O passado e o futuro da ofensa contra os nordestinos

O passado e o futuro da ofensa contra os nordestinos

Daniel do Nascimento e Silva

 

m Campinas, poucas semanas depois de defender uma tese de doutorado sobre o preconceito contra os nordestinos, fui procurado por alguns jornalistas. Dentre os dados que eu havia discutido no trabalho, saltavam aos olhos certos modos injuriosos de citar os nordestinos na campanha eleitoral de 2006, ocasião em que Lula seria eleito pela segunda vez presidente do Brasil. Talvez não houvesse melhor período para apresentar aquela tese à academia. Estávamos no começo de 2010, e em alguns meses José Serra, Dilma Rousseff e Marina Silva se lançariam candidatos à presidência do Brasil. Jornalistas de Campinas, Brasília e Fortaleza ficaram sabendo do trabalho, e fui várias vezes procurado para falar sobre o tema da tese.

Um jornalista de Fortaleza me fez uma pergunta que não consegui responder: “Você imagina que, nesta campanha de 2010, os nordestinos sofrerão preconceito? Você acha que os nordestinos serão tratados novamente como maus eleitores?” Eu podia falar com propriedade sobre o passado, mas fiquei perdido quanto ao futuro. Eu sabia que, em 2006, a revista Veja havia divulgado uma matéria de capa sobre o perfil do eleitorado nordestino, aquele que, segundo a revista, poderia “ser o fiel da balança em outubro”, o mês das eleições (Veja, 16/8/2006). Uma moça negra, baiana da cidade de Irará, aparecia na capa segurando seu título de eleitor. Acompanhando o belo rosto de Gilmara Cerqueira, estava a legenda “Ela poderá decidir as eleições”. Em contraponto à beleza de Gilmara, um feio modo de posicionar o outro emergia nas páginas de Veja: aquela que segurava o título de eleitor, símbolo da democracia, não podia comprar para seu filho um par de óculos. Acreditava que Lula lhe faria bem, mas não sabia quem era o candidato da oposição, Geraldo Alckmin, muito menos o que era mensalão. Dito de outro modo, Gilmara não fora agraciada com os signos iluministas do esclarecimento: a visão turva de seu filho e a impossibilidade de adquirir óculos corretivos figuravam na reportagem como uma metonímia da incapacidade nordestina de enxergar o melhor candidato.

Num caso prototípico de violência simbólica, aquela violência sutil que, segundo o antropólogo francês Pierre Bourdieu, é empregada com o consentimento do agredido, Veja fazia Gilmara sorrir numa capa feita para ofendê-la. Num salto de escala, Gilmara e sua família cediam lugar para 22 milhões de outros nordestinos, eleitores de Lula. Dentre outros sintagmas ofensivos, Veja referia-se aos nordestinos como “reféns do assistencialismo” ou “brasileiros que sobrevivem de esmolas”, ao passo que os cidadãos do opulento Sudeste figuravam como os “brasileiros que trabalham e pagam impostos” (Veja, 16/8/2006, p. 52-60). Eu também sabia e havia divulgado que, além de Veja, a Folha de S. Paulo, O Globo e O Estado de S. Paulo traziam reportagens igualmente preconceituosas contra os nordestinos durante a campanha eleitoral de 2006. Eu estava certo – e de fato acabara de escrever – de que os nordestinos despontavam ali como cidadãos ingênuos, epítomes do passado, do atraso e da abjeção que a mídia corporativa violentamente representava para deles se diferenciar. Mas eu sinceramente não podia prever o futuro. Talvez eu me recusasse a ver naquele futuro uma morte anunciada, tal como, na ficção, Gabriel Garcia Marquez magistralmente havia previsto para Santiago Nasar, personagem de sua Crônica de uma morte anunciada.

 

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Mapas da violência

Algum tempo se passou e, ainda em 2010, mudei para o Rio de Janeiro. A morte anunciada, que me recusei ou não consegui prever meses antes, concretizou-se nas eleições daquele ano. O Brasil pela primeira vez elegia uma mulher para o posto de presidente. E a mídia corporativa mais uma vez culpava os nordestinos pela eleição do/a candidato/a que não representava seus interesses. No dia seguinte ao resultado das eleições presidenciais, O Estado de S. Paulo publicou um mapa com precisão cartográfica, em que os municípios das regiões brasileiras eram coloridos de acordo com a votação de Dilma e de Serra. O mapa é majoritariamente vermelho (a cor do PT) no Norte, no Nordeste e em Minas Gerais. É azul (a cor do PSDB) sobretudo no Sul, na maior parte do Sudeste e em parte do Centro-Oeste.

O que é um mapa? Nos termos da classificação para os signos que o lógico americano Charles Sanders Peirce havia oferecido no século XIX, um mapa é um tipo de ícone. Peirce definia ícone como um signo que apresenta uma relação de semelhança formal com a coisa que representa. E o que significa contemplar um ícone? Como podemos pensar no modo em que um leitor se posiciona diante de um ícone, tendo em vista que está diante de um signo semelhante ao objeto representado? Num artigo que Peirce publicou em um periódico de matemática, em 1880, encontramos uma boa resposta. Peirce ali argumentava que os ícones são tão substituíveis por seus objetos que dificilmente podem ser distinguidos deles. Ao contemplarmos uma pintura, dizia Peirce, há um momento em que esquecemos que não estamos diante da coisa. É como se nesse instante, que Peirce chama de “puro sonho”, a distinção entre o real e a cópia desaparecesse. “Nesse momento estamos contemplando um ícone”, arremata Peirce.

Parece ser esse momento de “puro sonho”, quando esquecemos que estamos diante de um mapa e o tomamos pela coisa, que captura o leitor de O Estado de S. Paulo. A imagem de O Estado condensava todo um processo de naturalização da realidade política do país. E a posição do jornal quanto à divisão do Brasil era ao mesmo tempo elidida e legitimada por esse mapa: a opinião do jornal se escondia ao se iconizar como mapa, um signo moderno por excelência. Não seria a moderna cartografia uma representação “objetiva” e “imparcial” do real? Como a longa viagem dos signos das modernas cartografia e estatística e sua tradução para os termos da política brasileira contemporânea se mascaram no mapa do jornal?

Em 2010, ao ler a representação do mapa eleitoral em O Estado, não pude esquecer o que eu havia lido nas eleições passadas. Em 2006, logo após o resultado eleitoral, o jornal Folha de S. Paulo coloria, metaforicamente, seu editorial de azul e de vermelho:

 

O mapa da votação deste domingo radicaliza a sensação de um país dividido. Dividido em classes de renda e escolaridade; dividido regionalmente; dividido politicamente. É vermelha (cor do PT) a mancha que vai de Minas ao Amazonas, passando pelo Nordeste. É azul (dos tucanos) o espectro que vai do Rio Grande do Sul, passa por São Paulo e abrange o Centro-Oeste. (Folha de S. Paulo, Editorial, 2/10/2006, ênfase acrescida.)

 

O Brasil textual da Folha de S. Paulo, assim como o Brasil imagético do Estadão, é dividido entre Norte e Sul. O Norte, que no Editorial “vai de Minas ao Amazonas, passando pelo Nordeste”, tem a cor vermelha. O Sul, que compreende o Centro-Oeste, parte da região Sudeste e toda a região Sul, é azul. Perceba-se que essas cores pigmentam não propriamente duas regiões, mas uma ‘mancha’ e um ‘espectro’. O Norte é uma mancha vermelha: lembremos que uma mancha geralmente se refere a algo indesejado, inconveniente, sujo. E o espectro do Sul aponta para outra direção: um espectro licencia aspectos como diversidade, continuidade e luz. Eu me recusava a aceitar, mas a trágica morte anunciada do Nordeste se enunciava novamente em 2010, e com as mesmas cores.

 

A morte do Nordeste

Dois anos se passaram e, em 2012, decido fazer um estudo etnográfico, com migrantes nordestinos, sobre esses modos de posicionamento do Nordeste como a terra do passado e do atraso. A morte anunciada do Nordeste havia se cumprido nas eleições de 2010. Não apenas a mídia corporativa, mas também a fala das pessoas e a sua escrita em mídias sociais infligiam essa morte. Passei então a me perguntar pelo futuro. No Rio de Janeiro, escutei de um taxista, logo após a eleição de Dilma, que “a maioria das pessoas que vivem naquela favela ali [no Vidigal] vem do Nordeste; se todos voltassem para sua terra, acabariam os pobres do Rio de Janeiro”. Em 2010, uma avalanche de ditos ofensivos assolou a Internet por ocasião da eleição da candidata do PT.

Uma estudante de direito de 19 anos, em São Paulo, foi a autora daquele que tenha sido talvez o mais prototípico dito racista da ocasião, em que a morte dos nordestinos assumia, por assim dizer, uma feição literal. Mayara Penteado Petruso postou em sua página do Twitter, entre outros enunciados ofensivos, o seguinte: “Nordestisto (sic) não é gente, faça um favor a SP, mate um nordestino afogado.” Esse enunciado carrega um pressuposto, a de que os nordestinos foram o grupo responsável pela eleição de Dilma. Como é o caso de todos os preconceitos, esse pressuposto não tem fundamento lógico. Conforme os dados do Tribunal Superior Eleitoral, Dilma teria sido eleita mesmo que se extraíssem os votos do Nordeste do cômputo geral, e isso porque a candidata do PT obteve uma votação expressiva nos dois maiores colégios eleitorais depois de São Paulo: Minas Gerais e Rio de Janeiro. A mídia corporativa e muitas pessoas, no entanto, desconsideraram as estatísticas oficiais. Por exemplo, o jornalista Leandro Nardoch, em artigo para a Folha de S. Paulo, escreveu: “os nordestinos, grupo que garantiu a vitória da candidata petista nas eleições” (Folha de S. Paulo, 11/11/2010).

O dito de Mayara parecia ter ido longe demais. A incitação à morte dos nordestinos ofendeu muitas pessoas. A Ordem dos Advogados do Brasil, seção Pernambuco (doravante, OAB/PE), processou Mayara Petruso pelos crimes de racismo e incitação pública ao crime de homicídio. Lembremos que, no Brasil, racismo é crime inafiançável e imprescritível (cf. Artigo 5o da Constituição Federal de 1988). A injúria de Mayara, como vimos, tem uma historicidade muito mais ampla, mas a ação penal movida pela OAB/PE tentava congelar a história e atribuir agência e responsabilidade a um personagem social específico. A 9a Vara da Justiça Federal de São Paulo condenou Mayara, em maio de 2012, pelos crimes que cometeu. A estudante de direito recebeu a sentença de reclusão por 1 ano, 5 meses e 15 dias. Como se trata de prisão inferior a 2 anos, a pena foi convertida em trabalhos para a comunidade e pagamento de multa.

Em fevereiro de 2012, eu havia conversado com Paulo Gordiano, advogado da OAB/PE que participou da redação da notícia-crime contra Mayara. Perguntei a ele por que a ação penal recaiu sobre ela especificamente, já que muitos outros haviam se manifestado odiosamente contra os nordestinos na Internet naquela ocasião. Paulo respondeu que, no caso de Mayara, foi possível “identificar, por meio de uma pesquisa, os dados dela, o CPF, o IP do computador etc.”. Mas os autos do processo – apresentado ao Ministério Público de São Paulo, o órgão responsável por receber a queixa-crime no caso de denúncia de racismo – contêm “todas as mensagens das pessoas que entraram na onda. A gente apresentou um material grande apresentando cópias de todos os perfis que proferiram aquelas mensagens”. Além disso, comenta o advogado, Mayara cometeu não apenas o crime de racismo, “atingindo todos os nordestinos”, mas também o “crime de incitação pública ao homicídio, que é uma outra figura legal específica”.

Sebastião Guerreiro, advogado da cidade de Fortaleza com quem conversei sobre o caso, afirmou que havia uma realidade social muito mais ampla a ser questionada na ocasião do processo contra Mayara. Disse ele: “Muito pouca gente se questionou por que aquela moça resolveu fazer uma divisão entre dois segmentos do Brasil. Como se alguma delas fosse superior ou inferior.” A fala do ódio contra os migrantes ficou, segundo o advogado, “por muitos anos escondida entre a sala de estar e a cozinha da classe média brasileira”. Ferramentas tecnológicas como a Internet, segundo ele, têm “colocado uma lupa de aumento no preconceito”, fazendo-o emergir e tomar visibilidade. Quando o direito vem a ser chamado para combater algo, diz Guerreiro, estamos diante daquilo que “a sociedade mais repudia como infame, incorreto, ilícito, não querido por essa mesma sociedade”. O direito é acorrido quando um mal-estar social chega a um ponto em que é necessário criminalizá-lo para combatê-lo.

Nos termos do advogado cearense, há um ganho político pelo fato de o ato ofensivo de Mayara ter sido criminalizado, mas há que se buscarem as causas do preconceito. Sobre a criminalização da ação de Mayara, Paulo Gordiano, da OAB, me disse o seguinte:

 

As pessoas têm ideia de que a Internet, os perfis de Facebook etc. são ambiente de irresponsabilidade. Mas as atitudes ali têm um alcance muito grande, uma força muito grande e devem ser responsabilizadas.

 

A “força” das atitudes, ou melhor, das ofensas, a meu ver, é aquilo que dá a uma palavra o poder de ferir. Em 2005, na novela Senhora do Destino, exibida pela Rede Globo em seu horário nobre, Nazaré, personagem de Renata Sorrah, era continuamente ofensiva contra sua rival, Maria do Carmo, uma pernambucana interpretada por Suzana Vieira. Entre outros ditos injuriosos, Nazaré xingava Maria do Carmo de “nordestina”. A ofensa fazia efeito na ficção – e de fato não é incomum escutá-la nas cidades do Sudeste brasileiro. Poderíamos aqui fazer um exercício de pensamento e imaginar qual seria o efeito de uma contrainvectiva: Maria do Carmo xingando Nazaré de “carioca”. O insulto teria a mesma força? Eu suspeito que a resposta de Maria do Carmo nem sequer fosse recebida como um insulto. “Carioca”, “paulista”, “mineiro” e “capixaba” são designações que não possuem o mesmo passado que “nordestino”. Nem o mesmo futuro.

Você já parou para se perguntar por que não há em português um termo como “sudestino”?

 

O articulista é professor de Linguística da UNIRIO e autor de Pragmática da violência: o Nordeste na mídia brasileira (7 Letras, 2011).

dnsfortal@gmail.com

 

 

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