O carnaval fagocitando a morte

O carnaval fagocitando a morte

Rosa Maria Araújo

 

Há riso, há alegria, mas também há lágrimas no salão. Em que pese o superlativo estado de folia, condição visceral da sua existência, o carnaval não é imune à dor. Muito menos indiferente à morte, a antiapoteose da vida. A história mostra que, ao longo do tempo, o carnaval desenvolveu uma forma muito peculiar de lidar com o luto, de fagocitar a tragédia. O “Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima” é quase um hino metalinguístico desse sentimento.

Por outro lado, no Rio de Janeiro, cidade que tem vocação para a alegria, o consumo reprimido de festa permite explodir o sentimento assim que passa a tempestade. Em 2022 poderemos negar ou comprovar esta hipótese. No ano passado, o carnaval teve o seu maior encontro – ou desencontro – com a morte desde que chegou ao Brasil. Não houve folia. Pela primeira vez em 89 anos, as escolas de samba sequer desfilaram. A festa que já superou enchentes, catástrofes sociais, mortes de celebridades e mesmo uma epidemia foi silenciada pela Covid-19.

A exceção à regra dá a exata dimensão da tragédia que vivemos na pandemia. Este fato singular confere ainda mais importância à maneira como o carnaval processa fatalidades e outros momentos de profundo sofrimento e mal-estar, episódios estes que merecem ser relembrados.

Um século antes do coronavírus silenciar a folia, o ano de 1919 marcou o que, para muitos, é o maior festejo momesco de todos os tempos no Brasil. Era o primeiro carnaval após a gripe espanhola, que infectou mais de 600 mil cariocas. Pode se dizer que o brasileiro homenageou a memória de seus mortos – as estatísticas mais confiáveis apontam 35 mil óbitos por causa da doença – com uma festança nunca mais vista no país. Como o carnaval respondeu àquela gravíssima crise na saúde pública? Com mais carnaval. A folia durou praticamente três meses.

Insight Inteligência - artigos e ensaios fora da curva

Oficialmente, os festejos começariam apenas em março. Mas o carioca não conseguiu esperar. Em janeiro de 1919, a maior parte da população da cidade já havia alcançado a imunidade contra a gripe espanhola. Então, a cidade antecipou a folia. Os concorridos bailes do Clube do Democráticos começaram em janeiro e atravessavam as madrugadas. Ainda naquele mês os blocos Tenentes do Diabo, Fenianos de Cascadura, Minha Nêga e Felismina também desfilaram. Como escreve Ruy Castro em “Metrópole à beira mar”, muitas pessoas perderam os cabelos como sequela da gripe espanhola. Então, tivemos uma explosão de anunciantes de tônicos capilares, inclusive nos desfiles.

Houve corsos de tarde e de noite, alguns até duas da manhã. As componentes dos desfiles noturnos não eram tão inocentes. Os jornais registram casos de folionas seminuas com umbigo de fora; algumas estavam fantasiadas de Eva ou de Salomé. O carnaval de 1919 ferveu nos clubes, caso do High Life, na Rua Santo Amaro, no Catete. Outro evento famoso era o Baile dos Suados, no Assírio, na Lapa. Havia também os bailes dos grandes hotéis, como o Avenida, na Avenida Rio Branco. Eram famosos também os festejos em clubes como o então recém-inaugurado Tijuca Tênis Clube, América, São Cristóvão. Os jornais da época relatam todos esses bailes apinhados de gente, como uma euforia entre os foliões poucas vezes vista antes.

O primeiro carnaval pós-Gripe Espanhola foi, de fato, arrebatador. Todas as atenções da população se voltaram para a folia em um grau maior do que o normal. Durante uma semana seguida, a Gazeta de Notícias, então um dos maiores jornais do Rio, deu manchetes sobre o carnaval. O ano letivo, que devia ter começado em 25 de fevereiro, foi adiado para 10 de março. Vítima da maldita enfermidade, o presidente eleito Rodrigues Alves tinha acabado de morrer, a 16 de janeiro de 1919, sem tomar posse. Delfim Moreira, então vice-presidente, assumiu e convocou novas eleições, para abril. Mas quem queria pensar em política no Rio de Janeiro, Capital Federal, em meio àquele carnaval? As pessoas só queriam saber de celebrar a vida. Não havia no Rio de Janeiro quem não tivesse perdido alguém da família ou algum amigo acometido pela Gripe Espanhola. Aquilo foi um horror. Então era natural que houvesse uma sede de viver e de festejar.

O corpo diplomático se mudou para Petrópolis e muitas pessoas saíram do Rio rumo à cidade serrana para participar dos bailes das autoridades. O senador Lauro Muller perdeu um guarda-chuva com cabo de ouro em pleno baile. O corso na praça Dom Pedro na rua do Imperador foi um cortejo enorme. O melhor do carnaval do Rio era a Praça XI, com seus clubes e blocos como a Kananga do Japão, os Paladinos da Cidade Nova e o Rancho Rosa Branca. Era época dos anos XX, eram épocas do Rancho, porque o Rancho era um sucesso. Aquele foi o último carnaval que se brincou com músicas lançadas no decorrer do ano, marcha rancho, polca, tango, maxixe, ragtime, one step, valsas, áreas de ópera.

Ou seja: 1919 é um exemplo didático de como o carnaval encara o luto. As pessoas não estavam aterrorizadas com as mortes da Gripe Espanhola. Pelo contrário; havia a tristeza por tantas perdas, mas, havia, sobretudo uma vontade de enorme de celebrar ao lado daqueles que também conseguiram vencer aquela dramática epidemia.

Sete anos antes, ainda que em um episódio sem a carga dramática da Gripe Espanhola, o carnaval já tinha dado uma mostra da sua capacidade de digerir a dor. Em 1912, o evento foi adiado por conta da morte do Barão do Rio Branco, em 10 de fevereiro daquele ano – exatamente uma semana antes do início dos festejos. O Brasil entrou em luto com o falecimento com o patrono da diplomacia. Multidões se aglomeraram para acompanhar o velório no Palácio do Itamaraty e, posteriormente, o cortejo fúnebre até o Cemitério do Caju. Diante toda aquela comoção, os clubes que organizavam os bailes à fantasia, então, uma das principais, se não a principal atração do carnaval, decidiram adiar os eventos para abril. O que o povo fez? O brasileiro festejou tanto em fevereiro, como rezava o calendário regular, quanto em abril, próximo à Páscoa.

O curioso é que, formalmente, os feriados foram transferidos para abril, nova data oficial do carnaval. Mas, informalmente, os foliões mantiveram os suetos de fevereiro. Em pouco mais de dois meses, por duas vezes o Brasil parou por quatro dias. Ou seja: a morte do Barão do Rio Branco não enlutou o carnaval. Pelo contrário. Duplicou a folia.

O falecimento de Pixinguinha também é emblemático. Ele morreu exatamente em um sábado de carnaval (17 de fevereiro de 1973). Teve um infarto na Igreja de Nossa da Paz, em Ipanema, quando seria padrinho em uma cerimônia de batismo. A notícia rapidamente se espalhou, causando forte comoção. A Banda de Ipanema, que desfila justamente no sábado de carnaval, foi para a porta da Igreja e começou a tocar “Carinhoso”. A partir daí, essa se tornou uma tradição: em todos os anos, a banda passa em frente à Igreja e executa a obra-prima de Pixinguinha.

Como pode ser ver, o carnaval não é alheio à tragédia. Apenas tem os seus próprios ritos e protocolos para lidar com ela. Nos velórios dos compositores Wilson das Neves e de Dona Ivone Lara, dois baluartes da Império Serrano, a escola fez uma lindo gurufim em sua quadra. Agora, na morte do Monarco, em meio a tantas lágrimas dos filhos, netos e amigos, o gurufim foi comovente. Todas as culturas têm sua própria forma de conviver com o luto. Talvez a mais famosa e conhecida celebração sejam os velórios de Nova Orleans, sempre embalados por jazz. Assim é o nosso carnaval, com seu jeito particular de desfilar entre a dor, o sofrimento, a finitude. Graciliano Ramos dizia: “Se a única coisa que de o homem terá certeza é a morte, a única certeza do povo brasileiro é o carnaval no próximo ano.”

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.