Por que precisamos de mais diversidade na ciência?

Por que precisamos de mais diversidade na ciência?

Luiz Augusto Campos, Cientista político

 

As ciências naturais ainda resistem às políticas de redução das desigualdades em seu interior. Um indício disso é a baixa adesão dessas áreas às políticas de ação afirmativa. Cotas raciais e outras ações afirmativas se difundiram nos últimos tempos por diversos programas de pós-graduação brasileiros, mas de modo incipiente nas ciências naturais (física, química, biologia etc.) e tecnológicas (engenharias, farmácia, medicina etc.). Segundo levantamento feito por Anna Venturini, 43% dos programas de pós-graduação em Ciências Humanas possuem algum tipo de ação afirmativa (Venturini, 2019), percentual que cai para 20% nas Engenharias, 21% nas Ciências da Saúde, 21% nas Agrárias, 23% nas Ciências Exatas e da Terra e 24% nas Ciências Biológicas. Do total de programas com algum tipo de ação afirmativa, 23% são de Ciências Humanas, enquanto as Engenharias respondem por apenas 7% e as Ciências Biológicas por 8% (Venturini, 2019).

São muitas as origens dessas resistências, porém, a principal delas envolve justificativas meritocráticas. Ainda segundo Venturini, em todas suas entrevistas feitas com coordenadores e gestores universitários, “os professores dos programas (com e sem ação afirmativa) ressaltaram a questão da meritocracia, seja como um argumento que foi mencionado ao longo das discussões para aprovação da política, seja como uma das justificativas apresentadas pelos programas que não criaram essas políticas” (Venturini, 2019).

Não é nova a tensão entre meritocracia e políticas de diversidade. Toda uma bibliografia especializada é crítica feroz da ideia de mérito, considerando discursos meritocráticos como pretextos para justificar a exclusão arbitrária dos grupos desfavorecidos de espaços de privilégio. Dessa perspectiva, qualquer instituição que busque premiar o mérito individual contribuiria com a reprodução do sexismo, do racismo, do capacitismo etc. (Young, 1990). Outras perspectivas creem, inclusive, que as políticas de diversificação da ciência pressupõem uma ruptura com os valores epistemológicos tradicionais na direção de “novas ciências” (Santos, 2019).

Neste texto, porém, pretendo mostrar que as razões para diversificar a ciência não dependem de uma ruptura nem com seus princípios meritocráticos, nem com a epistemologia tradicional. Ao contrário, a inclusão de grupos subalternos na ciência é condição para seu funcionamento adequado. Primeiro porque as políticas de ação afirmativa não violam o princípio do mérito, mas buscam ampliá-lo; não para negar, mas para reforçá-lo “a partir de uma visão mais ampla das desigualdades sociais” (Feres Júnior e Campos, 2013). É justamente porque a discriminação impede o reconhecimento do maior esforço e talento de membros de grupos subalternos que políticas de equidade são necessárias. Em segundo lugar, processos de avaliação científica mais imparciais tenderam na história a beneficiar membros de minorias, e não o oposto. Em terceiro lugar, a inclusão de grupos subalternos na ciência é fundamental não apenas para que ela cumpra seu papel social, mas para o benefício potencial das próprias descobertas científicas.

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O que se segue está organizado em quatro seções. Na primeira, abordo como critérios meritocráticos se fazem presentes não apenas nos discursos, mas também em algumas instituições científicas tradicionais, como, por exemplo, o sistema de revisão duplo-cega por pares. Em seguida, mostro como o caráter profundamente desigual e excludente do mundo científico reflete mais a aplicação mecânica desses princípios meritocráticos a contextos de desigualdades prévias do que aos valores em si. O argumento aqui é que os valores básicos da ciência estão em xeque quando ela abdica de considerar as desigualdades cumulativas gigantescas que marcam seu interior. Na terceira seção abordo o exemplo das teorias racialistas e de como elas nos ajudam a entender essa ambivalência das instituições científicas: ora operando de modo discriminatório e desigual, ora operando como fonte de crítica emancipatória da discriminação contra grupos subalternos. Ao termo, delineio algumas conclusões sobre a importância de diversificar a ciência para que ela funcione melhor.

Mérito e ciência

A adesão ao valor do mérito nas ciências não reflete apenas compromissos ideológicos, mas está na base de suas mais tradicionais instituições. Toda carreira científica é composta de uma infinidade de testes e filtros sucessivos, pelo qual cientistas em diferentes etapas na carreira devem passar. Provas de seleção para a pós-graduação, testes nas disciplinas, bancas de mestrado e doutorado, pareceres sobre artigos acadêmicos etc. são apenas alguns exemplos dos tipos de testes recorrentes na carreira de qualquer cientista.

Mas, embora pretendam distinguir os “melhores” e mais capacitados dentre um universo de pretendentes à carreira, tais filtros aderem de modos muito distintos aos valores meritocráticos. As bancas que avaliam trabalhos de acadêmicos em início de carreira como doutorandos costumam envolver pesquisadores que conhecem não apenas o material avaliado, mas também as trajetórias e perfis sociais dos seus autores e autoras. Já a avaliação de artigos acadêmicos costuma se basear no anonimato dos avaliados e avaliadores, o chamado sistema de revisão duplo-cega.[1] Tal mecanismo foi pensado justamente para evitar que considerações pessoais impactassem no julgamento científico, fazendo com que o mérito intrínseco a essas produções acadêmicas pudesse ser aferido sem que impactassem no processo eventuais preconceitos sobre a identidade de seus produtores.

É bem verdade que esses critérios não nasceram para proteger grupos subalternos dentro da ciência, que, aliás, os excluiu sistematicamente no decorrer da sua história. Mas a intenção de isolar ou conter eventuais preferências ou animosidades extracientíficas acabou tendo como efeito certa barreira à expressão incontrolada de preconceitos. Esse é o caso, por exemplo, da notoriedade concedida a inúmeros cientistas de origem judia, mesmo no período de fortalecimento e expansão do nazismo pelo mundo.

Contudo, esses sistemas de hierarquização científica costumam ser aplicados em contextos já muito desiguais e excludentes, o que normalmente tem o efeito não intencional de legitimar e multiplicar essas desigualdades. Isso é o que o sociólogo estadunidense Robert Merton chamou de “efeito Mateus”, isto é, a tendência própria do mundo científico de concentrar muitos recursos e recompensas em uma proporção pequena de cientistas (Merton, 1968). Décadas antes, Alfred Lotka tinha proposto que 60% dos cientistas publicam no decorrer de suas carreiras apenas um artigo relevante, enquanto os artigos de maior impacto tendem a ser publicados por uma minúscula elite científica.

Essas desigualdades cumulativas têm efeitos desproporcionais em minorias políticas. Dos premiados pelo Nobel na área da ciência, por exemplo, apenas 3% foram mulheres e nenhum foi negro.[2] Em entrevistas à socióloga Harriet Zuckerman na década de 1970, os próprios laureados reconheciam a injusta a extrema acumulação de reconhecimento por nomes já consagrados previamente, o que deixava em segundo plano as numerosas equipes envolvidas nas descobertas científicas (Zuckerman, 1977).

Logo, práticas acadêmicas tradicionais como a revisão duplo-cega por pares têm efeitos ambivalentes. Se tais critérios podem ajudar a legitimar desigualdades prévias de uma ciência praticada basicamente por homens brancos e de classes superiores, eles não podem ser reduzidos a fontes intrínsecas de injustiças. O mesmo sistema foi também importante para permitir o incremento em termos relativos das publicações de mulheres, por exemplo. Se abundam pesquisas indicando os vieses de gênero nos processos de editoração acadêmica, outras verificam um aumento da diversidade de gênero; quando revistas, migram para o sistema de revisão duplo-cega por pares (Darling, 2015). Isso porque artigos assinados por mulheres acabam tendo maiores chances de aprovação quando o gênero delas é ocultado no processo de avaliação. Por isso, uma prática científica institucionalizada dita meritocrática produz efeitos altamente ambivalentes: ao mesmo tempo em que tende a reforçar desigualdades internas à carreira científica, ela tende também a reduzir desigualdades relativas entre os grupos subalternos.

Deméritos da ciência

Pode-se contra-argumentar, contudo, que a ciência não deveria se importar com seu papel no aumento ou na redução das desigualdades sociais. Sua função precípua seria a de focar na ampliação do conhecimento humano por meios rigorosos, pouco importando se, para tal, tenhamos de aceitar a existência isolada de uma casta de gênios. O privilégio aristocrático seria, dessa perspectiva, um preço a se pagar pela genialidade dos cientistas em atividade e suas contribuições à humanidade. Assim, as desigualdades sociais deveriam ser objeto de preocupação de outras instituições como o Estado, mas não da ciência.

Para além de certa insensibilidade social sobre o papel político das ciências, esse contra-argumento tem problemas, mesmo quando aderimos às suas próprias premissas. A ciência não se caracteriza pela sua capacidade de produzir conhecimento “verdadeiro” a partir dos insights de mentes geniais isoladas, mas pelos mecanismos relacionais e institucionais que a permitem selecionar, via experimentos controlados e revisão por pares, aquelas teorias e hipóteses que melhor explicam determinados fenômenos. Qualquer cientista experimental pode concordar que a sua carreira dentro de um laboratório foi muito mais marcada por erros ou resultados inadequados do que por descobertas totalmente inovadoras. Muitos deles têm de lidar corriqueiramente com artigos recusados em revistas de prestígio, seja por erros em suas metodologias, seja pela falta de clareza com que eles são relatados. Logo, os cientistas não são aqueles que sempre acertam, mas sim aqueles que, na busca por testar hipóteses, se dedicam a um jogo extenuante de tentativa e erro. Nos termos de Firestein, a ciência não é o império das verdades, mas sim o lugar onde a multiplicação dos erros é filtrada por práticas e instituições específicas de validação do conhecimento (Firestein, 2016).

O próprio sistema de revisão por pares é uma forma de mitigar a consagração indevida de teorias científicas. Contudo, tais controles não são infalíveis. Eles costumam falhar quando há um consenso amplo sobre uma dada questão, ainda que equivocado, ou quando interesses escusos e alheios ao método científico colonizam a prática científica (o que infelizmente não é raro). Por isso, a história da ciência mescla momentos de descobertas válidas e relevantes com fases em que as instituições de consagração científica dão mérito a teorias equivocadas. Mas qual a relação disso com sua diversidade interna? O estatuto científico da noção biológica de raça fornece um bom exemplo para elucidarmos esse ponto.

Raça e ciência

Desde os anos 1940, os cientistas vêm colecionando evidências de que a raça, enquanto conceito biológico, explica poucas das diferenças humanas. Sabe-se hoje que há mais similaridade genética entre um cidadão português, socialmente visto como branco, e um marroquino, visto socialmente como negro, do que entre esse mesmo português e um islandês branco. Dito de outro modo, há uma enorme homogeneidade genética entre todos os seres humanos, e mesmo a pouca diversidade que existe parece ser maior dentro dos grupos de uma mesma origem étnica do que entre esses grupos (Kim et al., 2009).

Isso não apaga, porém, a centralidade que o conceito de raça teve nas ciências e o papel dessas na sua legitimação no passado. Até a década de 1930, era difícil encontrar um cientista natural no mundo que não defendesse o conceito. Raça é, portanto, um excelente exemplo de como todo aparato existente para validar as descobertas científicas pode não funcionar diante de um equívoco generalizado (Oreskes, 2019). Mas esse exemplo serve, também, para mostrar como a própria ciência pode ser importante no expurgo dos seus próprios erros históricos.

Como nos mostra o paleontólogo Stephen Jay Gould, o descrédito da noção biológica de raça veio dos mesmos espaços científicos que antes a defendiam, como a Estatística (Gould, 1991). Charles Spearman, um psicólogo estadunidense que fez contribuições relevantes à estatística das populações, desenvolveu inúmeros cálculos para provar a correlação entre branquitude e inteligência, sendo aclamado em muitos momentos por parte importante de seus colegas e da comunidade científica da época. No entanto, vários críticos utilizaram suas próprias fórmulas para contestar seus próprios achados (Gould, 1991). Aliás, a Estatística foi fundamental para propor o que hoje soa relativamente óbvio: o que determina o desempenho das pessoas em testes de inteligência tem mais a ver com variáveis sociais (classe de origem, grau de alfabetização, nutrição adequada na infância, oportunidades educacionais etc.) do que qualquer outro elemento supostamente biológico como a cor da pele ou origem étnica. A mesma ciência usada com fins racistas serve, hoje, para desmascará-los.

Vale notar, também, que o descrédito de concepções biológicas de raça pela ciência não implicou o fim de todos os preconceitos raciais presentes nas mentes dos próprios cientistas. Em suas entrevistas com professores universitários de diferentes ciências, Ann Morning nos mostra como essas concepções biológicas vêm sendo reatualizadas nos espaços acadêmicos, mesmo quando os entrevistados creem recusá-las (Morning, 2011).[3] Ela também destaca, contudo, como os cientistas de departamentos mais diversos tendem a contestar com mais vigor noções biologizantes de raça do que aqueles presentes em instituições hegemonicamente brancas e masculinas.

Ainda que não possamos asseverar que todas instituições e práticas científicas garantam que a ciência não consagrará erros, como já o fez com teorias racistas, a presença de grupos discriminados no seu interior parece fundamental para pluralizar as hipóteses em teste. Isso não implica que cientistas judeus, negros, mulheres, gays, lésbicas etc. estarão sempre certos sobre temas que os concernem: como cientistas, eles podem cometer tantos erros quanto seus demais pares. Mas certamente eles têm mais condições, por suas experiências pessoais, de duvidar de determinadas hipóteses discriminatórias ou propor novas perspectivas sobre velhos problemas.

Conclusões

Reconhecidos esse conjunto de ambivalências e os efeitos delas advindos, o desafio das instituições científicas e de fomento à ciência é institucionalizar formas e estratégias de mitigação da acumulação das desigualdades a partir de políticas de diversificação da comunidade científica. Isso não implica necessariamente abandonar critérios tradicionais focados na meritocracia. Ao contrário, significa colocar no centro de nossas práticas e instituições capazes de distinguir quando critérios tradicionais são de fato operativos e quando servem para escamotear privilégios arbitrários. Ademais, o funcionamento de mecanismos imparciais de julgamento nunca são perfeitos, sobretudo em contextos altamente desiguais. A história do racismo científico é prova eloquente disso.

Assumir um compromisso com a redução das desigualdades não é apenas uma forma de fazer com que a ciência se responsabilize politicamente, mas também fomentar a pluralização de suas hipóteses, metodologias e práticas, fortalecendo suas contribuições para o conhecimento como um todo. O desafio não é trocar padrões de excelência por uma ênfase na diversidade, mas de recalibrar uma concepção de ciência no interior da qual a diversidade traz, como potencial, contribuições cognitivas robustas e alguma espécie de mérito, de modo que ela, ao lado da excelência, alcance o status de valor central ao fazer científico.

 

O autor é professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janei-ro (IESP-UERJ).

lascampos@iesp.uerj.br

 

BIBLIOGRAFIA

Darling, E. S. 2015. “Use of Double-Blind Peer Review to Increase Author Diversity”. Conservation Biology: The Journal of the Society for Conservation Biology 29(1): 297–99.

Feres Júnior, João, e Luiz Augusto Campos. 2013. “Liberalismo igualitário e ação afirmativa: da teoria moral à política pública”. Revista de Socioligia e Política 21(48): 85–99.

Firestein, Stuart. 2016. Failure: Why Science Is So Successful. New York: Oxford University Press.

Gould, Stephen. 1991. A Falsa Medida do Homem. São Paulo: Martins Fontes.

Kim, Jong-Il et al. 2009. “A highly annotated whole-genome sequence of a Korean individual”. Nature 460(7258): 1011–15.

Merton, Robert K. 1968. “The Matthew Effect in Science”. The reward and communication systems of science are considered 159(3810): 56–63.

Morning, Ann. 2011. The Nature of Race: how scientists think and teach about human difference. Berkeley: University of California Press.

Oreskes, Naomi. 2019. Why Trust Science? Princenton: Princeton University Press.

Santos, Boaventura de Sousa. 2019. O Fim do Império Cognitivo – A afirmação das epistemologias do sul. Leya.

Venturini, Anna. 2019. “Ação afirmativa na pós-graduação: os desafios da expansão de uma política de inclusão”. Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Young, Iris Marion. 1990. “Affirmative action and the myth of merit”. In Justice and the politics of difference, org. Iris Marion Young. Princeton, N.J.: Princeton University Press, 192–225. http://www.loc.gov/catdir/description/prin021/90036988.html.

Zuckerman, Harriet. 1977. Scientific Elite: Nobel Laureates in the United States. New York: Routledge.

 

NOTAS DE RODAPÉ

[1] O mundo da editoração científica vem passando por rápidas transformações nos últimos tempos, todas aceleradas pelos desafios gerados com o advento da Covid-19. Nesse contexto, a revisão duplo-cega vem sendo rapidamente substituída pelo sistema de revisão aberta em servidores de pré-publicação, os chamados preprints. Tudo isso tem consequências para os problemas abordados aqui, mas deixaremos essa reflexão para outra oportunidade.

[2] https://www.usnews.com/news/best-countries/articles/2020-10-01/the-nobel-prizes-have-a-diversity-problem-worse-than-the-scientific-fields-they-honor

[3] Isso para não mencionar casos mais histriônicos como de James Watson, Nobel em 1962 que passou a dar insistentes declarações racistas apesar de suas afirmações terem pouco a ver com suas pesquisas empíricas.

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