Os laços de família de Napoleão e D. Pedro I

Os laços de família de Napoleão e D. Pedro I

Isabel Lustosa, Historiadora e cientista política

 

A aparição do ex-imperador do Brasil, Dom Pedro I, na plateia do teatro Ópera de Paris em agosto de 1831, foi um grande acontecimento. Ocupando o camarote do rei Luís Felipe, ele estava acompanhado da jovem esposa, Dona Amelia e da filha, a rainha de Portugal, Dona Maria II, cujo trono tinha sido usurpado pelo tio, Dom Miguel. Era uma conjunção de elementos simbólicos capaz de impactar até mesmo Paris e sua já ativíssima imprensa. Dom Pedro, que era a primeira e até então única cabeça coroada de um país das Américas, fora levado a abdicar pela pressão dos liberais na imprensa e no Parlamento que o acusavam de namorar com o absolutismo.

Mas a acolhida que recebeu na França tivera sinal trocado, pois ele foi muito bem recebido pelos liberais franceses liderados por Lafayette e aclamado como o mais moderno e liberal dos príncipes, aquele que dera Constituição tanto para os selvagens do Brasil quanto para o povo supersticioso e ignorante de Portugal.

Isso em contraste com o irmão, Dom Miguel, cujas barbaridades ganharam maior estridência depois que mandara prender e açoitar pelas ruas dois cidadãos franceses. O episódio mobilizou a sociedade francesa e obrigou Luís Felipe − que até então ensaiava uma neutralidade à inglesa − a despachar para Lisboa aquele mesmo almirante Roussin, que já tinha passado pelo Rio de Janeiro um ano antes em situação parecida. Dom Miguel teve de engolir a arrogância, até porque, ao mesmo tempo que se desentendia com os franceses, a polícia de Coimbra fizera o favor de, depois de acobertar as pancadas que dois jovens estudantes ingleses sofreram de assaltantes, os prendera e ainda achacara levando objetos de valor.

Parece que os excessos de aplausos do povo português tinham virado a cabeça do príncipe, que resolvera afrontar duas poderosas monarquias ao mesmo tempo. Do seu lado ficaram apenas a Espanha, do igualmente detestado Fernando VII, e o Tzar. Os tantos fuzilamentos e as atrocidades cometidas por Dom Miguel contra os prisioneiros políticos, bem como os milhares de emigrados portugueses que, fugindo deles, desembarcavam nas costas da Inglaterra, da França e da Bélgica a todo momento, ajudavam a impulsionar a causa de Dom Maria II.

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A filha do príncipe Eugenio

As lendas em torno das riquezas do Brasil e da personalidade de Dom Pedro contribuíram para incrementar o interesse por ele. Mas, o que lhe rendeu mais popularidade foi, certamente, o fato de estar casado com a filha de Eugenio de Beauharnais, o célebre e benquisto príncipe Eugenio, filho de Josefina que fora perfilhado por Napoleão.

A imagem de Napoleão, desde sua morte, em 1821, vinha sendo recuperada pelo povo francês, saudoso dos tempos de glória do império e insatisfeito com o reinado dos Bourbon. A insatisfação se agravara depois que Carlos X, o irmão mais novo de Luís XVI e Luís XVIII, subira ao trono em 1824. Perseguições políticas, crise econômica e, finalmente, tentativas de modificar a Constituição no sentido de garantir maior poder ao monarca, culminaram, em 1830, com os “três dias gloriosos”, a chamada Revolução de Julho, que depositou a coroa na cabeça de um membro do ramo cadete da monarquia, os Orleans, desde sempre desejosos de suplantar o ramo mais antigo, dos Bourbon.

Luís Felipe que passou à história como o “rei burguês”, educado nos princípios econômicos e culturais da Inglaterra, onde passara a maior parte dos seus anos de exílio; fazia jus ao apodo, sendo homem pragmático, econômico e amealhador de riquezas. Seus hábitos despojados – gostava de passear ao entardecer nos Jardins das Tulherias, de braços dados com a rainha, saudando os concidadãos com a cartola ou com um vigoroso shake hands − representavam uma ruptura com os complicados rituais do antigo regime que seus primos tentaram ressuscitar.

Luís Felipe recebera o apoio integral da burguesia e da classe média e unira bonapartistas, republicanos e constitucionalistas em torno de seu frágil trono. Até desse ponto de vista, a sorte foi favorável a Dom Pedro, que tinha muitas afinidades com o rei dos franceses, sendo ele mesmo muito econômico a ponto de ser considerado avaro, com vocação para o comércio e com hábitos pessoais bastante simples. A integração entre as duas famílias foi rápida e a convivência muito agradável, multiplicando-se em encontros e confraternizações.

Dom Pedro já fora muito celebrado quando aparecera pela primeira vez em Paris, atendendo a convite de Luís Felipe para participar dos festejos pelo primeiro ano da Revolução de Julho. Um rei sem muito prestígio − que devia a coroa ao apoio que dera Lafayette à sua elevação ao trono, esnobado pelos aristocratas legitimistas do Faubourg Saint-Germain −, ainda mal sentado no trono, viu como uma oportunidade midiática, digamos assim, ter a seu lado um imperador vindo dos trópicos, espécie de rei Baltazar, como disse o jornal Fígaro, que deixará para trás um reino com montanhas de ouro e diamantes e um povo semisselvagem. O fato de ser casado com a neta de Napoleão Bonaparte dava ainda mais prestígio ao convidado.

De fato, mal chegou a Paris, Dom Pedro foi condecorado com a Legião de Honra e figurou ao lado do rei nos desfiles e na revista das tropas comemorativas do primeiro aniversário da Revolução de 1830. Na cerimônia do Panteon em homenagem aos heróis daquela revolução, ao lado da cadeira do rei foi colocada uma outra para Dom Pedro. Ele era o convidado mais importante da festa. Também fez sucesso nas ruas, saudado pela multidão que gritava: “Viva o Imperador!”, o que propiciou ao Figaro o complemento irônico: “do Brasil, bem entendido”. Numa alusão ao outro imperador, o dos franceses. Essa comparação deve ter feito bem a Dom Pedro, que sempre admirara Bonaparte e se sentia orgulhoso de ser associado a ele.

 

Pedro, Dom Leopoldina e o general Hogendorp

Menino ainda, Dom Pedro não tirara os olhos do suntuoso uniforme do general Jules Andoche Junot, representante de Napoleão na corte portuguesa quando este se apresentara de forma altiva diante de Dom João VI em Lisboa. Escaldado pela desagradável experiência que tiveram com o antigo embaixador francês, o general Lannes, Dom João teve uma primeira impressão positiva do marido da futura marquesa de Abrantes. O encantamento do menino pela figura imponente do militar foi tamanho que, no dia seguinte, Dom João mandou um emissário pedir a Junot que lhe emprestasse o uniforme para mandar fazer um igual para ele e para o filho primogênito.

Mas, Napoleão deve ter assombrado os sonhos do pequeno príncipe português quando surgiu, em 1807, o projeto de mandá-lo sozinho para o Brasil, sem pai, nem mãe, nem avó, por conta da ameaça de invasão francesa. Projeto abortado pela decisão final de Dom João de vir para o Brasil, ele mesmo com toda a família e demais membros da corte. No navio que o trouxe, o menino inquieto e muito falante, atormentava a tripulação com perguntas sobre vários assuntos.

Possivelmente, nessas conversas emergiam questões sobre o personagem causador daquela revolução em sua infância, até então destinada a seguir seu curso no ambiente lúgubre da Quinta de Queluz, em que de tempos em tempos se ouviam os gritos de pavor da rainha louca, sua avó, temorosa dos demônios que, por conta da perseguição de seu pai aos jesuítas, vinham lhe assombrar.

Durante a adolescência no Rio de Janeiro, Dom Pedro, que sempre tivera interesse pela carreira militar, passara a ter mais proximidade com os oficiais portugueses que acompanharam a corte ou que a ela se juntaram depois da derrota final de Napoleão, em 1815. Certamente ouvira relatos tanto daqueles que tinham combatido os exércitos invasores quanto dos que aderiram a Napoleão, mas que foram depois reabsorvidos na tropa. Pois, depois de 1815, sob a influência de seu ministro, o afrancesado Conde da Barca, Dom João reduzira muito o rigor com que tratara oficiais e nobres portugueses que o tinham traído.

O casamento com a cunhada de Napoleão, a arquiduquesa da Áustria, Leopoldina, se não contribuiu para engrandecer o personagem em seu imaginário, ajudou a diminuir os aspectos diabólicos com que tinha sido pintado desde sempre. Afinal, Leopoldina pudera testemunhar o bom tratamento dedicado à sua irmã por aquele que ela crescera acreditando ser o anticristo, de tão odiado que era por sua família. Os vestidos e joias maravilhosos de Maria Luiza a deslumbraram quando se encontraram em Praga, em 1812. Certamente as confidências que trocaram entre si, sabendo-se da atitude apaixonada de Bonaparte para com a mulher, a quem mimara excessivamente desde o começo, devem ter contribuído para atenuar a imagem do cunhado aos olhos da futura imperatriz do Brasil.

O Rio de Janeiro proporcionaria a ela e ao marido informações mais detalhadas sobre o caráter do comandante e governante que fora Napoleão. Consta que fora em um dos seus costumeiros passeios para coletar insetos e espécimes vegetais que mandava para a Áustria, lá para as bandas do bairro que hoje se chama Cosme Velho, que Leopoldina se encontrara, por acaso, com o general Dirk van Hogendorp.

Personagem com uma longa folha de serviços militares prestados ao seu país, a Holanda, onde nascera na cidade de Roterdã, em 1861, o conde de Hogendorp fora governador das Índias Neerlandesas e embaixador em São Petersburgo. Quando Napoleão tomou a coroa da Holanda para dá-la a seu irmão Luiz, Hogendorp, já então conhecido por suas ideias políticas liberais, foi convidado para ministro da Guerra e, depois, enviado como embaixador em Berlim, Madrid e Viena. Foi em 1807, quando esteve em Viena como ministro plenipotenciário de Luís Bonaparte, que ele conheceu as irmãs Maria Luísa e Leopoldina, filhas mais velhas de Francisco I.

Suas qualidades como militar foram valiosas para Napoleão, que, após a campanha da Rússia, o encarregou da defesa de Hamburgo, enquanto governava a Prússia Oriental e a Silésia. Sua lealdade ao Imperador dos franceses ficou ainda mais demonstrada no momento da desgraça, pois Hogendorp, bateu-se como ajudante de campo de Napoleão até o último momento em Waterloo e quis acompanhá-lo a Santa Helena, mas não lhe foi permitido.

Assim, em 1817, o general Dick de Von Hogendorp, personalidade internacional cujo nome já figurara algumas vezes nas páginas da Gazeta do Rio de Janeiro e do Correio Brasiliense, desembarcou no Rio de Janeiro. Foi se estabelecer no sítio Nova Sion, no alto da hoje chamada ladeira do Ascurra, no bairro do Cosme Velho, e teria sido bem acolhido pelos condes da Barca e dos Arcos.

O fato é que descia à cidade de tempos em tempos e recebeu em sua modesta casa os mais importantes visitantes estrangeiros que passaram pelo Rio. Eles se espantavam com a pobreza em que vivia e com o desgaste físico que o tempo causara ao general que tinham conhecido na Europa. Daquela altiva figura restara apenas um grande retrato de corpo inteiro, trajando uniforme com as muitas condecorações que recebeu, o qual fora pintado pelo famoso David, tio de Jean-Baptiste Debret, único objeto valioso na decoração de sua casa.

Maria Graham, que o visitou no final de 1821, conta que ele fabricava e vendia vinho de laranja e que seu quarto de dormir era pintado de preto com esqueletos brancos desenhados pelas paredes. Possivelmente herança cultural do período em que vivera em Java, o que também justificariam as tantas tatuagens que cobriam seu corpo. Estas foram descobertas quando o vestiram para seu enterro, que Dom Pedro I mandou que se fizesse no cemitério protestante da Gamboa.

Todos os que o visitaram ressaltam que sua conversa era sempre voltada para a figura de Napoleão Bonaparte, por quem tinha respeito e veneração. Ao que parece, era correspondido nesse afeto, pois o imperador dos franceses lembrou dele no testamento, onde, no parágrafo 6º do Código escrito a 24 de abril de 1821, reunido ao testamento datado de 15 do mesmo mês e ano, Napoleão declarou: “Au generál Hogendorp, hollandais, refugie au Brésil, 100.000 francs.” O executor de suas últimas disposições testamentarias era Eugênio Napoleão de Beauharnais, antigo vice-rei da Itália, a quem Napoleão chama, naquele documento, de filho.

Hogendorp não chegou a receber essa herança e morreu em 29 de outubro de 1822. Quem de fato ajudara a mitigar sua pobreza fora Dom Pedro, que lhe concedera uma pensão e que sempre o visitava e se aconselhava com ele. Essas conversas foram reveladas pelo general holandês a seu irmão Carlos, figura importante na história política da Holanda. A contratação do militar francês, Pierre de Labatut, personagem central na guerra da Independência da Bahia, teria sido sugerida por ele a Dom Pedro. Essa amizade incomodava Dom Carlota Joaquina, que, mais tarde, atribuiria àquela péssima influência a recusa do filho, a quem passara a chamar de “o brasileiro”, de reverter a Independência do Brasil, depois de 1823, quando Dom João recuperou os poderes absolutos.

 

O apoio dos jornais franceses do Rio ao Imperador em seu declínio

Se Leopoldina trouxe Napoleão para mais perto do marido, este, posteriormente receberia o apoio de outros franceses bonapartistas que vieram se estabelecer no Rio e buscaram sua proteção. O mais célebre deles foi o livreiro e editor, Pierre Plancher que aqui aportou em 1824, fugindo do ambiente asfixiante da corte de Carlos X e que encontrou boa acolhida junto ao imperador do Brasil. A comunidade francesa, que vinha se formado no Rio de Janeiro desde 1816, reunia remanescentes do Antigo Regime, estabelecidos no Rio de Janeiro pouco depois da chegada da Corte, como o conde de Gestas, depois nomeado por Dom Pedro I representante do Brasil junto à corte de Carlos X; os membros da chamada Missão Francesa, liderados por Lebreton, todos identificados com o império napoleônico, onde tinham gozado de fortuna e prestígio, e os tantos militares, comerciantes e aventureiros franceses que a eles foram se juntando ao longo do reinado de Dom Pedro I.

Na imprensa, merece destaque, Henri Plasson, que chegara em 1817, trazendo consigo um jovem aprendiz de comércio, Ferdinand Denis. Esteve na Bahia atuando como cônsul, sem que tenha sido formalmente nomeado, justamente por conta das suspeitas levantadas contra ele pelo coronel Maler, que fazia as vezes de cônsul geral na corte do Rio de Janeiro e era inimigo figadal dos bonapartistas. Na Bahia, Plasson, frustrado com a não nomeação para o consulado, tentou um empreendimento agrícola que fracassou.

Depois, lutou ao lado de Labatut na guerra da independência, obtendo a patente de coronel, qualidade pela qual se apresentou na corte do Rio de Janeiro a D. Pedro. Estabelecendo-se na corte entre o final de 1822 e o começo de 1823, passou a atuar na imprensa em língua francesa a partir do lançamento, em 1827, de L´Independent que começou a ser publicada por Plancher associado a outros membros daquela comunidade.

Com o acirramento dos ataques dos liberais brasileiros contra Dom Pedro, especialmente na segunda metade de 1830, Plasson usou as folhas do jornal que passara a publicar em português, O Moderador, para afirmar o constitucionalismo e o liberalismo do imperador contra a imprensa liderada pela Aurora Fluminense, de Evaristo da Veiga, que o acusava de tendências absolutistas e pretender reunir o Brasil novamente a Portugal. A fidelidade de Plasson fez com que Dom Pedro permitisse que ele o acompanhasse à Europa no mesmo navio, quando abdicou no 7 de abril de 1831. Mas Plasson não voltou à França, permanecendo na Inglaterra, onde morreu antes do final daquele mesmo ano.

 

Um casamento feliz

A escandalosa ligação de Dom Pedro I com Domitila Castro, a humilhação e os sofrimentos que essa situação causou à Imperatriz, levando-a à morte em dezembro de 1826, não foram de molde a criar uma imagem muito positiva nas cortes europeias. Ali, graças às minuciosas cartas dos embaixadores, tudo se sabia. Até os detalhes mais sórdidos, como se diz. De modo que, quando Dom Pedro tomou a decisão de se casar novamente − ele nunca cogitou de casar-se com a marquesa de Santos –, encontrou dificuldades que, associadas aos problemas de Portugal, onde seu irmão reinava, pareciam instransponíveis. Muitas foram as princesas que recusaram sua proposta de casamento.

Mas, havia na Europa uma viúva orginalmente pertencente à família monárquica que, tal como era a tradição, por razões da política internacional, fora obrigada a se casar com um membro da família Bonaparte. Como se sabe, Napoleão, nascido na Córsega em uma família de nobreza discutível, procurou misturar o sangue da sua com os das famílias reais europeias e promoveu casamentos que, depois de sua saída da cena internacional, se tornaram um problema para as monarquias do período da Restauração.

O caso mais notável foi o da irmã de Dona Leopoldina, Maria Luísa, casada com Napoleão do qual tivera um filho e que precisara ser despachada para longe de Viena. Deixou o filho, o pequeno rei de Roma, para trás. Este nunca deixou a Áustria, tornando-se quase um refém do avô e de Metternich, receosos de que os bonapartistas franceses tentassem algum golpe e o fizessem coroar imperador da França.

A Eugênio de Beauharnais foi dada em casamento a princesa Augusta, a belíssima filha do rei da Baviera. Eugênio era um belo, culto e educado homem, e o casamento, realizado em janeiro de 1806, foi muito feliz, gerando seis filhos, talvez os príncipes e princesas mais bonitos de sua geração. Um deles foi Amélia Eugenia, segunda imperatriz do Brasil. Depois da queda de Napoleão, Eugênio e sua família se fixaram em Munique sob a proteção de seu sogro, o rei da Baviera, que os fizera príncipes de Leuchtenberg.

Quando surgiu a possibilidade do casamento de Amélia com Dom Pedro, o príncipe Eugenio já tinha morrido. As negociações foram conduzidas por sua viúva, que sempre se esforçaria para recuperar seu lugar no seio da grande família monárquica. Assim, o casamento da filha com o imperador do Brasil foi considerado por ela uma brilhante aliança e um negócio vantajoso que abriria muitas oportunidades para seus outros filhos.

Dona Amélia, segunda imperatriz do Brasil, não decepcionou, pois, além de extremamente bonita, era também muito educada, dotada de um caráter agradável, combativo e bastante leal. Foi uma valiosa companheira do marido nos tantos episódios que sucederam à partida deles para a Europa. O projeto ambicioso da mãe de Dona Amélia parecia naufragado com a abdicação, mas o sucesso que a filha e o genro fizeram em Paris no segundo semestre de 1832, que ela pode compartilhar, deve ter aliviado um pouco a frustração com a coroa perdida. Ali conheceu o genro que lhe causou ótima impressão e pode conviver com a filha e a neta, Maria Amélia, nascida em dezembro daquele ano, pouco mais de um mês antes da partida de Dom Pedro para Portugal.

Em janeiro de 1832, o ex-imperador do Brasil, deixou Bel Isle, na Bretanha, onde se concentravam as tropas e os navios com que pretendia conquistar Portugal. Uma das cenas ficcionais ou reais que se contam acontecida entre ele e Dona Amelia durante a despedida, foi que ela, em um gesto simbólico que remetia à tradição militar dos homens de sua família, teria lhe entregue a espada que pertencera ao príncipe Eugênio. Se Dom Pedro fez uso de tão valiosa arma, é pouco provável. Sua ação militar foi corajosa e decisiva, e sua presença em meio à tropa durante a ocupação do Porto foi marcada por gestos de sacrifício.

Talvez aquele final de trajetória, pois ele morreu pouco depois de vencer a guerra contra o irmão e fazer coroar a filha Maria da Gloria como rainha de Portugal, o tenha aproximado ainda mais de seu herói. Infelizmente as tantas cartas que escreveu para Dona Amélia durante o ano que passou no Porto e todos os demais documentos que deve ter deixado com a viúva, foram destruídos.

Amargando um final de vida oposto às glórias que sua mãe e ela mesma tinham sonhado, alijada da corte pela enteada que não gostava dela; órfã da filha morta de tuberculose aos 21 anos, Dona Amélia, antes de morrer, aos 61 anos, ordenou que todos os papéis que guardara ao longo da vida fossem queimados. Quanta coisa sobre Dom Pedro perdemos com isto! Inclusive, talvez, impressões dele sobre Napoleão Bonaparte, o avô de sua mulher, que certamente teve-lhe aumentado o repertório de informações que ele vinha acumulando desde a infância.

 

A autora é investigadora integrada ao Centro de Humanidades (CHAM) da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

isabellustosa@gmail.com

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