João Antônio: notícias de  uma década virulenta

João Antônio: notícias de  uma década virulenta

IEDA MAGRI, ESCRITORA

 

Tendo iniciado sua carreira literária em 1963 com a publicação de “Malagueta, Perus e Bacanaço”, João Antônio, no início da década de 70, era reconhecido escritor de quem não se encontrava um único exemplar nas livrarias brasileiras. Seu primeiro livro causou impacto antes mesmo de ser publicado já que seus contos frequentaram concursos literários de várias cidades brasileiras e circularam nos suplementos mais importantes do Rio de Janeiro e de São Paulo. Em 1962, ganhou o Prêmio Paulo Prado para Contos, o maior da época para originais inéditos. Uma vez publicado, recebeu dois Jabuti: Autor Revelação 1963 e Melhor Livro de Contos. Isso tudo não impediu que levasse 12 anos para ter uma segunda edição. Disso, o autor reclama em carta a Caio Porfírio Carneiro, em 30 de janeiro de 1966, apenas três anos depois da primeira publicação: “Meu Malagueta começa a dar dor de cabeça. O livro, há muito sumido das livrarias, do próprio depósito da Civilização, recebe a alegação de que ainda não está esgotado. (…) Acho que já passou da hora de uma segunda edição” (Antônio, 2004, p. 40).

Durante o período em que foi um escritor sem livros no mercado brasileiro, alguns dos seus contos eram publicados em antologias na Tchecoslováquia, Espanha, Argentina, Alemanha Ocidental e Venezuela. O desconforto com a situação do escritor, que, segundo João Antônio, era explorado pelas editoras, calado pela ditadura e ignorado pela maioria da população, que não podia ler porque preocupada com a sobrevivência diária e, ademais, analfabeta, só ia crescendo durante a segunda metade da década de 60 e rompia o lacre dos anos 70 prometendo alguma atitude coletiva.

No início de sua carreira literária, João Antônio tinha a intenção de fazer um retrato do homem paulistano, expondo sua realidade e psicologia, tendo como base para escrevê-lo (para fazer a operação homem real/homem construído) a pesquisa da linguagem própria da população de rua, dos subúrbios e dos ambientes da malandragem e da prostituição’’. De fato, João Antônio ambienta seu primeiro livro em São Paulo e o conto título, mais que os outros oito, não tem a cidade somente como ambientação, cenário: ela é elevada à categoria de personagem. Malagueta, Perus e Bacanaço estão entranhados nela, sabem-na de cor e dependem dela para a sobrevivência na sua “noite enxovalhada”, para usar o título do texto de Antônio Cândido, publicado na edição de “Malagueta, Perus e Bacanaço” da Cosac Naify.

Logo depois de seu livro de estreia, João Antônio publicou, em 1965, a novela “Paulinho Perna Torta”, na antologia “Os dez mandamentos”, concluída um ano antes, quando ainda vivia em São Paulo, e que mereceu status de obra-prima pela crítica de Antonio Candido. Ainda em 1964, com seu primeiro livro publicado, e tendo que, como ele dizia, “gramar para sobreviver”, João Antônio se mudou para o Rio de Janeiro e passou a trabalhar, em março de 1965, no Jornal do Brasil, onde ficou até junho de 1966, quando voltou a São Paulo para integrar a equipe da revista “Realidade”. Esse primeiro período em que viveu no Rio de Janeiro certamente deu novos rumos ao projeto de representar o homem paulistano, já que passam a aparecer na sua produção o homem e a cultura cariocas. O livro “Leão-de-chácara”, seu segundo, é organizado justamente em função das duas cidades. Há duas entradas: a primeira, “Três contos do Rio” (“Leão-de-chácara”, “Três cunhadas – Natal de 1960” e “Joãozinho da Babilônia”); e a segunda, “Um conto da Boca do Lixo” (“Paulinho Perna Torta”). Esse livro só ficaria pronto em 1972 e seria publicado em 1975, no mesmo ano de publicação de “Malhação do Judas Carioca”, livro que marca uma mudança no estilo do escritor.

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Tanto “Malagueta, Perus e Bacanaço” como “Leão-de-chácara” dão a ver o subúrbio das duas maiores cidades brasileiras e a vida sofrida de quem mora ali, a complicação de que se faz o cotidiano de tipos que precisam dia após dia garantir o seu sustento. O mundo da sinuca e da malandragem são os hábitats das personagens, a viração noturna dos leões de chácara e das prostitutas é exposta de maneira bastante realista, contudo não é a descrição de um ambiente o que predomina, mas a profunda inserção das personagens na cidade, a construção perfeita de seu modo de agir, locomover-se e tirar proveito das piores situações, bem como a descoberta de uma nova sintaxe, que o autor constrói para exprimir a gíria – em palavra e carne e sonoridade – criando um modo de expressão próprio desse submundo e das personagens retratadas. Linguagem profundamente elaborada, trabalhada conscientemente para alcançar um resultado único, diferenciado dos outros escritores que também utilizaram a gíria como componente estético de suas personagens ou como documento de costumes, na linha de Orestes Barbosa (1893-1966) e Antônio Fraga (1916-1993), por exemplo.

 

Depois de passados 12 anos da publicação de seu primeiro livro, a esta altura usando a designação de escritor, muito embora dele não se vissem mais os livros, como ficou dito, João Antônio acumulava a profissão de jornalista. Com passagens pelo Jornal do Brasil e pelas revistas “Cláudia”, “Manchete” e “Realidade”, além do Sanatório da Muda da Tijuca (alegando estafa), publica, em 1975, o livro “Leão-de-chácara” – que havia ganhado, ano antes, o Prêmio Paraná – e, em seguida, “Malhação do Judas Carioca”, além de editar o “Livro de cabeceira do homem” pela Civilização Brasileira e ter nova edição de “Malagueta, Perus e Bacanaço”. Embora tivesse escrito, muito provavelmente, a maioria dos contos de Leão-de-chácara ainda na década anterior, a década de 70 será a de sua maior produção: em 1976 publica “Casa de loucos”, em 1977, “Lambões de caçarola”, em 1978, “Ô, Copacabana”, além de viajar para a maioria dos estados brasileiros a convite de estudantes e de cursos de Letras para fazer palestras e conferências sobre seus livros e sobre a produção literária brasileira. É nesse período, de 1975 a 1979, que se localiza sua fase de maior militância política em prol da profissionalização do escritor, do investimento gráfico e midiático no escritor brasileiro, numa espécie de valorização do “produto nacional”, e na produção de uma literatura comprometida com o que ele chama de levantamento das realidades nacionais. O livro “Malhação do Judas Carioca” é o epicentro de sua produção no período, o que melhor apresenta seu projeto estético-político, por conter o texto “Corpo-a-corpo com a vida”, no qual o autor intervém no debate em torno da literatura.

1975 é o ano de João Antônio e a visibilidade daí decorrente seria refletida nos anos seguintes. Em carta a Caio Porfírio Carneiro, datada de 18 de setembro, escreve: “Malagueta, Perus e Bacanaço” esgotou uma edição em 12 dias e “Leão-de-Chácara” – 5º mais vendido, semana passada, na informação de Veja – também está esgotado. (…) 12 anos para reeditar um livro que, depois, se esgota em 12 dias”. Mais tarde, em 6 de fevereiro de 1976: “Estou fazendo uma ‘peripécia’ que poucos autores conseguem: tenho dois livros na mesma lista [a dos mais vendidos da Revista Veja]: ‘Malhação do Judas Carioca’ e ‘Leão-de-Chácara’”. E ele permaneceu na lista dos mais vendidos várias semanas a fio. A esse sucesso de vendas se seguiram os seus depoimentos e entrevistas nos jornais e, enfim, João Antônio era nome obrigatório nas conversas sobre literatura, sendo capaz de gerar debates acalorados.

O que teria provocado esse interesse em editar e divulgar os livros de João Antônio depois de 12 anos de desinteresse?

Para Flora Süssekind, o interesse se explica pelo contexto político brasileiro:

 

“Se o que não se possuíam eram informações e formas de atuação política eficazes, se o jornal está sob censura rigorosa, cabe à literatura exercer sua função. Por isso, ficção e jornalismo se tornam termos inseparáveis nos anos 70. Por isso os grandes sucessos editoriais são factuais e não ficcionais (Süssekind, 1984, p. 174).”

 

Mas o próprio João Antônio tem outra resposta à pergunta. Em uma entrevista, expõe os bastidores da produção e menos do consumo:

 

“Está havendo em relação ao ano de 1975 toda uma valorização dessa época, os trabalhos que estão sendo publicados em 1975, inclusive o ‘Leão-de-Chácara’ e o ‘Malagueta, Perus e Bacanaço’, são trabalhos que estão prontos há cinco ou seis anos. (…) Esse ressurgimento todo que está sendo feito em relação ao meu nome é até certo ponto um exagero porque há autores brasileiros que mereceriam tanta atenção quanto eu (…), o apoio e o prestígio que estou tendo agora. Ocorre o seguinte: por motivos editoriais e até mesmo políticos determinados pelo AI-5, e medidas econômicas e crise internacional do papel e uma porção de coisas, essa geração de escritores somente agora está aparecendo. (…) Eu fui um escritor que esteve congelado uns 10 anos no Brasil, de forma que foi uma confluência de interesses. (…) Numa época em que o escritor está se omitindo de dizer qualquer coisa, de repente aparece um João Antônio, que começa a dizer coisas que dizem respeito a uma coletividade. (…) Evidentemente esse indivíduo (…) passa a ser uma espécie de profeta. Não sou profeta coisa nenhuma, mas eu passei a representar uma bandeira.”

 

Essa bandeira de que fala João Antônio está hasteada no texto “Corpo-a-corpo com a vida”, em “Malhação do Judas Carioca”, livro que deve ser contextualizado por um olhar sobre a década de 70, mergulhada numa ditadura repressora e imbuída do projeto de industrialização do Brasil sob o lema do “Brasil Grande” (Habert, 2003).

O que interessa mais de perto, já que há muita literatura sobre o período e não é necessário aprofundar a questão de o que foi a ditadura no Brasil, é tornar presente o clima de euforia que envolveu os meados da década com o investimento do Estado na cultura e com a entrada maciça da televisão nos lares brasileiros. Na entrada dos anos 70, a expressão “milagre econômico” dominou a imprensa e os discursos oficiais. As empresas multinacionais consideravam o Brasil como país seguro para seus investimentos e o PIB crescia tendo à frente a indústria de bens de consumo duráveis. Por outro lado, em 1975, 72 milhões de brasileiros eram subnutridos, enquanto o Brasil era campeão de acidentes de trabalho (Habert, 2003). Mas essas segundas informações não eram divulgadas; o Brasil vendia para a população a ideia do milagre econômico e anunciaram-se muitos boons: o boom das comunicações, o boom da construção civil, o boom da mineração e também o boom literário.

No caso do Brasil, em termos de mercado editorial, o boom literário pode ser localizado, segundo Heloisa Buarque de Hollanda e Marcos Gonçalves, no ano de 1975, em consonância com a Política Nacional de Cultura e a participação do Estado como mecenas da cultura nacional. Atuando tanto como censor quanto como incentivador financeiro, o Estado promoveu o clima de debate e a visão do escritor como “bom negócio”. Obras que estavam aguardando reedição foram reeditadas, como é o caso de João Antônio; novos escritores foram publicados. “A premiação e a promoção de concursos literários se investe de sentido de patrocínio e incentivo. As empresas editoriais testam o alcance comercial de lançamentos bem programados do ponto de vista mercadológico” (Novaes, 2005, p. 113). Proliferam as revistas literárias e os jornais alternativos.

Mas se pode falar de um boom literário brasileiro também em termos de reflexo do que se chamou boom literário da América Latina: “a reorganização tecnológica e industrial da produção em escala transnacional” (Canclini, 2003, p. 142) invadiu as livrarias brasileiras com as obras de Julio Cortázar, Gabriel García Márquez, Carlos Fuentes, Laura Esquivel. Com o prestígio de que estavam gozando esses escritores na Europa e nos Estados Unidos e o alarde desse sucesso é que surgiu a palavra boom. O que houve no Brasil foi, por um lado, a necessidade de expandir o mercado e a tentativa de entrar na rota feita pelos vizinhos latinos, e, por outro, a valorização do escritor nacional, preocupado com uma reserva de mercado para vender seus próprios livros. Equivocadamente, muitos escritores, entre eles João Antônio, entraram numa luta acirrada contra a badalação dos autores de outros países, como se eles estivessem tirando o lugar dos escritores brasileiros das livrarias. Em parte, era o clima de investimento na cultura nacional que provocava esse tipo de postura, mas, por outro lado, como não se posicionar diante de uma realidade de grandes investimentos industriais enquanto a profissionalização do escritor não tinha perspectivas de se concretizar plenamente diante das condições de consumo que se restringiam à pequena elite?

O investimento na cultura como produto nacional teve a interferência do Estado em todas as áreas, mas as questões mais profundas (de alfabetização e distribuição de renda, de acesso ao consumo) ficaram em segundo plano. A partir de 1974, o samba foi decretado a linguagem musical nacional: “1975 ficou marcado como o ano do samba” (Autran, in Novaes, 2005, p. 71). Um balanço da situação do teatro mostra que, com o apoio dos empresários do teatro, o Estado se transformou no mediador hegemônico da produção teatral tanto em incentivo financeiro como no seu papel regulador: “Nunca foram proibidos tantos textos e tantos espetáculos e jamais tanto dinheiro dos cofres públicos escorregou para a mão dos empresários teatrais” (Arrabal, in Novaes, 2005, p. 228). O cinema procura sua maturidade industrial, e a televisão, que entra na maioria dos lares nessa década, surge como o arauto da imagem do Brasil moderno.

 

Com a censura, a literatura despertou muito mais o interesse do público. Como se viu, João Antônio ficou com mais de um livro na lista dos mais vendidos da Veja e as edições, embora pequenas (entre três e cinco mil exemplares), se esgotavam rapidamente. Inácio de Loyola Brandão e Rubem Fonseca também frequentaram as listas dos mais vendidos.

De escritor sem livros no mercado, João Antônio passou, em poucos meses, ao mais vendido do Brasil. Isso abriu espaço para que se tornasse visto e ouvido, e de muitas universidades lhe chegaram convites para debates. Desse modo, o autor se posicionou firmemente nas suas ideias mais políticas para a profissionalização dos escritores brasileiros e aproveitou o clima para alardear seu projeto estético e ideológico como é o caso em “Corpo-a-corpo com a vida”.

Nesse texto, a figura do escritor e sua literatura andam juntas e, para João Antônio, têm força, provocam mudanças de opinião e de visão nos leitores. O autor é visto por ele como produtor: “Um homem de quarenta anos que escreva e que não tenha, em nosso país, preocupação com o que os homens de vinte anos pensam certamente vai mal”, diz em depoimento à Revista do Livro, no mesmo ano da publicação de “Malhação do Judas Carioca”. Sabendo da precariedade do mercado editorial, compara o escritor com um vendedor de batatas:

 

“O escritor, enquanto escreve, é exclusivamente um escritor – operário da palavra queimando olhos e criando corcunda sobre o papel e a máquina. Pronto o livro, o autor brasileiro não deve fugir à realidade de que é um vendedor, como um vendedor de cebolas ou batatas. Mas com uma diferença, é claro: no Brasil o livro não é considerado como produto de primeira necessidade, como os cereais” (p. 24).

 

O livro “Malhação do Judas Carioca” causou impacto no público, criou polêmica e deu a

João Antônio muito espaço para debates, inclusive na mídia. Em todos os depoimentos e entrevistas a que tivemos acesso, como no texto “Corpo-a-corpo com a vida”, ele tenta inserir outros escritores na conversa, citando nomes e livros, indicando tendências e reivindicando para si e para outros o lugar de participante e de portador de algum tipo de mudança. Sendo tempos de ditadura, a responsabilidade do escritor é ainda mais requerida. João Antônio usa o espaço que conseguiu para si para reunir os outros escritores, procurando engrossar o coro, chamando atenção para os problemas específicos do escritor brasileiro e para a necessidade de criar uma literatura diferenciada, com identidades próprias. O material há: é a própria cultura brasileira dada e construída pelo povo; a tarefa do escritor, a de trabalhar esse material literariamente, sem formas importadas. Em “Corpo-a-corpo com a vida”, parece a João Antônio que sua forma ideal seria a fusão entre literatura e jornalismo.

 

A matéria essencialmente nacional, que continuaria a boa linhagem da literatura brasileira – e nela estão Lima Barreto, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Oswald de Andrade, Manuel Antônio de Almeida, citados textualmente em “Corpo-a-corpo com a vida”, e outros mencionados em entrevistas, os que têm “um compromisso sério com o fato social” –, estaria ligada ao homem e aos costumes da terra. Uma frouxidão na valorização da identidade brasileira dá-se, segundo o autor, pelo “distanciamento de uma literatura que reflita a vida brasileira,” que ele marca como sendo “o futebol, a umbanda, a vida operária e fabril, o êxodo rural, a habitação, a saúde, a vida policial, aquela faixa toda a que talvez se possa chamar radiografias brasileiras”. Para João Antônio, é devido a esse distanciamento, a essa carência, que, “por um lado não temos conteúdo, e de outro, nem temos forma brasileira”.

O texto é editado à maneira de posfácio, todo em itálico e sem numeração de páginas. É assim que começa: “A maioria dos depoimentos que tenho lido me parecem testemunhos de uma época em que quase todos estão preocupados com o acessório, o complementar, o supérfluo, ficando esquecidos o fundamental, o essencial” (1975). No texto fica mais ou menos claro que fundamentais são o homem e a cultura brasileiros e acessória é a preocupação puramente estilística, “vinculada à forma”. É no mínimo curioso João Antônio falar de depoimentos e não de textos. É certo que, nesse momento, sua literatura e seu pensamento em torno dela excedem a discussão sobre gêneros literários, aliás, mais de um crítico apontou uma “explosão dos gêneros” em João Antônio, como vai ficando claro nas orelhas e nos prefácios de seus livros com publicação posterior a 1975. Ainda em 1974, João Antônio anunciava a seu amigo Caio: “Ando muito interessado numa literatura que, fugindo a gênero literário (essa coleira do capeta), seja menos literária e mais um corpo-a-corpo com a vida” (Antônio, 2004, p. 49). Mas, certamente, não reduziria todos os gêneros a um só, o depoimento. Assim, parece claro que João Antônio está se referindo às entrevistas, aos paratextos, à crítica, e não às obras dos escritores da época, o que torna evidente o clima de debate, de militância em que estavam envolvidos.

No que diz respeito à forma dessa nova narrativa que João Antônio reclama, entrevê-se em seu texto uma elaborada proposição, que exige do escritor que seja um descobridor, já que os temas obrigariam o surgimento de um novo processo de escrita que se adequasse ao tratamento de igual para igual entre o autor e sua matéria, suas personagens, de modo a extrair do texto uma fatura à altura dos elementos da narrativa e do tema, e concebendo a personagem como não subordinada ao escritor, mas de par com ele numa luta não previamente decidida pelo autor.

Este é outro desdobramento do projeto de João Antônio: aproximar-se do homem-comum, mobilizando e até ultrapassando a classe média que consumia seus livros, por meio do debate que podia conquistar a mídia. Se o povo não lia, por não ter condições financeiras para aquisição de livros – se não tinha nem mesmo para comer! – ou por ser analfabeto, via televisão, sabia o que ia nas manchetes de jornal e poderia ter notícias dos intensos debates promovidos nas faculdades brasileiras e até mesmo em centros comunitários, como foi acontecendo nesses meados dos anos 70.

Para João Antônio, a literatura era menos importante do que a escrita, e se exigia do escritor que se posicionasse diante dos problemas brasileiros enfrentados naquela década que vivia, a um só tempo, uma ditadura opressora, vigilante do que se produzia culturalmente no país, e uma abertura promissora do mercado editorial. Assim, sendo um texto que penderia mais para a crítica, a análise, o artigo, do que para o conto, mais para o paratexto do que para o texto, ainda que ocupe um lugar em separado, sua inserção no livro autoriza o apagamento da fronteira entre o interior e o exterior da obra de João Antônio. Ao tirá-lo do lugar de texto periférico, como seria o caso das entrevistas e dos depoimentos do autor a terceiros, tanto falados como escritos, e dar a ele o mesmo lugar que ocupam os outros textos do livro e da obra, “Corpo-a-corpo com a vida” é ele mesmo a exemplificação do que seu autor propõe: a negociação continuada do que seja aquilo a que chamamos literatura.

Se é a partir de “Corpo-a-corpo com a vida” que começa a aparecer em sua literatura a aversão pelo literário, é certamente na sua “devoção pessoal”, na sua “quase obsessão” (Prado, 1999, p. 147) por Lima Barreto que ela começa a ganhar forças como projeto. Eliminando o que considera literário na literatura (“a literatura que estraga a literatura”), aproxima-se, assim, da crônica, respaldado pelo precursor que foi Lima Barreto, a quem passa a dedicar todos os seus livros: “A Lima Barreto, pioneiro, consagro”. Sua aproximação com o autor de “Policarpo Quaresma” e de “Os Bruzundangas” – os dois livros mais citados por João Antônio – se dá, principalmente, pela visão desalentadora do Brasil.

À visão ácida do Brasil, só possível de lidar com algum cinismo, alia-se a simpatia pelos deserdados que sofrem na carne o desprezo do país pela sua condição de miseráveis. Antônio Arnoni Prado, em seu artigo “Lima Barreto personagem de João Antônio” (Remate de Males: 1999, pp. 147-167) coloca em relevo um Lima “que inaugura uma incursão estética pela melancolia da pobreza”, cujo valor primeiro está “no alcance do olhar inovador que se reconhece na polifonia daquelas vozes sem nome” e, sobretudo, “na cumplicidade de um narrador (ele próprio um excluído) que vê na escrita a única forma de acertar o passo consigo mesmo e com suas origens”. O “relato-flagrante” da pobreza inaugurado por Lima e a cumplicidade do narrador com suas personagens são justamente o que João Antônio reivindica em “Corpo-a-corpo com a vida” para fazer uma literatura menos alinhada com os padrões estéticos convencionais e mais próxima do sentido de missão.

Para Nicolau Sevcenko, “a concepção puramente utilitária da arte” fazia com que Lima Barreto a concebesse “como uma força de libertação e de ligação entre os homens” (1983, p. 168), sendo, portanto, o caráter de missão de que está investida um dos sentidos mais importantes de sua obra, apesar de não estar reduzida a ele. Já para Antonio Candido, sua “concepção empenhada” da literatura atrapalhou-o a vê-la como arte, resultando daí uma escrita que ficou “perto demais do testemunho, do comentário, do desabafo” (1987, p. 41). Paradoxalmente, é quando Lima não está escrevendo imbuído do sentido de missão, por exemplo, quando faz suas anotações no Diário íntimo, que ele melhor realiza seu desejo de mostrar a vida, segundo o crítico, sem dever nada à realização literária. O mesmo se poderia dizer de João Antônio.

Mas, se a aversão pelo literário, a melancolia da pobreza e o apreço pelos despossuídos ligam João Antônio a Lima Barreto, há dessemelhanças bastante concretas em seus modos de narrar. Uma delas é o tratamento que ambos dão à linguagem. Enquanto Lima Barreto deixa claro no diário “a impossibilidade de uma escrita concebida sob a reflexão paciente de quem se adestra na luta para disciplinar palavras, imagens e ritmos” (Prado, 1999, p. 148), João Antônio investe numa estética completamente ligada às tensões de linguagem, como fica evidente na análise do conjunto de sua produção.

 

Mesmo alegando a vida em lugar da literatura, João Antônio aliou a ambas na construção de uma escrita comprometida com a dignificação de suas personagens do submundo, se aproximando do melhor de Lima Barreto, aprendendo com ele, seguindo-o na convivência com os deserdados e contribuindo para divulgar as obras de Lima, ao mesmo tempo em que se empenhou em propagar sua imagem de escritor injustiçado. Ligando sua literatura à de Lima Barreto, acabou por irmaná-las na intenção de missão e criou para si uma pose de escritor que se assemelha à imagem que ele construiu de Lima.

Desse modo, na década de 70, depois de ter passado algum tempo no Sanatório da Muda estudando com afinco as obras de Lima, entra numa luta contra o apagamento do nome do mestre, fazendo campanhas, inclusive para a reedição de sua obra, para que seus livros sejam lidos, não perdendo uma oportunidade de tocar em seu nome e recomendá-lo em quase todas as entrevistas da época, além de publicar o livro, que é uma forma de homenagem, “Calvários e porres do pingente Afonso Henriques de Lima Barreto” (1977).

A efervescência gerada na década de 70, como se vê pelos vários balanços feitos no “calor da hora”, “ainda sob a tempestade”, foi, em grande medida, a responsável por posicionamentos desse tipo por parte dos escritores brasileiros. Hélio Pólvora, comentando o lançamento de “Malditos escritores!” na revista “Veja” de 16 de março de 1977, escreve matéria intitulada “A vida, com o povo e sem sonegar a arte”, na qual dá o tom da exigência ética feita aos escritores desse período: “A resistência à alienação, causada por desfigurações político-culturais, constitui, pois, o traço saudável dos contos de ‘Malditos escritores!’”. Daí se retira que a escolha era entre o comprometimento e a alienação.

 

Foi uma exigência de época que a literatura tivesse uma função social, já que o contexto político brasileiro estava envolto por uma série de fatores sociais, políticos e econômicos – a busca de uma integração com a produção industrial moderna, a nova articulação do capitalismo brasileiro com o mercado mundial, a entrada do Estado como mecenas da cultura e o consequente impulso do mercado editorial, e a interferência do Estado no processo cultural que, dado o regime ditatorial, exercia um controle político na veiculação de mensagens, o que, segundo Heloisa Buarque de Hollanda e Marcos Gonçalvez, exerceu “uma razoável influência nas prioridades estabelecidas pelos artistas e intelectuais com relação aos canais privilegiados para sua atuação e mesmo na opção por determinados esquemas formais e de linguagem”. Desse modo, “a hierarquização de temas a serem tratados pela ficção ou mesmo pelo jornalismo leva[vam] em conta determinações ‘táticas’” (Novaes, 2005, p. 99). Talvez precise ser dito que uma leitura da década que leve em conta as opções políticas dos escritores, suas determinações táticas, é sempre uma aposta mais generosa e menos autoritária do que aquela que investe em separar o que seriam a “boa e a má literatura”. O olhar que insiste em colocar toda a produção que aproximou literatura e jornalismo, ou que se preocupou em escrever sobre a realidade, no mesmo “balaio”, rebaixando seu valor, pode, depois de passado o calor da década, se mostrar um tanto míope.

A partir da década seguinte, a forma mais aproximada da jornalística foi perdendo espaço. A militância política se afastou um pouco tanto dos livros quanto dos depoimentos do escritor, dando lugar a uma acidez mais decantada, entranhada no íntimo, e à volta dos textos mais literários.

João Antônio “cavou” com todas as forças e estratégias que vislumbrou uma carreira de escritor que lhe desse a possibilidade de viver de literatura. Mas, apesar de ser traduzido em diversas línguas, nunca pôde se afastar do jornalismo, que ocupou o lugar da publicidade, seu ganha-pão do início da carreira. Tendo tomado a decisão de viver de literatura como anuncia ainda em 1964, produz, divulga e procura editor para seus livros. Na década de 1970, quando surge uma abertura, empunha a bandeira pela profissionalização, faz uma enorme campanha para que “valha o contrato” entre editora e autor, para que sejam pagos corretamente os direitos autorais, para que o editor não só publique o livro, mas pague o trabalho do autor. Com o investimento no setor editorial, na década de 1970 João Antônio pôde viver seu papel de agente no mercado econômico, mas passada a euforia do boom e com o fim do incentivo do Estado muitas editoras ficaram sem recursos e o interesse na publicação em larga escala de obras de escritores brasileiros arrefeceu.

Na mudança da década, João Antônio desfaz o contrato com a Civilização e passa a ser editado pela Record. Aquela veia esquerdista e contestatória da Civilização Brasileira, que permitiu a João Antônio criar projetos ousados, como “Malditos escritores!”, não tem nada a ver com o projeto da sua nova editora. Também a onda de ataque à literatura, aos críticos, aos padrões beletristas já tinha rendido vários livros e João Antônio precisava apostar numa mudança. Assim, os novos livros, muito bem cuidados graficamente, ilustrados por artistas gráficos premiados, como Fafs, em “Dedo-duro”, e Rubem Grilo, em “Abraçado ao meu rancor”, chegam ao leitor com menos ânsia de negar a literatura.

Os livros que se seguiram a “Dedo-duro” mantêm a aproximação entre vida e literatura, há em todos a mescla entre novos contos e contos-reportagens retrabalhados, e percebe-se nos novos uma ênfase, outra vez, no memorialismo e no autobiográfico, como se o autor englobasse num só livro uma marca do primeiro João Antônio e do segundo, o crítico da sociedade da década de 70, afirmando, pois, mais uma vez, a tensão entre o que é literatura e o que não é, entre o escritor e o jornalista, entre o escritor e o malandro, oscilando em ocupar o lugar de um e o de outro. •

 

A articulista é autora do livro de ficção “Tinha uma coisa aqui” (7 Letras, 2007) e doutora em Literatura Brasileira pela UFRJ (2010). Faz parte do corpo editorial do Fórum de Literatura Brasileira Contemporânea da UFRJ.

iedamagri@yahoo.com.br

 

Para ler joão antônio

Abraçado ao meu rancor. Cosac Naify 2001.

Calvário e porres do pingente Afonso Henriques de Lima Barreto. Civilização Brasileira, 1977.

Casa de Loucos. Civilização Brasileira, 1976.

Dama do Encantado. Nova Alexandria, 1996.

Dedo-duro. Cosac Naify, 2003.

Guardador. Civilização Brasileira, 1992.

Lambões de caçarola. LP&M, 1977.

Leão-de-chácara. Record, 1980.

Malagueta Perus e Bacanaço. Cosac Naify, 2004.

Malhação do Judas Carioca. Civilização Brasileira, 1975.

Ô, Copacabana! Civilização Brasileira, 1978.

Patuleia: gentes da rua. Ática, 1996.

Paulinho Perna Torta. Mercado Aberto, 1993.

Sete vezes rua. Scipione, 1996.

Um herói sem paradeiro: vidão e agitos de Jacarandá. Atual, 1993.

Zicartola e que tudo mais vá pro inferno. Scipione, 1991.

 

Referências BIBLIOGRÁFICAs

ANTÔNIO, João. Cartas aos amigos Caio Porfírio Carneiro e Fábio Lucas. São Paulo: Ateliê Editorial; Oficina do Livro Rubens Borba de Moraes, 2004.

CANCLINI, Nestor García. A globalização imaginada. Tradução de Sérgio Molina. São Paulo: Iluminuras, 2003.

CANDIDO, Antonio. A educação pela noite e outros ensaios. São Paulo: Ática, 1987.

GASPARI, Elio; HOLLANDA, Heloisa Buarque de; VENTURA, Zuenir. 70/80 – Cultura em trânsito. Da repressão à abertura. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2000.

NOVAES, Adauto (org.). Anos 70: ainda sob a tempestade. Rio de Janeiro: Aeroplano; Editora Senac Rio, 2005.

PÓLVORA, Hélio. “A vida, com o povo e sem sonegar a arte”. Revista Veja, 16 mar. 1977.

Remate de Males. Revista do Departamento de Teoria Literária, n. 19. Unicamp: Campinas, 1999.

SEVCENKO, Nicolau. Literatura como missão. Tensões sociais e criação cultural na Primeira República. São Paulo: Brasiliense, 1983.

SILVA, Mylton Severiano da. Paixão de João Antônio. São Paulo: Editora Casa Amarela, 2005.

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