O Palácio da Marquesa

O Palácio da Marquesa

Ana Pessoa e Ana Lucia Vieira dos Santos

Arquitetas

 

Considerado como um dos mais suntuosos palacetes do Brasil Imperial, a Casa da Marquesa de Santos, situado no bairro de São Cristóvão, ganhará renovado interesse no contexto das comemorações do Bicentenário da Independência, em 2022.

Excepcional exemplar da arquitetura do início dos 1800, tombado pelo Iphan, traz em seu traço a harmonia do neoclássico português aliado às novas influências francesas, e foi sobejamente decorado e mobiliado ao longo de suas sucessivas ocupações domésticas.

Sua construção está vinculada à mais famosa relação amorosa da história brasileira e que obteve repercussão internacional, pois afetou relações sociais, políticas, diplomáticas e econômicas do Império brasileiro, coincidindo com o processo de Independência. É a propriedade construída pelo imperador Pedro I para a residência de sua amante, a marquesa de Santos, conferindo-lhe o conforto e a representação social de uma Madame Pompadour dos trópicos.

Insight Inteligência - artigos e ensaios fora da curva

Contudo, esse Palacete serviu a outros proprietários e moradores com trajetórias de potencial interesse de distintas áreas da sociedade brasileira, como o contraditório barão de Vila Nova do Minho; o intrépido empresário e pai afetuoso, o barão de Mauá; a sensível e generosa baronesa de Guararema; e o galante dr. Abel Parente. E através desses personagens se oferece a oportunidade de narrativas ampliadas e a compreensão da importância de sua preservação e uso.

Sua área de ocupação inicial é muito mais ampla do que remanesce, como demonstram os registros e informações neste artigo, com suas amplas áreas livres sofrendo também diferentes usos, revelando hábitos e costumes da época.

Esse estudo integra o projeto A Casa Senhorial em Portugal, Brasil e Goa: Anatomia dos Interiores. (acasasenhorial.org), voltado para o estudo das casas de elite em países lusófonos.

O presente artigo é resultado de extensa pesquisa, ainda em andamento, envolvendo fontes brasileiras e portuguesas, como inventários, testamentos, descrição de leilões, artigos de jornais, revistas, correspondência e ampla iconografia, com mapas, gravuras e pinturas. Nesse aspecto, cabe destacar a contribuição do acesso às fontes digitalizadas, em especial as da Biblioteca Nacional, do Arquivo Nacional e do Museu da Justiça.

UMA FAZENDA JESUÍTICA

Os terrenos onde hoje se localiza o bairro de São Cristóvão foram parte da fazenda da Companhia de Jesus, que desde a fundação do Rio de Janeiro ocupava uma grande área logo ao fim do termo da cidade.1

Os desentendimentos da ordem com a Coroa portuguesa e sua subsequente expulsão dos territórios lusos em 1759, tanto na metrópole quanto no ultramar, levaram ao confisco de seus bens móveis e imóveis, que foram incorporados aos bens públicos. A redistribuição dessas terras aconteceu num momento de forte expansão urbana e populacional do Rio de Janeiro, que se intensificou ainda mais com a transferência da Corte portuguesa em 1808. Uma das chácaras assim formadas pertenceu ao Coronel José Tomás Brun, que, através de testamento feito em 16 de outubro de 1802 e aberto em 11 de maio de 1805, doou aos Lázaros a propriedade.2 O terreno teve seus limites assim descritos: “por uma banda com a estrada geral, e da outra com o rio que vai para S. Christóvão, e da outra com a quinta e da outra com a praia e o rio de água salgada”.3

A Irmandade do Santíssimo Sacramento da Candelária administrava o Hospital dos Lázaros e suas propriedades e abriu em 1815 a Rua Nova da Boavista nos terrenos da antiga chácara, ligando o caminho de São Cristóvão ao mar, possibilitando o parcelamento do terreno. Nesta primeira ocupação prevaleceram as chácaras, com escassos grupamentos de lotes menores.4

O PALACETE DA FAVORITA

Foi nessa área convenientemente pouco habitada e próxima do palácio imperial da Quinta da Boavista que D. Pedro I resolveu instalar sua favorita, Domitila5 de Castro do Canto e Melo, futura Viscondessa e Marquesa de Santos.

Sabe-se que ao chegar de São Paulo ela ocupou umas casas amarelas,6 cuja localização exata nunca foi definida. É possível que ficassem na Rua de Mataporcos, onde em 1827 aparecem coletados na Décima Urbana7 em nome da Exma. Marquesa de Santos os imóveis 64 e 66, compostos de loja e sobrado.

A instalação de Domitila implicou a ocupação de três chácaras, uma ao lado direito, e duas, do lado esquerdo do Caminho Novo da Boavista. Do lado esquerdo, havia a chácara que era de Francisco Joaquim de Lima, onde ficaram as cocheiras da então Viscondessa de Santos. Contígua a esta estava a chácara.do dr. Theodoro Ferreira de Aguiar, na Rua do Campo de São Cristóvão n. 94, ao pé de um pequeno morro. A chácara já tinha uma casa edificada em sobrado com sótão ao meio, que passaria por obras, como consta da Décima Urbana de 1826.8 Possivelmente estas são as duas propriedades que D. Pedro I mandou remembrar,9 reunindo a casa e as cocheiras da Viscondessa.

Do lado direito, havia um grande lote com frente para a Rua Nova da Boavista, canto com a Estrada de São Cristóvão, e limitada ao fundo pelo Rio da Joana. A viscondessa foi a primeira foreira desse terreno,10 onde foi construído o palacete que ficou conhecido como palacete do Caminho Novo, único edifício de sua propriedade que chegou aos dias de hoje no Rio de Janeiro.

O palacete da Marquesa de Santos foi construído e decorado sob supervisão direta do imperador D. Pedro I. Em estilo neoclássico, a obra teve participação de diversos profissionais portugueses e franceses.

O projeto é tradicionalmente atribuído ao engenheiro Pedro José Pézerat. Nascido em 9 de fevereiro de 1801 em La Guiche, o engenheiro francês só chegaria ao Rio de Janeiro por volta de 1826,11 quando a volumetria do palacete, com a característica sala oval nos fundos, já aparecia claramente nos mapas de recadastramento urbano.12

O edifício tem uma longa fachada voltada para a antiga Rua Nova da Boavista, hoje avenida Pedro II, dividida em três corpos. O corpo central é arrematado por um frontão triangular e compreende três vãos, sendo o de entrada no piso térreo mais largo, ladeado por duas janelas de peitoril; no piso nobre apresenta três janelas de sacada com balcão corrido com grade de ferro.

Os corpos laterais, separados do central por pilastras de ordem jônica, têm três janelas em cada pavimento, sendo as mais externas do pavimento nobre dotadas de balcões com gradis de ferro.

O corpo central corresponde ao grande vestíbulo de entrada, que dá acesso à caixa da escada nobre que ocupa o núcleo da edificação, articulando-se às salas de planta oval localizadas nos fundos. À volta da escada ficam as circulações que dão acesso aos demais cômodos da casa. Este arranjo segue a tipologia das escadas reais descritas por Hélder Carita13 caracteristicamente português e estruturante da planta e fachada, o que sugere que a traça do palacete tenha sido de um arquiteto português, possivelmente Manuel da Costa.

Na fachada lateral voltada para a Quinta da Boavista, ficavam os aposentos da marquesa, permitindo que o imperador a observasse do palácio, e se comunicasse com ela através de sinais. Significativamente, as janelas dos aposentos da Marquesa eram fechadas quando havia desentendimentos entre o casal.14 O apartamento é composto de um amplo toucador e uma alcova. Em posição simétrica fica o chamado salão da Águia, com uma antessala, aposentos de uso do imperador.

As pinturas decorativas originais são atribuídas a Francisco Pedro do Amaral, e Araújo Porto-Alegre afirma que este teria pintado o palacete.15 A nomenclatura dos cômodos no inventário dos bens de D. Pedro I existentes no palacete quando da abdicação16 corrobora essa informação, uma vez que as salas são referidas por cor, sugerindo que as paredes eram forradas, e não dotadas de pintura decorativa. Da mesma forma, os estuques são atribuídos aos irmãos Ferrez.

O palacete da Marquesa de Santos tinha um belo jardim nos fundos, cujo desenho foi atribuído a Miguel de Frias, major-engenheiro detentor das comendas da Ordem da Rosa e do Cruzeiro.17 D. Pedro I selecionava mudas em seus passeios e visitas, como relata em carta de 1825: “Igualmente trouxe a planta deles [morangos], a de roseiras de cem folhas e a de hortênsia, que são para a sua chácara, mas enquanto mecê para lá não vai, eu as tratarei para depois irem”.18

O rompimento definitivo da relação dos dois amantes aconteceu pela proximidade do casamento de D. Pedro I com D. Amélia de Leuchtemberg, quando a Marquesa de Santos foi forçada a retornar para São Paulo. Suas propriedades no Rio de Janeiro foram compradas pelo imperador em 13 de agosto de 1829, compreendendo a chácara e o palacete da rua Nova da Boavista, a chácara da rua do Campo de São Cristóvão e as casas amarelas, passando a integrar as propriedades particulares de D. Pedro I.

PALACETE DOS BRAGANÇA

Logo após a aquisição do palacete, D, Pedro I o destina oficialmente a abrigar os partidários da causa de sua filha D. Maria II, cujo trono havia sido usurpado pelo tio D. Miguel. A jovem rainha retornava de sua malograda viagem à Europa, desembarcando em 16 de outubro de 1829, juntamente com a sua madrasta, dona Amélia, e seu irmão, o príncipe Augusto de Beauharnais.

Designado como Palácio ou Palacete da Rainha, foi onde a monarca ofereceu duas cerimônias de beija-mão. A primeira, em 8 de novembro de 1829, que não foi bem recebida pelos liberais, que consideraram o ato uma afronta à soberania brasileira; e a segunda, em 4 de abril de 1831, por ocasião do seu aniversário de 12 anos.

Antes da cerimônia, refletindo o clima de incertezas do I Reinado, a 28 de março de 1831, havia sido finalizado inventário dos móveis que se encontravam no prédio.19 A descrição dos cômodos e seus objetos evidenciam o uso de representação do palacete, com seus ambientes destinados a receber e divertir, com rico mobiliário composto por sofás, mesas, cadeiras em mogno, castiçais, objetos finos, como jarros, vasos, relógios, quadros, estátuas de bronze e espelhos, distribuídos pelas salas destinadas à dança, a conversas e a jogos de bilhar e xadrez, com apoio de sala de toucador das damas, e de retrete. De uso mais privativo, o denominado “Toucador de sua Majestade, a Imperatriz”, composto por mesa redonda, com tampo de mármore branco, e 6 cadeiras de mogno, mesa e espelho de tremó, quadros, lustre de cristal e castiçais, com cortinado e bambolinas brancas, forrado por alcatifa; esse conjunto sugere um possível remanejamento de mobília trazida da Quinta da Boa Vista.

Poucos dias depois do aniversário de D. Maria II, a 7 de abril de 1831, D. Pedro I assinou a abdicação e embarcou para deixar o país. Ele relacionou seus bens a serem vendidos, dos quais o de maior preço foi o “palacete chamado da Rainha”, estimado em 300:000$000, mobiliado, e 200:000$000, sem mobília,20 atribuindo ao “recheio” do palacete o expressivo valor de 100.000$000.

Em 1834, foi anunciado leilão no palacete de “todos os móveis, carruagens, seges, trem das calavarias (sic), por ordem dos procuradores da família Bragança, Samuel & Phillipps.21 Poucos meses depois, a 24 de setembro de 1834, morreu D. Pedro, e o imóvel passou a integrar seu espólio.

Em 1845, a sra. Isabel Heartherly divulgou aluguel do prédio para instalação de seu colégio para moças, contudo, já no ano seguinte, foi anunciado o leilão de sua mobília, por motivo de mudança do estabelecimento para o Largo do Machado.

Dois anos depois, é discretamente anunciado leilão, sem identificação do proprietário, do “esplendido, vasto e bem construído palacete da Rua do Imperador em São Cristóvão, com grande chácara, tendo 70 braças de frente para a rua, 90 braças para o rio, e 45 de fundos”.22 No mês seguinte, a 15 de outubro de 1847, José Bernardino de Sá, futuro Barão de Vila Nova do Minho, conclui a compra à Duquesa de Bragança, a quem coube o palacete na partilha dos bens de seu falecido marido.23

DO BARÃO NEGREIRO

Nascido em 1802, em Cabeçudos, Vila Nova de Famalicão, em Portugal, José Bernardino de Sá veio ainda garoto para o Brasil, onde se tornou caixeiro no armazém de secos e molhados do negociante Manoel Ferreira de Lisboa, estabelecido na Rua do Rosário, e casado com Joaquina Rosa de Jesus. O casal tinha cinco filhos, Maria, José, Manoel, Antônio e Camilo, dos quais somente Maria se tornaria adulta. Com a morte de Manoel, em 1822, a viúva se uniu a José Bernardino, com quem teve dois filhos, Joaquim José, falecido em 1852, e Maria Joaquina.

Já em 1825, José Bernardino promoveu seu ingresso no tráfico negreiro, com o transporte de Luanda ao Rio de Janeiro de 466 escravos no Brigue Espadarte, de sua propriedade. Ele atuou no comércio negreiro, juntamente com Joaquim José de Souza Breves e Antônio da Cunha Barbosa Guimarães, no litoral entre Rio de Janeiro e São Paulo. A proibição de 1831 não interrompeu suas atividades, que só terminariam em 1851. Entre 1825 e 1851, 19.022 africanos chegaram em 36 navios de sua propriedade, com desembarques centrados no litoral norte da província de São Paulo, o que permite que ele possa ser considerado o traficante mais atuante do período.

Ele era dono do jornal O Mercantil, de três fazendas nos municípios de São Sebastião e Ubatuba, São Paulo, entre outros imóveis, títulos e ações. Foi um controvertido presidente da diretoria do Teatro de São Pedro de Alcântara, o mais importante da Corte, entre 1845 e 1851, considerado arbitrário e despótico pelos atores da Companhia.24 Com o cargo, ele dava continuidade a certo “mecenato” comum entre os negociantes, que concediam apoio financeiro a obras beneficentes e culturais em troca de prestígio e ascensão social, e na expectativa de obtenção de títulos honoríficos. E seria como nessa perspectiva que ele comprou, em outubro de 1847,25 o palacete da viúva D. Pedro I. Suas estratégias não passaram desapercebidas para imprensa da época:

Querem uns que ele está aprontando o palacete, que foi da Exma. Marquesa de Santos, para quando sair barão do Caminho Novo; querem outros que não; porque, tendo ele feito penosos sacrifícios para bem administrar o teatro, sem prejudicar os artistas, aos fornecedores, e nem mesmo aos acionistas, o título será o de barão de teatro; alguns finalmente, sustentam que tal não pode ser, porque se tem dito que negociantes de escravos nunca serão titulares no Brasil, e que, a serem-no, outro há mais chegados à corte (o que eu não afianço nem nego), que teriam já aberto caminho do titulado, sem fazerem escala pelo hospício de Pedro II, na praia Vermelha.26

O barão, de fato, se empenhou na recuperação do palácio, tendo promovido obras de 1849 a 1851,27 data que foi fixada na fachada, como marca de sua posse. Nesse processo, teria desaparecido a decoração realizada por Francisco Amaral, intervenção que seria lamentada por Manuel Araújo de Porto-Alegre, sem deixar de ironizar o gosto do novo proprietário “para atestar o regresso em que vão os nossos proprietários abastados”.28

Aos 48 anos, em 1850, José Bernardino recebeu de. D. Maria II o título português de Barão de Vila Nova do Minho; em 1855, foi elevado a visconde, pouco antes de falecer, a 8 de julho daquele ano. Ele foi definidor da Ordem de São Francisco de Paula, de 1850 a 1853, com cujo hábito foi amortalhado e encomendado na Igreja, e foi sepultado no cemitério da mesma Ordem, mais conhecido como Cemitério do Catumbi.

O inventário do barão continha apólices e ações, entre elas do Banco do Brasil e da Imperial Companhia de Navegação de Petrópolis, e vários bens de raiz, entre chácaras e casas de aluguel. De uso pessoal, o documento relaciona rica mobília, carruagens, parelhas e mais utensílios, porcelanas, prata, ouro, vidros, cristais e louças, roupas, semoventes e joias. Desse conjunto de bens, tem destaque o palacete da rua do Imperador, com todos os seus cômodos e terrenos anexos, e em frente um terreno em forma de meia-lua, estimado em 20 contos de réis.29 Como testemunho de suas antigas atividades negreiras, foram também inventariados um brigue e 156 escravos.30

Essa herança foi motivo de uma disputa, conhecida como Questão Vila Nova do Minho, entre o genro, Antônio de Souza Ribeiro, casado com Maria Joaquina de Sá Ribeiro, e a viúva Joaquina Rosa, a quem ele acusava de incapaz de administrar os bens herdados. O ruidoso processo, que envolveu um falso testamento e o questionamento sobre a legitimidade do casamento dos viscondes, ganhou as páginas dos jornais, com sessões transcritas no Jornal do Commercio, expondo a controvertida personalidade do falecido.

Em cartas publicadas em seu jornal O Mercantil, José Bernardino se apresentava como um rico mecenas, expert de ópera italiana, supostamente capaz de apreciar a interpretação de árias e duetos pelas solistas estrangeiras contratadas a peso de ouro para o Teatro de São Pedro. Apesar de posar publicamente como um indivíduo “refinado”, José Bernardino de Sá foi descrito pelos depoentes da Questão Villa Nova do Minho como um sujeito encolerizado e autoritário, que andava quase “sempre malvestido, de mangas de camisa arregaçadas e o peito sujo”, e que tratava Joaquina Rosa de maneira ofensiva e com palavras injuriosas.31

Joaquina Rosa ganhou a causa, mas morreu pouco depois, em 1858. Pouco antes, em 1856, ela havia contraído uma expressiva dívida com a Mauá, McGregor e Cia,32 cujo pagamento envolveu a transferência do palacete da Rua do Imperador à empresa como forma de pagamento.

Em 1862, para liberação da propriedade, foram a leilão os bens remanescentes da viscondessa. A relação de pertences guarda pálidos vestígios do antigo fausto.33

DO EMPRESÁRIO PATERNAL

Irineu Evangelista de Sousa (1813-1889) comentou em sua prestação de contas aos credores, Exposição do Visconde de Mauá aos credores de Mauá & Cia e ao público”,34 a transação que resultara na posse do palacete da rua do Imperador. Um empréstimo estabelecido entre a Mauá, Mac Gregor & Co. e a Viscondessa do Minho, cuja hipoteca teria sido acionada pelo seu não pagamento, e que, após várias questões e artifícios judiciais, foi quitada em 1868, mediante acordo entre a empresa, em liquidação, e os herdeiros, com grande prejuízo para a casa bancária.

No início dos anos 1860, Irineu já havia construído uma bem-sucedida carreira de comerciante, industrial, banqueiro e político, e conquistado, em 1854, o título de barão, pela implantação do primeiro trecho da Estrada de Ferro de Petrópolis.

Apesar da fortuna, Mauá mantinha os hábitos dos gaúchos estancieiros abastados, simples no trato e no vestir.35 As diversas casas que ocupou ao longo da vida, seja na corte – Santa Tereza, Rua do Catete, Rua do Imperador –, ou em diferentes cidades –no Rio Grande, em São Paulo, em Petrópolis, em Montevidéu – teriam em comum “a tônica de um conforto britânico, com grandes espaços verdes, árvores frutais”.36

O amplo palacete da Rua do Imperador, circundado por extenso jardim, oferecia condições para receber com conforto sua numerosa família, além de seu renome histórico e da nobre vizinhança da Quinta da Boa Vista. Ele e Maria Joaquina (1825-1904), carinhosamente chamada de May, a sobrinha com quem se casou se em 1841, tiveram 18 filhos, sendo que sete atingiram a maioridade e apenas cinco sobreviveriam ao pai.37

Mauá foi um pai amoroso, que registrou em correspondência a Richard Carruthers seu apreço pelos filhos.

O bebê, Lisia, quatorze meses, é o nosso anjo. E uma réplica perfeita da que Deus nos tirou, uma perda da qual até hoje não nos conformamos. Certamente olhar essa pequena faz feliz qualquer homem! Com ela tenho suficiente compensação para encarar vida do modo mais agradável que se possa esperar nesse mundo de inquietações.38

Na mesma carta, ele comenta sobre sua sobre sua felicidade doméstica,

Seria uma ingratidão de minha parte desejar mais. Encontro-me rodeado de cuidados carinhos de uma esposa, de uma mãe e de minha única irmã que se esforçam para adivinhar os meus desejos. As seis crianças são também fonte de indescritível felicidade. É curioso observar a diversidade de personalidades entre eles.39

Na década de 1860, os negócios de Irineu exigiam constantes deslocamentos para acompanhar as tensões políticas na região do Prata, iniciadas com a Guerra Civil uruguaia, em 1863, com repercussão no Rio Grande do Sul, e que desembocaria na Guerra da Tríplice Aliança (1865-1870). Depois da guerra, Mauá esteve à frente da instalação do cabo telegráfico submarino, que foi inaugurado a 23 de junho de 1874, e lhe valeu o título de visconde. Contudo, no ano seguinte, em 1875, o Banco Mauá e Cia foi obrigado a moratória por três anos. Ele se empenhou em atender aos seus credores, como comenta no seu famoso opúsculo. Apesar de seus esforços, no fim do período, foi decretada sua falência, com o Banco do Brasil arrestando os bens da empresa, entre eles, o palacete da Rua do Imperador.

Irineu se ausentou com frequência nesse período conturbado, quando levava a esposa e os filhos menores. O palacete, contudo, se estabeleceu como o lugar de acolhida da família, como os jovens estudantes Irineu, Henrique e Artur, em suas folgas do colégio interno de Petrópolis, e dos irmãos que ficavam aos cuidados das parentes e babás.

O barão procurou dotar a casa de ambientes e serviços que atendessem às diferentes demandas da família. Traços dessa ocupação podem ser percebidos por intermédio dos anúncios dos leilões do prédio e seu recheio, promovidos entre novembro de 1879 e junho de 1881,

Os cômodos se distinguiam entre os destinados ao convívio familiar: salão familiar, salão para refeição familiar, quatro dormitórios, gabinete de estudo, e gabinete de toilette, e os voltados para receber – salão de visita, salão nobre para refeição, salão de recepção, salão nobre, salão de toilette. Para os serviços de apoio, havia cômodos para despensa, cozinha, sala de engomado, sala para costura, e quarto de banho, com banheira. Os cômodos eram dotados com móveis de madeira nobre, espelhos, quadros, objetos de porcelana e prata, como um rico faqueiro com 177 peças, como detalhado no anúncio de 1879, cuja chamada destaca o requinte do conjunto:

 

Grande e esplêndido leilão de magníficos móveis, ricas alfaias, finíssimos cristais e porcelanas, riquíssimo lustre de cristal para salão, soberbo piano de cauda do afamado autor Erard, prata em obra, electro-plate, magnífico trem, animais, etc.40

 

O barão investiu também no extenso terreno, transformando-o em um belo parque, voltado para distrair as crianças, com cascata, lagos e viveiro, arrematado pelo clássico conjunto de figuras de louça dos Quatro Continentes.

Em março de 1880, foi anunciado recebimento de proposta para venda dos escravos da massa falida e, em 1881, o leilão do edifício:

 

O qual é de solida e confortável construção, com ricos salões, quartos e mais peças componentes de um edifício próprio para morada de personagem de alto tratamento, com tetos de fina escultura e pintura, o que há de mais soberbo e elegante, sendo certo que, para a construção e embelezamento do dito palacete, vieram da Europa artistas distintos e escolhidos, todo murado e gradeado, e fazendo esquina com a Rua de S. Cristóvão, com grande chácara, vasto e esplendido jardim, cascatas, lagos, viveiros, etc. regulando, pela Rua do Imperador, 108 braços, e pela Rua de S. Christovao, 44 ditas.41

A venda não se realizou de imediato e, após a tentativa de alugá-la, a propriedade foi vendida ao Barão de Guararema no fim daquele ano.

DA BARONESA PINTORA

O Barão de Guararema fechou a compra do palacete a 22 novembro de 1881,42 poucos meses depois de ter sido nobilitado. Ele recebeu o título em junho de 1881, em meio a concessão de títulos a representantes da elite mineira, como resultado de viagem do Imperador a Minas Gerais, consolidando alianças com as famílias na região.

Segundo Noronha Santos,43 Luís teria mandado realizar obras no palacete, que teria sido alterado pelo Barão de Mauá. Ainda que não se tenha comprovação dessas intervenções, é provável que tenham surgido danos, a exigir reparos, no período em que esteve desabitado, entre 1879 e 1882.

Francisca Monteiro de Barros Breves (1841-1899) e Luís de Souza Breves (1828-1910), os barões de Guararema, lá permaneceram por dezesseis anos, quando, após a morte da baronesa, a propriedade seria transferida, após duas operações, ao seu médico, o italiano Abel Parente, que a utilizaria como residência e clínica.

Francisca e Luís eram sobrinha e tio, descendentes de duas prestigiadas famílias que entrelaçaram seus interesses econômicos e políticos com a união de seus filhos. Pelo lado paterno, ela era da família Monteiro de Barros, neta do Barão de Paraopeba e, pelo materno, dos Sousa Breves, neta de Luís de Sousa Breves. O casal se estabeleceu na Fazenda São Luiz, nas imediações de Porto Novo, então importante ponto de escoamento da produção cafeeira de Minas Gerais, por meio de barcas que atravessavam o Rio Paraíba.

Em 1871, o povoado de Porto Novo ganhou novo dinamismo com a inauguração da estação da Estrada de Ferro D. Pedro II, e o início da construção da futura Companhia Estrada de Ferro Leopoldina. No ano seguinte, em 1872, Luiz se reuniu ao irmão para atuar como comissário de café e comerciante, em escritório na Rua dos Beneditinos n. 26, no centro comercial da Corte.

Francisca, por sua vez, se dedicou ao estudo da pintura, tomando aulas com Vitor Meireles, e se tornando uma pintora amadora aplicada, por duas vezes premiada em exposições da Academia. Em 1876, ela obteve a 2ª medalha de ouro pela Cópia no. 48, em quadro pintado a óleo sobre madeira, com 135 cm x 200 cm, apresentado no catálogo como “A Sra. D. Francisca Breves. ‘A Flagellação’. Cópia do original do Sr. Professor Victor Meirelles de Lima”. Francisca participou também da Exposição Geral de Belas Artes, em 1879, quando recebeu uma das sete medalhas de ouro por Cupido, tela a óleo com 160 cm x 120 cm, que representava um menino alado e nu, segurando um arco sentado em meio a uma floresta outonal. Comentado a exposição, um crítico observa:

 

Na mesma sala vê-se também um trabalho da distinta discípula de Vitor Meireles, a Sra D. Francisca Breves, e que tem por título “Cupido”. É um trabalho em que o nu é feito com muita verdade, notando-se apenas no rosto deste cupido a preocupação de representar um retrato de uma criança determinada.44

 

De fato, o rosto do menino retratado guarda semelhanças com o jovem italiano de cabelos anelados, Eliseu d´Angelo Visconti, que Francisca havia conhecido quando em tratamento de saúde, em Nápoles, e havia trazido, junto com sua irmã Marianella, por volta de 1873, para Porto Novo.45 Nessa temporada, ela conheceu também o dr. Abel Parente, a quem dedicaria uma devotada amizade.

A instalação dos Breves no palacete, a partir de 1882, coincide com a vinda do então jovem Visconti para a Corte, para cursar o Liceu de Artes e Ofícios. Esse seria um período de convívio afetuoso entre Francisca e Eliseu, como testemunham dois quadros de Visconti: uma tela a óleo de vista do jardim do palacete,46 de 1888, que, além do aspecto luxuriante, insinua um flagrante cotidiano, com a figura de um jardineiro ao pé de uma jovem palmeira; e o outro quadro, de 1892, com pequenas dimensões, 20 cm x 13 cm, foi intitulado “Baronesa de Guararema”,47 e retrata Francisca de perfil, em momento íntimo e despojado, em roupas caseiras, lendo, sentada em uma rede.

Por fim, uma carta de 1893 – em que a baronesa responde a Eliseu, então usufruindo da premiação da Academia, na França – confirma a cumplicidade: “Eu por mim tenho sentido muitas saudades tua, e tão habituada estava, que quando preciso de qualquer cousa, logo me vem em mente que aquele que sabia fazer tudo segundo a minha vontade, está bem longe (…)”.48

A baronesa morreu a 5 de janeiro de 1899, sem tornar a ver Eliseu. Em nota sobre seu sepultamento, O Paiz destaca suas qualidades de senhora virtuosa e caridosa, e “conhecida pela sua vasta ilustração e raros dotes de espírito e coração. (…) a sua morte é muito sentida pelos pobres que apreciavam a grandeza de sua alma, admirada por todos os que tiveram a ventura de conhecê-la”.49

Menos de um mês depois da morte da baronesa, o barão colocou em leilão os móveis e objetos do palacete, que demonstravam fortemente a ocupação dos espaços domésticos pela baronesa.

O anúncio do leilão50 enumera os cômodos da área de serviço – cozinha, copa, quarto de criados; intima – sala de almoço, dormitórios, alcovas, dois gabinetes; e social – salão de jantar, salão de visitas e sala de bilhar. Os ambientes eram decorados com requinte e voltados para conforto dos moradores: piano de meia calda, ricos móveis, roupa para mesa e cama, prata de lei em obra e louças, além de cortinas e tapetes, vários quadros, álbuns de gravuras e fotografias, livros, objetos decorativos e bibelôs, e objetos modernos como uma máquina de costura Singer, uma máquina para ventilação, lampiões a gás, e uma geladeira americana com depósitos.

O cômodo denominado “gabinete de trabalho” era o atelier da baronesa. O gabinete estava mobiliado com quatorze peças de mobília em carvalho esculpido, que incluíam cadeiras e sofá, um buffet envidraçado, uma étagère e uma mesa.

Nele, havia uma linda biblioteca de vinhático envidraçada, com obras que ilustram os interesses intelectuais pessoais da Baronesa. Os livros compreendiam obras gerais, como romances, compêndios de história ou dicionários, e obras voltadas para as Belas Artes, como os nove volumes de um Traité de la peinture e os quatorze tomos de Histoire des peintres, école flammande, française, milanaise, espagnole, venetienne, ombrienne, bolanuaise, hollandaise e florentienne. Também estavam no gabinete da Baronesa os álbuns de gravuras e fotografias, todos com rica encadernação.

Uma cômoda de carvalho guardava pincéis, tintas e paletas, além de molduras, quadros, esboços e desenhos. Entre os cavaletes havia um especial, “com maquinismo para pintor”. Várias esculturas e bibelôs completavam a decoração.

Por toda a casa ricos quadros estavam expostos, alguns possivelmente pintados por seus mestres Pedro Américo e Vitor Meireles, pelo seu protegido Eliseu Visconti, ou por ela própria, como a ”grande pintura sobre tela, representando um “anjo, com moldura dourada”, que poderia ser o seu premiado “Cupido”.

Os jardins, tão expressivamente retratados por Visconti, demonstram a ligação de Francisca com o mundo rural, com a presença de bem cuidada criação, estando à venda uma leitoa e um porco e 2 gordas porcas russas, uma excelente cabra e uma bonita cabrita. Além das plantas de grande porte, havia craveiros, begônias, avencas e flores de maio, e plantas originais cultivadas em vasos e caixões.

Esvaziado de seu recheio, o palacete foi vendido ao médico italiano Abel Parente, que há longos anos acompanhava a saúde da Baronesa.

DO MÉDICO SEDUTOR

Abel Parente sucedeu os barões como proprietário do palacete de São Cristóvão, onde instalou uma clínica para sua requintada clientela feminina. Ele era “sensível ao belo, alto, barba longa e negra, olhos verdes, bonito”, segundo depoimento da filha de uma de suas pacientes.51 Nasceu a 29 de julho de 1851, em uma aldeia da província de Salerno, Itália. Formado pela Universidade de Nápoles em 1875, foi incentivado pela Baronesa de Guararema a emigrar no ano seguinte para o Brasil, onde obteve, em 1877, credenciamento para clinicar em obstetrícia e ginecologia.52 Ele atuou, de início, em Sapucaia, antes de se estabelecer no Rio de Janeiro, onde desenvolveu uma bem-sucedida carreira, como especialista em doenças do útero e sífilis. Sua prática médica, que recorria a métodos anticonceptivos, foi cercada de polêmica.53

Francisca, a baronesa de Guararema, dedicou profunda gratidão aos cuidados médicos do dr. Abel Parente, a quem destinou trinta contos de réis em seu testamento, redigido em 1895. No documento, ela pede que ele aceite a quantia “como uma pequena lembrança de sua doente que sempre o estimou e prezou, levada tão somente pela amizade verdadeira e eterna gratidão que durante sua vida sempre lhe tributou”.54 Três anos depois, em 1898, foi realizada a primeira transação de venda do palacete, entre os barões e Abel Parente. Esse contrato, contudo, seria revisto em junho de 1900, após a morte da baronesa, de maneira a incluir a quantia que lhe foi destinada na herança.55

O doutor manteve consultório na Rua da Alfândega, e utilizou o palacete como residência e clínica para atendimento exclusivo. Parente promovia elegantes eventos sociais, como a festa pelo seu aniversário, que reuniu “o que a sociedade tem de mais seleta e de mais ilustre,56 ou o casamento da afilhada Edea Monteiro de Barros com o dr. Abelardo Acetta, um discípulo, com a presença de conceituados membros da colônia italiana.57 Essas reuniões repercutiam nas revistas ilustradas, como Revista da Semana, A Semana e O Rebate, que veicularam fotografias tanto dos encontros sociais quanto das instalações médicas.

Os pacientes eram recebidos nos elegantes salões do térreo, e desfrutavam dos amplos jardins.

E nos seus almoços só convidava senhoras jovens e bonitas. Os almoços eram servidos em grandes mesas, que se estendiam pelo jardim de grandes árvores frondosas. Ao fundo havia um pequeno zoológico com macacos, onça, pôneis e carneiros que puxavam pequenas charretes para os filhos dos clientes.58

“Um dos mais suntuosos e ricos palácios do Rio de Janeiro” é o título de extensa reportagem que Fonfon59 dedicou, em 1909, ao palacete que estava disponível para venda ou aluguel, por motivo de afastamento temporário do dr. Abel Parente para a Europa. O artigo destaca a vizinhança com a Quinta da Boa Vista e os arredores arborizados, e faz um retrospecto sobre a construção para a marquesa, sua ocupação pelo Barão de Mauá, que o teria ampliado e reformado, e pelo dr. Abel Parente, que ali instalou uma “clínica ginecológica e diabetelógica”. São apresentadas 10 fotografias da propriedade, de sua fachada, interiores e seus jardins.

Em 1913, ele anuncia o palacete mobiliado para aluguel ou venda, destacando as melhorias que haviam sido introduzidas, como nova pintura, banheiro, cozinha, instalações elétricas com 350 lâmpadas, lustres de bronze e 24 campainhas elétricas. Em dezembro daquele ano, o cônsul do Uruguai alugaria o imóvel, segundo contrato que o obrigava a zelar pela perfeita conservação do prédio e de todos os objetos, móveis, obras de arte, constantes de um inventário, e proibição de colocar pregos nas paredes e assoalhos,60

Em 1917, Abel Parente voltou para a Itália, mas manteve algumas de suas propriedades no Rio de Janeiro. Ele morreu seis anos depois, em Nápoles ou Suíça, em 24 de março de 1923, aos 71 anos.

Nesse meio tempo, em 1920, foi promovido leilão dos bens do palacete, “residência de conceituado clínico que de acha na Europa e autorizado por seu procurador”,61 e, poucos dias depois, foi anunciada a venda da propriedade para a Hime e Cia. por 320 mil reis para a instalação de uma fábrica de ferragem.62 Seria essa firma que, em permuta, cederia grande parte da área ajardinada para o Ministério do Exército, reduzindo o terreno do palacete à área atual.

Com o fim de seu uso doméstico, o palacete foi alugado para Fundação Rockfeller instalar o Serviço de Febre Amarela, quando foram retirados papeis que cobriam as paredes decoradas.63 O resgate dessa configuração certamente contribuiu para que o imóvel fosse tombado pelo Sphan em 1938. Contudo, somente depois de 1961, quando foi desapropriado pelo governo do antigo estado da Guanabara, foi dado início ao processo de sua restauração arquitetônica e pictórica. A primeira empreitada foi realizada em 1965, pela equipe do restaurador Edson Motta.

Nas décadas seguintes, o imóvel se tornou um importante equipamento cultural da cidade, como Museu do I Reinado, criado em 1965, inaugurado em 1979, que funcionou até 2011, quando o prédio foi fechado para a primeira etapa do restauro. Nesse interim, surge o conceito de Museu da Moda, efetivado por decreto nº 45.346, 19 ago. 2015, que institui a Casa da Marquesa de Santos/Museu da Moda Brasileira.

CONCLUSÕES

O artigo, ao apresentar aspectos pessoais dos sucessivos proprietários, e apontar os usos e objetos domésticos de cada ocupação, buscou capturar fragmentos de suas vivências e sugerir possíveis ressignificações simbólicas e espaciais, além de renovadas narrativas que envolveram a “experiência” desse bem cultural ao longo de seus quase 200 anos.

Pretende, desse modo, contribuir para a melhor compreensão do inigualável valor histórico desse imóvel, hoje o último remanescente íntegro das construções do I Reinado.

Se a aura romântica do relacionamento de D. Pedro e a marquesa é uma das suas principais marcas, conhecer melhor a presença de outras personagens ao longo de sua trajetória possibilita novas leituras e desdobramentos de seu significado e reforça a necessidade de sua preservação e fruição.

Como observa Douglas Fasolato, atual diretor da Casa da Marquesa de Santos, em depoimento às autoras:

 

Por diferentes critérios muitos bens foram eleitos para serem preservados no Brasil, parte deles por seus vínculos históricos, parte por seus atributos construtivos, outros pelos valores afetivos que determinaram sua permanência física e simbólico.

Sem dúvida essa relação de D. Pedro e Domitila, presente no imaginário ao longo de duzentos anos, influenciou a preservação desse patrimônio cultural brasileiro, salvando-o do desaparecimento como a quase totalidade de outros edifícios erguidos no mesmo período.

 

Ainda segundo Fasolato, o palacete, contudo, se abre para novas abordagens temáticas e perspectivas. Nesse sentido, se propõe o seu uso como museu dedicado ao feminino, explorando as diversas potencialidades e pioneirismo sobre o tema, nas mais diversas vertentes de atuação e apresentando múltiplas narrativas para a produção de conteúdo, reflexão e programação.

O palacete se afirma como protagonista e ponto de partida, não como uma casa-museu e sim uma casa-experiência. É a partir dele que se desenvolverá o “conceito de casa-exposição, pelo qual se pretende reconhecer e oferecer ao público o melhor acervo, que é o próprio edifício”.64

Esse artigo teve a colaboração das pesquisadoras do projeto A Casa Senhorial em Portugal, Brasil e Goa: Anatomia dos Interiores, em especial na transcrição dos leilões mencionados.

 

Ana Pessoa é pesquisadora da Fundação Casa de Rui Barbosa.

anapessoa55@gmail.com

 

Ana Lúcia Vieira dos Santos é professora da Escola de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense (UFF).

aluciavs@gmail.com

 

NOTAS DE RODAPÉ

  1. AMANTINO, Marcia. As origens da terra jesuítica na capitania do Rio de Janeiro e a implantação do Engenho Velho no século XVII. Am. Lat. Hist. Econ., sep.-dic., 2016, pp. 7-36.
  2. Arquivo da Irmandade da Candelária. Documentação relativa ao imóvel da Avenida Pedro II, n. 293. Na ficha do imóvel consta que a Rua Nova da Boavista foi depois denominada Rua do Imperador, Rua Major Solon, Rua Pedro Ivo e Avenida Pedro II.
  3. A “estrada geral” era a estrada geral para Minas Gerais e São Paulo, que naquele trecho tornou-se a Rua de São Cristóvão; a quinta era a dos jesuítas e o “rio que vai para São Cristóvão” era o Rio da Joana.
  4. PINHEIRO, Francisco Baptista Marques. Irmandade do Santíssimo Sacramento da freguesia de Nossa Senhora da Candelária, e suas repartições, coro, caridade e Hospital dos Lázaros. Volumes 1-2. Rio de Janeiro, Moreira Maximino Chagas e C., 1894.
  5. O nome da Marquesa de Santos, Domitilla, aparece grafado de diversas formas na documentação e na bibliografia sobre ela. A forma aqui mencionada é a que consta de seu registro de seu primeiro casamento, realizado em São Paulo a 13 de janeiro de 1813.
  6. Esse imóvel faz parte do conjunto de propriedades da Marquesa comprado por D. Pedro I quando do rompimento.
  7. AGCRJ, IMP/ FCM. Décima Urbana, microfilme 0024, Livro da Freguesia de Santana, 2º semestre de 1827.
  8. AGCRJ, IMP/ FCM. Décima Urbana, microfilme 0022. Livro da Freguesia de São José e Engenho Velho, 2º. semestre de 1826, fl. 164.
  9. Em 7/12/1825, o advogado Diogo Soares da Silva de Bivar escreve ao Chalaça dizendo que procedera conforme ordenado para reunião das edificações e cocheiras da Viscondessa de Santos. (Arq. Imperial de Petrópolis I-POB-07.12.1825-Biv.c, apud RANGEL, 1984).
  10. Arquivo da Irmandade da Candelária. Documentação relativa ao imóvel da Avenida Pedro II, n. 293.
  11. Pierre Joseph Pézerat (1801-1872) foi engajado pelo governo do Brasil como segundo tenente em 1825, mas antes de vir para o Rio de Janeiro foi para Londres estudar por um ano construções hidráulicas, como parte de seu contrato. Ao chegar ao Rio de Janeiro, serviu por um ano na Academia Militar, encarregado de levantamentos geodésicos. Sua nomeação como arquiteto particular de D. Pedro I aconteceu em 1828. Processo Individual de Pézerat, AHMOP, 25 out. 1864, manuscrito de próprio punho, cedido pela Dra. Paula André (ISCTE, Lisboa).
  12. Planta da cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro e da Imperial Quinta de S. Cristóvão, 1826. AHEX, 840.
  13. CARITA, Helder. Escadas reais: génese, formação e sua circulação para a Índia e Brasil: Entre Teodósio de Frias e Luís da Cunha Meneses. RIBEIRO, Nelson Porto, PESSÔA, Jose; RIBEIRO, Rosina Trevisan M. Novos Subsídios para uma História da Construção Luso-Brasileira. Vitória, Brasil, Editora Milfontes, p.123-164.
  14. ARAÚJO, Emanuel, org. Cartas de D. Pedro I à Marquesa de Santos. Notas de Alberto Rangel. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984, p. 344-345.
  15. PORTO-ALEGRE, Manuel de Araújo. Iconographia brazileira − Francisco Pedro do Amaral. In: Revista do IHGB, t.19, 3º trimestre, 1856, n1 23. pp. 375-378, p. 377.
  16. Inventário do Imperial Palacete do Caminho Novo. ANRJ, Casa Real e Imperial, Mordomia Mor,0O, caixa 05, 1834-1838.
  17. O AMERICANO, 24 set. 1831, p. 1.
  18. REZZUTTI, Paulo. Titília e o demonão. Cartas inéditas de D. Pedro I à Marquesa de Santos. São Paulo: Geração Editorial, 2011, p.148.
  19. Inventário do Imperial Palacete do Caminho Novo. ANRJ, Casa Real e Imperial, Mordomia Mor,0O, caixa 05, 1834-1838. A esse respeito, ver também FRANCO, Afonso Arinos de Melo. O palacete do Caminho Novo. Solar da Marquesa de Santos. Rio de Janeiro: UEG, 1975, p.31.
  20. SOUZA, Otavio Tarquínio de. História dos fundadores do Império do Brasil. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2018. vol. 2, t. 3, p. 854.
  21. DIÁRIO DO RIO DE JANEIRO, 28 abr. 1834, p.3.
  22. JORNAL DO COMMERCIO, 21 set. 1847, p. 3.
  23. Juízo Municipal da 2a. Vara do Rio de Janeiro – ZV. Embargo de obra nova Barão de Vila Nova do Minho x Joaquim José de Souza Breves. Maço 902, n. 1419, gal A.
  24. O CORREIO DA TARDE, 4 mar.1850, p. 2
  25. Compra por José Bernardino de Sá, futuro Barão de Vila Nova do Minho à Duquesa de Bragança. Livro 102, nov/1846 a fev/1848, fls 146/147, cartório de Camillo Lázaro Guimarães. 15 de outubro de 1847. Naquele ano, a propriedade estava interditada, conforme registro na Décima Urbana.
  26. A MARMOTA NA CORTE, 10 jan.1851, p.1.
  27. FRANCO, Afonso Arinos de Melo. O palacete do Caminho Novo. Solar da Marquesa de Santos. Rio de Janeiro: UEG, 1975, p.31.
  28. PORTO-ALEGRE, Manuel de Araújo. Iconographia brazileira − Francisco Pedro do Amaral. In: Revista do IHGB, t.19, 3º trimestre, 1856, n1 23. pp. 375-378, p. 377.
  29. BR RJ TJ MJ. PNB.1-2.033. Inventário Barão Vila Nova do Minho (inventariado) Baronesa Vila Nova do Minho (inventariante) (SEATA-CCMJ) 2 vols.
  30. Idem.
  31. COSTA-LIMA NETO, Luiz. Teatro, Tráfico Negreiro E Política No Rio De Janeiro Imperial (1845-1858): Os casos de Luiz Carlos Martins Penna e José Bernardino de Sá. Artcultura, Uberlândia, v. 19, n. 34, p. 107-124, Jan.-Jun. 2017.
  32. A Viscondessa de Vila Nova do Minho entregou vários bens a Mauá, Mc Gregor & Cia, entre eles o palacete da Marquesa de Santos. 010.17.79 livros 217, fl 71v. BR_RJANRIO_5F_O_LNO_0217, 01 jul.1856.
  33. CORREIO MERCANTIL, 7 ago 1862, p. 2.
  34. EXPOSIÇÃO DO VISCONDE de Mauá aos credores de Mauá & Cia e ao público do Rio de Janeiro: Typ. Imp. e Const. de J. Villeneuve & C. Disponível em http://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/242460
  35. BESOUCHET, Lídia. Mauá e seu tempo, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978, p. 30.
  36. Idem.
  37. Os filhos conhecidos são doze: Lisia Ricardina (1842-1855), Irineu (1843-1849) e seu gêmeo, Irineu Evangelista (1851-1915), Henrique Irineu (1852-1829), Artur Irineu (1853-1874), Maria Carolina (1854-1941), Ricardo Irineu (1865-1884), Lisia Ricardina (1860-1890), Hermínia (1862-1868), Irene (1865 1895), Alice (1867-1869).
  38. MARCHANT, Anyda. Viscount Mauá and the Empire of Brazil: a biography of Irineu Evangelista de Souza; 1813-1889. Berkeley; Los Angeles: University of California, 196, p. 80.
  39. Idem.
  40. JORNAL DO COMMERCIO, 1 nov.1879, p. 5.
  41. JORNAL DO COMMERCIO, 29 jun.1881, p. 6.
  42. Ofício de Notas 5 – 5H, LNO, 0-0030-m0001 im, f. 66-67. Banco do Brasil – Guararema, barão de. Escritura de compra e venda de prédio da rua Nova do Imperador número 35 que entre si fazem o Banco do Brasil e o barão de Guararema. 22/11/1881.
  43. FRANCO, Afonso Arinos. p. 33.
  44. JORNAL DO COMMERCIO, 16 mar.1879, p. 2.
  45. Os jovens se reuniriam aos irmãos mais velhos Afonso e Anunciata, já radicados na região, onde falecera Tobias, de febre amarela. Disponível em: https://eliseuvisconti.com.br/primeiros-tempos-1866-1892/. Acesso em: 01 maio 2019.
  46. Publicado em encarte da Revista Illustrada, na seção As nossas trichromias, Rio de Janeiro, n. 63, nov. 1925, com o título Antigo Palácio da Marquesa de Santos, Elyseu Visconti, pertence à Galeria Jorge. Traz assinatura e data de 1888. Projeto Eliseu Visconti. P527- Antigo Palácio da Marquesa de Santos. Disponível em: https://eliseuvisconti.com.br/obra/p527/. Acesso em: 01 maio.
  47. Projeto Eliseu Visconti. P903 – Baronesa de Guararema. Disponível em: https://eliseuvisconti.com.br/obra/p903. Acesso em: 01 maio 2019.
  48. Projeto Eliseu Visconti. CR1893A − Carta da Baronesa de Guararema a Eliseu Visconti – 8 de maio de 1893. Disponível em: https://eliseuvisconti.com.br. Acesso em: 01 jan. 2019.
  49. O PAIZ 9 jan.1899, p. 2.
  50. JORNAL DO COMMERCIO, 2 fev. 1899, p. 6.
  51. Catálogo do Museu do Primeiro Reinado, s.d, apud RODHEN, Fabiola. O caso Abel Parente: esterilização, loucura e imoralidade. In: Uma ciência da diferença: sexo e gênero na medicina da mulher [online]. 2 ed. rev. and enl. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ, 2001. Disponível em: http://books.scielo.org/id/8m665/pdf/rohden-9788575413999-06.pdf. Acesso em: 01 maio 2019.
  52. O ALBUM, 25 jul.1893, p. 194.
  53. MENDES, Leonardo; VIEIRA, Renata Ferreira Vieira. O “caso Abel Parente”, os homens de letras e a disseminação do saber científico nos primórdios da República. Revista Maracanan, n. 13, dez. 2015, p. 127-145.
  54. Testamento Baronesa de Guararema, testador, Barão de Guararema, testamenteiro, 1899, p. 4. Museu da Justiça, Centro Cultural do Poder Judiciário.
  55. Ofício Notas 3-5F, LNO e Guararema, barões de – Parente, Abel, Livro 598, fl. 40, 20/07/1898, Oficio Notas 3 – 5F, LNO, Guararema, barão de – Parente, Abel Livro 639, f. 94, 01/06/1900.
  56. REVISTA DA SEMANA, 25 ago.1907, p. 8.
  57. FON-FON, n. 15, 12 de abr 1913, p. 23 e n.16, 19 de abril de 1913.
  58. CATÁLOGO DO MUSEU do Primeiro Reinado, s.d, apud RODHEN, Fabiola. O caso Abel Parente: esterilização, loucura e imoralidade. In: Uma ciência da diferença: sexo e gênero na medicina da mulher [online]. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ, 2001. Disponível em: http://books.scielo.org/id/8m665/pdf/rohden-9788575413999-06.pdf. Acesso em: 01 maio 2019
  59. FONFON 2 out 1909, p.18-22.
  60. Ofício de Notas do Rio de Janeiro, 10 − 5K. Livros de Notas – LNO. Escritura de contrato de arrendamento do palacete a av Pedro Ivo n. 147 dr. Abel parente ao ser. Manoel Bernardes, cônsul geral do Uruguai. 30 dez 1913.
  61. JORNAL DO COMMERCIO, 21 jul.1920, p. 14.
  62. O JORNAL, 24 jul.1920, p. 3.
  63. DOM PEDRO I desenhou o projeto do elegante de São Cristóvão. Suplemento Jornal do Brasil, n. 308, 27 dezes 1936, p. 1.
  64. FASOLATO, Douglas. Mulheres na Independência: exposição de abertura da Casa da Marquesa de Santos. 2019. 58. Pós-graduação em Gestão Cultural: Cultura, Desenvolvimento e Mercado. Centro Universitário Senac, SP, 2019.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *