Territórios incógnitos

Territórios incógnitos

Arte Rodrigo Braga

 

Apresentação Eduardo Jorge

 

O  corpo exposto à aridez nasce de um desejo de traduzir uma situação. A situação é paradoxal, pois é a dimensão biológica do corpo que a torna visível. Nesse sentido, as imagens de Rodrigo Braga (Manaus, 1976), ao supostamente expor uma condição demasiado humana, dá outros contornos para uma alteridade radical mais próxima da animalidade. A animalidade em questão está na própria exibição do corpo e no contato com um animal morto em torno da terra. Ela também se faz presente no gesto de reclusão, na tentativa de abandono da vida coletiva da cidade. Tudo isso colide em um movimento. No entanto, o movimento é duplo. Primeiro, a vontade do artista evidencia o ciclo biológico, quando morte e vida (na ordem do poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto) atuam na imagem como uma espécie de ethos trágico, atualizando a dimensão do memento mori, da Europa medieval. No entanto, essa forma latina do “lembra que morrerás” abandona um possível contorno moral e fabular para retomar os ciclos de transformação da matéria.

 

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“Comunhão” (2004) é um tríptico em que esse ciclo fica mais evidente. Se a morte atualiza o encontro, ela é o instante em que a secular separação entre homem e animal se torna frágil, justamente porque existe uma abertura à experiência do precário (o corpo-matéria), um acerto de contas ou uma festa silenciosa, cujo título “Comunhão” revela uma vida despida e comum. Do comum, Rodrigo Braga nos faz derivar para uma comunidade (homem, animal), que vive à margem da terra. O animal (o bode) possui uma simbologia densa, mística, telúrica. Porém, mais que uma carga simbólica, o que vaza da imagem é uma energia libidinal dos corpos, uma tensão erótica entre homem e animal, mais próximo do que pensava o escritor francês Georges Bataille, onde é possível dizer que o erotismo é a aprovação da vida até mesmo na morte. Bataille enfatiza essa dimensão erótica para ressaltar que a exuberância da vida não é estranha à morte.

 

Tudo aquilo que o corpo acumula torna a sua entrega mais generosa. Com esse princípio, qualquer ideia de fuga tende ao fracasso. O que o homem observa ao seu redor e o desespera também está dentro de sua cabeça. Isso nos remete a uma anotação de Georges Bataille em “A experiência interior”: “Mais adiante, a cabeça explode: o homem não é contemplação (ele só possui a paz, fugindo), ele é súplica, angústia, loucura.” Rodrigo Braga, enquanto artista, tenta fugir em um desejo eremita. Parte desse desejo está exposto em “Comunhão”. O contato com a terra, com um corpo que aos poucos esfria, é um princípio de abandono. Praticamente, uma entrega ao mundo natural. A entrega pode ser lida como um retorno. Uma tentativa de se religar à terra ou intermediar um espaço limite entre a vida e a morte. As três imagens de “Comunhão”, nesse sentido, podem ser lidas como estudos para se estabelecer uma fronteira, marcar uma passagem.

 

“Desejo eremita” (2009) busca uma experiência interior. Uma fuga do mundo. Ainda na esteira de Bataille, mesmo quando cessamos de fugir, trazem-nos a fuga. Quando nos trazem a fuga, um sentimento de comunidade é reiterado. Essa é uma das fortes experiências de “Desejo eremita”. O artista, achando que conseguiria se isolar do [seu] mundo em uma cidade do sertão pernambucano chamada Solidão, falha em seu projeto. É nessa falha que o trabalho acontece. Ele encontra uma comunidade que, mesmo o estranhando, auxilia seu isolamento. Se por um lado esse gesto da ajuda lhe retira a capacidade de ser eremita, por outro ela enfatiza o desejo, dando medidas diferentes ao próprio título do trabalho: ser eremita permanece desejo.

 

“Levamos em nossos pulsos moles o fuso anti-horário de tempos arcaicos” é o que escreve Rodrigo Braga no seu diário de “Desejo eremita”, em 2009. O artista lida com o tempo arcaico não apenas pela temporalidade do sertão pernambucano, pela distância em si, mas por evidenciar a animalidade, por tomar consciência dos ciclos da matéria e sua contínua transformação, por aceitar da comunidade sua fuga. As imagens de “Comunhão” expõem uma economia libidinal do corpo no mundo natural. Não se trata de simulação, mas da experiência de se expor ao perigo do desconhecido. Entregar o corpo a esse mundo não é mais apenas um exercício de abandono, mas uma tentativa [praticamente impossível] de mediar o imediato, quase um modo de provocar epifanias. Entre “Comunhão” e “Desejo eremita”, Rodrigo Braga se vale da sua condição de vivente para criar exercícios de imaginação. Com isso, suas imagens beiram aparições.

 

Poderíamos encontrar um desejo eremita na Pasárgada, de Manuel Bandeira, e até na imagem do “Cão sem Plumas”, de João Cabral de Melo Neto. Como anota Rodrigo Braga, “O Cão sem Plumas e sarnento agoniza como nunca”, o que nos levaria a um trabalho polêmico do artista intitulado “Fantasia de compensação”. Atendo-se resumidamente a essa obra, Rodrigo Braga sente na pele a vida de um cachorro doente. De algum modo, ele é esse cão e com isso se vale do estatuto da imagem fotográfica para se fundir de modo cirúrgico ao cão. Enfim, uma tentativa literal de comunhão. Tomando “Desejo eremita”, ousaríamos dizer que Solidão seria uma Pasárgada sem rei, negativa, em que  o artista vive uma economia baseada no gasto, no dispêndio de sua própria energia corporal: “Lá eu vou andar, andar e andar para gastar o suor acumulado por todo esse tempo nas minhas glândulas sebosas!”

 

Toda e qualquer tentativa de mediação exclui a transcendência das imagens de Rodrigo Braga, o que por outro lado não entrega suas obras ao estritamente documental. Entre ambos, o limite da epifania. Daí a ideia de recolher-se [no sertão, no deserto] como fizeram os santos. Pela ênfase a um ciclo biogeoquímico da matéria, poderíamos dizer que isso cria um teor que mescla forma e conteúdo, sintaxe e semântica, de tal modo que a experiência do artista que viaja se isola, está indissociável do artista que expõe, que é pura exterioridade após a realização das imagens. A coleção de experiências de Rodrigo Braga cria uma rede sensória encenada, cujo propósito é captar as nuances da contínua comunhão da matéria.

 

rodrigobraga.art@gmail.com

Rodrigo Braga se graduou em Artes Plásticas pela Universidade Federal de Pernambuco.

 

posedu@gmail.com

Eduardo Jorge desenvolveu, pela Bolsa de Produção Crítica em Artes Visuais da FUNARTE (2010), o trabalho intitulado

“Três ou mais usos do corpo na arte brasileira contemporânea” (Rodrigo Braga, Milena Travassos, Walmor Corrêa).

 

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