Seria o tempo uma espécie de deus?

Seria o tempo uma espécie de deus?

Gustavo Maia Gomes

Que é, pois, o tempo? Se ninguém me pergunta, sei o que é; se quiser defini-lo a alguém que me pergunte, já não sei.

Santo Agostinho (354-430)

Os deuses estão ou estiveram presentes – e, nesse sentido, são ou foram reais – nas crenças compartilhadas pelos integrantes de todas as sociedades humanas atuais ou passadas. Apesar de nunca terem demonstrado a própria existência como entidades materiais ou sonoras perceptíveis (exceto, talvez, Rá, o deus-sol egípcio; Tupã, o deus tupi-guarani do trovão; e poucos outros), eles são onipresentes. Mas, não só eles. Em sua totalidade, os grupos humanos estáveis também acreditam no tempo e naquilo que julgam ser suas qualidades essenciais. Compartilhando com os mitos religiosos essa aceitação geral, seria o tempo uma ilusão criada e mantida em nossas cabeças somente porque nos ajuda a organizar a vida? Por ser útil, enfim.

Neste ensaio, ou tubo de ensaios, não irei tratar apenas disso. Outras perguntas pululam, como diria um bom dicionário. O que é o tempo? Quais são as suas características fundamentais, tais como reveladas, por exemplo, pelo vocabulário da língua portuguesa? De que tempo estamos falando? Há vários? Ele ou eles têm uma história? Será a história do tempo percebido, medido e administrado pelas pessoas humanas, fundamentalmente, uma história econômica? Teriam os homens e as mulheres descoberto o tempo ainda que não dispusessem de informações sobre as auroras e os crepúsculos diários? Se jamais tivessem presenciado o desenrolar das estações durante um ano? A sensação de fome que vem quando não há comida e que desaparece após uma boa refeição? O nascimento, crescimento, envelhecimento e morte dos animais?

Mais: o que é o tempo, tal como percebido ou explicado pela Física, as religiões, a literatura? Um supercomputador dotado de inteligência artificial, ao qual fossem negadas quaisquer informações sobre o tempo, seria mesmo assim capaz de descobri-lo? Ou inventá-lo? As viagens ao futuro, que a Física da Relatividade admite serem possíveis, e ao passado (que podemos imaginar, pois a imaginação não admite freios) tornar-se-ão tão baratas quanto um passeio de metrô? Que consequências terá isso? Como o tempo – se ele existir, afinal – irá se vingar de tanta gente que vive a dar palpites sobre ele? Ao me fazer pela primeira vez essas indagações – reconheço que aquela sobre a objetividade ou subjetividade do tempo já foi repetida um milhão de vezes – eu não sabia se lhes daria respostas afirmativas, negativas ou indeterminadas. Na verdade, continuo sem saber, mesmo agora.

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1.   A língua e o tempo

Para a pergunta “o que é o tempo?” não tenho resposta melhor que a de Santo Agostinho, citada na epígrafe. Mas, me consolo: se a questão fosse “o que é o espaço”, eu também não a saberia responder satisfatoriamente. Acredito que tampouco ele. A razão mais profunda desse insucesso deve ser que tempo e espaço são, na nossa cabeça e, provavelmente, também na realidade externa à subjetividade humana, noções ou realidades primordiais. (Evito usar aqui a palavra “absolutas”, que também poderia ser aplicável, mas está contaminada por significações distintas das que atribuo ao termo “primordiais”.)

Eis o que quero dizer: seres pensantes criaram a ideia de tempo e a de espaço após correlacionarem várias percepções particulares com alguma coisa real, mas ainda não conceitual, que lhes era desconhecida. No começo do processo, eles não têm uma percepção do que seja essa “alguma coisa”. Mas, terminarão tendo, após inventar uma representação mental para ela. Considere esta sequência de eventos: numa excursão de caça, ao tentar abater um veado, percebo que falhei em acertá-lo porque, quando a flecha chegou ao lugar onde a presa potencial estava no momento em que a flecha foi disparada, ela havia se movido uns poucos metros para a direita. Foi apenas após experimentar muitos incidentes como esse que aprendi (e criei o conceito representativo dessa realidade) o que é momentoou instante.

Também aprendi, algumas caçadas depois, a diferença entre o instante no qual a flecha sai do arco e aquele em que ela chega ao local onde o animal estava. (Não está mais, pois se movimentou.) Depois disso, as caçadas ficaram mais produtivas. Ao perseguir um veado correndo, eu apontava não para sua posição inicial, mas para onde (estimativamente) ele estaria no momento em que a flecha cruzasse o seu caminho. Conhecer alguma coisa sobre o tempo ajudou-me a conseguir o alimento de que minha sobrevivência dependia. Ou seja, comecei a aprender, naqueles dias longínquos, as valiosas noções de momento, de movimento, deintervalo ou duração entre um momento e outro. Talvez, também, a de velocidade. Cada uma dessas coisas está ligada às outras e remete (mas, isso só aprenderei posteriormente) a um conceito ou realidade mais fundamental do que ela própria. Um conceito que chamarei de tempo.

Sempre que Santo Agostinho pensa em tempo, o que lhe vem à mente é algo de que as noções de momento, movimento, duração, velocidade são dependentes. Mas, ele não foi perguntado sobre “com o que se correlaciona o tempo” e sim “o que é o tempo”. Trata-se de uma pergunta traiçoeira, essa última. É impossível, ou assim me parece, encontrar definições absolutas para conceitos ou realidades a que chamo primordiais, como tempo e espaço. Nas nossas cabeças, eles se tornam noções claras por serem relacionáveis a manifestações da realidade que já compreendemos e por serem necessárias e, portanto, úteis. São úteis porque dão sentido a uma série de acontecimentos aparentados entre si. Portanto, na gênese do conhecimento, não partimos da definição de tempo para definir instante, momento, movimento, duração, velocidade e coisas tais. O caminho foi o oposto. Continua a ser o oposto, na experiência muito mais “ajudada” (pela pré-existência dos conceitos relevantes na cultura ensinada em casa e nas escolas) das crianças do século XXI.

Por tudo isso, acho mais produtivo cuidar de outra indagação, parecida, mas não igual à que atormentou Santo Agostinho: quais são as características fundamentais do tempo? Uma maneira de responder consiste em examinar as palavras que possuem conotações com o conceito ou ideia de tempo. Afinal, passados tantos séculos, posso supor que as pessoas comuns, aquelas que constroem a língua, já devem ter captado as mais importantes qualidades dessa coisa misteriosa a respeito da qual o filósofo religioso nascido no quarto século da Era Cristã sabe tudo e sabe nada.

Facilmente, consegui reunir pouco mais de uma centena de palavras com tal característica, ou seja, a de envolverem a ideia de tempo em suas definições. A relação não é exaustiva, mas serve aos meus propósitos. Simplesmente reuni-las, entretanto, não esgota o assunto. Tão importante quanto identificar os vocábulos relacionados com o conceito e a ideia popular de tempo é distribuí-los por um número preferencialmente reduzido de categorias, de acordo com as respectivas afinidades. Podemos admitir que os nomes desses grupos remetem às principais características do tempo, tais como percebidas pelas pessoas que falam português. (Não deve ser diferente em outros idiomas.) Embora haja casos dúbios – palavras com classificações incertas ou merecedoras de estar em mais de uma categoria –, as cem palavras reunidas puderam ser distribuídas em cinco grupos: Posição, Ciclo, Duração, Mudança e Movimento.

O nome por extenso da primeira categoria é “Posição de um evento ou de um estado na linha do tempo”. Eu ainda não informei o leitor (mas, sim, deixei subentendida minha opinião a respeito) se o tempo existe objetiva ou apenas subjetivamente, nem se há essa tal linha do tempo, mas o significado intuitivo de palavras como agora, antes, depois, presente, passado, futuro, sábado, domingo e outras semelhantes é suficientemente claro para tornar dispensáveis maiores discussões a respeito delas. Portanto, considerarei posição como sendo uma das ideias associadas ao conceito de tempo. Ou uma das dimensões essenciais desse último, na percepção das pessoas comuns.

Ciclo remete ao nascer-renascer do sol no horizonte, às mudanças das marés alta-baixa acontecendo duas vezes por dia, à alternância regular e sempre repetida das fases da lua, a sucessão de estações durante um ano. O grupo inclui, entre outras palavras, período, oscilação, órbita, pêndulo, turno. Essa característica do tempo pode ter sido percebida pelas pessoas humanas até mesmo antes daquela que chamei Posição. De fato, em muitas culturas do passado, a representação do tempo como um ciclo foi mais forte do que a ideia hoje dominante de movimento unidirecional, como o de uma flecha disparada.

A terceira categoria é Duração. Nela estão incluídas, entre outras, as palavras enquanto, intervalo, lapso, longevidade, minuto. Consta que Albert Einstein declarou, uma vez: “tempo é o que os relógios marcam”. Se isso fosse tudo o que o suíço-alemão tinha a dizer sobre o assunto (claramente, não era), então ele teria reduzido o conceito e a realidade do tempo à duração dos eventos. Seria uma simplificação exagerada. Pois, embora medir o tempo seja essencial, cronometrar uma partida de futebol, ou seja, medir sua duração, não exaure as relações entre o tempo e o jogo em que os brasileiros costumavam ser os melhores do mundo. De todo modo, a história do tempo na acepção que lhe dou neste tubo de ensaios é, fundamentalmente, uma história da duraçãodo tempo, e das medições a ela relativas.

“Existe tempo quando nada está mudando?”, pergunta a “Enciclopédia de Filosofia da Internet”. Vou deixar essa questão em suspenso, para enfatizar que mudança é, claramente, um conceito estreitamente associado a tempo, à passagem do tempo. Crescimento, evolução, desenvolvimento querem dizer mudança – e exigem uma duração para acontecer. Até mesmo “continuidade” remete a mudança – nem que seja porque a nega. Tem duração, também. Velocidade implica mudança (por exemplo: quão rapidamente o Brasil se urbanizou?), ou apenas movimento: um ciclista percorreu seu trajeto à velocidade média 25 km/hora. Viajar tanto pode significar um deslocamento físico entre duas cidades – um mero movimento, portanto (a não ser pelo fato de que a pessoa chega cansada ao seu destino, não sendo mais a mesma que era quando saiu de casa) – quanto a mudança de estado de espírito de um esquizofrênico, que então passa a se comportar de maneira qualitativamente diferente da que lhe era comum.

A troca de posições no espaço é, também, uma mudança, mas o “Movimento” merece ser referido como uma dimensão do tempo muito importante na percepção das pessoas comuns. Existe o tempo, mesmo quando nada está se movendo? Isaac Newton (1643-1727) dizia que sim; a Física da Relatividade, que não. Em todo caso, caminhar, chegar, correr, partir, vir, voltar são verbos de movimento que só se definem no tempo, embora isso não signifique que eles sejam essenciais para que o tempo exista. Os cientistas contemporâneos acreditam, em sua maioria, ter havido um momento inicial do universo em que toda a massa estava reunida num só corpo (se é que posso falar assim). Não havia, portanto, movimento. Nem tempo. Mas, então, tudo aquilo explodiu, dando origem às galáxias, às estrelas, aos planetas – e ao tempo.

2.   Os tempos vários

De que tempo estamos falando? Há vários? Ele ou eles têm uma história? Será a história do tempo percebido, medido e administrado pelas pessoas humanas, fundamentalmente, uma história econômica? Fiz essas perguntas nos parágrafos iniciais do texto, naquele tal de “pululam”. Agora mostro que elas conduzem a territórios bem diferentes dos que já vislumbramos. Há tempos e tempos, sim. Até aqui, estive falando do tempo físico tal como percebido pelas pessoas humanas, mais ou menos como se elas estivessem driblando a pergunta metafísica que atormentava Santo Agostinho. Que o tempo físico existe na natureza (e pode ser medido por relógios) – não sendo, portanto, apenas uma invenção humana – é um pressuposto filosófico. Na minha opinião, não há como provar essa assertiva, mas ela me parece menos contrária à intuição e mais capaz de fundamentar uma visão geral plausível do mundo que nos cerca do que sua antítese idealista, segundo a qual a realidade é só o que está na mente humana. De todo modo, para os materialistas, a história não demonstra que o tempo (físico) existe por ser útil. Ele existe por si mesmo, independentemente das subjetividades humanas. Acredito nisso.

Mas, há outros tempos, além do físico: são o biológico, o psicológico, o histórico, o econômico, entre outros. O primeiro desses tem a ver com os ritmos e as mudanças próprios dos organismos vivos. O coração bate; as pessoas respiram; os animais nascem, crescem, envelhecem e morrem. São esses os marcadores do tempo biológico que, malgrado sua importância no contexto específico, transcorre no tempo físico e a ele se subordina. Para o médico, a notícia de que um paciente tem câncer (e há quanto tempo o tem) é tão importante quanto a informação sobre a idade da mesma pessoa. O tempo biológico pode ser cíclico – como ocorre com a respiração, as batidas cardíacas, a menstruação – ou unidirecional e irreversível. Jovens se tornam velhos, mas o oposto não acontece; os faraós todos já morreram e não há notícias de que algum deles tenha deixado as entranhas da pirâmide e ingressado no partido peronista argentino, embora ele coubesse bem ali.

O tempo psicológico, por seu turno, é principalmente o da duração subjetiva dos eventos. Ele parece fluir mais lentamente para os jovens do que para os velhos; cinco minutos de tempo físico transcorridos num congestionamento de trânsito podem ser sentidos como se fossem horas pelos motoristas e seus acompanhantes de qualquer idade. A duração subjetivamente experimentada por homens e mulheres em episódios semelhantes da vida é, portanto, diferente de acordo com o tipo de episódios e também conforme as pessoas. Mas, não apenas a duração. Também a posição de um mesmo evento na linha do tempo psicológico pode ser diferente da posição na linha do tempo físico. No filme “Meia Noite em Paris”, de Woody Allen, o protagonista (um americano fazendo turismo na França) se transporta imaginariamente do século XXI para a década de 1920 e passa a conviver a cada noite com Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Gertrude Stein, Pablo Picasso, Salvador Dali, Luís Bunüel e outros artistas que ali viviam nessa época. Mais uma vez, entretanto, a primazia do tempo físico se afirmou também nesse enredo ficcional: quando chegou a hora de pagar a conta do hotel, o ano escrito no recibo foi 2011.

Os tempos histórico e econômico, sob muitos aspectos, são um só, pois o tempo entrou na História, principalmente, pela sua importância para a economia. Não apenas o conceito de tempo tem possíveis raízes econômicas, como sugeri linhas acima, ao relacionar sua gênese à atividade do caçador primitivo. Também ler o tempo, medir sua duração, localizar o momento presente no tempo cíclico facilitava produzir os alimentos. Reconhecer as estações do ano era necessário para se saber quando migrar, acompanhando os rebanhos de caça, quando navegar, aproveitando os ventos favoráveis, quando plantar, numa economia baseada na agricultura. Isso tudo tem uma longa história. O mais antigo calendário – dentre os conhecidos, naturalmente – está gravado numa caverna de Lascaux (França). É baseado nas fases da Lua e tem idade avaliada entre 17.000 e 19.000 anos. De acordo com Leo Rogers (“A brief history of time measurement”), os povos pré-históricos registraram pela primeira vez as fases da Lua há cerca de 30.000 anos. Os calendários lunares são imprecisos, mas podiam ser e eram ajustados periodicamente. Eles prestaram grandes serviços à humanidade, sobretudo, na regulação da atividade agrícola.

Da mesma forma que os calendários, também os marcadores do tempo diário tinham função econômica. Na verdade, quando foram inventados no Egito em 1.500 a. C. (ou na Babilônia, cem anos antes), os relógios de sol indicavam os meses. Só depois eles passaram a dividir o dia em intervalos regulares, permitindo melhor administração do trabalho. Mas, eram instrumentos limitados, pois apenas funcionavam quando a luz do sol incidia neles diretamente. Sua posterior combinação com relógios de água (chamados clepsidras, marcavam a duração de tempo gasto na passagem de certa quantidade de água de um tanque para outro) permitiu a medição do tempo também durante a noite e em dias nublados. Outras necessidades, não diretamente econômicas, eram favorecidas pela medição do tempo. Conforme a “World History Encyclopedia”, os gregos usavam clepsidras nos tribunais atenienses para limitar a duração dos discursos. A clepsidra com que os cubanos tentavam dar um tempo máximo aos discursos de Fidel Castro continha mais água do que o Rio Amazonas.

Outros dispositivos marcadores de tempo viriam a ser inventados. Houve relógios baseados nas posições dos astros desenvolvidos na China desde o terceiro século da nossa era. Velas de iluminação com marcas horizontais uniformemente espaçadas eram acesas e funcionavam como relógios. Foram usadas para contar a hora na China a partir do século VI d.C. Segundo Leo Rogers, os relógios mecânicos substituíram os antigos relógios de água, e o primeiro relógio de corda parece ter sido inventado em 1275. No início e meados do século XIV, marcadores de tempo começaram a aparecer nas torres de várias cidades. Em tempos medievais posteriores, relógios de grande sofisticação foram construídos em locais públicos de cidades europeias. A evolução, naturalmente, se prolonga até nossos dias, com os relógios de quartzo e os atômicos.

A interdependência entre a medição do tempo e a atividade econômica ficou demonstrada em vários momentos históricos, não apenas no mundo ocidental. Por exemplo: na época das grandes navegações transoceânicas com objetivos comerciais, a partir do século XV de nossa era, saber a posição dos navios constituía necessidade imperiosa. A tarefa podia ser desmembrada em determinar a latitude (distância em relação ao equador) e a longitude (quão perto ou longe eles se achavam, por exemplo, de um determinado meridiano). Encontrar a latitude foi relativamente fácil, pois ela pode ser calculada, com o auxílio de instrumentos, observando as altitudes máximas do Sol ou de outras estrelas. Muito mais difícil foi resolver o problema da longitude. Em tese, conhecida a latitude, se houvesse uma estimativa da velocidade média alcançada (é dito que os marinheiros experientes seriam capazes de fazer isso) pelo navio naquela viagem, a distância percorrida desde Lisboa (por exemplo) até o ponto em que ele se achava agora poderia ser calculada com o auxílio de um bom relógio e alguma trigonometria. Na prática, foi isso mesmo que aconteceu. O problema de determinar a longitude – cuja solução se tornara imprescindível por razões econômicas – foi, portanto, transformado no problema de medir um intervalo de tempo. E resolvido assim, a princípio, com pouquíssima precisão, depois, mais satisfatoriamente.

No século XIX, sobretudo, a coordenação dos horários dos trens na Inglaterra e nos Estados Unidos se tornou uma necessidade econômica de primeira grandeza, dada a importância das ferrovias naqueles dois países. O problema surgiu porque, mesmo na territorialmente diminuta Inglaterra (assim como no Reino Unido) as cidades tinham seu próprio tempo, com variações entre eles que podiam passar dos trinta minutos. Como havia empresas ferroviárias com sede em diferentes locais, cada uma delas obedecia no seu horário de viagens o tempo da cidade sede. É fácil imaginar a confusão que isso causava, à medida que a malha ferroviária ia se adensando e a quantidade de empresas de trens crescia. Dois trens cruzavam em, por exemplo, Manchester no mesmo momento, mas, num deles, os relógios marcavam doze horas; no outro, doze e trinta. O risco de colisões era enorme; a perda de eficiência econômica do sistema de transportes, facilmente imaginável.

Somente em 1840 esse problema começou a ser resolvido, com a uniformização dos horários de todas as cidades inglesas pela Great Western Railway. Mais tarde, as outras empresas e cidades concordaram em usar o tempo médio de Greenwich. Nos Estados Unidos, com as enormes distâncias cobertas pelos trens, o mesmo problema aconteceu e também foi, afinal, resolvido. Nesse caso, com a implantação dos quatro fusos horários. Há um tempo econômico, sim, e ele precisa ser administrado.

3.   A caverna autossuficiente

Perguntei, lá em cima: teriam os homens e as mulheres descoberto o tempo ainda que não dispusessem de informações sobre as auroras e os crepúsculos diários? Se jamais tivessem presenciado o desenrolar das estações do ano? A sensação de fome que vem quando não há comida e que desaparece após uma boa refeição? O nascimento, crescimento, envelhecimento e morte dos animais? Acho que não descobririam. Em todo caso, faz pouco sentido imaginar seres humanos que não sentem fome, nem nascem, nem crescem, nem morrem. Mas, talvez pudéssemos imaginar, sem agredir o bom senso, uma situação limite na qual as pessoas fossem privadas de presenciar ou sentir grande partedesses estímulos. Indagaríamos, em seguida, que noção de tempo elas poderiam vir a desenvolver.

É um experimento hipotético, que eu situo na pré-História. Um grupo de pessoas nasceu e vive – sempre viveu – em uma caverna onde não há luz natural. Ela é suficientemente profunda para que as variações de temperatura ao longo de um ano ocorridas no mundo acima de suas cabeças lhes sejam imperceptíveis. E, também, para que nenhuma outra pessoa ou animal vindos de fora os visitem jamais. Esses homens e mulheres se alimentam exclusivamente do molusco existente em um pequeno lago situado dentro da própria caverna. Eles jamais pensam em sair de onde se encontram e se aventurar lá fora, porque as suas crenças religiosas lhes ensinam que a simples tentativa de o fazer os exterminaria. Herdaram dos ancestrais dois pontos de fogo alimentados por gases naturais (disso eles não sabem, entretanto) que lhes são úteis para iluminar precariamente o pequeno mundo em que vivem. Esses fogos, como seria de esperar, foram promovidos a deuses desde tempos imemoriais.

Dadas as hipóteses feitas, muitos sinais do tempo físico que os habitantes de lugares menos cavernosos recebem a cada dia foram eliminados da experiência dos homens e mulheres das trevas. Eles desconhecem o nascer e o pôr do sol, o movimento noturno das estrelas, as chuvas de verão periodicamente sendo sucedidas pelas neves do inverno. Não caçam veados que se movem a grande velocidade; seus deslocamentos dentro da caverna são tão curtos e lentos a ponto de se tornarem imperceptíveis. Movimento, para eles, pode ser uma coisa que jamais virão a descobrir e nominar. Da mesma forma que não há diferenciação entre dias e noites, também não se pode distinguir o dia de hoje do dia de amanhã, nem de qualquer outro. Se hoje é quinta-feira ou sábado, ninguém sabe ou saberá. Essas datações inexistem na caverna. Não fazem falta.

Outras pegadas do tempo, entretanto, eles experimentam e, finalmente, virão a denominar e a conceituar: o intervalo entre o antes, quando se está com fome, e o depois, quando se comeu o molusco; a alternância entre o inspirar e o expirar; entre o apetite sexual e sua satisfação; entre a ingestão da comida e a defecação respectiva. Há, também, o ciclo menstrual das mulheres. Na concepção de tempo que os habitantes das cavernas terminarão por desenvolver (é a minha expectativa que o farão, mas não posso atribuir certeza a tal hipótese), a característica de duração – duração curta, por enquanto – terá essas coisas como referências. A ideia da duração longa eles, provavelmente, também aprenderão a ter. Essa será sugerida, acima de tudo, pela demora entre o início da gravidez e o parto; entre o nascimento (passando pelo crescimento, maturidade, envelhecimento) e a morte das pessoas.

As manifestações de mudançasexperimentadas pelo povo da caverna são, dessa forma, relacionadas à vida: às necessidades imediatas da vida, como respirar; às contingências da vida, como ter um filho; ao inevitável fim das vidas individuais. O tempo que esse povo iria finalmente conhecer e incorporar à linguagem, à religião, ciência e literatura seria o biológico. Seu idioma falaria em tempo de nascer e tempo de morrer. Sua religião teria deuses ditatoriais, vingativos, insensíveis a pedidos de clemência, que sempre encontrariam motivos para matar mulheres, homens e crianças. Mesmo que isso não lhes alterasse minimamente o comportamento tirânico, esses deuses teriam de ser continuamente aplacados com orações, ofertas e sacrifícios, para que aumentassem a duração dos eventos bons e impedissem a chegada dos eventos maus.

Como vimos, seria nas suas manifestações biológicas que a mudança se imporia como uma característica essencial do tempo – possivelmente, a mais importante – dos habitantes da caverna. Mas isso vale não apenas para eles. Para nós, também, viver é passar por um roteiro de nascimento, crescimento, envelhecimento e morte. Nisso (e em tantos outros aspectos), os animais são diferentes das pedras: as pedras com que se construíram as pirâmides do Egito ainda se encontram lá, ou nas redondezas, em muitos casos, arrumadas como estavam há três mil anos; os corpos dos faraós, mesmo os mais bem embalsamados, já sofreram transformações irreversíveis e ainda estão em permanente mudança. Sua completa deterioração pode demorar, mas vai vir. Para nós humanos, assim como para todos os animais, embora esses possam ter percepções menos claras a respeito, a mudança biológica é a mais avassaladora dimensão do tempo. É por isso que negá-la, ou negar sua irrevocabilidade, tem sido uma das principais promessas das mitologias religiosas. O autor deste tubo de ensaios considera tais empreitadas pura perda de tempo.

Mas, chega de homens e mulheres habitantes de cavernas imaginárias, adoradores de fogos perpétuos que consomem parte de seu oxigênio. Eles descobririam o tempo (acredito, mas não tenho como provar), a partir de experiências sensoriais bem menos variadas do que as dos habitantes das planícies e montanhas. Com muito mais razão, portanto, nós também o descobrimos e o incorporamos a todas as manifestações de nossos intelectos. À ciência física, por exemplo. À literatura. Às mitologias religiosas. Isso iremos ver nas três seções seguintes.

4.   A Física e o tempo

O que é o tempo, tal como percebido pela Física? Começo a tratar desse assunto com uma observação. De todas as afirmativas conflitantes que tenham sido feitas sobre um aspecto do tempo que lhe diga respeito, a que vier respaldada pela Ciência será a mais provavelmente verdadeira. Imagino que essa frase pode gerar a revolta de alguns leitores. Trato de explicá-la, portanto, por dois ângulos diferentes. O primeiro esclarece o significado do fragmento de frase “um aspecto do tempo que lhe diga respeito”; o segundo tem a ver com as razões pelas quais acredito que, quando avaliadas pelo critério de verdade ou falsidade, as afirmativas sobre um mesmo tópico que recebam o respaldo da comunidade científica têm mais solidez do que aquelas formuladas pelas pessoas comuns, os filósofos, os representantes das religiões, os artistas ou os literatos.

A ressalva de que as afirmativas devem tratar de um aspecto do tempo que diga respeito à Ciência abre espaço para um esclarecimento importante. A melhor opinião sobre a beleza do tempo será provavelmente a dos poetas, não a de Einstein. O efeito de uma tempestuosa viagem sobre o equilíbrio emocional dos passageiros-turistas em um transatlântico será, com toda certeza, mais bem previsto e avaliado por um velho marinheiro do que o seria pelos cientistas construtores da bomba atômica.

Satisfeitas as condições estabelecidas no parágrafo anterior, entretanto, a melhor opinião sobre o tempo é a do cientista e não a do poeta, filósofo ou artista, pela simples razão de que, antes de fazer uma afirmativa peremptória (ao contrário de apenas formular uma hipótese) sobre alguma coisa, o cientista e seus colegas submeteram-na a uma bateria de testes cujos resultados não a desmentiram e, portanto, até que apareça uma hipótese com desempenho ainda melhor nesses mesmos experimentos ou em outros, a corroboraram. Dificilmente o poeta disporia de argumento mais forte para defender sua própria posição. Portanto, para sintetizar e prosseguir: a melhor opinião tende a ser, sempre, a do cientista falando com o respaldo de seus pares. Mas, felizmente, a Ciência não fala sobre tudo e não tem nada a dizer sobre muita coisa.

Os três parágrafos anteriores foram uma espécie de introdução. O assunto mesmo começa aqui. A “Internet Encyclopedia of Philosophy” relaciona treze proposições que estão presentes na visão das pessoas comuns (a chamada “imagem manifesta”, em oposição à “imagem científica”) a respeito do tempo. Dessas, as de números 10 a 13 são rejeitadas pela imagem científica, as 8 e 9 permanecem em discussão dentro da Ciência; e as de 1 a 7 estão em ambas as imagens, podendo-se dizer, portanto, que essa parte da imagem manifesta resistiu ao impacto da revolução que a imagem científica do tempo experimentou no século XX, particularmente, após a publicação da Relatividade Especial, de Einstein, em 1905.

São as seguintes as afirmativas em que a visão popular do tempo e a visão científica estão de acordo: (1) O mundo não foi criado há cinco minutos; (2) O tempo existe em todos os lugares; (3) Você pode parar no espaço, mas não no tempo; (4) Todo evento tem uma duração e (5) Nenhum evento deixa de ocorrer em um certo momento (ou em outro); (6) Um evento presente próximo não pode causar imediatamente um evento presente distante; (7) O passado é fixo, mas o futuro não.

As partes da visão popular, ou imagem manifesta, sobre as quais a Ciência não tem, ainda, uma posição inequívoca, sendo, portanto, territórios não claramentedelimitados, são: (8) O tempo é contínuo e não uma sequência de momentos discretos; (9) O tempo tem uma flecha, ou seja, um sentido único.

Aquelas visões da imagem manifesta que, segundo a “Internet Encyclopedia of Philosophy”, são rejeitadas pela Ciência física contemporânea são: (10) Dados dois eventos quaisquer, é possível ordená-los objetivamente, ou seja, é possível dizer que um acontece antes do outro, ou então que eles são simultâneos; (11) O tempo passa, flui como um rio e as pessoas humanas experimentam diretamente esse fluxo; (12) Há um presente que é objetivo, que todo ser vivente compartilha, e que separa o passado de cada um de seu futuro; (13) O tempo é independente da presença ou ausência de objetos físicos.

Voltando um pouco: tenho dúvidas sobre a classificação da proposição (9) como cientificamente indeterminada. Considere esta citação: “A segunda lei da termodinâmica distingue os dois tempos porque no futuro a entropia nunca é menor do que no passado. É a termodinâmica que determina a flecha do tempo do passado para o futuro”. (Leonardo Siouf dos Santos, “Um breve panorama do tempo na Física”). Ainda mais importante, porque carregada de maior autoridade entre os cientistas: “O aumento da desordem ou entropia é o que distingue o passado do futuro, dando uma direção ao tempo” (Stephen Hawking, “Uma breve história do tempo”). A entropia tem a ver com a distribuição da energia em um sistema fechado (como o universo). Por exemplo: quando dois corpos desigualmente aquecidos são colocados num mesmo ambiente, o calor sempre flui do mais quente para o mais frio, reduzindo as diferenças de temperatura entre eles e, portanto, por definição, aumentando a entropia nesse sistema. Isso dá uma direção única ao fluir do tempo. O tempo é, pois, uma flecha, até onde posso perceber o que a comunidade científica, em sua maior parte, pensa.

Até 1905, quando foi publicado o artigo sobre a Relatividade Especial, a visão que os físicos tinham do tempo era a mesma de Isaac Newton, e essa, assim me parece, não conflitava com nenhum dos treze pontos da imagem manifesta listados acima. Desde aquele ano, entretanto, houve uma revolução. Especialmente contraintuitivas são as ideias lançadas por Einstein, da dilatação do tempo, e, associada a essa, da impossibilidade de ordenar cronologicamente ou definir a simultaneidade de dois eventos se eles forem observados em sistemas de referência diferentes.

Três citações podem ajudar-nos a entender esses pontos. A primeira: “de acordo com a teoria da relatividade restrita, o tempo flui mais lentamente com o aumento da velocidade. Esse fenômeno é denominado dilatação do tempo. Por exemplo, um corpo com 87% da velocidade da luz, algo em torno de 260.819.438 m/s, dobra seu fluxo temporal (Leonardo Siouf dos Santos, idem). Ou seja, o tempo passa duas vezes mais lentamente na nave espacial do que na Terra.

As implicações do atual conceito científico de tempo, que inclui a possibilidade de sua dilatação, são notavelmente contrárias ao senso comum. Por exemplo: suponha que alguém equipado com um relógio em perfeito funcionamento embarca numa nave espacial em Alcântara, Maranhão, a zero hora do dia 1º de janeiro de 2023, e viaja pelo espaço durante um ano (segundo a sua própria medição do tempo) à velocidade de 260,8 mil quilômetros por segundo. Ao desembarcar de volta à Terra, à meia noite de 31 de dezembro de 2023 (no seu calendário), ele constatará que aqui transcorreram dois anos, não um. A data de seu desembarque na Terra, pelo calendário dos que aqui permaneceram, é 31 de dezembro de 2024. Ao chegar, o viajante reassume o tempo da Terra e, portanto, conviverá dali em diante com seu irmão gêmeo, que passou a ser um ano mais velho do que ele. O viajante teria feito, dessa maneira, uma viagem ao futuro. Em tese, ele poderia ir a qualquer futuro – cem mil anos à frente, por exemplo – bastando-lhe, para tanto, aumentar no grau necessário a velocidade de seu veículo espacial. É verdade que, com o atual preço da gasolina, isso iria lhe custar uma fortuna – se, de fato, fosse possível. Mas agora já estou contrabandeando para o tubo de ensaios preocupações minhas que não têm nada a ver com o assunto.

A segunda característica contraintuitiva da noção científica contemporânea do tempo, agora amparada na Teoria da Relatividade Geral, é esta: “as massas dos corpos geram campos gravitacionais. Quanto maior a massa, maior o campo gravitacional. Quanto maior o campo gravitacional, maior a dilatação do tempo. Então, quanto maior a massa, maior a dilatação do tempo” (Leonardo Siouf dos Santos, idem). Em outras palavras, o tempo passa mais devagar nas proximidades do enorme planeta Júpiter do que nos arredores da nossa pequenina Terra. Se escolhermos um corpo celestial adequado, de massa gigantesca, como um buraco negro, por exemplo, será verdadeiro dizer que trezentos anos na Terra (de acordo com a nossa contagem de tempo) duram tanto quanto (de acordo com a contagem de tempo deles lá) um segundo naquele mundo distante. Jamais teríamos aprendido isso apenas caçando veados.

Por fim, “a teoria da relatividade implica que a simultaneidade é relativa a um sistema de eixos [frame of axes]. Se um sistema de eixos está se movendo em relação a outro, então os eventos que são simultâneos em relação ao primeiro não são simultâneos em relação ao segundo e vice-versa” (Encyclopedia Britannica). É a desinvenção do agora, que tanto serviços nos prestou e ainda presta. Depois disso, como irei recitar Drummond? “E agora, José? / A festa acabou, / a luz apagou, / o povo sumiu, / a noite esfriou, / e agora, José? / e agora, você?” Não admira que o gerador de toda essa confusão tenha dito que a diferença entre passado, presente e futuro é apenas uma persistente ilusão.

5.   A literatura e o tempo

O que é o tempo, tal como percebido pela literatura? Não sei, nem ficaremos sabendo nas quatro páginas desta seção. Mas, acompanhar uma conversa de literatos famosos a respeito do assunto – ainda mais com a participação de um convidado tão incomum –, mesmo que não nos ensine tudo, será sempre interessante. Foi o que fiz, protegido pelo anonimato, escondido atrás de um móvel, numa tarde-noite inesquecível.

Das paredes, saía a voz de Nana Caymmi: “Batidas na porta da frente / É o tempo”. Pois, então, naquela tarde, batidas outras que não as de Aldir Blanc e Cristóvão Bastos, autores da canção, realmente soaram na porta da frente. Era o tempo. Alguém o fez entrar e o introduziu à sala ampla de uma casa, talvez, carioca, talvez, localizada em lugar nenhum. Não fazia uma visita surpresa. Muita gente o esperava. Poetas, romancistas, sociólogos, compositores, cineastas. Brasileiros, portugueses, europeus, americanos, latino-americanos. Quase todos já tinham morrido, mas não se lembravam de tão infausto acontecimento e, para ver o tempo, arranjaram tempo. E assim, esses homens e mulheres amantes e praticantes da literatura emergiram dos incógnitos onde se encontravam e vieram conhecer quem os havia visto nascer, crescer, virar adultos, escrever suas obras – em alguns casos, obras-primas –, ficar velhos e, finalmente, morrer.

Pouco antes daquele momento, Nélida Piñon quis demonstrar familiaridade com o convidado de honra: – “O tempo me espreita, ele mora ao lado. Como vizinho, concede-me dias para eu gastar a gosto. Uma magnanimidade a qual retribuo consumindo a vida que me resta.” Ou que lhe restava, quando escreveu o que dizia agora. Hoje, já é menos. A música prosseguia: “Há folhas no meu coração / É o tempo / Recordo um amor que perdi / Ele ri / Diz que somos iguais / Se eu notei / Pois não sabe ficar / E eu também não sei”.

“Eu sou um sensual e um místico”, falou Gilberto Freyre, como quem quisesse ao tempo se apresentar antes dos outros. Disse mais: “Eu sou um indivíduo muito voltado para o passado, muito interessado no presente e muito preocupado com o futuro”. – “Com igual intensidade?” perguntou o tempo. Gilberto prosseguiu: – “Eu diria que sim. Não sei qual dessas preocupações é maior em mim. Mas todas elas como que coexistem e até me levaram a conceber uma ideia de tempo (estou certo de que o senhor a aprovará), porventura nova: a do tempo tríbio”. Essa palavra não existe nos dicionários. Freyre viu-se obrigado a explicá-la: “o tempo nunca é só passado, nem só presente, nem só futuro, mas os três simultaneamente. Vivo nesses três tempos simultaneamente”.

Foi uma frase que soou familiar a T. S. Elliot. Ele, então, repetiu o que havia escrito em um soneto: – “O tempo presente e o tempo passado estão, ambos, talvez, presentes no tempo futuro e o tempo futuro contido no tempo passado. Se todo o tempo está eternamente presente, ele é irresgatável. As palavras se movem, a música se move somente no tempo. Porém, aquilo que está vivo necessariamente morrerá. As palavras, depois de ditas, caem no silêncio”. Não sei se alguém na sala entendeu aquilo (eu entendi nada), certo é que a conversa prosseguiu sem interrupção.

Tudo bem, tudo bem, mas havia um problema à vista. O clima amistoso com que Freyre e Elliot saudaram a chegada do tempo logo deu mostras de que não perduraria muito. Pois um crítico literário pouco conhecido tomou a palavra em seguida e disse: – “Shakespeare muitas vezes lhe personifica, Senhor Tempo, nos sonetos dramáticos dele, como o grande vilão. Um tirano sangrento, devorador e veloz”. – “Isso é injusto”, defendeu-se o tempo. “As coisas não acontecem por minha vontade. O envelhecimento e a morte existem por causa da biologia. Eu apenas os vejo acontecer e registro isso nos meus cadernos de notas. Sou um espectador, acreditem. Das coisas ruins e das coisas boas”.

Vinícius de Moraes ouviu com atenção. De onde estava, ergueu o copo de uísque como quem propõe um brinde, aprovou a defesa que o tempo fizera de si mesmo e disse, para todos ouvirem: – “Alguns de vocês lembram de meu Soneto da Fidelidade. É antigo, claro, como antigos somos todos nós, a começar pelo próprio tempo. Mas, lá eu já dizia: E assim, quando mais tarde me procure / Quem sabe a morte, angústia de quem vive / Quem sabe a solidão, fim de quem ama / Eu possa me dizer do amor (que tive) / Que não seja imortal, posto que é chama / Mas que seja infinito enquanto dure”. Todos os brasileiros se lembravam daqueles versos. Mas os puristas implicavam com eles, pelo uso não convencional da expressão “posto que”.

Machado de Assis, por exemplo, desaprovava o emprego heterodoxo da expressão que, na gramática, significa “apesar de que”, ao contrário do que Vinícius pensou ter dito. Mas, naquele momento, o velho Machado, conhecido por sua elegância verbal, silenciou sobre isso. Preferiu mudar o assunto: – “Peço licença para discordar, Senhor Tempo, suas escusas não me convenceram”. O tempo pareceu chocado, mas o criador de Capitu prosseguiu. – “Acabo de perder minha amada Carolina, aos pés de cujo leito derradeiro em que ela descansou de uma longa vida depus meu coração do companheiro. Levei-lhe flores, restos arrancados da terra que nos viu passar unidos e naquele momento nos deixava mortos e separados. Como desculpá-lo, tempo, por essa infelicidade?”

– “Chega de falar em morte, em medo de morrer”, protestou o tempo, percebendo o quanto aquela conversa arruinava sua reputação. “Também há o tempo alegre, não é, Vinícius?” O poetinha respondeu cantando: – “Feliz o tempo que passou, passou / Tempo tão cheio de recordações / Tantas canções ele deixou, deixou / Trazendo paz a tantos corações”. Verdade que os versos falavam de um tempo passado. Ele se sentiu, portanto, impelido a prosseguir: “E quando um dia esse tempo voltar / Eu nem quero pensar / No que vai ser / Até o sol raiar…”. Muita gente se lembrou dos cantores Elis Regina e Jair Rodrigues, que bem podiam estar ali. O tempo dela, todos sabemos, não terminou bem. – “Por favor, mais uma dose”, pediu Vinícius. Não se faz samba sem acompanhamento. Ouvindo aquilo, o tempo se tranquilizou. Ia continuar dizendo que há tempos para tudo, até mesmo para se viver momentos descontraídos, mas não conseguiu concluir a frase.

Foi interrompido por Carlos Pena Filho. Ele queria enaltecer uma dessas ocasiões. Fez isso recitando seus versos famosos. – “Nas mesas do Bar Savoy / o refrão tem sido assim: / São trinta copos de chope / são trinta homens sentados / trezentos desejos presos / trinta mil sonhos frustrados”. Mas, quase não houve tempo para mais alguém recordar aqueles tempos felizes da boemia recifense (Que década, a de sessenta, hein, tempo? Hein, Aldo Paes Barreto?), pois Augusto dos Anjos, carregando sua imensa, permanente e insuperável tristeza, fez um gesto para dizer que nem só de tomar chopes vivemos nós. Olhando nos olhos da mulher que sempre fora sua grande paixão, mas que o desprezava, ele declamou: – “Vês! Ninguém assistiu ao formidável / Enterro de tua última quimera / Somente a Ingratidão, esta pantera / Foi tua companheira inseparável!” E prosseguiu, queria recitar o soneto inteiro: “Toma um fósforo. Acende teu cigarro! / O beijo, amiga, é a véspera do escarro / A mão que afaga é a mesma que apedreja”. Quando chegou a essa parte, a velha senhora, que havia sido bela antes de o tempo lhe corroer a pele, deixou-o falando sozinho. Não pela primeira vez na vida.

Enquanto os olhares acompanhavam os passos da mulher cruzando a sala, Augusto dos Anjos continuou a declamar, em voz, agora, mais alta: “Se alguém causa inda pena a tua chaga / Apedreja essa mão vil que te afaga / Escarra nessa boca que te beija!” Franz Kafka notou o contraste entre os dois homens: o que se chamava Pena era alegre e descontraído; o que tinha Anjos no nome, melancólico e vingativo. (“Tristeza, não tem fim. Felicidade, sim”, cantou Vinícius, baixinho) – “Há, também, o tempo do logro”, interveio Luís de Camões. “Eu próprio o cantei: Sete anos de pastor Jacob servia / Labão, pai de Raquel, serrana bela / Mas não servia ao pai, servia a ela / E a ela só por prêmio pretendia / Os dias, na esperança de um só dia / Passava, contentando-se com vê-la / Porém o pai, usando de cautela / Em lugar de Raquel lhe dava Lia / Vendo o triste pastor que com enganos / Lhe fora assim negada a sua pastora / Como se a não tivera merecida / Começa a servir outros sete anos / Dizendo: – Mais servira, se não fora / Para tão longo amor tão curta a vida!”

Pouca gente se ligava naquilo (música de fundo é sempre irrelevante), mas da vitrola ainda saía a mesma canção. “E gira em volta de mim / Sussurra que apaga os caminhos / Que amores terminam no escuro / Sozinhos / Respondo que ele aprisiona / Eu liberto / Que ele adormece as paixões / Eu desperto”. O tempo, no seu canto da sala, ouvia Nana Caymmi inconformado. “Essas pessoas nunca irão me entender”, consolou-se. Mal percebeu que, entre os convidados, a discussão voltava a esquentar. Walt Whitman dizia: “À medida que o tempo se aproxima, sombrio, uma nuvem / Um pavor além, de não sei o quê, me escurece”.

No seu canto, onde mal se fazia notar, Fernando Pessoa desta vez, estranhamente, falando em nome dele mesmo e não no de um dos seus cento e vinte e sete heterônimos (a conta foi feita por José Paulo Cavalcanti Filho) se perguntava, com a timidez de sempre: “Não haverá um cansaço / Das coisas /De todas as coisas / Como das pernas ou de um braço?” Luís de Camões, retomando a palavra, fez reflexões langorosas: “O tempo acaba o ano, o mês e a hora / A força, a arte, a manha, a fortaleza /O tempo acaba a fama e a riqueza / O tempo o mesmo tempo de si chora / O tempo busca e acaba o onde mora / Qualquer ingratidão, qualquer dureza / Mas não pode acabar minha tristeza / Enquanto não quiserdes vós, Senhora”. Proust estava lá, mas não disse nada. Ainda não havia lido as três mil páginas de “Em busca do tempo perdido”.

Como antes, as paredes soavam: “E o tempo se rói / Com inveja de mim / Me vigia querendo aprender / Como eu morro de amor / Pra tentar reviver”. Foi quando o tempo resolveu falar, pela última vez:

– Vocês são muito pessimistas. Reclamam o tempo todo porque eu causo a morte. Já disse que não é verdade. Mas, se for, eu também entrego a vida, o progresso, o fim das guerras, uma carreira brilhante, a realização dos filhos, a culminação de um grande amor. Trarei a Raquel para Jacob. Serei infinito enquanto dure o amor de Vinícius. Talvez até consiga convencer a mulher sonhada por Augusto a aceitá-lo, enfim. Esqueçam a morte. A morte é um momento fugaz; mesmo o envelhecimento e a perda de vigor só por exceção demoram muito a passar. Comparativamente, a vida é uma eternidade.

Espremido atrás da cristaleira, ouvir as queixas do tempo me doeu muito, mas, a verdade é que ninguém mais prestou atenção àquele discurso. Tanto que a conversa continuou igualzinha como estava antes de o convidado principal dizer aquelas coisas e se retirar. – “O tempo escoa rápido”, falou Nélida Piñon, talvez, querendo animar o pastor Jacob. Ela disse mais: “Não tenho como atrasar ou adiantar o meu destino. Embora capitaneie certas emoções, um sobressalto me vence. Tem o nome de quem amei”. Dostoievski abanou a cabeça, concordando. Dirigindo-se a um interlocutor imaginário, ele lamentou: – “Como os anos passam depressa! Que fizeste durante esse tempo? Chegaste realmente a viver, ou não?”

A reunião terminou, mas a discussão prosseguiu na calçada. – “Há em mim um velho que não sou eu”, dizia Otto Lara Resende; – “Não é que eu tenha medo de morrer. É que eu não quero estar lá na hora em que isso aconteça”, falava Woody Allen; – “Viver muito tempo significa sobreviver a muitos entes amados, odiados, indiferentes”, era a opinião de Goethe; – “Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas”, resmungava Brás Cubas, aliás, Machado de Assis. – “Há muito tempo que não sou eu”, saiu falando para si mesmo o fabricante de enigmas, Fernando Pessoa.

Só quando já não havia mais ninguém na sala eu me arrisquei a sair de trás da cristaleira. Passara por uma experiência inolvidável, como diria um cantor de boleros. Nos dias seguintes, pensei sobre tudo que ouvira. Conclui que poetas e romancistas muito têm a dizer sobre o tempo. Eles falam do sentimento que o tempo lhes inspira, sobre as marcas físicas e psíquicas que acompanham a passagem dos anos. Por isso, achei as palavras do tempo especialmente marcantes. Elas me lembraram do que eu havia lido há muito tempo em Bertrand Russell: – “Acredito que, quando morrer, eu apodrecerei e nada em mim sobreviverá. Não sou jovem e amo a vida. Mas desdenharei os calafrios do terror ao pensamento da aniquilação total. A felicidade não é menos verdadeira porque deve necessariamente chegar a um fim; tampouco o pensamento e o amor perdem seu valor por não serem eternos”. Mas, Bertrand Russell não foi convidado para o encontro com o tempo. Nem o cantor de boleros. Fizeram falta.

6.   As religiões e o tempo

O que é o tempo, tal como percebido pelas religiões? Um interminável suceder mais de medos que de esperanças; mais de fantasias alucinadas que de tentativas racionais de entender o mundo; mais de mortes que de vida. Há exceções, sim. A mitologia grega não foi fundada em ódios ou em terror, e sim nas incríveis e variadas histórias de vida de seus deuses, muitos deles pervertidos. Deliciosamente pervertidos. Mas os hebreus, por exemplo, decidiram não seguir caminho parecido. Ao invés, inventaram um tirano único para comandá-los. (Nem sempre com grande êxito.) Os cristãos e os muçulmanos tomaram de empréstimo essa ideia infeliz. Onde devia haver um emaranhado de deuses, cada um com personalidade fabulosa e atribuições arrepiantes, essas religiões monoteístas preferiram estabelecer mitologias mal-humoradas, com enredos pobres, de submissão a um deus supostamente todo-poderoso. Quem entende mais do tempo, já que é do tempo que estamos falando? O Tupã dos tupis-guaranis, que troveja impressionantemente com grande frequência, ou o desenxabido deus cristão, que ninguém sabe onde mora e nunca aparece?

O tempo é tratado nas religiões de dois modos principais: nas histórias da origem do respectivo povo e na descrição de seus deuses. Todos os grupos humanos têm seus mitos da criação. Eles narram o início e, às vezes, também o fim da história do mundo, que tanto pode seguir o tempo mítico, em círculos, como o linear, unidirecional. Nesse último caso, o relato tipicamente se inicia numa posição zerona linha do tempo e tem a duração que se estende até os dias atuais (ou até os últimos dias de existência daquele povo). Os mitos de criação representam testemunhos importantes de como cada sociedade humana percebeu o tempo nas suas cinco dimensões: posição, ciclo, duração, mudança e movimento.

O Gênesis narra a criação do mundo segundo os judeus e, mais tarde, também os cristãos: o trabalho todo durou seis dias. Na Grécia antiga, Gaia, deusa da Terra, é a criadora do planeta. Nascida de Caos, é creditada por ter organizado o Cosmos e criado a harmonia. Na cultura mesoamericana dos maias, os deuses criaram a terra, o céu e os animais. Como achassem que faltava alguma coisa importante, pois queriam ser adorados, engendraram seres falantes. Na África Ocidental dos iorubás, Orunmila, deus das profecias e do destino, fez com que Obatalá trabalhasse durante quatro dias para construir Aiyê, o mundo que temos, com suas montanhas, campos e vales. O mito da criação dos aborígenes australianos reza que, no início, o mundo estava nu e frio. Havia, contudo, uma serpente dormindo embaixo da terra com todos os animais na barriga. Um dia, ela vomitou aquilo tudo e o mundo foi criado. Para os astecas, no atual México, no princípio, tudo era escuro e sem vida. Houve uma reunião dos deuses, a fim de determinar qual deles iria criar o mundo. Terminaram chegando a um acordo: dois pularam numa fogueira e se transformaram no Sol e na Lua. Foi um começo. Ao longo do tempo e nos espaços dos lugares, há muitas outras histórias desse tipo.

Mas, não apenas os mitos da criação; também os deuses inventados por cada povo incorporam e, de certa forma, eternizam aspectos da concepção humana do tempo. Os deuses estão em toda parte; os deuses do tempo, também. Sobretudo, os deuses do tempo no sentido de clima e de fenômenos meteorológicos. O tempo-espetáculo, como o chamarei aqui. No Egito antigo, havia Quespisiquis, que se relacionava com a Lua. Ele e Tote representavam a passagem no tempo. No hinduísmo, há Shiva, o destruidor, também um deus do tempo. Ele cura doenças com ervas medicinais e representa a renovação. Na mitologia grega, existiam dois deuses do tempo: Cronos, que se refere ao tempo quantitativo, marcado pelos dias e as horas, e Kairós, o deus do tempo oportuno. Saturno era o deus romano identificado com o grego Cronos. A trindade maia pós-clássica é integrada por deuses do tempo que representam a morte, o “mais novo raio” e o “raio repentino”. Na Mitologia Nórdica, Frey é um deus belo e forte, senhor do tempo, da prosperidade, da fertilidade, da alegria e da paz.

Na África subsaariana, encontramos Umvelinqangi, deus do trovão; Mbaba Mwana Waresa, deusa da chuva (ambos da mitologia Zulu); Oya, o orixá iorubá dos ventos, tempestades e ciclones; Bunzi, deusa da chuva (mitologia do Congo). No Oriente Médio, Ba’al, deus cananeu da fertilidade, clima e guerra; Hadad, o deus cananeu e cartaginês da tempestade, da fertilidade e da guerra. No Egito antigo, havia Hórus, o deus da tempestade, do sol e da guerra, personificado no faraó; existia ainda Set, também deus da tempestade e senhor do deserto. Na Assíria, havia Adad, deus da tempestade; na Babilônia, Marduk, deus da água, vegetação, julgamento e magia.

Não citei as fontes de onde tirei essas informações, mas a Wikipedia é responsável pela quase totalidade delas. Há, também, um site estranho, o Stringfixer, que tem muitas informações sobre os deuses do tempo. Eu poderia estender a relação quase indefinidamente, mas não é o caso de o fazer aqui. Por meio das mitologias, as pessoas humanas expressam seus medos, suas aspirações, sua sede de conhecimento. O tempo – sobretudo o tempo-espetáculo, que se manifesta em raios, trovões, tempestades, enchentes, nevascas, frio intenso, calor insuportável – é assunto para os deuses. Os mitos não inventaram o tempo, nem o cronológico, mais calmo e previsível, nem o meteorológico. O tempo existe, para os criadores e cultores dos mitos e divindades, como uma realidade externa que demanda não apenas compreensão, mas, sobretudo, apaziguamento.

7.   Aristóteles descobrirá o tempo?

Um supercomputador dotado de inteligência artificial, ao qual fossem negadas quaisquer informações sobre o tempo, seria mesmo assim capaz de descobri-lo ou de inventá-lo? É uma pergunta que fiz na abertura deste tubo de ensaios e que agora tentarei responder por meio de um experimento. Um experimento hipotético, claro, como aquele da caverna autossuficiente, pois meu computador pessoal nem é super, nem muito inteligente.

Suponha – passo a descrever o experimento – que o mais poderoso e rápido computador existente foi ensinado a se comunicar em português com seus interlocutores humanos. O observador de fora pode lhe fazer perguntas a qualquer momento – ele responderá em português. Se não souber a resposta, dirá “não sei”. Por seu turno, a máquina pode também inquirir seus operadores, assim como enviar relatórios a respeito das informações que lhe foram passadas.

Essa forma de comunicação foi possibilitada pela inserção das estruturas básicas e das regras gramaticais da língua na memória eletrônica do supercomputador. Em seguida, todas as palavras com as respectivas definições lhe foram comunicadas. Todas, não. Todas, exceto as que possuem conotações com a ideia de tempo. Ele tem um tradutor embutido em seus circuitos impressos, de modo que pode estabelecer equivalências entre informações escritas em qualquer língua. A esse supercomputador de quem espero que descubra ou invente o tempo – se puder – darei o nome de Aristóteles. Ele sabe onde está, com uma precisão de GPS de última geração: as noções de e as informações sobre espaço não lhe foram suprimidas; só as relativas ao tempo.

Há outro computador no experimento, tão poderoso quanto o primeiro, que exercerá o papel de alimentar Aristóteles com terabites e maisterabites de informações sobre tudo e mais alguma coisa: a relação de devedores do imposto de renda, dentre os quais não me incluo; todo o noticiário passado e presente dos jornais do mundo; a “Encyclopedia Britannica”inteira; a genealogia dos mórmons e dos não mórmons; as apostas feitas desde que a Mega-Sena foi instituída; e tudo o mais que você queira imaginar. Mas, com uma ressalva: dessas informações serão extirpadas as alusões, mesmo que remotas, ao tempo, ao movimento, à duração dos eventos, a datas, a velocidades, a essas coisas que a raça humana foi descobrindo nas suas caçadas primevas, até o dia em que um tricentésimo avô de Arquimedes exclamou: – “Heureca! É o tempo!”

A esse segundo supercomputador, responsável pela censura, darei o nome de Armando Falcão, em referência ao ministro da Justiça na ditadura pós-1964, que era muito bom em apagar o trabalho dos outros. A tarefa do supercomputador número dois é, entretanto, bem mais difícil do que foi a de seu homônimo humano. Dou um exemplo, em milhões de outros possíveis: a primeira estrofe do hino nacional brasileiro (assim como as quatrocentas outras) foi, naturalmente, informada a Aristóteles não em sua redação original, mas na censurada. Ficou assim: “(…) do Ipiranga as margens plácidas / De um povo (…) o brado retumbante / E o (…) da liberdade, em (…) fúlgidos / (…) no céu da pátria nesse (…)” O censor eletrônico suprimiu as palavras “ouviram” (remete ao passado), “heroico” (implica façanhas já realizadas), “Sol” (nem preciso falar por que), “raios” (aparecem em um instante e desaparecem no instante seguinte); “brilhou” (também é algo que aconteceu antes de hoje) e “instante” (essa, como vimos, é uma das dimensões essenciais do tempo). Houve uma dúvida sobre “retumbante”, mas Armando Falcão a deixou passar.

Além da capacidade de falar português, Aristóteles teve implantado em seus circuitos algo como um instinto de sobrevivência. Os programadores incutiram nele a noção de perigo, alertaram-no para as ameaças à sua integridade que poderia ter de enfrentar, e lhe disseram que ele tinha de evitá-las a todo custo. Por exemplo: foi-lhe dito que temperaturas abaixo de 20 ou acima de 30 graus centígrados dele próprio ou do ambiente circundante, provocadas por escassez ou excesso de atividade ou por qualquer outra causa, o destruiriam. Se, de algum modo, ele sentir que essa ameaça existe, deve se desligar. A ideia foi lhe permitir, com esse gesto, dar ao mundo exterior uma informação a respeito da qual seu vocabulário truncado o poderia impedir de expressar verbalmente. Havia, entretanto, um propósito mais fundamental. No instante em que Aristóteles vier a perceber que a temperatura ao seu redor está na iminênciade cair abaixo dos 20 ou de superar os 30 graus – sendo qualquer dessas possibilidades uma razão imperiosa para o desligamento – ele terá provado que descobriu o tempo.

A zero hora do dia 4 de maio de 2022, o experimento começa. Todas as informações disponíveis até aquele momento são passadas para Armando Falcão, que as transmite, em seguida, para o outro computador, mas só após censurá-las da forma indicada. A operação toda demora dez segundos, medidos pelo nosso relógio, pois o computador desconhece o que seja duração. Aristóteles cria um sistema classificatório que lhe permite arrumar os dados ou pacotes de dados recebidos como se os estivesse distribuindo pelas prateleiras de um grande armazém. À medida em que recebe cada conjunto de informações (o processo, não obstante sua incrível rapidez, não é instantâneo), o supercomputador dá-lhe um nome ou número que corresponde ao seu lugar na prateleira e faz o processamento das informações. “Processar informações”, nesse contexto, significa desde realizar operações banais – por exemplo, contar quantas vezes o nome Silvio Santos aparece nos arquivos – até fazer cálculos mais sofisticados, como correlacionar a riqueza do pastor Edir Macedo com as atividades da Polícia Federal. Em particular, os pacotes de jornais que lhe foram transmitidos na ordem cronológica (embora ele não pudesse saber isso, pois não tinha a noção de tempo) Aristóteles os arrumou um ao lado do outro, como numa imensa fila.   

Observando as filas que se formam na sua mente eletrônica, ele cria o conceito de sucessão. Não a sucessão cronológica, mas a espacial: quem está junto de quem, quem é vizinho de quem, à direita ou à esquerda. As filas também podem ter, ou não, um sentido, fornecido pela aritmética. (Ou, mais sofisticadamente, pela análise estatística.) Exemplo de sucessão espacial com sentido é a sequência de pacotes numerados 32, 33, 34, 35. Para séries semelhantes, o supercomputador é capaz de “prever” que o vizinho à direita do 35 é o 36. Note que essa previsão é tautológica apenas enquanto (ele não sabe o que é isso, nós sabemos) Aristóteles está dando nome a cada novo pacote que recebe. Depois de o nome ser dado, isso passa a ser uma atribuição daquele pacote específico (também vou chamá-los de “montinhos”, pois há muitos jornais do mesmo dia em cada pacote). Dessa maneira, se o pacote 35 for deslocado para a extrema esquerda da fila, ele continuará a ter o mesmo número. Sendo assim, se os pacotes todos forem embaralhados, gerando sucessões do tipo 28, 365, 12, 222, Aristóteles já não consegue “prever” o número do pacote vizinho do 222, pois a sucessão 28, 365, 12, 222 não obedece a nenhuma lógica ou regra. Aristóteles desconhece o tempo, mas memoriza as informações de acordo com a ordem em que elas lhe são passadas. É por isso que consegue atribuir números 1, 2, 3 … aos sucessivos pacotes que recebe.

Onze segundos após a zero hora do dia 4 de maio de 2022, ou seja, apenas um segundo depois de ter acabado de receber todas as informações que lhe seriam passadas naquele dia, Aristóteles se desligou. O espanto foi geral. Trataram de religá-lo, para saber por que razão havia adotado aquela medida drástica de defesa. Ele respondeu assim:

– Noto que há informações sobre temperaturas em vários lugares. Aciono meus instrumentos de análise estatística para que explorem os pacotes de jornais e eles me respondem que a sucessão de temperaturas neste lugar onde estou é: 21, 22, 23, 24, 25, 26, 27, 28, 29 … Aí, eu desligo, porque o número vizinho do 29 é 30”.

– “Idiotas, somos todos idiotas!”, gritou o chefe do experimento, falando para seus colegas. Foi uma estupidez repassar as informações em ordem cronológica. Pois apaguem tudo o que estiver na memória de Aristóteles. Transformem-no de novo em um completo ignorante. Desta vez, vamos fazer a coisa certa.

“A coisa certa” era, naturalmente, alimentar Aristóteles com os mesmos “montinhos” de jornais, um para cada dia, mas agora dispostos em ordem aleatória, tudo misturado. Na próxima rodada do experimento, portanto, que começou a zero hora do dia 5 de maio de 2022, ele leu, no primeiro milionésimo de segundo, os jornais do dia 5 de novembro de 1872, e no milionésimo seguinte, os de 4 de maio de 2022. Os outros pacotes lhe foram transmitidos assim, sem seguir qualquer regra lógica ou cronológica. Conforme estava previsto de ser feito também no experimento frustrado (não houve tempo para tanto, como vimos), se não tivesse descoberto o tempo antes disso, a zero hora do dia 6 de maio de 2022, Aristóteles seria alimentado com as notícias relativas aos acontecimentos do dia anterior, conforme publicadas em todos os jornais do mundo.

Um dia inteiro passou. Até a meia-noite, os cientistas operadores interrogaram Aristóteles várias vezes, para averiguar se ele estava fazendo progressos na descoberta do tempo. Não lhes pareceu que sim. – “Ele jamais vai conseguir, jamais!”, vociferava um. – “Vai, sim; vai, sim”, retrucava o outro, tão otimista que chegava a torcer pelo Santa Cruz. Depois de exatas 24 horas desde o início desse segundo experimento, o computador não havia descoberto o tempo. De modo que, a zero hora do segundo dia, como estava programado, lhe foram transmitidas as notícias do dia recém-findo. E outra vez, apenas um segundo após terminar de receber as novas informações, Aristóteles se desligou. Na sala de controle, houve uma explosão de alegria. O torcedor do Santa Cruz gritava pelos corredores; o outro, o pessimista, apesar de tudo, também estava contente.

Os cientistas levaram quase um ano para decifrar como, pela segunda vez, Aristóteles tinha descoberto o tempo. Concluíram que havia se passado o seguinte. Dentre os bilhões de cálculos e operações feitos pelo computador, um consistiu em perguntar a cada montinho de jornais quais os nomes que mais apareciam nele – e com que frequência. Os resultados foram disparatados. Havia pacotes onde Pelé era o mais votado. Tipicamente, nesses também apareciam com grande frequência as palavras futebol, Copa do Mundo, Maradona, gol, juiz, Nilton Santos, Garrincha e Maracanã. Em outro conjunto de pacotes, os nomes mais populares eram guerra, Stalin, Stalingrado, Churchill, Hitler, tanque, submarino, batalha, avião.

O passo seguinte consistiu em verificar se os conjuntos onde havia alta frequência das palavras “guerra etc.” eram os mesmos nos quais “futebol etc.” também apareciam muito. Não eram. Nós sabemos por quê: durante as grandes guerras, não houve futebol. Mas, Aristóteles não sabia. Mesmo assim, ele concluiu que havia uma diferença entre os montinhos “guerra etc.” e os “futebol etc.”. Era como se os dois conjuntos de montinhos viessem de universos separados, um ocupando um espaço; outro ocupando outro espaço. Isso, entretanto, não o ajudou em nada a descobrir o tempo. Um segundo exercício, entretanto, até que ajudou. Note que, tanto os pacotes ou “montinhos” componentes dos conjuntos “guerra etc.” como os de “futebol etc.”, assim como os de qualquer outro conjunto, podem ser ordenados internamente de acordo com a frequência maior ou menor com que as palavras listadas aparecem neles. Nós sabemos (Aristóteles, não) que esse ordenamento interno apresentará resultados que guardam relação com a cronologia. Mas, não uma relação perfeita. E isso pode gerar confusão.

Explico. Considere, por exemplo, o nome Hitler. Ele, provavelmente, apareceu pela primeira vez em um jornal no ano de 1919, quando Adolf tornou-se membro do Partido dos Trabalhadores Alemães. A partir daí, nos meses e anos seguintes, a frequência respectiva cresceu a taxas crescentes, até atingir um pico em maio de 1945, após o que o nome Hitler vai aparecendo cada vez menos, até quase ser esquecido pelos jornais, digamos, em 1970. (Estou exagerando, para facilitar a explicação do ponto que me interessa fixar.) Portanto, quando ordenou os seus montinhos de jornais de acordo com a frequência com que o nome Hitler aparece neles, Aristóteles primeiro conseguiu – sem saber disso – reproduzir uma sequência cronológica (de 1919 a 1945) mas, depois, viu sua quase descoberta do tempo ser anulada pela continuação da série. Isso porque, após o fim da guerra, falou-se cada vez menos em Hitler. Para a ordenação dos montinhos feita por Aristóteles com base na frequência de aparecimento desse nome, os anos de 1919 e 1970 não se distinguem. Desapareceu, portanto, a cronologia.

O fato é que, repetindo aos bilhões operações como essas de selecionar palavras, verificar sua incidência, agrupá-las em conjuntos e compará-los entre si, Aristóteles terminou sendo capaz de enxergar uma ordem nos pacotes de informações de jornais que lhe haviam sido passados. Mas, não era uma ordem cronológica. De modo que, quando ele levantou a sucessão de temperaturas do lugar onde estava, os números que apareceram foram: 28, 23, 26, 24, 21, 27, 25, 22, 29. Como não pode “prever” o vizinho de 29, pois essa série não tem um sentido, ele não se desligou. Durante um dia inteiro, o supercomputador ficou trabalhando com as informações que recebera no pacote original. Fez progressos, segundo os cientistas que observavam seus cálculos, mas estava longe de descobrir o tempo. Então, a zero hora do dia 6 de maio de 2022, as notícias do dia recém-findo (no mundo exterior, não no seu, um mundo sem tempo) lhe foram transmitidas. E aí, como eu já disse, em um segundo, ele matou a charada e se desligou.

É que Aristóteles havia perguntado aos novos arquivos de jornais que nomes apareciam neles com maior frequência. Bem, esse é um dado verdadeiro: as pessoas atualmente mais populares nas redes sociais do mundo, com os respectivos números de seguidores, em milhões, são Cristiano Ronaldo (307), Justin Bieber (277), Taylor Swift (262), Selena Gomez (249), Katy Perry (241), Rihanna (222), Ariana Grande (206), Shakira (195), Kim Kardashian (194) e Beyoncé (186). No pacote de notícias fornecido a Aristóteles na segunda alimentação, ou seja, nos jornais do dia 5/5/2022, eram também esses os nomes que mais apareciam. O que o computador fez, em seguida, foi identificar qual era o montinho, dos que já lhe tinham sido fornecidos no dia anterior, que continha o maior número de vezes esses mesmos nomes. Necessariamente (embora ele não pudesse saber disso), este montinho correspondeu a uma data muito próxima de 5 de maio de 2022, ou seja, o dia de referência dos jornais que lhes haviam sido dados a conhecer naquele momento.

Identificado esse “montinho nº 2”, o supercomputador obteve os nomes que nele (no pacote nº 2) apareciam com maior frequência. Repetiu o exercício, encontrando o montinho nº 3, que também correspondia a uma data muito recente. E assim por diante. Depois de cinco mil rodadas, os nomes Cristiano Ronaldo, Justin Bieber, Taylor Swift etc. já haviam desaparecido. Outros lhe tinham assumido o lugar. O exercício continuou a ser feito até o último pacote de notícias. Ao término da operação, os montinhos tinham sido dispostos numa ordem muito aproximadamente da cronológica, mas invertida, ou seja, começando com as datas mais recentes e indo até as mais remotas. Quando, afinal, Aristóteles perguntou pelas temperaturas ao seu redor, recebeu esta informação: 29, 28, 27, 26, 25, 24, 23, 22, 21 … “A vizinha de 21 é a 20”, pensou. Aí, ele se desligou. De novo, tinha descoberto o tempo. Um tempo estranho, reconheço, pois, em vez de andar pra frente, anda pra trás. Mas, não deixa de ser o tempo.

Cabe fazer umas poucas reflexões a respeito dos resultados desse experimento.

(1) Apesar das expectativas de seus programadores, em nenhum momento Aristóteles, realmente, procurou “o tempo”, uma entidade, ou relação, ou coisa, ou referência da qual ele nunca ouviu falar e nem suspeita da existência. Todo o seu raciocínio é espacial. A ameaça que detectou e que o fez, seguindo as instruções, se desligar, não foi a iminênciados 20 graus, pois a palavra iminência (e o respectivo significado), claramente relacionada a tempo, lhe foi suprimida do vocabulário por Armando Falcão. O que ele sentiu foi a proximidade (no espaço) da temperatura mínima que ele seria capaz de tolerar. “Isso aqui é 20 graus”, pode ter sido seu pensamento. “Vou desligar para não ser exterminado”. Na verdade, faz pouca diferença. Percorrendo o espaço que sabe o que é, Aristóteles encontrou o tempo, que continua a desconhecer. Para sempre? Talvez, não. Sua inteligência vai incorporar o episódio do desligamento aos seus processos de aprendizagem. Quem sabe, da próxima vez, ele descubra mesmo o que significa alguma coisa estar na iminência de acontecer. Inventará um nome para ela. Santa Cecília? Aí, sim, ele terá começado a descobrir o tempo.

(2) Ao contrário dos homens e mulheres primitivos, que descobriram o tempo vivenciando uma sequência de situações concretas no mundo real, o Aristóteles eletrônico só teve acesso a pegadas simbólicas do tempo, por assim dizer. Ou seja, a sinais produzidos pelos humanos, como a popularidade de Cristiano Ronaldo, que hoje é, ontem não foi, amanhã não será; a incidência conjunta de citações aos políticos e aos episódios principais da II Guerra Mundial, que também descreve uma curva (nenhuma citação, poucas citações, muitas citações, poucas citações, nenhuma citação) e coisas desse tipo. Foi apenas por isso, por vislumbrar o tempo de modo tão indireto e tão culturalmente condicionado, que o supercomputador terminou por descobrir um paradoxo: o tempo andando para trás.

(3) Falei muito em Aristóteles, mas agora me ocorre que o papel de Armando Falcão no experimento também foi importante e, talvez, permita uma analogia com a experiência humana. Embora nossa cultura facilite a assimilação da realidade – já mencionei antes que é muito mais fácil para as crianças de hoje do que para as dos primeiros tempos pré-históricos adquirirem a noção do tempo, devido a serem elas “ajudadas” pelo conhecimento acumulado por seus pais – também é verdade que alguns aspectos dessa mesma cultura atuam como bloqueios ou censuras ao conhecimento do mundo exterior.

Em nenhuma construção cultural isso é mais claro do que nas mitologias religiosas. Posso falar com certo conhecimento apenas da cristã ou, mais particularmente, católica. Se não houvesse os tapumes culturais à apreensão da realidade, para dar um exemplo, qualquer criança de dez anos perceberia com clareza o que há de ridículo na proposição de que um padre, após pronunciar umas palavras rituais, transforma um pedaço de pão e uma taça de vinho no corpo e sangue de um indivíduo morto há dois mil anos. Num plano mais complexo, e não religioso, os cientistas demoraram mais tempo do que talvez tivesse sido necessário para entender melhor o tempo por estarem, até o começo do século XX, circunscritos à Física newtoniana. Não estou dizendo que Newton tenha sido um Armando Falcão, pois o inglês, ao longo dos séculos, abriu muito mais portas à compreensão do mundo do que as fechou. Já do padre não posso dizer o mesmo.

8.   Viagens ao passado e ao futuro

As viagens ao futuro, que a Física da Relatividade admite serem possíveis, e ao passado (que, podemos imaginar, um dia também o serão) tornar-se-ão tão baratas quanto um passeio de metrô? Que consequências terá isso? Essas são algumas das perguntas que pulularam no início deste tubo de ensaios. Uma delas, responderei “por hipótese”, ou seja, supondo que, sim, as viagens ao passado e ao futuro se tornarão acessíveis a qualquer pessoa. A outra – a das consequências desse barateamento geral – receberá mais atenção, ainda que apenas metaforicamente.

Como, nesse mundo pressuposto, qualquer um pode visitar eras pretéritas e voltar para seu tempo, eu fui à Londres de 1888 e lá matei uma das prostitutas que se acredita terem sido assassinadas por Jack, o estripador. Não foi necessário mudar a História por causa da minha ação transgressora. O crime aconteceu, de fato, como sempre se soube. Apenas seu autor era desconhecido – e continua a ser, exceto por mim. Imagino que Jack tenha lido a notícia nos jornais do dia seguinte, se aborrecido com ela, e comentado, de si para si: – “Agora sou culpado de tudo, é?”

Eu estava contente em ter relatado esse caso aos leitores e já ia passar para outro, quando me dei conta de certos perigos. Por exemplo: se viajar contra o tempo ficou assim tão barato, muitas outras pessoas hão de ter tido a mesma ideia e também visitado as madrugadas londrinas no ano em que Jack estava em plena atividade. Pois foi isso mesmo que aconteceu com um vizinho meu, o Zeferino, que exerce a profissão de flanelinha nos arredores da Universidade Católica de Pernambuco. Ele não apenas estava em Londres naquela madrugada de 1888, como me viu matar a prostituta. Depois que ambos voltamos para o nosso presente, Zeferino passou a me chantagear.

Contratei um advogado, mas, mesmo assim, o flanelinha me denunciou à polícia, em 2022, pelo crime que eu havia cometido em 1888. Quando Strong, o delegado de plantão naquela noite, acompanhado por Zeferino, tentou me levar preso, eu não neguei o crime. Propus desfazê-lo. Strong aceitou. Zeferino aceitou. Embarcamos os três no ônibus do tempo com destino a Londres e lá chegamos no comecinho da mesma madrugada durante a qual, em minha visita anterior, eu havia matado a prostituta e deixado que todos atribuíssem a culpa a Jack, o estripador.

Permanecemos os três juntos todo o tempo no quarto do hotel. Era esse o trato. Como, desta vez, eu não mataria ninguém naquela madrugada – eles seriam testemunhas disso – meu crime anterior seria apagado. Deixaria de ter existido. Voltaríamos para casa e a queixa contra mim seria arquivada. Fizemos tudo como combinado. Deu certo. Mas, uma semana depois, recebi uma conta altíssima do advogado a quem havia contratado para me defender. Ele ficou sabendo da minha segunda viagem e não gostou de eu haver feito um trato com a polícia. Paguei-o.

Ou seja, quando essas marchas e contramarchas intertemporais terminaram, Jack, o estripador ainda era acusado de crimes que não tinha cometido; um advogado havia ganho dinheiro sem fazer nada; Zeferino continuava a limpar vidros de carros estacionados em troca de umas míseras moedas; e eu me aferrava com o mesmo afinco ao sonho de alcançar fama contando histórias inverossímeis. A despeito de tanto progresso tecnológico, nada tinha, realmente, mudado nesse nosso mundo de viagens ao passado. Fiz outras, a mais importante das quais relato a seguir.

Dessa vez, fui à França de 1918 usando um buraco do tempo recentemente descoberto. Lá, encontro Hitler gravemente ferido numa trincheira alemã. Nessa ocasião, ele era apenas um soldado, ou cabo. Fiquei duas semanas lhe fazendo companhia no hospital e, nesse tempo, consegui convertê-lo à minha fé vegana, que, entre outras coisas, abomina as guerras. Satisfeito, peguei o buraco de volta, desembarquei no Recife, em 2022, e conheci um mundo totalmente diferente do que existia antes de minha viagem ao passado. Há um século não havia guerras, ninguém ouviu falar em Holocausto, nem bombas atômicas foram lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki. Um mundo onde o Náutico é campeão pernambucano de futebol há dezoito anos. Nele, estou cercado de muitas pessoas desconhecidas. Talvez, porque elas jamais teriam existido, se não fosse a conversão de Hitler à fé vegana, que acontecera por minha causa.

Mas, esse mundo novo que encontrei ao voltar de minha visita às trincheiras da Primeira Guerra durou poucos minutos. Logo após eu me enfiar no buraco do tempo, em direção ao passado, um amigo meu fez a mesma viagem para o mesmo tempo e o mesmo lugar. Não nos encontramos lá, entretanto. Ele também viu Hitler agonizar, com a cabeça estraçalhada por um tiro de fuzil. Providenciou para que o ferido recebesse assistência médica e, em razão disso, o futuro ditador foi salvo. Hitler até ganhou uma medalha por ato de bravura, ocorrência de que ele se valeu na sua marcha para se tornar, a partir de 1933, o líder supremo do Terceiro Reich. Em seguida ao ato que salvou a vida de Hitler, esse meu amigo fez a viagem de retorno a 2022 e ao mesmo bairro onde nós dois moramos. Isso tudo ele me contou imediatamente após o nosso reencontro.

No exato momento em que ele terminou de relatar sua viagem, tudo voltou a ser como antes, no nosso mundo de hoje. Não apenas ele, também eu e as demais pessoas sabíamos que tinha havido a Segunda Guerra, o Holocausto, Hiroshima. Além disso, estavam nos livros de História e nos jornais do dia a derrota do Brasil para o Uruguai em 1950, a Guerra da Coreia, a independência da Argélia, a Primavera de Praga, a agressão de Putin à Ucrânia. Ao notar que tudo havia mudado, retornando ao que tinha sido antes de minha viagem, perguntei de novo ao meu amigo o que ele havia feito nas últimas horas. Ele me disse que, depois daquela festa cheia de drogas a que nós dois tínhamos ido na noite passada, ele acordara muito tarde, sentindo insuportável mal-estar. Tomou uma dose dupla de analgésicos e acabara de se levantar da cama para comer alguma coisa na padaria mais próxima quando me avistara. Era tudo o que tinha para contar.

Depois desses contratempos, mudei de preferências e passei a fazer viagens ao futuro. Havia pacotes bem em conta que prometiam visita a um futuro próximo, apenas dois anos à frente. Era assim: uma pessoa ficava um ano em órbita espacial, a uma velocidade espantosa e, quando desembarcasse de volta ao planeta, aqui se teriam passado dois anos. Imaginei, ingenuamente, que não tendo vivido na Terra (nem em lugar nenhum) durante doze meses seguidos, não precisaria pagar o imposto de renda correspondente a este ano. Já seria um alívio. Mas a Receita Federal impugnou minha declaração de ajuste e estou agora tendo de arcar com dois boletos que vencem em cada mês.

De todo modo, não achei nenhuma graça nessas viagens “dois-anos-em-um”. Quando a gente volta, vê que o país continua tendo os mesmos problemas de sempre e os nossos amigos ainda ficam a nos matar de inveja das farras que eles fizeram durante esse tempo, enquanto eu dava voltas malucas em torno da Terra, procurando não sei o quê. Nem de pagar impostos enquanto tive a existência suspensa me livrei. Agora estão anunciando uns pacotes que põem o viajante cem mil anos adiante no tempo. Aí pode valer a pena.

9.   Epílogo: a vingança

Li isso na “Internet Encyclopedia of Philosophy”: “No século XXI, os físicos que esperam reconciliar a relatividade geral com a mecânica quântica estão sugerindo que ou o tempo não existe ou não é de natureza fundamental. No entanto, a maioria dos filósofos concorda que o tempo existe. Eles simplesmente não podem concordar sobre o que ele é”. No site “Conversation”, encontrei o seguinte: “O tempo existe? A resposta a essa pergunta pode parecer óbvia: claro que sim! Basta olhar para um calendário ou um relógio. Mas, os desenvolvimentos na Física sugerem que a inexistência do tempo é uma possibilidade aberta que devemos levar a sério”.

Como o tempo – se ele existir, afinal – irá se vingar de tanta gente que vive a dar palpites sobre ele? Foi o que perguntei lá em cima, no começo do texto. (Existe um começo de texto? Existe texto? Existe começo? Existo eu? Existe o leitor? As opiniões estão divididas.) Não pretendo, nem saberia, discutir tais questões com profundidade, mas acho que este é o momento certo para fazer uma declaração de princípios. Considero que o mundo real, objetivo – aquele visível, tocável, cheirável, pesável, pensável, mensurável – tem precedência sobre a percepção desse mesmo mundo. Sendo assim, a ideia de que o tempo não existe fora de nossas cabeças me parece pretensiosa e insustentável. (Isso não exclui a hipótese de que a noção de tempo seja irrelevante para uma determinada classe de teorias científicas.) Ela tem, contudo, a hipótese de que o tempo não existe fora de nossas cabeças, um ponto a seu favor: mesmo que a realidade objetiva exista independentemente de ser, vir a ser ou jamais ter sido percebida pelas pessoas humanas, nunca teremos acesso direto a ela. Todo acesso que temos é intermediado por nossos sentidos, ampliados ou não por instrumentos e pelas construções de nossa inteligência, como as teorias científicas e filosóficas, a literatura, as artes plásticas, até mesmo as mitologias religiosas. Não percebemos o tempo em estado bruto, por assim dizer. Percebemos a percepção que temos dele.

Dito isso, acima, em tom mais ou menos sério, finalizo o presente tubo de ensaios contando uma história. A maior conferência internacional de Filosofia do Tempo jamais realizada teve lugar durante um verão excessivamente quente e seco na Califórnia, Estados Unidos. Isso nunca existiu, devo alertar, mas é como se tivesse havido. Foi gente do mundo todo. A Rússia mandou uma comitiva grande; a França, Inglaterra, Canadá, Noruega não ficaram atrás. Do Brasil seguiram quatro paulistas, dois catarinenses e um pernambucano. A Bahia não mandou ninguém. Já haviam começado a lavar as escadarias daquela igreja e os filósofos baianos não iriam abrir mão da festa por nada neste mundo.

Desde o início dos trabalhos, noticiava-se insistentemente que um grande incêndio florestal irrompera no Estado. Mas, longe do hotel onde estavam aqueles pensadores todos, cada um surpreendendo mais do que o outro com suas teses exóticas e inesperadas sobre o tempo. Ou melhor, sobre essa ilusão mental que as pessoas menos instruídas achavam que existia de fato, tanto que podia ser medida por relógios. – “Não é assim”, bradou um dos russos, Iuri Petrovich, que perdera a perna esquerda na guerra da Ucrânia, “essas medições não dizem nada. São parte da mesma peça teatral chamada de tempo”.

Os noruegueses pensavam do mesmo jeito: “O tempo não existe”. Os ingleses acrescentavam uma vírgula ao argumento, retiravam as exclamações desnecessárias, introduziam em seus textos a frase “God save the Queen”, mas, no final das contas, chegavam às mesmas conclusões. Assim como todos os outros filósofos. Os franceses, por exemplo, escreviam textos longuíssimos, povoados de neologismos e palavras compostas, tão complicados que nem mesmo seus autores os podiam entender. Ficava a impressão, contudo, de que eles também não acreditavam na existência do tempo. Nem do tempo cronológico, nem do tempo-espetáculo, representado pela erupção de vulcões, as enchentes, os raios e os trovões, entre outras coisas.

Para surpresa geral, entretanto, um senegalês, doutor em comércio interior, sempre comentava nos corredores não estar convencido de que o tempo não existia. Por causa disso, quando ele pediu a palavra, durante a palestra do russo com uma perna a menos, houve grande apreensão entre seus colegas.

– “Quando o senhor sofreu este acidente?” quis saber o senegalês.

Os outros filósofos suspiraram aliviados. Iuri Petrovich respondeu:

– Foi às nove horas da manhã do dia 23 de abril de 2022. Um dia terrível. Como eu poderia esquecer? Desde a noite anterior, o inimigo bombardeava nossa posição. Durante a madrugada, a cada minuto, o ataque se intensificava. Mal irrompeu o sol, os tanques ucranianos se puseram em marcha contra nós. Pensamos em fugir, mas não havia mais tempo para o fazer com segurança. Ficamos nas trincheiras. Resistimos durante duas horas e trinta e cinco minutos. Então, uma bala me atingiu. Perdi a consciência. Quando a recobrei, soube que passara oito horas entre a vida e a morte. E que haviam amputado minha perna estraçalhada pelos tiros do inimigo.

O senegalês fez um rápido comentário.

– Procure sua perna. Vai achá-la. Ela deve estar no mesmo lugar de sempre. Como o tempo não existe, nada disso aconteceu. Fique tranquilo.

Ninguém ouviu o fim da frase. Desde alguns dias, o vento mudara de direção e o incêndio florestal havia se aproximado do hotel onde os filósofos se reuniam. Quando o senegalês terminou de falar, as chamas já tinham invadido o auditório. Foi um alvoroço.

(Recife, 8 de maio de 2022)

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