Quem traiu Marx? Traiu?

Quem traiu Marx? Traiu?

Luiz Werneck Vianna, Sociologo

 

Está em curso uma deserção das fileiras marxistas? As ideias de Marx estão mofadas ou esmaecidas pelo tempo e pelas circunstâncias da realidade? Um marxismo puro estaria sendo substituído por outro, mais indefinido e menos legítimo (ou ainda por vários outros diferentes marxismos)? Um marxismo vulgar, bastardo e fragmentado ocuparia o lugar de um marxismo fundamentalista original? Respostas a tais perguntas não são fáceis de serem respondidas porque não há respostas claras, nem facilmente percebidas. E o mais importante: buscar Marx dessa maneira dificilmente nos leva a bons endereços.

É possível hoje identificar um partido marxista influente no governo, o PCdoB. Trata-se, aliás, de uma influência que resiste ao tempo, que gerou inclusive um presidente da Câmara, o deputado Aldo Rebelo, e de um partido com ambições certamente maiores. Temos também um movimento social de presença permanente, de adesão marxista, que é o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra), e todas as suas articulações correlatas, como a Via Campesina, têm orientação marxista. A União Nacional dos Estudantes, a UNE, está sob o controle do PCdoB há bastante tempo. Vemos publicações nas bancas de revistas dedicadas a Marx. Não nos esqueçamos de mencionar os agrupamentos marxistas no interior do PT, uma esquerda marxista presente no partido que está no governo há quase 10 anos.

Esse mesmo Marx, no entanto, aparece fraco na grande intelligentsia, na qual tem uma presença empalidecida, especialmente se comparada a algumas décadas atrás. Ao mesmo tempo, os grupos que citei são inteiramente distintos uns dos outros, com estratégias e suportes teóricos muito diferentes entre si. Em outras palavras, o marxismo já foi muito mais presente na grande intelectualidade brasileira. Ele foi forte sobretudo nos anos 40 e 50. Naquele momento, havia uma articulação relevante entre classe operária, intelectuais, elites políticas, sociais e também militares, que credenciavam o marxismo a pensar numa forte participação no governo para a realização de um programa de reformas profundas.

Volto ao contexto atual com dois exemplos citados: o PT e o MST. Pode-se afirmar que o PT é um partido de esquerda, que contém agrupamentos de orientação marxista. No entanto, isso não se traduz numa orientação marxista efetiva. Definitivamente o PT não é um partido de orientação marxista nem classista. Exibe um nacional-desenvolvimentismo de cunho social-democrata desde o segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e continuado pela presidenta Dilma Rousseff. Enquanto isso, o MST invade uma grande fazenda de um dos maiores produtores de suco de laranja do mundo, ocupa o Ministério da Fazenda, tem uma presença também ministerial, faz suas pressões, mas tudo isso não se traduz numa promessa de ruptura ou de mudança de hegemonia. É uma agenda que não está em questão. E, se estivesse, seria uma orientação muito particular da tradição marxista. Essa tendência, porém, não significa dizer que não haja grupos ou intelectuais do PT que tenham essa compreensão marxista. Eles sabem o que fazer com a disputa por hegemonia, com as grandes alianças, com a articulação de setores subalternos, permitindo-lhes certa liberdade de movimento, mas com limites bem definidos. Porém, ninguém dirá que se trata de um governo de orientação marxista, pois contraria de forma escandalosa os fatos.

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O paradoxo atual é que o marxismo crescentemente vem perdendo força de atração. O fato de a explicação de Marx sobre o fim de o capitalismo estar cada vez mais presente no debate econômico atual não quer dizer que marchamos para o colapso do capitalismo. Estamos vivendo crises cada vez mais profundas e com intervalos cada vez menores. Imergimos numa crise que cabe integralmente no Livro III de “O Capital”. Assim como houve a grande intervenção keynesiana nos anos 30, precisamos de uma grande intervenção agora, nas circunstâncias de hoje – uma intervenção fundamentalmente de natureza política. No meio dessa névoa em que nos encontramos, uma potência emergente é a China. Trata-se de um país de orientação marxista, é fato. No entanto, é também a melhor administradora do capitalismo hoje. Outro paradoxo.

 

 

 

 

Esse contexto pode gerar uma certa confusão sobre no que se transformou o marxismo. Há de tudo, inclusive no Brasil. Desde que o Partido Comunista Brasileiro, de Luis Carlos Prestes, perdeu a hegemonia da esquerda e foi ultrapassado pelo PT, houve uma pulverização, uma vulgarização e uma bastardização do marxismo no Brasil. Apareceram outras formas de apropriação de Marx e do marxismo, um mercado aberto que não comporta leituras hegemônicas. O próprio Marx dizia que ele não era marxista. Seu pensamento e sua obra são muito complexos, mas o endereço da obra é bem definido: estudar as leis econômicas do capitalismo. A crise contemporânea mostra que boa parte dos seus argumentos tinha fundamento. A economia formal está inteiramente desvinculada do sistema financeiro, gerando crises sucessivas e fundamentais. Crises estas que se corrigem, como provavelmente esta em curso será corrigida. Mas com grandes custos. E com aumento da incapacidade de ordenação do político, do social, do econômico. Com o esfacelamento da ideia do automatismo do mercado. Confiou-se em demasia no automatismo do mercado. O estado atual da crise apresenta-se de tal forma que os remédios prescritos por Keynes já não dão conta e abre-se a necessidade de uma coordenação cada vez mais internacional. Não diria que o capitalismo encontrou seus limites, mas ele precisa de permanente administração para se autorreproduzir. Sem uma administração bem-feita estará sempre sob o risco de ruir. Esse contexto não deixa de alterar a influência que Marx exercia. Remove o caráter triunfal do capitalismo.

É possível que dessa crise saia, ao contrário, o fortalecimento do capitalismo. A crise deflagrou o equívoco da ausência da regulação, algo que pode ser incorporado diante da experiência recente. Não se diz aqui que estamos numa crise terminal. O economista Nouriel Roubini, o único que acertou em cheio na identificação da crise atual, escreveu um artigo recente (“Is capitalism doomed?”), no qual lembra que esta não é a crise final do capitalismo. Roubini lembrou que Marx estava certo quando disse que a globalização, a louca intermediação financeira e a redistribuição de riqueza do trabalho para o capital poderiam levar o capitalismo à autodestruição. Mas essa não é a crise final, diz o economista, se não houver intervenção forte e cooperação internacional. Ou seja, os Estados-nação vão ter de regular o sistema.

O capitalismo com que Marx se confrontou tinha uma manifestação hegemônica que hoje está longe de ter. Quando examinou a Índia, num texto célebre e muito criticado por ser considerado eurocêntrico (O domínio britânico na Índia), Marx lamentava a miséria que as indústrias têxteis produziam no país, na medida em que desorganizavam a produção manufatureira local. Mas, ao mesmo tempo, entendia que essa intervenção do mercado indiano era civilizatória, pois tendia a tirar a Índia da tradição dos seus cultos passados. Esse domínio, portanto, exibia uma dupla face: intensificava a miséria de um lado e trazia a Índia para a civilização. Essa visão triunfalista do capitalismo não pode ser mais identificada no presente. Ninguém tem a pretensão de dizer que, com o avanço do capitalismo, será possível levar à civilização. Levará, isto, sim, à miséria.

O pensamento de Marx está congelado nos livros que escreveu. Mas a apropriação pelo Oriente impôs uma inflexão muito forte às suas ideias. Marx imaginava, por exemplo, que a passagem para o socialismo dependeria de uma certa maturidade do desenvolvimento das forças produtivas. Seria necessária uma contradição entre forças produtivas e meios de produção. Mas o Oriente disse “não”. E fez a revolução pelo atraso. A Rússia, afinal, era um país retardatário. A China e o Vietnã também. O cenário desse pensamento emigrou das grandes cidades e das fábricas para o campo, as guerrilhas, Cuba… Não se pode negar a evidência de que os partidos marxistas revolucionários não estão mais presentes no mundo, pelo menos não na acepção clássica de revolução. O marxismo e os marxistas estão presentes, isto, sim, numa social-democracia branda, no reformismo, no PT.

 

 

 

 

O PT traiu Marx? Fernando Henrique Cardoso traiu Marx? Partidos marxistas como PSOL e PSTU traíram Marx? A pergunta a fazer é: de qual marxismo estamos falando? Citei alguns partidos marxistas, mas e daí? Perdeu-se o fundamentalismo marxista, mas onde está o fundamentalismo marxista? Na ideia de revolução? Hoje a revolução é outra. Qualquer marxismo é marxismo para a autoidentificação de um marxista. O problema é saber quais dessas ideias a sociedade seleciona. O PSTU está aí, mas não tem uma ideia selecionada, nem selecionável, pela sociedade. Ficará no limbo quanto tempo durar o partido. Ao PSOL digo o mesmo. Mesmo o PCdoB esconde a sua identidade marxista, que fica apenas no registro formal. Não vai às ruas.

Tudo isso, porém, não quer dizer que não só o diagnóstico de Marx, mas algumas das ideias seminais que ele lançou não estejam presentes entre nós. A internacionalização do Estado por parte da sociedade civil encontra assento na teoria marxista, expressa por meio de um dos seus maiores expoentes, Antonio Gramsci. Com uma influência intelectual relevante, ele teve uma enorme passagem pelo mundo da periferia, incluindo o Brasil, e viu o processo de revolução em outro registro que não o catastrófico, o da intervenção fulminante, como nas experiências de 1789 e 1917. Gramsci viu o processo de forma mais distendida, uma lenta passagem para o socialismo. Hoje, porém, não há mais uma central marxista como havia no mundo do marxismo até a queda do Muro de Berlim. Havia um Vaticano que coordenava as ações desse mundo e fornecia cursos de homogeneização para os diferentes países e seus seguidores. Esse Vaticano acabou. Deixou de ter circulação, e o pensamento que ficou como referência histórica, cultural, moral e política vai se esmaecendo ao longo do tempo. Resta um sentimento de anacronismo ou nostalgia.

Acredito que a grande complicação foi o fato de a revolução socialista ter vencido num país retardatário. Para Marx, isso foi completamente inesperado. Ele pensava a revolução na Inglaterra, nos Estados Unidos, na Alemanha. Marx só concebia a revolução num país retardatário se imediatamente seguida de uma revolução no Ocidente. Caso contrário, não seguraria. No caminho russo, Stalin acabou sendo o resultado. O caminho de Marx aponta para uma associação de indivíduos livremente organizados, seu objetivo antropológico. Imaginava fazer isso a partir da história acumulada do Ocidente. Mas a revolução começou num lugar muito atrasado, feita de cima para baixo por um Estado controlado por um partido. Foi derrotada a ferro e fogo.

 

 

 

 

Fernando Henrique Cardoso nunca foi revolucionário nem marxista. Fez alguns estudos, pegou a franquia marxista durante alguns anos, mas nunca foi propriamente marxista. No Cebrap, víamos ali um grupo de intelectuais social-democratas, que viviam também uma aflição muito determinada, que era o constrangimento da época. O constrangimento até fez com que gato passasse por lebre, mas Fernando Henrique não fez sua carreira pela esquerda. Não se apresentou como homem de esquerda. Como jovem intelectual até que sim, mas sempre com uma marca muito ampla e moderada. Mas talvez tenha flertado, ou namorado, com o mercado mais do que se podia imaginar.

O próprio Lula também não chegou à Presidência pela esquerda. A Carta aos Brasileiros já mostrava que não. Também nunca teve uma adesão de esquerda bem definida. Conheci-o quando ele era secretário-geral do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo. Era 1974, num ato importante comandado pelo presidente do sindicato, Paulo Vidal, um homem que queria tirar o sindicalismo dos seus núcleos de Estado e buscar um sindicalismo de empresa, capaz de ir para o território da negociação. Havia muita gente no ato, destinado a discutir a criação dos delegados de fábrica. Fiquei muito impressionado com a forma com que Paulo Vidal controlava aquela assembleia e mais ainda com o Lula. Era uma pessoa de simpatia efetivamente irradiante, que comunicava com grande energia. Mas aquele não era o mundo da esquerda operária. Era um mundo muito particular, de novas empresas que se haviam instalado no ABC.

O outro mundo, do Rio de Janeiro, era o das velhas empresas articuladas ao Estado. Como a História mostrou, daquele mundo particular saíram grandes líderes sindicais envolvidos com o mundo da política. Até ali a hegemonia era do PTB e do PCB. Depois dali surgiu um bicho novo que mudou a vida sindical brasileira. Lula se transformou na referência de todo o sindicalismo, pelas circunstâncias do momento, pela enorme capacidade que tinha de persuasão e porque seu discurso não apresentava arestas. Ele não pretendia mudar o mundo, nem prometia acabar com a propriedade privada. Defendia, isto sim, o aumento do salário do trabalhador e a melhoria de suas condições de vida. Com isso, conseguiu reunir sindicalistas de todos os tipos, os comunistas e a esquerda católica. Eu o vi discursar contra a presença de intelectuais no meio sindical e ser aplaudido pelos intelectuais, algo extraordinário.

Mas Lula não podia fazer política só com esse mundo vago das simpatias. Precisava de profissionais, e a extrema esquerda deu isso a ele. Eu era especialista em movimento operário sindical e debatia com essa extrema esquerda. E via que ela era revolucionária ao limite. Gente como o José Dirceu estava ali para implantar o programa dessa extrema esquerda revolucionária. Aos poucos Lula afirmou a sua hegemonia e os atritos foram vencidos. Mas Lula sempre precisou desses grupos políticos profissionalizados, tanto que nunca cortou esse mundo. Sabe que só pode sobreviver com ele, porque lhes dão a estrutura permanente de mobilização. O resultado é o PT, um partido que jamais pôde ter um compromisso com alguma ideia mais definida de revolução. •

 

>> Depoimento a Luiz Cesar Faro e Rodrigo de Almeida.

 

O articulista é professor do Departamento de Sociologia e Política da PUC-Rio.

 

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