Mysterio

Mysterio

Este conto é de um autor pouco conhecido chamado Tomás Lopes, que era simbolista e diplomata. Morreu jovem, como convinha à época. Saiu publicado pela Garnier em 1907 num volume chamado Histórias da vida e da morte. Nunca foi republicado.

 

– Agasalhado, guardado, envolvido, eu esperava que se fechassem as portas para dormir o meu somno inconsciente, quando ella entrou. Pediu-me. Na sua voz meiga, com um dôce timbre, não houve o menor tremor. Ninguem lhe oppoz a menor resistencia. De resto, quem ousaria desconfiar de senhora de tão alta nobreza, frequentadora assídua da côrte, e que com tão discreta elegancia recebia no esplendido palacio da Perspectiva Millionaia, onde quasi só se falava francez? Era apenas extranho que fosse ella e não um creado; mas um creado, na Russia, quem ousaria confiar semelhante incumbencia? Em fim: ella levou-me, e no carro que rodava apressado, passâmos pela praça desolada e núa do Palacio d’Inverno. Eu então, astutamente perscrutei-a, procurei adivinhar-lhe o pensamento: ella, porém, tranquilla, nem sequer deu um olhar á casa imponentemente lugubre, onde cem anos trabalharam os pedreiros e de onde reina o Tzar poderoso… Bem! – pensei commigo, – não é para este…

A neve cahia, o frio cortava; foi quando eu senti o calor do seu branco seio. E nada mais vi até chegarmos á casa. Nos seus aposentos particulares, em quanto a senhora se despia, pensei estes pensamentos: N’um palacio como este, com tanto luxo e tanto conforto, naturalmente deve haver felicidade! Portanto eu sou perfeitamente inutil. E justo que me amem e me procurem os desgraçados, os sem alegria e sem esperança, condemnados ao gelo rigoroso do inverno e ao esquecimento da humanidade egoista! Lá fóra gela; os caminhos estão brancos e o céo está cinzento: quanto miserável, com fome e com frio, sem amizades e sem afflições, alimentado por um coração que não encontrou jamais um coração que palpitasse com o seu, não renderia agora graças ao seu Deus ou aos genios da Mãe-Volga, si me visse em seu caminho, e eu fôsse o seu amigo e fôsse o seu amor? Mas n’este palacio, que inutilidade!

Aqui, o meu pensamento se interrompeu: ella olhou-me, ella sorriu-me; e beijou-me, não sei porque! Seus labios humidos e vermelhos pousaram no meu frio corpo insensível, e dentro do meu frio corpo, a alma diabolica estremeceu… Ia eu, pois, ser o seu amante supremo? Senti novamente o calor do seio branco; e no quarto de dormir permaneci oculto. Em breve a escuridão se espalhou…

No outro dia, á hora do almoço, eu os revi e os contemplei melhor: ella era alta, formosa e loira; os seus olhos azues tinham um extranho encanto que eu jamais vira em olhos humanos; e havia uma volupia tragica no seu modo de sorrir. Elle era mais alto do que ella, tão loiro como ella, menos bello do que ella. Ella era Olga, elle era Dmitry Ferfitehine. Eram casados.

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Passaram-se dias, e o no seu decorrer suave e lento, eu percebi que Dmitry Ferfitehine amava-a com uma paixão ardente e meridional. Acariciava-a com uma bondade ingenua de creança, dizia-lhe nomes ternos, chamava-lhe liouba. Outros dias passaram, passaram semanas. De dia, eu tinha o calor do branco seio; á noite, depois de recolhido, o calor de sua alcova. Assisti ás recepções; conheci princezas e principes, dancei ao lado de muito titulo pomposo e muita farda luxuosa; porque eu estava sempre com ella, ouvi seducções diplomaticas e enredadas de possolsivos extrangeiros. Uma vez, n’uma volta de valsa, um Conselheiro de Embaixada murmurou-lhe por cima dos cabellos loiros:

– Então?

E ella, n’um sorriso divino:

– Espero o momento…

Oh! as incoherentes injustiças da alma feminina! Nobre e bello Dmitry Ferfitchine! Si eu pudesse salvar-te! Mas como? Si eu não tenho nem vontade nem querer? Nunca lamentei tanto a minha immobilidade passiva; si eu pudesse desfazer-me e queimar-lhe o seio branco onde arfava uma doçura de rôla e se escondia manhosamente um coração de vibora! Ah! aquella mulher, que tão calma e capciosamente enterrava na terra humida o dôce Dmitry Ferfitchine, tão bom e tão amoroso!

Philosophos e poetas, artistas e sabios de todos os tempos, desde a China confusa até o espirito contemporaneo cheio de revoltas, quem de vós poude ainda prevêr e explicar a inconstancia e a injustiça da alma feminina? Que sciencias ou que iniciações hão de demonstrar um dia os casos extranhos d’essa psychologia inconsciente e curiosa? Uma mulher bella, que em toda a sua mocidade só tem recebido caricias e sacrificios d’aquelle a quem entregou o seu coração, que por um pensamento pensado tem a surpresa da obra realisada, por quem nunca se hesitou, de quem nunca se duvidou, que acolheu benevola, que acreditou, que sorriu, e de repente, atirando para uma sombra ignara todo um luminoso passado de verdade e de amor, ouve o primeiro sussurro da calumnia, e crê e afirma! Quem explicará essa mulher? Ella a si mesma confessa que sente uma repulsão organica, um nojo inilludivel pela peçonha que lhe destróe o ídolo. Mas insensivelmente, como os marinheiros que se deixam embalam pelo dôce canto da Sereia, ella escuta a palavra luminosa e perversa. Nem crê n’outra coisa; o seu ouvido compassivo e bom não quer escutar em defesa honrada a voz purissima da innocencia! E’ que na mulher, os sentimentos positivos são apenas um caminho facil para os sentimentos negativos. Ella ama para odiar mais tarde, e si salva um berço é para cavar uma sepultura. Mas eu por suspeito me dou porque não creio nem nos seus risos nem nas suas lagrimas, nem no seu amor nem na sua amizade, que umas e outras são fingidas, e unicamente creio no que lhe possa causar prazer. Oh! a intangivel subtileza da alma feminina! Uma linda senhora desfez o casamento porque pensava que o uniforme de seu noivo era azul bordado a oiro, quando o bordado era sobre preto! Um homem de bem e de talento é acusado de infamias imbecis; e logo, credula e facil, a mulher crê na calumnia e despresa a defesa!

Mas é assim mesmo que a mulher é uma divindade. Apesar de certa maldade, ella é infinitamente melhor do que o homem; ella é a razão de sêr da vida, a explicação das philosophias, o ideal das artes, o entendimento das religiões! Que importa a sua ingratidão, si tem o pranto facil e os olhos bellos? Si occulta no mysterio do seu coração uma caridade que se expande como um perfume que se evola? Si não fosse a perversa inconstancia feminina, quê seria dos poetas? Quem escreveria a Bíblia? Onde estaria o encanto da vida? Onde estaria o encanto da morte? Bemdita seja a Mulher! Mas voltemos á narração:

Era uma noite de inverno, cinzenta e fria. Eu, no calor do seio alvo, meditava e considerava meditações e considerações que o meu genio distingue. Acho (porque sou máo) que o desequilibrio de condições e fortuna é necessario á valorisação dos bens. Que riqueza encerraria o diamante si, – oh! homens! – os mendigos que vos pedem esmola estendessem os dedos hirtos e aureolados de pedras claras? Mas é doloroso, que em quanto os ricos se agasalhem, morram de fome tantas creancinhas!

Nós estavamos na sala ingleza: ella, o marido e eu. Fui despertado do meu scismar porque elle lhe dizia palavras meigas:

– Porque estás triste, meu amor? Dá-me para eu beijar a tua mão branca! Que desejas? Tu és a minha felicidade, e eu te amo!

Beijou-a nos labios; e houve n’aquelle beijo tanto amor, que a minh’alma estremeceu dentro do meu frio corpo. Que volupia! E Olga, então sorrindo nos labios e nos olhos:

– Não estou triste. Eu tambem te amo… Amo-te muito!

Beijou-o nos labios; sobre o seio branco refleti e pensei: Oh! Senhor, será possivel que haja tanta mentira dentro de um coração? Olha que eu estou aqui, e sei o teu segredo e sei o teu crime!

Dmitry Ferfitckine teve um acesso de tosse. E ella, com carinhos de enfermeira e mencios de cobra, levou-o para o quarto. Ahi, preparou o leite com vodka. E eu já estava fóra do seio, espreitando, olhando, adivinhando… Os seus olhos languidos, cheios de volupia e crime, faiscaram á minha procura: os seus dedos longos, finos, esculpturaes tomaram-me o corpo, abriram-me o corpo, dilaceraram-me o corpo. Que ancia! Por fim, minh’alma infernal provou o leite. Dmitry Ferfitkine bebeu o copo. Meia hora depois, ella sorria, elle gemia. N’uma subita comprehensão fixou-a com os grandes olhos azues, parados, admirados; e n’uma voz que era debil e triste murmurou:

– Quero escrever!

– Não te cances, querido!

– Preciso escrever!…

Duas lagrimas lhe corriam na face branca e doente. Em silencio ella deu-lhe papel e pena. Com um pesado esforço, Dmitry Ferfitckine virou-se sobre o travesseiro e escreveu esta phrase que eu de dentro espiei: “Suicido-me: perdôa, Olga!” Só, mais nada. Guardou a folha de papel dentro de um livro de versos, estremeceu, olhou-a, sorriu, disse: “como eu te amo!”, e ficou. Ella então abriu o livro, tirou a folha de papel, depol-a na mesa de cabeceira, em evidencia, beijou o meu corpo frio, morto com a minh’alma que morrera… Olhou o cadaver sereno, estirado sobre o leito. Sorriu. Duas lagrimas correram. Lagrimas de que? De remorso? De pena por ter sido tão suave a agonia e tão inesperado o perdão? Não sei. Quem o saberá?

D’aqui a tres dias é o enterro de Dmitry Ferfitckine: que será de Olga? Que miseria! Que frio! De que terá sido o sorriso? Era quasi meia noite; ella apagou a luz…

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