O divino dinheiro

O divino dinheiro

Diego Viana, Jornalista

 

Circula pela internet uma charge de Quino, o pai de Mafalda, em que um homem de olhos tristonhos, um pouco vidrados, vai ensinando ao filho pequeno os reais valores do “nosso tempo”. Ele conclui, e o suspiro é quase audível: é importante que aprenda desde cedo como as coisas são. Então o pai aponta para a televisão e decreta, lamentoso: “cultura!” Aponta para um automóvel: “pernas!” E um telefone celular é “contato humano”. Lá pelo meio da sequência, Quino estampa uma desproporcional nota de cem dólares e a nomeia: “Deus.”

 

A  charge é matéria para sorrir amarelo, mas contém bem mais do que um queixume contra os vícios da modernidade. É terrível constatar que as crianças bem-criadas de hoje podem formar sua cultura inteiramente pelo Youtube e chegar à idade adulta sem saber folhear um livro (literalmente: outro dia me apresentaram ao vídeo de uma menina que confundiu uma revista com um iPad quebrado). Mas Quino acerta na mosca quando usa a mesma palavra, “cultura”, para se referir àquilo que a criança recebe da televisão e seu oposto, que não aparece na charge, mas sabemos bem o que é: uma cultura mais sofisticada e menos vulgar, com uma dose maior ou menor de erudição. Algo literário, se possível, mas, em todos os casos, uma introdução mediada ao mundo e seus valores.

O instrumento dessa mediação muda, os interesses da cultura transmitida mudam, mesmo os valores mudam, mas algum canal de mediação está sempre presente e exerce um papel crucial. É bem conhecida a fórmula com que Marshall McLuhan resume o poder do mediador: “o meio é a mensagem.” Por coincidência, a preocupação do teórico canadense era exatamente com a televisão, mas poderia ser qualquer outro meio – em seu livro seminal, “Understanding Media”, McLuhan discorre até mesmo sobre a penúria de papiros em Roma, ao perder a província egípcia. Abalada a burocracia, começou a ruir o império.

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O mesmo vale para o contato humano: falar pelo celular, “curtir” nas redes sociais, dar um abraço, escrever uma carta, frequentar bordéis, chupar um Chicabon, nada disso se faz sem mediação. Sobre a locomoção, não é preciso argumentar muito. Das pernas até os carros, muita água passou debaixo dessa ponte. E nem me refiro a trens, aviões e navios: basta pensar em coisas muito mais prosaicas, como sapatos, sandálias e botas. Pense nisso ao comprar Havaianas.

Ao que interessa: dinheiro

Mas o tempo está maduro para discorrer sobre um único dos quadros que compõem a charge de Quino. Vejo as páginas da imprensa, e nelas os protestos de Wall Street e alhures aparecem representados por jovens fantasiados de zumbis com dólares na boca, fazendo o papel de corporate zombies, as grandes firmas financeiras cuja existência se resume a engolir dinheiro como os mortos-vivos engolem cérebros. O dinheiro está no centro da pauta em 2011, ano de crises financeiras e ruas em chamas, então merece que lhe dediquemos ao menos um artigo de revista.

O dinheiro é Deus, Quino denuncia, na mesma medida em que a televisão é a cultura de hoje e o contato humano se esconde sempre atrás de um véu eletrônico. Na nossa cabeça impregnada com 25 séculos de tradição greco-judaica, o nome de Deus evoca a potência absoluta, a presença absoluta, a consciência absoluta: o primeiro motor, o criador, a Ideia eterna do Bem, da Verdade e do Belo. Se o dinheiro opera sobre o divino como a televisão opera sobre a cultura e o celular sobre o contato humano, a carga para as verdinhas é bem mais pesada.

Liza Minelli canta que money makes the world go round e já nessa canção de Cabaret vemos a força divina do dinheiro, que faz o mundo girar como se fosse a mão invisível de um Ser Supremo. Assim como diante da imagem de santos e profetas, espera-se de todos que se ajoelhem para venerar o retângulo de papel com a efígie de Benjamin Franklin. Contudo, como nos casos da cultura televisiva, da locomoção e do contato humano, é preciso fugir à ideia, subentendida na charge de Quino, de que o dinheiro substitui o divino como o automóvel substitui a locomoção pelas pernas e o telefone substitui o encontro face a face. A transformação operada pelo dinheiro na existência humana não é concorrente, mas análoga àquela que se opera com a instauração de religiões ou a invenção de aparelhos e instrumentos técnicos que reconfiguram a maneira como o ser humano está no mundo.

No entanto, se você for um bom economista ou quiser estar do lado dos bons economistas, cuide de crer que o dinheiro não tem poder nenhum.

 

Neutro como a Suíça

Quando John Stuart Mill escreveu, em 1852, que “nada é mais insignificante, na economia de uma sociedade, do que o dinheiro”, ele ecoava ideias de David Hume, um dos primeiros filósofos modernos a olhar diretamente para questões econômicas: “a bem da verdade, o dinheiro não é um dos sujeitos do comércio.” O dinheiro, resume o filósofo, tem “sobretudo um valor fictício”. A partir do século XVII, muitos economistas (a palavra é anacrônica, mas cai como uma luva) ficaram com uma pulga atrás da orelha quanto à sanha acumulativa de dinheiro. Fazia 200 anos que portugueses e espanhóis vinham dizimando a população de um continente inteiro (o nosso, por sinal); tinham dividido o mundo entre eles, com as bênçãos do santo papa; e salgaram o mar, à força de mães que choraram, filhos que em vão rezaram e noivas que ficaram por casar. Como prêmio, ganharam a inflação descontrolada e a derrocada política.

Os teólogos de Salamanca e Coimbra lançaram as primeiras bases daquilo que seria a teoria da neutralidade da moeda. Fora da Península Ibérica, o polonês Nicolau Copérnico, no intervalo de ouvir estrelas, também desconfiou que rodelas de ouro cunhadas não tinham valor por elas mesmas. É dele a noção de que “o mau dinheiro espanta o bom dinheiro”. Na França, Jean Bodin repetiu a afirmação e contribuiu para a derrubada do sistema mercantilista que levara à desgraça os ibéricos. Hume e Mill só fizeram martelar um caixão já fechado.

Chamei todos esses filósofos, teólogos, astrônomos e ministros de “economistas” porque foi uma preocupação de economista que eles demonstraram. O que o dinheiro faz com os mercados? Como ele influi no sistema de preços? E assim por diante. Grandes economistas, de Carl Menger a Milton Friedman (este último, autor de “Money Mischief”) se esmeram para responder que a resposta é: nada – pelo menos a longo prazo, que é o que interessa, não obstante a observação de Keynes de que estaremos todos mortos. Mais dinheiro em circulação não enriquece ninguém por si só. O que faz é aumentar os preços, e é por isso que tantos economistas de boa cepa torcem o nariz para políticas monetárias, sobretudo as expansionistas.

Acontece que um aumento generalizado dos preços não tem consequências só econômicas. Vejamos o que diz Elias Canetti sobre a hiperinflação alemã: “A inflação é um fenômeno de massas no sentido mais próprio e mais estrito da palavra. (…) Talvez hesitemos em atribuir ao dinheiro, cujo valor é artificialmente fixado pelos homens, efeitos geradores de massas que ultrapassam de longe sua finalidade própria e têm qualquer coisa de absurdo e de infinitamente humilhante.” O mesmo pode ser dito do fenômeno inverso, uma queda generalizada dos preços. O desemprego é um fenômeno econômico, mas as pessoas mal-ajambradas na fila do seguro, não.

 

Entre ética e política

Vale ainda lembrar que a economia tem dois pais: a filosofia moral e a política. A moral é mais importante, embora possa surpreender quem não tem familiaridade com o tema. Adam Smith era um filósofo moral e o próprio Hume escreve seus textos sobre o comércio, o dinheiro e os juros com a intenção de comparar os hábitos de vida de diferentes povos. A conclusão do escocês é: antes seguir o caminho dos mercadores holandeses, frugais e austeros, do que imitar a faustosa nobreza de Espanha.

O lado político é mais sutil. O caule de sua árvore genealógica está na infinidade de tratados do bom governo que atravessaram os séculos na Europa. Não só os tratados, aliás. No Palazzo Pubblico de Siena, Antonio Lorenzetti pintou, no século XIV, uma série de afrescos sobre os efeitos do bom e do mau governo na cidade. O bom governo é aquele graças ao qual os campos são bem cultivados, as mercadorias circulam sem sustos e a prosperidade sorri para o povo. O mau governo é o oposto. Toda essa arte pode ser resumida na frase proferida 650 anos mais tarde por James Carville, conselheiro de Clinton: “It’s the economy, stupid.”

Resumindo, para tratar de alguns temas importantes da economia, principalmente em tempos de crise, é preciso deixar um pouco de lado as preocupações legítimas de economista e retroceder aos campos que lhe deram origem. Quando se trata de teoria, ninguém corta totalmente o cordão umbilical.

A moeda é um desses temas, talvez o mais crítico de todos. Não é à toa que as fantasias de zumbi corporativo incluem o dinheiro na boca, e não “mercadoria” ou “ativos financeiros”. Tampouco é à toa que muita gente acha que o dinheiro é o Deus dos tempos que correm, e não, digamos, os bens de consumo. A moeda é o ponto de convergência das duas origens da economia, que são, também, os dois campos em que a vida econômica se manifesta. De um lado, a moral (ou ética), campo molecular dos afetos, dos desejos, das potências de cada um quando afogado num mundo gigantesco. Do outro, a política, a sociedade, campo molar das grandes forças, dos grandes fluxos, do trabalho, do poder e da dominação.

Todos conhecemos a narrativa hegemônica do aparecimento do dinheiro: no mundo do escambo, as trocas eram muito difíceis. Como comparar galinhas com bois, tecidos com madeira, a música dos menestréis e a refeição de uma taverna? Daí a necessidade de uma mediação, ou, para voltar ao que foi dito nos primeiros parágrafos, de que a troca de mercadorias se tornasse um fenômeno cultural. A narrativa prossegue: conchas, pedras, sal, tudo isso foi usado como mercadoria de troca até escolherem o ouro e a prata – raros e duráveis – para cunhar moedas. Antes de mais nada, a moeda é definida como meio de troca. Como tudo que é meio (ou mediação), está sujeita a todas as modulações da cultura, como as pernas trocadas por carros e o contato que desencarna dos corpos e vai parar nos celulares.

Mas esse não é o fim da história. Pensando bem, mal é o começo. Está certo, sabemos que oito galinhas valem o mesmo, em dinheiro, que um boi, ou que a apresentação de um músico é digna de receber uma quantidade de dinheiro correspondente a uma refeição na taverna. Mas, na realidade, nada mudou. As professoras de matemática têm razão quando perguntam: “Oito o quê? Bananas?” para ensinar aos alunos que galinhas, bois, músicos, tavernas, madeira e tecidos não são realmente comparáveis entre si. No entanto, é o que fazemos dentro de um mercado monetário, porque inventamos um mediador.

É fácil, ou melhor, é simplista explicar que a moeda exerce um papel de unidade de conta. Ela não simplesmente dá um valor em números para a utilidade que enxergamos em tal ou tal mercadoria. Ela cria, de forma quase milagrosa, uma verdadeira linearidade desses valores, que nada tem de absurda ou ficcional. O economista vai sacar imediatamente a arma da utilidade marginal de um bem: você gosta um pouco mais ou um pouco menos de alguma coisa quando a oferta é maior ou menor. Acontece que a linearidade com que varia o gosto por um bem desaparece completamente quando se trata de vários bens. A não ser que façamos intervir a moeda. Do ponto de vista da economia como um todo, pegar um avião até Buenos Aires vale mais do que o bilhete de cinema para ver um filme argentino. Se você não gosta de viagens, sorte sua, vai gastar menos.

 

O cofre é um templo onde vivos pilares…

Essa segunda característica é suficiente para fazer do dinheiro aquilo que Marcel Mauss chamava de fato social total. Um pouco como a religião, já que estamos na linha da charge em que Quino equipara o dinheiro a Deus. Por sinal, essa quantificação comum de afetos díspares também é prerrogativa do fenômeno religioso. No confessionário, o padre pode exigir do fiel três pai-nossos e três ave-marias por espiar a vizinha tomando banho, assim como pode exigir três mil pai-nossos e três mil ave-marias por um singelo ato genocida. O genocídio não vale mil masturbações, mas pouco importa. Luxúria e massacres são males absolutamente incomparáveis. Sendo ambos pecados, porém, podem receber penalidades proporcionais.

Mas é provavelmente a última função da moeda a que mais trabalha para amarrar o mundo político e o moral, ou melhor, o coletivo e o afetivo. A moeda como reserva de valor. Aqui é que entram seus efeitos sobre noções como riqueza, roubo, investimento, lucro e, pelo menos na era em que vivemos hoje, a principal: o capital.

O dinheiro não é a única reserva de valor, longe disso. Em sociedades agrárias, ser rico é acumular terras, que não só produzem comida, também ficam quietas e imóveis, guardando e representando a riqueza de seu dono: o valor do estamento social do indivíduo em questão está reservado em campos, bosques e ravinas. Já sociedades pastoris valorizam os rebanhos, e o rico é aquele que imprimiu a ferro sua marca em muitas cabeças. Outras reservas de valor podem ser imóveis, diamantes, obras de arte (por que não?), títulos do governo, qualquer coisa que pode ser transacionada no mercado, mas não está sendo porque o dono precisa segurar o que é seu e garantir o futuro.

Acontece que todas essas reservas são impuras, casuais e limitadas. Um rebanho não só pode ser acometido de uma praga e perecer todo de uma vez, como também é um ativo que vai sendo abatido aos poucos para a alimentação das pessoas. Tem, resumindo, sua própria dinâmica, um pouco à parte das transações do mercado. Obras de arte existem para ser apreciadas, mas se não o forem, nem sequer vão ter valor. E assim por diante. O dinheiro, porque é unidade contábil e mediador das trocas, é a única reserva de valor que também é pura, constante e ilimitada. É uma reserva de valor tanto para o proprietário de terras quanto para o pecuarista, o artista, o taberneiro, o assalariado, o industrial, o herdeiro.

É graças a essa operatividade quase milagrosa do dinheiro que Keynes consegue pôr em xeque o harmonioso funcionamento da teoria econômica clássica. Mas ainda é preciso dar alguns passos para fora da cabeça de um economista para entender até que ponto vai a implicação social – afetiva e política – da preferência pela liquidez, sobretudo quando chega ao extremo de se tornar uma armadilha. É isso que vai nos jogar de volta aos dois pais da economia, a saber, a ética e a política.

A armadilha de liquidez é o que acontece quando os agentes de uma economia não querem investir ou consumir, seja por medo de perder os valores que já têm em reserva (no caso, uma reserva líquida, ou seja, pura, constante e ilimitada), seja por não confiarem nos retornos de seu investimento, na expectativa de que alguma coisa muito ruim aconteça. No mundo da ética, deixar de investir em alguma coisa pela expectativa de algo que causa medo tem um nome bem menos pomposo: timidez.

Investindo nos mercados

O paralelo é mais do que uma metáfora e foi por isso que joguei com o termo “investimento”. Falei da moeda como um mediador, um modulador, e esse trabalho dela aparece aqui com toda sua força. No campo social, os indivíduos fazem coisas porque investem nelas, se dedicam a elas; daí a expressão “investimento afetivo”. Eles fazem isso por seu desejo, pela expectativa de bons resultados, pela confiança em sua própria potência de agir. Pelo mesmo motivo, eles investem, se dedicam e se entregam à moeda, esse instrumento intermediário: eles confiam em que seu dinheiro será aceito (ou seja, terá valor), eles têm a expectativa de conseguir fazer ou obter o que querem graças àquele modulador emitido pelo Tesouro. Em momentos de crise, eles deixam de acreditar em tudo isso porque têm medo, perderam a confiança, e esse medo fica tão estampado no dinheiro quanto a efígie do soberano.

Como observou Paul Samuelson, a moeda só é aceita como meio de troca por uma única e tautológica razão: porque ela é aceita como meio de troca. Ou podemos ficar com a fórmula de Bernard Lietaer: “o dinheiro é para as pessoas como a água para os peixes.” Cada um só recebe um dinheiro como pagamento porque sabe que vai poder repassá-lo adiante da mesma maneira, imediatamente ou depois de guardá-lo por um tempo. Esse fator aparentemente mágico faz da moeda um fenômeno análogo a todos os outros fatos sociais totais, inclusive a linguagem. Você fala português no Brasil porque sabe que vai ser entendido e escreve nessa língua porque as próximas gerações, bem ou mal, vão continuar entendendo. O dinheiro também é portador de sentido e de valor, mesmo que não seja, ele mesmo, nem sentido, nem valor. O que faz é reorientar as linhas de certos sentidos e valores, para criar um microuniverso, um subconjunto de afetos, sentidos e valores. Esse subconjunto é conhecido de todos e tem um nome: mercado.

A modulação que caracteriza esse subconjunto é aquela em que a medida para o quanto se deseja um objeto é saber o quanto se está disposto a pagar por ele; a medida para o quanto se pode fazer é a renda mensal; a paciência funciona no modo da poupança e seu prêmio é a taxa de juros; a coerção é a multa que “dói no bolso”; e assim por diante. Também fica mais claro por que é pernicioso dividir o mundo entre “economia real” e “economia financeira”. Se fosse possível isolar a primeira da segunda, ela teria uma cara tão diferente que talvez nem merecesse esse nome: economias de troca ou de doação funcionam perfeitamente, mas certamente não são mercados como os que conhecemos. Nelas, acontece o processo inverso: os valores que consideramos econômicos é que são expressos em outras linguagens.

Agora que entendemos como o mercado é um subconjunto do campo social, podemos enxergar, também, como é nele que um determinado “investir-se” é “investir”, em que uma determinada confiança é realizada pela confiança na moeda, e o mesmo vale para as demais manifestações da afetividade. Como uma das faces visíveis do campo social, o mercado é necessariamente também uma realidade com implicações políticas, mas ainda não chegamos a essa parte tão interessante, em que há poder, contradição e disputa.

Voltemos à função de reserva de valor. Pense numa pessoa que passa o mês inteiro trabalhando como um camelo e, ao final do período, ganha um salário que, bem ou mal, remunera seu esforço e traduz a potência de ação do assalariado nesse objeto social capaz de encarnar e representar valor. Ou seja, todo o mês do trabalhador, tudo que ele fez no período, toda a energia que despendeu, está concentrada naqueles papéis que lhe caem na mão. (Nosso personagem é um sujeito pobre, não tem conta bancária.) Ele pode transferir esse valor numérico para uma infinidade de outros objetos: comida para o mês seguinte, cachaça, as parcelas de um imóvel, qualquer coisa.

Mas também pode acontecer de, voltando para casa, o trabalhador ter todo o salário levado por um assaltante. Nesse subconjunto monetário da vida social, o significado de um roubo é muito diferente e bem mais amplo do que, digamos, o furto de algumas cabeças de gado em uma sociedade pastoril. De uma hora para outra, toda aquela potência que estava na mão do assalariado passa para o assaltante, que, sem ter feito o mesmo serviço que o outro, pode escolher rigorosamente da mesma maneira como aplicar o espólio. E – o que é irônico – seria até possível dizer que aquela quantia “remunera” o roubo, a audácia, o planejamento, o descaso pela lei. A rigor, dentro de uma sociedade suficientemente grande, um lojista, desconhecendo a condição de assaltante daquele comprador (ou até conhecendo; acontece, como sabemos), vai tratá-lo com todas as deferências devidas a um bom cidadão, de olho naquela potência monetária.

 

Follow the money

Quem está com dinheiro na mão é mais potente no âmbito social. Isso não ocorre só pela ganância, mas porque o dinheiro é uma ferramenta que organiza sistematicamente os fluxos de potências numa sociedade. É também o instrumento que mede a distribuição dessas potências. Quando Garganta Profunda sugere a Bob Woodward e Carl Bernstein que “sigam o dinheiro”, é isso que ele está expressando: meçam quem pode mais, procurem a origem e o destino do poder. O caminho, o farol e o combustível são um só: o dinheiro.

A política é o jogo dos poderes; o dinheiro é um jogo de potências. Mas o poder nada mais é do que uma forma institucionalizada de potência e o dinheiro é uma – talvez a principal – ferramenta que institucionaliza potências, disputando a primazia com a violência. O recado que o manifestante passa ao representar os grandes bancos como zumbis que comem dinheiro é bastante claro: a concentração da potência monetária em algumas poucas corporações permite a elas sugar a potência de toda a sociedade como zumbis sugariam os cérebros dos vivos. A imagem é extraordinariamente parecida com a de Marx, que não fala em zumbis, mas em vampiros, e não menciona especificamente os bancos, mas o capital como um todo.

No âmbito da sociedade, ter poder é conseguir concentrar e comandar potências e isso é feito tanto pelo sistema legal quanto pela ordem religiosa. Marx, em particular, analisa como o capital industrial exerce esse poder, ao se apropriar da força de trabalho (ou seja, da potência) de seus operários. Desse ponto de vista, a mais-valia aparece como um fenômeno quase secundário. Mas para ficar só no que diz respeito à moeda, a palavra “capital” dá conta justamente desse acúmulo de potência necessário para atuar com alguma desenvoltura dentro de um sistema social que possui um subconjunto chamado “mercado”.

Quando uma empresa toma um empréstimo para se capitalizar, duas coisas acontecem: por um lado, ela obtém uma carga disponível e imediatamente acessível de potência para investir (ou em si própria) em algo, produzir alguma coisa, contratar trabalhadores, estruturar sua cadeia de produção e obter seu lucro ao final do processo. Por outro lado, ela entra em um tipo bem particular de relação com quem lhe cedeu essa potência: acionistas, investidores, os bancos que concederam o empréstimo. É uma relação de dívida e de prestação de contas, tanto para o bem quanto para o mal, que amarra um determinado membro da sociedade a outros. O processo, como um todo, cria um laço social, com tudo que um laço social envolve: colaboração, competição e relações de poder.

Com isso, é fácil enxergar que o endividamento sufocante de que os manifestantes de Wall Street reclamam tem dimensões muito mais amplas do que o desemprego, a recusa do capitalismo selvagem ou algum outro tema batido. Não é questão de economia e é perfeitamente compreensível que os economistas, ortodoxos e heterodoxos, estejam batendo cabeça, como estão, diante dos eventos de 2011. O que está em jogo é toda uma estrutura sistemática de vínculo social, tanto pela circulação das potências de ação quanto pela construção de poderes. Em escala global, nem é preciso dizer, acontece o mesmo: dívidas soberanas, contraídas por Estados para irrigar de potência monetária seus próprios mercados, estabelecem vínculos de obrigações e relações de poder que espelham, à sua maneira, os tratados multilaterais e o poderio militar. O sistema é outro, a linguagem é outra, mas o fenômeno é da mesma natureza.

Os manifestantes franceses ficaram irados ao saber que a reunião do G20 em Cannes seria patrocinada pelas mesmas corporações financeiras apontadas como responsáveis pela crise, em troca de passe livre para seus principais executivos nas reuniões dos chefes de Estado. A ira é compreensível; a surpresa, bem menos. O Estado, como instituição central na ordem do poder, exerce sua força através de impostos, polícia e tribunais. Outras instituições têm outros caminhos: sindicatos têm greves (Walter Benjamin via nelas a “violência-como-poder” que se opunha ao “poder-como-violência” estatal); organizações da sociedade civil têm passeatas, abaixo-assinados, ocupações de praças; corporações têm dinheiro, que trabalha tanto com o endividamento do público quanto com os lobbies no governo. Por que elas abdicariam de usá-lo?

O verdadeiro jogo político acontece nos pontos de intersecção dessas diferentes esferas. Hoje, o poder que manuseia o dinheiro, elevado à condição quase divina que a charge de Quino assinala, é de longe o mais forte. E aproveito a volta a Quino para fechar o ciclo, embora muito haja ainda a ser dito. Como um fato social total, o dinheiro tem o mesmo poder das divindades, se formos seguir a etimologia predileta para a palavra religião, como elemento de ligação de uma sociedade com seus ancestrais, seus espectros e, por isso mesmo, consigo mesma. Dinheiro e deuses fazem convergir os afetos, os desejos, as potências, as aspirações, as forças, os sentidos, as medidas. Ambos estão acima do controle e da compreensão dos mortais. Para o sujeito imerso nessas realidades, é impossível escapar ao destino traçado pelos deuses ou ao destino traçado pelo dinheiro. Ao apontar para a cédula, o pai zeloso transmite tudo isso para o filho.

Resta ainda uma palavra como ressalva. O campo das religiões, como o do dinheiro, não é impermeável. Atua sobre todos os demais, mas também recebe influxos e influências sem os quais seria uma rocha inabalável, mas inoperante – não seria mediador de nada. Quanto mais se aproxima de virar um universo absoluto, mais ele se esgota, se consome, se alimenta das próprias entranhas. Manifestações de ira religiosa, por exemplo, acontecem quando a potência da afetividade dos fiéis transborda as teologias, as liturgias e os rituais. A política como um campo autônomo, com toda a sua crueza e brutalidade, reaparece (e estava mesmo quase sumida, pelo menos nos discursos) quando o mercado começa a acreditar demais em si próprio. De um golpe, redescobrimos a realidade das reivindicações, da raiva, da repressão policial. Tudo isso estava lá, sempre esteve, em germe. Mas houve um mecanismo que deixou de operar a contento e o jogo se reabriu.

 

vianadeoliveira@gmail.com

 

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