O Flagelo da carne

O Flagelo da carne

Márcia Neder, Psicóloga

Guilherme Gutman, Médico psiquiatra

 

Bondage, disciplina, sadismo, masoquismo. BDSM, S & M. Spanking, whipping, açoite, podolatria. Blood play, medical play, dog play, medical play, age play. Acromotofilia, agalmatofilia, agrexofilia, clismafilia, coreofilia, estigmatofilia. Chicote, coleira, clamp, chibata. Mistress, Dominatrix, Domme, DOM, sub, escrava. Mumificação, gag, ball gag, inversão, trampling. Parafilias de toda espécie. Perversões, encenações, distorções, anormalidades, fetichismos ou fantasias. Escolha a sua, soft ou hard.

Freud explica, mas nem sempre. Desde que escreveu sobre as fantasias eróticas associadas ao sadomasoquismo – numa descrição de fantasias comuns em neuróticos, homens e mulheres – suas análises sobre a combinação entre prazer e dor inspiram teses e contrateses, factuais e contrafactuais, convergências e divergências no entendimento da sexualidade humana. De certo, porém, é que neuróticos somos todos. Fantasias, cada um tem a sua. Fetiches, atire a primeira pedra quem não os tem. Um pouco de sádicos ou masoquistas, ou as duas coisas, aponte o dedo.

Inteligência põe o assunto na mesa, convida dois psicanalistas e se entrega ao jorro livre da conversa.

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Prazer, cada um tem o seu

 

Márcia Neder – O prazer é pessoal e intransferível. Ele depende da carne e do corpo, também pessoais e intransferíveis. Se quisermos isso juntar com a psicanálise, é só olhar a nossa existência. Cada um vai construir, criar, moldar, tramar sua própria história. Nesse sentido, a decisão sobre o prazer e o desprazer é absolutamente individual. Esta, aliás, é uma premissa importante para se tentar entender a opção pelo sadismo e pelo masoquismo. O contrário do prazer é o desprazer e não a dor. O prazer em si, para a psicanálise, já é uma questão imensa. É o cerne do arcabouço psicanalítico. Trata-se de uma teoria extremamente problemática e contraditória. Quando Freud define prazer como a descarga de excitação, a descarga de energia, cabe perguntar: como explicar, então, que olhar um quadro, ler um livro, assistir a um filme, ou seja, atividades prazerosas, sejam atos baseados em um modelo pautado pelo orgasmo masculino, o da descarga, do jorro. Aristóteles e Platão, por exemplo, tinham uma concepção quantitativa do prazer.

 

Guilherme Gutman – A dor realmente não é o polo oposto do prazer. Não opomos uma coisa à outra, tanto que é possível sentir prazer na dor. Logo nos remetemos, portanto, às práticas sadomasoquistas, nas quais essa conexão parece muito clara. As práticas sadomasoquistas são aquelas convencionalmente classificadas como alguém que obtém prazer provocando a dor, no caso do sádico, ou aquele que obtém prazer sendo objeto daquilo que o sádico faz com ele, o masoquista. É importante frisar que esses papéis são intercambiáveis. Muitas vezes é possível estar numa posição e, em um momento distinto, em outra. Podemos pensar em relações para as quais o termo sadomasoquismo também valeria, embora sejam relações que nos pareçam tão distantes, ou tão estranhas, ou mesmo que receba a alcunha de parafilia, perversão sexual, que são certas junções, certos casais, certos modos de estabelecimento de relação entre homem e mulher, mulher e mulher, homem e homem.

 

Contratos e distratos

 

Guilherme Gutman – Há modelos diferentes. Há sádicos que surpreendem o seu objeto na dor, na provocação da angústia. Seu prazer está na surpresa e na inesperada submissão do parceiro. Mas há também a dupla sadomasoquista na qual se estabelece um contrato, a partir do qual ambos se entregam a um jogo mútuo. Nessa relação, existe a vertigem, a miragem, a fantasia de que o sádico está realmente submetendo aquele masoquista a uma situação angustiante, sofrida e dolorida. Do mesmo jeito, guardadas as proporções, podem-se incluir elementos levemente agressivos num relacionamento sexual quando há uma parceria e que só fantasia que aquilo está sendo feito. Há várias possibilidades.

 

Márcia Neder – Existem, sim, casos em que se estabelece uma sociedade, uma cumplicidade entre o sádico e o masoquista. No entanto, o parceiro do sádico não é o masoquista. O psicanalista Renato Mezan costuma exemplificar essa relação com uma piada. O masoquista diz: “Vai, me tortura, me machuca, me maltrata!” E o sádico responde: “Na-na-ni-na-não.” Qual a possibilidade de um sádico gozar com o sofrimento alheio se o outro também está gozando? Na essência, o sádico quer causar algum dano ou dor do qual o outro não vai usufruir. Não há acordo. Há a imposição de uma angústia que não estava previamente estabelecida. Quanto mais genuína e inesperada for a dor do submisso, maior será o gozo do dominador. Nessa relação não há acordo. Há, sim, uma surpresa causada pela ruptura.

 

Masoquistas vs. submissos

 

Márcia Neder – O masoquista também não é submisso. São categorias diferentes. Em “Belle de jour”, há uma cena memorável do masoquista no bordel, querendo ser “masocado” pela Catherine Deneuve. Depois ele a dispensa e pede para a cafetina trazer outra moça, que ele conhece e poderá dominar. Ou seja: o masoquista não é um submisso. Ele tem uma característica fundamental em comum com o sádico: também quer o controle da situação.

 

Guilherme Gutman – A psicanálise talvez seja um instrumento sofisticado para o que vou dizer agora: não podemos transformar nem o sádico nem o masoquista em tipos mais ou menos fixos, o que, por extensão, vale também para essa relação masoquismo/submissão. Há uma certa flexibilidade nesses comportamentos pré-classificados. Onde Freud foi buscar essas espécies de desejo que os humanos têm? Nos grandes compêndios, na psicopatia sexual. Ele bebeu, por exemplo, na fonte do sexólogo e psicólogo de origem australiana Henry Havelock Ellis. Freud conseguiu criar uma espécie de bestiário borgiano, mapeando todo tipo de comportamento e desejo sexual que diferisse daquele núcleo burguês, daquelas regras do que seria uma postura convencional. Isso fez com que o século XIX multiplicasse os nomes para quase qualquer atitude que revelasse essas diferenças. A psiquiatria estabeleceu uma classificação que, como qualquer outra, foi feita de nichos. A partir desse modelo, faz-se de tudo para se encontrar nichos onde caibam o sádico e o masoquista, apenas para citar dois desses comportamentos que foram esquartejados. A grande diferença que a psicanálise e Freud incluíram foi dissolver a ideia de que o sádico é um personagem específico, com critérios específicos para delimitá-lo. O mesmo se aplica ao masoquista. Ele dissolve essa história dizendo que a psicanálise não está falando de desejos fixos por alguma coisa. Não necessariamente o sádico e o masoquista serão o sádico e o masoquista da piada. Essa vai ser uma entre muitas possibilidades de sadismo e masoquismo. Não necessariamente, portanto, o sádico será aquele que gosta de bater e ver o outro sofrer porque está apanhando. Nem o masoquista é aquele “me bate que eu gosto”. Na verdade, ambos estão atrás do que todos, em sua essência, procuram: algo que, digamos, satisfaça o seu desejo. Vamos pensar no triângulo edípico. Haveria o primeiro momento em que teríamos um bebê e a mãe fundidos, no sentido de que um está para o outro inteiramente. Tudo o que a mãe pode desejar estaria naquele bebê. Mas há um determinado momento em que um outro personagem entra em cena, dizendo: “A tua mãe não é só para você.” Esse personagem não precisa ser necessariamente um pai. Pode ser o trabalho ou qualquer situação capaz de revelar ao bebê que ele não é o único a despertar o desejo da mãe. Nesse momento se opera uma espécie de separação entre ambos. O bebê, o primeiro capítulo fundamental da nossa história de neuróticos desejantes, é alguém que vai passar a vida toda se ressentindo disso que já teve e não tem mais. A vida desejante de um neurótico é geralmente um trânsito infinito por essas promessas de restituição parcial, mínima, do que ficou faltando. Sádicos e masoquistas, como todas as demais categorias, vamos assim dizer, também estão na estrada em busca desse resgate.

 

Márcia Neder – É bom frisar que, nessa busca, chega o momento em que o objeto desejado não está lá, jamais estará lá. Na relação sexual, isso significa que o parceiro não vai caber no seu sonho. E a grande dificuldade de relação, o outro é aquilo que estou projetando. E cruzado, já que eu também sou objeto das projeções do outro. A sexualidade se consolida, então, não apenas como fonte do prazer, mas também de dor, de inquietação, de conflito. É a heterogeneidade do desejo, que vai além do manual das parafilias ou das perversões. Nós somos perversos. A sexualidade infantil é perversa. A própria sexualidade é fonte de conflito, de preocupação.

 

QUESTÃO DE GÊNERO

 

Marcia Neder – Para nós, psicanalistas, há outro nó relacionado ao sadomasoquismo. É possível associar o sadismo e o masoquismo ao homem ou à mulher? O buraco é mais embaixo. Freud descobriu esse masoquismo e o associou a um comportamento feminino, mas não necessariamente a um comportamento exclusivo da mulher. Mesmo no homem, o prazer pela dor estaria vinculado a sua porção feminina. Ou seja: Freud descobriu o que ele chamou de masoquismo feminino em homem a partir da premissa de que essa prática estava associada à mulher. O homem era o ser dominante, a mulher era o ser dominado, a submissa. Não por acaso, na nossa cultura ocidental, a sinonímia vem daí: masculino, sádico, ativo, feminino, masoquista e passivo. Isso já está na cultura. Está em Eva, se não quiser ir em Pandora. Antes de Freud falar do masoquismo, ele citou o masoquismo primário, original de nós todos. Isso é o momento original da nossa condição, do que é o masoquismo. A destruição do que é primeiro. Ele distinguiu outras formas de masoquismo. O fundamental é que somos todos masoquistas. A agressividade, antes de ser voltada para o outro, e, portanto, ser sádica, é masoquista. É voltada contra nós mesmos. Trata-se da tendência autodestrutiva ou da chamada pulsão de morte. Freud descobriu que esse é o nosso estado original e só depois essa agressividade vai se voltar para fora. Nesse ponto, a cultura vai ter um papel essencial. Esse é o lance genial de Freud, que numa escuta apressada escapa sempre. O masoquismo feminino são as fantasias que o homem alimentava, que ele via no divã, as fantasias de ser castrado, de ser copulado e dar à luz, condições que o tornariam feminino. O que Freud chamou de masoquismo feminino foi isso: as fantasias que ele enxergava nos homens. A posição passiva. Tem um lado do masoquismo que apela para essa questão da passividade. O que o masoquismo e o feminino têm em comum? A passividade. Não adianta espernear. Assim tem sido na História. No entanto, a partir do século XX, a psicanálise foi obrigada a rever alguns conceitos originalmente elaborados por Freud. Ocorre, então, uma mudança sutil. O masoquismo passa a ser visto não como feminino, mas como uma condição da feminilidade. A mulher é mulher desde que goste de sofrer. Tem a famosa frase do nosso grande filósofo, antropólogo, psicanalista e sádico, Nelson Rodrigues; mulher não sabe por que está batendo, mas sabe por que está apanhando.

 

Guilherme Gutman – Concordo, mas há outro ponto que acabamos tangenciando. Aspectos da cultura em que estamos inseridos e aspectos das necessidades individuais. Na cultura em que estamos inseridos, claro que a mulher está mais frequentemente que o homem numa posição de ser submetida por ele. Vai numa delegacia da mulher: a cada tantos minutos uma mulher é agredida. Em pleno século XXI, ainda temos uma endemia de mulheres objetos de violência sexual, física, verbal, psicológica. Mas a questão é que nem todas estão topando isso, o que nos dá duas informações importantes. Na cultura do século XXI, a mulher pode gritar na ágora e descortinar publicamente a agressão masculina. O segundo fato se desprende da cultura e vai para a dinâmica do desejo. Na montagem das fantasias e nos caminhos do desejo, nem toda mulher aceita ser submetida ao homem. E não precisaria ser mulher para isso. Voltamos a tratar não do gênero strictu sensu, mas da imagem masculina e feminina. Pode ter um homem no qual o desejo e a montagem da fantasia, diria uma certa corrente da psicanálise, passam por ser submetido a uma mulher, mesmo que, para consumo externo, ele seja o homem do casal, o chefe de família. O psicanalista olha as relações de um jeito que os vizinhos e os outros familiares não enxergam. Esse homem é completamente submetido. Ele é, digamos assim, regularmente sadicizado por sua mulher.

 

Marcia Neder – É uma luta inglória. Essa ideia do feminino como sofredor, do feminino como a vítima, como o sacrifício, está na cultura, na nossa civilização. Somos as imitadoras de Eva. Isso se capilariza, dilui-se por todos os poros da cultura, embora vivamos no século XXI e consigamos perceber que começa a mudar. É fantástico quando Freud fala do masoquismo feminino na década de 30 e afirma: “Como as pessoas dizem, o masoquismo é verdadeiramente feminino. E suspeito que a cultura tenha coibido a agressividade da mulher.”

 

Guilherme Gutman – No entanto, quando Freud se refere ao feminino, ele não está dizendo necessariamente a mulher. Está falando de uma posição em relação ao outro. Pode ter alguém que é um pai de família. Está numa montagem familiar, em que o homem é o sujeito que trabalha no escritório e a mulher, a dona de casa. Ele dá as ordens, determina isso ou aquilo. Mas os caminhos de desejo dele passam por outra coisa. Ele vai buscar relacionamentos com um travesti para que ele seja penetrado, para que sinta uma dor que não “pertence” originalmente à figura masculina. Ou seja: ele cumpre o papel social de ser o homem do casal, mas o desejo e a fantasia passam pela ideia de um feminino ao qual ele adere. Ele se submete a uma posição de passividade em relação ao outro. Trata-se, portanto, de um feminino que não é necessariamente a mulher.

 

Marcia Neder – Voltamos ao eixo central dessa questão. Novamente, temos o feminino como passividade, submissão, dor e, em última instância, no masoquismo, tal qual Freud identificou.

 

SADOMASOQUISMO DE VITRINE

 

Guilherme Gutman – A partir dessa extensa digressão sobre o esquartejamento do sadismo e do masoquismo à luz da psicanálise, derivamos para a prática propriamente dita. Não gostaria de usar o termo “genuíno”, mas existem pessoas que efetivamente só conseguem alcançar o prazer através da dor ou da submissão do outro à dor. Se elas lidam bem com esse comportamento, sem qualquer prejuízo maior do ponto de vista emocional e psíquico, nada a fazer. Caso contrário, se essa postura, em vez de prazer e gozo, lhe impõe uma carga pesada de sofrimento, inevitavelmente essa pessoa precisará de um suporte terapêutico. Mas há outro tipo de personagem que corre em uma raia paralela e cuja incidência é cada vez maior. Podemos chamar de um sádico ou de um masoquista ocasional, modista, que se move muito mais por conta de um estímulo externo do que por uma opção madura que pauta a sua vida sexual. Aí temos uma ingerência do mercado, que tem se mostrado cada vez mais capaz de mapear no comportamento humano e, mais especificamente, no campo das relações sexuais aquilo que pode virar produto. Entra em cena, então, aquele amplo catálogo de mercadorias populares e até folcloricamente já vinculadas ao sadomasoquismo, como chicotes, roupas de couro, coleiras, pênis de borracha femininos etc. Portanto, precisamos observar dois caminhos distintos para a prática do sadomasoquismo. Uma situação é o mercado se apropriando de algo que ele identifica como produto, criando consumidores de ocasião. Outra são as pessoas que vivenciam essas experiências como fonte exclusiva de obtenção de prazer. Ou seja: de um lado, podemos identificar um desejo consumista; o mercado vende para grandes massas, para os neuróticos; do outro, estão as pessoas cujo desejo realmente transita pela dor de maneira orgânica.

 

Márcia Neder – Uma situação me chamou a atenção. Masoquismo como subserviência. Eu não vejo. O masoquista é um controlador tanto quanto o sádico, seja ele orgânico, como foi dito, ou de temporada. Voltamos àquele ponto: o masoquismo foi associado ao feminino, à passividade.  No entanto, ele quer o domínio da situação tanto quanto o sádico. O masoquista faz o contrato, o sádico não quer o contrato. Outra palavra que me aguçou o pensamento foi “genuíno”. A dominatrix não seria genuína; seria uma imposição do mercado, um personagem tal qual Mickey Mouse. Devemos analisar outra vertente, associada à relação da sociedade com a cultura – uma relação que, diga-se de passagem, não é nada lacaniana. Não consigo ver um indivíduo autônomo e alheio à cultura, ou seja, um sadomasoquista orgânico paralelo à cultura. Não dá para dividir: este gosta de bater ou de apanhar por razões biológicas e aquele é mobilizado por questões que podemos chamar de culturais. Eu enxergo a cultura como uma lâmina entrando pelos poros, rasgando peles e tecidos e sangrando a carne. Assim é o ser humano, seja ele o dominador ou o dominado.

 

Guilherme Gutman – Aqui há uma oposição de perspectivas. A cultura – uma abstração em que cabe muita coisa – até pode penetrar na carne e condicionar muito do comportamento humano. Mas, na verdade, ela é um dos elementos com os quais o sujeito tem de se haver. Há um caminho de desejo que não é inteiramente condicionado pela cultura. Não me apetece a ideia de priorizar algo como definidora do sujeito. Cultura é uma ideia muito mais rica e mais ampla.

 

Márcia Neder – São dois pontos de partida diferentes. Quando se parte, como eu parto, do ponto de vista do psicanalista francês Jean Laplanche, o que ocorre quando o bebê nasce? Danou-se. O coitado já caiu na cultura. Não está no abstrato, mas nos adultos que o acolhem. Isso é cultura. E como eu me torno eu? Como um ser humano se torna ser humano? Pelas referências identificatórias. Não é o condicionamento. O condicionamento exige uma separação: de um lado, a sociedade; do outro, o organismo autossuficiente, que seria condicionado pela sociedade. Todos nascem no estado de subserviência, aí, sim, genuína. É preciso que o adulto faça a mediação entre a criança e o que ela precisa. Esse adulto já vem sexuado, tem o inconsciente, já encarnou a cultura, infiltrada em todo o seu corpo. Cultura é esse leite que vem. Não consigo separar um desejo orgânico, biológico, e um cultural, influenciável pelo meio.

 

MULHERES POR CIMA

 

Marcia Neder – Recentemente, li uma reportagem mostrando que as meninas agridem mais do que os meninos. As garotas passaram a dar porrada. A agressividade sempre foi um monopólio masculino na nossa cultura. Qual é o encanto da dominatrix? Onde ela choca? Cadê a mulher ternurinha? Cadê a fofa de chicote? Por dois mil anos, a agressividade esteve interditada às mulheres. Quase não existe mulher no humor, na composição, não existe mulher na filosofia, na literatura. Por séculos, elas foram suprimidas da História. Na nossa cultura ocidental, mesmo antes do cristianismo, a agressividade sempre foi um privilégio masculino. Exército sempre foi de homem. Guerra era de homem. A Igreja é de homem. A mulher foi amputada por séculos. Até mesmo sua capacidade intelectual foi coibida a partir da interdição da sua agressividade. Por isso, de repente, as figuras se invertem. A dominatrix, a fêmea controladora, fica interessante. A mulher começou a bater, e o homem está adorando essa vingança.

 

Guilherme Gutman – As mulheres estão encontrando um caminho de satisfação do seu desejo, mesmo que não seja numa posição masoquística. Ela começa a ser a dominadora em relação à família e ao próprio marido. Não dá para descolar a mudança da sociedade das mudanças entre quatro paredes.

 

AS FORMAS DE PRAZER

 

Márcia Neder – Uma boa questão é discutir se o sádico e o masoquista conseguem encontrar outras formas de prazer que não pela dor. Antes de qualquer avaliação sobre esse ponto, lá vai bomba: todos somos sádicos e masoquistas. Isso vale para o bebê de feições angelicais saído de um quadro de Rafael ou para a avó que prepara um bolo de cenoura ao fim da tarde para seu neto.

 

Guilherme Gutman – Pegando carona nesse raciocínio, o sadismo não é prerrogativa exclusiva do sádico. Do ponto de vista fenomenológico, encontramos um leque variadíssimo de comportamentos sexuais dentro do que classificamos como sadomasoquismo. Há o sujeito que consome o sadismo e no carnaval seguinte está comprando quilos de fetichismo. Existem também pessoas para as quais o prazer se restringe ao jogo sadomasoquista. Nesse caso, aquela montagem inicial que move o desejo de todos os indivíduos é construída sobre uma base sadomasoquista. Nesse grupo entram tanto as pessoas que integram a “Associação do Couro”, e fazem disso uma prática menos clandestina e mais institucionalizada, quanto aquele pai de família socialmente impoluto, o chefe de repartição das crônicas de Nelson Rodrigues, que, depois do trabalho, vai ao lugar onde sabe que conseguirá obter prazer e gozo condicionado ao sadomasoquismo. Esse personagem, aliás, vive a infelicidade de uma vida de aparências, na qual o prazer genuíno está no exílio de sua pátria social. Talvez o comportamento mais evidente nessa linha de conduta seja o do homoerotismo não declarado, no qual as práticas sadomasoquistas eventualmente podem ou não estar incluídas. Não estamos falando de uma pneumonia, na qual o médico detecta a bactéria, receita um antibiótico e ponto final. Há elementos muito mais complexos disputando esse lugar mais alto no pódio das causalidades que levam o indivíduo a um comportamento sexual “X” ou “Y”. Do ponto de vista da psicanálise, a relação entre prazer e dor depende dos caminhos mentais por onde o desejo passa. E mesmo dentro da psicanálise há, em muitos casos, fatores completamente divergentes. Se perguntar a um neurocientista, ele terá uma explicação, que será provavelmente fisicalista. É muito mais uma questão de filiação teórica.

 

Márcia Neder – Não sei até onde é importante identificar as causas do sadismo – e me refiro àquele que vai além do nosso sadismo natural, congênito, humano. Esses diferentes comportamentos estão sempre ligados a fantasias e à história das pessoas. Como elas vão se constituir, isso é pessoal e intransferível, assim como o próprio prazer. O olhar psicanalítico não tem como preocupação sair saneando comportamentos sexuais ou removendo aquilo que a sociedade por vezes convenciona chamar de desvios.

 

Guilherme Gutman – Um psicanalista não é um policial de nada. Nós é que somos procurados por pessoas que estão infelizes com determinados comportamentos e funcionamentos. Feliz do sujeito que tem à mão o mapa com os caminhos que o levam ao prazer, sem invadir ou arrasar o território alheio.

 

marcia_neder@hotmail.com

A articulista é professora adjunta da UFMS, pesquisadora do NUPPE/USP e psicanalista na escola Favinho e Mel (Rio de Janeiro).

 

guilhermegutman@gmail.com

O articulista é professor adjunto de psicologia da PUC-Rio.

 

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