Miopias, sentidos e tendências do levante brasileiro de 2013

Miopias, sentidos e tendências do levante brasileiro de 2013

Breno Bringel, Sociólogo

 

tudo indicava que o ano 2013 seria marcado politicamente pelos balanços sobre os dez anos de governo do Partido dos Trabalhadores (PT) e pelas articulações iniciais rumo às eleições de 2014. No campo da(s) esquerda(s) no Brasil conviviam diagnósticos e prognósticos diversos, que variavam desde a defesa intransigente de uma política comprometida com os setores mais vulneráveis da sociedade até a crítica aos limites e contradições do “lulismo”. Nesta segunda linha, muitos intelectuais e atores sociais e políticos apontavam para a necessidade de uma ruptura, um giro à esquerda e, inclusive, um novo ciclo de lutas de radicalização democrática, conquanto este desejo constituía-se mais em uma expectativa incerta, e de difícil construção a curto prazo, do que em um provável horizonte de possibilidades1.

De fato, poucos imaginavam que 2013 passaria à história brasileira como o ano de uma das maiores mobilizações sociais da democracia brasileira. No entanto, o grau de surpresa não está relacionado somente à temporalidade da emergência dos protestos (como e por que surgiram nesse momento), mas principalmente à natureza das ações coletivas emergentes (seus sentidos, objetivos e formas de articulação). O levante de junho2 trouxe não somente diversas vozes, atores e demandas à cena pública nacional, mas também importantes desafios teóricos e políticos. No entanto, a maioria das interpretações recentes – em geral, muito presa nos embates políticos e na apropriação das manifestações, no curto-prazismo, em certo provincianismo, em visões rígidas da política e na defesa do status quo – não parece capaz de captar as gramáticas das ações coletivas contemporâneas3.

Argumento neste artigo – apoiado na observação participante, em entrevistas realizadas com diferentes atores envolvidos nos acontecimentos recentes e em algumas contribuições da sociologia dos movimentos sociais – que essa dificuldade interpretativa se deve não somente à complexidade de analisar uma conjuntura política que se move muito rapidamente, mas também à confluência de uma série de “miopias” presente nos debates públicos:

  • miopia temporal presente/passado – tende a sobredimensionar as lutas atuais, muitas vezes considerando-as como novos “mitos fundacionais”. Se isso, em geral, acontece com os jovens, gerações que participaram de outras lutas sociais de relevância societária tendem sempre a compará-las, supervalorizando aquelas nas quais estiveram mais diretamente envolvidos (algo habitual no Brasil com as lutas contra a ditadura). Em ambos os casos, há um problema sério de memória histórica e de transvase intergeracional na militância.
  • miopia da política – restringe a vida política à sua dimensão político-institucional, limitando as possibilidades de compreensão da reinvenção da política e do político a partir das práxis sociais emergentes;

miopia do visível – limita as mobilizações contemporâneas à sua face visível (nas praças e nas ruas), sendo incapaz de captar os sentidos das redes submersas, suas identidades e os significados das dimensões invisíveis para um observador externo;

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  • miopia dos resultados – como consequência dos pontos anteriores, tende a restringir a interpretação das mobilizações sociais a seus impactos políticos (por exemplo, o cenário eleitoral) e às dimensões “mensuráveis” da ação coletiva.

Desse modo, pretende-se contribuir para um entendimento mais amplo (embora inevitavelmente parcial e provisório) das mobilizações sociais recentes no Brasil, examinando seu contexto inicial e suas motivações; sua inserção em cenários mais amplos de protestos globais; algumas coordenadas espaço-temporais; os atores e as experiências dos ativistas envolvidos; e algumas tendências de futuro.

 

Os madrugadores e o

desbordamento societário

As mobilizações sociais são termômetros da sociedade. Revelam tensões, contradições e horizontes de possibilidade de ruptura do sistema dominante. No momento de eclosão de protestos e mobilizações de massa, como as ocorridas em junho de 2013 no Brasil, nem sempre os sentidos da ação coletiva estão cristalizados em pautas definidas ou agendas e demandas bem estruturadas. Trata-se, ao contrário, de um período instituinte, de adaptações e reconfigurações de práticas sociais e formas de canalização do descontentamento individual e coletivo. Por isso, qualquer interpretação conclusiva ou de causalidade simples sobre os acontecimentos recentes no Brasil está fadada ao fracasso.

A sociologia dos movimentos sociais tem buscado, nas últimas décadas, articular respostas multidimensionais para como, quando e por que surgem os movimentos sociais. Alguns de seus achados são relevantes para problematizar a emergência e possíveis desdobramentos de novos ciclos de protestos. McAdam (1995), por exemplo, chama a atenção para a importância de distinguir analiticamente “movimentos iniciadores” de “movimentos derivados”. Os primeiros seriam responsáveis por identificar brechas, realizar enquadramentos provisórios, agitar e encorajar a mobilização social, e, quando bem-sucedidos (através de diversos fatores e processos que incluem o contágio e a capacidade de difusão, entre outros), passariam a acompanhar-se dos segundos, os derivados, “intérpretes criativos” do cenário aberto.

 

Haveria, assim, movimentos madrugadores que acendem a chama da mobilização social. No caso brasileiro, há certo consenso que um dos principais atores iniciadores foi o Movimento Passe Livre (MPL), movimento social autônomo que, por meio da reivindicação do passe livre estudantil, abriu um campo de conflito e de debate mais amplo sobre o transporte coletivo urbano. No entanto, não cabe ignorar o papel jogado por outros coletivos (e indivíduos) que, sem estarem organizados na “forma movimento”, também tiveram papel central na mobilização inicial e, principalmente, na difusão dos protestos. Trata-se de uma dinâmica relacional e contingente, e os movimentos iniciadores, nesse caso, paradoxalmente, muito se beneficiaram da repressão dos protestos, além da rapidez na conectividade facilitada pelas “novas mídias”. Nas primeiras mobilizações prévias à repressão, nota-se também que a cobertura dos meios convencionais foi praticamente nula e que o perfil dos participantes era de militantes com algum engajamento prévio em mobilizações sociais.

Um ponto central aqui é que, ao contrário do previsto pelas teorias dos movimentos sociais, os movimentos derivados aproveitaram-se, no Brasil, dos espaços abertos pelas mobilizações iniciais, sem, contudo, manter laços fortes, enquadramentos sociopolíticos, formas organizativas, referências ideológicas e repertórios de mobilização que os una ao MPL e/ou a outros iniciadores. Essa aparente desconexão relaciona-se a um fenômeno que gostaria de denominar como desbordamento societário, ou seja, quando na difusão de setores mais mobilizados e organizados a setores menos mobilizados e organizados, os grupos iniciadores acabam absolutamente ultrapassados.

Os protestos abrangem, neste caso, um espectro mais amplo da sociedade e não somente os movimentos sociais e redes de mobilização. Uma militante do movimento de ocupações urbanas de Madri que participou posteriormente do 15-M (também definido por alguns como “movimento dos indignados”), em entrevista recente sobre os movimentos sociais na Espanha, revela um ponto interessante que pode contribuir no entendimento do caso brasileiro: “Éramos um grupo pequeno de redes, coletivos e movimentos sociais (…) desde o ano 2008 lutando contra os culpáveis da crise financeira, mas não nos escutavam (…) éramos conscientes de que precisávamos levar o movimento aos bairros; ao resto da sociedade (…) no entanto, quando isso aconteceu com o 15-M, já não nos reconhecíamos dentro desse movimento e tivemos uma dificuldade enorme em transmitir nossa luta prévia” (ativista, Madri, 36 anos).

Mobilizações de massa nem sempre são controladas pelas organizações sociais e políticas, menos ainda em nossos tempos, onde emerge um novo tipo de ação política viral, rizomática e difusa. Este é um grande desafio teórico e político, pois exige adaptar e renovar nossas formas de luta e de interpretação das ações coletivas diante de atuações mais invisíveis, com maior protagonismo da agência individual, da configuração de novos atores, de militâncias múltiplas e organizações mais descentradas (conquanto não espontâneas) e de repertórios mais mediáticos e performáticos. Somente assim será possível captar os sentidos da indignação social contemporânea.

 

Geopolítica da indignação global

A indignação não é um movimento social. É um estado de ânimo. E, como tal, pode se expressar de maneiras muito diversas. No Sul da Europa, por exemplo, o sentimento da indignação social nos últimos dois anos teve fontes múltiplas, porém um dois principais fios condutores foi a rejeição a pagar as consequências diretas da crise, que deveriam ser assumidas pelos seus principais responsáveis. Banqueiros e especuladores tornaram-se, assim, alvos centrais das mobilizações sociais. Nos Estados Unidos, occupiers dirigiram em geral suas reivindicações a esses mesmos atores, sob o argumento indignado de que o 1%, totalmente distanciado dos anseios da população, não pode decidir o futuro dos 99%.

No Brasil hoje a indignação ainda é extremamente difusa e, por vezes, polarizada. Sentimentos, argumentos e sentidos diversos e contraditórios coexistem nas ruas, nos atos, nos espaços de convergência e nas manifestações. Alguns expressam seu descontentamento com o funcionamento do transporte público e dos serviços públicos de forma mais geral (principalmente educação e saúde); outros apelam aos altíssimos custos (não somente econômicos, mas também sociais, ambientais, culturais e políticos) da Copa e dos megaeventos a serem realizados no país, com destaque para o Rio de Janeiro; jovens de classe média baixa e das periferias indignam-se pela persistência profunda das desigualdades e revelam uma indignação de classe e de opressão permeada pelas fraturas, as segmentações e o classismo e racismo da sociedade brasileira; também há aqueles que insistem na indignação diante de questões mais específicas e setoriais, conquanto não menos importantes, como foi o caso da PEC 37, a criminalização do aborto, o projeto de lei aprovado para tramitação pela Comissão de Direitos Humanos da Câmara para a denominada “cura gay” etc.

O maior contingente de população, em geral jovens4, que participou das mobilizações sociais nos últimos meses ainda tem um sentido da indignação pouco coeso politicamente, já que para a grande maioria este foi seu “batismo político”. Em outras palavras: a indignação, a ira, a raiva e o ódio ainda não se cristalizaram em uma ação e concepção política estruturada. Não há espaço para uma discussão sobre isso aqui, mas é importante analisar com maior profundidade os processos de socialização desses jovens, tanto aqueles que tinham uma militância prévia como aqueles que começaram a se engajar agora. A maioria deles não tem lembranças dos “caras-pintadas”; alguns começaram a se envolver com o lema do Fórum Social Mundial de um “outro mundo possível”; muitos se aproximaram da militância por meio dos movimentos estudantis, hoje bastante reconfigurados e críticos com a centralização, partidarização e hierarquização das lutas estudantis das últimas duas décadas (BRINGEL, 2009).

Assim como boa parte da onda de indignação global que tem viajado por diversos países do mundo nos últimos anos, associam sua insatisfação a uma rejeição aos sistemas políticos, aos partidos tradicionais e às formas convencionais de organização política (inclusive a certos movimentos sociais e sindicais hierarquizados e ligados ao aparelho estatal). Querem participar da vida política, mas não encontram canais adequados. Para muitos deles, conselhos, fóruns e espaços institucionalizados não são suficientes e mostraram seus limites nos últimos anos. Antes de criticar os jovens por isso, deveríamos nos perguntar o que (e por que) não funciona. E aproveitar a oportunidade de ruptura da apatia e queda do muro de silêncio para a conquista de direitos e avanços na transformação social.

 

As espacialidades das contestações sociais e as especificidades do caso brasileiro

É importante situar os protestos recentes no Brasil dentro desse contexto mais amplo de “indignação global” em que compartilham-se símbolos e enquadramentos globais e demandas, como a democracia, a justiça social e a dignidade (PLEYERS E GLASIUS, 2013). No entanto, o caso brasileiro assume especificidades que devem ser cuidadosamente analisadas. Por exemplo, enquanto na Europa e nos Estados Unidos a indignação recente esteve relacionada a um “repertório reativo” (TILLY, 1978) de ações coletivas – defesa de direitos conquistados historicamente –, aqui estamos diante de um “repertório proativo” – reivindicação de novos direitos (ou simplesmente execução de direitos já reconhecidos, como muitos dos contemplados na Constituição de 1988).

Algumas dessas especificidades podem ser mais bem compreendidas a partir de uma análise socioespacial. Discorrerei brevemente sobre as espacialidades da contestação social em, ao menos, três dimensões. Em primeiro lugar, ao contrário de alguns dos processos vividos na Europa, na África ou nos Estados Unidos no pós-2011 – onde construíram-se iniciativas e espaços de convergência transnacionais – e, a despeito das solidariedades em vários lugares do planeta (sobretudo, inicialmente, de brasileiros que vivem fora do país), não há uma difusão permanente e sistemática dos protestos, enquadramentos e repertórios de ação com outros lugares fora do Brasil. Em outras palavras: a internalização, no Brasil, de experiências internacionais de mobilizações similares deve-se mais a uma tradução individual e pontual de ativistas que conectam realidades de forma efêmera do que a um intercâmbio constante e dialógico, típico do “internacionalismo movimentista” contemporâneo (BRINGEL, no prelo). Isso é importante, pois reflete uma circulação de ideias, slogans e imaginários, porém, um escasso aprendizado compartilhado de experiências de lutas sociais recentes que muito poderiam contribuir para o entendimento de alguns desafios atuais das lutas sociais no Brasil.

Em segundo lugar, diferentemente das demais contestações da indignação contemporânea que articulam dinâmicas escalares complexas, ligando o local ao global (com importância forte do regional em alguns protestos no Norte da África e na Europa), em nossas mobilizações, a escala nacional serviu como um dispositivo de bloqueio político e metodológico. Bloqueio político, pois, por um lado, permitiu avivar algumas posições nacionalistas de direita; e, por outro, impediu imaginar e criar alternativas políticas para além dos marcos discursivos nacionais (hoje impregnados pela retórica neo-desenvolvimentista) e do Estado-nação, inclusive dentro de grupos com tendências mais autônomas e libertárias. Critica-se o Estado, mas quase sempre mobilizando uma “utopia nacional” por um Brasil melhor, um outro Brasil etc. Bloqueio metodológico, pois continua imperando nas análises das mobilizações uma naturalização do Estado-nação como unidade analítica. Visto como algo “dado”, dificulta-se a compreensão das forças transnacionais que o perpassam e influem na configuração hegemônica da economia e da política “brasileira”.

Isso não significa negar a importância dos símbolos nacionais e do próprio Estado-nação, mas justamente o contrário: ressaltar a importância de reinterpretar seu papel como “ator dual e contraditório” para os movimentos sociais (por um lado, “interlocutor” em seu papel democratizante; por outro lado, “inimigo” em seu papel de controle social e repressão) em um mundo marcado por pujantes forças transnacionais e pela complexidade socio-espacial. Em suma, nos protestos recentes, a escala de ação principal foi a nacional, e produziu-se uma escala de significação também nacional, mas que mobilizou referências, práticas e símbolos para aquém e além do nacional. Como bem sabemos pelas experiências latino-americanas e de outros países periféricos, a nação pode ser mobilizada em um sentido progressista, revolucionário e anti-imperialista (como é o caso dos nacionalismos revolucionários de muitos países da região), mas este não é o caso no Brasil do capital-imperialismo (FONTES, 2010).

Em terceiro lugar, os lugares importam. Cada manifestação, em qualquer capital ou pequena cidade brasileira, revestiu-se de demandas particulares e de críticas específicas à política local e regional, unidas às diversas culturas políticas. Isso é importante para a composição de um mapa mais diverso sobre as mobilizações recentes no Brasil. Além do mais, essas especificidades locais revelam também tendências diferentes no perfil das reivindicações e na composição social dos manifestantes. Isso leva a que, por exemplo, certos grupos que não estavam presentes em São Paulo ou em Ribeirão Preto atuassem no Rio de Janeiro ou em São Gonçalo e vice-versa, mas também a que as correlações de forças variassem de acordo com os lugares.

 

Apesar disso, esse assento nos lugares não pode levar a um provincianismo nem a um localismo interpretativo. Por um lado, é importante captar os impactos diferenciados das mobilizações em cidades com maior capacidade de influir na delimitação de cenários e na relação de forças (como os casos de Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília). Um exemplo disso é que, apesar de os protestos pelo passe livre, a redução das tarifas e o transporte público estarem acontecendo desde o início de 2013 em diversas cidades brasileiras, o levante de junho teve como estopim os acontecimentos de São Paulo. Por outro lado, apesar de um grau cada vez maior de localização, as ações coletivas contemporâneas dificilmente são localistas, tecendo sempre uma articulação entre escalas construídas socialmente pelos atores (Bringel, 2011).

 

Ecos de 68, “novos movimentos” e ciclos de ação coletiva no Brasil

Analisada a dimensão espacial dos protestos, é importante também localizar sociologicamente alguns referenciais temporais. Em um cenário global de médio prazo, para muitos o espírito de 1968 ecoa nas mobilizações sociais recentes no Brasil. De fato, uma interpretação possível é que estamos diante de uma nova inflexão das rupturas trazidas com os denominados “novos movimentos sociais” dos anos 1970 e 1980. Isso deve-se não à alusão ao caráter massivo dos protestos daquele período (não foram poucos os intelectuais e jornalistas que compararam o caráter de massa das mobilizações recentes às Diretas Já, por exemplo), mas, sim, aos valores, concepções da política, formas de organização e de ação coletiva.

Os “novos movimentos sociais”, de caráter popular, atuantes na luta contra a ditadura e no período da redemocratização encarnaram não somente uma ação política de mudança social, mas também uma proposta mais ampla de forma de vida e de ação. Incidiram tanto no campo da política como nos códigos culturais e simbólicos. Criticaram a centralização, a hierarquização e as perspectivas de mudança social da “velha esquerda”, defendendo a autonomia, a organização horizontal e reticular, a pluralidade de identidades associadas à politica do cotidiano e a importância de uma mudança social que contemple a transformação do próprio indivíduo.

O contexto social, político e econômico das últimas mobilizações de massa no Brasil é totalmente diferente do atual e não podemos, ceteris paribus, isolar os contextos históricos nem traçar paralelos precipitados. No entanto, sem cair novamente na sedução da “novidade”, é possível tecer algumas considerações sobre os diferentes ciclos de ação coletiva no Brasil pós-ditatorial, extraindo algumas continuidades e rupturas. Em termos gerais, pode-se falar de dois grandes ciclos de ação coletiva que representam padrões diferenciados de relações entre Estado e sociedade, cada um deles com duração de aproximadamente vinte anos: o primeiro emerge na década de 1970 e tem como inflexões importantes a alta intensificação do conflito de finais dos setenta, a queda dos militares e as Diretas Já, concluindo com o impeachment de Collor de Mello. O segundo ciclo acontece no início dos anos 1990, com novos atores e perspectivas de atuação. Enquanto o primeiro tende ao conflito, à ação coletiva menos institucionalizada e à autonomia e crítica ao Estado, o segundo busca mais a cooperação, a ação mais institucionalizada, uma aproximação maior entre movimentos sociais e Estado.

Se no primeiro ciclo os movimentos sociais olharam mais para baixo, construindo, a partir do “basismo”, um consistente trabalho pedagógico, mobilizador e formativo com o protagonismo de pastorais, comunidades eclesiásticas de base e alguns partidos e sindicatos, no segundo ciclo, os movimentos sociais, bem como outros atores, como as ONGs, olharam, em geral, mais para cima (demandando ao Estado políticas públicas e direitos, por exemplo) e para os lados (construindo redes e articulações sociais).

Poder-se-ia inclusive falar de subciclos mais específicos dentro desses ciclos5, mas o que me interessa ressaltar aqui é que as relações entre Estado e sociedade (e, em particular, a sociedade civil) remetem a diferentes coordenadas espaço-temporais. Nas últimas duas décadas, muitos autores diagnosticaram de forma precipitada a cooptação, o refluxo, a desmobilização e, inclusive, o “fim” dos movimentos sociais no Brasil. No entanto, poucos souberam analisar, de maneira multidimensional e relacional, as rearticulações das práxis sociais. Se neste último ciclo os movimentos sociais brasileiros olharam muito mais para o Estado do que para a sociedade, algo similar ocorreu com a maioria de seus intérpretes, com notáveis exceções, como as contribuições de Gohn (2010) e Scherer-Warren (2012).

Ainda é cedo para avaliar se as mobilizações recentes representarão o surgimento de novos sujeitos políticos e o esgotamento das relações cooperativas entre o Estado e os movimentos sociais. Também é precipitado predizer qual será o padrão, certamente complexo, de relação emergente. Isto porque, ao contrário do que afirmam aqueles que já preveem certo apaziguamento social devido à diminuição da intensidade dos protestos, este novo ciclo que se abre somente começou. Aqui também podemos extrair uma lição da sociologia dos movimentos sociais: as mobilizações sociais e os ciclos de ações coletivas tendem a ser pendulares (Tarrow, 1998). Vão e vêm, alternando picos de maior e menor intensidade, momentos de visibilidade e invisibilidade. O fim das mobilizações de massa nas ruas não implica o fim de um cenário conflituoso e de novos desdobramentos políticos importantes. Ao contrário, supõe, normalmente, uma nova etapa; em nosso caso, um momento em que as mobilizações podem gerar novas convergências dentro de polos críticos da esquerda, uma necessária autocrítica de muitos grupos sociais progressistas, uma tematização e maior “especialização” das reivindicações sem que por isso se convertam necessariamente em demandas corporativas, uma maior politização da população e de alguns grupos que, paradoxalmente, definiam-se inicialmente como “apolíticos”.

Por fim, outra lição da sociologia dos movimentos sociais para o atual levante brasileiro é evitar o que Melucci (1989) denominava a miopia do visível, isto é, a tendência a observar somente a parte visível das ações coletivas. Torna-se, desse modo, central introduzir as redes submersas e as concepções emergentes de ativismo, dando vozes aos próprios militantes e a suas experiências recentes.

 

Redes submersas, a reconstrução do tecido social e a busca do político

O Brasil tem sido, nos últimos anos, um importante exemplo, em todo o mundo, de “laboratório democrático” que se expressou em espaços diversos de participação e deliberação da sociedade. Conselhos e fóruns recebem homenagens e experiências como o orçamento participativo são exportadas a outras cidades e outros países como uma “boa prática”. No entanto, a irradiação do discurso e das práticas participativas esteve ancorada em um “alargamento restringido” da democracia e em padrões diferenciados de atuação do Estado perante os atores sociais. Por um lado, com os atores mais afins ao seu campo político, teceram-se articulações, abriram-se espaços institucionais (alguns supostamente abertos a todos, mas com crivos e filtros sutis, simbólicos e informais) e a participação converteu-se quase em um fim em si mesma; por outro lado, com os atores mais rupturistas ou simplesmente “esquecidos”, a lógica tendeu a ser de maior criminalização, violência e/ou de ausência.

A participação social existe, mas é canalizada fundamentalmente através de mecanismos e espaços institucionais, levando, como já mencionamos, a que os atores sociais se preocupem em incidir muito mais na política que na sociedade. O trabalho de base existente no ciclo prévio dos anos setenta e oitenta foi se perdendo e isso gerou um déficit importante para a esquerda brasileira em sua disputa por um tecido social hoje cada vez mais pulverizado e fragmentado. Cresceu a influência da igreja evangélica e de tendências resignantes e individualistas, bem como a ideologia do consumismo, ao mesmo tempo que novos mecanismos de dominação social e de controle político foram sendo gerados na confluência da ação do Estado e de outros atores econômicos, religiosos, sociais e políticos.

O levante de junho e as subsequentes redes submersas que hoje estão sendo construídas em todo o Brasil retomam uma matriz mais libertária e autônoma, polêmica e complexa para o conjunto da esquerda brasileira, e podem ser entendidas como uma crítica à organização “desde cima” da sociedade civil. Se a “volta do Estado” na mudança de século foi bem-vista por muitos movimentos sociais por sua capacidade de contra-arrestar, ao menos parcialmente, o livre-arbítrio do mercado, não podemos dizer o mesmo no que se refere à sua capacidade de controlar e moldar os atores e sujeitos sociais.

 

Oretorno do conflito às ruas (seja ele expressado de forma violenta, como é característico no “Black Block”; seja utilizando novas formas de expressividade e de canalização da indignação e do descontentamento social) é uma característica importante deste novo ciclo. Outros elementos distintivos são a busca da reconstrução do tecido social e da (eterna) reinvenção da política através do político (Calle, 2013). Justamente por isso seria injusto julgar os acontecimentos recentes pensando exclusivamente em seus possíveis resultados. De fato, como mencionam muitos ativistas, é importante entender o processo. Tal como me relatou um jovem carioca que saiu pela primeira vez às ruas em junho de 2013 e que se integrou posteriormente a diversas redes e iniciativas, incluindo uma ocupação: “Sempre fui inquieto, mas nunca tinha participado de política. Minha primeira manifestação foi no dia 17 de junho na Rio Branco. Antes disso, nem sabia bem quem era o MPL e fui à manifestação por que vários amigos iam e porque, no fundo, você sabe como é (…) estava de saco cheio de tanta hipocrisia (…) dos políticos, dos partidos (…) no começo dizia mesmo que era contra a política; que era apolítico. Mas aí fui participando de debates, de outras manifestações e me convenci de que não era apolítico, mas simplesmente estava contra essa política aí (…) no fundo também fazemos política, mas não é essa grande política (Rafael, 22 anos, Rio de Janeiro).

A fala desse jovem ilustra vários elementos interessantes. Em primeiro lugar, expressa haver possibilidades de confluência, ao longo do tempo, entre os “movimentos madrugadores” e os “movimentos derivados”, mesmo que inicialmente as distâncias pareçam abismais. Em segundo lugar, ilustra a busca pela reinvenção da política, entendida, assim como a democracia, não como algo cristalizado, mas, sim, como uma criação social (Bringel e Echart, 2008). Em terceiro, enfatiza o caráter formativo e pedagógico das mobilizações sociais. As lutas sociais são parte do processo de politização, de geração de identidades, de recriações de práxis e horizontes utópicos.

Este ponto é bem explicado por uma jovem militante feminista que leva quase dez anos de atuação política: “ainda pesa muito o marxismo na esquerda brasileira, mas novos referentes estão sendo criados. Acho que vivemos um momento superinteressante de tensões, mas também de possibilidades de rearticulação da esquerda. No primeiro momento ficamos absolutamente perplexos com o discurso da des-ideologização, por exemplo. Mas aos poucos vamos construindo juntos novos caminhos e frentes de luta. É um caminho longo, um processo complicado (…) temos que renunciar aos nossos dogmas e entender o que as pessoas estão pensando” (Márcia, 26 anos).

Convergem nas ruas brasileiras hoje diversos padrões e repertórios de ação coletiva, identidades e militâncias múltiplas. Novas práticas se articulam no interior de movimentos já existentes com a incorporação de novas formas de organização e comunicação (Gohn e Bringel, 2012: 12). Ao mesmo tempo, surgem novas motivações, articulações e atitudes que, conquanto não se organizem em movimentos, expressam uma ativação da cidadania e uma repolitização do social. Nesse processo, uma das questões-chave enfrentadas pelos atores sociais e políticos que lutam pela emancipação e pela justiça social continua a ser a seguinte: como canalizar a indignação em movimento social transformador? A resposta não é fácil, dada a multiplicidade de perspectivas, significados e possibilidades abertas pelas movimentações recentes. O que talvez, sim, tenha ficado claro, ao reintroduzir a conflitualidade na cena política, são os limites de uma política de “conciliação nacional” a partir da qual o governo, por meio de amplas coalizões, busca agradar a forças e atores antagônicos em uma sociedade marcadamente desigual.

 

Algumas das ideias aqui desenvolvidas foram publicadas inicialmente em “O Brasil na geopolítica da indignação global” (Brasil de Fato, São Paulo, 27/6/2013), “Brazil within the geopolitics of global outrage” (Global Express/Global Dialogue, Newsletter of the International Sociological Association, 1/7/2013), “Indignación a la brasileña: una mirada comparativa y global” (Red Seca – Revista de Actualidad Política, Social y Cultural, Santiago/Chile, 8/7/2013) e “Le Brésil et la géopolitique de l’indignation” (La Vie des Idées, Collège de France/Paris, 25/7/2013).

 

O autor é professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ (IESP-UERJ.

brenobringel@iesp.uerj.br

 

NOTAS DE RODAPÉ

 

  1. Vide a esse respeito o Dossiê “Conjuntura Política Brasileira”, organizado pelo Núcleo de Estudos de Teoria Social e América Latina do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (NETSAL, 2013).
  2. Adoto aqui a noção de levante entendida como a irrupção de atores sociais em alçamento coletivo contra os poderes instituídos. Talvez a noção não seja a mais apropriada para explicar o processo de mobilização social, mas, sim, é mais adequada que outras comumente utilizadas para entender o aparecimento de novos atores na cena pública brasileira em junho de 2013. Trata-se de uma noção mais precisa do que as vagas categorias “eventos” ou “acontecimentos”, que, em última instância, podem aludir a qualquer fato dotado de um sentido especial para um grupo social. A inserção do conflito, da agitação social e da sedição são, a meu ver, elementos fundamentais do levante, embora certas graduações da conflitualidade e nuanças das dinâmicas sociopolíticas o distingam, ao menos analiticamente, de outras noções afins, porém distintas, como a revolta, a rebelião, o motim e a insurgência.
  3. Algumas exceções interessantes, que representam um esforço inicial de interpretação mais abrangente, são os livros recém-publicados de Nobre (2013) e Harvey, Maricato et al. (2013).
  4. A despeito de suas diferenças e seus objetivos específicos, estudos recentes do Datafolha, do IBOPE e do Instituto Data Popular convergem para o fato de que a maioria dos participantes nas manifestações dos últimos meses é jovem.
  5. Aprofundo na discussão dos ciclos de ação coletiva no Brasil nas últimas décadas em Bringel (2013).

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFIAS

 

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