Nas profundezas da UTI

Nas profundezas da UTI

Nilo Sergio Bezerra, Engenheiro mecânico

 

Dedique todo o esforço de suas orações e fé para não ser preciso se hospitalizar. Mas, se tiver, que chegue consciente na UTI.

A primeira coisa que se deve fazer, antes de qualquer uma outra, é pedir para instalarem o “elmo” em você. Não espere que lhe ofereçam. Grande parte dos profissionais que me atenderam credita a esse bendito instrumento muito da minha recuperação.

A segunda, mas essencial, é compreender a ecologia da UTI, saber quem é quem. São muitos os profissionais que revoluteiam em torno desse espaço. Cedo descobri que o poder do médico na UTI assemelha-se ao do comandante de um aeroplano em voo. É superior ao de um ministro do STF.

Foi baseado nessa constatação que eu criei a “engenharia dos olhos”. Eu usava o “elmo” algo entre 14 e 18 horas por dia. Porque sabia que era necessário e porque o equipamento tornou-se “friendly” para mim, embora ressecasse bem os olhos, deixando-os ardentes.

Descobri que, colocando gazes sobre as pálpebras e derramando soro sobre elas, o alívio era imediato. Mandei fazer isso e, quando me perguntaram quem tinha indicado, respondi apenas “o doutor”. O passo seguinte foi conseguir que a enfermeira trouxesse um colírio apenas para umedecer.

Todos são importantes numa UTI, mas é essencial que você tenha empatia com a técnica responsável pelo seu leito. É ela que vai matar sua sede às duas da madrugada, ajustar o encosto da cama, lhe dar o banho diário e fazer sua higiene depois que você evacua (palavra bonita que criaram para dizer que você cagou).

Uma dica importante: se você quiser ficar menos tempo sujo, deixe para evacuar apenas cerca de meia hora depois que lhe disserem que vão lhe limpar. O tempo entre pegar as toalhas e lençóis e conseguir a colega para ajudar geralmente é muito longo.

Outro registro: apesar de o hospital ter (quase) tudo que você precisa, é importante que você tenha seu kit próprio, o que eu convencionei chamar de “Kit UTI”. Acho que no 4º ou 5º dia acordei na madrugada com a “boca pregada” por falta de higiene. Uma sensação muito ruim. A técnica de enfermagem do plantão conseguiu algo para que eu bochechasse. O “Kit UTI” deve ter escova e dentifrício, sabão líquido, óleo hidratante, uma pomada de prevenção a assaduras, fraldas e um pacote de lenços úmidos.

A enfermeira, pelo fato de coordenar vários setores, é “figurinha difícil”. Mas sempre atende sob demanda. Recorra à técnica de enfermagem mesmo, se precisar da enfermeira.

Um dia, no início do seu estágio, vão abrir um acesso permanente na mão para colher a gasometria e sangue para exames (incontáveis exames). Dói.

Junto com esse acesso, também fizeram um acesso central na jugular. Dói muito quando está sendo feito.

Não se engane com a voz doce da cirurgiã (lembrou-me a voz de Sandra Dee nos filmes do início dos anos 60). Cada vez que ela disser “picadinha”, espere muita dor.

Existe uma técnica de enfermagem que cuida da higiene bucal que vem lhe ajudar duas vezes por semana (foi assim comigo). A que me atendeu, muito profissional e amigável, sempre deu preferência em utilizar o kit descartável do hospital.

Você certamente será acordado muitas vezes ao longo da madrugada para fazer Raio X do tórax. Nada complicado.

Se você tiver a sorte de adaptar-se bem ao “elmo”, vai precisar muito da fisioterapeuta. Quando quiser botar (ou tirar) o “elmo”, não se peje de mandar recados por todos que entrarem no seu espaço. É muito improvável que a fisioterapeuta esteja apenas contando a última do filho para a amiga ou eventualmente falando do novo namorado. As demandas das UTIs são muito grandes. Ouvi em um determinado momento que a fisio de plantão estava atendendo a sete UTIs com pacientes com “elmo” e um entubado.

A nutricionista vem diariamente saber como está sua alimentação. Não é que a comida seja ruim, mas a carga de remédio provoca uma condição em que, qualquer coisa que você ponha na boca, lhe dá ânsia de vômito. Passei literalmente 17 dias sem comer quase nada, com um intervalo de uns 4-5 dias em que descobri que suco de abacaxi entrava sem muito esforço. Passei esse período almoçando e jantando suco de abacaxi.

Os profissionais vão insistir para que você coma o que eles trazem. Não concorde de pronto. Tente alternativas. Durante esses 17 dias, eu jantei por duas vezes um potinho de sorvete. Eles não vão dizer que há essa disponibilidade porque não é nutricionalmente aconselhável. Mas explore sua criatividade.

Finalmente, no 18º dia, o médico informou-me que eu passaria para uma dieta semipastosa. Obrigado, Senhor, pelo arrozinho quase papa e a carninha moída!

Queridos(as) amigos(as), façam tudo que estiver ao alcance, TUDO MESMO,  para não se infectar. Se você tiver a sorte de sair com vida, mesmo assim tudo é muito penoso e dolorido.

Como a doença é praticamente desconhecida, o meu processo negou algumas lendas. “Quando o sintoma se inicia por uma disenteria incontrolável, a recuperação é mais fácil”. “Se o seu sangue é O−, tudo é menos agressivo”. Não são verdades. NÃO SE INFECTE!

At last but not least (essa é para vocês pensarem que eu sou poliglota), não sei como funciona a administração do hospital. Não sei se há uma superintendência, uma diretoria colegiada ou se cada setor tem sua independência funcional. Estou saindo hoje da UTI, migrando para uma enfermaria. Independentemente da forma de gestão, se eu participasse da administração, eu estaria orgulhoso.

 

nilobezerra@gmail.com

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