma! Mas o que querem elas e eles? Querem apenas rosetar? Não! Agora todos querem se mostrar! E há olhos por todos os cantos, vendo tudo, à frente de ouvidos, que tudo ouvem.

E o cérebro, propriamente? Bem, parodiando Cesare Pavese, o escritor italiano de “Lavorare estanca” (“Trabalhar cansa”) que, cansado de combater o fascismo, que o pôs atrás das grades, se suicidou em Turim aos 42 anos, inconformado e desesperado com os rumos de seu país no após-guerra, pensar também cansa! Bom mesmo é olhar! E olhar sem que o outro te veja, eis a chave do sucesso dessas permitidas invasões de privacidade.

A porta está aberta. Entre e olhe. Você não será visto! A impunidade está garantida. Será? Já se instalam câmeras em televisores para que sejam avaliadas as reações dos telespectadores. Na maioria deles as reações são as mesmas de uma alface ou de um repolho. Enquanto isso, na mesma sociedade que parece tudo vigiar, como mostram as multas de trânsito, inumeráveis crimes continuam sem solução, ao contrário do que ocorria em “Invasão de privacidade”. (xx)

 

Os exibicionistas e narcisistas se

afirmam na internet, na TV, em todos

os lugares onde podem fazer isso

Freud, o pai da psicanálise – mas registremos que a Literatura, a Dramaturgia e Outras Artes chegaram ao inconsciente antes de Freud! – ficava chateado quando seus críticos diziam que os psicanalistas interpretam arbitrariamente as falas do paciente, sempre de modo a confirmar teorias preconcebidas. Ele usa em seus escritos o verbo alemão bejahen, consentir, aprovar, concordar, afirmar, em conjunto verneinen, negar.

Talvez tenhamos que recorrer a olhares mais perspicazes para entendermos tamanha exibição e narcisismo nos dias que correm. Algumas referências solares mudaram nosso modo de ver a nós mesmos e ao mundo, até então um olhar hesitante entre a Terra e o Céu, que no fim explicava tudo. Era a luta do Bem contra o Mal. A felicidade estava no alto, no Céu. A infelicidade estava em baixo, na Terra. E certamente bem além das camadas do pré-sal, ainda não conhecidas, ficavam os Infernos, para onde, depois de viver num vale de lágrimas, iríamos arder por toda a eternidade num fogo inextinguível.

Assim como a Igreja, Freud deu muita atenção aos fundamentos da família, por ele descritos como um repertório de patologias. O pai, e principalmente a mãe, enchiam de traumas e doenças psíquicas os seus filhos, depois de seus pais terem feito o mesmo com eles. Os filhos, uma vez mais, iam repetindo o esquema. Naturalmente a escola ajudava a família a afundar o indivíduo, como muito mais tarde dois autores demonstrariam num livro clássico. Jean-Claude Passeron e Pierre Bourdieu nem eram psicanalistas, eram sociólogos, quando publicaram “La Reproduction: élements por une théorie de l’énseignement”. Os conceitos ali desposados sobre escolas e professores deviam muito a Michel Foucault de “L´ordre du discurs”.

Mas, se Freud explica muitos exibicionistas pelo mundo afora, apesar de Santo Agostinho ter assegurado que um rosto irado não é latino nem grego, alguns exibicionismos são, como a jabuticaba, exclusivamente brasileiros. Sim, no fim a condição humana é a mesma em qualquer espaço e tempo, mas é que no Brasil ganha uma curiosa cor local.

Vamos a alguns exemplos. Em que outro país temos mulher-pera, mulher-melancia, mulher-morango, mulher-uva etc.? Depois de terem arrasado com a pecuária e a veterinária – já foram potrancas, cavalas, galinhas, vacas, peixões etc. – as metáforas migraram do reino animal para o vegetal. E agora são frutas. E frutas que se exibem dia e noite.

Nesses trópicos, a Contrarreforma, cujos brasões, lemas e conteúdos foram colados na pele dos brasileiros como breu pela Companhia de Jesus, com a ajuda de outras ordens religiosas, naturalmente, mas com os jesuítas liderando o processo, tudo na base da condenação ao corpo para vivificação da alma, eis que os corpos e seus pecados triunfaram alegremente depois disso. Já tinham triunfado antes, pois o pecado ainda não tinha chegado ao Brasil. Foi trazido por portugueses. Nas areias brasileiras, um herege famoso viu ainda fresquinhos os rastros de Adão.

À sombra e embaixo de bananais, as bananas estavam em boa ordem. Umas eram alimento, outras produziam filhos. Freud adoraria saber que dar uma banana, ofensa de fundo sexual – mas em Freud o que é que não é sexo, se até o cocô das crianças é? – apontava a fruta em outra direção. Freud adorava etimologia e procurava as fundas raízes e verdades dos vocábulos alemães para fixar neles o exato conceito operacional de seu palavreado. Ajudemos o nosso pai psicanalítico, então. É só mais um parágrafo.

Banana veio do árabe banana, dedo, talvez tenha se mesclado à palavra de som semelhante, presente no galibi, língua ameríndia da família caribe, falada no Norte do Amapá. A banana aparece classificada nas ciências como angiosperma, subdivisão do reino vegetal que inclui plantas que dão flores e cujas sementes estão encerradas no pericarpo. Nenhuma dessas mulheres-frutas quis ainda ser banana. Banana, por enquanto, só o indivíduo amorfo, moleirão, preguiçoso, sem vontade própria. Mesmo para a conotação sexual, banana perdeu o posto para a berinjela!

Angiosperma é um perigo etimológico. Karpós designa fruto, em grego. O pericarpo designa tudo o que, no fruto, está ao redor da semente, o seu perímetro. Angiosperma é a semente encapsulada, o que fica evidente na formação da própria palavra: angio, vaso; sperma, semente. A angina, por exemplo, uma cardiopatia, doença do coração, indica aperto, sufoco.

Dar uma banana não significa presentear alguém com a fruta. A expressão visual consiste em apontar o cotovelo para o interlocutor, a título de deboche ou escárnio. A frase é comum no Brasil, em Portugal, Espanha, França e Itália, com o mesmo significado de vingança, ofensa ou desabafo. Mas a banana na expressão é ingrediente do português falado no Brasil, já que as outras línguas não ilustram o gesto com frutas. Madame Pompadour encomendou um quadro ao pintor francês Joseph-Marie Vien intitulado “La Marchand d’Amours” em que um dos amores aparece dando uma banana. Já a expressão “a preço de banana” remonta a um tempo em que a banana dispensava poucos cuidados e integrava aquelas frutas já existentes no Brasil antes do descobrimento, não sendo nem necessário plantá-la para que frutificasse.

Pero Vaz de Caminha, autor da famosa Carta, cunhou expressões famosas, uma das quais aludia às excelências da nova terra: “Em se plantando, tudo dá.” O minucioso escrivão tinha, porém, um estilo menos sintético e emitiu o mesmo juízo em outras palavras: “Querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo.” A frase, porém, permaneceu na memória popular, não com o contorno original dado por Caminha, mas na forma que a tradição consagrou. Ainda que reconhecida como atividade para a qual tudo lhe era favorável – terra, irrigação, clima, vegetação etc. – a agricultura foi ali evitada pela primeira vez. Havia outros interesses. O próprio Caminha termina sua Carta pedindo emprego público ao genro, eximindo-o de trabalhar a terra, ofício considerado indigno de nobres no século XVI. Apesar de sua importância, também foi adiada a publicação da certidão de nascimento do Brasil, que só apareceu em 1817. Nela são postas em relevo as belezas naturais e a inocência dos índios, cuja evangelização ele indicou como a tarefa principal de um rei cristão. Acusados de indolentes e incapazes para o trabalho, os índios ficaram plantando bananeiras, em vez de cultivá-las comercialmente, que é como se denomina a brincadeira que consiste em firmar as mãos no chão e elevar o corpo, de modo a que os pés semelhem a árvore da banana. Tal metáfora se inspirou no formato do pé dessa erva de grande porte, cujo nome latino é musa paradisiaca (musa do paraíso), mas que entre sua parentalha conta com a banana-anã, a banana-caturra, a banana-d’água, a banana-nanica e outras. A banana petiça, que tem esse nome por ser baixinha, é a mais cultivada em todo o mundo, por ser tão profícua quanto as de maior porte, porém mais resistente aos climas frios.

Mas a banana fará sua mais sinistra estreia na condenação do primeiro herege brasileiro, Pedro de Rates Henequim, que não pôde dar uma banana para a Inquisição. Para o teólogo, Deus tinha criado o paraíso terrestre, o famoso éden, no Brasil. Convicto dessa certeza, passou a elaborar suas teses e desdobrá-las em complexas afirmações. O fruto proibido tinha sido a banana. Nem figos nem maçãs, como quiseram os renascentistas. Havia uma banana na História da Salvação. Para cometer o primeiro pecado, Eva não descascou o abacaxi, mas a banana. E Adão pisou no tomate!

Surgiu recente controvérsia no meio científico dando conta que no Brasil a banana está ameaçada de extinção. Outras expressões, como embananado e bananosa, significando confusão, podem estar ligadas aos primórdios da comercialização da banana, que era vendida em dúzias, cachos e quilos. Misturando tais medidas, surgia a inevitável confusão. Em sentido conotativo indica pessoa lerda, frouxa, sem iniciativa. O demônio, que tem todos os defeitos, tem também o da avareza e em vez de oferecer maçã à segunda mulher – a primeira, como sabemos, foi Lilith, a lua negra – ofereceu-lhe banana, muito mais barata já naquele tempo. A expulsão do éden saiu a preço de banana para o príncipe das trevas, que fez um bom negócio e até hoje está comprando almas a preço de banana. É verdade que por algumas ele paga um pouco mais, como no caso do lendário Mefistófeles, depois personagem central do famoso romance “Fausto”, do autor alemão Johann Wolfgang Goethe, que vendeu sua alma ao demônio por um alto preço, numa operação mercantil que envolveu um contrato complexo. A dialética, porém, nos ensina que do mal pode nascer o bem. Desse negócio com o demônio resultaram lendas memoráveis, grandes romances, sendo “Fausto” o melhor de todos, no qual foram baseadas óperas de músicos famosos como Berlioz e Gounod.

Quem põe o dedo nessas feridas de narcisistas e exibicionistas que nadam de braçadas na mídia chamando desesperadamente a atenção de todos? Podemos dar uma banana para eles e voltarmos a nossos ofícios? Não! Precisamos examinar o que nos dizem, o que escondem. Há um recado por trás dessa disparatada e obsessiva exposição. E há também uma lógica, inclusive uma lógica histórica, geográfica, climática! O fio dental – cordão cheiroso, na Bahia, e de todo modo uma nada discreta alusão à boca – teria que suceder à tanga, esta vinda dos índios, num clima quente! E do maiô e da tanga para o fio dental, passou-se da proteção às partes pudendas para um fetiche! É assim que o Diabo gosta!

Mas que Diabo havia no Brasil antes do Descobrimento? O primeiro diabo por aqui era o tupi Anhanguá, mas havia também Anhanguera, diabo velho ou espírito do diabo. As deidades indígenas foram descritas por tradutores cristãos – em geral, padres jesuítas –, havendo contaminação ainda na fonte. Com efeito, Anhangá, dado como equivalente a Satanás, ao Diabo ou a outro nome que tenha o Coiso, não corresponde a ele em quase nada. Anhanguera significa diabo velho, mas não com o sentido de mais antigo habitante do inferno, Lúcifer, derrotado no primeiro cisma que houve no céu, quando foi lançado aos abismos pelas forças de São Miguel Arcanjo. Falecem-lhe também poderes adicionais por, sendo diabo e velho a um só tempo, ser mais ardiloso em razão de um saber de experiências feito. Não, o Anhanguera indígena é um diabo velho exatamente porque, estando na velhice, não detém mais os antigos poderes, tendo diminuído a prática de malefícios, não por súbita conversão ao Bem, mas por diminuição das forças. Pode queimar um copo de água ardente, mas não um rio inteiro.

O que poucos sabem é que o Brasil teve um Anhanguera Júnior, filho de Bartolomeu Bueno da Silva, célebre bandeirante paulista que iniciou a exploração de Goiás no século XVII, levada adiante no século seguinte por filho e neto. O filho do segundo Anhanguera, como era chamado o pai, tinha o mesmo nome do avô. E foi igualmente bandeirante, tendo enfrentado os índios caiapós. Há um pequeno município que homenageia os três. É Anhanguera, que tem apenas 869 habitantes e fica na microrregião de Catalão, município goiano com pouco mais de 50 mil habitantes. Foi, porém, o filho, e não o neto do primeiro Anhanguera, um dos principais responsáveis pela lenda da Serra dos Martírios, segundo a qual deveriam se embrenhar mata adentro até encontrar os sinais das chagas de Cristo num rochedo, ao pé do qual encontrariam esmeraldas, ouro e prata. A lenda inspirou o filme “No coração dos deuses”, longa-metragem de Geraldo Moraes, que homenageia o escritor Paulo Setúbal e transpôs para as telas a cena antológica narrada pelo romancista. Nela, outro famoso bandeirante, Fernão Dias Paes Leme, condena seu próprio filho à morte. O diretor contou no roteiro com as pesquisas de Paulo Bertran e Manoel Rodrigues Ferreira, estudiosos da redescoberta da Serra dos Martírios. Na primeira viagem, quando acompanhou o pai, o segundo Anhanguera tinha apenas 12 anos. Aquela, sim, foi uma aventura para o então adolescente!

A civilização ocidental, que tanto deve e tanto tem a haver da Igreja, fez um inferno simples, se comparado com o modelo que o inspirou, os infernos greco-latinos. As inferna latinas – plural de infernum, inferno – estavam situadas embaixo da terra. Comparando-o à geena judaica, Jesus Cristo diz que “ali há choro e ranger de dentes”. A religião católica tomou como modelos para seu inferno o judaico e o grego. Os infernos romanos, grafados no plural, eram de uma exuberância digna de esplêndido romance. Militarizados e estruturados segundo rígida hierarquia, tinham disciplina, autoridades indiscutíveis e leis a cumprir. Sua criação faz alegoria a uma cidade subterrânea. Tinham também precisa localização geográfica: suas sedes estavam na Grécia e na Itália. À entrada, estavam os Pesares, os Remorsos, as Doenças, a Velhice, o Medo, a Fome, a Pobreza, o Sofrimento, a Morte, a Guerra e a Discórdia. Seguia-se um pátio onde estavam os Sonhos e vários monstros, como o Centauro e a Quimera, que terminava no Rio Estige, onde o barqueiro Caronte cumpria seu ofício levando as almas para o outro lado. Transposto o rio, encontrava-se o cão Cérbero, que guardava a entrada do lugar onde estavam as crianças que, vítimas da mortalidade infantil, não tinham gozado a vida, os criminosos e os suicidas. Dali por diante, o Estige se dividia em nove braços. Seguia-se o Campo das Lágrimas, onde estavam os fratricidas, os ladrões, os incestuosos, os que provocaram guerras civis e os traidores da pátria ou dos consortes, como os adúlteros. Ultrapassados esses lugares de punição, vinham os Campos Elíseos, onde gozavam a vida eterna os poetas, os inventores, os sacerdotes e outras pessoas de bem. Por fim, ao fundo, corria o Rio do Esquecimento, onde inumeráveis almas defuntas formavam-se para outras encarnações. Podia-se sair do inferno através de duas portas: a do Sono, que dava saída aos sonhos verdadeiros, e a de marfim, por onde escapavam os sonhos falsos e mentirosos. Convenhamos, poucas são as obras da literatura surrealista com tamanha imaginação. E quantas prefeituras têm uma organização tão bem estruturada? E quantos prefeitos têm a competência do alcaide-mor dos Infernos?

Saibamos, porém, que a privacidade escancarada e a exibição desenfreada se inserem como mão à luva no contexto do maior dos pecados: o consumo a qualquer custo. As pessoas estão ali para se vender ou para serem vendidas. São os novos escravos que, aliás, às vezes só se alugam por algumas temporadas, como os jogadores de futebol.

Marx demonstrou que, ao contrário do que pensávamos, não vivíamos como pensávamos, mas pensávamos como vivíamos. E Saussure, liderando a tribo linguística, foi adiante e nos deu a entender que coisas misteriosas dentro de nós nos ordenam a dizer o que não queremos, que pensamos esconder em complexas redes de metáforas. Mas lá chegaram também Freud e Lacan.

Nós precisamos de autores como esses para entender a pretendida falta de privacidade que tantos querem e a exposição absoluta que almejam na mídia. Deus e Diabo já nos abandonaram faz tempo na tarefa de entender o que se passa!

 

deonisio.dasilva@gmail.com

O articulista é professor universitário e ocupa uma das vice-reitorias da Universidade Estácio de Sá.

 

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