Onde você estava quando eu acordei?

Onde você estava quando eu acordei?

Sidnei Cruz, dramaturgo

 

Personas

SARA e VERA

 

Época

Insight Inteligência - artigos e ensaios fora da curva

Atemporal

 

Cenário

Terraço de um edifício comercial alto de qualquer cidade do planeta.

 

Cena 1

 

NOITE.

VERA: Droga! O último cigarro! Vamos lá. Vai durar um tempo que não existe mais. A fumaça, o transe, a abstração, a sensação de um incêndio se espalhando lentamente por todo o pulmão. O prazer da repetição inútil, do vício de sentir o pensamento se desligando do corpo, a suspensão e o vestígio do crime nas manchas amarelas incrustadas nos dentes. (LONGA TRAGADA. VIRA A CABEÇA E VÊ SARA, SONÂMBULA, COM UMA MALA NA MÃO)

SARA: Que lugar é este?

VERA: Lugar? Você acha que isto pode ser um lugar?

SARA: Pode. (LARGA A MALA NO CHÃO)

VERA: Um lugar igual a qualquer outro. (TEMPO). Às vezes eu penso que seria melhor ficar parada e esperar tudo passar.

SARA: Me dá a sua mão. (TEMPO). Estamos juntas, outra vez.

VERA: Aqui, neste lugar que mal cabe um suspiro.

SARA: Qualquer lugar sempre será pequeno pra suspirar. (SILÊNCIO). E o seu plano, deu certo?

VERA: Deu.

SARA: O que foi que ele disse?

VERA: Nada.

SARA: Como nada?

VERA: Ficou na ficção. Inventando enredos…

SARA: E você?

VERA: Fui cercando, diminuindo as laudas, apontando incoerências…

SARA: Botou pressão…

VERA: . Fui bordando no silêncio. Até que um dia eu vi, os dois, ele e a vaca dentro do carro dela. Num amasso descarado na porta da minha casa!

SARA: Que falta de vergonha! A outra ainda faz entrega em domicílio. Deve ser uma puta loura não é?

VERA: Nada. Tipo sem sal. O peito no lugar do peito, a bunda no lugar de toda bunda. Igual a qualquer uma de nós. Mulher, de pernas abertas, apenas isso.

SARA: Ele esperneou, não foi?

VERA: Pior, partiu pra ofensiva. Veio com um papo escroto de poligamia lúdica.

SARA: Briga feia. Por que você não acabou logo com tudo de uma vez?

VERA: Acabei.

SARA: Acabou? No duro?

VERA: Para sempre.

 

SILÊNCIO LONGO.

 

 

Cena 2

 

SARA: Está sentindo alguma coisa?

VERA: Não estou suportando as minhas mãos.

SARA: Enfia na água gelada. (ENCHE UMA BACIA COM ÁGUA) Vai aliviar. Adormecer.

SARA: Me dá! Vamos enxugar. (SILÊNCIO). Uma vez cortei a minha mão descascando batatas e minha mãe cuidou de mim. Lavou com álcool e fez curativo. Chorei tanto! Muito mais do susto de ver o sangue jorrando do que da ferida aberta na palma da mão. Ela me abraçou, me apertou contra o seu peito, me beijou tanto que eu não queria que o susto e dor acabassem nunca mais .

VERA: É essa cicatriz?

SARA: É.

VERA: Então foi um corte profundo.

SARA: Foi.

VERA: Eu também sofri um corte. No joelho. Ainda hoje sinto a dor. Estava sozinha. Corria assustada de um vulto sinistro que eu imaginava que estava me perseguindo quando eu voltava da escola. Eu morava num lugar meio deserto, as casas ficavam muito distantes umas das outras. Eu tinha que passar por terrenos baldios, esquinas desertas. Então corri, corri, tropecei e cai. Abriu uma cratera enorme no meu joelho, sangrou logo. Só que quando eu cheguei em casa não tinha ninguém pra me socorrer. Minha mãe tinha ido à igreja. Meu pai e meu irmão estavam trabalhando.

SARA: E aí? Teve que se virar sozinha.

VERA: Como sempre.

SARA: Ah, vai, não começa a dar uma de coitadinha.

VERA: É sério. Não estou tirando onda.

SARA: E como foi que a garotinha do interior se virou?

VERA: Joguei cachaça, enchi de mercúrio e cobri com algodão preso com esparadrapo. Chorei baixinho e comecei a contar até cem para esquecer a dor. Quando minha mãe chegou ainda ganhei um esporro. Depois ela fez um bolo de laranja.

SARA: Deixa ver a cicatriz.

VERA: Pensa que é mentira? Olha. (MOSTRA A CICRATIZ DO JOELHO. TEMPO. SARA ADORMECE. SILÊNCIO). Sara…

 

Cena 3

 

SARA: (OUTRO TEMPO) Vamos em frente, moço, sempre em frente. Não, ainda não sei. Vamos em frente, acelera saia logo daqui, moço. Daqui a pouco eu vou saber o paradeiro certo. Não importa, tenho grana. Não vou causar problema, não se preocupe moço. Cuidado! O senhor não viu aquele buraco enorme no meio da estrada? Quase quebro o pescoço. O quê? Cheiro? Que cheiro? Sangue? Não, não estou sentindo. Na mala? Só roupas, sapatos, coisas de mulher. Estou de mudança. Parece que estou fugindo? Não, moço, eu estou me mudando. Pra onde? Pra casa de uma amiga. Mas, senhor, por que tanta pergunta? O senhor é taxista ou é policial? Não, não tenho nada contra a polícia, mas não é comum tanta pergunta em um taxista, o senhor não acha? Se eu começar a perguntar sobre a sua vida particular, sua mulher, seus filhos e mais um monte de detalhes talvez o senhor ficasse irritado ou achasse muito estranho não é? Não, não estou sentindo cheiro nenhum. O senhor está imaginando coisas. Vê muito filme policial não é? Eu sei como é tanta gente que o senhor carrega daqui pra lá, de lá pra cá. Fica intrigado, cria minhocas na cabeça, a curiosidade bate forte, fica imaginando a loucura que é cada vidinha particular de cada um dos seus passageiros. Mas esse não é o seu trabalho, certo? Isso. De ficar bisbilhotando, imaginando, é até crime, sabe? É antiético, sabe o que é isso, moço? Pode dar processo e um monte de aporrinhações, interrogatórios, testemunhas, álibis, provas, advogados e, na maioria das vezes, cadeia. Não, não estou ameaçando, nem engrossando. Só que o senhor tem que para com essa ideia maluca de que tem sangue na minha mala! De que tem corpos, carnes, de bicho ou de gente dentro da minha mala! Não disse isso? Como não? Eu sou surda? Sou louca? Disse, sim! Insinuar é pior do que dizer, moço. Suspeita é crime. É um crime hediondo. Eu sou uma passageira como outra qualquer. Vou pagar a corrida, não vou? Não importa que já esteja alto o valor marcado! Dane-se que seja bandeira dois, eu pago! Não estou gritando, o senhor é que está me irritando. Está bom, chega mesmo! Pode me deixar no centro da cidade, no edifício central, na esquina das avenidas principais. É… na encruzilhada. Pronto, fim de conversa! Toma! Fica com o troco. Não, não preciso de ajuda, a mala está leve, eu é que sou fraca. Adeus! Babaca!Pensa que é detetive: a mala, o quê que tem na mala? A sua mãe esquartejada, seu imbecil! Ufa! Como pesa!

 

A LÂMPADA ACENDE E APAGA. TEMPO. ACENDE.

 

 

Cena 4

 

VERA: (OUTRO TEMPO) Humm… que cheiro forte de sangue…está menstruada?

SARA: É o meu vizinho. Serviço completo: tortura, morte e transporte. Não podia deixar vestígios.

VERA: Você enlouqueceu? Isso é mórbido pra caralho, Sara!-Que fedor! Mistura de sangue e…

SARA: Merda! O cara se cagou todo. Pediu pinico, chamou mamãe, pediu pelo amor de Deus, prometeu virar anjo e dar doce no dia de São Cosme e Damião.

VERA: Você fez tudo sozinha?

SARA: Segui à risca o planejado. Esperei ele chegar do trabalho, ligar a ctv. e entrar no chuveiro. Com a cópia da chave, abri a porta e entrei. Fiquei escondida atrás da cortina, o escroto pegou uma bebida e sentou no sofá, de costas para mim, dei só uma pancada, na cabeça, ele escorregou para o tapete já melecando de sangue a sala toda, parecia um chafariz de vinho tinto. Aumentei o volume da TV, amarrei o canalha na cadeira e comecei a grande obra de arte. A grande cura através da tortura.

VERA: Está parecendo cães de aluguel.

SARA: A diferença é que desta vez é tudo verdade.

SILÊNCIO. AS DUAS BEBEM.

 

 

Cena 5

 

O TELEFONE CELULAR TOCA DENTRO DA BOLSA DE VERA. TEMPO. ELA ATENDE.

 

VERA: Alô? Oi! Sim, sim, sou eu. Foi, fui eu, sim. Minha filha. Calma, Mamãe teve que agir dessa maneira. O coração no congelador é do seu pai, sim. É. É isso mesmo. É pra fazer como está escrito no bilhete colado na porta da geladeira. É. Descongelar um bife e dar para o cachorro dele. É, foi para facilitar pra você, minha filha. Por isso é eu deixei já todo cortadinho em bifes. Como foi? Ah, deixa pra lá! Não, não vale a pena. Ham… Foi, foi. É… Primeiro eu pus veneno na comida, ham… Um espaguete com molho de anchova e cogumelo. Ham… Comeu feito um porco, se lambuzou todo. Bebeu, Bebeu vinho. Ham… Tinto, Cabernet com veneno. Ham… Bebi, também. Não, não. O veneno tava só no copo dele. É sempre foi… Um imbecil. Era o seu pai, não é, minha filha! Pra você ver. Tava. Tava numa animação monstro, cheio de assanhamento, com gracinha, querendo ter relações sexuais. Ham… Isso, um bárbaro de merda!Foi de repente. Apagou com a cara enfiada no prato de macarrão. Um nojo! Bom, aí o deitei no chão da cozinha, rasguei a camisa e com aquela faca que ele me deu de presente no aniversário de casamento… É… aquela compridinha de fatiar carne. Menina, parece que ele estava adivinhando, facilitou o serviço. Cortei do pescoço até a barriga e arranquei o coração com a mão. (VERA FICA OUVINDO UM TEMPO A FILHA FALAR, OFEGANTE) …talvez, talvez morra também, claro o coração está envenenado…ahah….ahah…ahah…eles eram muitos amigos, cara de um focinho do outro,ham ham…por isso deixei os bifinhos. Uma trabalheira! Olha, se eu tivesse que viver disso ia passar fome. É muito monótono… Cortei em pedaços e embrulhei em caixas de presente e mandei para as amantes… Não… não…anonimamente…armei um esquema espertíssimo, filha. Anos e anos ,planejando, planejando, eu não sou boba. To legal, desgrila. Não deixa de estudar. Não seja otária. Volto logo, não se preocupe. Não sei ainda. Estou, estou com uma amiga. É um lugar legal, alto astral. Bem alto. É… Vacas pastando, muito verde, uma maravilha! Se a polícia perguntar por nós diga que viajamos. Do trabalho dele? Não, não se preocupe. No trabalho dele vão levar algum tempo para procurar porque eu liquidei o assunto logo no primeiro dia de férias dele. Então, relaxa. Lembro, lembro como você gostava que eu contasse histórias pra você dormir. Adorava! Sério! Você é muito meiga, filha. Oi? Alô?To, To te ouvindo! Sim, prometo. Ham… Olha, escuta, escuta….ESCUTA! Querida, faça alguma coisa útil, bem bacana, como fundar um grupo de ação direta ecologista. Pacifista, sim. Claro, numa boa. Mas, de vez em quando tem que realizar uns planos de sabotagem. Nada de ferir pessoas. Inutilizar máquinas industriais, sim. Mas, calma, você tem que acreditar em alguma coisa, senão a vida fica muito chata. É eu sei, ela já é bastante chata. Mas, tenta melhorar, na pior das hipóteses não vai ficar pior do que já está. (ENTRA SARA COM A COMIDA) Um grande beijo, filha, se a gente não voltar em uma semana vá para casa da sua avó. E me esqueça. É força de expressão. Eu quero dizer que você não pode ser uma garota encucada só porque a sua mãe sumiu de uma hora para a outra. Isso acontece. O mundo está cheio de exemplos desse tipo. Ora, filha, as mães das suas amigas não são páreo para mim! São dondocas, umas bostas que vivem em cabeleireiros e shoppings. Eu sei menos a mãe da Andréia, claro. Não chora filha, não chora. Eu estou me segurando para não desabar e você cai nesse berreiro. Firma, segura! Meninas inteligentes, não choram. Beijos. Te amo, também. Tchau!

 

 

Cena 6

 

TEMPO. ABSORTAS.

 

VERA: Você notou que nós estamos indo numa velocidade espantosa?

SARA: Nós quem?

VERA: Todo mundo.

SARA: Isso é um pesadelo.

VERA: Vivemos na era espacial. (PREPARANDO SANDUICHES) podemos abandonar o planeta, assim como poderemos um dia, numa outra era, abandonar nossos corpos. As mutações biológicas necessárias ainda estão começando. Nós nem percebemos, mas já estamos mudando. Asas, rotações de cabeça, membros que aumentam e encolhem essas coisas, sabe? Novos ambientes exigem novos corpos, novos tipos de seres, de espécies, adaptações, adequações, desapegos, transferências, esquecimentos, desmemorias, trans-sentimentos…

SARA: Vera, vamos dar um tempo. Daqui a pouco você vai me fazer acreditar em Aliens, discos voadores e outras esquisitices. Estou com fome. E com fome eu não consigo pensar em nada que não seja comer. (COMEM. SILÊNCIO. ABSORTAS.). Vera, por que a gente entrou nesse rolo?

VERA: Sei lá. Nada na vida faz muito sentido, Sara. Vai ver que foi por que fizemos aqueles cursinhos de verão.

 

SILÊNCIO. BEBEM. FUMAM. COMEM.

 

Cena 7

 

SARA: (ABRINDO UMA CAIXA) Olha Vera, eu trouxe as nossas fotos. Olha faculdade. Olha, eu bem pequenininha. Olha você! Sua festa de quinze anos! Olha! Na praia! Nossa como a gente engordou, heim? Olha a mamãe! Você de pirata no carnaval! Nós duas vestidas de homens!

VERA: O nosso primeiro namorado!

SARA: É… A gente já gostava de dividir desde aquela época.

VERA: A foto do cursinho de verão!

SARA: Eu de detetive! Você na cozinha vestida de mestre cuca!

VERA: Não, essa não? Nuas, peladonas! Você guardou isso, sua maluca! Nosso primeiro beijo na boca!

SARA: Vera? Por que a gente não virou sapatão?

VERA: Sei lá! Falta de incentivo. Ambiente. Muita repressão. A gente encubou!

SARA: Olha isso! Que tragédia! Nossas fotos de casamento! Vamos rasgar?

VERA: Não… Não… a fotografia deve ficar…ela conta a história daquele momento…não somos mais essas que estão na foto…

 

SARA GUARDA A CAIXA. FICAM EM SILÊNCIO. ABSORTAS.

 

VERA: Deixou um bilhete pelo menos?

SARA: Antes liguei para o meu Diretor de publicidade e disse que não participaria mais do joguinho do salário mensalmente seguro. Sugeri que ele enfiasse o emprego no rabo.

VERA: Pelo menos você tinha um emprego pra mandar enfiar.

SARA: Ser empregada é a mesma coisa que ser uma vaca e ficar pastando 6,8 ou 10 horas por dia na ruminação repetitiva de um tempo morto.

VERA: Mas é isso que faz a máquina funcionar.

SARA: Se depender de mim essa máquina não vai mais fabricar dinheiro.

VERA: É isso aí! Sentar a bunda na almofada da contemplação, fazendo apenas o necessário para o puro prazer de existir! Sem a ilusão de esperar por dias melhores!

SARA: Usar a intuição, os saberes inconformistas!

VERA: Beber, comer, defecar, dormir, transar!

SARA: Sem procriar…

VERA: Exatamente! O melhor do sexo é a sacanagem, o jogo, a brincadeira. O tira e põe, o vai e vem, o entra e sai, o nhoc nhoc, a gangorra, o balanço, o sobe e desce, o deus nos acuda…

SARA: E os filhos?

VERA: Pelo amor de Deus, Sara! Ninguém mais verá uma mulher, gemendo feito uma porca, se arrastando pelas ruas com um feto na barriga. Isso será em breve- uma atividade exclusivamente realizada em laboratórios!

 

SILÊNCIO. VERA CHORA. TEMPO.

 

VERA: O melhor é não tê-los! (SILÊNCIO. VERA CONTINUA CHORANDO. TEMPO) Já pensou quando a ciência virar uma atividade exclusivamente de mulheres? Quando as mulheres ocuparem todos os laboratórios do mundo e controlar a produção de bebês na terra?

SARA: Isso está parecendo roteiro de filme de ficção científica…

VERA: Certo, certo. Vamos prosseguir com a hipótese. E se todas as mulheres do mundo saíssem, neste instante mesmo, do mercado de trabalho? Se todas elas cruzassem os braços e não produzissem mais porra nenhuma para este mundo masculino de merda?

SARA: Ia ser uma zorra da porra!

VERA: E mais, se todas as mulheres invadissem todos os supermercados e começassem uma redistribuição de alimentos para acabar com toda a fome do planeta?

SARA: Vera, queridinha, se você acabar com a fome você acaba com a supremacia do macho na terra.

 

SILÊNCIO.

 

Cena 8

 

VERA: (ILUMINADA) já sei! Vamos enviar um bilhete para a posteridade.

SARA: Boa ideia! Um bilhete-poema! Vamos iniciar um novo movimento de vanguarda literária! O poema-pomba!

VERA: Isso! Aquele que veio substituir e superar o homem-bomba! Na verdade será um manifesto.

SARA: Neste caso, o manifesto escrito não será jamais lido por alguém!

VERA: O escrito ficará no ar, no anonimato, em forma de pólvora e fumaça. Vamos bolar algo que conjugue a explosão e o extermínio da raça dos pombos e a preservação para posteridade do bilhete-manifesto. Que tal?

SARA: Combinado. Vamos iniciar o manifesto: Primeiro. Saibam vocês que o mundo tal como está é uma merda!

VERA: Segundo. De qualquer maneira, se melhorar, será ainda bem pior do que está.

SARA: Terceiro. Desejamos que as próximas gerações sejam poupadas da humilhação de ter que trabalhar para pagar aluguel, pagar conta de luz, pagar condomínio, pagar conta de telefone, pagar conta de supermercado.

VERA: Quarto. O melhor é nunca ter que trabalhar e nunca pagar conta alguma. Por um mundo paradisíaco, sem Eva, sem adão, sem maçã, sem cobra e sem Deus!

SARA: Cinco. Pelo direito inalienável de escolher a melhor hora para morrer!

VERA: Seis. Mais buceta e menos pau!

SARA: Sete. Abaixo o Estado! O estado-maior, o estado-menor, o estado assistencial, o estado-estado e os estados-gerais!

VERA: Oito. Viva a preguiça, a modorra, a molificação, o suicídio e a eutanásia!

SARA: Nove. Pelo fim de todos os sistemas, principalmente o capitalista!

VERA: Dez. Por outra humanidade! Sem religião, sem dinheiro e sem arte!

 

AS DUAS CANTAM

 

Quem alguém ninguém

Por puro acaso ou coisa

Parecida encontrar esse

Poema bilhete manifesto

Saiba que num passado

Presente futuro distante

Duas garotas corajosas

Meigas bonitas gostosas

Resolveram dar um fim

Na vidinha merda que

Levavam sem saber até

Que acordaram e voaram

Para um lugar distante e

Ainda muito desconhecido

Por todos sem mala sem

Bala sem flor sem Iaiá e sem

iôiô para nunca mais voltar.

 

SILÊNCIO.

 

 

Cena 9

 

VERA: E você?

SARA: Eu o quê?

VERA: Não está sentindo nada?

SARA: Estou começando a ficar zonza

VERA: Vira. Vira as suas costas.

SARA: Sua mão está pegando fogo!

VERA: Tem algo saindo, está crescendo rápido como galhos de vidro.

SARA: Vou desmaiar.

VERA: Respira fundo. (SILÊNCIO) E então, vamos ou não vamos voar?

SARA: Isso está parecendo Thelma e Louise.

VERA: A diferença é que agora é de verdade. Então…

SARA: E então?

VERA: E então, vamos?

SARA: Faria alguma diferença ficar?

 

ESCURIDÃO. BARULHO DE ASAS AUMENTANDO GRADATIVAMENTE. ESTOURO. SILÊNCIO.

 

sidnei_malatesta@yahoo.com.br

 

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