Lidiana

Lidiana

Thomas Armerjung

 

Em Ouro Preto com meus familiares. Terra de igrejas, mistério e passado. Telefono de lá ao Rio para parabenizar Lucas, amigo de infância, por seu aniversário. Sabia-o deprimido pela morte da mãe, que ainda não havia superado. Trata-se de família querida e há muito conhecida. Seus pais, Tito e Lidiana, davam-se às maravilhas: ele, expansivo, baixo, calvo e brincalhão; ela, elegante, com seu sorriso e seus olhos verdes. Surpreendiam os amigos e convidados promovendo festas tão acolhedoras quanto bem organizadas. No espaço de uma década, haviam morrido, relativamente novos, em circunstâncias lamentáveis (câncer e erro médico, respectivamente). Fico sabendo que seu irmão mais velho, Tito filho, meu colega de escola, que vive do outro lado do mundo, se encontra no Brasil, em rápida viagem de trabalho, desacompanhado da esposa e dos filhos pequenos. Uma escapada furtiva, discreta – contrária aos seus hábitos, aliás; como os pais, era sempre alegre, social, cheio de amigos. A família tinha um sítio num vilarejo minúsculo perto de Minas (Afonso Arinos?), que eu sequer sabia onde ficava. Espontâneo, Lucas me convida para uma pequena comemoração do seu aniversário, apenas para os íntimos, dali a dois dias, no dito sítio.

Pouco mais tarde, um telefonema do irmão mais velho, Tito filho, me comunica o cancelamento da festa. Teria se envolvido com Lucas em acidente de trânsito inócuo, cuja resolução burocrática exigiria contudo suas presenças no Rio, obrigando-os a abortar a viagem. Estranho o modo reservado ao telefone e distante, de modo diverso do que costuma agir.

Retorno de Ouro Preto em direção ao Rio. Estrada principal bloqueada por deslizamentos de verão. Desvio por estradas secundárias, que passam por localidades minúsculas, cobertas de árvores, por bosques cerrados. Tudo sempre enevoado, um pouco escuro, como no primeiro círculo do inferno de Dante. Peço aos familiares para descer numa localidade para visitar uma igrejinha em estilo românico. Ao entrar, verifico que se trata, na verdade, de uma ruína que sofreu reconstrução sobre as antigas bases, mantendo o antigo altar. Irrito-me porque, ao lado, está um sujeito folgado, que me atrapalha a tirada de fotos, parecendo bêbado. Acabo reclamando de modo áspero, dando origem a uma altercação. A altercação é interrompida por outro sujeito, com ares de importância, jovem juiz de roça, amigo dele, que também estava na farra. O magistrado resolve proteger o amigo, ameaçando-me de prisão. Para minha humilhação, sou obrigado a recuar e ser agradável. O incidente me toma muito tempo.

Quando retorno para voltar ao carro, vejo que ele não está mais lá. Meus familiares partiram sem mim por alguma estranha razão. Na região não há cobertura do celular, ou por algum motivo ele não está funcionando. Pergunto onde fica a estação de trem, para que possa voltar ao Rio. Já é noite. Me informam que ela fica em outro distrito igualmente minúsculo, longe dali. Sigo em marcha forçada até uma pequena praça, com um belo coreto velho, rodeado de quatro flamboyants, no meio do quase escuro e no isolamento absoluto.

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Lá, vejo, comprando bebida em um armazém, justamente o meu amigo Lucas e seu irmão, Tito, que veio do exterior. O tal famoso sítio, de que ouvira falar toda a vida, mas ao qual nunca fora, ficava ali, naquela localidade. Grande constrangimento ao me virem. O irmão mais velho explica que o negócio da polícia, decorrente do acidente de trânsito, se resolvera em menos tempo que o imaginado, lhes permitindo subir para o sítio, onde haveria a tal festinha. Não fui avisado por falta de sinal do celular na região. Mas Tito, que era solícito e alegre, parecia estranhamente distante. Sinto que me convida contrariado, e por isso declino do convite, alegando compromissos no Rio. Os dois partem para o sítio.

Volto para a minha escura parada junto à estação. Indago ao único funcionário a que horas passa o trem. Diz que apenas às 5 da manhã. Me sinto malíssimo. Caminho até o armazém e começo a beber para remediar a tristeza e o tempo que custa a passar.

Já alterado pela bebida, mudo de ideia e resolvo aparecer na festinha, onde poderei matar o tempo e curar as desconfianças. De longe, vejo a festança, a maior parte da qual debaixo de um grande caramanchão. Há poucos conhecidos do nosso círculo habitual. Muita gente do lugar, de cuja existência nunca soubera. Me tratam como um estranho ou forasteiro. Volto a me sentir intruso. Parece haver algum segredo. Atribuo a reticência deles à dúvida, por eles acalentada, de não saberem se poderiam confiá-lo a mim ou não.

A certa altura, em rodinha de senhoras alegres, para meu imenso espanto, deparo-me com a mãe dos meus amigos, Lidiana, que eu julgava morta, e a cujo velório comparecera dois anos antes. Estava linda, simpática, carinhosa, educada, generosa como sempre fora. Meu susto acaba contido pela alegria por ela demonstrada por minha presença, e entre beijos e abraços. Deixo-me contagiar pela satisfação em revê-la. Tal não me impede de manifestar minha perplexidade à noiva de Lucas, que entretanto, para minha surpresa, nega que a sogra tivesse morrido. A afirmativa me causa espécie, por me lembrar termos estado juntos no velório de Lidiana e tê-la visto inclusive ajeitar as flores do caixão. Começo a duvidar de mim mesmo; a pensar que a minha memória já estava prejudicada pela bebida. Mas também me pergunto por que razão, então, eu nunca mais voltara em sua casa, no Rio. Por que teria ela permanecido “escondida” naquela minúscula localidade, no interior? Por que os filhos teriam ocultado de mim e de outros íntimos essa informação? Depois de alguns agrados de minha parte, mais drinques e cigarros (ela sempre fumara muito), Lidiana acaba me contando, com seu sorriso e seus olhos verdes, que de fato morrera, mas que conseguira, por meio de certo acordo no além, retornar para ver o primogênito ausente e comemorar o aniversário do caçula. Dá a entender, ainda, que haveria do lado de lá um mecanismo qualquer que lhe permitia, por algum motivo, “viver” naquele lugarejo perdido, como se este último não pertencesse ao mundo real, constituindo, por assim dizer, um misterioso ponto de interseção entre céu e terra, entre a vida terrena e a vida celestial.

A confissão cai sobre mim como um raio. Não apenas por se tratar de uma notícia maravilhosa, mas por me informar da possibilidade efetiva de uma transigência entre a vida e a morte. Haveria então depois da morte algum tipo de vida do espírito que, em outro plano ou dimensão, continuaria a dialogar com este mundo d’aquém túmulo. Estava eliminada a tese de que com a morte tudo termina, que ela tudo dissolve; a revelação abre a possibilidade de, ainda que fugidiamente, manter contato com os entes falecidos. A nova se me afigura como a prova da vitória da vida sobre a morte, fato que me deixa particularmente eufórico.

A revelação me inclui entre os sabedores do segredo e justifica a parcimônia, o estranhamento dos amigos, em particular o que vive no exterior; reticência esta que, depois de esclarecido o grande mistério, desapareceu, tendo sido admitido na grande comunhão. Era evidente a razão da reticência do meu amigo que viera do exterior: ele não viera a trabalho; tratara-se de um pretexto que ele dera à própria esposa e aos demais, para vir furtivamente ao Brasil, participar daquela ocasião única. Os irmãos me abraçam, saúdam; bebemos juntos, no espírito da grande camaradagem e benquerença que entre nós sempre houve.

Passo a noite tendo largas conversas e lembranças com a querida morta, de um lado, e conhecendo os amigos locais dos dois irmãos. Digo bobagens, flerto com uma das moças, rodo para conhecer o sítio, vejo a piscina, os quartos, o jardim; ouço histórias de assombração. A aura de mistério permanece, embora agora em viés positivo, de confiança no desconhecido, e de estranha comunhão entre vida e morte; como se não houvesse a separação entre elas, e elas de alguma forma para todos desconhecida, senão para os presentes, se entrelaçassem.

Conforme a noite avança, começa o cansaço pelo excesso de tabaco e álcool. Os convidados começam a partir e a festa começa a se esvaziar. Chega o momento em que apenas os íntimos ficam, a fim de tomarem a saideira, enquanto os empregados se preparam para voltar para suas casas. Ao invés de ir para a estação de trem, aspiro a dormir por ali mesmo, como fazia nas festas que davam na casa deles, no Rio. O cansaço é invencível, causado pelas peripécias da viagem, pelo abandono estranho de minha família na volta de Ouro Preto, pelo incidente com os locais e o juiz (que, ao fim ao cabo, estavam na festa e confraternizaram comigo, esquecidos do que se passara), pela longa noite de cigarros e uísque, pela falta de comunicação com o Rio, com a coincidência do encontro com os irmãos na estrada, pelo desvelamento do mistério que havia entre eles, e sobretudo, pela grande revelação acerca das relações entre a vida e a morte.

No entanto, percebo, por parte de alguns dos íntimos do local, e inclusive de Tito, certa presteza em despachar parte dos remanescentes. Começo a perceber uma estranha movimentação. Lidiana começa a fazer-se ausente. Diz-se que ela teria ido dormir, mas, pela janela da copa, do lado de fora, vejo que ela ainda está circulando, conversando junto dos empregados que se preparam para sair. Ali, ela parece ter outro comportamento. Fala com eles com mais rudeza, com ares de familiaridade. Ouço até dizer um palavrão, coisa que nunca a ouvira dizer. Enquanto isso, Tito e o chofer encaminham para o carro o aniversariante, Lucas, e sua namorada, os dois também exaustos de bebida, para retornarem logo ao Rio, naquele começo de manhã. Tito também quer me despachar, e entre as inúmeras providências que toma para “encerrar” a festa a contento, despede os empregados e os convidados remanescentes, rearrumando cadeiras e mesas, auxiliado por parte da família local. Tenho a impressão de que ele recomeça a me tratar com certa distância.

Estranhando, dou uma última volta. Vejo na rua aos fundos um pequeno cemitério, e poucos minutos levo para encontrar os túmulos onde estavam enterrados os pais deles, Tito pai e Lidiana. Não consigo conciliar a ideia da vitória sobre a morte com túmulos tão bem fechados, embora conceba a ideia de que o retorno à vida não exigisse necessariamente como veículo a ressurreição do corpo… Mas começo a achar novamente que há algo de suspeito no ar.

Retorno ao sítio. Lucas e a noiva entram no carro, felicíssimos. Despeço-me deles. Abraços, beijos, emoção de bêbados, etc. Vejo certo alívio do irmão mais velho, que age discretamente, mas como se tivesse cumprido um dever. Seu esforço agora é todo por me fazer partir. Antes volto ao interior da casa, a pretexto de ir ao banheiro, e vejo que a mãe desapareceu. Topo, no entanto, com uma prima dela, Agripina, senhora que não conhecia direito, atriz de província (talvez a vi alguma vez, anos antes, em alguma das festas da família no Rio). Ela tinha semelhanças físicas com a morta, mas era mais vulgar, e os traços, mais grosseiros. Tem a aparência de quem estava de rosto lavado, ou que acabara de sair do banho. Conversa comigo entre o constrangimento e a familiaridade. Na área de serviço, entre engradados de cerveja, bandejas de salgadinhos às metades, vejo algo que parece um camarim improvisado, com espelho, maquiagem e uma cadeira, sobre a qual reconheço, amarfanhadas, as roupas da morta. Na pressa de ser despachado, vejo que a prima é cumprimentada num canto por meu amigo, e outros familiares, e recebe até um cheque. Concluo, bêbado e cambaleante, que tudo não passara de uma pantomima do irmão mais velho para dar ao mais novo, como presente de aniversário, a ilusão da mãe viva. Saio deixando ao meu amigo a impressão de que fui enganado também por seu lance de maravilhosa prestidigitação.

Meu mundo desaba enquanto o sol levanta. Volto a uma incredulidade, a um estado de vacuidade perante a efemeridade da vida, ainda mais violento que antes. Retorno à praça da estação, a tempo de tomar o trem.

 

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