Primeiras impressões de um deputado novato na Câmara (1881)

Primeiras impressões de um deputado novato na Câmara (1881)

Foram más as minhas primeiras impressões, no dia que comecei a tomar parte dos trabalhos da Câmara. Eu vinha da academia, ambiente povoado de quimeras e ilusões. Supunha o Parlamento um preclaro Congresso, sempre ocupado de levar os assuntos, o pensamento fixo no bem da pátria, aclamado no ambiente de superioridade.

Impressionou-me, antes de tudo, a ausência de gravidade nas relações dos deputados entre si. Ouvia-se nos corredores a mais livre linguagem, contavam-se anedotas impróprias, e, sobretudo, falava-se horrivelmente mal da vida alheia, mais da dos amigos, que das dos adversários. Observei defeitos idênticos aos notados nas reuniões de estudantes: intrigas, pequenas realidades, invejas, leviandades, sem o entusiasmo e o desinteresse característicos dos rapazes, mas revestidas, em compensação, de cálculo e astúcia.

Dominava os espíritos a tendência pessimista. Só se encontravam nos grupos narrativas de abusos praticados por autoridades subalternas, queixas, vaticínios desagradáveis. Os ministros eram maltratados sem pena, mesmo ou mormente por aqueles que os apoiavam.

No dia do pagamento do subsídio, tornava-se grotesco espetáculo. Compareciam os menos assíduos. Havia, a princípio, luxos, relutâncias fingidas, afetações de não se lembrar de que iam receber dinheiro. Depois, aglomeravam-se na sala em que o empregado do Tesouro efetuava a distribuição. Que ares teatralmente indiferentes, ao embolsarem as notas! Que sofreguidão noutros! Estes verificam atentamente a quantia. Repetem, aqueles, conhecidas graçolas: “Eis a verdade do sistema representativo… É o nervo da guerra! Ninguém imagina o quanto isto estimula o patriotismo e esclarece as ideias!” E retiravam-se lépidos, radiantes…

(Conde de Afonso Celso, Oito anos de parlamento: primeiras impressões)

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