Rock e revolução na década de 60

Rock e revolução na década de 60

Luis Carlos Fridman, Sociólogo

 

Nos anos 1960, o descontentamento de multidões de jovens no mundo inteiro e o desejo de uma vida diferente não se resumiram aos livros, panfletos e comícios. A intensa e revolucionária produção musical do período inspirou corações e mentes à contestação e, por todo lugar, o rock and roll se tornou a trilha sonora da revolta. Street Fighting Man, canção dos Rolling Stones, é apenas um dos exemplos dessa afinidade. Mas os encantamentos poéticos e melódicos também atingiram aqueles que não estavam avisados ou interessados na mudança. Como lembra Greil Marcus, um importante crítico musical e escritor sobre aqueles anos fervilhantes: “Ninguém escutava música como parte de uma realidade separada. Cada novo hit parecia cheio de novidades, como se seu objetivo não fosse somente atingir o topo das paradas, mas deter o mundo em seus trilhos e depois botá-lo em movimento outra vez.” (Marcus, 2010:19).

 

Canções escutadas no recolhimento dos quartos de dormir ou em agitados concertos para milhares de pessoas ajudaram os fãs a reconhecer que os tempos estavam mudando, como cantava Bob Dylan em The Times They Are a-Changin’. Os jovens investiam contra as instituições, desde os rituais familiares à guerra do Vietnã. Tais ímpetos podiam ser protagonizados por estudantes enragés ou pacatos hippies que buscavam paz e amor. Parcelas bem-comportadas daquela geração também se viam seduzidas a abandonar os caminhos oferecidos pelo sistema e partir para novas experiências existenciais, para horror e incompreensão de seus pais. A contestação acabou se tornando um fenômeno mundial, rompendo a exclusividade da ação por aqueles que eram portadores de propósitos políticos ou ideológicos bem definidos.

 

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Passadas algumas décadas, ainda sobrevive a ideia de que os anos 1960 foram um generoso tempo de utopias que não prosperaram. Tais concepções repetem os equívocos da esquerda tradicional daquele momento que via no barulho das ruas apenas um “sintoma” de conflitos estruturais e, portanto, sem pernas para uma transformação profunda da sociedade.

 

Em seu livro Tempos interessantes – Uma vida no século XX, Eric Hobsbawm escreve que a sua geração não entendeu o que estava acontecendo, o que faz lembrar da Ballad of a Thin Man, composta pelo mesmo Dylan em 1965. Nela, o bardo dizia: “Because something is happening here/But you don’t know what it is/Do you Mr.Jones?” (Porque algo está acontecendo aqui/ Mas você não sabe do que se trata/ Sabe, Mr. Jones?). Com tocante honestidade intelectual por ter partilhado desses equívocos, Hobsbawm acentua a amplitude da contestação como um terremoto cultural sintetizado na palavra de ordem “o que é pessoal é político”.

 

Não era necessário ter convicções políticas enraizadas para se deixar sensibilizar por novas liberdades. Durante alguns anos, uma atmosfera eletrizante estimulava a invenção estética e moral e os signos das novas aspirações podiam ser vistos tanto nas manifestações de massa quanto nas paradas de sucessos. Não havia um movimento aglutinador, um “núcleo dirigente” ou um partido do qual emanassem as orientações para as experiências e aventuras que aconteciam por toda a parte. Seria risível considerar o poeta Allen Ginsberg um dirigente político; no entanto, suas palavras ecoavam nas ruas convulsionadas ou na solidão das estradas por onde os hippies cruzavam a América. Estava em curso outra revolução, que politizava outras dimensões da existência. Não é mesmo, Mr. Jones?

 

Os Beatles amavam Dylan, que amava Ginsberg, que amava desafiar a truculência da polícia entoando mantras nas violentas manifestações que cercaram a Convenção do Partido Democrata, em Chicago, no emblemático ano de 1968. O caldeirão dos embates dos grupos ligados à contracultura e à militância radical encontrava seus equivalentes nas canções, desde aquelas que sugeriam uma retirada para comunidades pacíficas no campo às conclamações de We Can Be Together, sucesso da banda californiana Jefferson Airplane que incitava ao combate nas ruas. Como aconteceria com John Lennon alguns anos depois, o Airplane foi monitorado pelo FBI. Os Panteras Negras escutavam Ballad of a Thin Man, anteriormente citada, e assediavam Jimi Hendrix em busca de dinheiro para suas campanhas. Neil Young compunha Ohio após o assassinato de quatro estudantes pela Guarda Nacional, em 4 de maio de 1970, durante uma manifestação de milhares de pessoas na Kent State University, em Ohio.

 

Daniel Epstein, em A balada de Bob Dylan – um retrato musical, descreve atitudes de descrença institucional desprovidas de motivações políticas explícitas que, no entanto, guardavam parentesco com o clima geral da época. As referências emanavam de gurus da “nova consciência” e da celebração de ídolos do mundo do rock and roll:

 

Muitos hipsters, influenciados pelo best-seller de Timothy Leary, The Psychedelic Reader, estavam fazendo experimentos com LSD e outras drogas expansoras da mente. Eles haviam seguido o conselho do psicólogo de Harvard – “turn on, tune in, drop out”. Esses jovens, fãs dos psicodélicos Jimi Hendrix e Jefferson Airplane, não estavam muito interessados em ativismo político contra a Guerra do Vietnã ou em qualquer coisa. Eles se erguiam acima e além desses conflitos mundanos num nevoeiro de haxixe. A lógica havia falhado com os Estados Unidos e agora os jovens norte-americanos a rejeitavam inadvertidamente – a lógica da guerra, da política, a lógica das leis e das instituições religiosas – em favor de uma pura e divertida alucinação, de um novo dadaísmo (Epstein, 2012: 187,188).

 

Em episódios muito noticiados na época, milhares de jovens abandonavam a casa de seus familiares sem deixar vestígios, abalando a continuidade desses laços por corroer a “célula mater” por dentro e adicionando algumas doses de desconfiança ao american way of life. Em 1967, o FBI anunciou a cifra de 90 mil fugitivos (Turner, 2009:199). “Dadaístas” afastados dos fustigamentos aos grandes poderes também encarnavam tensões, conflitos e recusas e rejeitavam a ruína moral americana. Indivíduos chapados em um nevoeiro de haxixe, ao som de Jimi Hendrix, acabavam por engrossar as fileiras daqueles que não se habilitavam a reproduzir os padrões dominantes.

 

Na Babel de contestação dos anos 60 e meados dos 70, com posições extremas e largamente contraditórias entre si, a inquietação generalizada favorecia que as mudanças individuais e de estilos de vida emergissem como temas importantes na esfera pública. O rock and roll, com sua revolução na linguagem musical e a profusão de talentos que derramavam canções e obras em ritmo avassalador, foi um terreno fértil de expressão desses anseios. Excessivamente preocupado com a revolução nos costumes e atribuindo aos artistas um poder que nunca quiseram exercer, o paranoico governo de Richard Nixon monitorava os Rolling Stones sob a rubrica da “banda mais perigosa do mundo”, como relata Keith Richards em Vida, seu livro autobiográfico.

 

No entanto, buscar vínculos mais imediatos entre músicos do mundo do rock and roll com organizações, movimentos e lideranças comprometidas com campanhas gerais ou lutas específicas pode ser frustrante. Os nexos que atestam a afinidade do rock com a vontade de mudança residem na própria produção artística e nos temas motivadores das canções que reverberaram na esfera pública. Salvo alguns exemplos notórios, essa ligação foi errática. No início dos anos 70, John Lennon aproximou-se de Abbie Hoffman e Jerry Rubin, arruaceiros esquerdistas que estavam à frente do Youth International Party na organização de protestos contra a guerra no Vietnã e empenhados, com sucesso, na libertação de militantes como John Sinclair e Angela Davis, uma brilhante intelectual negra que havia sido assistente de Herbert Marcuse.

 

O mesmo Hoffman já havia sido expulso aos tapas do palco do Festival de Woodstock por Pete Townshend, guitarrista do The Who, quando aproveitou uma brecha e iniciou sua pregação política ao público durante um intervalo da apresentação da banda. Encarnar os traços mais raivosos das revoltas dos adolescentes ingleses, como era o caso do The Who, não garantia afinidades com a militância (des)organizada. Posteriormente, Townshend, considerado o gênio na criação da ópera-rock Tommy, lamentou o incidente em várias oportunidades.

 

 

Tariq Ali, o mais destacado líder estudantil da Inglaterra na década de todas as revoltas, escreve em suas memórias O poder das barricadas – uma autobiografia dos anos 60: “Outros grupos de rock, principalmente The Doors e Jefferson Airplane, insistiam – às vezes aos berros – que rock era igual a revolução” (Ali, 2008:350). Mesmo que o destino das palavras não se realizasse em atos efetivos dos ouvintes apaixonados pelas canções de seus ídolos musicais, o efeito público era estrondoso. Figurar nas paradas de sucessos não era um mero detalhe na expressão das inquietações, nem as apresentações ao vivo para milhares de pessoas, que por vezes terminavam em confronto da garotada com a polícia. Jim Morrison, poeta, cantor e líder do The Doors, escancarava em entrevistas: “Estou interessado em tudo relacionado à revolta, ao caos, à desordem, especialmente um tipo de atividade que não possui significado” (Wenner e Levy, 2008:33).

 

Portanto, a linha direta entre a música e o ativismo não é o elemento fundamental a ser destacado. O que de melhor foi produzido no rock and roll fez parte da ampliação de limites que caracterizou o ambiente explosivo da década. Antecedentes memoráveis, como as mexidas dos quadris de Elvis Presley, colocaram em xeque a moral puritana da América. Mais uma vez Keith Richards, em Vida, dá um depoimento que aponta nessa direção:

 

Talvez tenha acontecido com Frank Sinatra, com Elvis Presley. Mas não acho que alguma vez tenha chegado aos extremos que se viram na época dos Beatles e dos Stones, pelo menos na Inglaterra. Era como se alguém tivesse enfiado alguma coisa na tomada, em algum lugar. As mocinhas dos anos 50 todas sendo criadas muito bem comportadinhas, muito caseiras, e então, em algum lugar, teve um momento em que elas apenas resolveram que iam se libertar. Apareceu a oportunidade para fazerem isso e quem ia conseguir segurá-las? Tudo pingava de tesão, embora elas não soubessem o que fazer com ele. Mas, de repente, você aparece na outra ponta. É um desvario. E quando a coisa se solta tem uma força incrível. Num rio cheio de piranhas acho que você tem mais chance de escapar. Elas eram além do que queriam ser. Tinham se perdido. Aquelas garotas iam aos shows e saíam sangrando, cortadas, com as roupas rasgadas, as calcinhas molhadas, e a gente já sabia que isso ia acontecer todas as noites. Esse era o show. Honestamente, podia ter rolado com qualquer um. Elas pouco se lixavam que eu estivesse tentando ser um músico de blues. (Richards, 2010:167)

 

A partir de certo momento, os arrebatamentos se ampliaram e tomaram direções as mais variadas. A idolatria se misturava à vontade de se perder, como acentua Keith Richards. Perder-se nas estradas, na cama, nos estímulos sensoriais proporcionados pelas drogas, nas formas não convencionais de se agrupar e de viver, na recusa de seguir os padrões familiares e quiçá seguir atrás dos baderneiros nas ruas em protesto contra alguma coisa que iria se compreender melhor depois. Em She’s leaving home, dos Beatles, a moça foge com o rapaz da concessionária de veículos e quer apenas se divertir. Melanie Coe, a inspiradora da canção a partir de uma notícia de jornal lida por Paul McCartney, era arrastada de volta para casa pelos pais que vasculhavam as boates da região onde moravam. Melanie Coe adorava dançar e queria fazer teatro, intenções evidentemente tolhidas por eles, e um dia mandou-se com um crupiê que conheceu em um clube (Turner, 2009:201).

 

Em 1967, os Rolling Stones estiveram na Polônia e a maioria dos ingressos de seu show foi reservada aos apaniguados da nomenklatura, a burocracia dominante. Admiradores e seguidores da banda ficaram de fora, o que gerou revolta nas ruas e uma violenta intervenção da polícia com jatos d’água. No retorno a Londres, Mick Jagger anunciou premonitoriamente: “Lá o perigo está no ar. As adolescentes não gritam mais por causa da música, há tempos que elas querem outra coisa. Vejo como uma grande confusão está se armando” (Winkler, 2010:93).

 

Foi um tempo também em que Jimi Hendrix e o cantor Otis Redding, falecido precocemente em um acidente de avião com toda a sua banda, eram desejados abertamente pelas mulheres brancas de suas plateias. O produtor musical Bill Graham, figura polêmica que conquistou a admiração e o respeito de muitos pop stars, entre eles Keith Richards, Mick Jagger e Pete Townshend, completa: “Depois de Otis Redding, ele [Jimi Hendrix] foi o primeiro negro na história dos EUA a fazer com que a massa de mulheres brancas na plateia não se importasse com sua cor e desejasse seu corpo. Todas elas queriam transar com ele. Depois de Otis, ele foi o primeiro símbolo sexual negro num país de brancos” (Graham, 2008:221). Em torno da música, as pessoas afirmavam novas órbitas do desejo e modos de vida alternativos. O rock nunca foi um terreno de criação artística com pendores pedagógicos, mas destacou-se como um campo de absorção da ultrapassagem sucessiva de normas e convenções sociais.

 

 

Opoder de atração do rock and roll era inquestionável. O caldo das motivações ideológicas as mais extravagantes era derramado nas salas de concerto, que acabavam por se tornar locais de agregação dos mais diversos movimentos. Em San Francisco, o Fillmore West, de propriedade de Bill Graham, apresentava uma Janis Joplin desconhecida no início de carreira, além de bandas que encarnavam o comportamento radical, como Jefferson Airplane e Grateful Dead.

O Fillmore East, em Nova York, também de propriedade de Bill Graham, acolheu nas noites de quarta-feira todo tipo de gente, que se espalhava pelo recinto com seus mimeógrafos e comícios, passava documentários sobre os trabalhadores em colheitas de uva e se alongava em diálogos e discussões políticas. Um desses grupos era o Motherfuckers, uma gangue de rua com inspirações políticas, que evidentemente considerava Graham um porco capitalista e pleiteava que toda música deveria ser oferecida de graça. Em outra oportunidade, o MC5, uma banda radical de Chicago cujo principal produtor era John Sinclair, fundador do partido White Panthers, queimou a bandeira americana no palco e era anunciada como “a banda revolucionária do povo” (Graham, 2008: 263-266). Bill Graham correu riscos e usou de muita firmeza para convencer os ocupantes das noites de quarta-feira de que o local deveria ser esvaziado e voltar às suas atividades musicais. Algum tempo depois, um Graham exausto fechou sucessivamente o Fillmore East e o Fillmore West, em San Francisco.

 

Paul Simon, da dupla Simon & Garfunkel, sentia-se desgraçadamente culpado por vender milhões de discos e contribuir para fazer girar a roda do capitalismo, mas este tipo de dilema não foi o mais característico daquela geração de artistas. O rock embalava os sonhos de mudanças sociais e existenciais independentemente da coloração política ou motivação ideológica. Normas eram desafiadas por todo canto e Eric Hobsbawm definiu toda aquela movimentação como a revolução cultural da década de 60, marcada pela “destruição dos padrões tradicionais de relacionamento entre pessoas e comportamento dentro da sociedade existente” (Hobsbawm, 2002: 279, grifos dele). Hobsbawm quis ressaltar as profundas mudanças nos modos e estilos de vida, com repercussões sociais de grande extensão, ainda que suas feições não tenham coincidido com aquelas usualmente associadas ao uso da palavra “revolução”. A invenção de novas liberdades, para além da linguagem panfletária, podia ser escutada nas canções que tocavam no rádio. As paradas de sucessos também fizeram soar na esfera pública a politização de outras dimensões da existência social.

 

O autor professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Direito da UFF.

lcfridman@bighost.com.br

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS

 

ALI, Tariq. 2008 — O poder das barricadas – uma autobiografia dos anos 60, São Paulo, Boitempo.

EPSTEIN, Daniel Mark. 2012 – A balada de Bob Dylan – Um retrato musical, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor.

GILMORE, Mikal. 2010 – Ponto final – Crônicas sobre os anos 1960 e suas desilusões, São Paulo, Companhia das Letras.

GRAHAM, Bill e GREENFIELD, Robert. 2008 – Bill Graham apresenta: minha vida dentro e fora do rock, São Paulo, Editora Barracuda.

HOBSBAWM, Eric J. 2002 – Tempos interessantes – Uma vida no século XX, São Paulo, Companhia das Letras.

MARCUS, Greil. 2010 – Like a rolling stone – Bob Dylan na encruzilhada, São Paulo, Companhia das Letras.

RICHARDS, Keith. 2010 – Vida, São Paulo, Globo.

TURNER, Steve. 2009 – The Beatles – A história por trás de todas as canções, São Paulo, Cosac Naify.

WENNER, Jann S. e LEVY, Joe. 2008 – As melhores entrevistas da revista Rolling Stone, São Paulo, Larousse do Brasil.

WINKLER, Willi. 2010 – Mick Jagger e os Rolling Stones, São Paulo, Larousse do Brasil.

 

 

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