Os outros enxames

Os outros enxames

Marcus Fabiano Gonçalves, Jurista e escritor

 

O homem não estava destinado a pertencer como boi a um rebanho, mas como abelha a uma colmeia.

Kant, “Antropologia de um ponto de vista pragmático”

 

A sedução do mel, o endófalo do zangão, a espermateca da rainha, a ciclicidade da cadeia alimentar, uma prodigiosa fonte de energia anterior ao açúcar, a sábia cooperação entre os insetos, os fluxos entre os reinos até tornar-se a matéria essa força nutriz igualmente capaz de transmutar estados: a linguagem. O ensaio a seguir é a versão parcial de uma reflexão antropoética sobre a sociabilidade cuja culminância pretende resultar na publicação do prefácio de um novo livro de poemas. Assim, as meditações a seguir pretendem introduzir tema e viés cujos cursos ainda se operam.

Insight Inteligência - artigos e ensaios fora da curva

A vorá (Tetragona clavipes) é uma abelha eussocial pertencente à subfamília dos meliponíneos. Distribuída por várias regiões neotropicais, é também chamada pelos apelidos populares de borá, vamos-embora, jataizão,
mora-longe e cola-cola. No Xingu, entre os Kaibi, é conhecida por marapypit; pelos Yudjá-Juruna, como watawila; pelos Ikipeng, como amputxigagem; pelos Suiá, como simbretx e pelos Kawaiwete, como tapemon. Os Kayapós, do tronco linguístico Jê, tratam-na por i-kài-kà: lâmina de faca. Na zona da Mata Atlântica, os Guaranis referem-se a ela como ei-pytã, ressaltando uma coloração avermelhada provavelmente oriunda da extensão terminológica de outras espécies.

Mesmo destituída de ferrão, a vorá defende-se de modo vigoroso contra intrusos que violem os domínios de seus enxames: mordisca, enreda-se em cabelos, procura penetrar pelos orifícios do rosto. As operárias têm as patas traseiras dotadas de uma cesta coletora de pólen vilosa e muito bem franjada, a corbícula. A espécie nidifica em ocos de árvores, não se comprovando, como alegado por alguns cultores entrevistados, estabelecer-se em fendas de alvenaria ou gretas rochosas. Formando colmeias helicoidais, nelas pode subsistir, por pouco tempo, mais de uma poedeira em colônias variando aproximadamente entre 7.000 e 10.000 abelhas. Os ninhos acumulam considerável quantidade de saburá, a massa amarela e amarga de pólen e materiais resinosos depositada ao redor de entradas elípticas sempre circundadas em amplos voos. Os méis da vorá são apreciadíssimos por apresentar uma coloração âmbar aquosa e um sabor levemente azedo tirante ao salgado sobre o doce dominante de seu fundo. Conhecida por tribos, habitantes rurais e apicultores do Brasil, ela é essencial para o bem-estar de nossas floras nativas e agrícolas, integrando-se ao portentoso imaginário melífero das civilizações ameríndias.

Além de uma admirável sonoridade, o significado da palavra vorá também preserva valiosos traços na sua sinuosa trajetória etnolinguística, aqui acompanhada com o auxílio dos mestres Vicente de Miranda, Antônio Soares e Moacyr de Carvalho. O nome da melípona em questão forma-se desde o tupi heborá: o que há de ter [mel]. Vorá (ou borá) ocorre assim como a substantivação de um verbo de futuridade expressando as ideias de ter ou conter, originado de um sufixo ou de um particípio abundancial ativo: bora, o qual indica um continente preenchido, aquilo que está repleto de algo. Disso se depreende que a própria denominação vorá procede do achamento de uma colmeia acreditadamente melíflua, supondo-se a alternância entre o v e o b iniciais causada tanto por variantes de transliterações das pronúncias indígenas, como pelo frequente recâmbio entre esses dois fonemas nos espaços ultramarinos de interação do português com o espanhol.

Na narrativa conhecida como “Epopeia de Gilgamexe”, durante sete dias e sete noites o protagonista chora a morte de seu amigo Enquidu. E ao prestar-lhe honras fúnebres, ordena que dele construam uma formosa estátua, acompanhada por uma tigela de lápis-lazúli contendo manteiga e outra de cornalina, cheia de mel (Bottero, 1992). Esse poema mesopotâmico é acatado como um dos mais antigos escritos da humanidade, remontando ao terceiro milênio antes de Cristo. Nele já comparece o mel em lugar de estima e deferência, um produto excelso digno de heróis, reis e deuses.

No mundo hebraico, Sansão colheu um favo na caveira do leão por ele mesmo abatido. E ao procurar mel no cadáver pútrido da fera, infringiu o tabu de seus votos. A cultura que crê na promissão do leite e do mel como riquezas da terra descobre nas abelhas não apenas o manso benefício do agir grupal: também vislumbra em tais criaturas a potência ruinosa dos exércitos numerosos e a figura da profetisa Débora, magistrada de Israel presente nos livros 4 e 5 de “Juízes” (Loewe, 1969). Com efeito, sem jamais rivalizar com as tâmaras, o dulçor fornecido pelos apiários resistiria durante milênios como a fonte por excelência desse sabor até o século XV, quando venezianos, portugueses e outras nações europeias tornar-se-iam os difusores planetários do açúcar obtido desde a cana. Tal especiaria, contudo, não chegava a constituir uma novidade absoluta: em pequena escala, gregos e romanos já a conheciam. Acabou sendo mesmo por intermédio dos cruzados que a auspiciosa notícia de um certo sal doce, encontrado na Terra Santa entre muçulmanos, despertaria os apetites do Ocidente a partir do século XI.

Graças a evidências obtidas por traços de DNA, estima-se que o cultivo da cana-de-açúcar se tenha iniciado no sudeste asiático, atual Nova Guiné, e precocemente passado ao subcontinente indiano ao redor do século IX a.C. Quanto à cristalização de seu xarope em grânulos, ela deu-se efetivamente na Índia em meados do século IV, daí inclusive o termo açúcar, do sânscrito śarkarā, areia grossa, presumível alusão às suas cores e texturas originárias. Os Vedas referem-se à cana-de-açúcar como uma planta brotada diretamente do mel. A representação védica de Kamadeva, a divindade do desejo amoroso, é feita por um jovem elegante, montado sobre um papagaio, portando um arco de cana-de-açúcar encordoado com um fio de abelhas, pronto a disparar flechas de cinco florescências (lótus azul, jasmim, flor da mangueira, magnólia e açoka), correspondentes aos cinco sentidos ou aos seguintes estados: o transtorno da paixão (ketaka), a queimadura de amor (dahana), o anseio sexual (bilva), o prazer do coito (mojana) e a fruição do gozo (harsana). Uma possante carga de desvelo e concupiscência encontra-se assim enraizada em tais repositórios amanhecidos na madrugada dos tempos (Benton, 2005).

Combinando-se ao eros, à filia e ao ágape de gregos e cristãos, torna-se plenamente compreensível, em termos líricos ou fenomenológicos, porque, enfim, o amor termina por se associar ao que há de mais suave e agradável no doce: seja na agora romântica lua de mel, seja no emprego, por exemplo, que a língua inglesa faz dos vocábulos sugar e honey ao se reportar a entes queridos.

Atrevido e irônico, em “Ce qu’on dit au Poète à propos de fleurs”, Rimbaud fustigava as apropriações da botânica floral pelos parnasianos, mencionando, entre diversas outras plantas, o lótus e a aportuguesada açoka (sob cuja árvore, aliás, Buda se teria iluminado). Ao cabo da primeira parte desse complexo poema de 1871, que moi e turbilhona conjunturas de exploração colonial, dólares, pampas e até o prosaico sagu, entre farpas de símbolos o enfant terrible redige a seguinte estrofe enigmática: “L’amour ne passe à tes octrois / Que les Lilas, − ô balançoires! / Et les Violettes du Bois, / Crachats sucrés des Nymphes noires!…” (Rimbaud, 2009, tradução minha). Interessa-me aqui o apodo das “Violetas do Bosque” (Violettes du Bois) pela explicativa “Escarros açucarados das Ninfas negras” (Crachats sucrés des Nymphes noires). Houve quem atribuísse a tais versos uma insinuação de sensualidade das mulheres africanas. Todavia, parece que o esputo das tais ninfas negras em realidade concerne à repugnância por uma guloseima preparada desde a Idade Média por confeiteiros da Occitânia a partir das pétalas dessa angiosperma tornadas escuras quando submergidas em uma liga de goma arábica e caramelo quente, porquanto o demasiado doce igualmente guarda os seus horrores. Ou seja: as misteriosas ninfas negras constituem o expelido e não as supostas cuspidoras. E a causa provável de tal ejeção era a náusea provocada por tais bombons.

Transmitido ulteriormente a egípcios e chineses, enquanto mantinha-se exótico, um canavial visitado na Índia ao redor de 325 a.C. foi descrito por Nearco, almirante de Alexandre o Grande, como “uma espécie de junco que dá mel sem a ajuda das abelhas”, reavivando assim uma concepção que já aparecia entre os persas (Pedech, 1984; Meyer, 1989). Decerto provocaria embaraço à civilização do açúcar um manjar olímpico que não contivesse o nosso adoçante primordial em sua receita. Para os antigos, no entanto, essa era uma regra inerente: primeiro o mel, inclusive para se aludir à misteriosa ambrosia divina capaz de superá-lo nove vezes em doçura, segundo as palavras do poeta Íbico de Régio, do século VI a.C. (Hutchinson, 2003).

A partir da descoberta de segredos tecnológicos da Ásia e do Oriente Médio, o açúcar passaria a ser extraído de imensos campos cultivados na América graças à odiosa escravização de seus nativos e de milhões de aprisionados na África e para cá trazidos a fim de se satisfazer uma demanda criada pela Europa. O açúcar desse modo escreve um capítulo amargo e decisivo na saga humana. Mas onde quer que o refino de seu doce tenha chegado, à custa da glória e do calvário de incontáveis vidas, lá já se encontrava o mel em casulos de cera, dom e paradigma maior do seu paladar.

Em uma vida urbana obesa e sedentária, confiada a dietas e sacarinas, a primazia referencial do mel na percepção da doçura tende a converter-se em luxo de poucos. Ou ainda pior: quem sabe incline-se a banalizar sua adulteração por melados químicos, tolerando-se como mera alegoria relegada à vagueza abstrata das impressões, tanto ou mais quanto as próprias abelhas, cujas colônias são arruinadas pela letalidade dos venenos de uma agroindústria monocultora e inescrupulosa, capaz de descer da toxidez episódica à aniquilação cabal das hereditariedades. Em perspectiva ecossistêmica, saliente-se, não é apenas o massacre das abelhas que se encontra em curso. Inúmeras investigações, mundialmente divulgadas, denunciaram o depauperamento global da fauna de insetos.

Chegou-se até a popularizar o tópico sob a expressão “síndrome do para-brisa”, a partir, não de meticulosas estatísticas, mas de uma constatação trivial: em certas regiões e circunstâncias, motoristas praticamente não mais necessitavam limpar os vidros dianteiros de seus automóveis pela incrustação de pequenos seres que contra tais superfícies outrora se chocavam em grande quantidade. No fundo, a causa desse repentino asseio, mensurado por outros critérios, liga-se ao emprego massivo de pesticidas neonicotinoides e a mais 300 substâncias danosas em monoculturas extensivas, como a da soja. A amplitude alarmante de tal fenômeno foi retomada por diversos investigadores, merecendo destaque a abordagem multirrelacional desenvolvida pelo dinamarquês Anders Pape Møller (2019).

Outros estudos revelaram que, em pouco mais de 25 anos, 76% dos artrópodes voadores sofreram uma catastrófica desaparição na Alemanha, tendo os restantes restringido severamente suas densidades de indivíduos. Coisas semelhantes transcorrem em outros países, comprometendo a vida de predadores insetívoros, como répteis, anfíbios e aves. Além disso, as sequelas sobre a biodiversidade de frutas e legumes destinados ao consumo humano são do mesmo modo incontestáveis. Felizmente, também se registram iniciativas louváveis em sentido contrário. A reconstituição das populações de abelhas polinizadoras transita pelo manejo controladíssimo das colmeias, com processos envolvendo enxameação estimulada, troca regular de rainhas-mães, eliminação de princesas pretendentes, decapitação de zangões para coleta de sêmen e transporte sazonal de colônias inteiras para zonas de florada. Sim, o universo apícola que serve ao homem e à natureza oculta múltiplos rigores em seus opérculos. Tudo para que a dança da geolocalização, descoberta por Karl von Frisch no século XX, prossiga executando seu balé informativo na dispersão do pólen e na busca do néctar por um órgão raramente pensado como ativo nesses miúdos animais de tão digestórias salivas: a língua das abelhas.

Determinadas antropologias do século XXI, como a de Philippe Descola (2005), vêm assumindo um projeto ousado de prosseguimento à crítica do etnocentrismo: ressituar a excessiva autovalorização do homem pela comparação entre epistemes classificatórias de diversas culturas, angariando casuísticas etnográficas de representações interativas com não humanos na procura de abranger, pela comparação de homologias, a subjacência das (des)continuidades entre o que chamamos de espécies. Essa ampla vigilância tocante às pré-compreensões desenha os limites de um quadro gnosiológico onde a argúcia contrastiva entre o animal, o vegetal e o mineral adquire um propósito audacioso. Contudo, parece que o êxito maior de tal programa se encontra estreitamente vinculado a lentas conquistas obtidas em áreas conexas.

Um bom exemplo mencionável é o da primatologia: seus flagrantes de grandes símios com elevados níveis de individualização e linguagem, literalmente capazes de lançar mão de utensílios por eles mesmos construídos para consecução teleológica de fins complexos, tais como pescar, triturar sementes ou varrer. A obra que ilustra à perfeição esse deslocamento de abordagem é “Thinkers of the jungle: the orangutan report”, de Gerd Schuster, Willie Smits e Jay Ullal (2007). Repare-se, todavia, que, enquanto o fascínio de nossa perspectiva remonta ao começo do século XXI, a China imperial já no século XVIII dispunha de Shen Quan pintando um macaco habilidosamente servindo-se de um galho como instrumento para colher mel no alto de um cipreste enquanto é observado por outros dois no solo (o quadro encontra-se exposto no museu de Xangai).

O bom do mel e o bem da moral acham-se coligados na mesma agência de positividade que exprime o digno de aprovação. Em seu extremo polar, o mesmo ocorre com as sensações do podre ou do acre frequentando as bandas referenciais do réprobo, do fétido, do azedo, do corrupto e do mal-humorado. A maneira sutil como a sensorialidade gustativa transita para o estrato axiológico das virtudes não constitui segredo algum. Linguistas e filósofos há mais de um século vêm aprimorando esquemas explicativos capazes de ratificar tais disposições. A raridade preciosa e a gama do amarelo estão presentes no outono dos plátanos, nas “lágrimas del sol” (o ouro dos Incas) ou na plumagem peitoral da arara-canindé cantada com o mel pelos tupinambás em “Histoire d’un voyage fait en la terre du Brésil”, publicada por Jean de Léry em 1578.

Fronteiras e prolongamentos entre representações da natureza e da sociedade mostram-se suscetíveis a curiosas elasticidades se (e quando) bem sondados. Qualquer cosmologia consolida-se atrelando subsídios idiossincráticos de fatores ultraimediatos (tais como atributos da fisicalidade anatômica ou circundante) à sua interpretação extensiva por dimensões espirituais aptas a acoplar e repelir conjuntos de predicados humanos ou antropomorfizantes. Que seja exatamente a linguagem analógica e metafórica a responsável por instituir esse nexo capaz de criar entendimento e até fundar a percepção de coisas não sensíveis, confere à poesia um privilégio perene de acesso empático ao grande médium habilitado a transitar pelos dentros e foras de mentes e mundos concretos ou idealizados. Tal lastro hermenêutico jamais estará dissociado de postulados ônticos a um só tempo de amplitude geral e minuciosamente particulares, atinentes tanto às estruturas cognitivas mais estáveis do cérebro como à heterogeneidade contingente de tradições históricas ou religiosas, mitologias ou sistemas locais de saberes.

Da crença mística partilhada à convicção experimental probante, o pensamento (de que a poesia é caso, nunca exceção) será continuamente caudatário das balizas do imaginável, em que pesem os esforços em se relativizar miragens etnocêntricas ou em se conjecturar propósitos e funções alheios a determinados regimes mentais perceptivos. Além de hipóteses lógicas ou de concessões metafísicas, a ultrapassagem dos liames do imaginável dependerá, em grau mais solidamente empírico, da efetividade de uma tradução interespécies aliada ao treino pedagógico para contorno das inúmeras armadilhas do solipsismo. Vale dizer: de uma saída confiável para o exterior do labirinto de especularidades psicofísicas no qual o homem (não) se vê projetando-se a partir do visto, esse quadrante litofitozooantropomórfico ainda inescrutável como supersistema de intercâmbios.

O marco do entrelaçamento quântico, combinado a diversos aportes multidisciplinares, sugere o vislumbre de todo o conhecimento humano enquanto alicerce de uma catedral paradoxalmente por ora sem planta nem diagrama. A crescente associabilidade entre formas expressivas e emoções – em seus registros psíquicos, verbais ou até econômicos – terá então diante de si um novo obstáculo de sutileza: o limiar poético, percalço das idiossincrasias que excedem o processamento da língua natural por corpus gigantescos, ultrapassando até mesmo a incorporação de vieses em dispositivos algorítmicos de redes neurais. Redes estas capazes de suportar bilhões de vetores discriminatórios de embutimentos enunciativos e ainda assim permanecer ineptas para alcançar correto entendimento de uma metáfora improvisada por um falante que, sem pretensões de poeta, somente apela a um princípio de economia expressiva.

Na instigante cadeia que une e separa os elementos da natureza e do espírito, a vantagem presuntiva da racionalidade foi sempre uma prerrogativa autoatribuída pelo humano em seu próprio benefício. Foi assim com o logos, com a Razão, com o cogito, com a fala e com a linguagem. O teor dessa proeminência, tipicamente cartesiana, faria Karl Marx afirmar no “O Capital” que as abelhas não ombreiam o pior dos arquitetos, haja vista apenas este ter a obra pronta em sua consciência antes de realizá-la exteriormente: “Mas o que distingue desde o princípio o pior arquiteto da mais requintada abelha é que ele construiu o alvéolo em sua cabeça antes de pô-lo na colmeia. O resultado ao qual o trabalho chega preexiste idealmente na imaginação do trabalhador.” (Marx, 1872: 76).

Ora, se forem estes os parâmetros conscienciais admitidos, de fato jamais testemunharemos térmitas e formigas debruçadas sobre pranchetas a esboçar seus túneis e rebuscados murundus. Tampouco descobriremos sabiás decorando partituras ou gaviões traçando arrojados planos de voo. Em contrapartida, pesquisadores canadenses registraram, em 2020, abelhas no Vietnã utilizando esterco de búfalo como legítimas barricadas odoríferas para proteger seus ninhos da predação por vespas assassinas. Mais: observaram-nas selecionando criteriosamente e modelando tais dejetos com seus membros e aparelhos bucais, isto é, durante o mais pleno agir instrumental.

Portanto, se os critérios sinápticos envolverem aberturas a dispositivos de inteligência, memória, corporificação e mundividência reconsiderados à vista de nossos próprios aparatos, é plausível que a médio prazo venhamos a saber o que dizem os cetáceos e quiçá inclusive o que pensam a nosso respeito – eis o novo contorno de ambições que postulei para a tradutologia do século XXI na obra “Bruno Palma, escolhedor de palavras – ensaio sobre a arte e o ofício de um tradutor” (Gonçalves, 2019): o de uma disciplina consagrada ao trânsito da comunicação entre as diversas formas de existência, viventes ou inanimadas, transpondo o umbral das trocas idiomáticas inter-humanas rumo a um entendimento balanceado das reciprocações interativas. Sem embargo, nada disso almeja contrapor o vagaroso escrutínio humanístico às velocíssimas conquistas das ciências exatas e naturais.

Há mais de meio século Claude Lévi-Strauss (1958) antevia, com excepcional lucidez, esse realinhamento entre os campos disciplinares. Como sintetizei alhures, as implicações do gene FOXP2, as reviravoltas da paleoantropologia e as técnicas de processamento informático, uma vez conjugados, indicam uma latência de inegáveis repercussões nas ocorrências linguísticas. A breve reflexão metapoética aqui bosquejada não pretende manter-se indiferente a elas, como tampouco dispõe-se a restar apática à liquidação do ensino público de base que sonega o acesso às ciências e às artes como integrantes do senso comum crítico de uma cidadania livre de mistificadores da causalidade e gerentes corporativos de duvidosos reconhecimentos.

Acredita-se que a palavra paisagem tenha começado a ser timidamente empregada na Europa a partir de 1549 para designar um gênero de pintura de espaços abertos. Retomava-se por inversão a máxima horaciana ut pictura poesis: assim como a pintura, é a poesia. A vulgarização do latim pagus (país) deveio habitual no português cisplatino pela forma pago: rincão, querência, berço ou lugar comum de origem, um aglomerado de conotação telúrica entre os gaúchos. Pagus também produz paysan e paysano em francês e espanhol: camponês, patrício, conterrâneo rurícola ou citadino, morador dos arrabaldes familiares de um mesmo povoado. Dessa prolongada e espontânea utilização sedimentaram-se paysage em francês e paesaggio em italiano.

Contudo, enquanto configuração caracteristicamente artística, a paisagem distingue-se do simples abarcamento observacional, do texto que o apresenta ou mesmo do território geográfico delimitado por fronteiras, tratados e expedições cartográficas enviadas para adiante de onde a vista alcança. A paisagem sequer delineia um tipo de mapa, pois não assume as convenções da escala. Ela é antes uma síntese estética dotada de varredura, profundidade e ponto de fuga artificial, sendo tácito a seu intuito compositivo um anseio disposto a incluir, justapor, eliminar ou fundir elementos próximos e distantes, ampliar ou reduzir acurácias, submeter-se ao giro dos glóbulos oculares atrelados ao pescoço, ao marulho das águas, à fragrância dos campos, às papilas do deleite, ao êxtase panorâmico de um cume (bem como ao cansaço por sua ascensão), ao medo do escuro úmido da floresta, ao ronco dos bichos do mato, aos lavores do horto, do pomar e do roçado – a toda sorte de projeções e reminiscências cruzadas no ato contemplativo capaz de se exprimir plasticamente em prol de uma representação ou de qualquer desígnio mais abertamente prático. E perante tamanha povoação de elementos, creio merecer particular referência o tópico do vazio taoísta, caro à pintura chinesa e tão inquietante para o apreciador alheio à paisagem shanshui, formada pela admiração do par montanha-água, sempre acrescido de caligrafia – isso desde o século IV: mais de mil anos antes do enfoque pictórico ocidental.

Segundo François Cheng (1977, 1979, 2011), a proverbial palavra-olho (yan) do poeta-pintor-calígrafo sino-asiático captura três grandes movimentos da imaginação comparativa em sua vertente clássica: a ideia-figura (yi-xiang), a ideia-cena (yi-jing) e o sentimento-paisagem (qing-jing). Uma vez assimiladas como uma benfazeja revitalização da panóplia da interpretação poética, tais delicadezas poderiam até acudir o impasse ocasionado por um duplo exaurimento da poesia contemporânea: o do subjetivismo lírico-romântico contraposto ao requentamento do formalismo textual, esses dois ensejadores de uma drástica perda de relevância da apreciação crítica e mesmo do interesse geral de virtuais leitores.

Faço aqui um pequeno parêntese para em seguida retomar a questão da paisagem. Em alcance considerável, os meios eletrônicos promoveram o retorno a uma arte de circulação estritamente paroquial, alavancando mentalidades provincianas camufladas na receptividade tardo-periférica de modismos acadêmicos que reciclam o bacharelismo beletrista, ele mesmo reflexo do insulamento experimentado pelas fidalguias banidas desde as velhas cortes da União Ibérica. E na falta de mais argutos avalistas, os arrolamentos etários ou geracionais tornaram-se organogramas manualescos nos quais aspirantes procuram avidamente se fazer constar como reputações relevantes de uma produção sem público e de pautas duvidosamente politizadas.

Absorvidas pelo stablishment universitário, as vanguardas desgastaram seus potenciais emancipatórios, promovendo, por emulações extemporâneas, a homeostase da mediocridade e um beija-mão rotativo digno das rodas de ciranda e rapidamente cooptados por agentes do marketing cultural coligado a blocos partidários. Isso, todavia, não deflui de um mero acidente. Entre nós tudo conspirava para um modernismo assíncrono, desacompanhado de uma modernização retardatária, que somente na era Vargas depararia algum azo generalizante pelo recrutamento de artistas dispersos e continuamente acossados por forças retrógradas. Atualmente, mal se conseguiria imaginar Portinari, Villa-Lobos e Mário de Andrade ministrando aulas no Instituto de Artes da extinta Universidade do Distrito Federal, no Rio de Janeiro, criada em 1935. Anísio Teixeira por certo foi a mais notória vítima desse itinerário persecutório do conservadorismo.

Enquanto isso, a locomotiva burguesa e os vapores abarrotados de imigrantes já haviam encontrado Minas e os próceres do Nordeste, inspirados por Gilberto Freyre, figura a quem José Lins do Rego (1942) imputa o relevo de Mário de Andrade em termos de arrojo e liderança para suas região e geração. Assim, nosso primeiro modernismo, mais estrepitoso e aristocrático, entre blagues e rompantes sublimes, mostrava-se no fundo apático às cercanias de uma população iletrada. Um esmiuçamento das suas estratégias de fabricação da consagração nem de longe ambicionaria abalar o pedestal em que figuram seus bustos tutelares. À diferença disso, antes seria louvável a fim de romper a facílima acatação aurática do talento e entender como enfim puderam determinados atores, entre tantas clivagens, se alçar à orbe do prestígio canônico, malgrado seus compromissos e origens retrógrados e mesmo reacionários.

Fontes há, e em profusão, para se preferir o plural “modernismos”, inclusive se bem considerados os seus precursores. Menciono ao menos um que acredito ser de alta representação. Em 1910, o “Cancioneiro guasca”, de Simões Lopes Neto (2002) antecipa as coletas folclóricas e etnográficas de Mário de Andrade (1993, 2002) dedicadas a Minas Gerais, em 1919, e ao Nordeste, em 1928. Qualquer paisagem reivindicada como brasileira dependerá crucialmente das exclusões e enfoques privilegiados por conjunções como essas, senão vejamos.

Sem pincéis ou câmeras fotográficas, a paisagem não é menos inventada pelo relato que narra e compara a excepcionalidade de seus mistérios, pois ela pode ser fantástica em ao menos três acepções: inexistente se totalmente simulada; prodigiosa segundo uma dada avaliação e ambas as coisas na concomitância de um articular por incontáveis graus enunciativos de vivências e verossimilhanças. Um sucinto exemplo quem sabe torne essa afirmação mais tangível. Por se tratar de uma espécie exógena sem predadores naturais, desde o século XVI o gado bovino multiplicou-se no Brasil ao ponto de se retornar ao estado xucro (Gonçalves, 2017). Tais rebanhos selvagens e imensos somaram-se à cabra, ao cavalo, à ovelha, ao jegue e à galinha na constituição de um universo na sua origem também desconhecedor do cajueiro, do coqueiro e da mangueira. Uma agricultura autóctone baseada no rodízio de terras e na coivara providenciou os parâmetros de sobrevivência para sertanejos encorajados a abater e abrasar matagais na conquista palmo a palmo de seus campos cultiváveis.

Em lugares afastados da pecuária, o temor à fome aboliu escrúpulos no consumo das carnes de antas, macacos e peixes misteriosos, aproximando o colono ou o viajante eventual de uma alimentação proteica enriquecida por farofa de saúvas, grilos, gafanhotos, pupas de vespas e besouros como autênticas iguarias. A miscigenação étnica corria em paralelo às mestiçagens de tradições em campos, costas, selvas e vilarejos, engendrando inclusive focos de rebeldia como os quilombos, onde entre ex-cativos afroascendentes também viviam indígenas sequestrados e até brancos desertores, perseguidos ou miseráveis. E por mais distintas que tenham sido as biografias e os panoramas desses nossos antepassados, constatáveis desde a reminiscência de seus artefatos arqueológicos até o legado de suas mitocôndrias, um dado aparentemente secundário os congrega entre si e a nós: todos conheciam o gosto do mel, sugerindo-se assim que a paisagem também pode erigir-se desde um sentido não diretamente visível.

Quando o Brasil era o incerto tracejado de uma imensa costa litorânea, integrada pela fidúcia de testemunhos supostamente verdadeiros, o arcabuzeiro e mercenário Hans Staden descreveu a existência da antropofagia entre os Tupinambás, da qual escapara por sorte e astúcia. Em 1557, ele arrolou nossas abelhas nativas sem ferrão e a coleta de seu mel em uma paisagem de enorme repercussão alcançada por seu livro conhecido entre nós como “Duas viagens ao Brasil” e cujo título integral corresponde a esse sugestivo enunciado: “História verídica e descrição de uma terra de selvagens, nus e cruéis comedores de seres humanos, situada no Novo Mundo da América, desconhecida antes e depois de Jesus Cristo nas terras de Hessen até os dois últimos anos, visto que Hans Staden, de Homberg, em Hessen, a conheceu por experiência própria, e que agora traz a público com esta impressão”. (Staden, 1557).

O sucesso granjeado por essa obra foi nada menos que estrondoso. O seu corpus fora provavelmente redigido pelo matemático e médico anatomista Johannes Dryander, de formação enciclopédica, já que seu autor não era, digamos, exatamente um homem de letras. Multiplicavam-se tiragens oficiais e mesmo pirateadas em diversos idiomas, ao passo que as ilustrações agregavam uma vivacidade testemunhal predecessora àquela que suscitaria o aparecimento da fotografia. Quimeras e curiosidades acerca do Novo Mundo forjavam uma liga infalível de realismo e extravagância, enquanto o tema do canibalismo atiçava as chamas da demonologia renascentista. Ao fio de épocas e dezenas de impressões sucessivas, entre os afetados por tal combinação encontrava-se luminares do escol de Montaigne, Voltaire e Rousseau.

Os ciclos de violência redramatizados por rumores e instituições culturais não deram sossego à belicosidade da vingança ritual entre os antropófagos. A tupinambização de Astecas e Incas do México e do Peru disseminou leituras do Novo Mundo, a um só tempo idílicas e equívocas, enternecedoras e aterrorizantes (Lestringant, 1994). A larga afeição a essa brasilidade deformante deslocou memórias mobilizáveis de passados sangrentos do Velho Continente, acomodando a América em um abstruso modo de pensar moderno: o do bom selvagem como cidadão ateniense em busca do paraíso edênico.

Em 1892, Tristão de Alencar Araripe publica sua versão de Hans Staden sob o nome de “Relação verídica e sucinta dos usos e costumes dos Tupinambás” (Staden, 1892). Conduzida pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, tratava-se de um recorte e tradução em língua vernácula da edição francesa da crônica de Staden vertida desde o latim em 1837 por Henri Ternaux-Compans. Essa variante sumular, desparelhada de dedicatória, prefácio e xilogravuras, agitou delicados interesses: o rompimento luso-brasileiro, os poderes da fé resiliente, as crueldades do paganismo. Por seu caráter francamente adaptativo diante do original conhecido por círculos germanófilos, foi rapidamente considerada precária. Assim, uma segunda edição do livro de Hans Staden em português viria a público fatidicamente em janeiro de 1900 com a chancela do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.

Chamada “Hans Staden: suas viagens e captiveiro entre os selvagens do Brasil”, foi dessa vez vertida diretamente do alemão pelo botânico sueco Alberto Löfgren e acrescida de ricos comentários feitos por Theodoro Sampaio (Staden, 1900). Tal versão foi elaborada a partir de um exemplar princeps de Marburgo, do século XVI, adquirido em Paris pelo rico cafeicultor Eduardo Prado, monarquista convicto e tio de Paulo Prado, articulador e mecenas da Semana de 1922. Estava assim esticada a pinguela multissecular entre o Brasil dos descobrimentos e o das elites do início do século XX, seduzidas pelo tema da identidade nacional e arrebatadas por um sentimento que Glauber Rocha sintetizaria, em 1965, como a nostalgia do primitivismoao aludir a recalcitrância das estéticas colonizadas e terceiro-mundistas (Rocha, 1994).

Após a Primeira Guerra Mundial, modernidade e modernismo estabeleceram ásperas contendas entre memória e história. As exposições precursoras de Lasar Segall (1913) e Anita Malfati (1914 e 1917) desencadeiam a verve reativa de Monteiro Lobato. O círculo de sábios do Império paulatinamente transmutava-se nos salões de arte das oligarquias da República Velha: apadrinhamentos cruzados, figurinos irreverentes, múltiplos privilégios de berços e em burocracias promoviam o acostamento às vanguardas europeias e faziam regra nos trópicos. Vetustas genealogias dominantes eram então aproveitadas e revitalizadas sem o traumatismo das rupturas.

Assim, recortes de ambas as dentições e das variadas defecções do modernismo no Brasil hão de ser creditados à redescoberta de Staden por um verdadeiro conflito concorrencial entre antípodas de um mesmo campo de recepção. Em 1925 Monteiro Lobato edita triunfalmente sua libérrima recriação “Meu cativeiro entre os selvagens do Brasil” (Lobato, 1925), lançando no curso de seu sucesso, em 1927, uma versão infantil ambientada no Sítio do Pica-Pau Amarelo: “As aventuras de Hans Staden” (Lobato, 1927). Em 1928, Oswald de Andrade divulga o Manifesto Antropófago, no qual já opunha a demanda por um concretismo contra o abstracionismo (Andrade, 1976).

No dia 1º de maio de 1929, a Revista de Antropofagia publicava esse fabuloso excerto destacado à página 12 em um retângulo sem assinatura: A irará disse para o curupira que não comesse gente que era feio. Comesse mel. Mel era muito mais gostoso que gente. O curupira respondeu: — Não estou acostumado.” (Revista de Antropofagia, 1976: 87). A síntese entre zombaria anticlerical e repercussão devoradora tornava-se incontornável: nem mesmo as pegadas invertidas do Curupira despistavam o rastro do hálux protuberante do Aboporu, o comedor de gente, de Tarsila do Amaral: a paisagem e a dieta melívora recomendada ao Curupira tacitamente mencionavam nossas abelhas da terra, embora as deglutições do cubismo e de Rodin presentes na composição magistral dessa tela icônica do movimento antropofágico.

Muitos pretendem ser a identificação de Hans Staden a primeira, por observadores europeus, da singularidade das melipônidas em domínios americanos. Em termos estritamente brasileiros, isso é correto, tal como celebra o geneticista Wolf Engels (2009), da Universidade de Tübingen, no artigo “The first record on Brazilian stingless bees published 450 years ago by Hans Staden”, versando sobre o seguinte trecho de “Duas viagens”: Três espécies de abelhas há no país. As primeiras são semelhantes às daqui. As segundas são pretas e do tamanho de moscas. As terceiras são pequenas, como mosquitos. Todas essas abelhas fabricam mel no oco das árvores e muitas vezes tirei mel com os selvagens de todas as três espécies. As pequenas têm, em geral, melhor mel que as outras. Também não mordem como as abelhas daqui. Vi, muitas vezes, ao tirarem mel os selvagens, que ficavam cheios de abelhas e que a custo as tiravam à mão do corpo nu. Eu mesmo tirei mel, nu; mas da primeira vez fui coagido pela dor a meter-me na água e tirá-las ali para me livrar delas.” (Staden, 2008).

Acredito, entretanto, que o apontamento de Hans Staden como o grande precursor da descrição das melipônidas americanas merece ser posto em dimensões menos encomiásticas. Explico essa minha reserva. Ocorre que no ano de 1526 (portanto: mais de 30 anos antes de Hans Staden), em seu “Sumario de la natural historia de las Indias”, Gonzalo Fernándes de Oviedo já havia discorrido sobre abelhas americanas sem ferrão nos seguintes termos: “Hay muchas abejas, que crían en las hoquedades de los árboles, y son pequeñas, del tamaño de las moscas, o poco más, y las puntas de las alas tienen cortadas al través, de la fación o manera de las puntas de los machetes victorianos, y por medio del ala un señal al través, blanca, y no pican ni hacen mal, ni tienen aguijón, y hacen grandes panales, y los agujerillos de ellos hay en uno más que en cuatro de los de acá, aunque ellas son menores abejas que las de España, y la miel es muy buena y sana, pero es morena casi como arrope.” (Ovidedo, 1526: 43).

Em quadra de estrita circulação bibliográfica, imediatamente posterior aos incunábulos, é de se supor, com grande chance de acerto, que ao menos Dryander, o revisor e conselheiro científico de Staden, estivesse a par das valiosíssimas notícias apresentadas por Oviedo desde a experiência do império espanhol, inclusive porque a obra deste último não tardaria em sair também em latim, no ano de 1534. Além disso, em torno de 1540 registram-se pesadíssimos tributos impostos pelos castelhanos sobre indígenas na península de Yuacatán sendo cobrados inteiramente em volume considerável de mel local, comprovando-se que não apenas as abelhas nativas, senão também a meliponicultura constituíam-se em realidades bem percebidas e exploradas pelos cristãos. Em 1560, o padre jesuíta José de Anchieta, na sua célebre “Carta de São Vicente”, menciona “vinte espécies diversas de abelhas, das quais umas fabricam o mel nos troncos das árvores, outras em cortiços construídos entre os ramos, outras debaixo da terra, donde sucede que haja grande abundância de cera.” (Anchieta, 2004).

É até plausível que a vorá se incluísse nessa vintena de abelhas assinaladas a partir do cotejo com as do Velho Continente. De qualquer forma, o mel de pau constituía recurso inestimável entre as populações originárias e desembarcadas, isso bem antes dos engenhos de açúcar moverem suas moendas ou de as abelhas africanas aqui aportarem. Frei Vicente do Salvador anota um extraordinário episódio de obesidade equina em sua “História do Brasil”, de 1627. O admirado animal teria atingido níveis fatais de gordura e sobrepeso pela incomum nutrição que lhe foi proporcionada no século XVII. Teria sido ela também abundante em mel nativo?

A prolongada transcrição a seguir encontra escusa na contundência belíssima do que concentradamente narra. Observem se tenho razão:

“E não hei de deixar de contar aqui o que me contou um soldado desta companhia que fez um principal destes [indígenas] que vieram, o qual diz-se foi à estrebaria onde estava um cavalo dos nossos e assentando-se pôs-se a falar com ele e dizer-lhe que o tomava por compadre, porque tinha ouvido dizer que os cavalos eram mui valentes na guerra e bom era tê-los por amigos, para que nela o conheçam e lhe não façam mal. Estava ali um mameluco que tinha cuidado do cavalo e, quando o viu tão triste, porque lhe não respondia, se lhe ofereceu para intérprete e, fingindo que lhe falava à orelha, lhe tornou por resposta que folgava muito com sua amizade, e que ele o conheceria quando fosse tempo. Com esta resposta se afeiçoou mais o rústico e perguntou que comia seu compadre ou o que desejava, porque de tudo o proveria. Respondeu o mameluco que o seu mantimento ordinário era erva e milho, mas que também comia carne e peixe e mel. E de tudo o mandou prover abundantemente, andando os seus uns a segar erva, outros a caçar e pescar e tirar mel dos paus, com que o intérprete se sustentava, e o cavalo engordou tanto que abafou e morreu de gordo, cuja morte o rústico sentiu e o mandou prantear por sua mulher e parentes, como costumam fazer aos defuntos que amam.” (Salvador, 1889: 98).

Apenas no século XIX nossas estirpes de abelhas americanas sem ferrão ganhariam pleno reconhecimento através do batismo pela nomenclatura binominal Lineu, aliás mestre e entusiasta do entomólogo dinamarquês Johan Christian Fabricius, o responsável por denominar a vorá como Tetragona clavipes no ano de 1804. Acredita-se, contudo, que para isso tenha contribuído decisivamente uma comunicação apresentada pelo químico mineiro Vicente Coelho da Silva Seabra Telles, em 1799, na Academia Real das Ciências de Lisboa: “Memória em que se dá notícia das diversas espécies de abelhas que dão mel, próprias do Brasil e desconhecidas na Europa” (Seabra, 1799: 99-104).

Acima dessas digressões mais e menos pontuais, paira uma indagação inquietante: quanto de linguagem estabelece uma paisagem? Por ora, pergunte-se ao cronista, ao pintor, ao fotógrafo e ao poeta. Nenhum olhar vivo consiste em atividade meramente óptica: é desde sempre uma destreza interpretativa adquirida por complexas aptidões de percepção e lembrança combinadas. Aos 100 graus de nossa mirada pedestre, um poderoso acervo de linguagem vincula-se para nos fazer ver a partir de imagens e nomes. Uma legítima economia da atenção direciona-se pelas disposições apofânticas de notar, discernir e enunciar, provavelmente oriundas dos gestos de ostentar e indicar que experimentaram notáveis virtualizações sígnicas na forma de sons e símbolos codificados.

Concebamos agora, por alguns instantes, como isso difere da vista aérea de generosos 280 graus das abelhas: ela inclui três quartos de todo o campo visual e é capaz de avistar o espectro ultravioleta combinado a uma polarização entre azul, verde e amarelo, reagindo por dispositivos eletromagnéticos, mecânicos e olfativos de uma morfologia disposta à fotorreceptividade crepuscular gerenciada pela detecção em silhueta da simetria de folhas e pétalas. Definitivamente, o roseiral que enxergamos jamais será o mesmo das abelhas, muito embora convivamos prolongadamente: nós, Homo sapiens, com nossa reduzida quilometragem de aproximados 300.000 anos, e as abelhas, com seus mais de 100 milhões de anos, aparecidas cá na Terra em seguida ao surgimento das flores.

Durante milênios, variados povos acreditaram ser a abelha rainha das colmeias um rei. E também que as abelhas surgiam como dádivas do céu (aerii mellis caelestia dona) brotadas por geração espontânea de carcaças bovinas em decomposição (Virgílio, 1930). Ou, quando extintas as colmeias, pensava-se que elas se reconstituíam manando como chuva de nuvens estivais a partir das vísceras de um novilho asfixiado, abatido a pauladas, apodrecido com o couro intacto e mantido em local fechado, com ramos de manjerona e tomilho contra seu dorso.

Essa é a perspectiva de Virgílio em suas “Geórgicas IV”, no que parece seguir em grande parte “De re rustica”, de Columella (1968), “Res rusticae”, de Varrão (2012), “De apibus”, de Higino (extraviado), “De rerum natura”, de Lucrécio (2002) e, especialmente, a “Investigação sobre os animais”, de Aristóteles, para quem o mel provinha do decantar de um orvalho celeste: “o mel é uma substância que cai do ar, sobretudo por altura do nascimento dos astros e quando se forma o arco-íris.” (Aristóteles, 2006: 238). Eis um exemplo contundente de como o erro crasso e a obsolescência científica podem converter-se em alta poesia. O belo também está nos olhos de quem lê, não obstante as implicações hilárias que tais anacronias possam eventualmente produzir, como essa peremptória afirmação do estagirita ao pretender dissipar uma inverdade científica de sua época: “De facto, Alcméon não tem razão ao afirmar que as cabras respiram pelas orelhas.” (Aristóteles, 2006)

O “Homem de Bicorp” é uma pintura rupestre encontrada na Cueva de la Araña, um sítio arqueológico do período levantino (há pouco nomeado mesolítico) na província de Valência, Espanha. Datada entre 9.000 e 6.000 anos a.C., nela se vê uma figura esguia, possivelmente feminina, cercada de graúdas abelhas a retirar mel de uma colmeia elevada, à qual acede equilibrando-se pelo que se cogita ser um tipo de escada. Instigantes debates se têm travado sobre a busca do mel no neolítico posterior, quando se supõe haver começado a domesticação dos enxames com fins alimentícios ou para uso de seus derivados como adesivo, combustível e impermeabilizante. Çatalhüyük, na Anatólia, atual Turquia, remonta aos redores do ano 6.700 a.C.

Esse assentamento é considerado como uma das primeiras cidades do mundo em virtude de sua sofisticada infraestrutura concebida pela sedentarização decorrente da revolução agrícola. Nesse lugar, tranquilamente já nomeável como urbano, novas provas, obtidas por finos exames moleculares e de cromatografia, atestam a difusa presença do mel e da cera em recipientes, frações de misturas alimentares, unguentos e oferendas. Vão daí muitos séculos até surgirem as primeiras inscrições em templos egípcios e anais papirográficos da apicultura mais arcaica, associando as abelhas e seus produtos ao deus Rá, à unificação do Alto e do Baixo Egito e ao embalsamamento de cadáveres destinados ao processo de mumificação.

Um enxame não é uma massa de criaturas aglutinadas em um rumo caótico ou aleatório: é uma assembleia deliberativa regida por feromônios e propósitos compartilhados em consensos de velocidade impressionante. Passantes credenciadas entre os impérios animal e vegetal, as abelhas têm vida breve se comparada à nossa. De modo abrangente, vivem em média 45 dias as operárias e entre dois e quatro anos as rainhas. Com apenas 10 dias de vida, os zangões são banidos da colmeia, sobrevivendo ao redor de 20 dias e morrendo logo após a cópula, se acasalarem com uma poedeira. Isso é o que se estima em uma precária generalização feita a partir das abelhas domésticas europeias, vez que delas surgiram compilações dos aproveitamentos mais diversos: usos militares (como no arremesso de cortiços em catapultas ou no contra-ataque a solapadores de muralhas), lacres de missivas, massas de modelar, superfícies de escrita nas tabuletas anteriores à difusão do papel, cosméticos capilares e dermatológicos, acabamentos de calafetação em marcenaria náutica, lustro em móveis, pisos ou couros e iluminação por milhões de velas, archotes e círios acesos no pavio de incontáveis escuridões, preces e liturgias.

A apicultura difundida pela manipulação da Apis mellifera exportou suas práticas aos recantos mais longínquos, estabelecendo critérios de degustação, produtividade e deslumbre capazes de ofuscar preciosos conhecimentos a respeito de outras espécies. Para ilustrar a afirmação com um exemplo ibero-americano, aponto, a esse respeito, a desproporção entre a colossal “Oda a la abeja”, de Pablo Neruda (2001), referida à Apis melífera (há pouco traduzida para o blogue Arame Falado) e sua alusão à abelha branca, talvez uma melipônida (ala blanca?), no oitavo texto de “Veinte Poemas de Amor y una Canción Desesperada”, que tem estes primeiros versos: Abeja blanca zumbas − ebria de miel −, en mi alma”. Eis a tradução do poema de Neruda acima referido:

 

“Ode à abelha”

 

“Multidão da abelha!

Entra e sai

do carmim, do azul,

do amarelo,

da mais suave

suavidade do mundo:

entra em

uma corola

precipitadamente,

por negócios,

sai

com traje de ouro

e quantidade de botas

amarelas.

 

Perfeita

desde a cintura,

o abdômen rajado

por barrotes escuros,

a cabecinha

sempre

preocupada

e as asas

recém-feitas de água:

entra

por todas as janelas olorosas,

abre

as portas da seda,

penetra pelos tálamos

do amor mais fragrante,

tropeça

em

uma

gota

de orvalho

como em um diamante

e de todas as casas

que visita

tira

mel

misterioso,

rico e pesado

mel, espesso aroma,

líquida luz que cai em calhas

até que a seu

palácio

coletivo

regressa

e nos góticos merlões

deposita

o produto

da flor e do voo

o sol nupcial seráfico e secreto!

 

Multidão da abelha!

Elevação

sagrada

da unidade,

colégio

palpitante!

 

Zumbem

sonoros

números

que trabalham

o néctar,

passam

velozes

gotas

de ambrosia:

é a sesta

do verão nas verdes

solidões

de Osorno. Acima

o sol crava suas lanças

na neve,

relumbram os vulcões,

ampla

como

os mares

é a terra,

azul é o espaço,

mas

há algo

que treme, é

o ardente

coração

do estio

o coração do mel

multiplicado,

a rumorosa

abelha,

o crepitante

favo

de voo e ouro!

 

Abelhas,

trabalhadoras puras,

ogivais

obreiras,

finas, relampejantes

proletárias,

perfeitas,

temerárias milícias

que no combate atacam

com ferrão suicida,

zumbi,

zumbi sobre

as dádivas da terra,

família de ouro,

multidão do vento,

sacudi o incêndio

das flores,

a sede dos estames,

o agudo

fio

de perfume

que reúne os dias,

e propagai

o mel

ultrapassando

os continentes úmidos, as ilhas

mais distantes do céu

d’Oeste.

 

Sim:

que a cera erga

estátuas verdes,

o mel

derrame

línguas

infinitas,

e o oceano seja

uma

colmeia,

a terra

torre e túnica

de flores,

e o mundo

uma cascata,

cabeleira,

crescimento

incessante

de favarias!”

 

O padre Antônio Aureliano foi o precursor na introdução da abelha europeia no Brasil, deslocando enxames da cidade do Porto para o Rio de Janeiro em 1839. O experimento foi coroado de êxito, tornando-se um sucesso entre imigrantes alemães na região Sul do Brasil. Mais de um século depois, em 1956, o engenheiro agrônomo paulista Warwick Kerr trouxe ao país 51 rainhas africanas (Apis mellifera scutellata), de linhagem bem mais hostil: 50 espécimes provinham da África do Sul e um da Tanzânia. Em virtude de um incidente de manejo ocorrido em 1957, 26 dessas rainhas evadiram-se e terminaram cruzando com as abelhas europeias locais, Apis mellifera iberiensis, Apis mellifera ligustica e Apis mellifera melífera (Coelho, 2005). Produziu-se de tal modo uma hibridação africanizada extremamente agressiva, responsável inclusive por um aumento relevante de óbitos de pessoas e animais à época.

Essa mesma híbrida dispersou-se descontroladamente pela América, chegando até os Estados Unidos. Mas com medidas de contenção altamente efetivas, adotadas pela equipe de Kerr, em 1964 contornou-se o imprevisto e, ao cabo, obteve-se uma variante até mais produtiva e pacífica. Contudo, a despeito das maravilhas de um mel robusto e prolífero, o estigma difuso da abelha tornava-se intrinsecamente unido às ferroadas dolorosas e potencialmente letais por sua carga de veneno. O imaginário da abelha revestia-se, e não sem razão, de uma aura periculosa: com ela se deveria lidar portando macacões espessos, luvas, telas, máscaras e fumigadores, fazendo recair sobre o apicultor o avejão de um agente ingressado em zona de perigo bioquímico.

Para padrões autóctones, porém, tudo se passa de modo esquecidamente distinto com as abelhas da tribo Meliponini, igualmente ditas sem ferrão, nativas, indígenas ou da terra. Elas integram a subfamília dos meliponíneos, presentes em regiões tropicais e subtropicais. Contam-se hoje mais de 500 espécies de meliponíneos ao redor do mundo, entre as quais cerca de 400 localizam-se nas Américas Central e do Sul. No Brasil há entre 250 e 300 espécies conhecidas por suas nomenclaturas autóctones e divididas em mais de 50 gêneros (como Trigona, Tetragonisca, Scaptotrigona e Melipona), ao contrário da tribo Apini, à qual pertence a abelha europeia, integrada apenas pelo gênero Apis. Durante sucessivas gerações, o extrativismo predatório dos meleiros acirrou a diminuição da presença desses insetos no país. Mas uma recente produção controlada das abelhas sem ferrão, a meliponicultura, no termo cunhado por Paulo Nogueira-Neto (1953), se vem organizando, ou como passatempo de estimação, ou desde o julgamento comercial das notas exóticas e sutis de seus méis.

As meliponíneas podem ser criadas por idosos ou crianças sem necessidade de qualquer proteção especial. A vorá que dá título a este livro é ultimamente avistada forrageando plantas como café, goiaba, acerola, algodão, urucum, abacate, pequizeiro, girassol, butiá, murici, araçá, limoeiro e caruru, entre variadas leguminosas de sua preferência polínica (Duarte, 2012; Oliveira et alli, 2013). Igualmente, para se estimar algo mais concreto acerca de seu relevo na existência pré-colombiana, basta mencioná-la
como a polinizadora da flor de mandioca. De resto, as abelhas sem ferrão foram e continuam sendo largamente conhecidas por indígenas da América do Sul, contando-se entre eles os extintos Maias, meliponicultores que se serviam de cabaças de barro e para os quais a kolel-kab, a senhora do mel, estava presente nos cultos do jaguar, do sol e da lua, permanecendo estreitamente associada à produção do tomate, às sacralidades do sangue e da chuva e ao preparo do balché, uma bebida alcoólica de uso ritual.

Entre todos os usos desses insetos e seus derivados, os nutricionais e os curativos são os mais patentes em virtude dos potenciais calóricos e anti-inflamatórios vastamente experimentados do mel, do própole, da geleia real e das larvas. Nos espaços mesoamericanos e andinos aptos à fundição de metais, a abelha sem ferrão outra vez marcava sua presença ao fornecer insumos para a moldagem de joalherias pela técnica da cera perdida, aproximando intimamente as riquezas da colmeia e do ouro.

Há aproximadamente uma década, a notável estabilidade do voo das abelhas é estudada com propósitos aeronáuticos implicados na construção de esquadrões de minidrones menos vulneráveis à turbulência. Mas, bem antes disso, ninguém arriscaria dizer ao certo quando se constatou que o voo em linha reta das abelhas constituía uma pista segura a ser seguida. Citando Warwick Estevam Kerr, Nogueira-Neto (1953) menciona que no Sudeste e Nordeste do Brasil tomava-se uma abelha pousada em uma flor para se soprar nela uma baforada de fumo. Após libertada, procurava-se acompanhá-la até onde se conseguisse, pois, ao adentrar a colônia, seu cheiro estranho fazia as demais debandar em quantidade, revelando o paradeiro do cortiço.

Ao cabo dos séculos, a cobiça pelas abelheiras nativas aprimorou a competência dos rastreadores do mel de pau em meio a brenhas e vegetações ciliares. Desde a época colonial, missionários assombravam-se com a perícia dos indígenas em encalçar o curso de retorno das abelhas em corridas a pé, sobre montarias ou a bordo de canoas por rios e igarapés. Guiando-se não apenas por zumbidos e odores, os Guaranis chegavam a prender uma pluma de ave em uma abelha capturada para segui-la mata adentro até sua colmeia, repetindo na América uma prática também testemunhada com as melíponas entre os aborígenes australianos.

Em um recinto integralmente destituído de substâncias sintéticas, carece de ser alentadamente repertoriada a lista de fórmulas ou combinações, mais e menos espessas, preparadas com materiais oriundos das abelhas que se agregam na confecção de cocares, cestos, potes, arcos, dardos, flechas, zarabatanas, lanças, arpões, estojos, arapucas, cachimbos, canoas, redes de dormir e pescar, instrumentos musicais, cordoarias, bebidas, pinturas corporais e adereços festivos ou ritualísticos. Logo, em virtude dessa mesma imensidão formidável de empregos e materiais, não creio recomendável abordar extensivamente a dimensão simbólica do mel entre os americanos originários. Atenho-me, portanto, a algumas menções.

A primeira a me ocorrer é a festa do mel entre os Guajajaras e Tembés do Maranhão e do Pará, descrita na monografia de Charles Wagley e Eduardo Galvão intitulada “Os tenetehara: uma cultura em transição”, de 1949 (Wagley e Galvão, 1961). Registrado no começo dos anos 1940, esse mito da colheita do mel o reveste de um significado mágico, articulando elos de parentesco e transmutação entre homens, araras, formigas e onças. Algo interessantíssimo pode ser encontrado de modo similar na lenda do mel difundida entre os Ofaié-Xavantes do Mato Grosso. Nela é o lobo-guará quem opera como senhor do mel disputado por homens e um jabuti. Os Xavantes foram estudados, entre outros, por Darcy Ribeiro. Foi ele quem forneceu subsídios para a publicação da cartilha “Ofaié − o povo do mel”, organizada em 1991 por Carlos Dutra e destinada a alunos da 1ª à 4ª série primárias.

Essa modesta obra traz uma referência explícita ao mel da vorá (Dutra, 1991). Ao leitor interessado, deixo, então, o incentivo para a busca de versões etnológicas ou romanceadas desses e de outros mitos de incomensurável relevância e esplêndida beleza. Quem o fizer por certo estará atuando como multiplicador de sabedorias milenárias sobre nossas abelhas nativas, fauna cujo conhecimento e desfrute não merecem jazer limitados a círculos eruditos, haja vista constituírem modelo inequívoco de patrimônio cultural imaterial da humanidade, a ser defendido e propagado no exato sentido atribuído a tal expressão pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

 

O autor é professor de Hermenêutica da UFF.

marcusfabiano@terra.com.br

 

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