O anjo da manhã

O anjo da manhã

Consuelo de Castro, Jornalista

 

Parecia uma manhã como todas as outras. A mesma luz violando a persiana, o mesmo barulho do mar, chinelo arrastando e a Elbe, vizinha do 205, que é budista ou coisa parecida, entoando seu mantra matinal. Cara inchada de sono, vinco fundo na testa e olhos remelentos de mais uma noite mal dormida, aciono a cafeteria elétrica, passo manteiga no pão e, enquanto o café rola, escuto a Elbe na varanda me chamando para ir à praia, como todos os dias desde que mudei para cá.

E, como todos os dias desde que mudei pra cá, respondo não, obrigada, e ela, com seu otimismo de almanaque, fala alguma abobrinha tipo “acorda pra vida”, “morrer tem dia certo, vou te tirar dessa depressão”— diagnóstico que emitiu por conta própria e desisti de contestar. Vencida, Elbe sai, encho a caneca de café, devoro o pão, limpo os farelos da mesa, guardo a manteiga, tiro as verduras do almoço e baixo a persiana pra espantar a luz.

Não gosto de luz. Não gosto de manhãs de sol, praias cheias de crianças eufóricas, mães estressadas e Elbes se besuntando feito rosbife pra pegar cor na esperança de, bronzeada, disfarçar a idade e encontrar um homem que se habilite, pois o ex, como aconteceu comigo, se mandou. Não gosto, acho brega aquela canga turquesa que ela põe todo santo dia, combinando com o biquíni, a tiara e a sacolinha de bugigangas marítimas.

Pra dizer a verdade, não gosto de nada neste lugar.

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Só vim porque era a única alternativa depois que o falecido — que eu chamo falecido porque pra mim faleceu – me deu o passa-fora. Era pegar ou largar. Este apê, digo, cela, era o único imóvel próprio que ele tinha conseguido manter. Conversa vai, conversa vem, e a cela, bem como uma pensão mensal que dá para não morrer de fome, mas não mais do que isso – me couberam na partilha do divórcio. Já o falecido foi morar com a nova mulher na casa dela.

Quando cheguei tratei de mudar tudo. Pintei paredes, caixotes que faziam as vezes de estante, costurei almofadas e fiz até um panneau pra jogar sobre as persianas, quando o sol insistisse em bater de frente comigo. Finda a obra, me sentei na varanda e fiquei olhando o mar sem saber o que fazer do tempo que viria, os tantos dias e noites que haveriam de entrar persiana adentro.

Como não tive filhos, pude me isolar na mais perfeita acepção da palavra. Rompi com parentes, amigos, evitei os novos vizinhos, me esquivei de reuniões de condomínio. Enfim, queimei navios, fechei portas e fiz voto de silêncio de ouvir e falar.

A única pessoa que ainda insiste em me enredar é a Elbe. Cismou que nossos dramas são iguais e se ela superou, por que eu não? O que ela não entende e nunca vai entender é que não há um drama. Não há nada a superar. Pelo menos para mim. Gosto de ficar quieta no meu canto, fazendo meu café e arrastando chinelo. Não era diferente na gestão do falecido. Era até pior. Ninguém dizia um “a”, nem televisão a gente via mais juntos.

Peço desculpas por estar falando tanto de mim sem nada pra contar além das andanças do ponteiro sobre o mostrador, mas é que foi nessa manhã, nessa exata manhã tão aparentemente igual às outras, que encontrei o anjo.

Ele entrou pela porta dos fundos, que eu tinha deixado aberta no dia anterior quando cheguei com o carrinho do mercado. Alto, moreno, olhos brilhantes, barba por fazer e sorriso de covinha. Entrou por engano, pediu desculpas e, sentindo o cheiro de café, na cara dura pediu uma xícara.

Dei. O café e tudo que tinha pra dar e nem sabia.

Boca, coxa, mão, saliva, meu corpo e todos os seus buracos. Ele tomou o café, me agarrou de um jeito que não dava pra escapulir e foi tirando nossas roupas sem uma palavra.

Pensei em gritar, pedir socorro, era uma violência, não fazia sentido, mas nada faz sentido quando você sente a virilha pulsar. O anjo me jogou no chão, me penetrou com fúria, me lambuzou não uma nem duas vezes e, por fim, se largou em cima do tapete, sorrindo seu riso de covinha.

Passado o transe, ou sei lá como chamar aquele estado de espírito e corpo em que fiquei, morta de vergonha, me cobri com uma manta do sofá e fui ao banheiro pegar um penhoar, aturdida demais pra catar as roupas espalhadas. Mas resolvi tomar uma ducha e quando voltei o anjo não estava mais lá.

A primeira coisa que me ocorreu foi que eu tinha delirado.

Nunca houve homem algum nesse apê além do encanador do prédio, por ocasião do vazamento do esgoto. Até aí, normal. Mesmo as pessoas mais pé no chão podem dar uma surtada básica. Nada que um bom calmante não dê jeito. E já ia engolindo dois quando vi as manchas no tapete.

Sim. Houve um homem ali. Um pau, um peito, uma voz forte falando as coisas mais obscenas e rindo riso de covinha na hora de gozar.

Me agachei, abri o penhoar e ri também eu.

Nisso a Elbe grita da varanda que tinha vindo buscar outro tubo de bronzeador e estava voltando para a praia. Será que não me animava mesmo a ir com ela?

Levanto a persiana, deixo o sol entrar sem a menor restrição e percebo como a canga turquesa da vizinha fica bonita cintilando na luz. Resolvo encarar seu otimismo de almanaque, as crianças eufóricas e as mães estressadas e respondo que vou, é só o tempo de botar o biquíni.

– Me empresta o seu bronzeador? – pergunto.

 

Para susto de Elbe. E com uma voz que nem parecia a minha. •

consuelo@uol.com.br

 

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