Mesa redonda: Presidencialismo de coalizão ressentida

Mesa redonda: Presidencialismo de coalizão ressentida

Adalberto Cardoso

Alberto Almeida

Octavio Amorim Neto

Paulo d’Ávila

 

Se as palavras tivessem preço, “crise” não valeria um níquel. Para a oposição, o governo e o país estão sempre em crise – quase sempre ética. Por outro lado, para a situação, a crise nunca existe e é uma invenção dos invejosos que lhe querem o lugar. Dizem que conversa de corrupção é falta de assunto. Pode ser. Fato é que, quando a oposição vira situação, a crise some. E quando a situação vira oposição, ela reaparece. Então, de fato, em política, a palavra crise costuma não valer um níquel. E com razão.

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Grave, porém, é quando o próprio governo admite a existência da crise. É porque o mundo deve estar caindo. Foi o que aconteceu nas últimas semanas. Foi preciso que a base parlamentar rebelada golpeasse o governo até beijar a lona. Que multidões tomassem as ruas, escancarando a impopularidade da governanta recém-reeleita. As portas do cemitério foram abertas para que as assombrações saíssem em procissão pela República. As crises hídrica, energética, econômica e política nos levam de volta a uma conjuntura negativa que não se via há mais de vinte anos. Nem a governanta agora acha que o Brasil nada em marolinhas ou voa em céu de brigadeiro.

Então, parece, temos enfim uma crise de verdade. E a crise política é a mãe de todas as crises. Sem resolver a crise política, não se resolvem as demais, que requerem o elemento mais básico, que é a governabilidade e direção administrativa. Trata-se de fenômeno inédito desde que o atual regime político se estabilizou entre 1993-1994: uma base em rebelião aberta, cuja pretensão é enquadrar o governo conforme suas diretrizes. Um verdadeiro presidencialismo de coalizão ressentida!

Para entender a barafunda em que anda metida esta pobre e desnorteada República, Inteligência reuniu um quarteto de bambas – Adalberto Cardoso, Alberto Almeida, Octavio Amorim e Paulo d’Ávila – para discutir a crise política. Formaram um verdadeiro gabinete de crise – ou, como se diz na Gringolândia, um situation room. O resultado do bate-bola é o que se segue.

 

Christian Edward Cyril Lynch

Editor

 

Alberto Almeida – Eu tenho ido a Brasília a cada 15 dias e lá tenho a chance de conversar com gente diferente, de todos os lados. A soma dessas informações ajuda a ter um panorama interessante sobre a conjuntura. O governo Dilma começou o segundo mandato acumulando sucessivas derrotas. A primeira delas, a eleição de Eduardo Cunha para a presidência da Câmara. O Julio Delgado, um deputado que não conta exatamente com a ampla simpatia de seus pares, teve 100 votos, apenas 36 a menos do que o candidato do PT, Arlindo Chinaglia. Esse número dá a medida da insatisfação do Congresso com o governo. Depois, houve a devolução da MP 6.669. Por outro lado, o Eduardo Cunha fez os presidentes das principais comissões da Câmara: Reforma Política, Constituição e Justiça, Finanças e Tributação. Esta última, por exemplo, foi entregue à deputada Soraia Santos, do Rio de Janeiro, esposa do deputado Alexandre Santos, extremamente ligado ao Eduardo Cunha. Então, na verdade, a presidente da Comissão de Finanças e Tributação é do Eduardo Cunha. A Comissão de Minas e Energia, em ano de racionamento e de crise na Petrobras, foi para o Rodrigo de Castro, de Minas, um Aecista de carteirinha. A Comissão de Ciência e Tecnologia caiu no colo do PSDB de Goiás. PEC da Bengala? Mais uma derrota. É revés atrás de revés. O governo errou muito. Estimulou, por exemplo, a criação de um partido para o Gilberto Kassab ficar maior que o PMDB. Aquilo foi fatal. A coordenação política tem de ter alguém do PMDB. Não tem jeito! O Henrique Alves está dando sopa. É um político ligado ao próprio Eduardo Cunha. Já o Eliseu Padilha é muito próximo ao Michel Temer. Ou seja: ele não agrega. Ele é mais do Temer. O governo tem de atender ao PMDB. Ponto final. A partir daí, começa a haver conversa.

 

Octavio Amorim neto – Vou jogar um pouco de gasolina na fogueira, mas para confundir. Eu acho que a diferença apertada de 3,5% nas eleições presidenciais e a folgada vitória do PT em Minas Gerais são fatos que geraram um resultado eleitoral extremamente ambíguo. É muito difícil interpretar e agir a partir das informações que a gente tem das urnas de outubro de 2014. Qualquer presidente, por melhor que fosse, ainda que um grande operador político, como Fernando Henrique ou Lula, teria enorme dificuldades de tocar este barco a partir de 1º de janeiro. O interessante, nesse segundo mandato da Dilma, é que formalmente ela vestiu o guarda-roupa do presidencialismo de coalizão. Ela tentou ajustar o ministério à realidade das urnas. Esse novo ministério da Dilma é o menos petista desde 2003 e o que mais aliados e mais ministros apartidários tem. Ela pegou os resultados eleitorais, calculou a nova correlação de forças e adequou os ministérios a isso. Ela deu esse passo correto. Por que, então, as coisas estão dando errado? Aí, é uma questão de condução. Ela deu seis Pastas ao PMDB, mas quais Pastas? Portos, Aviação, Turismo… Não incluiu no conselho político ninguém de fora do PT. Formalmente, montou um governo de coalizão, porém, na prática, fechou seu conselho político apenas com o PT. Aí é complicado. Eu calculei esses indicadores de proporcionalidade de ministério. Está bem alto. É nível de Fernando Henrique.

 

Alberto Almeida  – Faz esse cálculo com os recursos discricionários. O maior volume de recursos discricionários é do Ministério das Cidades, que está com o PSD.

 

Octavio  – Porém, os dois ministérios mais importantes, que sempre estiveram nas mãos dos petistas, Fazenda e Planejamento, estão, hoje, nas mãos de ministros apartidários. Uma eleição apertada, um ambiente de crise político-econômica; teoricamente, a gente teria um incentivo a uma conciliação nacional. Aliás, já está se falando nisso. Lula e Fernando Henrique Cardoso têm de começar a conversar. Se a economia não voltar a crescer, continuar estagnada, vamos precisar de um grande acordo. Um pacto entre elite, governo e oposição. Se o “petrolão” levar a lama para tudo quanto é canto, vamos ter de pensar em pedir uma grande reforma para dar um jeito no sistema político brasileiro. Agora, isso é muito difícil, tanto para o PT quanto para a oposição. O PSDB também não está disposto a isso. Fernando Henrique Cardoso e Aécio estão dando sinais muitos claros de que não teremos atitudes cooperativas. Então, o que a Dilma fez? Ela fez o possível. Já que não dá para governar só com o PT, ao mesmo tempo em que não dá para fazer alguma coisa com a oposição, ela fez um meio-termo. A ideia foi muito boa. Na prancheta, o que a Dilma fez foi muito interessante. Na hora de conduzir, ela não sabe conduzir. Aí é um pragmatismo de curtíssimo prazo.

 

Paulo d’ávila – A questão é se a Dilma poderia ter produzido algum tipo de condução que permitiria trazer o PMDB mais para perto. As informações são controversas. Por um lado, ela abre mais espaço para o PMDB e para a coalizão nos ministérios, por outro, forma um comitê de governo que é basicamente petista. A dificuldade do cenário não é só uma incapacidade de gestão da coalizão por parte da Dilma, a dificuldade passa também por uma estratégia deliberada do PMDB para se fazer cada vez mais importante, essencial, nessa aliança. Em primeiro lugar, que sabe que foi fundamental na vitória apertada do ano passado, em segundo lugar e mais importante, as principais lideranças do partido, Cunha e Renan, estão sob investigação. A presidência das duas casas legislativas foi importante para dar mais capacidade ao partido de forçar o governo a cooperar com o PMDB, protegendo suas lideranças em caso de necessidade. Ter capacidade de chantagem é fundamental para o PMDB neste momento. O cenário de recomposição do governo fica ainda mais complicado se levarmos em consideração que vamos assistir agora a um momento muito delicado para o Congresso, um momento de incerteza política proveniente das investigações dos casos de corrupção. Essa incerteza dificulta ainda mais os arranjos e composições da coalizão.

 

Adalberto Cardoso – Nós ainda estamos vivendo o efeito da eleição, no sentido de que todas as forças estão tentando definir qual é o seu lugar e fazendo isso de maneira muito mais radicalizada do que eu imaginei que pudesse acontecer. Eu não esperaria de uma pessoa com a projeção política do Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, que ele viesse em artigo de jornal falando em impeachment. Isso não está no script de nenhuma normalidade pós-eleitoral. Há espaço para o crescimento da oposição e da sua importância no Congresso Nacional, independentemente de derrubar ou não a Dilma. Porque existe um ator nesse jogo de forças que está muito fragilizado, justamente a própria Dilma. Aliás, eu faria um reparo. Não é que não temos decisões. Nós temos muitas decisões, na direção contrária do interesse do governo. Todas essas derrotas são decisões no ambiente de enorme disputa entre os vários elementos. Isso, acho eu, é o resultado imediato, de curto prazo, do processo eleitoral, que constituiu um parlamento um pouco mais conservador, mas fragmentado e com muito mais apetite, digamos assim, com forças políticas, no caso dos “aliados”, muito raivosas. Está todo mundo, como eu falei, atrás de espaço. A minha percepção é que isso não pode durar. Isso não vai durar. Isso é um momento ainda passageiro, ainda transitório. A tendência é que essas forças se encontrem e cheguem a um padrão de ação que permita ao Brasil andar, porque ninguém vive eternamente em crise.

 

Octavio  – Lembra muito o começo do segundo mandato do FHC, em 1999.

 

Adalberto  – Exatamente. Muita gente dizia que o governo iria cair, e aquele momento passou.

 

Octavio  – Muita gente não só dizia como pedia que o governo caísse.

 

Adalberto  – Foi um governo muito fraco. Fernando Henrique não conseguiu governar. O segundo mandato foi de pato manco do começo ao fim.

 

Octavio  – Mas ele fez muita coisa boa, como a Lei de Responsabilidade Fiscal.

 

Alberto  – Sim. Fez todo o tripé da economia. Mas, voltando ao presente, a Dilma corre o risco de uma combinação já observada em outros momentos da história: governo fraco e Ministro da Fazenda inatacável. O Sarney teve isso com Mailson; o Collor, com Marcilio; Fernando Henrique, com o Malan e o Armínio no Banco Central. O PMDB representa a velha política brasileira. Eles são muito bons. Em março do ano passado, ou seja, antes de começar o processo eleitoral, a Dilma deu uma declaração já no contexto de conflito com o Eduardo Cunha: “Eu prefiro perder a eleição do que ceder a esse pessoal.” Pode procurar no Google que está lá. Então, este choque vinha de antes, bem antes. O que faz o PMDB? Liquida com várias medidas de ajuste. Eles aprovam as propostas, declaram apoio ao Levy e, depois, desencavam vários projetos de apelo popular que anulam os efeitos das medidas. É assim que se mina o governo.

 

Octavio  – Mas, Alberto, o Congresso negociar ajustes fiscais é corretíssimo. Não há nada de errado nisso. Veja a questão das alíquotas do IR. A solução foi razoável. Você se lembra do ajuste fiscal que Malan e Fernando Henrique foram obrigados a fazer em 1997 por conta da crise da Rússia? De uma hora pra outra. O Brasil pegou uma gripe por conta de um espirro da economia internacional, Malan teve de baixar o pacote 51: 51 medidas. Quem era o presidente do Senado na época? Ninguém menos do que Antonio Carlos Magalhães. Ele negociou duríssimo. E foi em cima do IR. Ele quis proteger a base eleitoral dele, de classe média. E Malan, sempre poderosíssimo, foi obrigado a negociar. O colapso do governo Fernando Henrique veio em dezembro de 98, logo depois da eleição. Ele não conseguiu complementar o ajuste fiscal com a reforma da previdência. Houve o famoso apitaço dos sindicatos na Câmara. Então, a base majoritária não teve peito de aprovar a reforma da previdência. A partir daí, começa a deterioração das expectativas sobre a economia brasileira. Mas, em 97, a coisa deu certo. O Congresso não aceitou o pacote 51 e negociou. E o Brasil sobreviveu.

 

Paulo  – Não sei até que ponto podemos colocar todos os problemas de momento na conta da capacidade de gestão da coalizão pela própria Dilma. Uma dimensão da dificuldade operacional do governo é a comunicação política. Toda essa discussão a respeito da economia, das reformas, dos ajustes, não está sendo disputado politicamente. O governo tem mostrado dificuldades em estabelecer claramente qual é o seu percurso e esclarecer as necessidades de ajuste. A comunicação é um grande diferencial entre o primeiro mandato de Dilma e os dois mandatos do Lula. Essa comunicação já era ruim no primeiro mandato, e agora conseguiu piorar. Se não é a própria Dilma, alguém tem que falar pelo governo, disputar a política na comunicação de massa. Um dos grandes problemas que colaboram para a produção de certo sentimento de irritação popular é que há um certo silêncio por parte do governo. A base social de apoio da Dilma se sente órfã do enfrentamento, do debate político. Há uma só voz, da oposição, dos grandes grupos de mídia. Não se tem uma pluralidade de vozes numa disputa em torno da agenda pública hoje. Acho que esse é o grande pecado, mais do que a própria gestão do governo.

 

Octavio  – Eu quero complementar essa análise do Paulo, trazendo à baila mais um elemento importante, que poucos têm mencionado: a crise política dentro do PT, que vem de longe. O PT perdeu 18 cadeiras no Congresso. O parlamento mais fragmentado do mundo e da história democrática é o atual parlamento brasileiro. Isso é uma enorme derrota. Perder 18 deputados. Um parlamento com 23 partidos é um negócio muito grave. Outro aspecto é o enfraquecimento da seção paulista do PT, que começa com o mensalão. A seção paulista, por razões óbvias, lastreava politicamente o PT. Essa seção foi dizimada nos últimos anos. E não há hoje uma nova hegemonia dentro do PT. Tanto é que facções antes minoritárias estão disputando pau a pau, com a ainda facção majoritária, o CNB, do Lula. Isso dificulta muito mais a operação da presidência da República. Acho até que se o próprio Lula fosse hoje o presidente da República, enfrentaria enorme dificuldade de manobra diante do atual momento do PT, sem a seção paulista para vertebrar o partido. O que aconteceu é que Dilma e seus ministros resolveram disputar a hegemonia do partido. Há essa crise também para bloquear o Mercadante e o Pepe Vargas. A questão não é apenas o desempenho deles; eles representam outras facções do PT que não a tradicional facção majoritária e essencialmente paulista que vinha governando o partido desde sempre. Nesse contexto, as informações que saíram das urnas em outubro de 2014 continuam sendo muito importantes. A gente vem enfatizando muito, e necessariamente, o que tem acontecido em janeiro, fevereiro e março. Mas outubro continua vivo. Continua emitindo radiações e gerando mobilizações.

 

Adalberto – Eu concordo plenamente com essa ideia do desmoronamento do PT em São Paulo, mas há uma deslegitimação do partido enquanto tal, da sua força política perante a opinião pública. Uma parte grande da opinião pública já condenou o partido, e isso decorre de um processo longo de desconstrução do PT e de suas figuras principais que começou lá em 2004 ou 2005, com um objetivo muito claro, sempre eleitoral. Agora, por exemplo, o que está em jogo é 2018. A oposição tem de impedir que o PT seja uma alternativa de poder em 2018. Tem um processo de desconstrução, com ódio. O panelaço e os xingamentos contra a Dilma e o Lula mostram isso. Isso contribui para a incapacidade do PT de interpretar o que está acontecendo no Brasil. Por que que tem ódio? De onde vem? Nós estamos falando de uma questão central do jogo político: o processo de construção de projetos, a política como discussão dos fins da ação pública. O PT saiu desse lugar. Foi deslegitimado como partido capaz de formular projetos de ação pública. Isso é fatal para qualquer propósito do governo.

 

Alberto – Eu vejo mais coisas nisso. O Nordeste cresceu mais do que o Sudeste, cresceu mais do que São Paulo. A classe média, que tinha empregada, não tem mais. A classe média tinha acesso direto à faculdade de medicina e hoje tem de disputar com outros estratos da sociedade. Ou seja: há um motivo real para esse incômodo ou ódio. A vida para essas pessoas melhorou menos e, em certos aspectos simbólicos, até piorou.

 

Octavio – Não seria, então, o caso de o PT ter uma estratégia também para a classe média tradicional e a classe média alta? Por que rachar totalmente o eleitorado? Isso não é da tradição da esquerda.

 

Paulo  – De fato, há um desgaste. Estamos no quarto mandato, mas é um desgaste produzido por um tipo de governo que também gerou certos efeitos e impacto na sociedade brasileira. Estamos falando de um partido que produziu políticas públicas e efeitos reais na sociedade brasileira, como o citado crescimento da economia do Nordeste. Agora, ele tem de enfrentar um duplo desgaste: o do tempo e o do enfrentamento. Quando tivemos um governo, por exemplo, que produziu tamanha redução da desigualdade e certa redistribuição de recursos entre regiões brasileiras? Isso provoca reações. O eleitorado conservador está organizado. A mídia, idem. É razoável que as grandes empresas jornalísticas, dependentes de recursos financeiros, façam um coro de oposição. É tudo muito compreensivo. Eles estão formando oposição. Qual é, portanto, a boa medida? Qual é a boa medida para que possamos produzir política pública distributiva e, ao mesmo tempo, garantir governabilidade? Não é uma tarefa fácil. O governo vai ter de vender a alma ao PMDB.

 

Alberto  – Não é vender a alma, não! É um governo de coalizão de verdade. O que não pode é não se ter um membro do PT na mesa da Câmara. Isso não existe. Nunca antes da história desse país se viu algo assim.

 

Paulo  – Não há dúvida. Bater chapa com PMDB na eleição para a presidência da Câmara foi um grande equívoco.

 

Octavio  – Concordo e quero adicionar mais um elemento a nossa análise: a relação entre Dilma e Lula. A Dilma, às vezes, é forçada a errar para manter a autoridade dela vis-à-vis o Lula. Em 2011, ela ainda falava que o Lula seria seu sucessor. A decisão de se recandidatar veio em 2012. O que é interessante é que, em 2012, começa o aprofundamento da nova matriz econômica e todos esses erros que a Dilma está tentando reverter agora. Em 2011, houve a tentativa de baixar os juros na marra. Em 2012, surgiram a administração dos preços da energia, o processo de privatização, ou seja, uma enorme reversão programática em relação àquilo que Lula havia prometido em 2006 e 2010. Ou seja: em certo sentido, a Dilma optou por uma série de políticas econômicas para se diferenciar de seu antecessor. Essa seria a sua grande justificativa para se recandidatar. Porque, se a política econômica dela é igual à de Lula, então o melhor é ficar com o original, é melhor ficar com o escocês, e não com o paraguaio. Resultado: estamos nesse cabo de guerra entre Dilma e Lula desde então. Não podemos esquecer de outro ponto: o Lula é o mentor da Dilma. Isso coloca um problema de autoridade para qualquer chefe de executivo. Já vivemos isso no plano municipal, vide Cesar Maia e Luiz Paulo Conde, no Rio, ou Maluf e Pita em São Paulo. Tendo a personalidade que tem, Dilma procurou afirmar sua autoridade. A última situação que ela aceitaria é ser o “Medvedev” de “Lula Putin”. Ela afirmou a autoridade dela, mas por meio das políticas erradas. Essa é a tragédia da Dilma. Embora eu ache que ela esteja certa em tentar afirmar a sua autoridade. O regime é presidencialista.

 

Alberto  – Mas agora ela não disputa mais eleição, o desgaste do governo é muito grande, e a popularidade é decrescente. A questão é que, depois de um longo período de geração de igualdade, um governo tem de gerar eficiência. Em geral, como se faz isso? Em cima justamente dos pobres. Todo ajuste é feito em cima do mais fraco. Não tem jeito. É o que a Dilma está fazendo agora. Tira-se o recurso de quem está na parte de baixo da pirâmide, de quem tem o lado político mais frágil, e depois esse indivíduo vai ganhar lá na frente. Tudo em nome do quê? Aumentar a capacidade de investimento do país.

 

Octavio – Concordo com você. Ela daria um passo atrás, e, depois, dois à frente. Na teoria, essa é a operação correta. Mas, na prática, como fazer? Isso é obra para estadista: Lula, Mitterrand…

 

Alberto – A Dilma, de alguma forma, se reinventou na economia, aceitando o nome de Joaquim Levy. Então, agora tem de se reinventar na política, aceitando uma participação real do PMDB no governo. Quer uma solução “simples”? Tira o Kassab do ministério e põe outro. Ela não vai fazer isso. Então, terá de fazer um movimento equivalente.

 

Paulo – Juntando um pouco do que o Octavio e o Alberto estão falando, trata-se de um governo que enfrenta o desafio da redistribuição e, ao mesmo tempo, comete erros agora no segundo mandato. Isso é fatal. Temos o desgaste da longa duração, tem enfrentamento da redistribuição. Se cometer erros no governo é um problema, cometer erros nessa circunstância é muito mais grave. A gente precisa unir esses dados ao fato de que forças políticas de oposição ainda não se sentiram acomodadas no novo cenário da derrota que sofreram. Outros governos cometeram erros no começo de mandato, como no já citado caso do Fernando Henrique Cardoso. A diferença, no entanto, é que o governo Dilma cometeu erros neste cenário de tensão e de desgaste pela provocação do tema da desigualdade e da inclusão social. Quando eu falei vender a alma, estava fazendo uma brincadeira no sentido de que é preciso chamar o PMDB para uma conversa. Para eu produzir uma sociedade mais democrática, no sentido de gerar redistribuição, eu preciso me aliar a grupos mais conservadores ou eu não faço redistribuição alguma sem ruptura das instituições. Não há outra saída. E essa é a dificuldade constante. Porque acho que produz um conjunto de descontentamento. Onde está o contentamento com o PT neste período? Não encontro contentamento em lugar nenhum.

 

Octavio  – Há um ano, a Dilma disse que o Brasil estava comprometido com a estabilidade fiscal. 2014 foi o pior resultado fiscal da gestão do PT. São fatos como esse que a fazem perder credibilidade. O que matou a Dilma foi o pragmatismo de curto prazo. Ela via os erros acontecendo e não reconhecia publicamente, mas agia no sentido de tentar retificar e logo depois voltava atrás. Agora, há também dados objetivos que fortaleceram muito essa concepção negativa a respeito dela. Eu tenho aqui o número de medidas provisórias de todos os presidentes desde Collor. E também o número de projetos de lei que cada presidente enviou ao Congresso. Todos os presidentes enviaram mais projetos de lei do que medidas provisórias, com exceção de Lula 1. Agora, a Dilma é a campeã. Ela emitiu, ao longo de quatro anos, 145 medidas provisórias. Sabem quantos projetos de lei ela enviou ao Congresso? 84. O Lula 2 emitiu 179 medidas provisórias e 203 projetos de lei. Vamos passar para o Fernando Henrique. Primeiro mandato: 159 medidas provisórias e 203 projetos de lei ordinária. Segundo mandato: 206 medidas provisórias. Ele usou e abusou, porém mandou 236 projetos de lei para o Congresso. Dilma é a presidente mais decretista desde a posse de Fernando Collor de Melo. Fernando Collor de Melo, no primeiro ano, usou e abusou de medida provisória. Aí, no segundo ano, o PMDB quebrou a coluna vertebral dele. Quase acabaram com a medida provisória, ou a circunscreveram a temas muito pequenos. Então, eu acho que também há bases objetivas para essa irritação do Congresso em relação à Dilma. O analista político argentino Rosendo Fraga diz que é mais fácil mudar a ideologia de um presidente do que ele mudar a sua personalidade. No caso da Dilma, isso também se comprova.

 

Adalberto – Em cima dos números apresentados pelo Octavio, podemos perceber que a Dilma legislou pouco, porque ela mandou menos medidas do que FHC 1 e 2, Lula 1 e 2, muito menos medidas provisória do que os dois e muito menos projetos de lei do que os dois. Ela, como agente legislativo, está muito aquém. Muito liberal. Muito menos do que Itamar ou Collor. Quem tem a iniciativa da política no Brasil é o executivo. Sempre foi assim.

 

Alberto – Outro ponto importante é a comunicação do governo. O presidente tem de se comunicar de maneira sistemática. O que o Lula fazia serve de exemplo. Ele inaugurava meia dúzia de casas não sei onde e falava de um tema que dizia respeito a todo mundo. E sempre com uma grande frase. No dia seguinte, todo o debate era em cima daquela questão que ele levantou. É assim que o presidente se comunica. E duas vezes por semana. A Dilma deu 70 entrevistas durante a campanha eleitoral, ou seja, ela é capaz de fazer. Ela estava sobre pressão da campanha eleitoral, foi lá e fez. Agora ela continua sobre pressão de uma campanha eleitoral, porque governar é estar em campanha eleitoral. Por que o governante tem de falar? Ele fala para os eleitores, para a opinião pública em geral e também para o mundo político. Diz para onde o país está indo. “Eu estou conduzindo o país nesta direção e as medidas são estas.” Só tem dois agentes que pautam para valer a mídia: o mercado e o presidente da República. Ela precisa se comunicar e, ao mesmo tempo, distribuir afagos entre os políticos. Os políticos gostam de carinho. Querem entrar no avião presidencial, ser recebidos no Palácio do Planalto sistematicamente, tirar fotos com a presidente. Essas práticas resolveriam boa parte dos problemas de relacionamento político do governo.

 

Octavio – Eu concordo que melhorar a comunicação é vital. Eu procurei listar as MPs e os projetos de lei porque este ano de 2015 será muito mais difícil do que o de 2003 em termos de ajuste econômico e também de condução política. Com relação à parte econômica, eu me baseio nas ideias de Samuel Pessoa, meu colega da FGV. O esforço fiscal será maior do que em 2003. O cenário é muito desafiador, por uma série de motivos. O mercado de trabalho está sem folga e é muito difícil baixar inflação nessa circunstância. Os preços das commodities seguem em queda, por conta da desaceleração chinesa. E há ainda o risco de aumento da taxa de juros dos EUA. Esses quatros elementos dificultam o ajuste neste momento. A comparação da ambiência política também não favorece a Dilma. Ela teve uma vitória muito apertada, ao passo que Lula deu uma surra em 2003. Hoje, o PT está enfraquecido na Câmara, e, por consequência, a oposição está mais forte, aguerrida. O PSDB mudou. É outro partido em relação ao que havia sido nos últimos 12 anos. Há também os grandes riscos embutidos nos escândalos da Petrobras, a crescente fadiga dos eleitores com o partido que está no poder há mais de uma década e um aspecto fundamental em relação à comunicação política: não há mais como colocar a culpa no FHC. O PT se especializou em derrotar o PSDB. O PT sabe derrotar o PSDB. E, agora, isso não funciona mais. Não adianta responsabilizar o outro, depois de 12 anos. O próprio Fernando Henrique Cardoso transformou isso em piada.

 

Paulo – Há outra questão: os partidos identificados como de esquerda têm mais dificuldade de captação de recursos eleitorais proveniente das grandes empresas. O PT teve dificuldades em 1994 e 1998. Em 2002, o partido começa a organizar as suas finanças para fazer seus enfrentamentos nas eleições seguintes. Essa organização das finanças vai dar agora no problema que estamos assistindo. Era a forma de combate que tinha esse partido com menos capacidade de captação de recurso, como tem até hoje. Mesmo depois de se tornar governo, em 2006, o PT arrecada menos doações empresariais que a oposição. Ao se analisar a tabela de doações de 2010, percebe-se que a oposição recebeu mais recursos de empresas. A Dilma, então, tem de administrar o passivo de um partido que precisou encontrar formas para enfrentar tal situação a longo prazo. Estamos, portanto, em um momento em que o erro cometido, como eu falei, ganha uma dimensão muito grande. Mas trata-se também de um momento muito rico para se pensar nas instituições, inclusive o item agenda do financiamento de campanha. Temos então um duplo desgaste governamental, em função do enfrentamento da redistribuição de renda e benefícios sociais e pelo tema da corrupção. Eu perguntaria: essa eleição apertada foi entre dois projetos ou entre um projeto e seu próprio desgaste? O PT ganha a eleição e tem de enfrentar o problema do ajuste das contas, mesmo que seja para poder produzir mais distribuição adiante. Este governo começou mal, mas está usando a agenda de seu antagonista. A oposição vai ficar sem agenda. O PSDB busca captar essa insatisfação, mas não me parece ser de fato uma alternativa política. Ele não tem alternativa de projeto. Por isso, há o “Fora, PT”, “Fora, Dilma”, mas ninguém identifica claramente uma alternativa política na oposição. Se o PSDB tivesse sido capaz de captar este sentimento de insatisfação, ou teria ganhado a eleição ou agora o PT estaria mais no córner do que já está. Uma das vantagens da Dilma é que ela não tem uma oposição forte. A dificuldade do governo é muito mais dentro da sua própria base do que no enfrentamento com a oposição.

 

Octavio – Você não acha que todas as dificuldades que a Dilma tem foram magnificadas pela campanha? Pelo que ela disse para derrotar seus adversários? O que ela disse para destruir a Marina e depois para derrotar o Aécio? Nós já vivemos vários episódios de reversão programática: em 86, com o Cruzado 2; Collor acusou o Lula de querer sequestrar a poupança e, depois foi lá e fez o confisco; Fernando Henrique Cardoso prometeu manter a paridade do real e desvalorizou a moeda um mês depois. Isso nós já conhecemos. Mas essa distância do que foi dito na campanha e o que foi feito logo depois não terá sido muito maior agora? Aquele Exocet que foi lançado contra a Marina para destruí-la por conta da autonomia do Banco Central não precisava ser tão forte. Para desmontar a Marina não precisava daquela bomba atômica. Hoje, a Dilma tem de limpar essa Nagasaki.

 

Alberto – O John Major, quando primeiro-ministro britânico, foi ao parlamento e disse que não iria desvalorizar a libra. No dia seguinte, desvalorizou. Isso faz parte. O governo tem de gerenciar expectativas. A comunicação serve para isso. Só que, quando acabou a eleição, a Dilma não estava convencida de que iria tomar medidas dessa natureza. Ela resistiu ao Levy.

 

Adalberto – Tem um ponto que eu acho importante no que diz respeito à comunicação. Vocês são cientistas políticos, eu não sou. Então, eu olho do lado de onde eu posso falar. A presidente pode ter a melhor das intenções, uma capacidade discursiva excepcional, mas o ambiente é inteiramente adverso a qualquer coisa que ela fale ou faça. Há uma má vontade, generalizada, de todos os agentes, que vai do Judiciário ao Parlamento, passando pela opinião pública. Desfazer isso não é tão simples. Para uma pessoa como ela, que acha que está certa o tempo inteiro e não ouve outras pessoas –, e, quando, escuta, escuta as pessoas erradas ou, pelo menos, os conselhos errados –, é muito complicado.

 

Paulo – Eu acho que a Dilma pode ser um bom quadro para dias de ventos fortes e contínuos. Mas sem vento, ela se complica. Ela não é uma boa opção para gerir crises. Mas eu quero responder a uma pergunta do Octavio que ficou mais para trás. Se eu acho que os ditos ataques de eleições podem ter causado este efeito negativo de agora? Não, não acho não. Acho que faz parte do jogo. A polarização já estava dada.

 

Alberto – Um ponto importante ainda nessa seara da comunicação. Quando o governante sabe que não consegue resolver um determinado problema, ele aborda a questão de outra maneira. Um exemplo: o Garotinho. Ele usou isso: “Tenho nove filhos, eu sou o mais interessado em resolver a violência.” Este ano vai ser difícil, então, como o governo faz? O governo não pode falar nada contra o que as pessoas estão percebendo e tem de mostrar empenho em resolver o problema. “Estamos tomando esta, esta e esta medida.” Há mil metáforas próximas à vida das pessoas que podem ser usadas. O Lula usaria: “É um pai desempregado, que, no dia seguinte, começou a procurar emprego, mostrou à família que está empenhado e um dia vai conseguir.”

 

Octavio – Um aspecto que a gente ainda não abordou é a política externa. Não sou especialista no assunto, mas é outra área em que as dificuldades da Dilma se manifestaram radicalmente. Eu reconheço que não havia mais condições estruturais para o Brasil continuar com a politica externa tão altiva e ativa como nos dois mandatos do Lula. Qualquer presidente teria dificuldade para lidar com a Argentina, com o Mercosul como está. De qualquer modo, a Dilma, do ponto de vista retórico, manteve a mesma política externa do Lula. Ela não mudou as grandes linhas da política externa do Lula, mas mesmo assim ela dá a sensação de ter acabado com a política externa. O Lula, lembremos, abriu várias embaixadas na África, algo decisivo para a ampliação da influência geopolítica brasileira e para a vitória de um candidato brasileiro da Organização Mundial de Mercado. O que a Dilma faz? Pega o orçamento do Itamaraty e o reduz radicalmente. As embaixadas brasileiras estão nessa situação. Então, há algo na Dilma que eu não compreendo. Ela não gosta dos políticos, não gosta dos diplomatas. São os dois principais atores com os quais ela tem que lidar. Os políticos para a política doméstica e os diplomatas para a política exterior. A Dilma não gosta dos dois. Então, como é que essa presidente vai pilotar um 2015 como este?

 

Adalberto – Eu vou trazer uma questão para esta mesa que ainda não apareceu, que é junho de 2013. Estou trazendo 2013 porque parte do cenário atual decorre de lá. Aquele momento teve grande influência na eleição. Poderia ter produzido a Marina. E mesmo no segundo turno. Junho de 2013 levou o Aécio a radicalizar o seu discurso no segundo turno. Ele colocou a agenda conservadora de 2013, colocou na sua agenda e radicalizou pesadamente o seu discurso. Por outro lado, parte do momento atual é fruto da radicalização do processo eleitoral e do resultado apertado da eleição.

 

Alberto – Não sei qual a opinião de vocês, mas, no meu entender, grande parte da dificuldade da Dilma é que ela não gerenciou o pós-eleição. Ela não queria o Joaquim Levy. No dia seguinte ao segundo turno, o Lula vai à mídia e vaza o nome do Luiz Carlos Trabuco, mexendo no mercado. Depois ele diz que é candidato em 2018. Na hora em que traz à cena o nome do Trabuco, ele liquidou o Mercadante, que estava fazendo campanha para ser Ministro da Fazenda. E criou uma expectativa em todos os agentes que o ministro viria naquela direção. A Dilma naquele dia definiu o perfil. Ela foi reeleita no domingo à noite e na segunda deu uma entrevista na TV Record. O repórter perguntou se Trabuco ia ser o ministro. Ela estava irada e respondeu com veemência: “Não!” O que o Lula fez? Uma manobra política para encaixar um perfil de ministro. O que acontece? A Dilma ficou quietinha por duas semanas. No fim de novembro, saiu nos jornais que o Trabuco aceitara ser o ministro da Fazenda. Foi, sem dúvida, uma nova investida do Lula. Aí, a Dilma não teve saída. Não foi de Trabuco, mas foi de Levy. Com o passar do tempo, a ficha caiu para ela. Então, ela se reinventou na economia por conta de uma pressão muito forte. Mas não na política. Quando ela anuncia mais três negociadores, Aldo Rebelo, Gilberto Kassab e Eliseu Padilha, não se trata de uma mudança de fato. Tem de mudar os personagens que estão lá no Palácio do Planalto.

 

Octavio – É como diz o Wanderley Guilherme dos Santos: a Dilma tem o comando, mas não a liderança. Por isso, ela tem essa enorme dificuldade e o Lula, de vez em quando, passa a perna nela.

 

Alberto – Não vejo muito mistério, não. Ela tira o Pepe Vargas e põe o Henrique Alves no lugar. Pronto. Põe o Lula na Casa Civil sem ter formalmente o cargo. O Lula fica sendo articulador. Você faz um acordo: Henrique Alves e Lula negociam. Lula lá com o PT e os outros, e o Henrique Alves com o PMDB. É uma questão de sobrevivência. Ou, então, perde em 2018. Agora, tem áreas que não estão mais sob o controle do executivo. O Brasil mudou. Antigamente, desembargador era parente de político. Hoje, não é mais. Os marcos legais são novos. As novas leis deram mais poderes ao Judiciário e ao Ministério Público.

 

Octavio – Mas, Alberto, você não pode negar que no Brasil é muito específico nesse aspecto. Os três grandes órgãos de imprensa são todos conservadores. Você não tem um El País, como na Espanha. O JB no começo da democratização tentou se posicionar mais à esquerda para sobreviver à competição com O Globo e não resistiu. Não resistiu e quebrou. A grande vocação do JB no regime democrático era ser mais ou menos o El País brasileiro. Não acho que seja a solução ficar com a mídia só da internet. O fato é que a internet acabou fortalecendo os velhos órgãos de comunicação porque estes têm muito mais credibilidade. Na internet, fala-se qualquer coisa, basta ver o grau de radicalização nas mídias sociais. Então, há um problema, Alberto, não dá para negar. A gente não tem um bom e grande jornal que seja de esquerda.

 

Alberto – Octavio, só tem o jornal se tiver o leitor.

 

Octavio – Mas será que, no Rio de Janeiro e em São Paulo, não há um pessoal mais disposto a ler um El País?

 

Alberto – Quem faz a diferenciação do jornal é o leitor. Se alguém fizer um jornal de que a opinião pública predominante discorda, acabou. Não tem jornal.

 

Octavio – O El País tem como grande articulista o Mario Vargas Llosa, um personagem extremamente liberal.

 

Paulo – Acho que não cabe botar a culpa da crise na mídia. Agora, que o PT perde a batalha interpretativa, disso não há dúvida alguma. Em parte, porque perdeu credibilidade em função dos escândalos em que está envolvido; em parte, porque há um controle midiático de um certo discurso.

 

Octavio – Grande ponto, Paulo. O que falta ao PT? Ok, falta um El País ao PT. Agora, a dificuldade do PT de ganhar o debate no grande público também tem a ver com o fato de o partido jamais assumir a culpa. Ninguém, nenhuma grande liderança, diz: “Realmente, erramos muito.” O Lula fala assim: “Ah! A gente comete erro como todo mundo comete.” “Qual o erro, presidente Lula?” Ele não vai dizer. Não há uma convenção para fazer uma reforma programática. Tarso Genro pediu isso em 2005, quando foi derrotado. O PT continua dizendo que certas coisas que aconteceram não aconteceram. Aí, não dá para ganhar o debate pela narrativa política do país, com ou sem um El País. A condição necessária é ter um jornal afeito ao ideário de esquerda. Já a condição suficiente é o partido reconhecer que cometeu grandes erros. Bastava o Lula usar toda a autoridade que ele tem, com toda a capacidade de comunicação, e dizer: “Eu errei, nós erramos, reconhecemos isso tudo.” Estou falando de erros políticos, não estou falando nada jurídico. “Nós cometemos o erro de fazer uma aliança com a direita clientelista brasileira.” Como é que um partido de esquerda exemplar, como o PT, o melhor representante do socialismo europeu, faz um governo de coalizão com os herdeiros do regime militar? O PP é o partido mais devastado pelo “petrolão”. O primeiro grande reconhecimento de erro político tem a ver com a política de alianças. Esse erro é fatal. Como um partido de esquerda governa com o PTB, o PL? O Lula deveria falar: “Erramos, errei. Não deveríamos ter feito o acordo.”

 

Paulo – Octavio, uma frase como essa poderia redimir o Lula em relação a um tipo de eleitorado que tem ódio agora porque ele fez aliança com a direita. Mas quem bateu panela não está preocupado com as alianças que o PT fez com a direita. Eu não vejo o menor impacto desse tipo de declaração em relação a esse eleitorado que está batendo panela.

 

Octavio – Paulo, eu discordo de você. Esse pessoal que está batendo panela é antipolítico no coração. E porque eles odeiam a política? Há várias razões corretas e algumas totalmente equivocadas. Eles odeiam a política por conta disso: o sujeito era inimigo figadal de José Sarney e Collor de Melo. Onde estão Sarney e Collor agora? E mais o Waldemar Costa Neto, o PP, herdeiro do PDS. Como é que isso não ia dar numa crise? Como é que uma aliança absolutamente esdrúxula como essa não ia fulminar a legitimidade?

 

Alberto – Sabem por que a coalizão é tão grande e ampla? Tempo de TV. É muito simples.

 

Octavio – Alberto, outro pedido de desculpas que o Lula poderia fazer: “Nós deveríamos ter profissionalizado todo o funcionalismo público. Vamos acabar com esse negócio de 21 mil cargos de confiança.” Alguém acha que reconhecer esses dois erros de estratégia iria manchar a biografia do Lula? Qualquer grande líder comete erros. Na minha visão, enquanto esse mea culpa não for feito, o caldeirão vai continuar fervendo, o ódio vai aumentar. Qual é o governo que não erra? Roosevelt, grande presidente da história norte-americana, errou várias vezes. Esse reconhecimento seria um grande começo. Teria um efeito de distensão do sistema político enorme. O PT sai do pedestal. “Acertamos em quase tudo, mas cometemos um erro na política de aliança e nas nomeações dos cargos de confiança.” Ganha 2018 facilmente!

 

Alberto – Permitam eu trazer à discussão algumas projeções econômicas para este ano. O PIB pode ser de 2% negativos e a inflação, entre 8% e 9%…

 

Octavio – Vou interromper… Não sei se você leu o último livro do Lampreia, Aposta em Teerã. Ele narra um debate entre Lula e Ahmadinejad. O livro discute se Lula e Celso Amorim acertaram ou erraram ao tentar bancar um acordo para resolver aquele conflito sobre o problema nuclear Iraniano. Chegou um momento em que o Lula estava irritado com o Ahmadinejad porque ele estava negando o holocausto. Aí os dois se encontraram. O Lula pediu ao Ahmadinejad para se moderar. E o Ahmadinejad começou a se explicar e dar razões históricas para as suas declarações. Foi quando o Lula saiu com esta frase: “Quando um político começa a explicar muito, é porque já perdeu.” Eu acho que o Lula teria dificuldade de pedir desculpas necessárias por conta disso. Ela vai ter de começar a se explicar, algo a que ele se recusa peremptoriamente.

 

Paulo – Não acho que esse seja um bom caminho para debelar a crise. Certas atitudes podem ser mais eficientes e podem querer dizer a mesma coisa sem que se corra o risco desse tipo de depoimento. O que seria isso? Trazer o PMDB mais para dentro do governo e no âmbito da CPI apoiar a apuração dos fatos, apenas para citar dois movimentos. Acho que esse tipo de ação pode ter um impacto mais eficiente.

 

Octavio – Concordo com você. Se o governo der dez passos para distensionar o ambiente político, está ótimo. Não precisará reconhecer culpa alguma. Agora, com o pedido de desculpas pelos erros, há mais ganho. Virá uma distensão maior no ambiente político do país.

 

Adalberto – A situação econômica contamina a questão política. O Brasil já parou e vai continuar parado por muito tempo. Vamos ter no primeiro trimestre uma queda de 3% ou 4% no PIB em comparação ao último trimestre do ano passado. Há demissões em todos os setores da economia: financeiro, comércio, indústria, petróleo, tudo. As empreiteiras estão demitindo loucamente. Teremos crises cruzadas, que passarão pelos bancos, pelas empreiteiras, pelas seguradoras etc. Neste ano, teremos um resultado negativo muito maior do que está sendo projetado. Em 2016, se o PIB crescer 1%, a alta se dará sobre um patamar de comparação muito ruim. Nós podemos chegar em 2018 com um cenário parecido com de 2010. Mas 2015 será um ano de razia, de orçamento muito baixo.

 

Octavio – Você acha que seria bom para o Brasil e para a democracia um quinto mandato do PT?

 

Adalberto – Não estou discutindo se é bom ou ruim. Não sei por que isso depende de muitos outros fatores. Eu só estou chamando atenção para esse aspecto. A crise hoje decorre muito do fato de que determinados atores do quadro político-econômico estão perdendo em demasia. A crise está atingindo grupos que têm o poder de veto na economia e na política brasileira. Isso inclui os donos dos meios de comunicação.

 

Octavio – Agora, é um absoluto equívoco de análise política e de interpretação do nosso regime achar que, por conta do mau desempenho político-econômico do país, a presidente deve ser destituída. Isso é uma grande loucura. Porque o regime presidencial se caracteriza por mandatos fixos. Se ela foi eleita para quatro anos, tem de cumprir quatro anos. Por pior que seja o desempenho. As condições para o impeachment são dificílimas. Existe uma couraça constitucional em torno do presidente justamente porque o regime é presidencial. O presidente não é responsável nem politicamente. Não existe moção de desconfiança no presidencialismo. O presidente pode ser péssimo, mas, como disse a Dilma, tem de ter paciência.

 

Paulo – Eu gostaria de voltar e responder a sua pergunta se seria bom para o Brasil um quinto mandato do PT. O que eu acho é que o bom para a democracia não é regular quantos mandatos o presidente ou o partido vai ter. Bom para a democracia são eleições competitivas, lícitas. Que a pessoa possa disputar, ter condições boas de competição e de pluralidade de comunicação. Se o eleitorado acha por bem um quinto mandato, eu não vejo isso como um problema.

 

Octavio – A esse respeito, eu queria citar os argumentos de Ariel Armony, um politólogo argentino que trabalha nos Estados Unidos e estuda a relação entre os direitos civis, políticos e sociais. Ele diz o seguinte: “Nenhuma sociedade consegue maximizar os três ao mesmo tempo. Nem a Suécia.” Por que ele diz na Suécia? A Suécia é o paraíso dos direitos civis e sociais, porém, os socialistas ficaram no poder 40 anos. Houve uma erosão dos direitos políticos da Suécia. É a sociedade mais civilizada do mundo, mas 40 anos com o mesmo partido ganhando, ainda que com eleições competitivas, é um pouco demais. Então a gente tem de refletir. Não dá para maximizar os três direitos ao mesmo tempo. Então, é necessário fazer uma escolha. Eu acho que 16 anos de PT está sendo ótimo. Agora, mais um mandato não será bom nem para democracia, nem para o próprio partido. O PT tem de passar uma temporada na oposição para se revitalizar. Se o PT não sair dessa crise, ele pode virar um PTB e nunca mais voltar à Presidência da República ou deixar de ser um partido competitivo. O Renato Janine Ribeiro observou muito bem: um dos aspectos mais irônicos do nosso atual regime democrático é que nenhum dos partidos que tenha ocupado a presidência voltou. O PMDB não retornou, o PSDB não voltou. Será que se o PT ficar 20 anos, ele volta?

 

Alberto – O PSDB não voltou agora em outubro por 3,5%. Vamos olhar a lógica eleitoral. O Nordeste vota no PT, São Paulo vota no PSDB. Então, está garantido o segundo turno entre PT e PSDB. Quaisquer que sejam os candidatos. Não tem espaço para outro partido. O PMDB ameaça lançar o Eduardo Paes. De onde ele vai tirar os votos para ir ao segundo turno? Só o Rio de Janeiro não é o suficiente. Imagina um candidato sem recall, absolutamente zero. Pode ser o mais desconhecido possível. Começou a campanha, bum! Ele passa a ser conhecido. Foi exatamente o que aconteceu com o Aécio. O Aécio foi um experimento. O PT faria a mesma coisa com um sujeito desconhecido em nível nacional.

 

Octavio – Então, você acha que é uma vantagem estrutural destes dois partidos?

 

Alberto – Claro, vantagem estrutura. Estrutural. A Marina é que podia tirar.

 

Octavio – Aliás, cadê a Marina?

 

Paulo – Concordo com o Octavio que pode ser pior para o PT ter um quinto mandato, mas não para a democracia. São duas coisas diferentes.

 

Octavio – No ano passado, muita gente do PT já dizia que a reeleição da Dilma poderia ser um problema gravíssimo para o partido.

 

Alberto – Se o Lula ganha em 2018 e põe o Palocci na Fazenda, todo mundo vai soltar fogos. Tudo de novo, que beleza!

 

Adalberto – O fato é que a lei de ferro da oligarquia existe mesmo. Não tem escapatória. Quem domina o poder vai tentar fechar os mecanismos de acesso. Isso já está mais do que demonstrado há 100 anos, pelo menos. Sob esse ponto de vista, o PT está sofrendo esse problema. Não tem saída fácil para o partido. O PT teria de retomar suas raízes, refazer seus laços com os movimentos sociais…

 

Octavio – Precisa ser mais programático…

 

Adalberto – Sem dúvida. Mas essa possibilidade de renovação hoje não existe. Com o PT no poder central, essa hipótese não está dada. Isso não quer dizer, e eu concordo com o que Paulo disse, que a permanência do PT seja ruim para a democracia em geral. Agora, é claro, o PT corre o risco de ser varrido da cena política brasileira nos próximos anos.

 

Alberto – O PT? O PT nunca elegeu um grupo de governadores tão importantes como agora.

 

Octavio – A começar por Minas.

 

Adalberto – Eu não estou olhando a última eleição. Eu estou olhando para a frente. Refiro-me à incapacidade que o partido tem mostrado neste momento de crise. Isso pode significar uma incapacidade completa de administrar para os próximos anos. O partido já perdeu São Paulo. Pode perder o Nordeste.

 

Alberto – Se crescer 3% ao ano, não.

 

Adalberto – Sim, são cenários, projeções. Estou falando isso com o objetivo de chamar a atenção para o dilema que o PT vive hoje.

 

Octavio – Os argumentos do Adalberto são muito bons. Agora, eu acho que há uma vantagem estrutural da esquerda no Brasil. Nós somos uma sociedade desigual, cujo principal tema eleitoral é redistribuição de renda. Quem tem credibilidade para falar de distribuição de renda? A direita? A direita brasileira que em pleno século XX fez o que fez? Olhando mais pra frente, e eu concordo com o Alberto, eu acho muito difícil não vermos o PT como um dos dois grandes partidos brasileiros, disputando a presidência para valer. Mas essa conjuntura crítica de 2015 e 2018 vai ser decisiva para o futuro da política brasileira nas próximas décadas.

 

Alberto – Com relação a essa conjuntura e ao timing, a declaração do Joaquim Levy é perfeita. Quanto mais duro você for, mais rapidamente virá a solução.

 

Octavio – Em 1999, foi assim. Houve a desvalorização e o primeiro trimestre foi terrível. No fim de 1999, o Brasil já estava crescendo. Em 2000 cresceu.

 

Alberto – O problema é que não vai ser tão rápido assim. São 120 dias. O projeto de lei tramita muito mais lentamente.

 

Octavio – Esse timing é complexo, mas eu quero mudar a conversa de direção e trazer de novo à pauta um assunto que foi tratado en passant: a questão do impeachment. Só há condições de se abrir um processo de suspensão de mandato com culpa e dolo do presidente, no exercício do mandato. Então, não há evidência de culpa e nem dolo por parte da Dilma.

 

Alberto – Sem dúvida, isso não existe. Agora, a Dilma está numa crise pessoal. É uma decisão pessoal ceder de fato para um governo verdadeiramente de coalizão. Ela não fez isso. Na prática, o PMDB não está sendo devidamente atendido e integrado ao governo. O PMDB tem a faca e o queijo na mão. Se ela não cede, o partido a derrota.

 

Paulo – Quanto mais gente for para as ruas protestar, mais o PMDB vai ter o queijo na mão para negociar. A Dilma tem de perceber essa conjuntura e incorporar mais o PMDB.

 

Octavio – A gente não pode esquecer que há um conflito estrutural entre o PT e o PMDB, que se manifesta no plano municipal. Porque a sustentação eleitoral do PMDB como o grande partido fazedor de governo no plano nacional está nos municípios. O PT começou muito pequeno nas cidades e tem como objetivo tornar-se o maior partido nos planos municipal, estadual e federal. Agora, por uma série de razões, PT e PMDB estão aliados, mas não abdicaram dos seus projetos de hegemonia no plano municipal.

 

Paulo – Octavio, você explica assim o insucesso do PT no plano parlamentar?

 

Octavio – Existe, sim, uma relação entre desempenho municipal e desempenho nas eleições para a Câmara…

 

Adalberto – Mas o PT perdeu em São Paulo e Pernambuco. O resto do Brasil foi igual…

 

Alberto – Sim, mas a inversão em São Paulo foi muito grande. O segundo turno é um excelente indicador. Na eleição anterior, a vantagem do PSDB sobre o PT foi de 10 pontos percentuais. Dessa vez, foi de 30 pontos percentuais.

 

Octavio – Essa é uma grande questão. Como é que um partido que nasce em São Paulo e é eminentemente paulista é humilhado em São Paulo? Pode se dar algo parecido com o que ocorreu com o Brizola no Rio de Janeiro. Quando o eleitorado do Rio de Janeiro passou a ter ódio mortal do Brizola, acabou a carreira política dele.

 

Alberto – O PT em São Paulo tem de ser um partido no estilo Haddad. Tinha um deputado no Democrata no Texas que defendia a legalização de armas e outras agendas republicanas. Ele falava para o texano. O PT de São Paulo tem de ser diferente do PT de outros estados e voltar a falar para o paulista. É óbvio!

 

Octavio – Não sei se isso é possível. As lideranças que fundaram os partidos ainda estão vivas. Lula continua sendo o grande líder do partido. E ele nunca deixou o campo da esquerda. Ao contrário, por exemplo, do César Maia, que foi para a esquerda, foi para a direita… Não vai ser agora que o Lula vai derivar e sair do campo da esquerda para adotar um discurso com ideias mais conservadoras. Agora, em relação à posição do Legislativo quanto ao programa econômico do governo, eu quero lembrar que o Congresso nunca negou o programa econômico de começo de mandato de qualquer presidente. Acho muito difícil o Congresso negar. A Dilma tem uma maioria nominal. É só ela apertar os parafusos certos. A dúvida é essa: se ela vai ou não apertar.

 

Adalberto – O PMDB aumentou muito o seu cacife com essas derrotas todas. Então, está mais complicado para a Dilma apertar os parafusos e fazer um acordo. A margem de manobra dela está cada vez mais estreita. O PMDB hoje tem poder de veto…

 

Octavio – Governar em coalizão é aceitar o veto dos aliados. O presidente governa com o mínimo denominador comum. “Estamos juntos, o que podemos pode fazer juntos?” Só passa aquilo que é unânime ou consensual.

 

Alberto – Ok, mas o Renan pode ou não pode indicar o diretor da Transpetro?

 

Octavio – Não deveria.

 

Alberto – Sim, aí ele devolve a MP. O problema da Dilma é este.

 

 

Adalberto Cardoso é cientista social e professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do estado do Rio de Janeiro (Iesp-Uerj).

acardoso@iesp.uerj.br

 

Alberto Almeida é cientista político e diretor do Instituto Análise.

alberto.almeida@institutoanalise.com

 

Octavio Amorim Neto é cientista político e professor da Escola de Pós-Graduação em Economia (EPGE) da Fundação Getulio Vargas (FGV).

oamorim@fgv.br

 

Paulo d´Ávila é cientista político e professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPCIS) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

paulodavilaf@yahoo.com.br

 

 

 

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