Retrato de Família

Retrato de Família

Felipe Cattapan, Músico

 

Três indivíduos de três lugares diferentes. Agora reunidos num mesmo ponto. Convergindo para o mesmo retângulo…

Uma luz solar, externa, que tudo abrange. Uma luz elétrica interna que – frágil – nos tange.

Uma geografia montanhosa, nevada, que nos acolhe. Uma chaminé caseira sublinhando uma estrada.

Um chalé de madeira que nos aquece e – ao nos dar calor, nos proteger do frio e do destino – nos pertence, nos recolhe.

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Uma sala aconchegante, com cheiro de comida no ar, e cheia de livros nas estantes.

Uma mesa posta por nós e só para nós.

Nós!

… E eu…

… querendo unir todos esses elementos – agora e sempre – pego a minha câmera.

Através das suas lentes, capto o universo.

Ajusto a luminosidade – constato que pouco a pouco já estará escurecendo.

Desprezo a paisagem invernal dos alpes italianos para me concentrar na mesa à minha frente. Me perco entre as nozes, queijos, frutas secas, chocolates, vinhos, presunto, salada, pão, patê… Retorno à minha missão ao percerber que o meu filho não quer mais esperar para começar a comer. Mesmo em jejum, minha mulher ainda sorri.

Tento ajustar o “zoom”… sem querer dilato as paredes ao nosso redor. Entro na madeira qua as compõe. Orbito numa galáxia de diversos matizes de marrom… Percorro as paisagens aéreas com os campos cultivados em bege… De repente esbarro num elemento estranho, que interrompe a harmonia desses ciclos: uma verticalidade opressiva – a estante com os seus livros. Que fazem os ausentes de novo presentes… Estão todos bem ali: os autores e os seus comentadores, quem escreveu e quem recomendou. A família cresce, adquirindo uma dimensão quase astronômica… : uma tia-avó que se excitava ao descobrir o culpado, um companheiro de bar que ao chegar a conta tem sempre poemas para recitar, um carioca que declama italiano em portunhol, um pai que transmite a sabedoria em grego, uma criança que me ouve porque ainda não lê, um avô que herda e doa a sua genealogia, uma mulher que se doa numa dedicatória mais autêntica que qualquer poesia. E os outros: Pessoa, Pirandello, Vinicius, Agatha Christie, Nelson Rodrigues, Guimarães Rosa, Anaximandro, Tarkovsky – e etc. Convivendo pacificamente um ao lado do outro nesse espaço tão restrito. Apertados. Graciliano aperta o cinto, Nelson aperta o seio, Agatha aperta o gatilho, Pessoa aperta a garganta, Tarkovsky aperta o botão; Rosa desaperta as rédeas, Pirandello se abre… (Todos eles, porém, se encontram fechados – ao menos por enquanto – dentro das suas páginas). Continuo o movimento – como se buscasse algo além, aquém ou acima dos livros… e encontro um canto. De onde parte uma estrutura que perpassa por toda a casa e nos reúne à terra.

Focalizo a minha família. Na nossa primeira noite nesta casa recém-comprada… Como se o fato de possuirmos um pedaço de Terra nos conferisse estabilidade, como se este modesto feudo nos prometesse mais segurança… Aumento o “zoom”, analiso os rostos: a nossa felicidade não só é possível e real – é também fotogênica! Por mais que aproxime o foco, não se veem cicatrizes, aqueles nossos pequenos problemas – às vezes ampliados pelo quotidiano – não existem mais. Por mais milagroso que possa parecer, enquanto este momento perdurar (enquanto permanecer um retrato e não se tornar uma crônica) constituiremos uma família harmoniosa, previsível, pequena e plena. Foram perdoados (e talvez esquecidos) os nossos maiores e menores deslizes… : serviram de adubo para a continuidade das nossas correlações.

Paro de me mover. Creio ter encontrado o ângulo conveniente para ilustrar a inauguração da nossa casa. Desta perspectiva ainda não está visível o nosso fim: o início do princípio da primeira rachadura, da primeira fissura, do primeiro constrangimento, do possível precipício… Ainda não se sabe onde estará escondido o primeiro defeito, em que lugar se manifestará a primeira falha, qual buraco prenunciará a futura (e inevitável) ruína do nosso imóvel, quando e como tudo se descasará. Todos três sabemos que todo paraíso é sempre limitado – em condições normais não dura mais do que dois dias, no mais tardar no terceiro recairemos de novo na nossa finita decepção diária… Quem atirará a primeira pedra, de onde virá a primeira dor? Em que instante desaparecerá a nossa prometida felicidade, quem terá a coragem de apertar o botão finalizador?!…

Os livros ao redor estão à espreita… a literatura, afinal, é cruel: sempre esperando acontecer alguma desgraça pelo puro prazer de descrever algo acontecendo – não sobrevive à paz estática dos ícones medievais. Exige movimento.

A luz do sol, ao se escurecer, nos relembra que tudo se move e nada permanece. Minha mulher e meu filho não sorriem mais: estão com fome… Atrás de nós, Graciliano descreve as desgraças que a fome gera. Anaximandro – no seu único fragmento conhecido até agora – já fotografou a nossa mortalidade, e o tempo que a degenera.

E eu – sem graça, desgraçado… : aperto.

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