Jeguial! Histórias de jumento

Jeguial! Histórias de jumento

Gustavo Maia Gomes, economista

 

“Mulher feia e jumento perdido, só quem procura é o dono”, dizem o cantor Falcão e os emboladores Castanha e Caju, em tom depreciativo. “Gosto muito dos jumentos do Nordeste brasileiro”, contrapõe o jornalista francês Gilles Lapougue: “venho testemunhando sua derrota há 40 anos”. “Mais vale um jumento vivo que um filósofo morto, mas é melhor morrer como filósofo do que viver como jumento”, diz um provérbio português. “É verdade, meu senhor, essa estória do sertão. Padre Vieira falou que o jumento é nosso irmão”, lembram Luiz Gonzaga e José Clementino.

O jumento é assim: desperta amor e ódio, compaixão e indiferença, simpatia e deboche. E inspira histórias. Histórias de jumento.

 

Jovino, o escritor

Insight Inteligência - artigos e ensaios fora da curva

Os homens acham que os jumentos são burros. Não são. Burros são burros; jumentos são jumentos. Jovino, com quatro patas, cabeça grande e orelhas pontudas, lê jornais, ouve rádio, assiste TV, presta atenção nas conversas e tira conclusões. Sabe mais sobre o mundo do que Zequinha, seu dono. Não é burro, é jumento. “Ainda vou escrever um livro”, pensou ele. “Ninguém vai ler, mas isso pouco importa. O mundo é assim: uns escrevem, outros não leem.”

Jovino queria escrever uma coisa parecida com O jumento, nosso irmão, do padre Antonio Vieira, o cearense, não o jesuíta português dos tempos coloniais. Em 1964, quando o livro foi publicado, alguns frigoríficos estavam matando jumentos. Vieira ficou bravo. Juntou-se a Luiz Gonzaga, Patativa do Assaré e José Clementino, músico e poetas populares. Os quatro fizeram um movimento em defesa dos jegues. Parece que conseguiram estancar a matança. Luiz Gonzaga lembrava que o jumento:

 

Arrastou lenha…

Madeira, pedra, cal, cimento, tijolo, telha

Fez açude, rodagem, carregou água

Fez a feira e serviu de montaria

O jumento é nosso irmão

 

Meio século depois, a ameaça de virarem salsichas voltou a rondar os jumentos nordestinos. Chineses vieram ao Brasil querendo comprar 300 mil jegues por ano, para transformá-los em alimento e em cosméticos. O Ministério da Agricultura disse sim, mas, como a reação foi grande (até Brigitte Bardot saiu em defesa dos animais), o negócio não prosperou. E nem poderia, até por uma questão de números: 300 mil jumentos é quase um terço do rebanho total hoje existente.

Em 1964, quando O jumento, nosso irmão foi publicado, havia três milhões desses animais, no Brasil; hoje, são menos de um milhão. “Antonio Vieira perdeu a guerra”, pensou Jovino com suas cangalhas. Sem perceber, já tinha começado a escrever o livro.

 

A preferência dos argentinos

Uma vez, enquanto Zequinha lhe pendurava nas costas pacotes embrulhados em papel de jornal, Jovino leu uma notícia: “torcida não perdoou o técnico Dunga, durante o empate do Brasil com a Argentina, chamando-o de ‘burro’ e ‘jumento’ e pedindo a volta de Felipe Scolari.” Os argentinos reagiram, estendendo nas arquibancadas uma enorme faixa com os dizeres: “Fica, Dunga.”

“Pelo menos, alguém gosta de jumento”, foi o consolo de Jovino. Não que ele estivesse pensando nos eleitores argentinos.

 

Jegues obsoletos

Até 1970, o efetivo de asininos no Brasil (quase todos os jumentos estão no Nordeste) vinha crescendo. Logo depois desse ano, ocorreu uma brusca redução. Embora houvesse, à época, matança deliberada de jumentos, a mortandade deve ter sido, principalmente, o efeito da seca de 1970. Outras secas aconteceram, como as de 1979/83, 1990/93 e 1998/99, assim como, entre elas, muitos períodos bons de chuvas, mas o rebanho jamais voltou a ser o mesmo.

Era de se esperar, pois a utilidade do jumento reduziu-se muito, devido às transformações do seu ambiente. O sertão urbanizou-se; a atividade agrícola quase desapareceu. Mais estradas, maior disponibilidade de água encanada, a onipresença do caminhão pipa, da torneira comunitária, ou da cisterna ao lado de casa tornaram os jumentos desnecessários. Em época recente, a queda de preço e as facilidades de crédito para a compra de motocicletas tiveram o mesmo efeito.

Mas, se os jumentos não têm mais utilidade, o que fazer com eles? Promover sua multiplicação deixou de ter sentido econômico, exceto no caso dos jumentos pêga, objetos de consumo sofisticado, de alto valor. Mas estes são poucos. Os jumentos comuns, os sertanejos, em muitos casos, simplesmente abandonam à própria sorte. Hoje, quem viaja de carro pelo interior do Nordeste precisa ter cuidado para não esbarrar com um bando deles na estrada. Ou nas cidades.

 

Sangue azul

Há os jumentos comuns e há os pêgas, de raça apurada. Estes não são abandonados. Ao contrário, vendem-se em leilões, por altos preços. O jumento pêga é uma raça brasileira formada em 1810, na cidade de Lagoa Dourada, MG. Diz um especialista que “os animais da raça pêga têm aparência nobre, altiva, linhas harmoniosas e definidas, expressão facial marcante. A cabeça é longa, as orelhas são grandes e de direção paralela perfeita, em formato de lança ou tesoura”.

Os jumentos pêgas têm o andamento marchado; os membros de estrutura óssea são semelhantes aos dos animais de sela, diferenciando-se da estrutura óssea mais volumosa e grosseira dos animais com aptidão para a tração. Também têm o refinamento de conformação, com destaque para a cabeça. Geralmente, as orelhas são mais longas, de melhor formato, implantação e direção; quase sempre, apresentam um excelente temperamento de sela.

Os pêgas alcançam preços de oito, dez, até 15 mil reais. Para um jumento comum, são valores acima da imaginação.

 

Machado de Assis contra

Herói do Brasil

No princípio do século XX, havia mais jogadores com nomes de bichos. Outra de futebol asinino deu na Folha da Noite (São Paulo, 26/5/1933):

 

No domingo próximo os machadenses enfrentarão, em seu campo, o forte e disciplinado conjunto do Herói Brasil. Pela ótima organização dos dois quadros, espera-se que a partida resulte disputadíssima. O Machado de Assis pede, por nosso intermédio, aos seus jogadores, que compareçam às 14 horas, em ponto, na sede daquele clube. Os quadros deste clube estão assim organizados: Jovem, Alfredo e Sebastião; Mingo, Souza e Galante; Barretos, Ferreira, João, Evangelista e Chiquinho. Reservas: Friggeri, Jumento e Diniz.

 

Deixar Jumento na reserva não podia dar certo. Por essas e outras, o Machado de Assis nunca veio a ser grande coisa.

 

Borat 2, o filme, inclui jumento estuprador

Lançado em 2006, o filme Borat, do britânico Sacha Baron Cohen (que conta a história de um jornalista cazaque em viagem aos Estados Unidos), foi recebido como um insulto e acabou proibido no Cazaquistão. Agora vem a revanche. O diretor Erkin Rakishev decidiu filmar uma continuação de Borat para corrigir a imagem do país criada pelo personagem de Cohen. O novo filme tem cenas chocantes. Numa delas, Bilo, o irmão de Borat, é estuprado por um jumento.

Isso é que é vingança.

 

Biblioteca ambulante

Em Pernambuco, jumentos andam pelas estradas carregando uma biblioteca ambulante. É o projeto Livros Andantes, que, no ano passado, visitou várias cidades da Mata Sul. Autores clássicos, como Shakespeare, fazem parte da seleção carregada em lombo de asno. Também há livros de Raimundo Carrero e Ariano Suassuna, além de literatura de cordel.

Clara Angélica, coordenadora do projeto, diz que a escolha do jumento para levar os livros faz parte do processo de conquista do público. “O jumento é um meio de transporte bastante comum na região. Eles usam para transportar o que plantam, como banana, inhame, cará. Era uma forma de fazer parte do cotidiano deles.”

No futuro, haverá um livro de Jovino na biblioteca ambulante.

 

A mulher dos três jumentos

Em Buíque, cidade do Agreste pernambucano, havia uma velha senhora que coabitava com três jumentos. Um deles morreu, mas a mulher não tomou conhecimento, deixando o cadáver insepulto. Em poucos dias, o mau cheiro ficou intolerável, espalhando-se pelos arredores.

Os outros moradores da rua reclamaram, sem êxito. Então, eles invadiram a casa, retiraram o animal morto e soltaram os outros dois, sob enfáticos protestos da sua dona. Entre dentadas e arranhões, o caso foi parar na delegacia. Na confusão, a mulher se agarrou aos dois bichos ainda vivos, enquanto berrava ser melhor alimentar três jumentos do que um homem.

Não se sabe a quem o delegado deu razão.

 

História eleitoral

Jurandir do Jumento, candidato a vereador na cidade de Flexeiras, Alagoas, teve, nem mais, nem menos, um único voto. Inconformado, separou-se da mulher com quem estava casado há 25 anos. “Como ele pode saber que não fui eu quem votou nele, se nós dois votamos na mesma seção?”, defendeu-se Antonia, sugerindo que Jurandir não é jumento, é burro. Pode ser também corno. É o que especula nas redes sociais estendidas nos terraços de Flexeiras.

 

Matança de jumentos e pessoas

Geuza Leitão mora em Fortaleza, Ceará. É advogada, escritora, procuradora autárquica, ecologista e participa de associações em defesa da fauna e da flora. Consta que foi amiga do padre Antonio Vieira. No site Centro de Mídia Independente, ela postou a seguinte nota, que Jovino transcreveu, depois de editar:

 

Em Quixeramobim, jumentos estavam sendo enterrados vivos, conforme denúncia de moradores. Primeiro os funcionários do Departamento de Edificações, Rodovias e Transportes (DERT-CE) faziam as valas com o trator de esteira do órgão. No dia seguinte, transportavam os jumentos, que haviam passado uma semana em currais com fome e sede, para o local do extermínio.

Após chegarem, um funcionário dava uma pancada na cabeça do animal e logo em seguida outros dois jogavam pás de areia por cima dele, livrando-se do bicho, o que era repetido inúmeras vezes, tendo em vista que, em cada operação, aproximadamente, 150 jumentos eram mortos. Isso ocorria toda semana.

Quando a quantidade de jumentos apreendidos era muito grande, o massacre ocorria até duas ou três vezes por semana. Tem-se notícia que só nessa região, de janeiro de 2002 até maio de 2003, aproximadamente 4.000 jumentos foram mortos.

 

Timothy Snyder mora em New Haven, Connecticut. É professor de História da Universidade de Yale. Em seu livro Terras de sangue: A Europa entre Hitler e Stalin (Rio de Janeiro, Record, 2012), publicado no ano passado, há muitas passagens chocantes. Por exemplo (também com pequenas edições):

 

Stalin e Iejov [chefe da Polícia] queriam a eliminação dos inimigos “de uma vez por todas”. Eles anteciparam a execução de 79.950 cidadãos soviéticos por fuzilamento e a condenação de mais 193 mil a oito e dez anos no Gulag. Não que eles tivessem 272.950 pessoas em particular em mente: as agências locais da Polícia resolveriam isso. [Ou seja, encontrariam “culpados” em número suficiente.]

Confissões eram arrancadas por tortura. A Polícia aplicava o “método esteira rolante”, que significava interrogatório ininterrupto, dia e noite. Este era complementado pelo “método vertical”, pelo qual os suspeitos eram obrigados a ficar em pé numa fila ao lado de um muro e eram espancados, caso se apoiassem ou caíssem no sono.

As cotas de assassinatos e de detenção eram oficialmente chamadas de “limites”, embora todos soubessem que estes deveriam ser ultrapassados. Não 79.950, mas cinco vezes mais pessoas seriam fuziladas na ação contra os kulaks [o termo deveria significar camponês rico, mas terminou sendo aplicado a qualquer pessoa com quem a Polícia não simpatizasse].

 

Quando leu isso, Jovino ficou pensando se ele preferiria ser jumento no Ceará ou humano na ex-União Soviética. Lembrou que, em duas ocasiões, a matança de jumentos na democracia brasileira foi suspensa ou evitada pelo clamor da opinião pública. Na ditadura comunista, ninguém salvou as pessoas que a polícia queria chamar de kulaks.

“Melhor aqui”, concluiu Jovino.

 

gustavomaiagomes@gmail.com

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS

 

No parágrafo de abertura, a citação é de Gilles Lapouge, “Ao jegue, com carinho”, O Estado de S. Paulo, 10 de junho de 2012, em http://www.estadao.com.br/noticias/geral,ao-jegue-com-carinho,884541,0.htm

As informações da seção “Preferência dos argentinos” foram obtidas em http://globoesporte.globo.com/Esportes/Noticias/Times/Selecao_Brasileira/0,,MUL606425-15071,00.html

A seção “Sangue azul” foi baseada em informações colhidas na revista Coopercitrus, em http://www.revistacoopercitrus.com.br/?pag=materia&codigo=5520

A seção “Borat 2, o filme”, que inclui jumento estuprador, foi baseada em noticiário da BBC-Brasil, em http://www.bbc.co.uk/portuguese/cultura/2010/ 11/101123_borat_mv_rc.shtml

 

A seção “Biblioteca ambulante” está baseada em http://www.paraiba.com.br/2012/04/29/56941-biblioteca-montada-em-jumento-incentiva-a-leitura-no-interior-de-pe

A seção “A mulher dos três jumentos” está baseada em http://blogs.diariodepernambuco.com.br/segurancapublica/?p=2420

A história eleitoral foi colhida no endereço http://www.leiaja.com/politica/2012/jurandir-do-jumento-recebeu-apenas-um-voto-o-seu

Na seção “Matança de jumentos e de pessoas”, o texto adaptado de Geuza Leitão está em http://www.midiaindependente.org/pt/red/2008/02/412078.shtml?comment=on. A matança de cidadãos soviéticos por Stalin está descrita em Timothy Snyder, Terras de sangue: A Europa entre Hitler e Stalin. Rio de Janeiro, Record, 2012. (As citações são das páginas 116 e 117.)

 

 

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